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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Política Brasileira de 2020 a 2026: Uma questão ética?

 Há 6 anos atrás escrevi neste blog um resumo de minhas impressões sobre a política no Brasil desde as manifestações públicas de 2013 até o governo de Jair Bolsonaro antes da pandemia: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/02/politica-brasileira-de-2013-2020-um.html

Estava claro o movimento de grandes capitalistas (mega empresários e pastores multimilionários) manipulando medos e anseios da população brasileira: a presidenta Dilma Rousseff foi deposta de seu cargo por uma acusação supérflua de "pedalada fiscal". Tais "pedaladas" praticamente são a mera gestão de dívidas, onde se escolhe quais devem ser pagas antes, e quais devem ser pagas posteriormente com multas: algo que vários outros presidentes e governadores realizaram ao longo da história.

O sucessor, Michel Temer, mudou os planos de governo, priorizando a iniciativa privada, beneficiando grandes empresários e desprezando a maioria do povo constituída pelas classes sociais mais baixas...

O presidente seguinte, Jair Bolsonaro, que ganhou as eleições se autoproclamando capitão e apoiado por uma campanha eleitoral repleta de acusações falsas sobre seus adversários políticos, faz uma gestão de demolição da infraestrutura do país: privatizou setores públicos derrubando a qualidade dos serviços oferecidos (casos como a venda da Eletrobras, de setores da Petrobras, desvio de verba do CAPS para comunidades terapêuticas privadas, liberação do uso de eletrochoque em pessoas com TEA/ autismo etc). Além deste desmonte de grande parte da estrutura básica nacional, o presidente neoliberal (capitalista) espalhou discursos de ódio, incitando preconceito contra mulheres, negros, indígenas, população LGBTQIA, exaltando ideias e símbolos nazi-fascistas e debochando de doentes terminais!! Sim, durante sua gestão a pandemia de Covid alcançou o Brasil fazendo centenas de milhares de vítimas e o tal presidente não só ridicularizou a situação, como também adiou a compra de vacinas, e criticou a utilização de tal meio de combate à doença, inventando alternativas mentirosas, sem comprovação científica e sem eficácia. Além disto tudo, o governo Bolsonaro criou emendas e o tal orçamento secreto, favorecendo deputados e senadores. Tal favorecimento deu mais poder a estes tipos de políticos ainda tão obscuros no Brasil: o poder de decisão aumentou nas mãos desta categoria de políticos que a maioria dos brasileiros ainda desconhece a importância! Por fim, a família de Jair Bolsonaro (filhos etc), esteve envolvida com variados casos suspeitos: alguns a serem investigados e outros notoriamente criminosos! A popularidade de tal líder neoliberal então foi abalada e ele perdeu as eleições seguintes para Luís Inácio da Silva (Lula) do Partido dos Trabalhadores, em 2022. Como se não bastasse tudo isto, o ex-presidente derrotado nas urnas, ao lado de alguns militares e de um grupo de manifestantes massa de manobra, planejou assassinar o vencedor das eleições presidenciais de 2022, o seu vice (Geraldo Alckmin) e o ministro da justiça Alexandre de Moraes. Os planos foram abortados, mas descobertos... e gerou consequências para o ex-líder conspirador.

Apesar de Lula assumir a presidência, havia um estrago feito na política brasileira e reverter isto não se mostrou exatamente fácil. O mandato do presidente de centro-esquerda foi de negociações atravancadas com deputados e senadores predominantemente neo liberais/ capitalistas e de certo fuzilamento de sua imagem: Muita coisa voltou ao seu "normal" no Brasil com a mídia fazendo cobertura enviesada a favor de medidas neoliberais (lucrativas para bancos, grandes produtores e mercados privados) e com a propagação de "fake news" pela internet à respeito da imagem de Lula, de suas políticas e de seus aliados no governo. Em resumo, devido a tais problemas, é possível assumir que pouco foi realizado no âmbito dos interesses coletivos e da infraestrutura do país durante o governo Lula. Claro que em tempos de animosidade e discursos emotivos, muitas pessoas poderiam questionar: mas Lula não erra? Todas acusações contra eles são falsas (fake)? Certamente ele comete erros, mesmo porque está no maior cargo executivo do país e negocia não só com políticos de um legislativo com predominância de partidos opositores a ele, mas também faz a mediação entre diferentes setores do país que às vezes tem interesses opostos e até conflituosos entre si. Referente às acusações ou possíveis crimes que Lula possa ter cometido, é assunto longo que ocorre também com vários outros políticos há muitos anos na política nacional e internacional. O que eu posso afirmar resumidamente é que recentemente Lula abriu o sigilo de todas as suas contas, enquanto seu opositor na atual corrida eleitoral, Flávio Bolsonaro, abriu o sigilo somente das contas de suas respectivas empresas, omitindo informações sobre suas transações particulares/ pessoais.

E eis que neste mês de outubro de 2026 foi realizada nova eleições: A maior quantidade de candidatos de direita (neoliberais etc) foi eleita no legislativo do Brasil e o candidato deste mesmo lado político, Flávio, filho do ex-presidente derrotado, ganhou o 1º turno na corrida à presidência contra Lula. 

Mas aqui cabe uma análise para além de números e para além de fatores meramente externos - uma análise filosófica e portanto, moral e ética da política brasileira desde a ascensão do "bolsonarismo". Este movimento ganhou força não só devido a interesses econômicos de determinados grupos ou devido a mera descrença em partidos "x" ou "y". Muita gente que votou na família nem alega ser "bolsonarista": principalmente em 2018, quando Jair ganhou as eleições utilizando-se da imagem de militar "contra a corrupção". O discurso contra a corrupção explodiu desde as manifestações de 2013 (contra o aumento do valor das passagens de ônibus e outras pautas posteriores) e embora pareça justo esconde uma grande imprecisão: Que corrupção? Uma resposta muito comum a esse tipo de questionamento é a que políticos enriquecem, serviços de qualidade não surgem, o poder aquisitivo/ econômico do povo fica estagnado ou diminui... Mas outra pergunta importante é quem enriquece? E quem são os responsáveis pelos problemas mencionados? ... aí o negócio começa a ficar difícil porque muitos dos insatisfeitos da população brasileira (não muito diferente da população de outros países), não quer saber!! Ou "quer saber", mas aceita o 1º acusado que vê como sendo o culpado pelos principais problemas do país, ou até mesmo como culpado por TODOS os problemas do país! Esta sede e/ ou aceitação por um grande culpado é um caminho fácil que não requer muito raciocínio nem estudo e o "grande culpado" é basicamente a imagem de um "super vilão" - não precisa ser real - só precisa ser um alvo fácil para se descarregar emoções negativas, frustrações etc. 

Existem muitos problemas nesta aceitação de super vilão do país bem como existe muitos problemas na divulgação de tais "informações" sobre grandes culpados pela corrupção no Brasil. Primeiro analisemos o lado que aceita a imagem de super vilões: Por ser um movimento que exige pouco ou nenhum raciocínio, ele facilmente afeta massas com pouco estudo e/ ou multidões que consomem mídias sensacionalistas sedentas por atenção (e dinheiro). Obviamente ele pode afetar outras pessoas por uma série de questões, afinal a sociedade é complexa, mas vamos seguir analisando o outro lado: Em segundo lugar então, há quem veja grandes oportunidades em difamar figuras públicas. Denunciar indivíduos com grande poder econômico ou financeiro envolvidos em atividades fortemente suspeitas ou impunes após cometerem crimes comprovados é uma coisa, mas criar "grandes vilões" é outra coisa. É a tática de criar inimigos e criar culpados fazendo acusações impactantes mas sem provas, unidas a um discurso que se aproxima de anseios do povo ou, ao menos, de anseios de alguns setores da sociedade. É uma tática utilizada por grande parte da mídia capitalista (emissoras de tv, redes sociais etc) há décadas. Remover um líder seja um ativista ou um político que lute por questões sociais como equidade, manutenção de serviços públicos essenciais ou distribuição de renda e condições dignas de vida, é de interesse para muita gente - multimilionários querendo acumular fortunas cada maiores, líderes religiosos intolerantes etc. É por isso que o bolsonarismo se espalhou tanto: significativa parte dos multimilionários não querem um governo de esquerda radical (socialista) nem de esquerda moderada (social democrata), pois preferem governos de direita moderada (neo liberais/ capitalistas) ou direita extremada (fascistas, nazistas, franquistas e, mais recentemente, trumpistas e bolsonaristas). Esta explicação resumida pode parecer omitir uma alternativa supostamente neutra na política (de "centro"), mas não há neutralidade de fato na política, pois quando decisões são tomadas, elas favorecem certos tipos de interesses e priorizam determinados setores da nação. Toda prática na política, assim como em outros assuntos, tem uma intenção por trás, e portanto uma finalidade que não é totalmente neutra. Então com o exemplo citado acima fica nítido que chamar o atual movimento de direita extremada no Brasil meramente de bolsonarismo é associar somente a família Bolsonaro aos interesses capitalistas e suas respectivos manipulações, quando na verdade ele é usado por multimilionários no mínimo desde a década de 1930. O fascismo surgido na Itália antes da 2ª guerra mundial é um exemplo de movimento que se apoia fortemente em criar "inimigos" para o povo. Movimentos religiosos que fomentam rivalidade seguem a mesma lógica, e até o nazismo ao inventar uma superioridade racial, se assemelha a tais movimentos de incitação de intolerância e/ ou de violência. 

Aqui nota-se duas principais motivações em tais tipos de movimento: a busca cada vez maior por riquezas materiais por determinados grupos de pessoas e a rivalidade religiosa ou étnica/ racial entre diferentes grupos. Ambas motivações já foram previstas desde a antiguidade: Platão (428 aC - 347 aC) critica tais tipos de pessoas classificando-as respectivamente como filokerdes (amantes do lucro, ou, interesseiros) e como filónikons (amantes da vitória/ da disputa, ou briguentos). O autor ateniense coloca estes dois tipos de pessoa em oposição àqueles que amam ou buscam o saber: os filósofos. Platão argumenta ao longo de suas obras que o verdadeiro conhecimento/ saber é incompatível com a priorização do ganho de riquezas, de bens materiais e dos prazeres sensoriais. Um indivíduo intolerante/ briguento, bem como um interesseiro ou hedonista, não se importa verdadeiramente em construir conhecimento, pois isto requer valores universais, ou seja, éticos: justiça, coragem, sophrosyne (moderação e auto-conhecimento) e kalos (bondade/ beleza principalmente psíquica). Não só isso, os intolerantes e interesseiros, de acordo com o filósofo ateniense, não são qualificados para governar: Um governante deve se pautar pelos valores universais para que atenda a necessidade do coletivo (na época e região em que Platão viveu, as cidades-estado, hoje seriam os países e seus respectivos estados e cidades). Logo, conclui-se que a proposta de governante ideal da filosofia socrática/ platônica não é meramente de uma "classe" de pessoas chamada de filósofos - os filósofos seriam os melhores governantes porque não apresentam interesses particulares nem rivalidades fúteis ou opniáticas. Em sua busca por viverem os valores universais, eles priorizam o coletivo - o maior número de pessoas. Tal priorização é uma postura ética que envolve não só condições materiais dignas para todo o estado (nação), como também uma educação de qualidade.

Claro, que na época de Platão haviam diferenças na sociedade em relação aos dias de hoje, bem como haviam diferenças nas condições de variados grupos de pessoas: nem todos podiam priorizar os estudos e as guerras eram mais frequentes, e talvez os preconceitos supersticiosos se espalhassem mais rapidamente ou se enraizavam mais firmemente na antiga sociedade helênica (grega) entre tantas outras diferenças... Mas as bases éticas para a política e para a filosofia foram lançadas pelo filósofo que influenciou inúmeros autores posteriores, seja nas nações falantes da língua árabe entre os séculos 7 e 13 ou na Europa que colonizou a América após o século 15. Para Platão, por exemplo, a classe governante composta de filósofos deveria regular a classe mercantil para que essa não ganhasse poder e passasse a governar o estado/ o coletivo. Para isso ela contava com apoio da classe "guardiã" que teria uma educação humanizada (com artes como música, poesia etc) e não meramente militar. Ambas as classes (a governante e a guardiã) não deveriam ter acesso ao dinheiro, pois para exercer suas funções de cuidar do povo, elas deveriam ter uma vida coletivizada com as condições básicas garantidas, sem excessos. Apesar de filósofos como Platão serem estudados e discutidos com o passar do tempo, os conflitos que se alastraram ao longo da história das nações indicam que a ética e seus valores universais por muito tempo não tiveram centralidade prática na política e nos governos das nações. Ela também nunca se enraizou nas grandes religiões e grandes igrejas, bem como mal adentrou as empresas da era moderna após a revolução industrial, afinal existem indivíduos que se mostraram éticos e os que se mostraram antiéticos ao longo da história. Conforme o tempo passou, injustiça, pobreza, exploração, enganação se mostraram temas regularmente recorrentes, debatidos e combatidos com maior ou menor eficácia, mas a verdade é que a política não se limita à abundância ou à ausência de recursos materiais - ela requer a externalização de intenções humanas moralmente benéficas. Esta é a ética que deveria propagar ações justas, educação, equidade etc.

O que eu chamei de "inconscientes" no meu texto de 6 anos atrás eram as multidões amedrontadas pelos discursos criadores de inimigos e/ ou fascinadas por promessas de recompensas fantásticas e individualistas. As pessoas podem ser desinteressadas ou imediatistas, mas não dá para isentar quem está em posição de poder e usa deste poder para espalhar violência, desigualdade e outros problemas. Líderes manipuladores com interesses em lucros particulares, ou em beneficiar certos grupos atacando outros, são no mínimo responsáveis em algum nível por gerar problemas à sociedade pois são propagadores de discursos com opiniões antiéticas e nocivas.

Precisamos de mais consciência, porém muitos dos indivíduos poucos ou nada interessados em conhecimento, ou poucos interessados na verdade, são manipulados por aqueles que Platão chamaria de filokerdes e filonikons. Isto ocorre há séculos por variadas causas, mas certamente um dos principais motivos é a necessidade da difusão de conhecimento e da ética e seus respectivos valores universais que são benéficos para o coletivo/ para o maior número de seres possível. Temos pouca conscientização política e histórica nas escolas, seja no ensino básico ou até no superior - há muito o que melhorar na educação do Brasil, tanto em acessibilidade aos estudos, como em humanização.

Voltando às atuais eleições, talvez ainda seja cedo para avaliar a virada de Lula no 2º turno deste ano de 2026, mas a diferença de propostas e de postura entre os candidatos era notória... e pública: A oposição de Lula, como nas duas eleições anteriores, apresentava conteúdos na internet e discursos repletos de mentiras! Ainda que alguns apoiadores de Lula recorressem às mesmas técnicas, qualquer entrevista ou debate entre os 2 candidatos evidenciou o abismo entre eles - o candidato da centro-esquerda, ou esquerda moderada (Lula), tentava mostrar o que fez em seu governo e questionava o adversário sobre seu envolvimento em ações no mínimo suspeitas (serão criminosas, caso as investigações ocorram e provem atos ilícitos etc)... enquanto o candidato da direita extrema (capitalista com ideologia de exclusão de gêneros e raça, fomentador de rixas religiosas etc), Flávio, usava o tempo todo de retórica, oratória com emoções inflamadas e omissões sobre suas próprias ações questionáveis. Porquê? Por que não há mais ética na maioria dos candidatos e grandes apoiadores da (extrema) direita. Como foi dito neste texto e no texto de 6 anos atrás, esse movimento iniciado em torno de Jair Bolsonaro pouco antes de 2018 se apoia em acusações falsas, sensacionalismo, alarmismo, fomentação de rixas e idolatria da concentração de renda e de bens nas mãos de poucos! Podem chamar tal movimento de bolsonarismo, de neo fascismo ou de nazi-fascismo, mas tais nomenclaturas pouco importam - o movimento da direita extremada apresenta tudo que Platão já havia criticado e refutado há cerca de 2400 anos!! É um movimento de interesseiros e briguentos apoiados em sofisma (retórica com poucos ou nenhum fato), com finalidade de beneficiar uma minoria de grupos privados e alguns grupos religiosos, portanto um movimento anti universalidade, anti filosófico e antiético.

Não tenho certeza de quão éticos são Lula e seus aliados, mas sei que, ao menos neste mês de outubro de 2026 eles lutaram por um pouco mais de universalidade (um importante elemento da ética) e contra aqueles que se afundaram em ideologias e ações predominantemente antiéticas.

sábado, 29 de outubro de 2022

Pensamentos e sentimentos influenciam o Coletivo?

 

Como nos tornamos uma sociedade que ignora os fatos e a empatia? 
Geralmente entende-se que existem sentimentos bons e ruins com certa facilidade, mas o mesmo não é tão simples assim quando nos referimos aos pensamentos. Embora algumas pessoas possam afirmar que existem pensamentos ruins e bons, se tratando de um tema mais racional, certamente a coisa fica mais complexa: Seria possível um pensamento bom independer de um sentimento bom? E um pensamento ruim independer de um sentimento ruim? 
Eu entendo que eles devem ter algum tipo de ligação entre si (pensamento bom com um sentimento bom e um pensamento ruim com um sentimento ruim), mas talvez um não dependa do outro. Não totalmente. 
Explicarei com alguns exemplos: Pensar (e planejar) a equidade, o progresso e o zelo entre todos seres humanos é bom, mas não requer um sentimento bom direcionado a todos seres humanos, uma vez que tal sentimento se for possível, deve ser algo raro devido a sua grande amplitude. Pensar (e planejar) a equidade, o progresso e o zelo entre todos seres humanos seria o reverso de não pensar (nem planejar) a equidade entre todos seres humanos. Seria também o reverso de tumultuar e propagar destruição e retrocessos. E por fim, ao invés do zelo, teríamos descuidos, boataria e mentiras. 
Tudo isto independe dos sentimentos, ao menos em algum nível, porque os exemplos ruins (negativos) podem ser propagados com uma dose maior de ignorância do que com sentimentos negativos como ódio, intolerância etc. 
Isto significa que quem pensa ou age conforme os exemplos ruins aqui citados são totalmente neutros em suas relações (seja com a comunidade, com a nação ou com a política)? Não. Como eu afirmei em textos anteriores, esse negócio da neutralidade é praticamente inexistente porque pressupõe uma falta de intencionalidade por parte do ser humano, quando na verdade sempre há alguma intenção, seja vaga ou clara... 
Obviamente, se tratando de relações humanas a nível coletivo, o assunto fica mais complexo, pois temos as mídias de massa, as redes sociais com seus influencers, etc etc. Tudo isto influencia na decisão das pessoas... Mas até que nível? Já não sei dizer, mas sei que quanto menos nos esforçamos para pensar e entender nossa sociedade e nosso país, mais manipulados somos. Quanto mais optamos por ver o que é meramente agradável, o que é fácil ou o que está de acordo com tradições, menos pensamos. Quanto mais colocamos a culpa de nossos problemas no passado, menos resolvemos problemas no presente. Quanto mais temos medo de possibilidades futuras, temos menos paz e menos saúde (mental principalmente). Temos a capacidade de pensar e de sentir, assim podemos estudar, checar informações, buscar entender os outros, se colocar no lugar deles etc. Nada disso é realmente novo, pois se trata de manter-se consciente, um assunto que trato (principalmente na conclusão) neste outro texto que escrevi em meados de 2020: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/02/politica-brasileira-de-2013-2020-um.html
Sim, discorri sobre pensamento e sentimento aqui, para falar de política porque política esbarra em tudo. Ao menos nesta vida material. Já para quem crê em uma vida espiritual, acho difícil a política gerar impactos significativos lá "do outro lado", mas mesmo para espiritualistas e religiosos, a política é uma realidade que afeta seus corpos e mentes. 
Então se tratando de política temos um cenário muito parecido com o da última eleição presidencial (de 2018). De um lado, Luíz Inácio da Silva (Lula), um político voltado um pouco mais as questões sociais, como infraestrutura do país e direitos dos cidadãos. Um cara envolto em casos suspeitos (mensalão, sítio em Atibaia, pedalinho etc) como tantos outros políticos, mas que realiza um mínimo de ações esperadas desta classe. Outras acusações mais atuais contra ele são especulações sobre o que ele fará em seu mandato e fazem parte dos discursos que beneficiam o outro candidato, como mostrarei adiante. Então do outro lado, temos Jair Bolsonaro... Não o clássico político voltado a liberação do mercado, favorecendo principalmente os maiores oligopólios do país... Este é um cara que alegou em rede nacional que os portugueses nunca pisaram na África (nega a história do país), Um cara que fala em fuzilar pessoas de outro partido político. Um cara que defende torturador investigado e condenado. (fez tudo isso publicamente, diante câmeras) Um cara que atrasa compra de vacina em meio a um a pandemia mortal e planeja diversos esquemas fraudulentos durante a mesma pandemia. Um cara que reforça todo discurso de ignorância, imediatismo e ódio com a desculpa de não poder dizer o que pensa, quando na verdade pensa o tempo todo em prejudicar o maior número de pessoas para favorecer a si mesmo e uns poucos aliados. Aliados que reproduziram discursos nazistas, desmataram a Amazônia, sucatearam a FUNAI e a Eletrobrás e outros setores da infraestrutura. Um cara que quer controlar completamente o poder judiciário, destruindo uma das instituições básicas de equilíbrio de poder da república. A lista de atentados e crimes deste candidato a presidência do Brasil é surrealmente grande. Para um candidato que governou só um mandato, as ações reprováveis deste ser, certamente bate os recordes de qualquer outro político que tenha passado pela presidência do Brasil. 
Mas, como um cara desses subiu ao poder? Simples: Pode até ser que as mentiras criminosas (fake news) durante a corrida eleitoral favoreceu o candidato, mas a verdade é que ele representa uma parcela grande da sociedade: Pesquisas feitas entre o 2º semestre de 2020 e o 1º semestre de 2021, que indicavam o período de menor popularidade de Jair, ainda sustentavam cerca de 30% de apoio por parte dos eleitores brasileiros! 
Tais informações são um indício que vivemos em uma civilização que (ainda) alterna entre a histeria movida à boataria (fomentação de rivalidade, orgulho e intolerância) e frieza movida a base de ignorância ou ganância. Isto é evidente fora da política, em setores como o mercado e a religião, por exemplo: 
Trabalhadores não se enxergam como uma classe há anos: Vivemos na era da auto exploração induzida principalmente por empresários de grandes corporações e eventuais empresas de médio porte sob discursos de produtividade e meritocracia; (para mais esclarecimentos sobre este assunto recomendo a leitura do livro "A Sociedade do Cansaço" de Byung Chul Han.) 
Muitos religiosos não desenvolvem espiritualidade alguma: São pessoas manipuladas por líderes religiosos (pastores ou padres conservadores) gananciosos que propagam discursos de intolerância, rivalidade e conseqüentemente espalham medo e ignorância. As religiões cristãs que são dominantes em países americanos como o Brasil, desde meados do século XVI, foram inundadas por sensacionalismo após o desenvolvimento das mídias de massa e digitais. Não se trata de poucos líderes religiosos enriquecidos manipulando as massas como ocorria nas eras medievais e coloniais: Se trata de descaracterizar o próprio cristianismo, distorcendo e abandonando os ensinamentos centrais de amor a Deus (ao Todo) e de amor ao próximo (a todas pessoas). 
 Isto sem contar as classes militares como a polícia e o exército tomados por um número crescente de ações violentas (sem entendimento da sociedade, sem inteligência investigativa e sem capturar os maiores traficantes de produtos ilegais no país), tomados pelo abandono das funções originais (de proteger a maioria da população, que é pobre) por intromissões na política (colaborando com uma política policialesca e com punitivismo). 
Tais discursos e ideologias (meritocrática, fundamentalista e/ou punitivista) são aceitas pelas pessoas porque elas têm algum espaço "na mente". Este espaço pode ser mais intelectual/ racional surgindo como uma forma de desconhecimento (seja por falta de oportunidade de estudo, por opção de estudar pouco ou nada etc), ou pode ser mais "emocional" (referente aos sentimentos) como algum vazio afetivo ou existencial. Na verdade os discursos nocivos podem ser assimilados pelo fato das pessoas terem ambos espaços (desconhecimento e vazios afetivos/ existenciais). 
Eu não tenho uma mensagem mágica que fará as pessoas a se tornarem mais empáticas, estudiosas, colaborativas ou unidas. Mas tenho esperança de que um dia, de alguma forma, nós aprenderemos a importância destas posturas e virtudes como sociedade (seja a nação ou a raça humana de todo planeta). Seja por caminhos com mais sofrimentos ou com menos sofrimentos.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

A Importância do Conteúdo Inconsciente

 

A "Futilização" Inconsciente 
Neste texto faço uma análise dos meus "sonhos" e busco explicá-los sob o olhar de algumas teorias psicológicas, sem me prender a qualquer uma delas.

Daqui um ou dois meses eu completarei 3 anos anotando meus sonhos... Ao menos os que eu me lembro ao acordar. Comecei a fazer isto por questões bem particulares relacionadas a assuntos que considero espirituais, mas neste ano de 2022 gradativamente eu vim percebendo que, em meus sonhos, eu fui lidando cada vez mais com futilidades... Como assim? 
Os sonhos de "teor espiritual" que eu tive eram questões que eu resolvi com auxílio de ensinamentos do espiritismo, da umbanda e principalmente do cristianismo (não, não foi algo relacionado a uma religião, igreja nem congregação específica). Porém, após meses de empenho em me espiritualizar baseando-me principalmente em lições sobre humildade e solidariedade, os sonhos de teor espiritual cujo muitos eram assustadores e terrivelmente incômodos, foram dando espaço a diálogos mentais, na maioria das vezes com assuntos que me parecem comum na vida das pessoas, mas em geral desinteressantes para mim. Estes assuntos geralmente giram em torno de discussões superficiais sobre algum trabalho, sobre alguma ciência, particularmente psicologia que é uma área que eu estudo, ou sobre hobbies relacionados a busca por prazeres dos seres humanos. Esta busca por prazeres a que me refiro, surge em meus sonhos sempre relacionada a pessoas que eu conheço e convivo (ou convivi) com certa frequência: família, colegas da faculdade e às vezes de outros círculos que frequento e frequentei, como grupos do trabalho, do bairro e de hobbies, de "voluntariados" etc. 
Antes de começar a anotar os sonhos no final de 2019, eu ocasionalmente me lembrava de um sonho ou outro, e de fato, os assuntos do cotidiano e de rotina, frequentemente apareciam em meus sonhos de maneira aparentemente entediante, superficial e/ ou fútil. Porém após os eventos que me fizeram realizar minhas "anotações oníricas" e buscar uma espiritualidade, os sonhos se tornaram muito vívidos. Mais vívidos do que qualquer sonho vívido que eu tive antes do ano de 2016, ou seja, mais do que qualquer sonho que eu tive em 35 anos de vida no velho planeta Terra. Às vezes o termo vívido me parece impreciso para explicar estas experiências "oníricas", pois muitos destes sonhos a que me refiro parecem mais reais do que meu período de vigília (acordado) na Terra. Mais reais porque não existe o filtro do corpo de fato: Parece que minha essência (alma ou mente) interage diretamente com outras mentes e que toda manifestação sensorial dos sonhos (imagens, sons etc) é um mero cenário ocultando uma vastidão de elementos psíquicos meus e dos outros com quem interajo. É quase uma realidade a parte, mas não completamente separada, pois é conectada com meu período de vigília, através das experiências que geram aprendizado, através das reações emocionais etc. Mas porque tudo, ou quase tudo, em meus sonhos parece estar se tornando fútil? Acho que não é uma pergunta difícil: a resposta é que a maioria das pessoas gosta de ser fútil (certamente eu me incluo entre estas pessoas com alguma frequência). 
Em nossa atual sociedade pós moderna, existem inúmeras maneiras de ser fútil, afinal com o desenvolvimento das mídias de massa (rádio, tv etc), da internet, da indústria de entretenimento (cinema, jogos eletrônicos, streaming, netflix etc) e com a propagação da comercialização de produtos psicoativos legalizados (bebidas alcoólicas e cigarro), as maneiras de ser fútil se multiplicaram como nunca visto antes nos 5.500 anos de história escrita da humanidade. Independentemente se meus sonhos são apenas reflexões da vida consciente ou se apresentam aspectos de uma existência que transcende o corpo, estes conteúdos fúteis me mostraram a profundidade que eles podem alcançar na mente humana. 
Na psicologia, alguns autores da linha psicanálitica (Freud, Lacan, Klein, Winnicott, Jung entre outros) indicaram o quanto o ser humano pode enganar a si mesmo (ou tentar), escondendo conteúdos incômodos, ou difíceis de lidar em seu inconsciente. Isto ocorre porque nenhuma memória ou sentimento deixa de existir repentinamente podendo ressurgir do nada algum tempo depois. Nossos sentimentos continuam existindo e podemos fingir que não os temos ou podemos lidar com eles, seja um sentimento "bom ou ruim" e o mesmo fenômeno ocorre com nossas memórias. 

 Mas os conteúdos fúteis deveriam predominar em nosso inconsciente? Se isto acontecer com a maioria das pessoas, não seria um sinal que há algo errado com a humanidade? 
Os conteúdos que parecem me cercar de fato são assuntos que as pessoas falam o tempo todo: de trabalhos rotineiros, estudos superficiais, hobbies/ passatempos e prazeres sensoriais relacionados às bebidas e comidas. Mais raramente falam sobre prazeres de teor sexual porque isto ainda é tabu em nossa sociedade. Todos estes assuntos também me cercam em meus sonhos, mas conforme fui me dedicando à espiritualidade, foi ficando mais nítido que estes conteúdos eram cada vez mais externos, ou seja, são cada vez menos meus, parecendo conteúdos de outras mentes as quais eu escuto e indago em meus sonhos. A atividade/ interação vívida durante meu sono que mencionei anteriormente. 
Independentemente se são meus ou não, estes conteúdos no inconsciente não mostraria uma priorização crescente do que é superficial? Ou seja, uma priorização do que não tem profundidade nem racional nem sentimental... ? Tais conteúdos deveriam ser um mero passatempo, algumas pausas para descanso ou talvez um "ócio criativo", mas não algo que nos guie, muito menos que nos inspire porque eles sequer trazem algum tipo de esperança. 

 Assim, eu vejo clara proximidade destes fenômenos inconscientes com o adoecimento de nossa sociedade. Se não buscamos nem valorizamos os bons sentimentos mais profundos e/ ou mais vastos, quais serão as consequências disto para a sociedade humana? 
Se todos interagimos uns com os outros e regularmente não só no lazer, mas no trabalho, nos estudos e dentro de um sistema econômico e social-político, significa que precisamos uns dos outros como seres humanos inseridos em uma comunidade ou civilização - Significa que cada ser humano é um sistema com pensamentos, memórias, opiniões, sentimentos que se expressam no diálogo, no lidar, no aprender e nas emoções que afetam o próximo. Significa que nós como sistemas racionais e sentimentais, quando interagimos uns com os outros e quando colaboramos com a comunidade ou nação em que vivemos, formamos sistemas sociais, ou seja nossa sociedade, que vão desde grupos de amigos, famílias, colegas de estudos e de trabalho até cidadãos, membros de um estado e de uma nação. O que será de nós ao priorizarmos discussões superficiais ou fúteis em nossas vidas? O que será de nós se ninguém prioriza uma empatia solidária? Será que ao priorizarmos a superficialidade no trabalho, nos estudos e no lazer, não perderemos a tolerância uns com os outros? Será que não vamos dar as costas aos necessitados? Será que não vamos começar a acreditar em qualquer acusação ou boato que surgir em nossa frente? 
O neuropsiquiatra fundador da logoterapia, Viktor Frankl, estudou a importância do sentido de vida nas pessoas. Não vou detalhar a teoria de Frankl neste texto, mas para quem ainda não conhece, recomendo o livro Em Busca de Sentido. 
Enfim, este sentido de vida pode (e deve) orientar o ser humano para além de si mesmo, ou seja, para um sentimento dedicado às pessoas amadas, para uma tarefa que sirva às outras pessoas ou para uma espiritualidade/ fé em algo maior, algo que nos dê esperança e certamente possa propagar esta esperança. Afinal o ser humano não existe para si mesmo individualmente - ele é um ser social, que apesar dos conflitos, aprende a colaborar com o próximo, evoluindo e esta evolução requer tolerância entre indivíduos e grupos e uma busca por desenvolvimento racional e emocional. Esta busca deve nos orientar, ou seja, precisa se tornar nossa prioridade. É ela que deveria predominar nosso inconsciente (ao menos em algum ponto de nossas vidas) e nos guiar como seres humanos, cultivando o se importar não só com os pequenos círculos sociais (família e amigos) mas também com os grandes círculos sociais (as comunidade, a sociedade, a civilização humana). Se nos deixarmos levar pela superficialidade em todas estas interações, nos tornaremos facilmente manipuláveis e insensíveis. Afinal uma mente superficial é mais facilmente manipulável e uma mente que ignora o sofrimento em seu entorno, e as dificuldades de sua realidade, torna-se insensível. Uma combinação que ao dominar a maioria das pessoas de uma sociedade, pode trazer consequências muito nocivas em larga escala. 
A busca pelo desenvolvimento racional/ intelectual e emocional/ sentimental não é algo utópico ou dificílimo de se praticar - Trata-se de ser humilde, assumindo que temos muito a aprender e que podemos aprender. É assim que abandonamos tanto as atitudes superficiais e fúteis, como as posturas e atitudes nocivas ao próximo e a nós mesmos - Esta busca por desenvolvimento nos âmbitos mais racionais e mais sentimentais é semelhante à proposta de Viktor Frankl (a busca por sentido) e é um modo de desenvolvermos uma capacidade de aprender aliada a uma empatia solidária...

sábado, 6 de agosto de 2022

Aporofobia: Como surgiu e o que é

 

Eu devo ser um cara privilegiado, mas não com os privilégios materiais que muita gente deve imaginar: Eu e meus dois irmãos somos filhos de um operário e de uma "dona de casa". Então alguém poderia perguntar: Que privilégio há nisso? 
 Bom... posso dizer que se não há privilégio, há ao menos uma prevenção. Eu fui protegido contra uma das piores doenças da psiquê humana (alma): a ganância - o ato de querer mais e mais para si mesmo. 
Embora desde pequeno ouvi frases do tipo: "Se você não estudar, vai puxar carroça quando adulto" ou "Se não procurar um bom emprego, vai virar mendigo (etc), eu ao menos, não cresci entre admiradores das fortunas e dos ricos e nunca vi muito sentido na busca enlouquecida por dinheiro ou por status. 
Estes discursos se espalharam pela nossa sociedade por sabe-se lá quantos anos. É o discurso que alega quem não estuda ou não consegue um bom emprego, tem mais é que se ferrar. Muitas pessoas (como alguns parentes meus que nunca chegaram perto de enriquecer) repetiam isto automaticamente, sem saber o porquê e sem se interessar sobre os motivos desta ideia de descartar seres humanos. Afinal, o descarte deve parecer natural para a maioria das pessoas que não estudou história ou geografia e/ ou não desenvolveu uma empatia solidária. O descarte de seres humanos faz parte dos sistemas capitalistas, ou seja, do conjunto de regras e leis que priorizam quem tem mais dinheiro. É um discurso fomentado pelos mais gananciosos, e portanto, muitas vezes pelos mais ricos. 

Um Breve Resumo Histórico
O liberalismo que teve seu início lá na Europa iluminista entre os séculos 17 e 18, sempre foi um sistema de regras e leis que protegiam os mais enriquecidos (burgueses), dando algumas chances de uma minoria da população ocidental enriquecer, para parecer um sistema natural e com oportunidades sedutoras de enriquecimento. Porém no século 20, após a 2ª guerra mundial, os enriquecidos decidiram aumentar as mensagens de sedução diante as enormes massas das baixas classes sociais (pobres). As mídias de massa (TV, rádio e jornais) possibilitaram o crescimento de propagandas e campanhas publicitárias de uma maneira jamais vista antes na história da humanidade e isto começou a incentivar o consumo exagerado de produtos, que muitas vezes, sequer eram úteis ou necessários. Nos anos 60 então, surgem diversos protestos contra o consumismo e seus efeitos nocivos. Porém se houve alguma eficácia na crítica ao consumismo gerado pelas campanhas publicitárias que buscavam seduzir as massas numa busca desenfreada por comprar mais e mais, essa eficácia durou pouco. Nos anos 80, defensores dos bilionários estadunidenses espalham a ideologia neo-liberal, convencendo governos de vários países a adotarem medidas de abandono do bem-estar social, ou seja, descarte de seres humanos. Isto agilizou a queda dos regimes socialistas e destruiu diversos setores da infraestrutura de diferentes países, prejudicando adivinha quem? Os pobres. E os pobres aqui não se trata só de desabrigados ou de desempregados: é toda uma classe trabalhadora mal remunerada, ou seja, que ganha pouco (o clássico salário mínimo). Mas como os milionários e bilionários escaparam impunes por tanto tempo? A resposta não é difícil: Enquanto a humanidade não se torna mais solidária, ela é facilmente comprada por determinadas quantias de dinheiro e facilmente fascinada pelo luxo e pelo discurso de sucesso que os defensores dos mais ricos espalham por aí. 

Aporofobia nos dias atuais
Na virada do século 20 para o 21, campanhas meritocráticas, defendiam os mais ricos diretamente ou indiretamente, mas agora pela internet e pelas mídias sociais. Exceto pelas táticas obscuras e invasivas (algoritmos, bolhas sociais e venda de informações pessoais), pouco mudou: É a idolatria dos ricos, ou seja a plutocracia, o governo dos multimilionários. Estes multimilionários, na maioria das vezes nem são políticos - Eles são empresários e sócios-proprietários de grandes corporações, seja do mercado imobiliário, do petróleo, das finanças (bancos), das mídias (emissoras de tv e mídias sociais) ou das indústrias de alimentos. E quem é o oposto dos mais ricos/ dos multimilionários? Os mais pobres, é claro. 
Assim, os desempregados, os vulneráveis, ou desabrigados/ pessoas em situação de rua são acusadas de serem a escória da civilização. São tratados como vagabundos, desprezíveis, repulsivos, enfim... algo a ser escorraçado/ expulsos para não "poluírem" as ruas dos indivíduos "bem sucedidos", da classe média alta, dos ricos e afins. Isto é o que vem sendo chamado de aporofobia apenas há alguns anos - a fobia, aversão ou ódio aos pobres. É o resultado de tudo o que citei até então: É cria do capitalismo neoliberal, dos discursos de meritocracia, da idolatria do luxo, da concentração de renda e da plutocracia. Não só isso, é também a criação de um inimigo para se descarregar ódio e para por a culpa de problemas geralmente inventados por quem está numa situação mais confortável. 
Ora, alguém pode falar: Os mendigos são desprezados desde o Império Romano ou desde a antiguidade clássica. É verdade, mas eles não eram produzidos arrancando o emprego, a renda e os bens básicos para sobrevivência de centenas de milhares de pessoas. Na antiguidade não existiam tecnologias como hoje, no século 21, que poderiam facilitar a vida da maior parte ou de toda a civilização. Não existia distribuição de energia elétrica, nem veículos motorizados, nem eletrodomésticos etc. 
A solução vendida pelos gananciosos então, não é eliminar a pobreza, distribuindo condições razoáveis nem oportunidades de trabalho digno às pessoas mais pobres. A solução oferecida pelos gananciosos é o abandono e a morte dos mais empobrecidos. Ou seja, ao invés de eliminar a pobreza, querem eliminar o pobre. Para isso, eles desprezam e atacam quem pratica a solidariedade e caluniam os discursos a favor da equidade. A tática dos multimilionários e dos gananciosos é a mesma do passado, pois eles só renovam as palavras e os meios por onde propagam as mentiras e a injustiça. Este ato de desprezar os mais pobres e culpá-los de sujar a cidade, infelizmente se espalha dos mais ricos até a classe média e alguns dos pobres que ainda têm um lugar para morar. Assim se espalha a aporofobia, mais um deplorável preconceito da humanidade. 
Por fim, com o grande aumento de pessoas desempregadas no Brasil (e certamente no mundo), a aporofobia tomou proporções mais descaradas - A arquitetura hostil: Donos de estabelecimentos estão colocando obstáculos que impedem não só as pessoas em situação de rua a deitarem em busca de um local para dormir ou de um abrigo da chuva ou do frio, mas que também impedem qualquer cidadão até mesmo de sentar em certos locais, como degraus e muretas! 
Além disto tudo, o aumento do desemprego aliado a este preconceito, corre o risco de gerar um novo genocídio - Uma matança de todas famílias e todas as pessoas que perderam as condições de sobreviverem. Ainda que os gananciosos mal ordenem a utilização de armas contra as pessoas em situação de rua, o objetivo da aporofobia não deixa de ser uma matança, pois os favorecimentos dos mais ricos e o abandono gradual e disfarçado dos mais pobres, acaba deixando mais e mais pessoas com uma única opção: A de morrerem sem um lar, sem alimento e sem direito algum.

sábado, 21 de agosto de 2021

Reflexões sobre a Importância da Inocência

 

A Inocência é a Neutralidade ou é o Bem? 

O ser humano quando nasce é uma "tábula rasa"? É completamente neutro ou o bem e o mal existem desde o nascimento? Existem desde antes? Estes conceitos permaneceram debatidos apenas em círculos religiosos/ espiritualistas, pois foram praticamente abandonados pela filosofia em algum período entre a renascença e o iluminismo. Talvez este abandono por parte da filosofia tenha ajudado a ciência se livrar dos tabus e tradicionalismos das religiões, mas deixou algumas lacunas... 

Como a filosofia (e consequentemente a ciência) abandonou tal debate, ainda não sabemos as "origens do bem e do mal", mas no senso comum em geral, as crianças são vistas como puras / inocentes no início de suas vidas. Afinal o adulto que pensa que uma criança de 1 ou 2 anos de idade é maliciosa ou algo do tipo, é no mínimo paranoico... Pode ser que a criança herde alguns traços de personalidade, mas não abordarei tal assunto aqui, pois a criança tem um longo período de oportunidades para ter seus aspectos sentimentais e racionais "moldados" pelos adultos que a cria. 

Para quem gosta de psicanálise e acha que sexualidade infantil é uma virilidade que surge na criança, sugiro que pare de criar tais fantasias. E para quem tem pavor da psicanálise por considerá-la atribuir uma perversidade à toda criança, sugiro estudar um bocadinho. Sexualidade infantil nada mais é do que um termo polêmico referente aos fatores biológicos como instintos de sobrevivência e o desenvolvimento de zonas erógenas do corpo. Talvez haja alguns exageros ou vieses nestes argumentos psicanalíticos, mas nada digno de idolatria ou de rancor histérico. 

Voltando aos aspectos mais internos da mente humana: A "pureza", um possível sinônimo de inocência neste caso, é íntima da receptividade (estar aberto à): A criança geralmente perde esta pureza em determinado(s) momento(s) ao interagir com os adultos e suas ganâncias e orgulhos, mas pode restaurá-la buscando a humildade. Humildade esta que é a expressão da receptividade ou o esforço bem sucedido em ser receptivo, um quesito básico para evoluir racionalmente (pela ciência por exemplo) e sentimentalmente (espiritualmente ou religiosamente). 

 Como pode ser observado em qualquer forma de vida onde algum progenitor cuida de sua prole, os filhotes não precisam se sustentar. Os "pais" se esforçam em fornecer sustento e segurança aos filhos, embora existam algumas exceções a esta regra. Este é o comportamento dominante que garante perpetuação das espécies de aves e mamíferos. Assim, a grosso modo, na infância do ser humano é possível alcançar a felicidade mais facilmente do que durante a vida adulta. Resumidamente esta felicidade é oriunda dos afetos positivos. 

Enumerar afetos é uma tarefa difícil, pois estamos falando de sentimentos, mas tentarei agrupá-los, ou ao menos, classificar alguns parâmetros: 

O "primeiro afeto" viria da relação onde o adulto que cuida da criança com sua inocência (próxima de uma receptividade natural, e portanto próxima da humildade também) em seus estágios iniciais de vida. Estes estágios não são fixos, podem variar, mas é basicamente o período em que os pequeninos estão formando seus sentimentos em relação a quem cuida deles e ao seu pequeno e novo mundo exterior; 

A troca de bons sentimentos e o ter alguém para gostar (amor) seria um exemplo básico de afeto importante no desenvolvimento do ser humano, ainda que existam muitas distorções sobre os significados do amor, feitas essencialmente por adultos que cresceram com déficits afetivos. Este amor se dá com quem a criança cresce e se desenvolve - os pais, familiares e novos amigos que são realmente presentes. Importante destacar a presença, seja na forma de uma persistente companhia agradável, fiel ou ambas; Por fim a esperança da criança seria o último afeto positivo ou talvez um grupo ou parâmetro de afeto. Conforme a criança ou adolescente em desenvolvimento recebe respostas construtivas, ou "transformadoras-não-destrutivas", seja no aspecto mental (ensino de convívio e talvez de artes e trabalho) ou físico (quando os "pais" cuidam da saúde deste), ele desenvolve características como inspiração e esperança. Talvez isto conclua um ciclo de segurança útil para que a criança não cresça achando que tudo pode acabar a qualquer momento e nada realmente importe... Não se trata de crescer com uma fantasia e sim de crescer entendendo possibilidades. Assim ela cresce com empatia e com ao menos alguns dos sentimentos como respeito, alegria, esperança e tantos outros tidos como muito subjetivos ou fúteis por pessoas mais insensíveis. Pessoas que desprezam tais sentimentos podem ser problemáticas de várias maneiras: podem ter recebido uma educação fria, podem sofrer de alguma psicopatologia etc... 

Observações sobre a Infância 

 Tive a oportunidade de fazer observações sobre como três famílias cuidavam de suas respectivas crianças por alguns anos. Acompanhei todos os casos sem interação direta, mas "de perto" e não por opção, mas por conviver durante anos quase que em período integral com tais vizinhos em um prédio com abafamento/ isolamento sonoro quase nulo (e portanto com pouca privacidade): 

O 1º caso foi de uma menina cuja os pais demonstravam pouco afeto por ela. Ouvi quase que diariamente a rotina desta família por 5 ou 6 anos.

O pai queria ter um menino, quando a filha nasceu deixou-a com a mãe que havia parado de trabalhar. Só percebi que o pai passou a interagir mais com a menina, quando esta já tinha 3 anos de idade. 

A mãe mostrou-se uma pessoa sem paciência com crianças. Várias cenas no mínimo peculiares ocorreram: 

A primeira frase que ouvi a criança dizer foi "Vô ti matá". Uma imitação do que a mãe dela falava frequentemente com irritação (Vou te matar); 

A mãe quase que diariamente gritava, muitas vezes ordenando a filha a atender o telefone. A criança tinha no máximo 2 anos de idade quando isso começou; Ainda nesta fase, a mãe exclamou diversas frases que demonstravam impaciência com a filha, como esta: "Ai fulana, como você é criançona!!" 

Enfim, quando a filha estava com cerca de 6 anos de idade, ela era tida como muito independente pelos familiares e visitas... 

A história se repetiu de maneira similar com mais dois "vizinhos": 

Uma mulher que se irritava com a infantilidade de seu filho de 4 anos de idade e que mostrava indignação pelo fato da criança ainda não saber tomar banho sozinha nem se vestir corretamente... Neste caso, o pai dedicava um tempo aparentemente significante para brincar com filho, mas parecia "workalcholic": Trabalhava segunda à sábado em sua própria empresa, em média das 7hs às 19hs e frequentemente fazia "horas extras" seja nos dias de semana durante à noite ou, mais raramente, aos domingos durante o dia. Sua relação com a esposa se mostrava mais fria do que afetuosa. 

Quando o menino tinha cerca de 6 anos ele "ganhou" um irmãozinho. Nesta época ele passava várias tardes por semana na oficina de seu pai (que era logo abaixo do meu apartamento) e ali, os funcionários de seu pai frequentemente faziam discursos tentando exibir sua "masculinidade". Eram essencialmente falas de como a polícia devia matar bandidos e como eles "comiam" e traiam mulheres que recebiam os mais degradantes adjetivos por eles. Sobre esta família e suas crianças, as últimas e tenebrosas lembranças que tenho foram dos casos breves: O primeiro foi quando o menino menor (com no máximo 2 anos) começou a falar e com uma voz naturalmente fininha chamava sua mãe, que respondeu com uma mistura de sarcasmo e desprezo (!): Que viadiinho!! 

O segundo caso foi um dia que o menino mais velho, com no máximo 7 anos, decidiu se referir à sua mãe pelo nome, ao invés de chamá-la de mãe - não só isso: ele a chamava já dando risadas provocativas. Ao ouvir e ver a atitude do menino, ela gritava furiosa e ameaçava puni-lo, enquanto o menino repetia o nome dela com deboche, contrariando-a por vários minutos, talvez por uma hora. Estaria ele aprendendo a ser desrespeitoso com mulheres na oficina de seu pai? Possivelmente.

Outra mãe que gritava o tempo todo com a filha de 3 a 4 anos de idade e regulamente ridicularizava a infantilidade da mesma. Ambas (mãe e filha) passavam período integral na empresa na qual o marido era proprietário ou sócio-proprietário. O pai, dono de empresa, se gabava diante os funcionários regularmente, gostando de fazer piada difamando pessoas presentes ou ausentes e de pregar peças nos mesmos (geralmente gritava para assustá-los). A criança começou a imitar os pais, gritando frequentemente (como o pai) e mostrando claras expressões de impaciência (como a mãe). 

Estes dois últimos casos, pude observar por cerca de 3 anos, diariamente em período integral (devido a meu home office e as características do prédio já mencionadas) 

São todos casos, onde os pais predominantemente desprezam a inocência e a ingenuidade da criança, ridicularizando-a e não tendo paciência para ensinar nem para dar afeto positivo. Obviamente não se trata de algo como vilões torturando crianças, mas efetivamente tal criação têm seus traços de tortura. Explico: 

É público e notório que a criança em suas fases iniciais da vida, precise de amparo. Ela não sabe se alimentar, nem se vestir, nem fazer necessidades fisiológicas como os adultos fazem convivendo em sociedade. Todos aprendizados e afetos necessários vem dos pais. Se os pais repetem os comportamentos de impaciência ou de aversão às necessidades dos filhos, obviamente haverão consequências na formação psíquica (vulgarmente e erroneamente chamada de psicológica) destas crianças. 

 Os casos que eu citei têm vagas semelhanças com outros dos quais recebi relatos. Na verdade alguns desses casos que ouvi, incluíam abandono e violência, ou seja, geraram consequências provavelmente mais severas na formação psíquica dos filhos. Enfim, não é difícil notar que no lugar de afetos positivos, muitas vezes, essas crianças não obtiveram respostas dos pais, ou no caso de violência, recebia afetos negativos, sem compreender a situação. Aí estão (algumas) prováveis causas de vazios afetivos e, no caso, da criação violenta, pode até mesmo ocorrer psicopatologias ou "perversão" (aqui usada como gosto pela violência)... Pessoas que cresceram com estes déficits, possivelmente não entenderão muito bem os sentimentos, e terão grandes dificuldades em aprendê-los depois de adultos. 

Perda da Pureza 

O senso comum diz que crianças são meramente ingênuas ou crédulas. Podem até ser crédulas, mas o fato é que a pureza além de conter semelhanças ou certas quantias de receptividade e humildade, é uma ausência do preconceito. Muito do que os adultos pensam que é amadurecimento (no senso comum) é só preconceito, isso quando não é o caso de tabus. 

Os exemplos são muitos: Se vestir bem (roupas caras na maioria das vezes), ter carro próprio, ter salário alto, ter vida sexual hiperativa, mostrar conhecimento mesmo quando não se tem (nunca assumir erros), delimitar sentimentos para homens e para mulheres, permitir emoções só em determinadas situações (em torcidas, em certas rodas de conversa) etc... Embora alguns desses artifícios possam ter surgido em certos grupos de pessoas para contornar determinadas situações de dificuldade, a maioria não tem utilidade real, tanto que jamais alguma destas coisas poderia ser transformada em lei em qualquer sociedade minimamente desenvolvida neste século 21. Tabus e preconceitos são comportamentos mesquinhos e falsos, utilizados para poucos indivíduos adquirirem uma satisfação particular geralmente prejudicando uma outra pessoa ou prejudicando um grupo de pessoas. Muitos deles se apoiam em rivalidade e portanto em orgulho também, no sentido narcisista da palavra mesmo. 

Deveria ser desnecessário falar o quão rivalidade e orgulho são mais nocivos do que benéficos para todas as pessoas de qualquer sociedade... Mas ainda é necessário repetir este argumento. E muito, pois todas estas idiotices se manifestam em variados assuntos e em diferentes intensidades. E como incentivos a rivalidade e ao orgulho/ egoísmo, tais tabus e preconceitos são ataques à humildade e a receptividade, características tão interligadas à pureza natural na infância. 

A própria presunção da inocência no sistema judiciário e a ausência de pressupostos em métodos de estudo, requerem muito destas características que constituem a pureza mencionada há pouco. 

Conclui-se que a chave para o bom funcionamento de setores essenciais para ordem (o direito, o judiciário etc) e para o progresso (a ciência) de qualquer nação está debaixo do nariz de toda a espécie humana: Toda criança nasce com tais características... O problema é que elas são destruídas ou substituídas por tabus, preconceitos e outros comportamentos nocivos à sociedade em geral.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

É Possível Instruir as Massas?

 

Esta é uma reflexão feita a partir de variadas observações particulares e mais uma vez tento usar uma linguagem informal, mais simples do que a que usei em alguns textos meus: 

 Linguagem e Clareza no Ensino e na Comunicação 

Uma atriz de teatro me contou que ao apresentar peças com a intenção de ensinar sobre política e sociedade nas periferias, os espectadores reclamaram da linguagem usada. Os moradores da periferia que assistiam às peças teatrais diziam que os atores usavam palavras difíceis, porém quando os atores perguntavam se eles entenderam a peça, eles alegavam que sim e que mesmo assim não gostavam da linguagem dos atores. Isto provavelmente aconteceu por se sentirem distantes da realidade dos atores ou por se sentirem menos inteligentes do que os atores; 

Outra observação é a seguinte: Prega-se pelas redes sociais que a ciência, principalmente as ciências humanas que são mais voltadas para resolver os problemas da sociedade, deveriam se aproximar dos mais pobres de maneira clara, pois eles são a maioria da população… 

Pois bem, minhas observações apontaram que não só há variados desafios para ensinar a maior parte da população do país, mas há uma combinação terrível de dificuldades: Além da linguagem ter que ser mais simples, o conteúdo a ser passado é muita coisa. E não se trata só de ensinar sobre as leis mais básicas (direitos no trabalho, por exemplo)... É preciso esclarecer como funciona a política, quais foram as conquistas políticas importantes, para que servem etc. É preciso ensinar até mesmo um básico de economia, ao menos para a população entender sobre de onde vem e para onde vai o dinheiro. Mesmo porque a economia é quase inseparável do emprego, do mundo empresarial e portanto inseparável do trabalho e das leis trabalhistas também. E daí fica nítido o quanto é desleal lutar contra as mentiras espalhadas pela internet e pela televisão: Consiga mais “likes” nas redes sociais, “Seja um empreendedor”, “O Agro é Pop”, “conspirações gayzistas e comunistas'', atos contra a família e contra Deus e tantas outras mentiras maliciosas. 

Muitos acadêmicos podem achar que essas mentiras são meras idiotices, mas na verdade a maioria destas mentiras usam as esperanças e a autoestima das pessoas. Essas mentiras usam desejos e sentimentos das pessoas e às vezes até incentivam e criam os desejos nas pessoas. É uma verdadeira era de manipulação mental cada vez mais ampla, pois está em todos principais lugares que as pessoas olham frequentemente: Whatsapp, Facebook, Instagram, Rede Globo, Sbt, Tv Record, Band, Jovem Pan etc etc… As verdades que surgem nestas mídias parecem minoria, pois em variados momentos são menos mostradas do que as mentiras. Não me refiro só às “fake news” que são basicamente boatos sensacionalistas, conspiratórios ou difamatórios, me refiro a manipulação mencionada anteriormente que são opiniões e propagandas vendidas como verdades. Então podemos concluir que há uma inversão dos valores em larga escala que já está fazendo um estrago que vai muito além do Brasil. 

 Para instruir a população de maneira mais rápida e ampla seria necessário tomar ao menos uma dessas mídias tão usadas pelas pessoas. Porém isto beira o impossível, afinal tais mídias servem a quem tem mais dinheiro. 

 E quem são os mais ricos? Como eles vivem? Bom, os mais ricos são multimilionários, pois não estamos falando de pessoas que ganham 6000,00 R$ ou 30.000 R$ por mês. Multimilionários acumulam facilmente dezenas ou até centenas de milhões de reais por ano, ou quem sabe até mesmo, por mês. Eles não gostam de se expor muito, mas é fácil achar alguns textos e fotos sobre eles em revistas que puxam o saco deles, como a Forbes e algumas outras. 

 Os donos das maiores empresas, os pastores milionários e por fim, os políticos e militares que aceitam propina dos empresários mais milionários, geralmente são os causadores de grandes problemas no mundo, pois eles são os corruptores e os corruptos. Tais problemas são sociais, econômicos ou até mesmo ambientais. Afinal eles controlam para onde vai o dinheiro e querem cada vez mais, que todas as coisas só sejam acessíveis por quem tem dinheiro. Isto parece esquisito para algumas pessoas, mas não é uma atitude sem sentido: É um desejo de ter cada vez mais dinheiro e bens, fazendo com que outros se esforcem por esta aquisição de fortunas. Sim, um tipo de escravidão, mas disfarçado de um sistema onde as pessoas conseguem coisas devido ao seu próprio mérito. A tal meritocracia que é mostrada como algo “natural”, mas não tem nada de natural, sequer devia ser chamada de meritocracia, já que é um sistema onde o mais rico compra as leis e pode cada vez mais, enquanto os pobres podem cada vez menos. 

De maneira mais clara é um sistema onde o mais egoísta ganha mais. Por ser um sistema social e econômico que favorece o mais egoísta e o mais ganancioso, talvez nem adiante eliminar o dinheiro ou todo o sistema em si, pois a maioria do povo cairia outra vez no discurso que o dinheiro (ou algum substituto do dinheiro) ainda é necessário. Daí a importância não só da instrução racional, como também da instrução dos sentimentos e suas respectivas expressões (as emoções). Isto é o que eu já mencionei em textos anteriores: Os verdadeiros estudos, a verdadeira ciência não pode ser separada do Bem. E não é difícil entender que o bem é a solidariedade, a equidade (igualdade de oportunidades), a justiça etc. 

 Isso seria uma utopia? Um sonho ingênuo? Talvez, mas a ideia não é nova, porque alguns filósofos mencionaram tal ideia há mais de dois mil anos atrás… 

 O que é Instrução e o que é necessário para se Instruir? 

 Se procurarmos em dicionários podemos achar as seguintes definições sobre o que é instrução: Ensino, ação de instruir, estudo, conhecimento, ciência, saber… Aqui temos definições gerais, ou seja, não tão precisas, mas sabe-se que tanto o ensino, como a ciência, possuem métodos para a construção do saber ou dos conhecimentos. 

Uma das condições básicas de todos os métodos para se estudar, para aprender ou para construir qualquer conhecimento, é deixar de lado os pré-julgamentos, evitando-se assim as opiniões influenciadas por criação (família etc), gostos, aversões etc. Isto tem muito em comum com a postura de humildade, de assumir que devemos aprender, porque não conhecemos suficientemente o determinado assunto a ser estudado em questão. Tudo isto não difere da postura básica necessária para a pesquisa científica, porém ainda assim, pouco se fala sobre a importância de não pré-julgar e de manter-se humilde para qualquer tipo de estudo, seja o estudo fundamental, médio ou acadêmico/ científico. Isto ocorre porque tais conceitos de humildade e receptividade (o ato de não pré-julgar) são tidos como muito “subjetivos” ou são tidos como sentimentos “muito individuais” de cada pessoa. Bom, se alguém pensa que trata-se de um assunto muito particular de cada ser humano, pensou errado. Seria particular se não afetasse o seu entorno, mas no ensino e na construção de conhecimento, afeta. E muito. 

 Na verdade estas questões foram abordadas e debatidas sim, durante parte do desenvolvimento das ciências, no mínimo, desde o século 17. Mas sua importância veio sendo diminuída gradualmente, possivelmente desde o momento em que o método empírico se chocou com a filosofia e com o surgimento da psicologia, no século 19. 

 Não é função deste texto aprofundar-se como o choque entre os cientistas empiristas e os cientistas fenomenólogos dividiu a psicologia, mas sim mostrar os caminhos que se formaram na construção do conhecimento. Parece complexo (e até é), mas basicamente estas separações aconteceram não só por causa da necessidade de entender as coisas (a natureza, a mente etc), mas também por causa das tendências de certos estudiosos e seus estudos, ou seja, as cisões aconteceram também por causa de opiniões. Até aí pode não ser absurdo, afinal o ser humano é falho, mas há alguns pontos de interesse sobre o que se diz e o que se pensa sobre opinião. 

 A opinião é discutida, definida e separada da ciência, já no período considerado como o surgimento da filosofia no ocidente, na Grécia clássica do século 4 antes de Cristo. De acordo com os filósofos socráticos, a opinião é mais relevante do que a ignorância, porém menos relevante do que a busca pelo saber/ conhecimento. 

23 séculos depois Husserl cria o método fenomenológico, mostrando que estudar só o que se percebe fisicamente (o método empírico) e o que pode ser reproduzido, já é um método com viés. Afinal, instruir as pessoas apenas sobre coisas que podemos ver, ouvir, tocar e cheirar, ignora muitos campos de estudo e tende ao tecnicismo, mostrando-se um método de ensino que prioriza a profissão, a produtividade e o mercado. Muitos dos motivos que fazem o ser humano tomar decisões são baseados em sentimentos, em crenças e interpretações, que quando ignoradas, geram distorções dos fatos, as quais chamamos vulgarmente (e muitas vezes, precisamente) de mentiras. 

Ser técnico é importante muitas vezes para entender e explicar determinados temas, mas muitas outras vezes, não é suficiente: Não explica os porquês de normas sociais e dos sistemas sócio-econômicos, e nem trabalha a importância da empatia, das relações sociais, das relações afetivas e dos sentimentos. Em outras palavras, afirmar que o estudo técnico e o método empírico são mais importantes ou mais verdadeiros que outros métodos, faz parte de um grande movimento reducionista pois se adequa bem ao discurso da competitividade desenfreada e de que tudo é naturalmente oriundo do mérito. 

E o que mais se adequa aos movimentos reducionistas? Os discursos apoiados em tradições, as externalizações toscas e as religiões punitivistas ou frias. Nenhum destes 3 exemplos são métodos de ensino nem de pesquisa, mas vão direto ao encontro da necessidade de sentimentos e de crenças, dando alguma motivação às pessoas. Assim, o desempregado, o desiludido e o pobre, sentem-se acolhidos num grupo (ao menos) aparentemente amigável. Obviamente, grande parte desses grupos, liderados por pastores, por exemplo, apenas enganam e extorquem seus seguidores e seus fiéis, dando em troca, breves discursos consoladores e talvez espaços para desabafos com choros e abraços. Outras vezes os discursos tradicionalistas ou “religiosos” quando são reducionistas, dão motivações bem torpes às pessoas, como criar rivalidade entre grupos e inventar inimigos. As externalidades são aqueles argumentos que alegam que um determinado fator não tem importância dentro de um tema. Por exemplo, ao conversar sobre meio ambiente, dizer que a falta de fiscalização das empresas que poluem ou desmatam, é um outro assunto menos importante. Por fim, a institucionalização nociva da religião é a demonização das outras fés, a criação de hierarquia e de autoridades absolutas em assuntos que deveriam ser essencialmente espirituais. 

Tudo isso é baixo? Covarde? Repulsivamente aproveitador? Provavelmente tudo isto, mas citei estes exemplos apenas para mostrar que é o outro lado que completa a doutrina reducionista baseada em materialismo, insensibilidade e imediatismo: 

De um lado o tecnicismo ignora sentimentos, crenças e interpretações incentivando a produtividade, e do outro lado, os cultos tradicionalistas e punitivistas, manipulam os sentimentos, crenças e interpretações, favorecendo os mais multimilionários e mais poderosos.

Métodos de ensino, do fundamental ao acadêmico/ científico, que sejam baseados apenas em tecnicidades, deixam uma falha enorme na construção dos indivíduos e das sociedades formadas por esses indivíduos. E muitos dos estudos feitos por métodos tidos como supostamente mais objetivos, foram feitos com motivações não exatamente nobres, nem ao menos foram concebidos pensando no bem da sociedade ou da maioria dos habitantes de uma nação ou da Terra. 

 Segmentação e Reducionismo - Como Combater 

Então, o reducionismo no ensino e nas pesquisas, nem sempre foi acidental. Seria possível vasculhar a história dos métodos científicos e analisar quais dos seus criadores e contribuintes estavam interessados em se beneficiar, quais se interessavam e beneficiar a poucos e quais tinham uma visão mais ampla, preocupando-se com grupos maiores de pessoas. Destes últimos, poderíamos ver quais tiveram uma postura de humildade em suas pesquisas, e quais eram mais receptivos às outras áreas do saber, seja desenvolvendo acidentalmente, ou intencionalmente, uma empatia com o próximo. 

Porém, aprofundar-se na história dos métodos científicos e de seus criadores é um assunto extenso, para não dizer profundo, e terá que ficar para um possível futuro. 

O que está sendo tratado aqui é o seguinte: Segmentação é reduzir a grupos com pouco ou nenhum contato entre si. E esta redução é um reducionismo (óbvio). 

Estes grupos de estudiosos tinham em comum um linguajar supostamente científico, ou supostamente técnico. Um linguajar difícil, que a maior parte das sociedades, pobre e com pouco ou nenhum estudo, simplesmente não entendia. E ainda não entende. 

Hoje, neste início do século 21, temos divulgadores científicos, mas que concorrem na internet com youtubers e tantos outros conteúdos aleatórios, muitas vezes intrusivos e de viés consumista (propagandas aos montes, por exemplo). Esta concorrência é difícil, possivelmente até desleal, já que algoritmos priorizam para que as pessoas vejam mais propagandas e conteúdos imediatistas na internet, lucrativos para seus anunciantes. Então quais seriam outros meios necessários para a instrução das massas? 

Algumas medidas já foram tomadas, mas correm o risco de serem canceladas e desaparecerem: Programas de bolsas de ensino para que as pessoas estudem de graça em faculdades. Outras medidas parecem longe de serem tomadas: A facilitação do linguajar técnico e científico, tanto para maior entendimento das leis dos países, como para o desenvolvimento de pesquisas científicas. Esta facilitação vem sendo discutida há anos, mas aparentemente nada foi resolvido ainda. 

A maioria da população mundial é formada por pessoas com pouco dinheiro e pouco estudo. Enquanto o conhecimento se manter separado/ distante da maioria das pessoas, estas permanecem servindo de marionetes para quem tem mais poder, seja econômico, político, militar ou até religioso. 

As ciências como conhecemos hoje, de maneira resumida, se desenvolveu há cerca de 4 séculos. E continua isolada, elitista, numa frágil bolha inacessível pela maioria pobre, e frequentemente desprezada, quando não manipulada, por outros círculos de poder como os mencionados há pouco: Os poderes econômicos, religiosos, políticos e militares. A ciência e os estudos em geral não devem ser alienados nem alienantes. Eles devem conversar com a maioria das pessoas e integrá-las na sociedade. Isto não é um discurso meramente “pró achatamento de camadas sociais”, é um discurso a favor da verdade e do desenvolvimento intelectual e empático dos seres humanos…

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A sociedade e a inteligência artificial

'Machine learning' é a expressão do momento. A inteligência artificial deixou de pertencer à área de ficção científica e adentrou nossa realidade de vez. É incipiente (ou até insipiente) ainda? Com certeza. Mas diante experiências de empresas com I.A.s que conversam entre si, 'softwares' que aprendem a jogar Super Mario Bros, etc ... não há como negar que a I.A. terá um papel cada vez mais impactante, e que não podemos prever qual será a velocidade com que esse impacto ganha 'peso'.

E qual será a real importância disso? Toda importância do mundo. Nosso mercado de trabalho será (e já está sendo) drasticamente alterado, a automação de tarefas irá varrer diversas ocupações para o 'Limbo'. Isso não é propriamente uma novidade. Desde a revolução industrial temos um processo acelerado de melhoria de produtividade e rápido avanço da tecnologia que acaba resultando em menos vagas de emprego. Também há novas áreas de emprego, resultantes de novas demandas que essas tecnologias e novos mercados trazem.

Mas a I.A. terá um impacto muito maior e abrangente. Aqueles que procuram se informar sobre o assunto acabam guiando suas carreiras profissionais para adquirir conhecimento que possa ser útil em um universo cada vez mais preenchido por I.A.s. Programação ou habilidades de comunicação, podem ser áreas que irão demandar mais tempo para que as I.A.s passem a substituir humanos. Mesmo assim já temos experiências como drones que vigiam as fronteiras brasileiras e geram linhas de código em C conforme a necessidade, e atendimento automatizado ao cliente.

É fácil imaginar um futuro distópico vindo à uma velocidade galopante. Portanto é uma tarefa da sociedade discutir alternativas para evitar um rasgo enorme no tecido social. A crítica é uma ferramenta importante para sugerir soluções. Alguns teóricos, como Jacque Fresco parecem propor soluções disruptivas e extremas de novas sociedades com novos meios de produção e distribuição, mas quanto mais a tecnologia avança, menos impossíveis as soluções parecem, desde que exista vontade.

Algumas alternativas básicas, como o programa renda mínima, sugerido por um político de São Paulo (Eduardo Suplicy), começam a despontar como uma medida necessária na discussão internacional. Soluções semelhantes já tem apoio de figuras importantes, como o criador do Facebook, e começam a ser implantadas em alguns países.

Uma coisa é certa: a realidade está cada vez mais dinâmica, e mentes que se apegam ao status quo precisam se adaptar, ou ficar para trás.

P.S.: Reflexão feita em uma redação para entrevista de emprego.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Reflexão sobre tecnologia e sociedade

Meu professor de Sociedade e Tecnologia propôs que escrevêssemos um texto sobre sociedade e tecnologia embasado nos conceitos vistos em aula, sobre a seguinte reportagem:

Vai comprar roupa no Natal? Veja se sua loja favorita combate a escravidão



16/12/2016 



Leonardo Sakamoto







O ''Moda Livre'', aplicativo para consumo consciente de roupas, acaba de passar por uma nova atualização a tempo de ajudar os compradores neste Natal. Foram incorporadas 27 novas marcas e lojas à ferramenta, incluindo importantes nomes internacionais que produzem no Brasil, como as grifes Levi's e Calvin Klein, a Forever 21, além das esportivas Nike, Puma, Adidas e Reebok e marcas brasileiras relevantes como Farm e Animale (do Grupo Soma) e TNG, Osklen e Cavalera. Redes de lojas populares, como a Besni e o magazine Torra Torra, também foram incluídas.

Com a nova atualização, o App passa a contar com 101 grifes e varejistas em sua base de dados. Desde o seu lançamento, em dezembro de 2013, pela ONG Repórter Brasil, ela já teve mais de 50 mil downloads.
O Moda Livre avalia e monitora as ações que as principais empresas do setor vêm tomando para evitar que as suas peças produzidas no Brasil sejam contaminadas por mão de obra escrava. Além disso, oferece ao consumidor notícias sobre casos de escravidão contemporânea na cadeia de valor do vestuário nacional.
Faça o download gratuito do aplicativo para iOS (iPhone) e Android 
 Trabalhadores produzindo peças para oficina responsabilizada por trabalho escravo (Foto: MPT/Divulgação)
Trabalhadores produzindo peças para oficina responsabilizada por trabalho escravo (Foto: MPT/Divulgação)
A Repórter Brasil convida todas as companhias a responder a um questionário-padrão que avalia basicamente três indicadores: 1) Políticas – compromissos assumidos pelas empresas para combater o trabalho escravo em sua cadeia de fornecimento; 2) Monitoramento – medidas adotadas pelas empresas para fiscalizar seus fornecedores de roupa; 3) Transparência – ações tomadas pelas empresas para comunicar a seus clientes o que vêm fazendo para monitorar fornecedores e combater o trabalho escravo; 4) Histórico – resumo do envolvimento das empresas em casos de trabalho escravo, segundo dados das autoridades competentes.
O histórico da marca ou da loja também é avaliado de acordo com pesquisa junto ao Ministério do Trabalho e do Ministério Público do Trabalho a fim de verificar o envolvimento em casos de trabalho escravo.
As respostas geram uma pontuação e, com base nela, as empresas são classificadas de acordo com o que vem fazendo para combater a escravidão em três categorias de cores: verde, amarelo e vermelho. As empresas que não respondem ao questionário são automaticamente colocadas na vermelha porque equivale a obter pontuação zero no questionário.
O Moda Livre não recomenda que o consumidor compre ou deixe de comprar roupas de determinada marca. Apenas fornece informação para que faça a escolha de forma consciente. O aplicativo é fruto da apuração da equipe de jornalismo da Repórter Brasil e do design e desenvolvimento da agência PiU Comunica.
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Os escravos da moda – Nos últimos anos, centenas de trabalhadores – principalmente imigrantes de outros países sul americanos – foram resgatados produzindo roupas em situação análoga à de escravidão dentro de pequenas e precárias oficinas de costura brasileiras. A região metropolitana de São Paulo (SP) concentra a maior parte dos casos  já flagrados por auditores fiscais do Ministério do Trabalho e procuradores do Ministério Público do Trabalho.
Quase sempre estas oficinas são empreendimentos terceirizados, que, não raro, produzem para grifes de renome. Há também flagrantes de trabalho escravo associados a pequenos varejistas instalados em importantes polos comerciais de roupas, como o bairro paulistano do Bom Retiro.


Pois bem, baseado nesta reportagem, segue o texto elaborado:

Não há como pensar a sociedade brasileira atual de maneira dissociada à tecnologia, essa é também, uma realidade mundial.

Uma tentativa desse tipo, seria equivalente a analisar o período pós-crise de 29 no Brasil, de maneira dissociada à industrialização, ou a colonização brasileira de maneira dissociada à agricultura.

Isso porque, esses modos de produção, e suas mudanças, são o cerne das mudanças da própria sociedade. Ou, como Toffler nomeia, essas grandes ondas de mudanças, seriam: a Primeira Onda, a revolução agrícola, que levou milhares de anos para se esgotar; a Segunda Onda, o advento da civilização industrial, que durou  apenas cem anos; e a Terceira Onda, ainda mais acelerada do que a segunda, e que altera nossa sociedade hoje, neste exato momento.

Essa Terceira Onda, segundo Toffler, traz consigo uma maneira de vida genuinamente nova baseada em fontes de energia diversificadas, renováveis; em métodos de produção que tornam a maioria das linhas de montagem das fábricas obsoletas; em famílias novas, não-nucleares; em uma nova instituição que poderíamos chamar de "casa eletrônica"; em escolas e corporações do futuro radicalmente modificadas.

É possível adicionar algumas características importantes à essa Terceira Onda, talvez menos inspiradoras que as citadas por Toffler: preponderância do capital financeiro sobre o produtivo, disseminação de mentiras pela web (ou, a era da pós-verdade), superexposição do indivíduo via digital (e suas consequências de julgamentos morais e bullying permanente), guerra midiática exacerbada (podendo servir de preparação para uma intervenção espacial), etc.

Essa sociedade, no meio da Terceira Onda, é essencial de ser compreendida para podermos avaliar os impactos que a tecnologia pode ter. Como o próprio Toffler afirma, essas ondas podem estar ocorrendo simultaneamente, em locais e sociedades diferentes, e é o que pode se constatar neste caso específico, onde discutimos uma tecnologia (um aplicativo para celular) que monitora trabalho escravo, duas coisas aparentemente anacrônicas, em um mesmo momento histórico.

Alguns autores utilizam os conceitos de Sociedade Industrial e Sociedade do Conhecimento, conceitos que não serão aprofundados aqui, devido ser possível traçar um paralelo desses conceitos com o que seria equivalente à Segunda e Terceira Onda. Mas mesmo autores que utilizam esses ou outros conceitos, acabam abordando esse anacronismo simultâneo, que ocorre com maior intensidade nos chamados países periféricos.

Essa característica é mais gritante em países periféricos devido à balança de poder econômico mundial, é um movimento intrínseco ao capitalismo, coerente com a tendência de concentração de renda. As sociedades detentoras de maior poder econômico, estão em sua maioria, pautadas em democracias, onde a pressão exercida por este sistema empurra as práticas mais selvagens de obtenção de lucro para os países periféricos. A velha discussão sobre as grandes corporações, as maquiladoras, a mão-de-obra barata, e o exército de reserva de trabalhadores, seria útil para esta abordagem, mas fora do escopo deste texto.

Basta dizer que, é compreensível, uma sociedade pautada em uma suposta democracia, com substancial poder econômico, não querer ver 'sujeira no seu quintal'. E algo que é inerente ao modo de produção capitalista, deslocar-se para as economias periféricas, onde o 'culpado' é o próprio ser humano dessa sociedade periférica bárbara e atrasada.

Nossa própria sociedade periférica bárbara e atrasada, 'terceiriza' os seres humanos bárbaros e atrasados: os escravos são 'pobres ignorantes' do nordeste, 'preguiçosos' bolivianos que não tomam banho, e vejam só, até mesmo os escravagistas são oportunistas coreanos.

O trabalho escravo é uma realidade brasileira, anacrônica (?) e atual. O ponto de interrogação anterior é uma reflexão sobre se realmente nos livramos do escravagismo na história brasileira. Políticos já foram investigados por trabalho escravo, empreiteiras, enfim, diversos segmentos da sociedade. Trabalho escravo que não ocorre apenas nos rincões, mas nas próprias metrópoles, debaixo dos nossos narizes empinados pela ignorância, insensibilidade ou credulidade no sistema vigente em que nossa sociedade é pautada.

Diante do impacto que é causado pela própria sociedade, do 'homem sendo lobo do homem', como é possível questionar o impacto desta tecnologia em específico? Pode-se considerar um esforço patético, criar um aplicativo para monitorar empresas de roupas? Sim. Mas a somatória de esforços patéticos, é o que resta a uma sociedade onde há um descolamento entre os segmentos populares e seus representantes na democracia (como é bem demonstrado no vídeo "A história das coisas"). Dessa somatória pode surgir algo no futuro (futuro/presente, já que estamos no meio de uma onda de ruptura) que se apresente como alternativa a um sistema controlado pelo lucro dos poucos que concentram a renda.

Neste ponto é necessário abordar um aspecto da cultura da nossa espécie: o ser humano é um ser gregário. Não há ser humano, sem sociedade. Isto está inserido no próprio conceito de cultura de Cristina Costa: uma certa ruptura com os instintos naturais, que permitiu o desenvolvimento de simbolismos, significações, inventividade e linguagem. Essa evolução de condição de animal natural, com reações baseadas no código genético, para uma espécie com reações mais complexas, essencialmente influenciadas pela sociedade.

É engraçado pensar que uma das principais características responsáveis por nossa evolução, o viver em sociedade, acabe criando uma sociedade baseada no individualismo, sendo que, ninguém é humano sozinho.

Parte intrínseca de nossa cultura é a tecnologia, desde a criação de técnicas, sua separação da filosofia e da arte, até a própria sistematização da ciência da técnica. Para muitos, nossa nova religião, aquela que salvará a humanidade. Que haverá capacidade para isso, parece cada vez mais inquestionável, resta a pergunta: Ela servirá aos individualistas que controlam a sociedade, e consideram nossa característica gregária de forma eugenista, ou servirá aos que vêem nossa característica gregária como o que realmente somos: dependentes uns dos outros?

Dessa resposta obtemos quais serão os impactos da tecnologia na sociedade. Hoje, em nossa sociedade brasileira, os impactos são fragmentados, paliativos ou danosos, conforme os ditames do capital internacional.

Enfim, ao analisar o fenômeno da Terceira Onda (ou mesmo um conceito paralelo como o de Sociedade do Conhecimento), têm-se a tecnologia com um peso importantíssimo nas dinâmicas sociais, mas essas mesmas dinâmicas sociais são indissociáveis do conceito de cultura, e da característica gregária da espécie humana. O que resta de barreira para que uma sociedade onde tecnologia seja voltada para essa dependência entre seres humanos, é justamente o sistema de produção comum ainda à Terceira Onda e à nossa cultura atual: o capitalismo focado no consumo e no individualismo. Se a Terceira Onda vai superá-lo, e alterar assim, radicalmente a nossa cultura, podemos esperar impactos melhores da tecnologia do que se o contrário acontecer, e o capitalismo continuar no cerne de ambas as coisas.

Bibliografia:

COSTA, Cristina. Introdução à ciência da sociedade. São Paulo, Ed. Moderna, 2010. Pg. 182 a 186.

TOFFLER, Alvin e Heidi. Criando uma nova civilização: a política da terceira onda. 6 ed. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1999. Pg. 19 a 29.

A história das coisas. Vídeo acessado em: https://www.youtube.com/watch?v=7qFiGMSnNjw&feature=youtu.be