Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Política Brasileira de 2020 a 2026: Uma questão ética?

 Há 6 anos atrás escrevi neste blog um resumo de minhas impressões sobre a política no Brasil desde as manifestações públicas de 2013 até o governo de Jair Bolsonaro antes da pandemia: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/02/politica-brasileira-de-2013-2020-um.html

Estava claro o movimento de grandes capitalistas (mega empresários e pastores multimilionários) manipulando medos e anseios da população brasileira: a presidenta Dilma Rousseff foi deposta de seu cargo por uma acusação supérflua de "pedalada fiscal". Tais "pedaladas" praticamente são a mera gestão de dívidas, onde se escolhe quais devem ser pagas antes, e quais devem ser pagas posteriormente com multas: algo que vários outros presidentes e governadores realizaram ao longo da história.

O sucessor, Michel Temer, mudou os planos de governo, priorizando a iniciativa privada, beneficiando grandes empresários e desprezando a maioria do povo constituída pelas classes sociais mais baixas...

O presidente seguinte, Jair Bolsonaro, que ganhou as eleições se autoproclamando capitão e apoiado por uma campanha eleitoral repleta de acusações falsas sobre seus adversários políticos, faz uma gestão de demolição da infraestrutura do país: privatizou setores públicos derrubando a qualidade dos serviços oferecidos (casos como a venda da Eletrobras, de setores da Petrobras, desvio de verba do CAPS para comunidades terapêuticas privadas, liberação do uso de eletrochoque em pessoas com TEA/ autismo etc). Além deste desmonte de grande parte da estrutura básica nacional, o presidente neoliberal (capitalista) espalhou discursos de ódio, incitando preconceito contra mulheres, negros, indígenas, população LGBTQIA, exaltando ideias e símbolos nazi-fascistas e debochando de doentes terminais!! Sim, durante sua gestão a pandemia de Covid alcançou o Brasil fazendo centenas de milhares de vítimas e o tal presidente não só ridicularizou a situação, como também adiou a compra de vacinas, e criticou a utilização de tal meio de combate à doença, inventando alternativas mentirosas, sem comprovação científica e sem eficácia. Além disto tudo, o governo Bolsonaro criou emendas e o tal orçamento secreto, favorecendo deputados e senadores. Tal favorecimento deu mais poder a estes tipos de políticos ainda tão obscuros no Brasil: o poder de decisão aumentou nas mãos desta categoria de políticos que a maioria dos brasileiros ainda desconhece a importância! Por fim, a família de Jair Bolsonaro (filhos etc), esteve envolvida com variados casos suspeitos: alguns a serem investigados e outros notoriamente criminosos! A popularidade de tal líder neoliberal então foi abalada e ele perdeu as eleições seguintes para Luís Inácio da Silva (Lula) do Partido dos Trabalhadores, em 2022. Como se não bastasse tudo isto, o ex-presidente derrotado nas urnas, ao lado de alguns militares e de um grupo de manifestantes massa de manobra, planejou assassinar o vencedor das eleições presidenciais de 2022, o seu vice (Geraldo Alckmin) e o ministro da justiça Alexandre de Moraes. Os planos foram abortados, mas descobertos... e gerou consequências para o ex-líder conspirador.

Apesar de Lula assumir a presidência, havia um estrago feito na política brasileira e reverter isto não se mostrou exatamente fácil. O mandato do presidente de centro-esquerda foi de negociações atravancadas com deputados e senadores predominantemente neo liberais/ capitalistas e de certo fuzilamento de sua imagem: Muita coisa voltou ao seu "normal" no Brasil com a mídia fazendo cobertura enviesada a favor de medidas neoliberais (lucrativas para bancos, grandes produtores e mercados privados) e com a propagação de "fake news" pela internet à respeito da imagem de Lula, de suas políticas e de seus aliados no governo. Em resumo, devido a tais problemas, é possível assumir que pouco foi realizado no âmbito dos interesses coletivos e da infraestrutura do país durante o governo Lula. Claro que em tempos de animosidade e discursos emotivos, muitas pessoas poderiam questionar: mas Lula não erra? Todas acusações contra eles são falsas (fake)? Certamente ele comete erros, mesmo porque está no maior cargo executivo do país e negocia não só com políticos de um legislativo com predominância de partidos opositores a ele, mas também faz a mediação entre diferentes setores do país que às vezes tem interesses opostos e até conflituosos entre si. Referente às acusações ou possíveis crimes que Lula possa ter cometido, é assunto longo que ocorre também com vários outros políticos há muitos anos na política nacional e internacional. O que eu posso afirmar resumidamente é que recentemente Lula abriu o sigilo de todas as suas contas, enquanto seu opositor na atual corrida eleitoral, Flávio Bolsonaro, abriu o sigilo somente das contas de suas respectivas empresas, omitindo informações sobre suas transações particulares/ pessoais.

E eis que neste mês de outubro de 2026 foi realizada nova eleições: A maior quantidade de candidatos de direita (neoliberais etc) foi eleita no legislativo do Brasil e o candidato deste mesmo lado político, Flávio, filho do ex-presidente derrotado, ganhou o 1º turno na corrida à presidência contra Lula. 

Mas aqui cabe uma análise para além de números e para além de fatores meramente externos - uma análise filosófica e portanto, moral e ética da política brasileira desde a ascensão do "bolsonarismo". Este movimento ganhou força não só devido a interesses econômicos de determinados grupos ou devido a mera descrença em partidos "x" ou "y". Muita gente que votou na família nem alega ser "bolsonarista": principalmente em 2018, quando Jair ganhou as eleições utilizando-se da imagem de militar "contra a corrupção". O discurso contra a corrupção explodiu desde as manifestações de 2013 (contra o aumento do valor das passagens de ônibus e outras pautas posteriores) e embora pareça justo esconde uma grande imprecisão: Que corrupção? Uma resposta muito comum a esse tipo de questionamento é a que políticos enriquecem, serviços de qualidade não surgem, o poder aquisitivo/ econômico do povo fica estagnado ou diminui... Mas outra pergunta importante é quem enriquece? E quem são os responsáveis pelos problemas mencionados? ... aí o negócio começa a ficar difícil porque muitos dos insatisfeitos da população brasileira (não muito diferente da população de outros países), não quer saber!! Ou "quer saber", mas aceita o 1º acusado que vê como sendo o culpado pelos principais problemas do país, ou até mesmo como culpado por TODOS os problemas do país! Esta sede e/ ou aceitação por um grande culpado é um caminho fácil que não requer muito raciocínio nem estudo e o "grande culpado" é basicamente a imagem de um "super vilão" - não precisa ser real - só precisa ser um alvo fácil para se descarregar emoções negativas, frustrações etc. 

Existem muitos problemas nesta aceitação de super vilão do país bem como existe muitos problemas na divulgação de tais "informações" sobre grandes culpados pela corrupção no Brasil. Primeiro analisemos o lado que aceita a imagem de super vilões: Por ser um movimento que exige pouco ou nenhum raciocínio, ele facilmente afeta massas com pouco estudo e/ ou multidões que consomem mídias sensacionalistas sedentas por atenção (e dinheiro). Obviamente ele pode afetar outras pessoas por uma série de questões, afinal a sociedade é complexa, mas vamos seguir analisando o outro lado: Em segundo lugar então, há quem veja grandes oportunidades em difamar figuras públicas. Denunciar indivíduos com grande poder econômico ou financeiro envolvidos em atividades fortemente suspeitas ou impunes após cometerem crimes comprovados é uma coisa, mas criar "grandes vilões" é outra coisa. É a tática de criar inimigos e criar culpados fazendo acusações impactantes mas sem provas, unidas a um discurso que se aproxima de anseios do povo ou, ao menos, de anseios de alguns setores da sociedade. É uma tática utilizada por grande parte da mídia capitalista (emissoras de tv, redes sociais etc) há décadas. Remover um líder seja um ativista ou um político que lute por questões sociais como equidade, manutenção de serviços públicos essenciais ou distribuição de renda e condições dignas de vida, é de interesse para muita gente - multimilionários querendo acumular fortunas cada maiores, líderes religiosos intolerantes etc. É por isso que o bolsonarismo se espalhou tanto: significativa parte dos multimilionários não querem um governo de esquerda radical (socialista) nem de esquerda moderada (social democrata), pois preferem governos de direita moderada (neo liberais/ capitalistas) ou direita extremada (fascistas, nazistas, franquistas e, mais recentemente, trumpistas e bolsonaristas). Esta explicação resumida pode parecer omitir uma alternativa supostamente neutra na política (de "centro"), mas não há neutralidade de fato na política, pois quando decisões são tomadas, elas favorecem certos tipos de interesses e priorizam determinados setores da nação. Toda prática na política, assim como em outros assuntos, tem uma intenção por trás, e portanto uma finalidade que não é totalmente neutra. Então com o exemplo citado acima fica nítido que chamar o atual movimento de direita extremada no Brasil meramente de bolsonarismo é associar somente a família Bolsonaro aos interesses capitalistas e suas respectivos manipulações, quando na verdade ele é usado por multimilionários no mínimo desde a década de 1930. O fascismo surgido na Itália antes da 2ª guerra mundial é um exemplo de movimento que se apoia fortemente em criar "inimigos" para o povo. Movimentos religiosos que fomentam rivalidade seguem a mesma lógica, e até o nazismo ao inventar uma superioridade racial, se assemelha a tais movimentos de incitação de intolerância e/ ou de violência. 

Aqui nota-se duas principais motivações em tais tipos de movimento: a busca cada vez maior por riquezas materiais por determinados grupos de pessoas e a rivalidade religiosa ou étnica/ racial entre diferentes grupos. Ambas motivações já foram previstas desde a antiguidade: Platão (428 aC - 347 aC) critica tais tipos de pessoas classificando-as respectivamente como filokerdes (amantes do lucro, ou, interesseiros) e como filónikons (amantes da vitória/ da disputa, ou briguentos). O autor ateniense coloca estes dois tipos de pessoa em oposição àqueles que amam ou buscam o saber: os filósofos. Platão argumenta ao longo de suas obras que o verdadeiro conhecimento/ saber é incompatível com a priorização do ganho de riquezas, de bens materiais e dos prazeres sensoriais. Um indivíduo intolerante/ briguento, bem como um interesseiro ou hedonista, não se importa verdadeiramente em construir conhecimento, pois isto requer valores universais, ou seja, éticos: justiça, coragem, sophrosyne (moderação e auto-conhecimento) e kalos (bondade/ beleza principalmente psíquica). Não só isso, os intolerantes e interesseiros, de acordo com o filósofo ateniense, não são qualificados para governar: Um governante deve se pautar pelos valores universais para que atenda a necessidade do coletivo (na época e região em que Platão viveu, as cidades-estado, hoje seriam os países e seus respectivos estados e cidades). Logo, conclui-se que a proposta de governante ideal da filosofia socrática/ platônica não é meramente de uma "classe" de pessoas chamada de filósofos - os filósofos seriam os melhores governantes porque não apresentam interesses particulares nem rivalidades fúteis ou opniáticas. Em sua busca por viverem os valores universais, eles priorizam o coletivo - o maior número de pessoas. Tal priorização é uma postura ética que envolve não só condições materiais dignas para todo o estado (nação), como também uma educação de qualidade.

Claro, que na época de Platão haviam diferenças na sociedade em relação aos dias de hoje, bem como haviam diferenças nas condições de variados grupos de pessoas: nem todos podiam priorizar os estudos e as guerras eram mais frequentes, e talvez os preconceitos supersticiosos se espalhassem mais rapidamente ou se enraizavam mais firmemente na antiga sociedade helênica (grega) entre tantas outras diferenças... Mas as bases éticas para a política e para a filosofia foram lançadas pelo filósofo que influenciou inúmeros autores posteriores, seja nas nações falantes da língua árabe entre os séculos 7 e 13 ou na Europa que colonizou a América após o século 15. Para Platão, por exemplo, a classe governante composta de filósofos deveria regular a classe mercantil para que essa não ganhasse poder e passasse a governar o estado/ o coletivo. Para isso ela contava com apoio da classe "guardiã" que teria uma educação humanizada (com artes como música, poesia etc) e não meramente militar. Ambas as classes (a governante e a guardiã) não deveriam ter acesso ao dinheiro, pois para exercer suas funções de cuidar do povo, elas deveriam ter uma vida coletivizada com as condições básicas garantidas, sem excessos. Apesar de filósofos como Platão serem estudados e discutidos com o passar do tempo, os conflitos que se alastraram ao longo da história das nações indicam que a ética e seus valores universais por muito tempo não tiveram centralidade prática na política e nos governos das nações. Ela também nunca se enraizou nas grandes religiões e grandes igrejas, bem como mal adentrou as empresas da era moderna após a revolução industrial, afinal existem indivíduos que se mostraram éticos e os que se mostraram antiéticos ao longo da história. Conforme o tempo passou, injustiça, pobreza, exploração, enganação se mostraram temas regularmente recorrentes, debatidos e combatidos com maior ou menor eficácia, mas a verdade é que a política não se limita à abundância ou à ausência de recursos materiais - ela requer a externalização de intenções humanas moralmente benéficas. Esta é a ética que deveria propagar ações justas, educação, equidade etc.

O que eu chamei de "inconscientes" no meu texto de 6 anos atrás eram as multidões amedrontadas pelos discursos criadores de inimigos e/ ou fascinadas por promessas de recompensas fantásticas e individualistas. As pessoas podem ser desinteressadas ou imediatistas, mas não dá para isentar quem está em posição de poder e usa deste poder para espalhar violência, desigualdade e outros problemas. Líderes manipuladores com interesses em lucros particulares, ou em beneficiar certos grupos atacando outros, são no mínimo responsáveis em algum nível por gerar problemas à sociedade pois são propagadores de discursos com opiniões antiéticas e nocivas.

Precisamos de mais consciência, porém muitos dos indivíduos poucos ou nada interessados em conhecimento, ou poucos interessados na verdade, são manipulados por aqueles que Platão chamaria de filokerdes e filonikons. Isto ocorre há séculos por variadas causas, mas certamente um dos principais motivos é a necessidade da difusão de conhecimento e da ética e seus respectivos valores universais que são benéficos para o coletivo/ para o maior número de seres possível. Temos pouca conscientização política e histórica nas escolas, seja no ensino básico ou até no superior - há muito o que melhorar na educação do Brasil, tanto em acessibilidade aos estudos, como em humanização.

Voltando às atuais eleições, talvez ainda seja cedo para avaliar a virada de Lula no 2º turno deste ano de 2026, mas a diferença de propostas e de postura entre os candidatos era notória... e pública: A oposição de Lula, como nas duas eleições anteriores, apresentava conteúdos na internet e discursos repletos de mentiras! Ainda que alguns apoiadores de Lula recorressem às mesmas técnicas, qualquer entrevista ou debate entre os 2 candidatos evidenciou o abismo entre eles - o candidato da centro-esquerda, ou esquerda moderada (Lula), tentava mostrar o que fez em seu governo e questionava o adversário sobre seu envolvimento em ações no mínimo suspeitas (serão criminosas, caso as investigações ocorram e provem atos ilícitos etc)... enquanto o candidato da direita extrema (capitalista com ideologia de exclusão de gêneros e raça, fomentador de rixas religiosas etc), Flávio, usava o tempo todo de retórica, oratória com emoções inflamadas e omissões sobre suas próprias ações questionáveis. Porquê? Por que não há mais ética na maioria dos candidatos e grandes apoiadores da (extrema) direita. Como foi dito neste texto e no texto de 6 anos atrás, esse movimento iniciado em torno de Jair Bolsonaro pouco antes de 2018 se apoia em acusações falsas, sensacionalismo, alarmismo, fomentação de rixas e idolatria da concentração de renda e de bens nas mãos de poucos! Podem chamar tal movimento de bolsonarismo, de neo fascismo ou de nazi-fascismo, mas tais nomenclaturas pouco importam - o movimento da direita extremada apresenta tudo que Platão já havia criticado e refutado há cerca de 2400 anos!! É um movimento de interesseiros e briguentos apoiados em sofisma (retórica com poucos ou nenhum fato), com finalidade de beneficiar uma minoria de grupos privados e alguns grupos religiosos, portanto um movimento anti universalidade, anti filosófico e antiético.

Não tenho certeza de quão éticos são Lula e seus aliados, mas sei que, ao menos neste mês de outubro de 2026 eles lutaram por um pouco mais de universalidade (um importante elemento da ética) e contra aqueles que se afundaram em ideologias e ações predominantemente antiéticas.

sábado, 29 de outubro de 2022

Pensamentos e sentimentos influenciam o Coletivo?

 

Como nos tornamos uma sociedade que ignora os fatos e a empatia? 
Geralmente entende-se que existem sentimentos bons e ruins com certa facilidade, mas o mesmo não é tão simples assim quando nos referimos aos pensamentos. Embora algumas pessoas possam afirmar que existem pensamentos ruins e bons, se tratando de um tema mais racional, certamente a coisa fica mais complexa: Seria possível um pensamento bom independer de um sentimento bom? E um pensamento ruim independer de um sentimento ruim? 
Eu entendo que eles devem ter algum tipo de ligação entre si (pensamento bom com um sentimento bom e um pensamento ruim com um sentimento ruim), mas talvez um não dependa do outro. Não totalmente. 
Explicarei com alguns exemplos: Pensar (e planejar) a equidade, o progresso e o zelo entre todos seres humanos é bom, mas não requer um sentimento bom direcionado a todos seres humanos, uma vez que tal sentimento se for possível, deve ser algo raro devido a sua grande amplitude. Pensar (e planejar) a equidade, o progresso e o zelo entre todos seres humanos seria o reverso de não pensar (nem planejar) a equidade entre todos seres humanos. Seria também o reverso de tumultuar e propagar destruição e retrocessos. E por fim, ao invés do zelo, teríamos descuidos, boataria e mentiras. 
Tudo isto independe dos sentimentos, ao menos em algum nível, porque os exemplos ruins (negativos) podem ser propagados com uma dose maior de ignorância do que com sentimentos negativos como ódio, intolerância etc. 
Isto significa que quem pensa ou age conforme os exemplos ruins aqui citados são totalmente neutros em suas relações (seja com a comunidade, com a nação ou com a política)? Não. Como eu afirmei em textos anteriores, esse negócio da neutralidade é praticamente inexistente porque pressupõe uma falta de intencionalidade por parte do ser humano, quando na verdade sempre há alguma intenção, seja vaga ou clara... 
Obviamente, se tratando de relações humanas a nível coletivo, o assunto fica mais complexo, pois temos as mídias de massa, as redes sociais com seus influencers, etc etc. Tudo isto influencia na decisão das pessoas... Mas até que nível? Já não sei dizer, mas sei que quanto menos nos esforçamos para pensar e entender nossa sociedade e nosso país, mais manipulados somos. Quanto mais optamos por ver o que é meramente agradável, o que é fácil ou o que está de acordo com tradições, menos pensamos. Quanto mais colocamos a culpa de nossos problemas no passado, menos resolvemos problemas no presente. Quanto mais temos medo de possibilidades futuras, temos menos paz e menos saúde (mental principalmente). Temos a capacidade de pensar e de sentir, assim podemos estudar, checar informações, buscar entender os outros, se colocar no lugar deles etc. Nada disso é realmente novo, pois se trata de manter-se consciente, um assunto que trato (principalmente na conclusão) neste outro texto que escrevi em meados de 2020: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/02/politica-brasileira-de-2013-2020-um.html
Sim, discorri sobre pensamento e sentimento aqui, para falar de política porque política esbarra em tudo. Ao menos nesta vida material. Já para quem crê em uma vida espiritual, acho difícil a política gerar impactos significativos lá "do outro lado", mas mesmo para espiritualistas e religiosos, a política é uma realidade que afeta seus corpos e mentes. 
Então se tratando de política temos um cenário muito parecido com o da última eleição presidencial (de 2018). De um lado, Luíz Inácio da Silva (Lula), um político voltado um pouco mais as questões sociais, como infraestrutura do país e direitos dos cidadãos. Um cara envolto em casos suspeitos (mensalão, sítio em Atibaia, pedalinho etc) como tantos outros políticos, mas que realiza um mínimo de ações esperadas desta classe. Outras acusações mais atuais contra ele são especulações sobre o que ele fará em seu mandato e fazem parte dos discursos que beneficiam o outro candidato, como mostrarei adiante. Então do outro lado, temos Jair Bolsonaro... Não o clássico político voltado a liberação do mercado, favorecendo principalmente os maiores oligopólios do país... Este é um cara que alegou em rede nacional que os portugueses nunca pisaram na África (nega a história do país), Um cara que fala em fuzilar pessoas de outro partido político. Um cara que defende torturador investigado e condenado. (fez tudo isso publicamente, diante câmeras) Um cara que atrasa compra de vacina em meio a um a pandemia mortal e planeja diversos esquemas fraudulentos durante a mesma pandemia. Um cara que reforça todo discurso de ignorância, imediatismo e ódio com a desculpa de não poder dizer o que pensa, quando na verdade pensa o tempo todo em prejudicar o maior número de pessoas para favorecer a si mesmo e uns poucos aliados. Aliados que reproduziram discursos nazistas, desmataram a Amazônia, sucatearam a FUNAI e a Eletrobrás e outros setores da infraestrutura. Um cara que quer controlar completamente o poder judiciário, destruindo uma das instituições básicas de equilíbrio de poder da república. A lista de atentados e crimes deste candidato a presidência do Brasil é surrealmente grande. Para um candidato que governou só um mandato, as ações reprováveis deste ser, certamente bate os recordes de qualquer outro político que tenha passado pela presidência do Brasil. 
Mas, como um cara desses subiu ao poder? Simples: Pode até ser que as mentiras criminosas (fake news) durante a corrida eleitoral favoreceu o candidato, mas a verdade é que ele representa uma parcela grande da sociedade: Pesquisas feitas entre o 2º semestre de 2020 e o 1º semestre de 2021, que indicavam o período de menor popularidade de Jair, ainda sustentavam cerca de 30% de apoio por parte dos eleitores brasileiros! 
Tais informações são um indício que vivemos em uma civilização que (ainda) alterna entre a histeria movida à boataria (fomentação de rivalidade, orgulho e intolerância) e frieza movida a base de ignorância ou ganância. Isto é evidente fora da política, em setores como o mercado e a religião, por exemplo: 
Trabalhadores não se enxergam como uma classe há anos: Vivemos na era da auto exploração induzida principalmente por empresários de grandes corporações e eventuais empresas de médio porte sob discursos de produtividade e meritocracia; (para mais esclarecimentos sobre este assunto recomendo a leitura do livro "A Sociedade do Cansaço" de Byung Chul Han.) 
Muitos religiosos não desenvolvem espiritualidade alguma: São pessoas manipuladas por líderes religiosos (pastores ou padres conservadores) gananciosos que propagam discursos de intolerância, rivalidade e conseqüentemente espalham medo e ignorância. As religiões cristãs que são dominantes em países americanos como o Brasil, desde meados do século XVI, foram inundadas por sensacionalismo após o desenvolvimento das mídias de massa e digitais. Não se trata de poucos líderes religiosos enriquecidos manipulando as massas como ocorria nas eras medievais e coloniais: Se trata de descaracterizar o próprio cristianismo, distorcendo e abandonando os ensinamentos centrais de amor a Deus (ao Todo) e de amor ao próximo (a todas pessoas). 
 Isto sem contar as classes militares como a polícia e o exército tomados por um número crescente de ações violentas (sem entendimento da sociedade, sem inteligência investigativa e sem capturar os maiores traficantes de produtos ilegais no país), tomados pelo abandono das funções originais (de proteger a maioria da população, que é pobre) por intromissões na política (colaborando com uma política policialesca e com punitivismo). 
Tais discursos e ideologias (meritocrática, fundamentalista e/ou punitivista) são aceitas pelas pessoas porque elas têm algum espaço "na mente". Este espaço pode ser mais intelectual/ racional surgindo como uma forma de desconhecimento (seja por falta de oportunidade de estudo, por opção de estudar pouco ou nada etc), ou pode ser mais "emocional" (referente aos sentimentos) como algum vazio afetivo ou existencial. Na verdade os discursos nocivos podem ser assimilados pelo fato das pessoas terem ambos espaços (desconhecimento e vazios afetivos/ existenciais). 
Eu não tenho uma mensagem mágica que fará as pessoas a se tornarem mais empáticas, estudiosas, colaborativas ou unidas. Mas tenho esperança de que um dia, de alguma forma, nós aprenderemos a importância destas posturas e virtudes como sociedade (seja a nação ou a raça humana de todo planeta). Seja por caminhos com mais sofrimentos ou com menos sofrimentos.

sábado, 6 de agosto de 2022

Aporofobia: Como surgiu e o que é

 

Eu devo ser um cara privilegiado, mas não com os privilégios materiais que muita gente deve imaginar: Eu e meus dois irmãos somos filhos de um operário e de uma "dona de casa". Então alguém poderia perguntar: Que privilégio há nisso? 
 Bom... posso dizer que se não há privilégio, há ao menos uma prevenção. Eu fui protegido contra uma das piores doenças da psiquê humana (alma): a ganância - o ato de querer mais e mais para si mesmo. 
Embora desde pequeno ouvi frases do tipo: "Se você não estudar, vai puxar carroça quando adulto" ou "Se não procurar um bom emprego, vai virar mendigo (etc), eu ao menos, não cresci entre admiradores das fortunas e dos ricos e nunca vi muito sentido na busca enlouquecida por dinheiro ou por status. 
Estes discursos se espalharam pela nossa sociedade por sabe-se lá quantos anos. É o discurso que alega quem não estuda ou não consegue um bom emprego, tem mais é que se ferrar. Muitas pessoas (como alguns parentes meus que nunca chegaram perto de enriquecer) repetiam isto automaticamente, sem saber o porquê e sem se interessar sobre os motivos desta ideia de descartar seres humanos. Afinal, o descarte deve parecer natural para a maioria das pessoas que não estudou história ou geografia e/ ou não desenvolveu uma empatia solidária. O descarte de seres humanos faz parte dos sistemas capitalistas, ou seja, do conjunto de regras e leis que priorizam quem tem mais dinheiro. É um discurso fomentado pelos mais gananciosos, e portanto, muitas vezes pelos mais ricos. 

Um Breve Resumo Histórico
O liberalismo que teve seu início lá na Europa iluminista entre os séculos 17 e 18, sempre foi um sistema de regras e leis que protegiam os mais enriquecidos (burgueses), dando algumas chances de uma minoria da população ocidental enriquecer, para parecer um sistema natural e com oportunidades sedutoras de enriquecimento. Porém no século 20, após a 2ª guerra mundial, os enriquecidos decidiram aumentar as mensagens de sedução diante as enormes massas das baixas classes sociais (pobres). As mídias de massa (TV, rádio e jornais) possibilitaram o crescimento de propagandas e campanhas publicitárias de uma maneira jamais vista antes na história da humanidade e isto começou a incentivar o consumo exagerado de produtos, que muitas vezes, sequer eram úteis ou necessários. Nos anos 60 então, surgem diversos protestos contra o consumismo e seus efeitos nocivos. Porém se houve alguma eficácia na crítica ao consumismo gerado pelas campanhas publicitárias que buscavam seduzir as massas numa busca desenfreada por comprar mais e mais, essa eficácia durou pouco. Nos anos 80, defensores dos bilionários estadunidenses espalham a ideologia neo-liberal, convencendo governos de vários países a adotarem medidas de abandono do bem-estar social, ou seja, descarte de seres humanos. Isto agilizou a queda dos regimes socialistas e destruiu diversos setores da infraestrutura de diferentes países, prejudicando adivinha quem? Os pobres. E os pobres aqui não se trata só de desabrigados ou de desempregados: é toda uma classe trabalhadora mal remunerada, ou seja, que ganha pouco (o clássico salário mínimo). Mas como os milionários e bilionários escaparam impunes por tanto tempo? A resposta não é difícil: Enquanto a humanidade não se torna mais solidária, ela é facilmente comprada por determinadas quantias de dinheiro e facilmente fascinada pelo luxo e pelo discurso de sucesso que os defensores dos mais ricos espalham por aí. 

Aporofobia nos dias atuais
Na virada do século 20 para o 21, campanhas meritocráticas, defendiam os mais ricos diretamente ou indiretamente, mas agora pela internet e pelas mídias sociais. Exceto pelas táticas obscuras e invasivas (algoritmos, bolhas sociais e venda de informações pessoais), pouco mudou: É a idolatria dos ricos, ou seja a plutocracia, o governo dos multimilionários. Estes multimilionários, na maioria das vezes nem são políticos - Eles são empresários e sócios-proprietários de grandes corporações, seja do mercado imobiliário, do petróleo, das finanças (bancos), das mídias (emissoras de tv e mídias sociais) ou das indústrias de alimentos. E quem é o oposto dos mais ricos/ dos multimilionários? Os mais pobres, é claro. 
Assim, os desempregados, os vulneráveis, ou desabrigados/ pessoas em situação de rua são acusadas de serem a escória da civilização. São tratados como vagabundos, desprezíveis, repulsivos, enfim... algo a ser escorraçado/ expulsos para não "poluírem" as ruas dos indivíduos "bem sucedidos", da classe média alta, dos ricos e afins. Isto é o que vem sendo chamado de aporofobia apenas há alguns anos - a fobia, aversão ou ódio aos pobres. É o resultado de tudo o que citei até então: É cria do capitalismo neoliberal, dos discursos de meritocracia, da idolatria do luxo, da concentração de renda e da plutocracia. Não só isso, é também a criação de um inimigo para se descarregar ódio e para por a culpa de problemas geralmente inventados por quem está numa situação mais confortável. 
Ora, alguém pode falar: Os mendigos são desprezados desde o Império Romano ou desde a antiguidade clássica. É verdade, mas eles não eram produzidos arrancando o emprego, a renda e os bens básicos para sobrevivência de centenas de milhares de pessoas. Na antiguidade não existiam tecnologias como hoje, no século 21, que poderiam facilitar a vida da maior parte ou de toda a civilização. Não existia distribuição de energia elétrica, nem veículos motorizados, nem eletrodomésticos etc. 
A solução vendida pelos gananciosos então, não é eliminar a pobreza, distribuindo condições razoáveis nem oportunidades de trabalho digno às pessoas mais pobres. A solução oferecida pelos gananciosos é o abandono e a morte dos mais empobrecidos. Ou seja, ao invés de eliminar a pobreza, querem eliminar o pobre. Para isso, eles desprezam e atacam quem pratica a solidariedade e caluniam os discursos a favor da equidade. A tática dos multimilionários e dos gananciosos é a mesma do passado, pois eles só renovam as palavras e os meios por onde propagam as mentiras e a injustiça. Este ato de desprezar os mais pobres e culpá-los de sujar a cidade, infelizmente se espalha dos mais ricos até a classe média e alguns dos pobres que ainda têm um lugar para morar. Assim se espalha a aporofobia, mais um deplorável preconceito da humanidade. 
Por fim, com o grande aumento de pessoas desempregadas no Brasil (e certamente no mundo), a aporofobia tomou proporções mais descaradas - A arquitetura hostil: Donos de estabelecimentos estão colocando obstáculos que impedem não só as pessoas em situação de rua a deitarem em busca de um local para dormir ou de um abrigo da chuva ou do frio, mas que também impedem qualquer cidadão até mesmo de sentar em certos locais, como degraus e muretas! 
Além disto tudo, o aumento do desemprego aliado a este preconceito, corre o risco de gerar um novo genocídio - Uma matança de todas famílias e todas as pessoas que perderam as condições de sobreviverem. Ainda que os gananciosos mal ordenem a utilização de armas contra as pessoas em situação de rua, o objetivo da aporofobia não deixa de ser uma matança, pois os favorecimentos dos mais ricos e o abandono gradual e disfarçado dos mais pobres, acaba deixando mais e mais pessoas com uma única opção: A de morrerem sem um lar, sem alimento e sem direito algum.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Espiritualidade e Progresso

 

Sobre a Fobia à Alma 

Como mencionei em algum texto meu, a psicologia é uma área de estudo bastante dividida. Isto possivelmente é uma herança do conflito entre materialistas e idealistas/ mentalistas da virada do século 18 ao 19. Tal conflito repeliu as filosofias e bases filosóficas dualistas e pluralistas, e foi praticamente vencido pelos materialistas por volta do início do século 20. Por coincidência ou não, a época do fordismo e o período entre guerras mundiais... 

Os questionamentos e críticas mais comuns à psicanálise (fundada por Freud) por parte da fenomenologia da psicologia se referem a sua centralização nas questões sexuais/ biológicas e na reprodução de fenômenos do passado dos pacientes. Resumidamente estas críticas alegam que a psicanálise (e talvez a psicologia analítica, que usa base similar) são naturalistas ou mesmo deterministas. 

Porém é comum encontrar psicólogos da frente comportamental e acadêmicos da área de saúde criticando abertamente a estrutura de consciente-inconsciente como se fosse pseudociência. E adivinhem só; a frente comportamental é praticamente alicerçada em um materialismo monista (uma pressuposto "filosófico") e no método empírico (o qual eu já cansei de explicar neste e em outros textos)… 

Primeiramente, a base teórica sustentada pelo eixo consciente-inconsciente não parece ser monista nem materialista. Esta base aparentemente parte de um pressuposto dualista onde a mente imaterial (sejam informações, alma ou outra coisa ainda não mensurável por métodos investigativos materialistas) interage com o corpo material. Independentemente das bases teóricas, filosóficas, ontológicas ou epistemológicas, os estudos que fundaram a psicanálise fazem parte de uma descoberta e não uma vaga hipótese ou ideia “pouco provável”: Pois quando falamos do aparelho psíquico (consciência, memória, sentimentos, pensamentos etc), uma das provas mais óbvias da existência do subconsciente (que é o inconsciente de acordo com a frente psicanalítica) surge quando tentamos negar a realidade enganando a nós mesmos. Pensamentos, lembranças e sentimentos não desaparecem definitivamente, eles apenas deixam de ser a atenção de nossa consciência, podendo voltar a ser alvo desta atenção após algum tempo. Desaparecer definitivamente seria deixar de existir, o que é algo improvável por qualquer método científico. 

Talvez do ponto de vista comportamental, a psicanálise esteja desvinculada do método empírico, mas a partir desta afirmação, temos que nos lembrar que o empirismo não é a ciência em si: é apenas um dos métodos científicos (de investigação), independentemente se é o mais empregado nos diversos campos do saber, ou não. Quando se trata de sentimentos (emoções não expressas) e pensamentos é óbvio que não se pode esperar evidências percebidas pelos 5 sentidos do ser humano. O aparelho psíquico descrito pelas abordagens da frente psicanalítica não é físico: não é sólido, nem líquido, nem gasoso e provavelmente também não é plasmático. Não está em nenhum dos 4 estados conhecidos da matéria até então. Trata-se talvez, no máximo, de informações relacionadas aos potenciais elétricos ou a sinapses do sistema nervoso, mas mesmo estas não são a causa das escolhas humanas. Porém não há provas suficientes de que sinápses ou sinais elétricos sejam a memória, a consciência ou a "mente" em si. A questão está em aberto: Reduzir o ser humano e todos seus pensamentos, sentimentos (etc) a estes fenômenos físicos/ biológicos é elevar o empirismo como único método de construção de conhecimento válido, ignorando todos os demais métodos de estudo. Um ato típico do positivismo e do período final do iluminismo, onde acreditava-se que o ser humano era o centro do universo e o que existia de mais evoluído neste. A postura correta para a construção de conhecimento, seja ciência ou filosofia, é semelhante à humildade: é assumir que não se sabe sobre o que não foi descoberto nem sobre o que ainda não se estudou o suficiente. 

Em segundo lugar estas críticas às abordagens psicológicas não materialistas são reinvenções da psicologia empírica ou da "psicologia" fisiológica (século 19). Nesta época a base filosófica dualista de René Descartes era aceita por pouquíssimos intelectuais proeminentes. Um dos poucos apoiadores desta base era o linguista e professor francês, Leon D. Rivail, que passaria a divulgar o espiritismo sob o pseudônimo de Allan Kardec. Talvez, pelo fato de tal filosofia aceitar a espiritualidade baseada nos ensinos de Sócrates, Platão e Jesus Cristo, o espiritismo foi altamente rechaçado por cientistas e filósofos materialistas por toda segunda metade do século 19. Outra curiosidade é que o espiritismo (não os charlatães que se dizem espíritas) propunha explicar todos os temas que eram abordados pelas religiões e por ordens místicas que, de certo modo, monopolizavam o assunto. Mas não aprofundarei sobre a relação da psiquê (mente, aparelho psíquico, comportamento secreto ou qualquer outro nome) coma espiritualidade neste texto.

Na primeira metade do século 20 houve um forte movimento de ataque às teorias que consideravam a existência do inconsciente (Freud e Jung). Entre os atacantes estavam psicólogos da frente comportamental como Skinner até filósofos como Popper. Embora tais estudiosos possam ter colaborado para as ciências em alguns pontos, é importante observar que tais críticas à frente psicanalítica eram meras opiniões transvestidas de lógica científica. Estas opiniões se basearam na inexistência de algo, não apresentando prova alguma contra o inconsciente nem contra a psiquê (seja mente ou alma etc), pelo contrário, se apoiaram em "falta de provas" das abordagens da frente psicanálitica. Daí, estes estudiosos que não aceitavam que a mente fosse imaterial nem transcendental, viram a necessidade de propagar ideias como a "lei da" falseabilidade como base científica, como mencionei neste outro texto https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/11/os-estudos-e-as-abordagens-da-mente.html.

Tais opiniões não atacavam só a frente psicanalítica - serviam como ataques contra toda espiritualidade / religiosidade, independentemente se seus propagadores planejaram isso ou não. Em algumas de suas afirmações, seus defensores eram abertamente anti-religiosos, o que teria seu lado positivo se eles denunciassem a corrupção nas religiões e a utilização dos dogmas e hierarquias religiosas como ferramenta de poder. Porém, como materialistas fanáticos, eles atacaram todo argumento que apresentava uma possibilidade da existência da alma e/ou do espírito. 

Isto não é comum apenas entre as "elites intelectuais" (de cientistas e filósofos), mas também é comum em ativistas políticos fervorosos, sejam assumidos ou não. Importante ressaltar que ativistas políticos fervorosos são principalmente compostos pelos extremos do espectro político, mas também podem ser os materialistas de ideais políticos moderados. 

O Materialismo na Política 

Pois bem, muita gente já sabe que existem mentirosos na religião e na política. Mas poucos sabem que as grandes empresas, sejam do setor de comunicações, de finanças ou de qualquer outro, geralmente são dirigidas/ geridas pelo mesmo tipo de mentirosos. Isto ocorre porque todas estas instituições religiosas, políticas e empresariais servem como ferramenta de poder. 

Porém, como poucos sabem ou entendem como funciona o mercado nos regimes mais abertamente capitalistas (liberalismo e neoliberalismo), a direita que apoia os empresários mais ricos tem larga vantagem sobre a esquerda em maior parte do ocidente. 

O problema se agrava, quando uma porção significante das pessoas que estudam política e áreas mais relacionadas à política, tornam-se materialistas. E isto ocorre pelo simples fato que a ferramenta de poder mais obsoleta das 3 mencionadas aqui, é a religião institucionalizada, ou seja as igrejas, principalmente as "cristãs" nos países do ocidente. Seu controle sobre o povo é baseado em imposição de medo, em narrativas simplistas e acusações contra quem está fora de sua religião. A religião se apropriou da espiritualidade, no mínimo desde o século 5, possivelmente desde o século 4, após o cristianismo se tornar a religião estatal do império romano no ano de 380: Nesta mesma época, os "cristãos" já estavam perseguindo quem praticasse uma espiritualidade diferente da sua. 

Levando-se em conta que no ocidente a esquerda esteve em desvantagem maior parte do tempo, desde o fim da 2ª guerra mundial, adivinha quem fracassa ao atacar toda e qualquer forma de espiritualidade? A esquerda, é claro. 

A direita serve primariamente aos empresários mais multimilionários - uma classe de pessoas que não precisa dar as caras e consegue comprar qualquer um e qualquer coisa. A direita se dá o luxo de se unir ou se separar da religião quando bem entender, ela não luta pela maioria, o que facilita muito o trabalho desta turma convencer as massas. 

A esquerda honesta em seus objetivos nada tem a ver com grandes líderes socialistas conhecidos na história da humanidade. Tais líderes viveram em sociedades muito diferentes de países ocidentais como o Brasil: Um estado constantemente manipulado por ricaços, que deveria gerir uma área gigantesca, repleto de pessoas empobrecidas e completamente desunidas. 

Os movimentos de esquerda que querem lutar por um país digno e progressista não podem se dar o luxo de generalizar. Não podem confundir quem são seus opressores. Seus opressores não são a espiritualidade, não são meros símbolos nem mitos ou ideias pueris. É possível crer em Deus e ser cientista ou ser a favor do progresso. É possível considerar que a mente (ou alma) exista além do corpo físico e não ficar espalhando obscurantismo e mentiras. Os verdadeiros opositores dos progressistas e da esquerda então são os poucos endinherados (principalmente os multimilionários) que andam em helicópteros e iates, bem guardados por propagadores de ódio e de sensacionalismo em diversas mídias e por indivíduos fardados sonhando com uma classe militar posando de guardiã da nação. 

Aqueles que querem lutar por dignidade e progresso, têm o mesmo objetivo dos que lutam pelo bem do próximo. Pouco difere dos ideais dos verdadeiros cristianismo e espiritismo. 

 Quando Jesus criticou os ricos (em mais de uma passagem da Bíblia), ele não o fez por birra: Não se adora grandes quantidades de riqueza material e à Deus ao mesmo tempo. Se o Deus é onipresente e ama todos seus filhos que fazem parte de sua criação (esqueçam as bizarrices do velho testamento), como alguém pode viver com uma quantia de bens suficientes para sustentar dezenas, centenas ou milhares de famílias e alegar ser cristão? Não é preciso ser religioso, nem espiritualista para ver o erro nisto, é só usar lógica. 

Quando o espiritismo diz que quem está sofrendo na Terra, está pagando por erros de outras existências, ele NÃO defende dar as costas para estes penados: Deve-se ajudar o próximo SEMPRE que possível e mais: O espiritismo também afirma que as grandes fortunas SÓ se justificam se utilizadas para o progresso da humanidade. Aqui está uma explicação resumida que não há NADA nos argumentos da direita que possa ser utilizado em prol da humanidade. O cristianismo e o espiritismo não pregam uma utopia na Terra, como faz a ideologia comunista, mas é claramente diferente dos argumentos da direita, ao rechaçar todo o acúmulo de riquezas materiais que não é usado para o bem da maioria da humanidade. 

Os ensinamentos espiritualizados, sejam de Sócrates, Platão ou de Jesus ou as informações juntadas por Kardec e seus companheiros, não são separáveis da ideia de progresso. Não existe progresso enquanto se prega rivalidade, nem quando se pratica a indiferença. Se você não consegue amar o próximo, se disponha a ouvir, respeitar e permitir o progresso para todos seres humanos. Se você já tem bens que sustentaria mais de uma família, comece a repensar sua existência conivente com a miséria alheia.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Ideologias e seus Impactos no Brasil de 2015 a 2018

 

 Este texto é uma adaptação de meus "comentários" nas redes sociais entre os anos de 2015 e 2018

Etimologia na Economia e na Política 

Vamos considerar que o povo está interessado em entender e esclarecer sobre política e ninguém está simplesmente querendo provar que está certo sem dar o braço a torcer... Não é preciso especialização, só linguagem clara, ou seja o uso da etimologia das palavras, para explicar de modo resumido: 

Liberal-Ismo: Doutrina (centrada) na liberdade, principalmente a liberdade de comércio. 

Esta doutrina ganhou força ao se contrapor às monarquias no final do século XVIII (18), prometendo maior liberdade ao “povo”, mas favorecendo os comerciantes mais enriquecidos, é claro. O liberalismo não definiu onde acaba a liberdade dos comerciantes e empresários bem sucedidos, mas supondo que não foi um movimento extremista, o liberalismo deveria prezar pela concorrência de mercado clara e justa, sem oligopólios, respeitando leis comerciais, ambientais etc. Porém não foi o que aconteceu: a colonização escravagista seguida pela industrialização apoiada em mão de obra barata gerou uma desigualdade social onde os poucos mais ricos juntaram quantidades de riquezas suficientes para sustentar milhares de famílias por várias décadas, talvez por um ou dois séculos. Já os mais pobres neste sistema, além de não terem renda para viver com dignidade, cresceram muito em número. Resumidamente, seus maiores apoiadores foram a Inglaterra, os EUA e países "aliados", desde o fim do século XVIII até o fim da guerra fria no século XX (20). 

Social-Ismo: Doutrina (centrada) na sociedade, resumidamente em um estado ou nação. 

Este movimento político/ filosofia foi ganhando força no final do século XIX (19), mas só se consolidou no século XX. Seus apoiadores eram críticos do liberalismo que havia fomentado tanta desigualdade e miséria, beneficiando apenas pequenas parcelas do setor privado. 

O que aconteceu em muitos países que adotaram este sistema (como a URSS), foi que os representantes da nação se comprometeram de "achatar a economia", ao menos em partes através de estatizações, fornecendo uma "infla" estrutura que falhou por uma série de motivos. Houveram casos de incompetência de gestão pública, mas o fator principal foi a concentração de poder nos "representantes do povo" que obviamente corrompeu o estado. Este sistema concorreu com o liberalismo desde 1946 até 1991, quando foi derrotado pela doutrina (neo) liberal com o fim da guerra fria e a dissolução da URSS. 

Comun-Ismo: Doutrina (centrada) no bem comum, ou seja, maior equidade / igualdade de poder além (acima) do conceito de estado/nação. Uma utopia, a qual os países mais próximos disto são alguns dos sociais democratas onde a diferença de renda é mínima. O comunismo nunca foi implementado em país algum. 

Neo Liberalismo: Liberalismo "novo", incentivado entre os anos de 1986 e 1991, pelas instituições financeiras e corporações que não quiseram perder suas fortunas : O neoliberalismo passou a propor que os governos investissem cada vez menos nas estruturas básicas (infraestrutura) de suas nações. Alegando que todo governo é corrupto, que todo setor público é ineficaz, e maliciosamente chamando investimento em infraestrutura de "gastos públicos", o neoliberalismo propôs financiar diversos setores e ações, objetivando lucro ao setor privado composto por corporações/ grandes empresas multinacionais. 

Em prática, neoliberalismo é o "Capital-Ismo" sem regulação, ou seja, selvagem. Mesmo porque, etimologicamente o capitalismo é a doutrina do capital, onde quem tem mais dinheiro ou mais recursos, tem mais poder: "Sugere" leis (lobby), "financia" (compra) políticos e prega para que todos busquem seu próprio acúmulo de capital (meritocracia). 

Porém dinheiro não é produzido infinitamente para alegria de todos, pois há o lastro. E aqueles que realmente se beneficiam deste sistema não querem acabar com o lastro, é óbvio... 

Invenções Repetidas 

No século XII a.C (12 antes de Cristo), após as guerras que causaram a destruição dos registros das relações reais e religiosas e do sistema comercial em torno do Mar Mediterrâneo e do Levante, alguns poetas gregos simplificaram e distorceram a história das civilizações (micênica, hitita, cananéia etc), digamos que, de certo modo, criando a mitologia: Os "deuses" impulsivos traiam, matavam, enganavam, mas gostavam dos mortais. Mortais que passaram a venerar esses "heróis". Já os titãs, os gigantes e feras monstruosas eram responsáveis por tudo de ruim que acontecia no mundo. 

A história se repete e os mais ambiciosos e corruptores continuam evitando mostrar suas faces. Só inventam heróis e vilões. Embora exista a tendência das pessoas praticarem o "culto às personalidades" (idolatrar famosos), na política do Brasil é muito mais comum inventar super-vilões: De tempos em tempos pegar um ou outro indivíduo (geralmente político) e culpá-lo por tudo o que acontece de ruim no país. Isto faz parte do discurso anti-política, que acaba sendo anti democrático também. Tal discurso só favorece quem tem mais poder, geralmente poder econômico (dinheiro, bofunfa, grana...) 

O brasileiro médio (que ganha um salário mínimo) têm que trabalhar, cuidar da família, pagar impostos e cumprir com suas obrigações cívicas, então tempo para fazer política, se instruir e para participar de debates, não têm. 

Os típicos brasileiros acordam cedo, se espremem suados em péssimas conduções públicas, se alimentam mal e chegam a altas horas da noite da labuta diária, para, depois, serem chamados de vagabundos por escravagistas endinheirados, meganhas, bandidos ou governantes que não lhes permitem aposentar. 

O que entrou no governo pós 2015? 

Durante o governo federal mais"esquerdista" (petista) a tomar posse no Brasil, o país ficou com rabo preso ao oligopólio financeiro, (BB, CEF, Bradesco, Itaú/Unibanco, Santander e mais um banco gringo que não me lembro agora) através de uma dívida pública exorbitante. 

Um governo socialista, popularmente chamado de esquerdista e erroneamente chamado de comunista, jamais se sujeitaria a tal situação, então os governos petistas foram no máximo de centro-esquerda, devido a algumas iniciativas sociais (bolsa-família, PROUNI etc). 

Meses antes do show "evangélico" (o impedimento, ou "impeachment", de Dilma Rousseff do PT, o Partido dos Trabalhadores), regado por frases do tipo: "Por Deus, pela família" e blablablá), a líder petista, já discursava a favor do mercado. 

Mas era muito tarde para Dilma se curvar diante "o mercado" e a presidência do Brasil foi assumida por um senhor claramente oportunista do "Partido do Movimento Democrático Brasileiro": Michel Temer guinou o país a direita, chegando a falar abertamente em algumas entrevistas que o PT foi removido do poder através de um golpe porque não aceitou a agenda privatizadora e anti infraestrutura solicitada por certos setores privados, como a Chevron, entre outras grandes empresas. 

O PMDB, um partido que praticamente age como bancada de negócios, fez o previsto: Deixou de arrecadar impostos dos grandes empresários multimilionários, sucateando a infraestrutura do Brasil. Afinal o que esperar desse povo pró oligopólio, pró obscurantismo? 

Retrospectiva "Temerosa"

Uma famosa emissora de televisão pertencente a uma tal família Marinho, fez a seguinte Retrospectiva da virada de 2017 para 2018: 

"12 milhões de desempregados, o governo atual (Temer - PMDB) aumentou os gastos e arrecadou menos impostos deixando os cofres públicos vazios" 

E a pérola contraditória em seguida: "... a gastança dos anos anteriores (Dilma - PT?) foi que deixou o país em crise". Assim seguiu a desinformação em massa: Deu a entender que apesar dos erros grosseiros e da corrupção do presidente Temer, o super vilão inventado pela Globo foi a Dilma e/ou o Lula, que presidiram o Brasil antes do PMDBista. 

MBL: Movimento "Brasil Livre" - Livre de que? 

 Integrantes do MBL saíram em fotografias apoiando políticos como Eduardo Cunha e Bolsonaro (que parece uma terrível mescla de Bozo com Nero). Suspeito de uma série de crimes, Cunha foi preso em 2016, então o MBL "descobriu" que o cara era corrupto até o osso... 

O MBL apoiou a posse do Temer e quando descobriram em 2018 que o ex-vice estava atolado em esquemas fraudulentos, passaram a fingir que eram neutros. 

O MBL fez eventos com Gilmar Mendes, que defendeu o suspeito Aécio Neves (PSDB) até cansar e posicionou-se contra a bombástica delação da Odebretch... 

Como acreditar que o MBL é um movimento pelo BEM do Brasil? Para mim é impossível.

O Movimento Brasil Livre (MBL), deveria mudar seu nome de acordo com seus ideais: É um movimento de indivíduos de classe média alta que abominam as causas sociais, desprezam a infraestrutura do Brasil e seguem interessados em ganhar poder e influência na política. Para isso espalham mentiras sobre seus desafetos políticos, tentando esconder o fato que eles também se envolvem em esquemas de fraude e corrupção. Poderia se chamar Movimento Boataria Livre ou um nome mais feio, representando seu envolvimento em "sujeira" (fraudes, falsidade ideológica, propaganda enganosa, crimes etc). 

Lado na Política 

 Acabei de mostrar que o discurso antipolítica tem um lado - sempre serve a alguém. E este alguém não é a maioria: se refere a uma minoria detentora de um poder não político, ou seja, o poder econômico, o poder religioso e o poder militar. Isto não ocorre só no Brasil, pois também acontece em outros países, como nos EUA, onde o candidato republicano (de direita) Donald Trump venceu as eleições com discursos racistas que jogavam a culpa dos problemas dos EUA em latino americanos e em muçulmanos. 

Portanto quem grita "foda-se a política" elege Trump e quem acredita em conspiração "latina-comunista" também elege Trump sim, caros leitores! Quando as pessoas destroem o centro e a esquerda sobra somente a direita hiper capitalista, ignorante, xenófoba e antipolítica. 

Instituição Anti Infraestrutura 

Durante o governo Temer, propagandas mentirosas de teor anti-político circularam livremente pela internet: "Se você é contra o limite de verba para infraestrutura, você é contra o Brasil." 

Isto é a tradução da estranha petição da Empiricus que espalhou-se da Folha de São Paulo ao Facebook. Como já mencionei, os grandes empresários multimilionários e seus apoiadores e porta-vozes, chamam verbas para infraestrutura de "gastos públicos". Foi assim que o neoliberalismo pregou a austeridade, destruindo transportes públicos. sucateando instituições de saúde e ensino gratuitos e até mesmo desfazendo setores de segurança pública em variados países pelo mundo, desde o início dos anos 90. 

Valentia um tanto Covarde 

Embora o termo valente seja usado para definir uma pessoa corajosa, o mesmo não se aplica ao termo "valentão". Este termo está mais próximo da palavra inglesa "bully". O valentão não é uma pessoa corajosa: É o que gosta de agredir os outros. 

Este tipo de pessoa é comum de se encontrar, e existem inúmeros relatos sobre eles principalmente em escolas. Na verdade o valentão está mais para covardão: é o típico cara fortão que sai procurando brigar com o mais fraco, ou pode ser aquele cara que se junta com outros para agredir alguém que está sozinho. 

Posso dizer que tenho a experiência empírica em ser alvo deste tipo de gente, como por exemplo, lembro-me que quando eu estudava na 5ª ou na 6ª série do ensino fundamental, dois caras se juntaram e foram me socando por um quarteirão todo. Aquilo ficou na minha mente por alguns anos e obviamente é uma situação em que nos sentimos indefesos, impotentes e forçosamente humilhados. 

Além do ambiente escolar, onde este tipo de valentão pode prosperar na sociedade? Viver com oportunidades para provocar, humilhar e agredir os outros exigem um ambiente onde a paz não seja bem vinda, ou exige um ambiente onde o confronto seja comum - Ou o cara entra no "mundo" do crime, ou na polícia, ou no exército. 

Não há espaço para um valentão nas áreas práticas (profissionais) de humanas, sequer nas biológicas ou nas exatas. O valentão não vai se satisfazer construindo, nem estudando, afinal ele precisa mostrar que é melhor que alguém, agredir alguém, ou ambas as coisas. 

Daí o porquê é tão comum vermos casos de violência policial e notícias sobre criminosos violentos. Daí o porquê um cara que odeia estudar, odeia negros, odeia mulheres, odeia o público LGBT e que fala em metralhar os outros, ganha as eleições. Em 2018, muita gente achou que estava votando em um capitão que ia "por o Brasil nos eixos" na base da valentia. Como um grosseiro e bizarro herói - anti-herói. 

Essa "valentia" vem da formação da pessoa. Independente se você acredita em personalidade ou não, o fato é que a criação e a vivência das pessoas essencialmente determinam padrões de comportamentos. O comportamento valentão foi cultivado por décadas, ou talvez, durante séculos, seja no Brasil, ou em outros países. O fato é que no Brasil, este é o comportamento adorado e propagado em certos ambientes e "tribos sociais", como fazendeiros, homens do interior, em cursos superiores elitizados como medicina, engenharia e direito, em quartéis, na polícia, no tráfico etc. 

Pouco ou nada foi feito para combater este "ensino" torpe que se propagou por diversos setores da sociedade... Até que em 2018 colhemos o fruto podre no Brasil. 

Conclusão 

É possível combater o elitismo e o culto à violência... com mais violência? 

Não faz sentido. A direita que sempre serviu o elitismo está no poder brasileiro desde 2015 (fora governos anteriores ao Lula etc). Não houve melhoria alguma desde então. Eles se apoiam em falácias e têm o apoio da mídia e do poder militar. As críticas feitas ao governo Bolsonaro, por mídias como a rede Globo, são meras cortinas de fumaça. Enquanto SBT e Record apoiam abertamente a demolição da infraestrutura e os discursos brucutus de valentia do governo "Bozo-nero", a Globo apenas tenta abraçar as causas identidárias, fingindo uma aliança anti governo. 

É preciso paciência para instruir quem ainda quer entender e melhorar o país... e é preciso militância sim, seja pró infraestrutura, ou a favor dos mais vulneráveis. Mas é preciso união entre estes setores. Pode parecer coisa de uma "esquerda florida", mas não é tempo de generalizações: Não deve-se odiar todos religiosos porque alguns apoiam o governo bozo-nero. Não é útil criticar o movimento anti-racista só porque alguns negros enriqueceram e vivem "entre as elites". É preciso identificar aliados potenciais interessados em humanizar o país e dar condições dignas à sociedade, buscando união, afinal sectarismo e segmentação só servem aos gananciosos e a quem já está em posição de oprimir.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

1º Bê a Bá da Realidade: O que é Política?

O que é Política afinal?
Chatice? Talvez também seja chatice, mas é muito mais do que isso.

Para responder o que é política, é preciso responder também o que é país.
País é uma bandeira? Um pedaço de terra? Um hino? Futebol e carnaval?
Nada disso. Estas coisas podem fazer parte de um país numa escala maior ou menor, mas não é o que significa um país.

Então país é um povo?
Quase. Esta resposta chega mais perto do que realmente representa um país. País é um grupo ou uma comunidade de pessoas, ou seja, um povo, mas também é suas necessidades como grupo e tudo o que representa este povo.
E quais são as necessidades de um povo? Isso pode variar um pouco em cada lugar do mundo, mas existem necessidades semelhantes entre vários países, afinal todos são principalmente habitados por seres humanos. Então algumas das necessidades básicas dos seres humanos em grupo, ou seja, como sociedade, são: Saúde, higiene (saneamento, água), educação (escolas de ensino fundamental até o profissionalizante e científico), segurança, proteção aos vulneráveis (crianças, idosos, gestantes, desempregados), comunicação, lazer e transporte… E estes são direitos de toda pessoa de um país como no Brasil.

Mas Por quê?
Porquê, de uma maneira simplória, os direitos devem ser garantidos para o maior número possível de cidadãos de um determinado país. Isso se chama equidade e faz parte das idéias de Democracia e de Justiça. Resumidamente democracia é um sistema de governo escolhido pelas pessoas. Já a justiça é um conceito necessário para qualquer civilização, pois sem ela não há país, não há nação, não há estado, resta apenas o caos. Restaria só a “lei do mais forte”, termo usado para explicar o comportamento dos animais em ambiente selvagem. Sem justiça, manda quem consegue manipular o maior número de pessoas, seja pelo dinheiro, pela propaganda ou pela força das armas. Espalha-se a idéia de cada um por si, o que acaba incentivando desde trapaças até todo tipo de crime, do furto ao assassinato. Justiça é uma das necessidades básicas para que haja SEGURANÇA. Segurança requer instituições de justiça (com juízes, tribunais etc) e de defesa nacional (instituições militares, como exército etc). Enquanto as instituições de justiça auxiliam na segurança interna, os exércitos existem para defender o país em relação às AMEAÇAS EXTERNAS. Ou seja, ameaças que vem de fora do país, seja por causa de espionagem, do comércio de substâncias ilegais (tráfico) ou por causa de guerras etc. A segurança e todas outras necessidades do povo (sociedade) fazem parte da INFRAESTRUTURA de um país. Infra quer dizer “de base”, básico, o mínimo para que algum sistema funcione! E estrutura, é claro, refere-se ao conjunto de instituições (locais como hospitais, tribunais, abrigos, escolas, delegacias etc) e todos seus profissionais que formam estes serviços tão importantes para todos.

Então como lembrar de tudo isso que é tão importante para um país? Como organizar isto?
Com a tal da Constituição, um tipo de “livrinho” (ok, é longo, tá mais para livrão) que tem todas as leis do país, às vezes, num linguajar muito complicado para o nível de estudo de grande parte do povo brasileiro. E como as pessoas de um país vão conseguir ver se tudo isso está funcionando? Como garantir que tudo isto funcione?
Com a tal política, é claro…
Política não é coisa político? "Político é tudo ladrão!" Pois é... Isto é o que ouvimos por aí, mas o que temos para nos organizar como país é isto: Um sistema político. Um sistema no qual elegemos a cada 4 anos representantes da MAIORIA do país (no caso o Brasil). A política é a execução de todo o sistema do país. É a manutenção da infraestrutura, a garantia de direitos do povo etc.
Para não enrolar muito e não complicar logo de cara, vamos resumir nos grupos de pessoas que representam a política em si. Eles estão divididos em 3 tipos (esferas) de poder (autoridade que representam o povo, ao menos, supostamente): Executivo; Judiciário; Legislativo. Nas eleições podemos votar em quem vai ocupar cargos no Poder Executivo e no Poder Legislativo. Os cargos do poder Executivo são os mais famosos: o presidente (do país), o governador (do estado) e o prefeito (da cidade). Eles são responsáveis por executar as leis já existentes e por sugerir novas leis que devem ser aprovadas pelo legislativo. Os cargos do poder Legislativo são aqueles que muita gente nem sabe o que é, mas são bem importantes! Eles são os deputados e senadores que (de uma maneira resumida) criam as leis do país e aprovam ou reprovam modificações feitas pelos políticos do poder executivo. Por fim, existe o Poder Judiciário que parece ainda mais escondido do que o Legislativo, pois ninguém vota em quem vai ocupar seus cargos. São os juízes… e talvez os procuradores e alguns outros cargos… Então quem ocupa os cargos do judiciário?? Quem passa em concurso público... Que é uma outra história…
Juízes são responsáveis por julgar quem desrespeita (infringe) a lei, desde os crimes “de colarinho branco” (tipicamente ricos roubando mais dinheiro…) até os crimes cometidos por todo tipo de pessoa com menos dinheiro, enquanto procuradores deveriam levar denúncias da população (ou talvez de algum representante de uma comunidade) aos julgamentos ou às investigações.
TODA essa cambada nestes 3 poderes da política brasileira deveria representar o POVO, ou seja, a maioria da população, o maior número de brasileiros possível. Até mesmo a turma mais misteriosa do judiciário e principalmente do legislativo devem fazer a vontade da maioria.
Porquê política é a administração nacional, ou seja, a organização do país, e a distribuição de recursos feita pelos poderes PÚBLICOS e pelos representantes do POVO. (público significa do povo, da maioria...)
Se a cambada das instituições públicas e de representantes do povo faz ou não faz a vontade da maioria... é papo para uma próxima ocasião, pois este texto foi feito como um tipo de cartilha para explicar o básico de maneira bem simples.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Política não é piada, política é morte


Decidi iniciar este post com a foto do esqueleto da rinoceronte Cacareco, baixada de reportagem do G1. Cacareco foi eleita vereadora por voto de protesto em 1959. Morreu com 8 anos de idade em 1962 (a expectativa de vida de um rinoceronte branco é no mínimo cinco vezes isso).

Eu ia colocar a foto de Cacareco viva mas troquei por esta para enfatizar o título. Política não é morte na verdade, é vida ou morte. Novamente, escolhi morte no título para ser enfático, afinal estamos no meio de uma pandemia que causou no Brasil, em números oficiais, mais de 19000 mortes até este dia 21 de maio de 2020. 19000 em números oficiais, sabemos que é mais que isso. Futuramente poderemos calcular os números de pessoas que morrem anualmente e vai ser muito fácil fazer a conta.

É como se enchêssemos o estádio do Criciúma em Santa Catarina e fizéssemos essas pessoas tomarem veneno e morrer (uma boa analogia dado o novo protocolo sobre Cloroquina). Um estádio lotado de mortos. E não estamos no pico da pandemia ainda.

Essas pessoas tem nome. O pai de uma ex-colega de serviço minha. O jovem colega de um amigo meu da faculdade. A culpa é da doença? Obviamente que sim, mas não só dela. As escolhas que tomamos tem consequências. Outra relação óbvia: quanto mais poder você detém, mais consequências derivam de suas ações.

A pandemia apenas deixou isso escancarado. Quando um presidente fala abobrinhas sobre desinfetantes e luz solar, por sua posição, o impacto é muito maior do que o do seu tio na reunião de família. Esta nem é a parte mais importante do impacto. A parte mais importante são as políticas adotadas.

Cada decisão política adotada incide em vidas afetadas. Cada verba destinada (e sua porcentagem desviada) define curas, doenças, mortes, inanição.

Em 1990, a decisão de bloquear as poupanças teve um impacto enorme na população brasileira. Você pode imaginar o impacto daquilo na saúde mental da população (assunto seríssimo). A neoliberal Isto É, fez uma matéria criticando o evento ao mesmo tempo que tentava defender políticas neoliberais, e citou sem fontes "...mortes, suicídio e desemprego".

O G1 também se dedicou ao assunto no aniversário de 20 anos do Plano Collor ao publicar uma matéria da BBC em março deste ano que cita sem dados estatísticos, com base em relatos, infartos, suicídios e prostituição como consequências daquela política. Ao ler, fica enfatizado o amadorismo e incompetência dos envolvidos (algo escandalosamente visível na equipe de governo de hoje).

Fernando Collor foi o candidato sem sentido apoiado com fervor por todos que tinham pânico de testemunhar Lula presidente (logicamente, qualquer pessoa detentora de poder econômico). Todas as cartas jogadas naquela eleição foram as mesmas jogadas na eleição de Bolsonaro. A diferença é que a eleição de Bolsonaro conseguiu ser mais suja e de violência escancarada. Nada escondeu o discurso fascista durante toda a corrida eleitoral ("metralhar a petralhada", etc.) e os esforços de tirar seu único concorrente da jogada.

O medo de Lula na época (1990) era o principal motivador de apostar em qualquer outra insanidade (como Collor). Medo do comunismo, fruto da propaganda em massa desde a Guerra Fria. Como somos quintal dos E.U.A., a propaganda que vingou aqui foi essa, se fossemos quintal da U.R.S.S., vingaria outra propaganda.

O medo só pôde ser trocado por ódio (ele já existia antes, mas não havia sido disseminado pela imprensa pois faltava um componente) e repulsa quando a podridão do sistema político foi escancarada através do PT. Pessoas muito ingênuas poderiam classificar como coincidência a retomada de uma agenda neoliberal (menos estado, meritocracia, visão empresarial de decisões fiscais na gestão estatal) e a mudança de regras nos leilões do Pré-sal. Outros enxergam como o objetivo por trás de se escancarar as vísceras do sistema político do Brasil capitalista.

Quanto mais essas vísceras são expostas, mais repulsa e indignação influem nas votações. Há um consenso popular de que o brasileiro faz piada de tudo, isso certamente condiz com Cacareco, Tiririca e Enéas. Quando o voto de protesto ocorre em cargos com menos poder, os danos são menores. O maior problema nas votações para esses cargos é na verdade a ignorância e a indiferença. Ignorância por ignorar as atribuições e importância do cargo, bem como o histórico e proposta do candidato. Indiferença derivada da ignorância, "quem manda é prefeito/governador/presidente".

Qual a diferença entre Enéas e Bolsonaro? Com certeza o intelecto conta, algo como comparar um cientista e o macaco que ele usa em testes. Enéas também sempre manteve a coerência em seus discursos nacionalistas, ao contrário da infinidade de atos patéticos de Bolsonaro em relação aos E.U.A. Mas a principal diferença foi a exposição das vísceras citadas anteriormente. O que resultou no PSDB afundando em uma velocidade menor que a do PT, mas ainda sim afundando, e no apoio relutante da parcela menos insana da classe média e alta a Bolsonaro (algo que Enéas nunca teve).

A piada deriva da indiferença. Para você fazer piada com algo que realmente machuca, você tem que ser diferenciado (ou profissional). É muito mais fácil fazer piada com algo que você não se importa. A indiferença deriva de várias coisas. Uma delas é enxergar uma situação em que você não tem controle. Ou enxergar cada vez mais que esse controle é ilusório.

Bem-vindo à democracia representativa capitalista. Bem-vindo também à realidade de um país periférico. A democracia representativa capitalista representa quem? Você. Mas em uma constante queda de braço entre você, obrigado a trabalhar para viver, e daqueles que vivem do seu trabalho (os capitalistas). "Ah, mas sem os capitalistas não haveria emprego!"
"Ah, mas sem a infraestrutura que o capitalista montou, não produziríamos qualquer coisa!"

Não vou entrar nessa discussão, discuta consigo mesmo para ver se consegue se convencer do contrário (é um ótimo exercício). Indiferente a essa discussão, a queda de braço ainda existe, os interesses não são os mesmos. Isso é o que os comunistas chamam de luta de classes, mas é irrelevante levantar o conceito agora. Essa queda de braço em quem vai ser representado pelo político é uma disputa muito simples: dinheiro X organização de pessoas.

Organizações de pessoas procuram fazer 'propaganda' do que você quer, como cidadão trabalhador, e de que é possível atingir objetivos lutando por seus direitos.

Dá muito trabalho. Estamos em uma democracia representativa, por que além de escolher meu representante eu ainda tenho que lutar para que ele faça que eu quero? Porque você não tem dinheiro. Essa é a parte 'capitalista' da democracia representativa.

A realidade de um país periférico é ainda pior. Os representantes que você escolheu e ainda tem que lutar para que eles façam o que interessa para você, são derrubados (são 114 até hoje). Nós estamos discutindo aqui os limites da democracia representativa e a importância da política, mas boa parte desses países entram em ditaduras.

Mas pense, para o indivíduo que já diz 'e daí?' na hora de votar, muitas vezes é até cômodo dentro da mente preguiçosa dessa pessoa, imaginar os benefícios de uma ditadura militar: "Eu não vou ter que votar mais, não adiantava nada mesmo. E os militares devem ser organizados, por causa da hierarquia e tal."

Nem vou entrar no âmbito do mito que militar não é corrupto, porque é patético. Eu já ouvi essas ideias sobre a ditadura ser uma opção, verbalizadas por colegas meus, então não se trata de fantasia minha.

Se os impactos de políticas tomadas em democracias representativas já causam mortes com toda contestação possível dentro de uma sociedade 'livre' (imprensa, processos jurídicos movidos por MP e organizações sociais, etc.), imagine em uma ditadura.

Eu, sinceramente, não consigo entender como alguém acredita que outra pessoa possa tomar uma decisão em seu lugar de forma arbitrária. É isso o que acontece em uma ditadura: decisão tomada, cale a boca (o "cala a boca" já está na moda novamente).

Toda essa quantidade inútil de palavras que escrevi até aqui foi para enfatizar que política e voto não são piada. Enquanto piadas são feitas e votos são queimados, pessoas morrem. Não se trata aqui da lei natural, porque uma vez que passamos a controlar parcialmente a lei natural, é nossa responsabilidade prezar pela maior quantidade de vidas possível (se descobrimos curas, por que deixar pessoas morrerem? Se produzimos comida suficiente, por que deixar pessoas morrerem de fome? Se conhecemos as áreas de risco da natureza, por que deixar pessoas em risco?).

Sim, a democracia representativa capitalista é extremamente limitada, mas dar as costas a vidas humanas até em um ato de mínimo esforço, que é votar na opção menos ruim, é uma falta de responsabilidade. Não é porque canalhice e falta de responsabilidade abundam que devemos abandonar até mesmo nossos esforços mínimos.

Enquanto esse sistema falho, onde os representantes são guiados por lobistas e ganância, não é derrubado, a responsabilidade cai em nossas mãos na forma de organização e voto. O voto é a parte mais fácil dela. Você pode manter a esperança de que a tecnologia chegue ao ponto de nos proporcionar uma democracia participativa ou mesmo que organizações sociais tomem o poder, ou não manter esperança alguma. Ainda assim, a responsabilidade cai sobre nós.


Termino o texto invertendo totalmente o propósito da frase do conservador Edmund Burke,
uma citação bem conhecida, e com certeza, usada por muita gente canalha, mas aqui, a visão do mal triunfar é clara: o dinheiro fica acima das vidas humanas.

"Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados."

Se a frase é criada com propósito torpe, ela pode ser tomada, assim como tudo o que foi construído, e dirigida para um propósito mais nobre.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Política Brasileira de 2013 à 2020 para (quase) Leigos



1. Bipolarização; Uma invenção de quem influencia o povo.

Desde 2013, após a moda dos “flash mob” seguida pelas manifestações, espalhou-se a ideia de uma suposta (bi)polarização da política. Em grande parte isso não passou de boataria, pois a relação entre poderosos do setor privado e do setor público pouco mudou desde estes eventos. O que ocorreu foi uma digitalização das discussões e uma aceleração da propagação de boatos e difamações que se mesclou às notícias pela internet. A nível de pequenos grupos obviamente aconteceram algumas “bipolarizações”, mas vamos ao histórico político do Brasil:
A candidata Dilma Rousseff do PT ganhou as eleições de 2014 por uma margem apertada sobre Aécio Neves do PSDB; Neste momento a “digitalização” das discussões políticas já havia crescido e talvez boa parte da população brasileira até estivesse aparentemente “bipolarizada”, ou seja, dividida em duas supostas ideologias (a esquerda do suposto socialismo e a direita do liberalismo) ou em dois partidos (PT vs PSDB). A maioria dos eleitores de Aécio (PSDB) se dizia indignada com a corrupção (do PT) ou pedia “alternância” no poder porque o PT estava na presidência do Brasil desde 2002. Porém, quando Dilma se reelegeu, ela não só continuou com seus acordos políticos (com o PMDB, por exemplo), como tentou agradar sua oposição: A direita composta principalmente pelos grandes empresários.
Suas tentativas se mostraram insuficientes para agradar os opositores e políticos do PMDB, por exemplo, exigiam que ela seguisse uma agenda mais liberal (“a Ponte para o Futuro”) ou seja, mais à direita, mais privatizações, menos investimentos sociais nos trabalhadores e aposentados e menos verbas para infraestrutura do país. A velha desculpa que isso resolveria o problema da recessão econômica, incentivando investimentos de grandes empresas… As grandes empresas que mal foram atingidas pela tal recessão econômica, como por exemplo os bancos privados Bradesco e Itaú que atingiam lucros crescentes ano após ano, sem interrupções.
Aécio então diz publicamente que não deixaria Dilma governar, enquanto Romero Jucá, político do PMDB, diz em ligação com o empresário Sérgio Machado da Transpetro, que era preciso um “acordão” para remover Dilma da presidência e parar todas investigações. E assim aconteceu. Dilma sofreu o processo de “impedimento” e foi afastada sendo sucedida pelo vice presidente Michel Temer do PMDB. O processo foi repleto de cenas peculiares como gritos evangélicos fervorosos e até um elogio a um militar torturador condenado…

2. Esconde-se a Crise Política, mas não a Recessão Econômica

Com Temer do PMDB na presidência, começou-se o abandono dos investimentos sociais e de infraestrutura. A educação, saúde e segurança públicas (que foram "criticadas" em manifestações por serem insuficientes) passaram a ser gradativamente deixadas em segundo plano diante benefícios fiscais e privatizações. A recessão econômica que se intensificou sob este governo "PMDBista" gerou o medo do desemprego e da pobreza na população.
Em algumas regiões do Brasil, aumentou-se também o medo da violência e do surto de criminalidade (como as que ocorreram durante as greves das polícias em variados estados etc). E medo é um sentimento bem utilizado por poderosos manipuladores, sejam eles ditadores políticos, religiosos, militares ou grandes empresários lobistas.

3. O Governo do Medo e da Ignorância

Portanto o dualismo partidário caiu por terra em 2018, mostrando a farsa da (bi) polaridade política. Mesmo porque PT e PSDB não são idênticos, mas também não são tão diferentes entre si: Ideologicamente o 1º partido é de centro-esquerda e o 2º, de centro-direita. Foi aí que o discurso anti política se intensificou.
O brasileiro nunca confiou muito em seus representantes, afinal sempre escutou-se que o Brasil é um país de corruptos. Então o candidato Jair Bolsonaro se aproveitou da onda anti-política e dos medos da população, apresentando-se como candidato, mas com a imagem de “capitão”, cargo que ele havia deixado em 1988. A verdade é que Bolsonaro tinha entrado na política em 1989 e de 1991 a 2018 ocupou o cargo político de deputado no Rio de Janeiro. Como a propaganda, as notícias e toda boataria em torno da política já se propagava em grande parte pelas redes sociais da internet, o candidato apoiado por discursos agressivos e falsas acusações sobre seus adversários, ganhou as eleições de 2018. Foi fácil associar o medo da criminalidade com os tabus sociais, principalmente de setores conservadores e de setores religiosos da sociedade. Foi assim que teorias sem fundamento como “conspiração comunista”, “ditadura gayzista” e “direitos humanos serve para proteger bandido” ganharam apoio de significante parte destes setores da população.
Assim é possível concluir que as eleições de 2018 já não tinham mais a tal bipolaridade anterior: Era uma disputa dos conscientes contra os inconscientes. O discurso do vencedor não teve conteúdo: Foi uma série de acusações paranóicas, discursos de segregação/ ódio e ignorância sócio-histórica. Seus eleitores são pessoas fascinadas por personagens “durões”, racistas, homofóbicos ou, em grande parte, são simplesmente pessoas que não sabem da história nem das condições de seu próprio país como um todo.
Portanto, a maior parte da idéia de bipolaridade foi apoiada em notícias enviesadas a favor do enriquecimentos de grandes empresas ou em mero sensacionalismo. A maioria da população do Brasil não tem conhecimento nem discernimento para escolher duas ideologias contrárias entre si. Na verdade nem sabem que tais ideologias (já antigas) tiveram suas origens durante o iluminismo / a Revolução Francesa na Europa do século 18.



quinta-feira, 31 de março de 2016

A perda de apoio dos moralistas e as atuais bases de sustentação do PT


Hoje é dia 31 de março, dia emblemático. Com manifestações marcadas para hoje e amanhã, estive perdido em reflexões que atrapalham a continuidade de algumas tarefas (como programar alguns exercícios em C# e o próprio projeto de mestrado), resolvi então colocá-las no papel (virtual) para analisá-las melhor e esvaziar a cabeça.

A primeira delas era sobre a perda da base de apoio moralista do PT. Eu estava pensando nas famílias de alguns amigos de classe média, cujos pais votavam no PT mas hoje não mais. É provável que a maioria dessas pessoas sejam pró-impeachment agora e com uma razão muito forte para elas: o PT traiu a confiança que esses eleitores depositavam no partido.

Essas pessoas, professores universitários (normalmente de cursos menos críticos do que Geografia e História, por exemplo), profissionais com ensino superior, etc. votavam no PT principalmente pela integridade moral do partido (na época) e pelo viés humanista de suas campanhas (eu me lembro da propaganda do PT que mostrava moradores de rua e afirmava: se você se comove com essa cena, você está conosco). Era fácil ver que os outros partidos (podemos dizer, os de direita) não estavam se importando muito com os pobres, os discursos estavam sempre protegidos pela máscara da importância do crescimento econômico e frases absurdas como "é preciso fazer o bolo crescer para poder dividir as fatias".

Tenho que fazer uma observação aqui sobre "cursos menos críticos do que Geografia e História, por exemplo", uma afirmação por tabela de que Geografia e História (e logicamente muitos outros como Sociologia, Economia (de base política, não neoclássica), Filosofia, etc.) são 'cursos críticos'. É claro que cada curso, em cada faculdade possui uma realidade distinta, mas há uma tendência, devido também a algumas correntes teóricas difundidas nesses cursos, de que os alunos que os cursam estudem a sociedade muito mais a fundo. Com o conhecimento dos 'motores' da sociedade, e claro, dentro de sociedades capitalistas o motor principal é o dinheiro, esses eleitores costumam ter uma visão mais complexa do porquê votar no PT (quando o fazem).

Então chegamos na segunda reflexão, sobre a perda de apoio de parte do eleitorado de esquerda. É claro que a divisão na esquerda sempre foi gigantesca. Parte dos alunos que se formam nos cursos críticos provavelmente nem se consideram de esquerda, podem considerar que foram 'forçados' a acreditar em algumas ideologias, ou escolheram focar nas bases tecnicistas dos cursos e no mercado de trabalho, ou acreditam em uma solução de centro: alternância de poder, políticas de acordo com as tendências econômicas, etc.

Dentro do grupo que se considera de esquerda o racha sempre foi enorme: sociais democratas, socialistas, comunistas, trotskistas, anarquistas, etc. As diferenças entre quais soluções são as melhores para os problemas da realidade brasileira e como alcançá-las sempre foram objeto de discussão infinita, entretanto havia uma convergência (que mesmo a direita afirma querer): reduzir a pobreza.

Quer queira, quer não, o PT foi eleito e resolveu boa parte do problema. Para mim, particularmente, é revoltante ver o que os governos anteriores fizeram para resolver isso: nada. Claro que há o discurso de que alguns desses governos estavam "lançando a base para a solução ... criando uma economia sólida ... blá ... blá ... blá", não me convencem. Eu reconheço algumas soluções, independentemente de quem as criou, e acho que foram boas políticas: plano real, lei do medicamento genérico, Bom Prato, etc. Não vou nem discutir as intenções por trás de cada uma (pode-se afirmar qualquer coisa de maneira leviana, sem provar, desde que FHC usou o plano real criado pela base do PSDB na gestão Itamar como trampolim político, Serra beneficiou conhecidos com sua lei ou Lula estaria 'comprando votos' com o Bolsa Família). O que importa aqui é que, Lula tirou milhões da fome, muita gente deixou de morrer, um problema crítico e vergonhoso da sociedade brasileira foi vencido.

E é aqui que as coisas começam a complicar, o PT foi reeleito, e reeleito, e reeleito de novo! Resolvido esse problema mais gritante, o governo foi implantando suas políticas, como qualquer outro anterior (aqui podemos, é claro, incluir uma enorme discussão: cotas, pró-uni, casa para todos, aumento do salário mínimo, etc. Governos de outros partidos fariam a mesma coisa? Não sei.). O fato é que, são medidas que podem ser questionadas tanto pela esquerda como pela direita, por exemplo, alguém de esquerda poderia dizer "O Pró-Uni aumenta a quantidade de vagas no ensino superior, mas com qualidade questionável!" e alguém de direita poderia bradar "Essas políticas assistencialistas não são sustentáveis!". A verdade é que a gente gosta de bater no governo, isso vem de longa data, é só buscar programas televisivos. Como a sociedade é governada através da representatividade, é inevitável que o descontentamento da população recaia sobre os representantes.

Isso fica muito mais grave com um desgaste devido ao longo tempo no poder e a incitação acumulada de grupos midiáticos. Veja bem, o governo do PT geriu a máquina estatal de maneira muito ruim em vários pontos, principalmente na área de meio-ambiente e no tratamento dos povos indígenas. O partido inflou, absorvendo quadros absolutamente questionáveis (vide Delcídio de Amaral), moralmente falando, já haviam membros questionáveis desde o início (Palocci? Zé Dirceu?). Geriu o país, em muitos pontos, como os velhos partidos faziam, toma-lá-dá-cá, corrupção (pode-se até questionar uma condenação com algo tão 'forçado' como a Teoria do Domínio de Fato, mas que a corrupção continuou 'comendo solta' todos sabemos), lentidão. Mas o que realmente conflagrou a guerra ao PT foi a incitação da mídia, é ela que decide o que mostrar, quando mostrar, e com que frequência.

Aqui chego na terceira reflexão: com o desgaste natural, a equalização (mesmo que apenas em alguns setores) do PT com os partidos governantes anteriores, a anti-propaganda midiática e o mais agravante, um judiciário que inspira pouca confiabilidade, é sábio parte da esquerda assumir posição pró-impeachment?
Podemos questionar várias coisas aí: Esse setor de esquerda pró-impeachment tem alguma relevância numérica? O impeachment é legal ou não? Quem se beneficia com a culminação do impeachment?
É verdade que a relevância numérica do PSTU e da Conlutas pode não ser muito grande, mas nesse momento específico qualquer fato que a mídia resolva explorar pode ter um impacto profundo. Vários juristas estão se digladiando sobre a legalidade do impeachment, bem, eu fico do lado dos que acham o impeachment baseado nas 'pedaladas fiscais' ilegal. E aqui o ponto mais importante: quem se beneficia do impeachment NÃO é o PSTU, nem a Conlutas, nem o trabalhador (pode aguardar a aceleração da destruição da CLT assim que Temer assumir - e não amiguinho, políticas neoliberais para a suposta melhora da economia não irá resultar em melhoria alguma na sua qualidade de vida).

O PT perdeu boa parte da base de sustentação, até mesmo dentro do próprio partido, e o que o sustenta hoje é um misto de crédulos, sindicatos, beneficiados pelas suas políticas e na atual conjuntura, aqueles que acreditam que a disputa está se resumindo à esquerdaXdireita, estado de bem-estar socialXneoliberalismo e os que acreditam que a disputa chegou ao ponto de democraciaXestado de exceção, nacionalismoXentreguismo.
Não, o PT não representa mais parte dessas bandeiras, eu nem acredito em boa parte delas, mas fui obrigado a tomar um lado, meu lado sempre foi contra a fábula de que o sistema capitalista recompensa os inteligentes e trabalhadores, sempre foi contra a hipocrisia de setores que se dizem "neutros" mas selecionam tudo o que mostram, e embora encare a democracia ocidental como falha e hipócrita, sempre serei contra o atropelamento da democracia para favorecer os setores de bolso cheio da nossa sociedade.

Por isso estou no grupo do dia 31, às ruas!