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quarta-feira, 11 de outubro de 2023

A importância "das áreas" da Filosofia para a Ciência

 1. Como se faz Ciência? Como se constrói conhecimento? - Texto de 16/09/2023

Todo estudo começa de um interesse, interligado a um objetivo ou função. Trata-se de uma intenção que nos move em uma determinada direção. Porém quem estuda? 

Quem tem tal intenção de entender ou descobrir sobre determinado fenômeno ou assunto, é claro. 

Se temos intenção, é preciso assumir que se parte de um ponto, e este ponto é nossa própria intenção. Seja lá o que consideremos a "residência" de tal intenção: a alma, a mente, ou o cérebro... Isto nos empurra para as questões: "O que somos?" O que é nossa intenção? O que é nosso pensamento? O que é mente? É cérebro ou alma? Ou ainda, indo mais longe: O que é ser? O que é existir? 

Com todas estas questões o ser humano ao longo da história esbarrou num campo da filosofia chamado ontologia: Alguns autores, como o filósofo Leo Apostel, limitaram a ontologia como uma área de estudos que serve de base para a ciência, ou pressuposto da ciência - é o que indica nossa percepção do que existe ou "do que é"*. Com isto trata-se a ontologia como sinônimo de visão de mundo, ou em outras palavras, de cosmovisão.

Porque? Porque é o que antecede, ou suporta a busca por conhecimento, ou mais especificamente antecede o método de construção de conhecimento, ou seja, a epistemologia, outra área da filosofia. 

É possível então, notar que as questões ontológicas abordam a teoria da mente, teoria que está por trás de áreas óbvias: Psicologia e psiquiatria e as demais áreas relacionadas diretamente a estas (psicofarmacologia, neurologia etc). As respostas a tais questões irão definir os limites dos estudos

Um limite muito estreito, como considerar apenas a matéria (monismo materialista e similares) e o método empírico (sensorial, reprodutível) pode permitir aprofundamento e especialização, porém abandona uma visão sistêmica abrangente (como da teoria geral dos sistemas), bem como se afasta da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade. Entre os pressupostos ou ontologias abrangentes estão a dualista, e de um modo mais polêmico, a espiritualista - Esta última ontologia abre a possibilidade da psique (mente abstrata, aparelho psíquico etc) reger o corpo e não necessariamente alega que "só existe a mente e que toda matéria é algum tipo de ilusão". Longe disso, esta visão "de mundo" indica a importância e a complexidade da mente humana, além de indicar a possibilidade da existência desta além do corpo (seja sob o nome de psique, espírito etc...) permitindo estudos sobre fenômenos  mediúnicos, espirituais, transcendentais (comumente chamados de "místicos") etc. Esta ontologia difere da materialista, que naturalmente é niilista, pois o monismo materialismo pressupõe uma certeza da não existência da alma... Este materialismo, que inevitavelmente é niilista, insinua e/ ou afirma que todo conteúdo teológico/ religioso/ espiritual é falso e/ ou referente a alguma psicopatologia. Embora possa haver uma "ontologia" mentalista que desconsidere a existência da matéria ou da realidade sensorial, as ontologias dualistas e espiritualistas por sua vez, não afirmam a "não existência" de coisa alguma, pois trabalham com a matéria, mas também considerando a psiquê, seja ela mente, espírito ou ambos. Mesmo porque a postura de classificar a matéria ou a psiquê como inexistente não é científica: A ciência não tem função intencional nem acidental de afirmar a inexistência de forças ou fenômenos. A ciência, como qualquer construção de conhecimento, não tem que negar o que ainda não se conhece, nem deve ser determinista.

Por fim, visões de mundo (ou "ontologias") dualistas ou espiritualistas não apoiam charlatanismo, elas simplesmente têm uma visão que possibilitam mais métodos e mais campos a serem estudados quando comparados a uma visão de mundo materialista. Métodos com rigor, mas também outros métodos além do empirismo "clássico". 

Esclarecer tais áreas da filosofia que formam a ciência é importante para mostrar como a filosofia e seus respectivos campos são importantes e como a psicologia é uma área abrangente que vai além das ontologias materialistas e da epistemologia empírica (este último tema eu devo abordar num próximo texto). 

2. Filosofia para quê? - Texto de 11/10/23 

*Recentemente passei a discordar da parte da explicação abordada acima que iguala ou aproxima muito a cosmovisão da ontologia e passei a preferir me basear nas obras de Viktor Frankl e nos clássicos de Platão. A seguir explico sobre o assunto:

2a. Porque Sócrates e Platão combatiam os sofistas? 

Os sofistas surgiram na "Grécia" clássica pouco depois dos filósofos naturalistas (também chamados de pré-socráticos), possivelmente entre os últimos destes (entre os século 5 a.C e 4 a.C.). Eles devem ter percebido que os questionamentos e críticas dos filósofos naturalistas em relação à mitologia e à religião politeísta popular das pólis helênicas (Grécia), começava a gerar dúvidas nas pessoas - Ao desmentir alguns mitos por exemplo, os filósofos naturalistas ofereciam explicações geralmente físicas e raramente morais, espirituais ou éticas. Além disto, nem sempre tais explicações eram amplamente aceitas, daí surge uma lacuna, ou oportunidade para manipular a opinião pública... Os sofistas então aproveitando do enfraquecimento da religião grega daquela época (o medo da ira dos deuses) viram um "fértil campo" para manipular a opinião alheia e certamente os primeiros sofistas, ou últimos naturalistas, devem ter sido relativistas, como Protágoras (não confundir com Pitágoras), criticado por Platão (e certamente por Sócrates também). 

O termo conversar vem de co - versar (falar junto à, ou virar-se junto à)... De todo modo, a conversa precisa de um ponto de vista em comum e/ ou de um assunto conhecido por ambos / por todos interlocutores para iniciar a conversa; Assim, pode-se perceber que o relativismo não requer uma conversa verdadeira. Relativismo é a centralidade no "argumento" da "relação", geralmente direcionado a um conjunto de fatos e fenômenos, ou generalizado para todos os assuntos. Assim relativiza-se todos os fatos: Um típico "argumento" relativista simples é afirmar "ah, isso é relativo" mesmo sobre fatos universais, sobre fatos comprovados etc. A palavra argumento aqui é usada entre aspas pelo fato de que, em prática, o relativismo geralmente apoia-se principalmente em retórica ou em oratória, não em conteúdos. Isto porque o relativismo é uma postura extrema: O relativista finge-se de tolerante, e pode facilmente utilizar a relativização para distorcer fatos (geralmente a favor de si mesmo ou de um interesse particular), portanto, ao utilizar a retórica, o relativista está tentando manipular a opinião dos interlocutores ou de um público. Esta manipulação no caso da retórica, é feita com jogo de palavras e/ ou descontextualização do assunto em pauta - recortes da realidade para alcançar objetivos particulares, distorcendo, inventando ou omitindo fatos - em suma, o retórico é um mentiroso especialista em persuasão. 

A oratória por sua vez é uma técnica também facilmente utilizada por relativistas - trata-se de usar as emoções em discursos para manipular o público e/ ou para incitar neste, reações desejadas pelo orador. 

O relativismo também fomenta indiferença ilimitadamente: abandona-se busca por verdade pois ao considerar tudo relativo, tudo pode perder a importância facilmente. O relativismo então desvaloriza qualquer assunto, fomenta a o individualismo e a estagnação intelectual e social. Por estas razões, esta (pseudo) ideologia deve ter sido a última dos filósofos naturalistas e primeira entre os sofistas durante a Grécia clássica. 

2b. Campos da Filosofia: Ética, Epistemologia e... Psicologia!

Ao trazer o diálogo construtivo através da maiêutica, a busca pelo saber e pelo "kalos" (a beleza e o bem), Platão (e seu mestre, Sócrates) trazem a importância da filosofia, da ética e da construção de conhecimento (epistemologia) à sociedade ocidental da antiguidade clássica. 

Mais do que isto, a filosofia socrática/ platônica ao buscar a sabedoria (sofia) e o que é bom e belo (kalos), começa a trazer o olhar para si mesmo em busca das virtudes - não se trata só de ser racional, ou buscar o saber naturalista, mas também de se tornar virtuoso. Assim, Platão indica que a questão do bem não é separável do verdadeiro saber - Em seus escritos, Platão, mostra que Sócrates deu variados exemplos disto em diferentes diálogos: 

 Abordando temas entre auto conhecimento e virtude, Sócrates (e Platão) traz(em) um pouco da questão das emoções, dos sentimentos e da espiritualidade, como nos diálogos Fedro (ou, sobre o Belo), O Banquete (ou, Simpósio) e Eutífron (ou, sobre a Piedade) 

O amor era muito erotizado na Grécia clássica (isto é exemplificado na opinião dos personagens no livro O Banquete) e os dois filósofos tentam mostrar a importância de se buscar algo menos material e menos imediato, mais subjetivo (ou seja, mais humano, mais interior) e mais duradouro. Nestes textos/ diálogos, eles trazem a importância da filia (amizade) que pode ir se expandindo até ser transformada na ágape, um amor mais amplo e certamente mais profundo ou puro. 

Enquanto em Fedro, Sócrates fala da "paixão" divina, que é o amor pelo bem, pela justiça e pela verdade, no Simpósio, Sócrates propõe uma nova forma de amar aos seus interlocutores: Ele conta como aprendeu com uma mestra, que o amor pode e deve ir muito além do erotismo: Após iniciar relacionamentos com a paixão sensual (erótica, sensorial, corporal), é possível desenvolver amizade e valorizar esta. Depois de desenvolver amizade e valorizá-la, torna-se possível expandir esta amizade, buscando gostar não só dos corpos, mas principalmente das psiquês (almas) das pessoas, para enfim, amar as obras humanas, as leis, a justiça, enfim desenvolver um amor mais expansivo. 

Em Eutífron, a superficialidade de certos (tipos) religiosos da Grécia clássica é exposta: Eutífron, um religioso que se considera um tipo de oráculo ou adivinho, tenta utilizar-se de argumentos da mitologia grega para condenar seu próprio pai à morte e Sócrates tenta fazê-lo explicar o que é a piedade. Eutífron "dá voltas e voltas" e acaba fugindo do diálogo e de Sócrates. Apesar do diálogo parecer inconclusivo, é possível notar como Sócrates sutilmente insinua o que é a verdadeira piedade durante o diálogo e expõe a fragilidade de Eutífron, um religioso falastrão e superficial. 

 Por fim, vale lembrar que nem tudo da obra platônica era predominantemente teórico: No texto A República (Politheia), Platão mostra um interesse de por as suas idéias (e as de seu mestre, Sócrates) em prática. Além disto, Platão historicamente tentou difundir e implementar suas ideias entre alguns governantes de seu tempo, independentemente se obteve algum êxito ou não. 

A partir deste breve panorama do "cenário filosófico" grego, é possível ver a importância da filosofia: Ela estuda com empenho áreas como a ética (valores universais e suas possíveis aplicações nas leis e política), a epistemologia (métodos de construção de conhecimento que colaborem com o progresso psíquico e moral da humanidade) e psicologia (sentimentos, emoções, relações afetivas, familiares e sociais). 

 Tudo isto buscando uma prática sem desconsiderar as dimensões culturais e espirituais da humanidade. Esta dimensão espiritual era religiosa num sentido de re-ligar: Seus praticantes, sejam oráculos, poetas e/ ou profetas, buscavam o contato, e portanto algum tipo de (re) ligação, com uma realidade maior e/ ou além da sensorial do ambiente ao seu redor. Sócrates mesmo em sua busca pela sabedoria, admitia "ter um daemon", uma espécie de semi-divindade, mas que também pode ser entendida como espírito incorpóreo, diferente da psique que geralmente referia-se a alma no corpo vivo, encarnada. 

2c. Metafísica e Ontologia para quê? 

O psicólogo existencialista estadunidense, Rollo May, em sua obra, Love and Will (pg 150-153 da versão da Ed. Vozes no Brasil), aborda a questão de uma dimensão do ser humano que não seja meramente racionalista nem puramente ideológica. Ele cita que os mitos e histórias contados por artistas gregos como Ésquilo (524 a.C. - 455 a.C.), tratavam os personagens de modo não impessoal, mas transpessoal, ao considerar tanto a vontade e as decisões do indivíduo como também as forças externas, sejam elas sócio-ambientais ou de um destino mais pautado na crença e/ ou na espiritualidade. May explica que o daemon (que ele chama de demoníaco, no sentido de forças além da vontade individual) na obra de Ésquilo não era o único fator de importância em suas histórias, pois isto seria cair na superstição: o medo superior do divino (super - theos - onis), uma vida baseada no medo do além, onde nada da realidade ambiental/ "material" importa. O daemon também não era algo insignificante, pois isto seria reduzir a realidade dos indivíduos à uma superficialidade, ou seja, seria anular toda profundidade de sentimentos, de força de vontade, de auto-conhecimento, temperança etc. O ser humano, cujo os sentimentos e a vontade não existam, ou cujo sejam aspectos menores e sem importância, torna-se exclusivamente sensorial e Rollo May indica que este caminho solipsista conduz à perda da esperança. May não escreveu isto expressando sua mera opinião: Ele chega nesta conclusão após décadas como terapeuta, e dialogando com outros profissionais, eles foram capazes de enxergar o impacto de fenômenos coletivos (sociais etc) nos indivíduos e a reação dos indivíduos aos fenômenos coletivos*. 

May então explica que Sócrates é o exemplo de indivíduo que não é um mero racionalista: preservou sua autonomia racional porque aceitou seu fundamento em um domínio transracional - Aqui o prefixo trans indica que "vai além de", não se trata de simplesmente "passar para um outro lado". Sócrates triunfou sobre Protágoras e seu relativismo porque acreditava no divino (daemônico), nos sonhos e na oráculo de Delfos. May indica que o fator "demoníaco", bem como os fatores sociais, ambientais, enfim externos, estão em grande parte além da vontade individual. Sócrates não fechou os olhos para quaisquer destes fatores, nem desanimou, seja diante a guerra, diante o "sobrenatural" ou diante seus opositores e suas respectivas acusações. Sua filosofia então mostrou origens dinâmicas que a salvou da aridez (indiferença, rispidez, insensibilidade) do racionalismo, enquanto as crenças de Protágoras falharam porque afirmava que "o homem é a medida de todas as coisas", ignorando forças dinâmicas e forças irracionais da natureza humana. Sócrates então levava em conta todas essas forças, sem ser supersticioso (ou seja, não se baseava no medo, nem considerava que tudo era "divino/ demoníaco", sem importância da decisão e ação humana). 

A linguagem é uma forma de comunicação limitada, pois muitas experiências requerem expressões de sentimentos (emoções), de crenças e de fé, estas que pouco ou nada diferem de símbolos. Os símbolos, por sua vez, fazem parte da cultura, das artes e dos mitos desde a época da Grécia antiga, passando por Platão, por alquimistas medievais até certos grupos mais atuais (sejam esportivos, corporativos, místicos ou de qualquer outra natureza). Sócrates então, não era um pensador insensível nem supersticioso: lidava psicologicamente com questões internas e externas, tomando decisões, como veremos adiante. Ele manteve-se fiel à sua postura filosófica básica para se construir todo e qualquer conhecimento - não aceitava qualquer coisa dita como se fosse uma verdade absoluta, mas mantinha a presunção de ignorância, pois para o filósofo, onde havia dúvida, era possível haver estudo. Além disto, ele sempre considerou o para quê buscar a sabedoria, como é possível ver em Fédon e outros diálogos escritos por Platão: 

"Numa certa ocasião fiquei sabendo de alguém que lera um livro, segundo ele de autoria de Anaxágoras (c. 500-428 a.C.), que é a Inteligência (nous) que estabelece a ordem de todas as coisas e a causa. Vi-me satisfeito com essa causa e a mim pareceu algo acertado ser a inteligência causa de todas as coisas. Refleti que, sendo deste modo, a inteligência ordenadora ordenaria tudo e organizaria cada coisa do melhor modo que lhe conviria. Assim, se fosse desejo de alguém conhecer a causa da geração (vir a ser), da corrupção, ou da existência de uma coisa particular, teria que apurar qual a melhor maneira de essa coisa ser, sofrer ação ou agir. Assim, no tocante a essa coisa particular bem como outras coisas, tudo o que cabe a uma pessoa fazer é examinar o que é o mais excelente e o melhor. Isso fará necessariamente conhecer inclusive o que é pior, uma vez que a ciência de um e outro é idêntica. À medida que refletia nestes tópicos me regozijava em pensar que encontrara em Anaxágoras um professor da causa das coisas que são (tôn onton). 

(...) "Não demorou, meu amigo, para que de mim fosse subtraída aquela maravilhosa esperança e a medida que avancei na leitura percebi que o homem não se serviu da inteligência e não apontou quaisquer causas para a ordenação das coisas, limitando-se a mencionar como causas, o ar, o éter, a água e muitas outras coisas despropositadas" (...)

Assim Sócrates mostra o que seria preciso para um professor de "onto-logia": Apurar qual a melhor maneira das coisas serem. Esta postura, ou conjunto de posturas de Sócrates é epistemológica, ontológica, psicológica, metafísica e ética - não é determinista pois trabalha com a ideia de construção de conhecimento e com melhoria do indivíduo e da sociedade. 

Se a psicologia ou qualquer outra ciência nega qualquer um dos temas e posturas dos fundadores da filosofia ocidental (Sócrates e Platão), quais serão os resultados disto? A ontologia deve simplesmente determinar o que existe e não existe? Ou deve buscar / apurar qual a melhor maneira das coisas serem, sofrerem ação e agirem? Platão (e Sócrates) indicam que a segunda alternativa é a correta.

Uma ciência que reduz, distorce ou nega qualquer uma destes campos da filosofia... é ciência? De quê? Para quê?

Bibliografia 

Parte 1:

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Artmed, 2008. 

https://www.youtube.com/watch?v=UOXrNXr_slo&t=1s acessado em 17/08/2023

Parte 2:

Rollo May, "Eros e Repressão" - Amor e Vontade (tradução de Áurea Brito Weissenberg) Ed. Vozes, 1973; 

Fédon; (tradução de Edson Bini) Platão - Diálogos socráticos III, Edipro 2015; 

O Banquete; (tradução de Edson Bini) Platão - Diálogos socráticos V, Edipro 2015; 

Fedro; (tradução de Edson Bini) Platão - Diálogos socráticos III, Edipro 2015; 

Eutífron; (tradução de André Malta) Platão Apologia de Sócrates precedido de Sobre a Piedade (Eutífron) e seguido de Sobre o Dever (Críton), L&PM Pocket 2008; 



 

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Psiquê e a importância dos Valores

 

Noção, Intenção e Decisão 

Nós seres humanos, temos noção do que faz bem e faz mal: Ao agredir alguém sabemos que causa dor; 

Ao difamarmos alguém com mentiras ou ofensas, sabemos que isto ofende; 

 Sabemos que paz e tranquilidade é bom. 

Isto não parece presente nos animais, ao menos não de forma nítida: Um cachorro pode brincar com um passarinho, mordendo-o, jogando-o de um lado ao outro, ferindo e matando o bichinho. O cachorro não entende nada ao fazer isso. Não estou falando de caçar aqui, este exemplo do cachorro e o passarinho eu presenciei em 2008. 

Diferente dos cachorros, tive a oportunidade de observar uma grande quantidade de seres humanos e suas relações, particularmente crianças diagnosticadas com diferentes "níveis" de transtorno do espectro autista (TEA) durante o 2º semestre de 2022 e o 1º de 2023. Não falarei dos casos mais "graves" que deixam o autista mais incapacitado, falarei das crianças que brincam e conversam entre si, a maioria com idade entre 4 e 7 anos. 

A espontaneidade destas crianças, aliadas à uma receptividade fazem com que elas encontrem facilidade na interação social: Elas praticamente não julgam umas às outras, se interessam pelo outro e improvisam brincadeiras sem receios (sem medo de parecerem ridículas etc). Além disto a maioria delas (aproximadamente 27 entre 30 crianças) perdoam o colega com quem tiveram algum conflito ou abandonam à mágoa causada por tal conflito em poucos dias. Diferente do cachorro, as crianças evitam agredir umas às outras a menos que não possuam mais recursos. Por isso é mais comum que os pacientes diagnosticados com um "nível mais grave" de TEA (vulgo autismo), agridam outros indivíduos. (nível ou gravidade não são os termos mais adequados para explicar o autismo, mas utilizo uma linguagem para os leigos aqui). 

Observei tais fatos ao realizar um estágio durante 10 meses na equipe multidisciplinar de uma clínica na cidade de São Paulo. 

 Pois bem, a noção de bem e de mal do ser humano se estende para inúmeros casos: de roubo, furto, enganação, grosseria, acolhimento, sinceridade, presentear, socorrer etc. Tal noção é mais antiga do que qualquer código de leis criado pelos seres humanos. Possivelmente existe desde que o ser humano é ser humano. 

Esta noção pode ser trabalhada ou ignorada: Se (incentivada e) colocada em prática ela torna a vida do indivíduo e daqueles com quem ele convive, predominantemente harmoniosa, pois as relações ficam mais colaborativas e mais amigáveis, portanto menos competitivas e menos conflituosas. 

Importante notar que a noção do bem e do mal é interna de cada ser humano e não é um mero instinto de sobrevivência impulsionando o indivíduo para alimentar-se, reproduzir-se, enfim para sobreviver - É uma noção mais empática do que o instinto, pois ela serve ao convívio, seja familiar, social etc. Neste convívio ela pode estabelecer relações de troca, tanto de afeto como de necessidades mais corporais, como a troca de alimentos, vestimentas etc. Desta forma, as relações podem ser feitas com mais empatia ou menos empatia - buscando entender as necessidades do outro e colocando-se em seu lugar, ou ignorando o próximo e pensando somente em si mesmo, ou cada vez mais em si mesmo. A noção vincula-se com a intenção do indivíduo que também é um "processo" interno do indivíduo. A partir daí é feita a decisão de como agir diante o próximo, numa relação qualquer, decisão que pode ser influenciada pelo meio ou não: pode vir de um gosto (algo que tenha valor ao indivíduo*) da tenra infância ou de um instinto biológico. Estes são temas da psicologia (abordados por Wundt, por exemplo) que foram sendo abandonados ou reduzidos no início do século 20: Os processos internos da psiquê como a percepção de seus próprios sentimentos e pensamentos, a noção (do bem e do mal) e os instintos são imediatos, que surgem sem a necessidade do meio. A intenção e a decisão podem ser mediatas (se influenciada pelo meio externo) ou imediatas (certamente no caso do cão instintivamente brincando com a ave, por exemplo). 

[*Este valor é um conceito estudado na psicologia analítica de Jung, por exemplo. Tal conceito de valor não refere-se a algo material em si.]

Depois, ao expor suas ideias ou expressar suas emoções, o indivíduo inicia a relação e só após a resposta obtida é que pode-se dizer que o meio passa a participar do processo. As respostas então são mediatas (dependem do meio, da troca, do diálogo etc). Porém a partir desta análise pode surgir a dúvida se a decisão é imediata ou mediata... Aqui entende-se que ela pode ser qualquer uma das duas, e, com o passar dos anos de vida, as decisões podem ficar cada vez mais mediatas, pois são progressivamente mais influenciadas (incentivadas ou criticadas) por opiniões alheias, seja de pessoas próximas ou distantes (estas últimas, de mídias etc). Com o acúmulo de experiências em vida, formam-se novos gostos, abandona-se alguns hábitos, muda-se de opinião sobre certos assuntos, consolida-se sobre outros e embora pareça impossível de não ser influenciado por tantos fatores, a noção do bem e do mal não é necessariamente encoberta por todos esses processos. Na verdade, é mais plausível que ela (a noção) continue lá e a única diferença da criança para o adulto é que ela pode ser usada um maior número de vezes no decorrer da vida. 

Essa utilização é por em prática basicamente o bem e evitar o mal. Embora os termos bem e mal possam parecer muito moralistas ou religiosos, eles são uma boa síntese (talvez pudessem ser ocasionalmente substituídos por "certo e errado"). Afinal se toda vez que formos nos referir ao bem, nós tivermos que detalhá-lo ou classificá-lo, teríamos que repetir todos os seus nomes ou manifestações: justiça, solidariedade, fraternidade, esperança, responsabilidade etc. 

Enfim, a decisão de fazer o bem é tão importante que ela está entre o íntimo de cada ser humano (a noção, intenção, a consciência, enfim a psique) e o meio, onde se coloca em prática não só através de ações individuais, como de ações coletivas, ou seja, sociais. 

A noção do bem e do mal rege todas as intenções, decisões e ações humanas. Por mais que as decisões possam ter influências do meio, esta noção sempre permanece com cada indivíduo, a menos que ele tenha uma psicopatologia/ um transtorno incapacitante que elimine-a completamente. 

Embora o tema seja complexo, como seres humanos que vivem em uma civilização, devemos tomar cuidado para não cair no relativismo, com alegações do tipo "o bem e o mal são muito subjetivos", deixando com que o mal se propague nas sociedades em geral. Tal tipo de atitude pode causar o abandono ou a deturpação de valores importantes para toda a civilização humana, tais como da justiça, da equidade, do bem-estar, da dignidade, da paz etc. 

A Necessidade dos Valores para Inteligência 

A questão da noção e dos valores mencionados há pouco tende a se tornar cada vez mais importante para todos seres humanos. Neste início do século 21, nós seres humanos estamos gradualmente mais envolvidos por um problema: A Inteligência Artificial (IA). A Inteligência Artificial passou a nos influenciar pesadamente após o aumento da utilização da internet, particularmente pelas redes sociais com seus algoritmos e com a utilização de aparelhos eletrônicos como os celulares, computadores etc. 

A IA é construída por uma grande quantidade de dados e aprende a partir desses dados, sendo que a falta de determinados dados pode causar efeitos indesejáveis ou irreversivelmente danosos aos seres humanos. Dois exemplos são a morte de uma pessoa por atropelamento (caso da Uber: https://autoesporte.globo.com/videos/noticia/2018/03/carro-autonomo-da-uber-atropela-e-mata-mulher-nos-eua.ghtml) ou a exclusão de todas mulheres em uma grande corporação (caso da seleção de currículos da Amazon: https://meiobit.com/391571/ferramenta-de-recrutamento-amazon-ai-discriminava-mulheres/). 

O viés que os dados podem colocar na IA resulta em objetivos que não são exatamente o que os seres humanos querem ou esperam. Falta a noção do que se deve ou não fazer nas "máquinas". 

A questão dos valores é inevitável, pois eles sempre existem na mente humana (que coloca os dados disponíveis para a IA) - A questão do que é certo ou errado ainda não é consenso entre os seres humanos, então passar isto às máquinas é possível? Tudo leva a crer que não. Ao menos até os seres humanos resolverem esta questão... Ética... Moral... portanto filosófica. 

Não se trata de valores individuais, pois estes variam de pessoa para pessoa conforme suas experiências e sua cultura. Na escala individual, um pode alegar que o acúmulo de dinheiro é mais importante que a equidade, outro pode afirmar que o amor é o que mais importa (etc) e assim ficaríamos reféns do poder de propagação de valores individuais de determinados indivíduos... Tratar valores como algo pessoal é reduzir a importância de tal assunto: É limitar algo que afeta coletivos à visão (opinião) de um ou outro indivíduo, por isso deve-se buscar o(s) valor(es) universais (éticos, morais, humanos), tema(s) de estudo das áreas da filosofia mencionadas acima, que regularmente tocam a religião, a espiritualidade e a psicologia (mais nitidamente as abordagens existenciais/ fenomenológicas, como a logoterapia, que lida com o sentido de vida). 

Assim como os valores, as questões sobre viés e noção de certo e errado são ou deveriam ser estudadas pela psicologia e principalmente pela filosofia. Porém há muitas décadas, infelizmente, a psicologia está predominantemente tomada por um viés materialista da neurologia e da psicofarmacologia, enquanto a filosofia depois de ser severamente influenciada por retóricos, tornou-se dominada por segmentações (diferentes linhas teóricas) quase não buscando mais valores universais. 

Valores universais são temas obviamente discutidos nas religiões e na espiritualidade há milênios na civilização humana. Embora a terminologia tenha mudado de tempos em tempos e de cultura para cultura, o assunto central sempre gira em torno do certo e errado, do bem e do mal e da importância de se pautar pelo bem, de agir do modo certo. 

Dentro deste tema óbvio, porém discutido há milênios, o bem se caracteriza pela caridade, solidariedade, equidade, empatia, o que exclui seus opostos como a ganância, a avareza, a iniquidade, a indiferença etc... 

A crítica ao viés materialista que eu faço, não é uma alegação de tudo o que foi proposto através deste pressuposto filosófico (ou ontológico) foi ruim ou inútil: Faço uma crítica por entender que este viés teve por fundamento a ciência formulada a partir da física newtoniana ("clássica"), que deu muito mais importância aos assuntos referentes à matéria perceptível do que às questões essenciais do ser humano como os sentimentos, os pensamentos (psicologia), a ética e a moral (filosofia). Apoiar-se no materialismo como uma verdade absoluta é um reducionismo e também um tradicionalismo, já colocado em contradição pela "revolução da física" que eu cito nestes 2 textos: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/04/como-fisica-do-seculo-20-impactou-as.html e https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/07/mente-tempo-e-pressupostos-filosoficos.html

A importância de não reduzir o ser humano meramente ao corpo, à matéria, não deve ser deixada de lado. Cito esta importância em outro texto: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/06/os-perigos-dos-materialismos.html 

Sentimentos e pensamentos não são perceptíveis publicamente, pois são fatores internos de cada ser humano, nem podem ser manipulados como a matéria em seus estados sólido, líquido, gasoso etc. A psique (Mente e/ou alma/ espírito) complementam a matéria, portanto a cosmovisão ou "ontologia" mentalista ou espiritualista (que inclui a espírita, a idealista alemã entre outras), serve para complementar a materialista, não para se limitar à esta nem para simplesmente recusá-la, mas para ir além. 

Não é coeso, muito menos necessário, excluir tais pressupostos dos estudos e pesquisas - Se há alguma dúvida de como pensamentos, sentimentos, valores e noções (a mente) interagem com o corpo humano, isto ainda pode ser descoberto... Com estudos transdisciplinares e não com reduções e recortes da realidade. 

Tanto que as propostas para as soluções dos problemas como a "inconsequência" da IA, podem surgir de ciências como a psicologia, de filosofias como a ética, de espiritualidades como o cristianismo, o budismo ou mesmo de campos que invocam mais de uma área do saber como o espiritismo, o Bhakti Yoga, a Kryia Yoga que utilizam a ética de textos como o Bhagavad gita etc. 

Embora o texto a seguir use a palavra caridade, entendo que ela possa ser substituída por solidariedade, ou talvez por um combinado de empatia e equidade

"Muito extensos e detalhados seriam os conselhos que vos deveriam ser dados sobre a necessidade de alargamento do círculo de caridade; sobre a inclusão nesse círculo de todos os infelizes cujas misérias são ignoradas; sobre todas as dores que devem ser buscadas em seus próprios redutos, para consolá-los em nome dessa virtude divina, a caridade. Vejo com satisfação quantos homens eminentes e poderosos colaboram na busca desse progresso que deve reunir todas as classes humanas: os felizes e os desgraçados. Coisa estranha! Todos os infelizes se dão as mãos e se ajudam reciprocamente na sua miséria. Por que os felizes demoram tanto para ouvir a voz do infeliz? Por que se faz necessária uma poderosa mão terrena para dar impulso às missões de caridade? Por que não respondem com mais ardor a esses apelos? Por que permitem que a miséria, como por prazer, macule a imagem da Humanidade? 

A caridade é a virtude fundamental que deve sustentar todo o edifício das virtudes terrenas. Sem ela não existem as outras. Sem caridade não há fé nem esperança, porque sem a caridade não há esperança de uma sorte melhor nem interesse moral que nos guie. Sem a caridade não há fé, porque a fé é um puro raio que faz brilhar uma alma caridosa; ela é a sua consequência decisiva. 

Quando deixardes que o vosso coração se abra à súplica do primeiro infeliz que vos estender a mão; quando lhe derdes sem se perguntar se sua miséria é fingida ou se seu mal tem um vício como causa; quando deixardes toda a justiça nas mãos de Deus; quando deixardes a cargo do Criador o castigo de todas as falsas misérias; enfim, quando praticardes a caridade pelo só prazer que ela proporciona, sem questionardes a sua utilidade, então sereis os filhos que Deus amará e que chamará para si."

Este trecho tirado de um texto do século 19 de Allan Kardec trata de um valor universal, bem como várias obras de outros autores de diferentes culturas também tratam: Eu poderia citar Platão, Comenius, Pestalozzi entre outros... Todos eles já sabiam da importância de um ou mais valores universais para humanidade. 

 

 

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Estado alterado da mente: a Relação entre "Mania e Magia"

 

No texto Fedro de Platão, Sócrates faz interessantes observações sobre as "loucuras", não como entendemos os transtornos mentais e suas várias classificações neste início de século 21, mas como estados alterados da mente, ou mais precisamente, da psiquê. 

Inicialmente é importante lembrar que a palavra psiquê era usada para descrever a alma e também a mente, pois durante a época em que Platão viveu, não havia clara distinção entre tais conceitos. A natureza da mente tendo aspectos "não mensuráveis", como pensamentos e sentimentos (etc), segue como um tema inconclusivo até este início de século 21, por mais que existam estudiosos que se apoiem numa "visão" de mundo / em pressupostos materialistas. 

A loucura abordada no diálogo então, trata a mente em estados alterados por dois motivos: a paixão erótica, ou seja o desejo referente à sensualidade e aos atos sexuais e a paixão incitada por um estado de inspiração. Este último estado era alcançado pelo indivíduo ao entrar em uma espécie de transe, seja através de rituais de música, de dança, ou de invocação espiritual. Um estado que colocava o indivíduo, seja chamado de apaixonado, invocador ou qualquer outro nome, em contato com um ser "sobrenatural", espiritual ou divino, independentemente de diferenciações entre estas classificações de seres. Os nomes de tais entidades espirituais da Grécia clássica variavam: ninfas, musas, daemons, bem como as traduções do idioma grego antigo para outras línguas: gênios, semi-deuses, deuses etc. Mas discutir quais são os nomes corretos não é útil, pois é pouco conclusivo e pode gerar discórdias, principalmente entre indivíduos que seguem uma determinada religião. O interessante do texto é que ele é válido para toda cultura, espiritualidade e religiosidade: A "paixão divina" era um estado alterado da mente, ou seja, uma mania, causada pela busca de uma beleza superior, transcendente: Sócrates explica que a pessoa ao perceber o "além céus", via o esplendor das virtudes dos deuses, como do bem, da justiça, da temperança, da pureza, que em tal "plano de existência" emanavam luz. Ao retornar sua consciência ao mundo sensível (perceptível, material) a pessoa que alcançara tal estado de êxtase então ficaria "louca" (maníaca, ou seja com mania) com saudades do bem, da virtude. Sócrates também explica que originalmente as palavras mania e mancia (manike e mantike) eram a mesma, e que só em um determinado momento da história é que realizaram uma separação (de mau gosto para Sócrates) entre tais classificações, considerando mania como loucura e a mancia como adivinhação, magia

Pois bem, as práticas mágicas, sejam em ordens filosóficas como os pitagóricos, em cultos pagãos ou em religiões, sofreram algumas mudanças com o passar dos tempos e com a dominância de determinadas culturas na civilização. Junto com estas mudanças práticas, também surgiram mudanças nas terminologias por variados motivos dos quais não me aprofundarei neste texto. Cerimônias, liturgias, rituais magísticos, invocações, não importa o nome - Um tema central neste assunto é o estado da mente particularmente "alterado", ou seja, que não está prestando atenção ao seu redor, não está preocupado com a realidade material, - está em uma experiência além do sensorial (dos 5 sentidos humanos). Este estado da mente é um processo predominantemente/ essencialmente interno do ser humano, pois envolve sentimento no sentido literal da palavra: tanto o sentir, de perceber internamente os pensamentos e emoções que surgem em sua própria mente, como também envolve os sentimentos, seja esperança, gratidão, devoção, serenidade ou algum outro. Entende-se então que tais processos envolvem condições psicológicas, seja considerada condições mentais ou espirituais, da alma, portanto é um assunto da psicologia. Porém seja na academia ou na mídia (tão dominadas pelo materialismo), os últimos estudiosos que conquistaram algum espaço ao abordar tais assuntos na psicologia, parecem ser considerados de pouca relevância na maior parte do mundo científico, seja nas pesquisas ou nos cursos universitários. Particularmente lembro-me de dois autores que abordaram um pouco destes assuntos e de maneiras distintas entre si: Wilhelm Wundt e Carl Gustav Jung. 

O segundo autor, Jung, ganhou mais notoriedade/ popularidade e trabalhou a importância dos símbolos/ da simbologia na vida humana. Porém o primeiro, Wundt, é meramente considerado o fundador da psicologia como ciência depois de ter criado o primeiro laboratório (ou um dos primeiros) de psicologia do mundo. Porém sua obra, praticamente abandonada pela academia, é mais complexa e vasta do que a mera criação de um laboratório ou do que a fundação de uma área da ciência. 

Mas o que talvez nenhum autor da psicologia tenha abordado é o significado ou a importância desse estado alterado da mente, ou mania, citada por Sócrates e/ou Platão. Curiosamente a mania de inspiração divina citada por Platão em sua obra Fedro, difere da paixão erótica, do desejo sexual - por que refere-se ao amor que precisa do verdadeiramente belo, que necessita da virtude que é um valor universal, não particular. Por universal podemos entender atemporal, que faz bem para toda e qualquer pessoa, ou mesmo para toda e qualquer forma de vida. Uma virtude verdadeira não é relacionada só a determinadas situações ou voltada apenas para determinadas pessoas. A virtude, quando realmente existe, é algo central no ser humano, portanto liga-se ao seu ser de modo profundo. A pessoa que é "generosa" apenas com um ou dois grupos de pessoas (família e/ou amigos, por exemplo) não é generosa. Ela apenas gosta dos amigos e/ou da família, ou se comporta como se tivesse uma obrigação para com estes grupos etc. O mesmo vale para qualquer outra virtude: ser humilde, receptivo, paciente, atencioso, amigável/ honrado etc. A virtude não sendo algo somente voltado a determinados indivíduos ou grupos próximos, é uma referência social: Tem seu valor, importância e utilidade não só para o ser humano como indivíduo, mas para o coletivo também. 

Voltando ao amor (surgido de uma "mania") de "inspiração divina", ainda que em linguagem um tanto figurada e talvez poética, Platão indica que Sócrates explicava sobre um sentimento, afinal é isto que o amor é. O amor de acordo com estes filósofos, é o sentimento transcendente, o qual eles chamam de "o alado". 

A mania explicada em Fedro então, demonstra que o essencial para uma experiência espiritual (seja mística, mediúnica ou de qualquer outra classificação) é o estado mental alterado. 

Tal estado é importante para cada indivíduo cultivar sua espiritualidade, seja através de um método magístico (rituais, cerimônias, liturgias), contemplativo (oração, meditação...) ou um meio termo destes dois modos (talvez a poesia, a música etc). É um estado de sentimento profundo e verdadeiro que ocorre interiormente em cada ser humano - somente o próprio ser humano pode alcançá-lo e entendê-lo, pois ao tentar classificar a experiência de outrem, a chance de se agir preconceituosamente é enorme, afinal este é um fenômeno possivelmente imediato, ou seja, que ocorre sem o meio. Imediato aqui não significa rápido ou instantâneo: É o que independe do meio (ambiente, social etc). Ela ocorre diretamente no íntimo da pessoa, "em sua psiquê", não necessitando sequer do uso de uma substância (psicoativa, por exemplo). Inclusive, Platão na mesma obra, indica que Sócrates antes de explicar as manias, havia entrado em um estado de "inspiração sobrenatural" ou de "possessão" pelas ninfas, sem utilizar substância alguma. Sócrates simplesmente faz um discurso breve, ou oração, dirigida às ninfas e começa a falar influenciado por estas entidades que eram possivelmente espíritos (daemons) da natureza (aqui falo do ponto de vista socrático/ platônico: uma visão de mundo, ou ontologia que não se reduzia a matéria perceptível). 

Como o discurso proferido neste estado tem um "tom" pessimista, pois resumidamente alega que estar apaixonado é ruim e que nunca deve-se unir-se a uma pessoa por quem se apaixona, Sócrates reconhece seu erro logo em seguida e busca corrigir-se, continuando o dialogo com Fedro e demonstrando que o amor é mais ideal e virtuoso do que a paixão erótica/ sensual. Ambos podem ser causados por uma mania (loucura, ou estado alterado da mente), mas somente o amor é transcendente e mais próximo do que é verdadeiramente belo. 

Note que a filosofia socrática citada aqui, além de abordar um sentimento, traça sua relação com um conteúdo moral (o bem, as virtudes, os valores), da ética - um campo fundamental que serve, ou deveria servir de base para ciências humanas como o Direito. Trata de um elemento que deveria ser objeto de estudo da psicologia (o amor) e que conecta-se com Ética, Ontologia (o que é mais verdadeiro, o que existe) e até mesmo com Religião/ espiritualidade. A moral, os valores e virtudes (enfim o bem), são um tema importante que estão por trás de toda decisão humana e que se tornaram mais evidentes com o desenvolvimento da "inteligência artificial" neste início de século 21 - tema o qual devo abordar logo mais neste blog.

Fontes:

JOWETT, Benjamin; The Dialogues of Plato/ Phaedrus (tradução do grego ao inglês)

Diálogos III (Fedro), tradução de Edson Bini - Edipro

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A Ciência e o Bem

 

Os Sentimentos e o Bem são desprezíveis? 

Decidi escrever este texto após me lembrar de alguns diálogos com professores do curso de psicologia e de conversas de pessoas debatendo sobre o direito de lucrar contra a responsabilidade social. Os professores aos quais me refiro eram respectivamente de psicologia comportamental e de "ciências neurológicas". 

Resumindo à grosso modo para quem não sabe, a psicologia comportamental (behaviorismo) é uma vertente, ou seja, uma abordagem da psicologia, que lida mais com o presente se comparada com a psicanálise e com a psicologia analítica. Além disto, como ciência, o behaviorismo se apoia mais nos métodos empíricos e racionalistas, enquanto a psicanálise e as abordagens humanistas se apoiam mais em um método fenomenológico.

Pois bem, em uma das aulas, o professor que atuava na área de psicologia comportamental, alegou em tom de deboche, que sentimentos como o amor eram muito subjetivos e portanto menos importantes do que as ações e reações dos indivíduos. Já o professor da área de neurologia, hesitando um pouco, comentou que o amor era apenas uma reação eletroquímica no sistema nervoso. E por fim, as pessoas que debateram a importância do lucro contra a importância da responsabilidade social, talvez pareçam estar abordando um tema totalmente diferente da psicologia, mas na verdade também se trata de se sentir como estão os outros seres. E "sentir", assim como o sentimento, é um objeto de estudo da psicologia, ou ao menos, de algumas abordagens que se dispõem a estudá-lo.

Os sentimentos não são científicos, ao menos, por enquanto. Eles não podem ser medidos nem classificados nos conformes da (ainda débil) ciência humana tão amarrada ao conceito do empirismo desenvolvido há cerca de 3 séculos, e ao materialismo. Portanto benevolência, amor, humildade são tratados como assuntos muito subjetivos pela maioria dos cientistas, céticos, ateus, materialistas… Na verdade estes temas são considerados subjetivos ou secundários até mesmo por muitos dos supostos religiosos e “espiritualizados”.

Platão (428 a.C. - 347 a.C.), o famoso filósofo que viveu na Grécia por volta do século 4 antes de Cristo, alegava a importância de ter o Bem como centro de todas as coisas. A partir disto alegava a importância da razão e busca pela sabedoria e trabalhava sempre com o que é possível, ou seja, a possibilidade de progredir. Platão e seu mestre, Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.), são considerados os fundadores da filosofia ocidental, ao menos se desconsiderarmos os poucos fragmentos remanescentes das obras de filósofos anteriores... Se formos considerar tais obras fragmentárias, o título muda para Tales de Mileto (624 a.C. - 546 a.C.)

Resumidamente, os filósofos (amantes do saber, ou seja, aquele que ama o conhecimento) eram os cientistas da antiguidade e Platão (e/ou Sócrates) os idealizou como os indivíduos mais adequados para governarem a sociedade. Portanto todo o conhecimento deveria ser buscado e aplicado para o bem do maior número de pessoas possível. Isto pode parecer “apenas” benevolência, mas na verdade, também é progresso. Então o que deu errado? O que impossibilitou a busca pelo bem e pelo saber situarem-se no centro da civilização humana? Possivelmente a mesma coisa que deu errado em outros momentos da história humana. Ao ler A República, livro onde Platão conta como Sócrates idealizava melhorias na sociedade junto a outros indivíduos, nota-se que o filósofo cogitava fazer uma espécie de conversão / revolução nas cidades estado helênicas (gregas) a começar pelas altas classes sociais. O termo revolução aqui refere-se às propostas de Platão para a mudança nas estruturas governamentais. Já o termo conversão refere-se mais às propostas de convencer a aristocracia à valorizar a busca pelo bem (virtude) e a realizarem as funções designadas por suas respectivas classes e cargo/ profissão. Porém, ao lidar com os indivíduos mais poderosos das cidades estado gregas, Platão não conseguiu remover a avareza nem o orgulho destes. Ideias sobre a existência da alma persistir além da morte do corpo e que isto implicaria em recompensas ou penas além da vida material, deviam incomodar os poderosos. Governar pelo próximo e para os outros deve ter incomodado mais ainda. Sócrates que havia começado a fomentar tais ideias em Atenas antes de Platão, sofreu acusações, entre elas, a de corromper a juventude e de impiedade, um tipo de heresia / blasfêmia da época. Por isso acabou condenado a tomar um veneno mortal (sicuta). Aceitando as leis de sua época, Sócrates encarou a morte sem medo, pois sabia que fizera a coisa certa e que nada garantia que sua alma pudesse ser destruída. 

Fica uma questão: Seria a filosofia iniciada por Sócrates e Platão, mais deficiente do que a ciência atual do século 21? Alguma das virtudes defendidas pelos dois filósofos prevaleceu em nossa civilização ocidental alguma vez? A temperança/ moderação, o bom senso, a piedade, a justiça, a verdade, o bem? Parece que não.

 Neutralidade: Ignorância ou mera Opinião. 

Atualmente (mais precisamente a partir desta segunda década do século XXI) estamos vivendo a era das "fake news", um processo que faz parte da "pós verdade", ou seja, a trágica desvalorização dos fatos diante as narrativas. Neste processo surgiram novos governos "populistas" de direita, ou seja, governos que utilizam-se de sensacionalismo, menosprezando as ciências e manipulando os tabus sociais, as tradições (conservadorismo) e os fervores da população, como citei neste outro texto: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/04/a-corrosao-social-persiste-atraves-das.html

As pessoas dominadas por tabus sociais e/ou tradições em geral não se interessam pela ciência ou não tiveram acesso à ciência. Portanto seus modos de pensar dão espaço à predominância de sentimentos e emoções, tendo pouco espaço para a racionalidade. Independentemente se estes sentimentos e emoções são positivas ou negativas, os governos chamados de populistas aproveitam-se desta característica, assim como as mídias sensacionalistas também o fazem. Estas pessoas “distantes da ciência”, não têm conhecimento sobre política nem sobre sociologia ou geografia e se mantém “neutras” até serem manipuladas. Suas opiniões dificilmente se baseiam em fatos já que são alvos de manipuladores como os mencionados há pouco. 

A Ciência deve ser Neutra? 

Desde a ascensão destes governos entre 2016 e 2018, começou-se a discutir a necessidade da ciência se aproximar do povo. Mas porquê? A resposta ficou mais nítida no ano de 2020: Com a propagação da pandemia do covid-19, variados absurdos vieram à tona, em geral, um negacionismo generalizado da ciência. Isto ocorre porque a ciência que era apenas afastada das classes sociais mais humildes, em geral das massas com difícil acesso à uma renda digna e aos estudos, agora também foi afastada de grande parte das classes médias e altas. Não é teoria infundada, é fato que inúmeros pequenos empresários ficaram em pânico com a ideia de falir e de perder poder aquisitivo por causa das medidas de afastamento social. Esta classe em pânico se agarra às promessas absurdas, negam a letalidade do vírus e acham natural, ou até mesmo lógico, o relaxamento das medidas de afastamento social mesmo com um elevado número de pessoas sendo infectadas. Os mais abastados (multimilionários) também não precisam mais da ciência, pois estão mais preocupados em permanecer no topo da hierarquia sócio econômica. 

Portanto a comunidade científica dominada por uma pseudo racionalidade permaneceu cega sobre alguns fatos óbvios desde o século XX: Não existe sentimento neutro em ser humano algum e portanto não existe pensamento neutro. Não existem expressões dos sentimentos (emoções) neutras e por fim, não existem ações/ comportamentos neutros, pois para existir neutralidade nestes campos não poderiam existir relações, nem intenções, nem opiniões. O que existe são sentimentos positivos e negativos. A partir daí surgem emoções (expressões dos sentimentos) amistosas ou hostis, boas ou más. Existem os pensamentos altruístas e egoístas e o mesmo vale para as atitudes e comportamentos. Para que existisse um pensamento neutro, não poderia existir nada além do pensador: O ser pensante ou pensa priorizando a si mesmo ou pensa priorizando a(s) outra(s) pessoa(s). A indiferença só existe em relação à alguma coisa, pois ninguém pode ser indiferente à nada. Portanto o pensamento "indiferente" é aquele que não se importa com algo (com algum assunto, alguma pessoa, algum grupo etc). Geralmente este tipo de pensamento tende a ser o egoísta, pois é voltado para si mesmo ou prioriza uma minoria. Obviamente esta dualidade é mais nítida nos sentimentos e nas emoções, pois no campo mais "racional" parece ser aceita a suposta neutralidade nos assuntos. 

Então vamos mostrar alguns exemplos da impossibilidade da neutralidade: Descobre-se como construir celulares com internet. O que será feito desta descoberta? Será difundida em algum setor da infraestrutura de um (ou mais) país(es) ou será comercializada visando o lucro de determinada empresa, mais especificamente de seus proprietários / acionistas? Descobre-se a vacina para uma doença mortal que se espalha rapidamente. O que será feito desta descoberta? Será difundida em algum setor da infraestrutura de um (ou mais) país(es) ou será comercializada visando o lucro de determinada empresa, mais especificamente de seus proprietários / acionistas? 

É possível afirmar que os pesquisadores estejam neutros em sua pesquisa? Bom… Esta neutralidade presume que os cientistas que estão pesquisando determinado campo de estudo em busca de descobertas, não tenham a mínima ideia o que será feito com sua possível descoberta. E isso é de uma grande ingenuidade. Será que os cientistas são tão ignorantes em relação ao destino de suas pesquisas / descobertas? 

Ainda assim, a culpa ou responsabilidade não deve ser depositada simplesmente sobre a comunidade científica: Antes de encontrar culpados é necessário deixar claro que não há neutralidade de fato. Um cientista pode ignorar o destino de sua pesquisa por algum tempo, pode ter boa ou má intenção em sua pesquisa, mas o que determinará o destino da descoberta podem ser (e geralmente são) outras pessoas. Geralmente pessoas com poder econômico, político ou ambos. E a decisão final não será feita com neutralidade! O pensamento e/ou a ação (chame do que quiser) final sobre a descoberta científica terá uma preferência em privilegiar uma minoria ou uma maioria de pessoas. E óbvio, que o pensamento dinheiro-cêntrico pensa em favorecer uma minoria, pois se trata de acumular grandes fortunas para poucas pessoas. 

Portanto a “neutralidade”, ou mais precisamente a indiferença, sempre serve a alguém, sempre serve um lado. No caso de uma sociedade, cuja a maioria da população não tem entendimento sobre a função do estado, nem sobre para onde vai o dinheiro num sistema que favorece predominantemente quem tem (muito) mais dinheiro, a tendência é o pensamento indiferente. Indiferente a que? Indiferente a tudo que não seja si mesmo e talvez algumas pessoas próximas, de preferência que não discordem muito de suas ideias. Logo esta indiferença diante as necessidades coletivas serve às minorias mais endinheiradas (eu sei… isto também é óbvio). 

Enfim, creio que seja importante remover esta máscara da neutralidade, não só como possibilidade política ou de opinião pública, mas também em todos os campos da ciência. Removendo a máscara, fica óbvio que existem intenções altruístas e intenções egoístas. Fica claro que existem as decisões e atitudes que visam favorecer poucos e aquelas que visam favorecer a maioria.
E falando em intenções, estas começam na mente humana, não importando se você é um ateu convicto que alega que os sentimentos são apenas reações químicas no cérebro, ou se você é um religioso que alega que tudo começa na alma. Tendo em vista que todas intenções, sentimentos e pensamentos se formam na mente, é natural que a ciência designada a estudar o pensamento, as emoções e o comportamento humano, seja a primeira a abandonar a falácia da neutralidade: A Psicologia deve ser a primeira ciência a posicionar-se contra o interesse de poucos e contra o prejuízo da maioria.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Ética, profissionais de ética, e sociedade


A imagem acima mostra duas provas da disciplina de Ética e Responsabilidade Profissional, do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas da Fatec-SP. As letras das alternativas escolhidas como resposta por mim estão à esquerda, as letras das alternativas "corretas", segundo a professora, estão à direita. "Poxa Lucas, você foi mal hein?"

Verdade, mas há um fator importante aí, essas provas são idênticas, fui reprovado da primeira vez que cursei a disciplina e quando fiz pela segunda vez, a professora aplicou a mesma prova. "Piorou! Você deveria ter ido bem melhor na segunda vez!" Poderia afirmar um incauto. E eu seria forçado a responder: Você deixou passar algo. Se as provas são as mesmas, como o gabarito pode ser diferente?

Não vou nem discutir aqui a metodologia de avaliação baseada em um maldito caderninho que deveria ser acrescido, aula após aula, de resumos de parágrafos e mais parágrafos da Constituição Federal, Código Civil, etc. O tal do caderninho é baseado no que é ensinado por um professor falecido chamado Pierluigi Piazzi, figura um tanto peculiar que afirma que Vigotsky, Piaget e Paulo Freire não produziam ciência de verdade, mas sim achismo. Se você duvida do que eu escrevi, trechos deste vídeo (https://www.youtube.com/watch?v=z2xX0HkAfII aos 53 minutos) se proliferam pela internet, graças aos esforços de direitistas malucos. Não vou desqualificar o trabalho do tal professor, mesmo que ele desqualifique o dos outros, mas quero reforçar a postura autoritária, reacionária (no sentido daquele velho pensamento: "antigamente era muito melhor", o que pode ter razão parcial, claro, mas no caso das escolas antigas que são exaltadas no vídeo, quantas pessoas tinham acesso?) e megalomaníaca deste senhor.

Por quê quis ressaltar a postura deste senhor? Porque se assemelha à postura da professora da disciplina citada. De maneira muito mais branda, é verdade. Há certa temperança em seu comportamento no geral. Durante o semestre ela faz suas aulas expositivas e tira as dúvidas, após a correção das provas, ela muda a nota se um erro de correção é apresentado, enfim, age aparentemente dentro do comportamento esperado. O comportamento é ainda mais esperado quando se trata de uma professora de ética.

Porém, como já foi apontado, o gabarito é fruto do caos. Mais: quando fiz a prova substitutiva, sem entregar o caderno, a correção da prova foi abismal. Havia tantos erros na correção, que comecei a citá-los e ela começou a negar um a um, alegando que eu estava errado. Ela ainda indagou "Você não entregou o caderninho?". Deixando claro que ela reprovava de qualquer maneira quem não o entregasse (com uma metodologia, mal explicada para algumas turmas, em que a entrega do caderno somava dois pontos na média e a não-entrega SUBTRAÍA dois pontos na média, restava conseguir 8 na média das provas para passar com 6 na média. Algo que, com gabarito aleatório e correções enviezadas e apressadas, fica perto do impossível). Era aí que o viés autoritário aparecia, incompatível com qualquer ética.

A p1 era dividida em duas partes, alternativa e dissertativa. Era um show encenado. A parte de alternativas parecia uma prova de concurso de direito, exigindo uma 'decoreba' em nível épico, algo que não era passado em aula e que nunca havia sido dito que seria cobrado. A parte dissertativa era corrigida de forma mais branda, quando entregava as notas baixas da sala, ela dizia que a p2 seria totalmente dissertativa porque a turma foi melhor neste trecho. Mas a correção da p2 era mais bruta, sua nota era 'canibalizada' em cada questão pelo menor detalhe que "faltasse", para forçar a necessidade dos dois pontos oriundos do caderno.

Todo esse comportamento apontava que o gabarito inexistia. Não importava, porque ninguém saberia a resposta correta das alternativas se não mergulhasse a fundo nos diversos códigos recheados de 'juridiquês', toda essa encenação era irrelevante, bastava entregar o maldito caderninho e conseguir uma média 4. Lembra toda a encenação que certo juiz perpetrou recentemente devastando o meio político brasileiro e por consequência, a economia.

Para completar, a formação dessa professora era de bióloga e advogada. A aula era de Ética, que, tem muito a ver com legislação, mas na verdade era uma aula pura de legislação travestida de ética pelos vídeos de profissionais que abordam ética, que eram passados no fim das aulas. Ou seja, ela dava aula do que sabia, não do que deveria.

Tudo isto foi dito para explicitar o comportamento de uma professora de Ética. Mas não vamos parar por aqui. Os vídeos passados em aula eram sempre de Cortella, Karnal ou Clóvis, membros do atual Big Four de filósofos/acadêmicos popstar (adicione o Pondé à lista - embora eu prefira o Safatle, e sim, fiz uma alusão ao Big Four usado para nomear as supostas maiores bandas de thrash metal do mundo). Eu sempre me divirto vendo os vídeos do Clóvis, afinal, ele fala uma montanha de palavrões e aparenta ser o mais esquerdista de todos. Mas no fundo, no fundo, a mensagem dele é "se não gosta do seu emprego, saia, e ache outro". É algo muito bonito, mas com severas limitações nas sociedades em que vivemos, e se isso é passível de uma longa discussão, toda a ideia de ética que é passada nessas palestras e vídeos também é, porque estão entrelaçadas com todos os conflitos de nossas sociedades.

É claro que os filósofos/acadêmicos citados incitam justamente isso, uma discussão contínua da ética. Porém, as discussões da ética que abundam pelos meios de comunicação, principalmente as que surgem do Big 4 e do meio empresarial, dificilmente chegam em um ponto visceral importantíssimo: a quebra brusca do status quo.

Sim, porque a discussão é quase banal se isso não acontecer. Nossas sociedades bárbaras travestidas de democracias afundam mais um pouco dia após dia. Para quem realmente controla o poder no mundo, Karnal e companhia podem discutir e fomentar discussões nesse nível do raio que o for, pouco importa, as estruturas que os mantém estão lá, qualquer barbarismo necessário para mantê-las irá acontecer sem qualquer remorso. Basta ver a repressão brutal que ocorre hoje mesmo, em boa parte da América do Sul, às manifestações que surgiram, não de forma absolutamente consciente, contra os poderosos.

Karnal é um dos que deixa claro sua postura dissociada desse embate de forças (Pondé eu nem preciso citar, não?), no último vídeo que vi (https://www.youtube.com/watch?v=hPsqmVC1pMU), uma entrevista realizada pelo youtuber Cauê Moura, Karnal se declarou de centro. Isso certamente deve ter deixado mais esclarecido quem havia se abismado com isto:


A foto, que correu as mídias sociais como um meme virulento, foi tirada antes que a Vaza Jato começasse, mas a pergunta paira no plano Astral: Iria Karnal, hoje, tirar e postar essa foto publicamente? Talvez não, mas talvez sim. Veja, mesmo com figuras de centro/direita como Reinaldo de Azevedo batendo de frente com a bizarra Lava-Jato, é possível notar uma gigantesca condescendência da mídia e daqueles com poder de palavra na sociedade, para com Moro e seus asseclas.

Como isso pode ocorrer? É uma discussão para lá de longa. Basta dizer que ao redor de Lula foi construída uma imagem de supervilão fortíssima, baseada em sua suposta (suposta porque, por mais ridículo que possa parecer, ninguém provou nada de verdade) corrupção. Então, Moro, ao combater esse supervilão (por meios que, os referidos preferem usar uma venda nos olhos para não ver, também são corruptos), passa a ser super-herói, e não do tipo mutante, apedrejado, mas do tipo Vingador, aclamado. E a corrupção está ligada a quê? À ética, claro.

A ética é algo importante, afinal, trata-se da melhor maneira possível de convívio entre os membros de uma sociedade. Mas no cenário atual ela serve para quê? Ela serve como um daqueles selos de 'empresa amiga do meio-ambiente', basta que a mesma contrate um popstar da ética para fazer uma palestra e publique seu próprio manual de ética. Se vai pagar salários decentes ou explorar os trabalhadores até o talo, tanto faz.

Serve para construir heróis nacionais e manipular massas. Serve para desqualificar a violência, mesmo que essa seja oriunda daquele que não tem mais recurso algum para utilizar. Serve para se ganhar muito dinheiro e fama, e do alto de sua cadeira, enxergar de maneira 'naturalista' aqueles que rastejam por migalhas. Serve para defender um tal de estado democrático de direito, quando ele mal existe e nunca irá existir plenamente sem a ruptura do status quo. Serve para 'demonizar' a polarização e exaltar o centrismo travestido de ponderância, afirmando que a sociedade ideal deve ser construída pouco a pouco sem romper as estruturas de poder. Diga-me, você vê isso acontecendo no futuro? Vê uma alternativa pacífica de redistribuição de poder mundial? Eu gostaria muito que existisse, quem em sã consciência deseja guerra e derramamento de sangue? Mas a verdade é que é quase impossível, e digo quase apenas para ser otimista.

Karnal disse ter problemas com pessoas que matam, no vídeo citado. É compreensível, eu também tenho, é um dos atos mais relevantes sob o viés da ética, porque encerra a vida de outro e elimina totalmente a discussão do convívio. Ele diz isso, porém, ao se referir a Che Guevara.

Che Guevara para mim, até meus 39 anos de idade, era uma figura completamente desconhecida. Só o via em camisetas (muitas delas, vestidas pelos playboys 'revolucionários' da faculdade em que eu estudava, os quais incitavam em mim forte aversão). Talvez eu nem soubesse que era argentino e pensasse que era cubano, não me lembro. Isso mudou durante minha visita a Cuba, onde fui 'forçado' a 'conhecê-lo'.

Retornei de lá com a lendária nota de 3 pesos que portava o monumento a Che na frente e uma cena da tomada do trem blindado no verso. Ao mostrar para um amigo, o mesmo disse, "bem legal, por mim eu só tirava o Che. Estuprador f&*(#@#!"
Aquilo me deixou curioso, seria Che Guevara estuprador? Vasculhei a internet e além da opinião de direitistas malucos, encontrei uma matéria da Veja (uma matéria de direitistas malucos).


Graças à essa matéria, descobri que o autor do livro que foi usado como base, repudiou a revista, dizendo algo como: "Eu escrevi este livro justamente para contrapor as visões heróicas ou vilanescas que existem de Che."

Era o que eu queria, neutralidade pura não existe, e é fácil de notar os julgamentos que esse mesmo autor faz sobre Che durante sua escrita. Mas não era um fanático esquerdista ou direitista escrevendo.
Li então 'Che Guevara - Uma biografia', do estadunidense, Jon Lee Anderson (já adianto que não achei nada sobre estupro).


É baseado nessa leitura que agora surge a dúvida: Karnal tem problemas com Che, mas qual Che? Afinal, somos pessoas diferentes, parecidas, mas diferentes, durante o decorrer de toda nossa vida, porque mudamos. Gosto de pensar que existiram vários Lucas antes de mim, e espero que existam vários outros à frente.

Não pode estar relacionado aos Ches que foram racistas, homofóbicos ou machistas no decorrer de sua vida (se nos dias de hoje, é raro encontrar alguém que nunca o foi, imagine naquela época). Não, Karnal foi específico, ele tem problemas com o Che 'asesino' (como Che teve que ouvir muitas vezes em sua vida). Seria o Che asesino que matou durante a revolução cubana? Seria o Che asesino de espiões e traidores? Seria o Che asesino do paredón (ou malecón?)?

Em todas as situações, Che se comportava seguindo uma lógica de preto e branco que era respaldada pelo tempo-espaço em que estava. Uma revolução derruba um sistema, portanto as leis inexistem, são construídas durante a revolução. Em dado momento, Fidel teve que definir o que era punível de morte em seu exército. Fidel aliás, era muito mais brando do que Che.

O que fazer com inimigos capturados quando não há prisões? Soltá-los e correr o risco de que sua posição seja descoberta e você seja morto? Fidel fez isso várias vezes. Você já se imaginou nessa situação? Eu gosto de pensar que eu sempre optaria por prisões, mas é ingenuidade acreditar que seria possível.

Será que Karnal defenderia manter a ditadura de Batista? Manter Cuba como um capacho dos E.U.A.? Como o paraíso de criminosos? Não é impossível, visto que na entrevista ele brinca sobre preferir a monarquia à revolução francesa. Então ele não escolheria ativamente talvez, mas passivamente. É o que faz quando afirma que a grande maioria da população é centrista, que não se preocupa com o que não a afeta no cotidiano.

Bem, o nosso cotidiano é afetado o tempo todo pelas estruturas de poder. Pode não ser claramente perceptível essa escravidão moderna, e é totalmente admissível para quem não possui acesso à instrução ser centrista. Mas eu não consigo mais admirar essa intelectualidade 'isentona', não consigo ver como admissível você adquirir níveis cavalares de conhecimento e discursar de maneira velada a favor do status quo.

A ética para ser real tem que passar pela redistribuição de poder dos homens. Não é admissível se defender ética em regimes controlados pelo poder (isso inclui o stalinismo), pois ela é vazia. Para defender a ética verdadeira é preciso defender uma quebra total do status quo e sugerir novos meios de se produzir e viver em sociedade. Desse ponto de vista, Jacque Fresco tinha muito mais cacife para falar de ética do que Leandro Karnal.