Mostrando postagens com marcador ciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ciência. Mostrar todas as postagens

domingo, 23 de junho de 2024

Como se constrói conhecimento: com cientificismo ou com ética?

O Empirismo não é Suficiente para a Psicologia: 

Vejamos as polêmicas que cercam a psicologia e a psicanálise. Uma das características da ciência tradicional, seja chamada de materialista, naturalista ou positivista, é a necessidade da reprodutibilidade na construção de conhecimento (típica do método empírico de investigação). Porém a reprodutibilidade não existe em psicoterapia alguma (seja qual for a abordagem: Análise do comportamento, TCC, Psicologia Analítica, Logoterapia, ACP, Daseinanálise etc): isto é um fato notável na prática clínica psicológica e nem deveria ser necessário citar uma fonte sobre tal assunto. Este fato da prática do tratamento psicológico, ou seja, da psicoterapia, poder usar o método empírico apenas parcialmente, explica porque Wilhelm Wundt afirmava que a psicologia é uma área interdisciplinar inseparável da filosofia. Pela necessidade da psicologia ser colocada em prática, ela abrangeria as "ciências naturais" em algum nível, ou seja, a construção de conhecimento objetivo, com métodos sensoriais (observação etc) e reprodutíveis. Porém, ao lidar com questões internas do ser humano, ela também se manteria ligada à filosofia e por causa deste último fator desvinculado ao método empírico, a psicologia deveria influenciar a epistemologia. 

Wundt não fez só um dos primeiros laboratórios de psicologia - ele buscou lançar bases sólidas para a psicologia e esta base era um assunto complexo por envolver temas como a construção do conhecimento e a relação mente-corpo, que eram discutidas no mínimo desde o século 17 após a publicação das obras de René Descartes. O trabalho de Wundt acabou predominantemente ignorado, pois na Europa, a "psicologia" foi colocada em prática principalmente por Sigmund Freud (1856-1939), fundador da psicanálise, que apoiou-se no tratamento criado pelo fisiologista Josef Breuer (1842-1925). Enquanto isso, os principais nomes da psicologia nos EUA, como John B. Watson (1878-1958), buscavam uma psicologia estritamente experimental, ou seja, apoiada o máximo possível no empirismo. Como consequência lógica disto, Watson, priorizou somente o comportamento observável, desprezando fatores internos do ser humano, como os pensamentos, os sentimentos, as memórias, a lembrança, a imaginação, a intuição, a cognição etc. 

Isto é um dos indicativos que a psicoterapia, através da relação terapeuta-paciente/cliente, está mais próxima de um método filosófico de construção de conhecimento do que de o método empírico predominante na ciência (ou ao menos, predominante na ciência tradicional). 

Mas para estudar os fatores psíquicos ou subjetivos que relacionam-se com o comportamento, certamente foi necessário estabelecer parâmetros para se estudar o ser humano. É aí que Freud propôs uma "estrutura da mente", ou da psiquê, identificando que há algo além da consciência: o inconsciente. No inconsciente surgiriam os instintos e ficariam "armazenados" os conteúdos "recalcados" (reprimidos). Detalhando um pouco mais, Freud estipula o pré consciente onde haveriam lembranças mais fáceis de serem resgatadas, enquanto no inconsciente ficariam as "perdidas" ou mais difíceis de serem recordadas. Esta parte de sua teoria é simples e lógica, afinal não há corporealidade (ou materialidade) em desejos, lembranças e outras atividades ou elementos mentais - pode-se detectar alguns efeitos neuroquímicos/ eletroquímicos, mas efeitos no sistema nervoso não provam a inexistência de uma psiquê, seja ela "mente ou alma". Porém, talvez por buscar uma aproximação das ciências naturais, principalmente das áreas biológicas, Freud centrou sua teoria nas questões sexuais, afinal a teoria da evolução das espécies de Darwin e Wallace estava causando grande impacto nas ciências durante a 2ª metade do século 19. O impacto de Darwin foi tão grande que alguns pensadores (cientistas etc) passaram se aproveitar de sua teoria para apoiar visões de mundo cada vez mais biologistas/ materialistas: o materialismo se aproximando da condição de dogma nas ciências, facilmente deu abertura para estudiosos que cada vez mais desprezavam a ética, propagassem ideias racistas, precificadoras e objetificadoras do ser humano. 

A ética é um assunto abstrato, afinal ninguém faz contato sensorial com a ética: ela é uma ideia, mas uma ideia que deve ser colocada em prática, para beneficiar não somente um indivíduo sobre os demais, ou pequenos grupos sobre a maioria dos indivíduos. A ética busca trazer a importância de um valor universal que deve ser entendido e assumido pelos indivíduos e colocado em prática coletivamente para o convívio e para o bem da civilização. Por mais utópica que pareça esta ideia, ela é discutida ao longo da história justamente por causa de sua importância. Não se trata de discutí-la através da retórica, ou seja, não é uma questão de ser meramente convincente e sim, uma questão de desenvolvimento humano. Pois o intelecto não se desenvolveu isoladamente do sentimento e da empatia. Estes atributos psíquicos não se contradizem entre si, afinal, se fosse assim, o ser humano não teria ambos atributos e sim, somente um deles. Logo é possível convergir intelectualidade/ racionalidade com empatia e sentimentos. A academia surge na história justamente com o desenvolver da ética, por Platão (428 aC - 347 aC), ao tratar a ideia/ forma (eidos) do Bem/ do belo (kalos). Antes de Platão e de seu mestre, Sócrates, fundadores da filosofia ocidental, o conceito da ética (da virtude, do bem etc) era pouco ou nada estudado e por esta razão os filósofos anteriores ("pré socráticos") eram chamados de "filósofos naturalistas". 

Infelizmente, ao longo da história, a filosofia foi sendo afetada pelo materialismo niilista durante o século 19. Embora deva ter sido um fenômeno gradual, talvez iniciado no final do século 17, ele pode ser notado mais nitidamente quase 2 séculos depois, com a ascensão de autores como Nietzche e Comte. Durante o século 19 por exemplo, o termo filósofo natural foi substituído por cientista, demarcando publicamente a separação entre filosofia e ciência. Certamente este assunto é complexo por envolver uma série de autores influenciados uns pelos outros ao longo de 2 ou 3 séculos da era moderna, então não detalharei ele aqui. 

O fato é que o naturalismo que tanto difundia o materialismo como dogma durante o século 19, foi enfrentado e questionado pela fenomenologia do matemático e filósofo, Edmund Husserl (1859-1938). Husserl criticou o subjetivismo/ psicologismo, que priorizava a questão interna do ser humano e também o naturalismo, que priorizava a realidade externa/ sensorial, esta última que ganhara muita força durante o século 19, como já mencionado. Partindo de questões filosóficas sobre a matemática, como por exemplo, a questão se esta era uma invenção humana ou se era um elemento essencial da natureza, Husserl propôs um novo método rigoroso que estuda os fenômenos, como um conjunto composto por elementos externos e internos (a captação pelo observador). Isto porque, todo ser humano tem uma intencionalidade: Um movimento natural da consciência do indivíduo, que é constantemente direcionado à algo. 

Este seria um modo menos abstrato de fazer filosofia - uma (re)aproximação deste saber com a ciência. Com o conceito de epoque, ele busca suspender os pressupostos filosóficos (naturalista/ positivista/ materialista-niilista vs idealista/ psicologista/ subjetivista) aos quais os acadêmicos de seu tempo tanto se agarravam. Pré supor algo seria um preconceito, porém como todo ser humano tem alguma forma de ver a realidade (visão de mundo, cosmovisão, weltanschauung) a suspensão seria feita não ignorando todas as visões de mundo, mas testando uma a uma. É uma proposta que gerou algum resultado e afetou a psicologia, pois os questionamentos de Husserl tratavam da mente humana e a consciência. Da fenomenologia surge a "frente fenomenológica" da psicologia com variadas abordagens como a Daseinanálise, a Gestalt terapia, a Logoterapia e a Abordagem Centrada na Pessoa. 

Enquanto isso, a psicanálise lançada por Freud crescia em propagação e em novos autores. Porém alguns destes autores passam a questionar certos pontos da teoria psicanalítica, principalmente no que se refere ao modelo de desenvolvimento humano proposto por Freud: Carl Gustav Jung (1875-1961), Alfred Adler (1870-1937) e Otto Rank (1884-1939), foram autores influentes na psicologia que separaram-se da psicanálise para trabalhar em suas próprias teorias e abordagens. Estas separações não questionavam as estruturas mais básicas entendidas por Freud como o consciente e o inconsciente e sim, questionavam a ênfase na sexualidade, como a centralidade que o fundador da psicanálise deu ao complexo de Édipo. A partir das novas teorias e abordagens, considera-se o surgimento da frente psicanalítica de psicologia. 

Por fim, nos EUA, Burrhus F. Skinner (1904-1990) desenvolve a análise do comportamento diferindo um pouco de Watson, fundando também o radical behaviorism. Skinner classifica seu comportamentalismo radical como uma filosofia, embora contradiga várias obras filosóficas que tratam da mente como um elemento abstrato ou como espírito. Para Skinner só existem fatores biológicos (observáveis e internos), históricos e sociais, ou seja, sua visão de mundo monista não difere em nada do materialismo niilista que foi dominante nas ciências durante o século 19. Para não negar a importância dos processos internos (psíquicos) do ser humano, Skinner classificou pensamentos e sentimentos como "comportamentos secretos". A partir de sua obra surge a frente behaviorista de psicologia (comportamentalista em tradução livre). 

A filosofia ocidental em sua origem, fundada por Platão, não discute o ser, ou o que existe, de maneira determinista. Estas questões são tratadas da maneira mais ampla possível, sem perder o senso crítico, pois o método de investigação platônico é composto essencialmente de um diálogo e de reflexões analíticas, baseado na maiêutica de seu mestre Sócrates. A ontologia de Platão não discute se existe só a matéria ou só a psiquê; ela esta centrada numa busca contínua da melhor maneira das coisas serem, como mostrado no texto Fédon; Platão não escolheu dar abertura ao abstrato por acaso: Esta foi a maneira de trazer a ética para o centro da construção de conhecimento como mencionada anteriormente. 

Esta ruptura ou negação feita por Skinner, em relação às origens da filosofia ocidental, mostrou-se uma visão extremista que viria a ser desafiada em algum nível dentro dos EUA, com o surgimento da Terapia Cognitiva Comportamental de Aaron Beck em 1963 e das ciências cognitivas, mais ou menos na mesma época. Assim "a mente voltava a ser uma possibilidade", ainda que com um viés um tanto racionalista/ "computacional". 

Diferentemente dos cognitivistas, o fundador da Abordagem Centrada na Pessoa, Carl Rogers (1902-1987), entendeu que Skinner privilegiou conceitos como controle e previsibilidade, dando pouco valor a conceitos como liberdade e realização pessoal. Skinner defendeu um modelo de educação que parte do meio para o indivíduo enquanto Rogers defendeu que a educação deve ser feita do indivíduo para o meio. A abordagem de Rogers considera o modelo de educação e controle de comportamento de Skinner excessivamente mecanicista e determinista. Por fim, com o passar dos anos, surgiram vertentes mais recentes do comportamentalismo que tentaram integrar práticas mais humanas que dessem mais importância às esferas humana e social. 

Revisitando a história do nascimento da ciência moderna a partir da filosofia 

Como já mencionado, a visão de mundo materialista, que servia de pressuposto filosófico para maior parte das ciências, vinha ganhando força desde muito antes de Darwin e Freud. John Locke ao propor o empirismo como único método verdadeiro para se construir conhecimento no final do século 17, começou a propagar a visão de mundo materialista (intencionalmente ou não) junto de alguns outros autores de seu tempo e no início do séc. 19, Auguste Comte viria a reforçar muito essa ideia através de sua ideologia positivista. Isto era natural de se acontecer em uma época de cultura antropocêntrica (típica do iluminismo) e com limitações de meios para se investigar a realidade (durante o séc. 19, os telescópios eram menos potentes e as medições menos precisas se comparadas com o séc. 20). Apesar dos avanços feitos posteriormente, no decorrer do século 20, a ciência continua predominantemente presa ao modelo onto/epistemológico tradicional (materialismo/ empirismo) praticamente seguindo os pressupostos filosóficos de Newton, Locke, Comte... 

Para indicar a limitação de tal modelo de construção de conhecimento e de "visão de mundo", mostra-se válido observar as descobertas da física: Durante o século 20 foram feitas obras revolucionárias de estudiosos como Einstein, Rutherford, Heisenberg, Eddington e Minkowski. O termo revolucionário aqui não é empregado de maneira fútil, pois indica uma quebra com modelos anteriores - descobertas que revisaram a física newtoniana e geraram um impacto em toda a "filosofia da ciência": A visão de mundo (ou weltanschauung) monista materialista e a eliminativa passaram a se mostrar limitadas e insuficientes, reabrindo uma possibilidade da construção de conhecimento se apoiar em outros pressupostos filosóficos mais abertos e abrangentes, sejam eles o dualismo, o mentalismo, o idealismo ou o espiritualismo. O astrofísico e divulgador científico inglês, Arthur S. Eddington, indica isto em seu livro The Nature of Physical World particularmente mostrando como o modelo Newtoniano da física ficou obsoleto diante as teorias da relatividade e as descobertas sobre o átomo (posteriores a Rutherford). A exposição do modelo quadrimensional do tempo e da baixa relevância das partículas na constituição e percepção dos corpos* mostram como o pressuposto filosófico monista materialista da ciência não cobre toda a explicação da realidade. 

*Einstein sugere que os campos eletromagnéticos (e suas respectivas ondas, por exemplo) sejam o fator determinante da "matéria"; Eddington explica que a inferência é inevitável na construção de conhecimento, mesmo em áreas "exatas" como a física e a matemática.

Porém ainda hoje, cerca de 100 anos após a "revolução da física", certos indivíduos no meio acadêmico utilizam-se de critérios de "filósofos" como Popper para acusar áreas de estudo como a psicanálise de pseudociência. Tal "filósofo da ciência" acusou Freud de cometer "erro epistemológico", ou seja, um erro de método para se construir conhecimento... Primeiramente deve-se saber se a psicanálise realmente foi proposta como uma área da ciência, pois a construção de conhecimento é anterior a ciência, seja ela apoiada em pressupostos e métodos do iluminismo (materialismo-empirismo) ou do século 20 (teoria geral dos sistemas por exemplo). 

Os psicanalistas que romperam com Freud (Otto Rank, Adler e Jung citados anteriormente) não usam argumentos sequer parecidos com os de Popper, para criticar determinados pontos da psicanálise e invocar argumentos de Popper contra Freud é insistir em argumentos já criticados por diversos outros mais recentes como os de Adolf Grunbaum etc. Particularmente entendo que usar a filosofia do século 20 para criticar qualquer frente da psicologia não seja o mais adequado: Os estudiosos da psicologia contemporâneos de Freud (citados anteriormente) sim tiveram uma vivência na psicanálise e possuíram algum repertório para discordar do "pai da psicanálise" e tecer críticas à sua teoria. 

O pressuposto filosófico obsoleto (materialista-niilista) refutado pela consequência filosófica da teoria da relatividade de cientistas como Einstein e Eddington, continua dominante em áreas como medicina, neurologia, genética, behaviorismo e neuropsicologia. Quando Eddington explica como a noção de espaço-tempo absoluto de Newton foi refutada por Einstein, esta refutação não é meramente da área da física: ela faz parte das descobertas que apontam inconsistências na cosmovisão newtoniana, ou seja, nos pressupostos filosóficos materialistas/ niilistas: há possibilidade de dimensões ou realidades além da tridimensional perceptível pelo sistema sensorial humano. Entender e aceitar o impacto das descobertas de Hermman Minkowski, Albert Einstein e Arthur Eddington, não é necessariamente aceitar uma cosmovisão mentalista, nem é ter que crer em espíritos ou em Deus. É a necessidade de se deixar tais questões em aberto, não ignorando, mas admitindo uma maior amplitude de construção de conhecimento. 

Se a ciência em geral, ou, se estas áreas mencionadas em específico optarem por permanecer pesquisando somente o mensurável e perceptível sensorialmente, então há de se admitir que tais pesquisas pertencem a um segmento notoriamente limitado do conhecimento. Um segmento que ignora sentimentos, pensamentos, memórias, lembranças, intuições (etc); Um segmento que nega de maneira dogmática a (possibilidade da) existência do espírito e de uma dimensão espiritual. Um segmento que ignora dimensões além das três perceptíveis pelo nosso "sistema sensorial" - que não admite que exista nada além do espaço tridimensional... 

Obviamente as áreas científicas, já separadas da filosofia, no mínimo, desde o século 19, não são obrigadas a estudar tais questões, mas devem ter uma postura respeitosa e ética perante tais saberes. 

Esta postura é uma questão ética, e portanto, central da filosofia. Assim, se a ciência rejeita estudar questões filosóficas, ela ainda deve ao menos manter um vínculo central em pontos essenciais para o progresso individual e coletivo interdependentes entre si. Este vínculo é uma postura coerente com a ideia de construção de conhecimento, pois tal construção compreende um percurso histórico de relações entre estudos, descobertas e revisões, sempre tendo em pauta a ética e seu valor universal. 

A postura ética de construção de conhecimento deve admitir a tão falada inclusão das culturas ameríndias e afrodescendentes e suas respectivas cosmovisões. E inclusão não é só alegar externamente que tais cosmovisões/ culturas/ saberes são tolerados na academia e/ ou na sociedade - é não criar nem manter hierarquias dos saberes e das culturas. Não adianta dizer que, por exemplo, mazatecas ou iorubás são equivalentes da cultura ocidental centrada na Europa e EUA e excluir seus pontos de vista da academia. 

Esta inclusão não é simplesmente misturar conhecimentos sem parâmetro algum. É buscar entender quais são suas relações e como e quais áreas podem ser inter-relacionar. Muitas das questões mais culturais, antropológicas, psicológicas destas culturas por exemplo, devem dialogar com as áreas das humanas e da filosofia. Portanto é essencial que a filosofia ocidental seja aberta como já foi em sua origem proposta por Platão. 

Raízes e cerne da filosofia ocidental: Um diálogo plural centrado na ética

Ao estudar as obras de Platão, é possível notar que o autor trata de uma ampla gama de temas e que estes temas não são apresentados somente baseado em suas reflexões. 

Primeiramente, Platão baseou-se nos diálogos de seu mestre, Sócrates. Sócrates não deixou obras escritas, pois difundiu conhecimentos exclusivamente de maneira oral, através de diálogos conduzidos por seu método, a maiêutica. Assim o filósofo fomentava a busca e o desenvolver da virtude, ou seja, de um valor universal. Eis a razão, de Platão ter tratado da ética em suas obras: foi preciso combater a propagação da retórica em seu tempo, tão utilizada pelos sofistas da Grécia clássica. Ou seja, a filosofia organizada pelo autor, foi contra o uso da linguagem com ênfase na persuasão para a aquisição de vantagens particulares. Assim, a filosofia ocidental em sua origem, não era relativista, pois não ignorava a importância da ética e da aplicação desta na forma de leis de maneira inclusiva para a sociedade, ainda que houvessem limitações culturais de sua época - o século 4 a.C. 

Secundariamente, é admitido que Platão desenvolveu seu próprio pensamento, indo além de Sócrates. Neste desenvolver podem ser notadas influências variadas: Ao discutir seu conceito de "eidos" (idéia/ forma) o filósofo mostra que dialogou com os argumentos de Parmênides; Ao tratar eventualmente da matemática em suas obras, Platão deve ter dialogado com filósofos pitagóricos, bem como traça os conceitos de Nous e de sua ontologia, alternando entre citações e refutações das ideias de Anaxágoras. Pitágoras e Anaxágoras possivelmente trouxeram conhecimentos de regiões mais distantes para as pólis helênicas ("Grécia"), como do Egito e do Império Persa que havia dominado a Babilônia, parte da Fenícia, até as fronteiras da "Índia". 

No diálogo Fedro, ao incluir temas sobre experiências de espiritualidade e estados alterados da mente (mania, transe e êxtase), Platão dialoga com a consciência mística típica das oráculos nas pólis helênicas (gregas) de seu tempo. Tal consciência mística, apoiada na cosmovisão que aceita uma dimensão espiritual, também pode ser encontrada em diversas outras culturas ao redor do mundo. 

No Banquete (ou Simpósio), o autor trata de eros, o desejo/ a paixão e desenvolve um sentido para este, perpassando os conceitos de amizade (a paixão pelas psiquês) e ágape (a paixão por todas as psiquês, pelas leis e tudo que é bom e belo). 

Nos diálogos Filebo, A República e Político, o autor utiliza-se de releitura dos mitos helênicos para abordar não só temas da espiritualidade, mas também da matemática e da cosmologia. 

Com estas observações, conclui-se que Platão não era meramente um racionalista: sua consciência combinava o aspecto racional com o mítico e o mágico/ místico. Tudo isto utilizando o rigor de seu método dialético/ reflexivo (maiêutico) constantemente apoiado por sua ontologia de sempre buscar a melhor maneira das coisas serem (na era moderna esta ontologia certamente seria chamada de teleologia). Sua ontologia é condizente com sua ideia central: kalos - o bem/ belo, um valor universal, ou seja, ético. 

A ética parece ter sido esquecida na construção de conhecimento desde o "racismo científico" da era iluminista, perpassando o darwinismo social da virada do século 19 ao 20, a psiquiatria excludente que condenava e torturava os diferentes e as minorias até a criação de armas químicas e de destruição em massa das guerras mundiais/ fria. Somente após essas atrocidades surgiram indícios que o ser humano está começando a entender que não é sendo determinista nem excludente que ele alcançará algum progresso ou bem-estar. Isto porque a ética não deveria ser mero adorno na construção de conhecimento, muito menos uma "externalidade": a ética faz parte do rigor da construção de conhecimento, pois ela não é exclusivamente um conceito abstrato vinculado a um fator interno do ser humano: ela também deve ser colocada em prática para a sociedade como um todo - isto faz parte de sua universalidade. 

Eis as razões porque substituir o reducionismo (típico do materialismo niilista) e o cientificismo da academia pela ética e pela universalidade. Ética e universalidade não descartam métodos rigorosos de construção de conhecimento: só abandonam o determinismo ao priorizar a busca, o desenvolvimento e a aplicação de valor(es) universais.

Fontes:

Bill E. Forisha, Frank Milhollan (1978). Skinner X Rogers. Maneiras contrastantes de encarar a educação 8 ed. São Paulo: Summus. 196 páginas. 9788532300355

Schultz D.P., Schultz S.E. (1992). História da Psicologia Moderna. São Paulo: Cultrix. 9788522106813

Araújo, Saulo de F. Uma visão panorâmica da psicologia científica de Wilhelm Wundt - 06/2009 https://www.scielo.br/j/ss/a/YpGvJRjbDNyJzzrkS7wN8jp/?lang=pt acessado em 20/09/2023

https://www.youtube.com/watch?v=UOXrNXr_slo&t=1s acessado em 17/08/2023

Wozniak, Robert H., Mind and Body - From Descartes to William James. (1992);

 Platão, Fédon. Tradução de Edson Bini, Edipro (2020)

Platão, Fedro. Tradução de Edson Bini, Edipro (2020)

Platão, O Banquete, Tradução de Edson Bini, Edipro (2020)

Platão, A República. Tradução de Pietro Nasset, Martin Claret (2015) 

Eddington A.S. The Nature of Physical World (2008)

 

 

 

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

A importância "das áreas" da Filosofia para a Ciência

 1. Como se faz Ciência? Como se constrói conhecimento? - Texto de 16/09/2023

Todo estudo começa de um interesse, interligado a um objetivo ou função. Trata-se de uma intenção que nos move em uma determinada direção. Porém quem estuda? 

Quem tem tal intenção de entender ou descobrir sobre determinado fenômeno ou assunto, é claro. 

Se temos intenção, é preciso assumir que se parte de um ponto, e este ponto é nossa própria intenção. Seja lá o que consideremos a "residência" de tal intenção: a alma, a mente, ou o cérebro... Isto nos empurra para as questões: "O que somos?" O que é nossa intenção? O que é nosso pensamento? O que é mente? É cérebro ou alma? Ou ainda, indo mais longe: O que é ser? O que é existir? 

Com todas estas questões o ser humano ao longo da história esbarrou num campo da filosofia chamado ontologia: Alguns autores, como o filósofo Leo Apostel, limitaram a ontologia como uma área de estudos que serve de base para a ciência, ou pressuposto da ciência - é o que indica nossa percepção do que existe ou "do que é"*. Com isto trata-se a ontologia como sinônimo de visão de mundo, ou em outras palavras, de cosmovisão.

Porque? Porque é o que antecede, ou suporta a busca por conhecimento, ou mais especificamente antecede o método de construção de conhecimento, ou seja, a epistemologia, outra área da filosofia. 

É possível então, notar que as questões ontológicas abordam a teoria da mente, teoria que está por trás de áreas óbvias: Psicologia e psiquiatria e as demais áreas relacionadas diretamente a estas (psicofarmacologia, neurologia etc). As respostas a tais questões irão definir os limites dos estudos

Um limite muito estreito, como considerar apenas a matéria (monismo materialista e similares) e o método empírico (sensorial, reprodutível) pode permitir aprofundamento e especialização, porém abandona uma visão sistêmica abrangente (como da teoria geral dos sistemas), bem como se afasta da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade. Entre os pressupostos ou ontologias abrangentes estão a dualista, e de um modo mais polêmico, a espiritualista - Esta última ontologia abre a possibilidade da psique (mente abstrata, aparelho psíquico etc) reger o corpo e não necessariamente alega que "só existe a mente e que toda matéria é algum tipo de ilusão". Longe disso, esta visão "de mundo" indica a importância e a complexidade da mente humana, além de indicar a possibilidade da existência desta além do corpo (seja sob o nome de psique, espírito etc...) permitindo estudos sobre fenômenos  mediúnicos, espirituais, transcendentais (comumente chamados de "místicos") etc. Esta ontologia difere da materialista, que naturalmente é niilista, pois o monismo materialismo pressupõe uma certeza da não existência da alma... Este materialismo, que inevitavelmente é niilista, insinua e/ ou afirma que todo conteúdo teológico/ religioso/ espiritual é falso e/ ou referente a alguma psicopatologia. Embora possa haver uma "ontologia" mentalista que desconsidere a existência da matéria ou da realidade sensorial, as ontologias dualistas e espiritualistas por sua vez, não afirmam a "não existência" de coisa alguma, pois trabalham com a matéria, mas também considerando a psiquê, seja ela mente, espírito ou ambos. Mesmo porque a postura de classificar a matéria ou a psiquê como inexistente não é científica: A ciência não tem função intencional nem acidental de afirmar a inexistência de forças ou fenômenos. A ciência, como qualquer construção de conhecimento, não tem que negar o que ainda não se conhece, nem deve ser determinista.

Por fim, visões de mundo (ou "ontologias") dualistas ou espiritualistas não apoiam charlatanismo, elas simplesmente têm uma visão que possibilitam mais métodos e mais campos a serem estudados quando comparados a uma visão de mundo materialista. Métodos com rigor, mas também outros métodos além do empirismo "clássico". 

Esclarecer tais áreas da filosofia que formam a ciência é importante para mostrar como a filosofia e seus respectivos campos são importantes e como a psicologia é uma área abrangente que vai além das ontologias materialistas e da epistemologia empírica (este último tema eu devo abordar num próximo texto). 

2. Filosofia para quê? - Texto de 11/10/23 

*Recentemente passei a discordar da parte da explicação abordada acima que iguala ou aproxima muito a cosmovisão da ontologia e passei a preferir me basear nas obras de Viktor Frankl e nos clássicos de Platão. A seguir explico sobre o assunto:

2a. Porque Sócrates e Platão combatiam os sofistas? 

Os sofistas surgiram na "Grécia" clássica pouco depois dos filósofos naturalistas (também chamados de pré-socráticos), possivelmente entre os últimos destes (entre os século 5 a.C e 4 a.C.). Eles devem ter percebido que os questionamentos e críticas dos filósofos naturalistas em relação à mitologia e à religião politeísta popular das pólis helênicas (Grécia), começava a gerar dúvidas nas pessoas - Ao desmentir alguns mitos por exemplo, os filósofos naturalistas ofereciam explicações geralmente físicas e raramente morais, espirituais ou éticas. Além disto, nem sempre tais explicações eram amplamente aceitas, daí surge uma lacuna, ou oportunidade para manipular a opinião pública... Os sofistas então aproveitando do enfraquecimento da religião grega daquela época (o medo da ira dos deuses) viram um "fértil campo" para manipular a opinião alheia e certamente os primeiros sofistas, ou últimos naturalistas, devem ter sido relativistas, como Protágoras (não confundir com Pitágoras), criticado por Platão (e certamente por Sócrates também). 

O termo conversar vem de co - versar (falar junto à, ou virar-se junto à)... De todo modo, a conversa precisa de um ponto de vista em comum e/ ou de um assunto conhecido por ambos / por todos interlocutores para iniciar a conversa; Assim, pode-se perceber que o relativismo não requer uma conversa verdadeira. Relativismo é a centralidade no "argumento" da "relação", geralmente direcionado a um conjunto de fatos e fenômenos, ou generalizado para todos os assuntos. Assim relativiza-se todos os fatos: Um típico "argumento" relativista simples é afirmar "ah, isso é relativo" mesmo sobre fatos universais, sobre fatos comprovados etc. A palavra argumento aqui é usada entre aspas pelo fato de que, em prática, o relativismo geralmente apoia-se principalmente em retórica ou em oratória, não em conteúdos. Isto porque o relativismo é uma postura extrema: O relativista finge-se de tolerante, e pode facilmente utilizar a relativização para distorcer fatos (geralmente a favor de si mesmo ou de um interesse particular), portanto, ao utilizar a retórica, o relativista está tentando manipular a opinião dos interlocutores ou de um público. Esta manipulação no caso da retórica, é feita com jogo de palavras e/ ou descontextualização do assunto em pauta - recortes da realidade para alcançar objetivos particulares, distorcendo, inventando ou omitindo fatos - em suma, o retórico é um mentiroso especialista em persuasão. 

A oratória por sua vez é uma técnica também facilmente utilizada por relativistas - trata-se de usar as emoções em discursos para manipular o público e/ ou para incitar neste, reações desejadas pelo orador. 

O relativismo também fomenta indiferença ilimitadamente: abandona-se busca por verdade pois ao considerar tudo relativo, tudo pode perder a importância facilmente. O relativismo então desvaloriza qualquer assunto, fomenta a o individualismo e a estagnação intelectual e social. Por estas razões, esta (pseudo) ideologia deve ter sido a última dos filósofos naturalistas e primeira entre os sofistas durante a Grécia clássica. 

2b. Campos da Filosofia: Ética, Epistemologia e... Psicologia!

Ao trazer o diálogo construtivo através da maiêutica, a busca pelo saber e pelo "kalos" (a beleza e o bem), Platão (e seu mestre, Sócrates) trazem a importância da filosofia, da ética e da construção de conhecimento (epistemologia) à sociedade ocidental da antiguidade clássica. 

Mais do que isto, a filosofia socrática/ platônica ao buscar a sabedoria (sofia) e o que é bom e belo (kalos), começa a trazer o olhar para si mesmo em busca das virtudes - não se trata só de ser racional, ou buscar o saber naturalista, mas também de se tornar virtuoso. Assim, Platão indica que a questão do bem não é separável do verdadeiro saber - Em seus escritos, Platão, mostra que Sócrates deu variados exemplos disto em diferentes diálogos: 

 Abordando temas entre auto conhecimento e virtude, Sócrates (e Platão) traz(em) um pouco da questão das emoções, dos sentimentos e da espiritualidade, como nos diálogos Fedro (ou, sobre o Belo), O Banquete (ou, Simpósio) e Eutífron (ou, sobre a Piedade) 

O amor era muito erotizado na Grécia clássica (isto é exemplificado na opinião dos personagens no livro O Banquete) e os dois filósofos tentam mostrar a importância de se buscar algo menos material e menos imediato, mais subjetivo (ou seja, mais humano, mais interior) e mais duradouro. Nestes textos/ diálogos, eles trazem a importância da filia (amizade) que pode ir se expandindo até ser transformada na ágape, um amor mais amplo e certamente mais profundo ou puro. 

Enquanto em Fedro, Sócrates fala da "paixão" divina, que é o amor pelo bem, pela justiça e pela verdade, no Simpósio, Sócrates propõe uma nova forma de amar aos seus interlocutores: Ele conta como aprendeu com uma mestra, que o amor pode e deve ir muito além do erotismo: Após iniciar relacionamentos com a paixão sensual (erótica, sensorial, corporal), é possível desenvolver amizade e valorizar esta. Depois de desenvolver amizade e valorizá-la, torna-se possível expandir esta amizade, buscando gostar não só dos corpos, mas principalmente das psiquês (almas) das pessoas, para enfim, amar as obras humanas, as leis, a justiça, enfim desenvolver um amor mais expansivo. 

Em Eutífron, a superficialidade de certos (tipos) religiosos da Grécia clássica é exposta: Eutífron, um religioso que se considera um tipo de oráculo ou adivinho, tenta utilizar-se de argumentos da mitologia grega para condenar seu próprio pai à morte e Sócrates tenta fazê-lo explicar o que é a piedade. Eutífron "dá voltas e voltas" e acaba fugindo do diálogo e de Sócrates. Apesar do diálogo parecer inconclusivo, é possível notar como Sócrates sutilmente insinua o que é a verdadeira piedade durante o diálogo e expõe a fragilidade de Eutífron, um religioso falastrão e superficial. 

 Por fim, vale lembrar que nem tudo da obra platônica era predominantemente teórico: No texto A República (Politheia), Platão mostra um interesse de por as suas idéias (e as de seu mestre, Sócrates) em prática. Além disto, Platão historicamente tentou difundir e implementar suas ideias entre alguns governantes de seu tempo, independentemente se obteve algum êxito ou não. 

A partir deste breve panorama do "cenário filosófico" grego, é possível ver a importância da filosofia: Ela estuda com empenho áreas como a ética (valores universais e suas possíveis aplicações nas leis e política), a epistemologia (métodos de construção de conhecimento que colaborem com o progresso psíquico e moral da humanidade) e psicologia (sentimentos, emoções, relações afetivas, familiares e sociais). 

 Tudo isto buscando uma prática sem desconsiderar as dimensões culturais e espirituais da humanidade. Esta dimensão espiritual era religiosa num sentido de re-ligar: Seus praticantes, sejam oráculos, poetas e/ ou profetas, buscavam o contato, e portanto algum tipo de (re) ligação, com uma realidade maior e/ ou além da sensorial do ambiente ao seu redor. Sócrates mesmo em sua busca pela sabedoria, admitia "ter um daemon", uma espécie de semi-divindade, mas que também pode ser entendida como espírito incorpóreo, diferente da psique que geralmente referia-se a alma no corpo vivo, encarnada. 

2c. Metafísica e Ontologia para quê? 

O psicólogo existencialista estadunidense, Rollo May, em sua obra, Love and Will (pg 150-153 da versão da Ed. Vozes no Brasil), aborda a questão de uma dimensão do ser humano que não seja meramente racionalista nem puramente ideológica. Ele cita que os mitos e histórias contados por artistas gregos como Ésquilo (524 a.C. - 455 a.C.), tratavam os personagens de modo não impessoal, mas transpessoal, ao considerar tanto a vontade e as decisões do indivíduo como também as forças externas, sejam elas sócio-ambientais ou de um destino mais pautado na crença e/ ou na espiritualidade. May explica que o daemon (que ele chama de demoníaco, no sentido de forças além da vontade individual) na obra de Ésquilo não era o único fator de importância em suas histórias, pois isto seria cair na superstição: o medo superior do divino (super - theos - onis), uma vida baseada no medo do além, onde nada da realidade ambiental/ "material" importa. O daemon também não era algo insignificante, pois isto seria reduzir a realidade dos indivíduos à uma superficialidade, ou seja, seria anular toda profundidade de sentimentos, de força de vontade, de auto-conhecimento, temperança etc. O ser humano, cujo os sentimentos e a vontade não existam, ou cujo sejam aspectos menores e sem importância, torna-se exclusivamente sensorial e Rollo May indica que este caminho solipsista conduz à perda da esperança. May não escreveu isto expressando sua mera opinião: Ele chega nesta conclusão após décadas como terapeuta, e dialogando com outros profissionais, eles foram capazes de enxergar o impacto de fenômenos coletivos (sociais etc) nos indivíduos e a reação dos indivíduos aos fenômenos coletivos*. 

May então explica que Sócrates é o exemplo de indivíduo que não é um mero racionalista: preservou sua autonomia racional porque aceitou seu fundamento em um domínio transracional - Aqui o prefixo trans indica que "vai além de", não se trata de simplesmente "passar para um outro lado". Sócrates triunfou sobre Protágoras e seu relativismo porque acreditava no divino (daemônico), nos sonhos e na oráculo de Delfos. May indica que o fator "demoníaco", bem como os fatores sociais, ambientais, enfim externos, estão em grande parte além da vontade individual. Sócrates não fechou os olhos para quaisquer destes fatores, nem desanimou, seja diante a guerra, diante o "sobrenatural" ou diante seus opositores e suas respectivas acusações. Sua filosofia então mostrou origens dinâmicas que a salvou da aridez (indiferença, rispidez, insensibilidade) do racionalismo, enquanto as crenças de Protágoras falharam porque afirmava que "o homem é a medida de todas as coisas", ignorando forças dinâmicas e forças irracionais da natureza humana. Sócrates então levava em conta todas essas forças, sem ser supersticioso (ou seja, não se baseava no medo, nem considerava que tudo era "divino/ demoníaco", sem importância da decisão e ação humana). 

A linguagem é uma forma de comunicação limitada, pois muitas experiências requerem expressões de sentimentos (emoções), de crenças e de fé, estas que pouco ou nada diferem de símbolos. Os símbolos, por sua vez, fazem parte da cultura, das artes e dos mitos desde a época da Grécia antiga, passando por Platão, por alquimistas medievais até certos grupos mais atuais (sejam esportivos, corporativos, místicos ou de qualquer outra natureza). Sócrates então, não era um pensador insensível nem supersticioso: lidava psicologicamente com questões internas e externas, tomando decisões, como veremos adiante. Ele manteve-se fiel à sua postura filosófica básica para se construir todo e qualquer conhecimento - não aceitava qualquer coisa dita como se fosse uma verdade absoluta, mas mantinha a presunção de ignorância, pois para o filósofo, onde havia dúvida, era possível haver estudo. Além disto, ele sempre considerou o para quê buscar a sabedoria, como é possível ver em Fédon e outros diálogos escritos por Platão: 

"Numa certa ocasião fiquei sabendo de alguém que lera um livro, segundo ele de autoria de Anaxágoras (c. 500-428 a.C.), que é a Inteligência (nous) que estabelece a ordem de todas as coisas e a causa. Vi-me satisfeito com essa causa e a mim pareceu algo acertado ser a inteligência causa de todas as coisas. Refleti que, sendo deste modo, a inteligência ordenadora ordenaria tudo e organizaria cada coisa do melhor modo que lhe conviria. Assim, se fosse desejo de alguém conhecer a causa da geração (vir a ser), da corrupção, ou da existência de uma coisa particular, teria que apurar qual a melhor maneira de essa coisa ser, sofrer ação ou agir. Assim, no tocante a essa coisa particular bem como outras coisas, tudo o que cabe a uma pessoa fazer é examinar o que é o mais excelente e o melhor. Isso fará necessariamente conhecer inclusive o que é pior, uma vez que a ciência de um e outro é idêntica. À medida que refletia nestes tópicos me regozijava em pensar que encontrara em Anaxágoras um professor da causa das coisas que são (tôn onton). 

(...) "Não demorou, meu amigo, para que de mim fosse subtraída aquela maravilhosa esperança e a medida que avancei na leitura percebi que o homem não se serviu da inteligência e não apontou quaisquer causas para a ordenação das coisas, limitando-se a mencionar como causas, o ar, o éter, a água e muitas outras coisas despropositadas" (...)

Assim Sócrates mostra o que seria preciso para um professor de "onto-logia": Apurar qual a melhor maneira das coisas serem. Esta postura, ou conjunto de posturas de Sócrates é epistemológica, ontológica, psicológica, metafísica e ética - não é determinista pois trabalha com a ideia de construção de conhecimento e com melhoria do indivíduo e da sociedade. 

Se a psicologia ou qualquer outra ciência nega qualquer um dos temas e posturas dos fundadores da filosofia ocidental (Sócrates e Platão), quais serão os resultados disto? A ontologia deve simplesmente determinar o que existe e não existe? Ou deve buscar / apurar qual a melhor maneira das coisas serem, sofrerem ação e agirem? Platão (e Sócrates) indicam que a segunda alternativa é a correta.

Uma ciência que reduz, distorce ou nega qualquer uma destes campos da filosofia... é ciência? De quê? Para quê?

Bibliografia 

Parte 1:

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Artmed, 2008. 

https://www.youtube.com/watch?v=UOXrNXr_slo&t=1s acessado em 17/08/2023

Parte 2:

Rollo May, "Eros e Repressão" - Amor e Vontade (tradução de Áurea Brito Weissenberg) Ed. Vozes, 1973; 

Fédon; (tradução de Edson Bini) Platão - Diálogos socráticos III, Edipro 2015; 

O Banquete; (tradução de Edson Bini) Platão - Diálogos socráticos V, Edipro 2015; 

Fedro; (tradução de Edson Bini) Platão - Diálogos socráticos III, Edipro 2015; 

Eutífron; (tradução de André Malta) Platão Apologia de Sócrates precedido de Sobre a Piedade (Eutífron) e seguido de Sobre o Dever (Críton), L&PM Pocket 2008;