Mostrando postagens com marcador ensino. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ensino. Mostrar todas as postagens

sábado, 26 de março de 2022

O Desenvolvimento do Ser Humano sob Óptica de diferentes Estudos

 

Neste texto trago alguns trechos e comparações breves das obras de estudiosos que analisaram o estado de desenvolvimento do ser humano. Este estado se refere ao modo de pensar, aprender e agir do ser humano, sendo tema da psicologia, da pedagogia e talvez da ontologia (pelo fato de se aproximar da teoria da mente e de uma "visão do ser"). Embora o principal autor abordado aqui seja o pedagogo e reformador suíço, Johan Heinrich Pestalozzi, um dos principais responsáveis pela reforma educacional na Europa (que de certa forma, garantiu acesso universal à educação em seu país de origem), também tratarei resumidamente de obras de psicólogos e filósofos. 

O estado de desenvolvimento da raça humana abordado por Pestalozzi, muito tem a ver com a psicologia (o estudo da alma, da mente ou do comportamento) e com a filosofia, principalmente no campo da ontologia (o estudo do existir e do modo de existir). Esta é mais uma prova que a psicologia é inseparável da filosofia: Os 3 estados descritos por Pestalozzi foram observados em seus estudos sobre pedagogia e têm certas semelhanças com os 3 estágios (de existência) percebidos pelo filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard. Este último, em algum nível se inspirou nas obras clássicas do filósofo Platão e de seu respectivo professor, Sócrates. 

 Embora os estudos sobre comportamentos, estados psíquicos e de desenvolvimento sejam feitos em determinadas épocas, estes autores conseguiram reunir observações de características significantemente atemporais do ser humano. 

Na psicologia este tema aparece como 3 estados psíquicos/ comportamentais/ existenciais e são observados e pesquisados separadamente e respectivamente por estudiosos austríacos: Sigmund Freud, Alfred Adler e Viktor Frankl. 

 


 

Estado natural/ Estágio estético 

O ser humano nesse estado é predominantemente dominado pelos instintos de sobrevivência. Em linhas gerais, isto o conduz simples e inocentemente para a satisfação dos sentidos. 

O psiquiatra austríaco e fundador da psicanálise, Freud, centralizou sua teoria nesta condição do aparelho psíquico: O Id, sendo o responsável pela liberação da libido do inconsciente (a "energia psíquica" por trás das pulsões de vida e de morte) para o consciente, seria regulado pelo Ego. Na psicanálise de Freud, o Ego seria o meio termo entre o Id e o Super-Ego (o autocontrole excessivo, a vergonha e a obediência geralmente produzidas diante as regras sociais, costumes, tradições e normas da civilização). 

O modelo onde é descrito o estado natural do desenvolvimento humano é proposto por Pestalozzi e tem similaridades com o que Sócrates (de acordo com Platão) chamava de estado inferior da mente, ou simplesmente de mente apetitiva - aquela que está constantemente em busca de satisfazer seus apetites e prazeres mais rústicos.

No caso de Platão, é possível entender que, ao longo de sua obra, o filósofo classificou os prazeres na seguinte ordem crescente, do mais rústico/ animalesco (talvez pareça polêmico hoje, no século 21) ao mais sublime ou sutil: 

Prazeres sexuais (erotikós, afrodísion) - possivelmente prazeres predominantemente centrados no tato; 

Prazeres da alimentação - relacionados principalmente ao sabor, portanto ao paladar (talvez, em algum nível, ao olfato também); 

Prazeres da audição - principalmente o ato de ouvir músicas, melodias; 

Prazeres da visão - admiração das cores, formas, esculturas, paisagens etc. 

Platão ainda cita a possibilidade de prazeres inferiores e superiores mais relacionados à psique, além dos relacionados ao corpo (portanto aos sensoriais): Prazer em causar dor e/ou sofrimento seriam os "mais inferiores", os prazeres em ajudar o próximo seriam "mais superiores" e devem ser citados nos próximos estados. 

O 1º estágio descrito por Kierkegaard é o estético e não se encontra distante deste "estado natural" do desenvolvimento humano descrito por Pestalozzi. Talvez seja vagamente mais refinado, ou ao menos, um pouco mais amplo, já que a estética pode se referir também aos prazeres mais sutis do que a maioria daqueles referentes ao tato. 

Kierkegaard explica que neste estágio de existência há uma angústia diante as dificuldades físicas e espirituais encontradas na vida e que isto tende a levar a pessoa a se ocupar com a busca por prazeres sensoriais, a estética. Assim, é possível entender que a preocupação é satisfeita por experimentações sensoriais, talvez abrangendo desde prazeres dos atos sexuais, passando pelo saborear de alimentos, pelas conversações e flertes até a apreciação das artes (musicais e visuais). 

Estado social/ Estágio ético 

Para Pestalozzi o homem como espécie, como povo não se submete ao poder como ser moral, nem tampouco entra na sociedade e na cidadania para servir a Deus ou amar ao próximo. Ele entra na sociedade e no estado de cidadania para tornar sua vida mais alegre e para gozar tudo o que seu ser animal e sensorial tem que gozar e para que seus dias sobre a terra transcorram satisfeitos e tranquilos. Assim, de acordo com o pedagogo, o direito social não seria um direito moral, mas apenas uma modificação do direito animal. Isto reflete sua vivência, pois Pestalozzi iniciou sua carreira de reformador na política, onde certamente se decepcionou e desistiu, tornando-se um "fazendeiro" por 10 anos. 

Kierkegaard tem uma visão um pouco mais positiva ao classificar o estágio ético como evolução do estágio estético: No estágio ético, o ser abandona seus prazeres e gostos pessoais por haver encontrado nas leis da moral e da conduta universais um patamar melhor para sua existência. A pessoa que entra no estágio ético, compreende que as leis, ainda que de forma um tanto abstrata em sua concepção, são mecanismos que restringem o comportamento humano e que podem ser um guia na racionalidade. 

O poder descrito por Pestalozzi, seria ao menos em parte, as leis descritas por Kierkgaard. Tal criação social exige comportamentos para que as pessoas coexistam em (relativa) paz, mas não pode exigir um homem moral, ou seja, não penetra os pensamentos e sentimentos, modificando-lhe para mais justo ou mais solidário. O poder da civilização na Terra só pode exigir do ser humano, pois para servir a humanidade (como um servo), o poder (ou as leis) teriam que ser mais do que uma convenção, um mero conjunto de representações a ser interpretado. Para servir, o poder deve ser alguém, pois necessita de intenção e/ou empatia. Propriedade, lucro, profissão, autoridade, leis acabam sendo meios artificiais para satisfazerem a natureza animal pela escassez (ou supressão) dos impulsos mais animalescos. Kierkgaard, com certa semelhança à Sócrates, alega que as leis (o poder) emergentes do estágio ético não são feitas apenas para substituir a escassez de impulsos animalescos, mas que como estágio funciona como uma mola propulsora: Os indivíduos tendem a avançar ao 3º estágio (o religioso que certamente seria denominado de estágio espiritual após o século 20, pois Kierkegaard era crítico do luteranismo já institucionalizado de seu tempo e local) ou a regredir ao 1º estágio, o estético, na busca por satisfazerem meros desejos sensoriais. 

Embora Platão não classifique o estágio intermediário da mente como social nem como ético, quando comparamos suas explicações sobre os prazeres sensoriais, com suas concepções de mente (inferior, estado de repouso/ intermediário e superior), é possível entender que os prazeres em se buscar o bem e fazer o bem ao próximo se iniciem (nem que seja de maneira tímida ou formativa) neste estado de repouso e se desenvolvem/ expandem no estágio superior da mente. 

Na psicologia, Alfred Adler centra sua teoria nesta condição mais social e/ou ética do aparelho psíquico. Embora, durante os anos iniciais de sua teorização, o psicólogo austríaco foi severamente criticado por enfatizar pulsões egoístas, como o desejo de poder, o sentimento de inferioridade e a busca por compensação, em 1939, Adler ampliou sua concepção dos humanos para incluir fatores de interesse social. Assim, passou a enfatizar o self criativo como elemento principal do aparelho psíquico, capaz de criar metas e os meios para atingir tais metas. Fatores hereditários e ambientais colaboram com a construção das metas. O ser humano é capaz de buscar uma superioridade em harmonia com o próximo, de caráter mais coletivo/ social. 

 Estado moral / Estágio religioso (espiritual) 

Pestalozzi alega o seguinte em suas obras: "se eu alcançar na minha condição e na profissão tudo o que eu posso alcançar, se minha felicidade está garantida pelo direito, estaria eu então satisfeito no meu íntimo? (…) Deveria pensar que sim, mas não é verdade". O pedagogo afirma que o direito social e o estado social não satisfazem completamente o ser humano, pois isso seria limitar a vida à formação civil e aos meros prazeres sensual e animal. Na alma dos indivíduos ainda haveriam desconfiança, sinuosidade e intranqüilidade, que nenhum direito social pode desfazer. 

Limitar o ser humano a um animal em seu nascimento, não possibilita o objetivo da perfeição desde a origem da vida. Pestalozzi viu o interior do ser (subjetivo, psíquico, sentimental), em sua natureza, como divino, não apenas material. Ele faz as seguintes reflexões sobre o desenvolvimento humano: 

"Logo vi que as circunstâncias fazem o homem, mas vi também que o homem faz as circunstâncias, tem uma força em si mesmo que pode conduzir de várias maneiras, segundo sua vontade. (…)

Como obra da natureza, sinto-me livre no mundo para fazer o que me agrada e me sinto no direito de fazer o que me serve. 

Como obra da espécie, sinto-me no mundo atado a relações e contratos, fazendo e suportando o que essas relações me prescrevem como dever. 

Como obra de mim mesmo, sinto-me livre do egoísmo da minha natureza animal e das minhas relações sociais, e ao mesmo tempo no direito e no dever de fazer o que me santifica e o que santifica o meu ambiente.(…) 

Como obra da natureza, sou um animal perfeito. Como obra de mim mesmo, esforço-me pela perfeição. Como obra da espécie, procuro me tranqüilizar num ponto sobre o qual a perfeição de mim mesmo não é possível. 

A natureza fez a sua obra inteira, assim também faze a tua. 

Reconhece-te a ti mesmo e constrói a obra do teu enobrecimento sobre a consciência profunda de tua natureza animal, mas também com a consciência completa da tua força interior de viver divinamente no meio dos laços da carne. 

Quem quer que tu sejas, acharás nesse caminho um meio de trazer tua natureza em harmonia contigo mesmo. Queres porém fazer tua obra apenas pela metade, quando a natureza fez a dela inteira? Queres estacionar no degrau intermediário entre tua natureza animal e tua natureza moral, sobre o qual não é possível o acabamento de ti mesmo? – Então não te espantes de que serás um costureiro, um sapateiro, um amolador ou um príncipe, mas não serás um homem." 

Enfim, Pestalozzi conclui que os direitos e propriedades da sociedade repousam apenas nos estados natural e social do ser humano, ignorando sua natureza moral. 

Kiekegaard diz que o segundo estágio, o ético, não é definitivo na vida do ser. O ser humano sente culpa e peso de sempre estar avaliando os próprios atos e pensamentos se colocando em uma posição de decisão na qual ou volta ao primeiro estágio, o estético; ou migra para o terceiro, o religioso. 

Como Platão explica, se a pessoa não busca as virtudes, a verdade e o bem maior, ela volta a buscar prazeres sensoriais e/ ou mesquinhos. Ela necessita mais: ou busca na matéria, maior quantidade ou intensidade de satisfação, ou busca o bem maior nos processos internos da mente, nos sentimentos, na espiritualidade. 

Kierkegaard explica que essa transição para o religioso é difícil e dolorosa, assim muitas das vezes, a pessoa adere ao que lhe parece mais confortável e fácil, retornando ao primeiro estágio, o estético. Porque, para se garantir o alcance definitivo do estágio religioso, a pessoa necessita se comprometer com a própria fé e nunca duvidar ou retornar ao ponto de partida, o primeiro estágio. A crença em um Deus vivo e forte, não somente em uma imagem ou pensamento, mas um Deus supremo e no qual o Amor é representado de forma íntegra, o único caminho, a Verdade suprema. Uma compreensão que muitas vezes fere o próprio ego, mas que ao ser atingida no estágio religioso, serve de guia a uma existência engrandecedora e verdadeira. 

Na psicologia, Viktor Frankl foi quem se aprofundou neste estado da mente humana. Sua vivência nos campos de concentração da 2ª Guerra Mundial, permitiram que, mais tarde, ele desenvolvesse sua teoria fenomenológica da psicologia - a Logoterapia. Seus estudos indicaram que os indivíduos que se agarravam a um sentido de vida transcendente, ou seja, para além de si mesmos, em busca de um sentido em amar outra pessoa (mesmo não presente), em se dedicar a uma fé, religião, ou mesmo, uma atividade para além de si mesmo, eram os que mais suportavam as privações biopsicossociais daquele ambiente. Algumas destas pessoas nos campos de concentração, entre elas, o próprio Frankl teve percepções vívidas de entidades amáveis, que certamente seriam consideradas meras alucinações por materialistas mais radicais. Porém estas percepções fizeram parte do processo de sobrevivência, superação e esperança, pelo qual estes prisioneiros passaram priorizando o "entregar-se interiormente à pessoa amada" (o autor alega "tanto faz se é real ou não a sua presença"). Enfim, tanto Kierkegaard como Frankl sofreram críticas no meio acadêmico, sendo considerados religiosos "demais". 

Para concluir este texto, valem as seguintes constatações: Os autores mencionados fizeram grandes descobertas capazes de auxiliar no desenvolvimento da humanidade. É uma pena que suas colaborações ainda não sejam amplamente apreciadas entre cientistas atuais, nem totalmente aplicadas para o progresso da humanidade. As obras de vários dos autores mencionados aqui indicam um caminho não só de busca pela verdade, mas de solidariedade e de esperança e não caminhos de egoísmo ou de indiferença. Não há paz enquanto houver indiferença. Falta de paz é guerra e guerra é a propagação de destruição e medo. 

Fontes:

 Minhas indagações sobre a marcha da natureza no desenvolvimento da espécie humana, Pestalozzi em 1797, (traduzido do original alemão Meine Nachforschungen über den Gang der Natur in der Entwicklung des Menschengeschlechts);

 FRANKL, Viktor E., Em Busca de Sentido. LeLivros, 1984. 

Platão, A República 559a - 559d

Platão, Diálogos III - Fedro 250b - 250d; Edipro

Platão, Diálogos IV - Filebo 46c - 51c; Edipro

Platão, Diálogos II - Hípias Maior 297e - 299e; Edipro

 

quarta-feira, 30 de junho de 2021

É Possível Instruir as Massas?

 

Esta é uma reflexão feita a partir de variadas observações particulares e mais uma vez tento usar uma linguagem informal, mais simples do que a que usei em alguns textos meus: 

 Linguagem e Clareza no Ensino e na Comunicação 

Uma atriz de teatro me contou que ao apresentar peças com a intenção de ensinar sobre política e sociedade nas periferias, os espectadores reclamaram da linguagem usada. Os moradores da periferia que assistiam às peças teatrais diziam que os atores usavam palavras difíceis, porém quando os atores perguntavam se eles entenderam a peça, eles alegavam que sim e que mesmo assim não gostavam da linguagem dos atores. Isto provavelmente aconteceu por se sentirem distantes da realidade dos atores ou por se sentirem menos inteligentes do que os atores; 

Outra observação é a seguinte: Prega-se pelas redes sociais que a ciência, principalmente as ciências humanas que são mais voltadas para resolver os problemas da sociedade, deveriam se aproximar dos mais pobres de maneira clara, pois eles são a maioria da população… 

Pois bem, minhas observações apontaram que não só há variados desafios para ensinar a maior parte da população do país, mas há uma combinação terrível de dificuldades: Além da linguagem ter que ser mais simples, o conteúdo a ser passado é muita coisa. E não se trata só de ensinar sobre as leis mais básicas (direitos no trabalho, por exemplo)... É preciso esclarecer como funciona a política, quais foram as conquistas políticas importantes, para que servem etc. É preciso ensinar até mesmo um básico de economia, ao menos para a população entender sobre de onde vem e para onde vai o dinheiro. Mesmo porque a economia é quase inseparável do emprego, do mundo empresarial e portanto inseparável do trabalho e das leis trabalhistas também. E daí fica nítido o quanto é desleal lutar contra as mentiras espalhadas pela internet e pela televisão: Consiga mais “likes” nas redes sociais, “Seja um empreendedor”, “O Agro é Pop”, “conspirações gayzistas e comunistas'', atos contra a família e contra Deus e tantas outras mentiras maliciosas. 

Muitos acadêmicos podem achar que essas mentiras são meras idiotices, mas na verdade a maioria destas mentiras usam as esperanças e a autoestima das pessoas. Essas mentiras usam desejos e sentimentos das pessoas e às vezes até incentivam e criam os desejos nas pessoas. É uma verdadeira era de manipulação mental cada vez mais ampla, pois está em todos principais lugares que as pessoas olham frequentemente: Whatsapp, Facebook, Instagram, Rede Globo, Sbt, Tv Record, Band, Jovem Pan etc etc… As verdades que surgem nestas mídias parecem minoria, pois em variados momentos são menos mostradas do que as mentiras. Não me refiro só às “fake news” que são basicamente boatos sensacionalistas, conspiratórios ou difamatórios, me refiro a manipulação mencionada anteriormente que são opiniões e propagandas vendidas como verdades. Então podemos concluir que há uma inversão dos valores em larga escala que já está fazendo um estrago que vai muito além do Brasil. 

 Para instruir a população de maneira mais rápida e ampla seria necessário tomar ao menos uma dessas mídias tão usadas pelas pessoas. Porém isto beira o impossível, afinal tais mídias servem a quem tem mais dinheiro. 

 E quem são os mais ricos? Como eles vivem? Bom, os mais ricos são multimilionários, pois não estamos falando de pessoas que ganham 6000,00 R$ ou 30.000 R$ por mês. Multimilionários acumulam facilmente dezenas ou até centenas de milhões de reais por ano, ou quem sabe até mesmo, por mês. Eles não gostam de se expor muito, mas é fácil achar alguns textos e fotos sobre eles em revistas que puxam o saco deles, como a Forbes e algumas outras. 

 Os donos das maiores empresas, os pastores milionários e por fim, os políticos e militares que aceitam propina dos empresários mais milionários, geralmente são os causadores de grandes problemas no mundo, pois eles são os corruptores e os corruptos. Tais problemas são sociais, econômicos ou até mesmo ambientais. Afinal eles controlam para onde vai o dinheiro e querem cada vez mais, que todas as coisas só sejam acessíveis por quem tem dinheiro. Isto parece esquisito para algumas pessoas, mas não é uma atitude sem sentido: É um desejo de ter cada vez mais dinheiro e bens, fazendo com que outros se esforcem por esta aquisição de fortunas. Sim, um tipo de escravidão, mas disfarçado de um sistema onde as pessoas conseguem coisas devido ao seu próprio mérito. A tal meritocracia que é mostrada como algo “natural”, mas não tem nada de natural, sequer devia ser chamada de meritocracia, já que é um sistema onde o mais rico compra as leis e pode cada vez mais, enquanto os pobres podem cada vez menos. 

De maneira mais clara é um sistema onde o mais egoísta ganha mais. Por ser um sistema social e econômico que favorece o mais egoísta e o mais ganancioso, talvez nem adiante eliminar o dinheiro ou todo o sistema em si, pois a maioria do povo cairia outra vez no discurso que o dinheiro (ou algum substituto do dinheiro) ainda é necessário. Daí a importância não só da instrução racional, como também da instrução dos sentimentos e suas respectivas expressões (as emoções). Isto é o que eu já mencionei em textos anteriores: Os verdadeiros estudos, a verdadeira ciência não pode ser separada do Bem. E não é difícil entender que o bem é a solidariedade, a equidade (igualdade de oportunidades), a justiça etc. 

 Isso seria uma utopia? Um sonho ingênuo? Talvez, mas a ideia não é nova, porque alguns filósofos mencionaram tal ideia há mais de dois mil anos atrás… 

 O que é Instrução e o que é necessário para se Instruir? 

 Se procurarmos em dicionários podemos achar as seguintes definições sobre o que é instrução: Ensino, ação de instruir, estudo, conhecimento, ciência, saber… Aqui temos definições gerais, ou seja, não tão precisas, mas sabe-se que tanto o ensino, como a ciência, possuem métodos para a construção do saber ou dos conhecimentos. 

Uma das condições básicas de todos os métodos para se estudar, para aprender ou para construir qualquer conhecimento, é deixar de lado os pré-julgamentos, evitando-se assim as opiniões influenciadas por criação (família etc), gostos, aversões etc. Isto tem muito em comum com a postura de humildade, de assumir que devemos aprender, porque não conhecemos suficientemente o determinado assunto a ser estudado em questão. Tudo isto não difere da postura básica necessária para a pesquisa científica, porém ainda assim, pouco se fala sobre a importância de não pré-julgar e de manter-se humilde para qualquer tipo de estudo, seja o estudo fundamental, médio ou acadêmico/ científico. Isto ocorre porque tais conceitos de humildade e receptividade (o ato de não pré-julgar) são tidos como muito “subjetivos” ou são tidos como sentimentos “muito individuais” de cada pessoa. Bom, se alguém pensa que trata-se de um assunto muito particular de cada ser humano, pensou errado. Seria particular se não afetasse o seu entorno, mas no ensino e na construção de conhecimento, afeta. E muito. 

 Na verdade estas questões foram abordadas e debatidas sim, durante parte do desenvolvimento das ciências, no mínimo, desde o século 17. Mas sua importância veio sendo diminuída gradualmente, possivelmente desde o momento em que o método empírico se chocou com a filosofia e com o surgimento da psicologia, no século 19. 

 Não é função deste texto aprofundar-se como o choque entre os cientistas empiristas e os cientistas fenomenólogos dividiu a psicologia, mas sim mostrar os caminhos que se formaram na construção do conhecimento. Parece complexo (e até é), mas basicamente estas separações aconteceram não só por causa da necessidade de entender as coisas (a natureza, a mente etc), mas também por causa das tendências de certos estudiosos e seus estudos, ou seja, as cisões aconteceram também por causa de opiniões. Até aí pode não ser absurdo, afinal o ser humano é falho, mas há alguns pontos de interesse sobre o que se diz e o que se pensa sobre opinião. 

 A opinião é discutida, definida e separada da ciência, já no período considerado como o surgimento da filosofia no ocidente, na Grécia clássica do século 4 antes de Cristo. De acordo com os filósofos socráticos, a opinião é mais relevante do que a ignorância, porém menos relevante do que a busca pelo saber/ conhecimento. 

23 séculos depois Husserl cria o método fenomenológico, mostrando que estudar só o que se percebe fisicamente (o método empírico) e o que pode ser reproduzido, já é um método com viés. Afinal, instruir as pessoas apenas sobre coisas que podemos ver, ouvir, tocar e cheirar, ignora muitos campos de estudo e tende ao tecnicismo, mostrando-se um método de ensino que prioriza a profissão, a produtividade e o mercado. Muitos dos motivos que fazem o ser humano tomar decisões são baseados em sentimentos, em crenças e interpretações, que quando ignoradas, geram distorções dos fatos, as quais chamamos vulgarmente (e muitas vezes, precisamente) de mentiras. 

Ser técnico é importante muitas vezes para entender e explicar determinados temas, mas muitas outras vezes, não é suficiente: Não explica os porquês de normas sociais e dos sistemas sócio-econômicos, e nem trabalha a importância da empatia, das relações sociais, das relações afetivas e dos sentimentos. Em outras palavras, afirmar que o estudo técnico e o método empírico são mais importantes ou mais verdadeiros que outros métodos, faz parte de um grande movimento reducionista pois se adequa bem ao discurso da competitividade desenfreada e de que tudo é naturalmente oriundo do mérito. 

E o que mais se adequa aos movimentos reducionistas? Os discursos apoiados em tradições, as externalizações toscas e as religiões punitivistas ou frias. Nenhum destes 3 exemplos são métodos de ensino nem de pesquisa, mas vão direto ao encontro da necessidade de sentimentos e de crenças, dando alguma motivação às pessoas. Assim, o desempregado, o desiludido e o pobre, sentem-se acolhidos num grupo (ao menos) aparentemente amigável. Obviamente, grande parte desses grupos, liderados por pastores, por exemplo, apenas enganam e extorquem seus seguidores e seus fiéis, dando em troca, breves discursos consoladores e talvez espaços para desabafos com choros e abraços. Outras vezes os discursos tradicionalistas ou “religiosos” quando são reducionistas, dão motivações bem torpes às pessoas, como criar rivalidade entre grupos e inventar inimigos. As externalidades são aqueles argumentos que alegam que um determinado fator não tem importância dentro de um tema. Por exemplo, ao conversar sobre meio ambiente, dizer que a falta de fiscalização das empresas que poluem ou desmatam, é um outro assunto menos importante. Por fim, a institucionalização nociva da religião é a demonização das outras fés, a criação de hierarquia e de autoridades absolutas em assuntos que deveriam ser essencialmente espirituais. 

Tudo isso é baixo? Covarde? Repulsivamente aproveitador? Provavelmente tudo isto, mas citei estes exemplos apenas para mostrar que é o outro lado que completa a doutrina reducionista baseada em materialismo, insensibilidade e imediatismo: 

De um lado o tecnicismo ignora sentimentos, crenças e interpretações incentivando a produtividade, e do outro lado, os cultos tradicionalistas e punitivistas, manipulam os sentimentos, crenças e interpretações, favorecendo os mais multimilionários e mais poderosos.

Métodos de ensino, do fundamental ao acadêmico/ científico, que sejam baseados apenas em tecnicidades, deixam uma falha enorme na construção dos indivíduos e das sociedades formadas por esses indivíduos. E muitos dos estudos feitos por métodos tidos como supostamente mais objetivos, foram feitos com motivações não exatamente nobres, nem ao menos foram concebidos pensando no bem da sociedade ou da maioria dos habitantes de uma nação ou da Terra. 

 Segmentação e Reducionismo - Como Combater 

Então, o reducionismo no ensino e nas pesquisas, nem sempre foi acidental. Seria possível vasculhar a história dos métodos científicos e analisar quais dos seus criadores e contribuintes estavam interessados em se beneficiar, quais se interessavam e beneficiar a poucos e quais tinham uma visão mais ampla, preocupando-se com grupos maiores de pessoas. Destes últimos, poderíamos ver quais tiveram uma postura de humildade em suas pesquisas, e quais eram mais receptivos às outras áreas do saber, seja desenvolvendo acidentalmente, ou intencionalmente, uma empatia com o próximo. 

Porém, aprofundar-se na história dos métodos científicos e de seus criadores é um assunto extenso, para não dizer profundo, e terá que ficar para um possível futuro. 

O que está sendo tratado aqui é o seguinte: Segmentação é reduzir a grupos com pouco ou nenhum contato entre si. E esta redução é um reducionismo (óbvio). 

Estes grupos de estudiosos tinham em comum um linguajar supostamente científico, ou supostamente técnico. Um linguajar difícil, que a maior parte das sociedades, pobre e com pouco ou nenhum estudo, simplesmente não entendia. E ainda não entende. 

Hoje, neste início do século 21, temos divulgadores científicos, mas que concorrem na internet com youtubers e tantos outros conteúdos aleatórios, muitas vezes intrusivos e de viés consumista (propagandas aos montes, por exemplo). Esta concorrência é difícil, possivelmente até desleal, já que algoritmos priorizam para que as pessoas vejam mais propagandas e conteúdos imediatistas na internet, lucrativos para seus anunciantes. Então quais seriam outros meios necessários para a instrução das massas? 

Algumas medidas já foram tomadas, mas correm o risco de serem canceladas e desaparecerem: Programas de bolsas de ensino para que as pessoas estudem de graça em faculdades. Outras medidas parecem longe de serem tomadas: A facilitação do linguajar técnico e científico, tanto para maior entendimento das leis dos países, como para o desenvolvimento de pesquisas científicas. Esta facilitação vem sendo discutida há anos, mas aparentemente nada foi resolvido ainda. 

A maioria da população mundial é formada por pessoas com pouco dinheiro e pouco estudo. Enquanto o conhecimento se manter separado/ distante da maioria das pessoas, estas permanecem servindo de marionetes para quem tem mais poder, seja econômico, político, militar ou até religioso. 

As ciências como conhecemos hoje, de maneira resumida, se desenvolveu há cerca de 4 séculos. E continua isolada, elitista, numa frágil bolha inacessível pela maioria pobre, e frequentemente desprezada, quando não manipulada, por outros círculos de poder como os mencionados há pouco: Os poderes econômicos, religiosos, políticos e militares. A ciência e os estudos em geral não devem ser alienados nem alienantes. Eles devem conversar com a maioria das pessoas e integrá-las na sociedade. Isto não é um discurso meramente “pró achatamento de camadas sociais”, é um discurso a favor da verdade e do desenvolvimento intelectual e empático dos seres humanos…