segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Política Brasileira de 2020 a 2026: Uma questão ética?

 Há 6 anos atrás escrevi neste blog um resumo de minhas impressões sobre a política no Brasil desde as manifestações públicas de 2013 até o governo de Jair Bolsonaro antes da pandemia: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/02/politica-brasileira-de-2013-2020-um.html

Estava claro o movimento de grandes capitalistas (mega empresários e pastores multimilionários) manipulando medos e anseios da população brasileira: a presidenta Dilma Rousseff foi deposta de seu cargo por uma acusação supérflua de "pedalada fiscal". Tais "pedaladas" praticamente são a mera gestão de dívidas, onde se escolhe quais devem ser pagas antes, e quais devem ser pagas posteriormente com multas: algo que vários outros presidentes e governadores realizaram ao longo da história.

O sucessor, Michel Temer, mudou os planos de governo, priorizando a iniciativa privada, beneficiando grandes empresários e desprezando a maioria do povo constituída pelas classes sociais mais baixas...

O presidente seguinte, Jair Bolsonaro, que ganhou as eleições se autoproclamando capitão e apoiado por uma campanha eleitoral repleta de acusações falsas sobre seus adversários políticos, faz uma gestão de demolição da infraestrutura do país: privatizou setores públicos derrubando a qualidade dos serviços oferecidos (casos como a venda da Eletrobras, de setores da Petrobras, desvio de verba do CAPS para comunidades terapêuticas privadas, liberação do uso de eletrochoque em pessoas com TEA/ autismo etc). Além deste desmonte de grande parte da estrutura básica nacional, o presidente neoliberal (capitalista) espalhou discursos de ódio, incitando preconceito contra mulheres, negros, indígenas, população LGBTQIA, exaltando ideias e símbolos nazi-fascistas e debochando de doentes terminais!! Sim, durante sua gestão a pandemia de Covid alcançou o Brasil fazendo centenas de milhares de vítimas e o tal presidente não só ridicularizou a situação, como também adiou a compra de vacinas, e criticou a utilização de tal meio de combate à doença, inventando alternativas mentirosas, sem comprovação científica e sem eficácia. Além disto tudo, o governo Bolsonaro criou emendas e o tal orçamento secreto, favorecendo deputados e senadores. Tal favorecimento deu mais poder a estes tipos de políticos ainda tão obscuros no Brasil: o poder de decisão aumentou nas mãos desta categoria de políticos que a maioria dos brasileiros ainda desconhece a importância! Por fim, a família de Jair Bolsonaro (filhos etc), esteve envolvida com variados casos suspeitos: alguns a serem investigados e outros notoriamente criminosos! A popularidade de tal líder neoliberal então foi abalada e ele perdeu as eleições seguintes para Luís Inácio da Silva (Lula) do Partido dos Trabalhadores, em 2022. Como se não bastasse tudo isto, o ex-presidente derrotado nas urnas, ao lado de alguns militares e de um grupo de manifestantes massa de manobra, planejou assassinar o vencedor das eleições presidenciais de 2022, o seu vice (Geraldo Alckmin) e o ministro da justiça Alexandre de Moraes. Os planos foram abortados, mas descobertos... e gerou consequências para o ex-líder conspirador.

Apesar de Lula assumir a presidência, havia um estrago feito na política brasileira e reverter isto não se mostrou exatamente fácil. O mandato do presidente de centro-esquerda foi de negociações atravancadas com deputados e senadores predominantemente neo liberais/ capitalistas e de certo fuzilamento de sua imagem: Muita coisa voltou ao seu "normal" no Brasil com a mídia fazendo cobertura enviesada a favor de medidas neoliberais (lucrativas para bancos, grandes produtores e mercados privados) e com a propagação de "fake news" pela internet à respeito da imagem de Lula, de suas políticas e de seus aliados no governo. Em resumo, devido a tais problemas, é possível assumir que pouco foi realizado no âmbito dos interesses coletivos e da infraestrutura do país durante o governo Lula. 

E eis que neste mês de outubro de 2026 foi realizada nova eleições: A maior quantidade de candidatos de direita (neoliberais etc) foi eleita no legislativo do Brasil e o candidato deste mesmo lado político, Flávio, filho do ex-presidente derrotado, ganhou o 1º turno na corrida à presidência contra Lula. 

Mas aqui cabe uma análise para além de números e para além de fatores meramente externos - uma análise filosófica e portanto, moral e ética da política brasileira desde a ascensão do "bolsonarismo". O movimento ganhou força não só devido a interesses econômicos de determinados grupos ou devido a mera descrença em partidos "x" ou "y". Muita gente que votou na família nem alega ser "bolsonarista": principalmente em 2018, quando Jair ganhou as eleições utilizando-se a imagem de militar "contra a corrupção". O discurso contra a corrupção explodiu nas manifestações de 2013 (contra o aumento do valor das passagens de ônibus e outras pautas posteriores) e embora pareça justo esconde uma grande imprecisão: Que corrupção? Uma resposta muito comum a esse tipo de questionamento é a que políticos enriquecem, serviços de qualidade não surgem, o poder aquisitivo/ econômico estagna ou cai... Mas quem enriquece? E quem são os responsáveis pelos problemas mencionados? ... aí o negócio começa a ficar difícil porque muitos dos insatisfeitos da população brasileira (não muito diferente da população de outros países), não quer saber!! Ou "quer saber", mas aceita o 1º acusado que vê como sendo o culpado pelos principais problemas do país, ou até mesmo como culpado por TODOS os problemas do país! Esta sede e/ ou aceitação por um grande culpado é um caminho fácil que não requer muito raciocínio nem estudo e o "grande culpado" é basicamente a imagem de um super vilão - não precisa ser real - só precisa ser um alvo fácil para se descarregar emoções negativas, frustrações etc. 

Existem muitos problemas nesta aceitação de super vilão do país bem como existe muitos problemas na divulgação de tais "informações" sobre grandes culpados pela corrupção no Brasil. Primeiro analisemos o lado que aceita a imagem de super vilões: Por ser um movimento que exige pouco ou nenhum raciocínio, ele facilmente afeta massas com pouco estudo e/ ou multidões que consomem mídias sensacionalistas sedentas por atenção (e dinheiro). Obviamente ele pode afetar outras pessoas por uma série de questões, afinal a sociedade é complexa, mas vamos seguir analisando o outro lado: Em segundo lugar então, há quem vê grande oportunidades em difamar figuras públicas. Denunciar indivíduos com grande poder econômico ou financeiro envolvidos em atividades fortemente suspeitas ou impunes após cometerem crimes comprovados é uma coisa, mas criar "grandes vilões" é outra coisa. É a tática de criar inimigos e criar culpados utilizada por grande parte da mídia capitalista (emissoras de tv, redes sociais etc) há décadas. Remover um líder seja um ativista ou um político que lute por questões sociais como equidade, manutenção de serviços públicos essenciais ou distribuição de renda e condições dignas de vida, é de interesse para muita gente - multimilionários querendo acumular fortunas cada maiores, líderes religiosos intolerantes etc. É por isso que o bolsonarismo se espalhou tanto: significativa parte dos multimilionários não querem um governo de esquerda (socialista) nem de centro esquerda (social democrata), pois preferem neo liberais/ capitalistas. Daí fica nítido que chamar tal movimento meramente de bolsonarismo é associar somente a família Bolsonaro aos interesses capitalistas e suas respectivos manipulações, quando na verdade ele é usado por multimilionários no mínimo desde a década de 1930. O fascismo surgido na Itália antes da 2ª guerra mundial é um exemplo de movimento que se apoia fortemente em criar "inimigos" para o povo. Movimentos religiosos que fomentam rivalidade segue a mesma lógica, e até o nazismo ao inventar uma superioridade racial, se assemelha a tais movimentos de incitação de intolerância e violência. 

Aqui nota-se duas principais motivações em tais tipos de movimento: a busca cada vez maior por riquezas materiais por determinados grupos de pessoas e a rivalidade religiosa ou étnica/ racial entre diferentes grupos. Ambas motivações já foram previstas desde a antiguidade: Platão (428 aC - 347 aC) critica tais tipos de pessoas classificando-os respectivamente como filokerdes (amantes do lucro, ou, interesseiros) e como filónikons (amantes da vitória/ da disputa, ou briguentos). O autor ateniense coloca estes dois tipos de pessoa em oposição àqueles que amam ou buscam o saber: os filósofos. Platão argumenta ao longo de suas obras que o verdadeiro conhecimento/ saber é incompatível com a priorização do ganho de riquezas, de bens materiais e dos prazeres sensoriais. Um indivíduo intolerante/ briguento, bem como um interesseiro ou hedonista, não se importa verdadeiramente em construir conhecimento, pois isto requer valores universais, ou seja, éticos: justiça, coragem, sophrosyne (moderação e auto-conhecimento) e kalos (bondade/ beleza principalmente psíquica). Não só isso, os intolerantes e interesseiros, de acordo com o filósofo ateniense, não são qualificados para governar: Um governante deve se pautar pelos valores universais para que atenda a necessidade do coletivo (na época e região em que Platão viveu, as cidades-estado, hoje seriam os países e seus respectivos estados e cidades). Logo, conclui-se que a proposta de governante ideal da filosofia socrática/ platônica não é meramente de uma "classe" de pessoas chamada de filósofos - os filósofos seriam os melhores governantes porque não apresentam interesses particulares nem rivalidades fúteis ou opniáticas. Em sua busca por viverem os valores universais, eles priorizam o coletivo - o maior número de pessoas. Tal priorização é uma postura ética que envolve não só condições materiais dignas para todo o estado (nação), como também uma educação de qualidade.

Claro, que na época de Platão haviam diferenças na sociedade em relação aos dias de hoje, bem como haviam diferenças nas condições de variados grupos de pessoas: nem todos podiam priorizar os estudos e as guerras eram mais frequentes, bem como os preconceitos supersticiosos talvez se espalhassem mais rapidamente ou se enraizavam mais firmemente na sociedade entre tantas outras diferenças... Mas as bases éticas para a política e para a filosofia foram lançadas pelo filósofo que influenciou inúmeros autores posteriores, seja nas nações falantes da língua árabe entre os séculos 7 e 13 ou na Europa que colonizou a América após o século 15. Para o filósofo por exemplo, a classe governante composta de filósofos deveria regular a classe mercantil para que essa não ganhasse poder e passasse a governar o estado/ o coletivo. Para isso ela contava com apoio da classe "guardiã" que teria uma educação humanizada (com artes como música, poesia etc) e não meramente militar. Ambas as classes não deveriam ter acesso ao dinheiro, pois para exercer suas funções de cuidar do povo, elas deveriam ter uma vida coletivizada com as condições básicas garantidas, sem excessos. Apesar de filósofos como Platão serem estudados e discutidos com o passar do tempo, os conflitos que se alastraram ao longo da história das nações indicam que a ética e seus valores universais raramente tiveram centralidade prática na política e nos governos das nações. Ela também nunca se enraizou nas grandes religiões e grandes igrejas, bem como mal adentrou as empresas da era moderna após a revolução industrial, afinal existem indivíduos que se mostraram éticos e os que se mostraram antiéticos ao longo da história. Conforme o tempo passou, injustiça, pobreza, exploração, enganação se mostraram temas regularmente recorrentes, debatidos e combatidos com maior ou menor eficácia, mas a verdade é que a política não se limita à abundância ou à ausência de recursos materiais - ela requer a externalização de intenções humanas moralmente benéficas. Esta é a ética que deveria propagar ações justas, educação, equidade etc.

O que eu chamei de "inconscientes" no meu texto de 6 anos atrás eram as multidões fascinadas pelos discursos criadores de inimigos e de recompensas fantásticas e individualistas. As pessoas podem ser desinteressadas ou imediatistas, mas não dá para isentar quem está em posição de poder e usa deste poder para espalhar violência, desigualdade e outros problemas. Líderes manipuladores com interesses em lucros particulares, ou em beneficiar certos grupos atacando outros, são no mínimo responsáveis em algum nível por gerar problemas à sociedade pois são propagadores de discursos com opiniões antiéticas e nocivas.

Precisamos de mais consciência, porém muitos dos indivíduos poucos ou nada interessados em conhecimento, ou poucos interessados na verdade, são manipulados pelos indivíduos que Platão chamaria de filokerdes e filonikons. Isto ocorre há séculos por variadas causas, mas certamente um dos principais motivos é a necessidade da difusão de conhecimento e da ética e seus respectivos valores universais que são benéficos para o coletivo/ para o maior número de seres possível. Temos pouca conscientização política e histórica nas escolas, seja no ensino básico ou até no superior - há muito o que melhorar na educação do Brasil, tanto em acessibilidade aos estudos, como em humanização.

Voltando às atuais eleições, talvez ainda seja cedo para avaliar a virada de Lula neste 2º turno neste ano de 2026, mas a diferença de propostas e de postura entre os candidatos era notória... e pública: A oposição de Lula, como nas duas eleições anteriores, apresentava conteúdos na internet e discursos repletos de mentiras! Ainda que alguns apoiadores de Lula recorressem às mesmas técnicas, qualquer entrevista ou debate entre os 2 candidatos evidenciou o abismo entre eles - o candidato da centro-esquerda, ou esquerda moderada (Lula), tentava mostrar o que fez em seu governo e questionava o adversário sobre seu envolvimento em ações no mínimo suspeitas (serão criminosas, caso as investigações ocorram e provem atos ilícitos etc)... enquanto o candidato da direita extrema (capitalista com ideologia de exclusão de gêneros e raça, fomentador de rixas religiosas etc), Flávio, usava o tempo todo de retórica, oratória com emoções inflamadas e omissões sobre suas próprias ações questionáveis. Porquê? Por que não há mais ética na maioria dos candidatos e grandes apoiadores da (extrema) direita. Como foi dito neste texto e no texto de 6 anos atrás, esse movimento iniciado em torno de Jair Bolsonaro pouco antes de 2018 se apoia em acusações falsas, sensacionalismo, alarmismo, fomentação de rixas e idolatria da concentração de renda e de bens nas mãos de poucos! Podem chamar tal movimento de bolsonarismo, de neo fascismo ou de nazi-fascismo, mas tais nomenclaturas pouco importam - o movimento da direita extremada apresenta tudo que Platão já havia criticado e refutado há cerca de 2400 anos!! É um movimento de interesseiros e briguentos apoiados em sofisma (retórica com poucos ou nenhum fato), com finalidade de beneficiar uma minoria de grupos privados e alguns grupos religiosos, portanto um movimento anti universalidade, anti filosófico e antiético.

Não tenho certeza de quão éticos são Lula e seus aliados, mas sei que, ao menos neste mês de outubro de 2026 eles lutaram por um pouco mais de universalidade (um importante elemento da ética) e contra aqueles que se afundaram em ideologias e ações predominantemente antiéticas.