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quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Moda - Uma "verdade" fabricada há milênios?


Moda é algo que vem e vai. Embora definida como um comportamento, ou um costume, de um determinado grupo de pessoas durante um período, a moda não pode ser apenas isto. Primeiramente, nem todo comportamento é moda. E moda também não pode ser definida simplesmente como costume, já que o costume pode perdurar inúmeras gerações como certas tradições em alguns locais do mundo…

 Também ouve-se o termo moda como sinônimo de tendência, mas isto é algo subjetivo e pouco explicativo, pois a moda requer um artigo (item) de moda, que por sua vez, é idealizado e/ou produzido por alguém. Por parte dos indivíduos que consomem ou utilizam o artigo de moda, podemos descrever o seu comportamento como “querer parecer com os outros”, ou “querer estar atualizado”. Já por parte de quem produz os artigos de moda, pode-se definir que se trata de uma imposição de opinião disputada pelos idealizadores ou produtores dos artigos em questão. Não se trata só de roupa, qualquer bem de consumo pode “se tornar” moda ou “deixar de ser” moda. 

 Talvez a maioria dos sociólogos liguem o fenômeno da moda com a era-pós moderna que começou a surgir em meados dos anos 60 e se consolidou em meados dos anos 80. Uma época de valorização da apresentação das coisas e de desvalorização dos fatos. Tanto a moda como a valorização da apresentação ante os fatos foram fenômenos que se apoiaram no desenvolvimento/ crescimento das mídias que tanto serviram o setor de propaganda e publicidade: O rádio, a televisão e todos os impressos como cartazes, outdoors, jornais, revistas etc. 

 Mas a moda parece ir além dessas mídias: Tudo ou quase tudo parece passível de ser apropriado pela moda, até mesmo coisas imateriais como a ciência e a religião. A verdadeira ciência não deveria ser afetada pela moda, assim como a fé também não deveria, mas como são temas respectivamente ligados ao raciocínio/ conhecimento e ao sentimento/ intuição, eles acabam sendo afetados também. Como exemplos imaginem as seguintes situações (baseadas em fatos reais, mas com pouca precisão): 

 Um arqueólogo após estudar as pirâmides de Gizé no Egito fotografa um ou mais símbolos no interior de um dos monumentos e chega a conclusão que tais símbolos representam o faraó Khufu que viveu por volta de dois mil e seiscentos anos antes de Cristo (2600 aC) no Egito. Anos depois, um grupo de arqueólogos estudam as mesmas pirâmides com meios (ou tecnologias) mais avançados para a leitura e identificação de pinturas e/ou de esculturas nas superfícies do local. Este grupo identifica que o símbolo encontrado pelo 1º arqueólogo foi pintado na época em que o mesmo estava a estudar as pirâmides, ou seja, não foi pintado pelo faraó nem por ninguém que viveu na época do faraó (2600 aC). A comunidade científica se dividiu, e embora eu não saiba o fim do desfecho, o fato é que se os apoiadores do 1º arqueólogo não conseguirem provar sua visão de maneira científica, ela não é verdadeiramente científica... É uma moda ou mera opinião transvestida de ciência. O mesmo pode valer para o grupo posterior de arqueólogos, caso seu método esteja errado. 

 Origens da Astrologia (e da Astronomia) 

Saindo dos campos racionais e entrando nos mais intuitivos, como no meio religioso e esotérico, também é possível encontrar modas: Tarot, astrologia e até a segmentação da religião, tudo parece passível de “se tornar moda”. 

Vejamos a astrologia: Historiadores e/ou arqueólogos dizem que é uma prática muito antiga. É possível que a astrologia tenha surgido com a necessidade que o ser humano teve de observar os céus para entender fenômenos climáticos ou até astronômicos. Esta necessidade se intensificou por volta de 5000 aC na transição da idade da pedra (em sua última fase, o neolítico) para a 1ª idade dos metais (o calcolítico ou a era do bronze), porque o ser humano passou a praticar a agricultura em algumas regiões da Terra. Alguns séculos depois (por volta de 3500 aC), o ser humano passou a utilizar navios (uma evolução das embarcações mais simples como jangadas e/ou canoas) para comercializar entre civilizações, precisando mais uma vez, desenvolver conhecimentos a partir da observação do céu e de seus fenômenos e características como ventos, nuvens, posições das estrelas etc. A astrologia se desenvolve em períodos como estes juntamente com a astronomia, pois o ser humano não fazia distinção entre estes dois campos como se faz hoje. A distinção só foi iniciada a partir da Europa em meados do século XVII, ou seja, muitos séculos depois. Alguém poderia perguntar como o ser humano não fez esta distinção antes? São coisas muito diferentes entre si! Eles eram idiotas? 

A resposta mais comum diz que os seres humanos da antiguidade eram muito supersticiosos ou até mesmo religiosos, que sempre buscavam respostas ligadas ao espiritual por não entenderem todos fenômenos da natureza. A mais realista destas afirmações é a última: Os fenômenos da natureza são descobertos pouco a pouco, através de séculos de estudo. Mas todas estas afirmações são meras opiniões, pois não existem registros históricos suficientes sobre o período do surgimento da astrologia. Na verdade mal existem registros de tal época, porque a história ainda é baseada em escritos de cada época e os escritos mais antigos conhecidos até agora pertencem a Suméria (atual Iraque), datando entre 3600 aC e 3500 aC. Ou seja, a astrologia é considerada pré-histórica, pois surgiu antes dos primeiros escritos conhecidos pela humanidade… Ao menos, antes dos antigos escritos encontrados até agora. 

Outro fato curioso é que se a astrologia surgiu junto com a astronomia, ela era um conhecimento (ou crença) de pessoas que estudavam e não de trabalhadores braçais nem de artesãos. A história nos mostra que algumas das mais antigas civilizações conhecidas eram lideradas por religiosos: Os patesis na antiga Mesopotâmia e os faraós no Egito. Entende-se que estes líderes religiosos eram pessoas com conhecimento e todo conhecimento pode ser usado como uma ferramenta de poder. Os indivíduos que dominavam a astronomia/ astrologia sabiam os “segredos” dos ciclos das estações dos anos (inverno, primavera etc) tão importantes para as plantações que alimentam um enorme número de pessoas. Eles também sabiam e possivelmente monopolizavam os conhecimentos úteis para as navegações, que ainda que fossem essencialmente “costeiras”, eram um meio de adquirir grandes riquezas e produtos diferenciados de terras distantes. 

Com todo este poder em mãos, finalmente chegamos a resposta: Os indivíduos que detinham o conhecimento da astronomia/ astrologia não eram idiotas! Mas porque eles acreditariam que as constelações e/ou os planetas interferiam na vida das pessoas? Porque tais astros determinariam até traços de personalidade das pessoas? Ninguém tem a resposta, ou se tem, é muito bem guardada e escondida. 

Tentemos traçar o trajeto da astrologia: A astrologia, juntamente com a astronomia, era conhecimento das elites da antiguidade, e esta elite era geralmente composta de religiosos: Patesis, faraós e sacerdotes detinham estes conhecimentos e ditavam as regras não só cerimoniais / religiosas como ditavam as regras sociais também. Este domínio de religiosos nas aristocracias dos maiores impérios só diminui (não cessa) com a queda do Egito e do Império (Neo) Babilônico diante o Império Persa Aquemênida. Não explicarei o que é religião aqui, mesmo porque já abordei um pouco deste assunto nesta postagem: https://nea-ekklesia.blogspot.com/search?updated-max=2020-06-05T17:18:00-03:00&max-results=7. 

A Divisão das Religiões 

Em determinados momentos da história das civilizações a religião se dividiu entre uma vertente popular, mais adequada às massas de camponeses e/ou trabalhadores sem estudo e uma vertente elitizada, muitas vezes mística / esotérica. Ainda sem tratar os possíveis motivos, vamos a alguns exemplos: É aceito que a antiga China pré imperial foi constituída de duas ou três famílias / linhagens reais (dinastias): 

Dinastia Xia (semi histórica, ou seja, os escritos sobre esta dinastia foram feitos em uma época posterior e por isso ela é aceita apenas por parte dos historiadores); 

Dinastia Shang: A 1ª dinastia com um número considerável de registros históricos; 

Dinastia Zhou: Dominada pela fragmentação do poder que gerou feudos na região. Após este período “feudal” o estado de Chin (também pronunciado Qin) foi tomando o poder até fundar a breve dinastia Chin que centralizou o poder na família real (em 221 aC), marcando o início da China imperial. 

Os personagens mais antigos do que a 1ª dinastia (Xia, de 2070 aC a 1600 aC) são predominantemente “mitológicos” e tradicionalmente um deles foi considerado não só o criador do taoísmo, como também é tido como o criador da astrologia chinesa. O registro mais antigo do Taoísmo data por volta de 350 aC, mas tradicionalmente ele é atribuído ao mítico Imperador Amarelo (que teria vivido na pré-história chinesa: de 2697 aC a 2597 aC), ou seja, mais antigo do que a 1ª dinastia semi histórica, Xia. Embora não se possa provar materialmente, isso não é impossível, pois muitas religiões foram mantidas na tradição oral (ensinada apenas por conversação) por milênios, como as que serão abordadas a seguir: 

Os principais poemas da mitologia helênica (grega) se dividem na religião órfica e na popular. Importante notar que a “mitologia” está diretamente ligada a estas religiões e possivelmente foi um termo cunhado após o declínio da civilização helênica para criticar e/ou desqualificar uma ou mais religiões politeístas. 


 Historiadores dividem a cultura helênica em 4 períodos, após a queda das civilizações minóica e micênica: 

 1100 aC - 800 aC Idade das Trevas Grega; 

 800 aC - 510 aC Idade Grega Arcaica; 

 509 aC - 323 aC Idade Grega Clássica;

 322 aC - 146 aC Período Helenístico

Diferente da religião popular grega, a religião órfica, também chamada de orfismo, traz idéias de transmigração das almas similar às idéias de Platão, aos conceitos do hinduísmo (da idade do bronze) e do Espiritismo que viria a surgir no século XIX. A religião órfica foi supostamente fundada pelo rapsodo (bardo) mitológico Orfeu, talvez na era do bronze. Orfeu era considerado próximo de um outro poeta chamado Musaios (traduzido para o português como Museu), posteriormente tido como Moisés, pelo historiador do cristianismo primitivo, Eusébio de Cesaréia que viveu no Império Romano por volta do século IV. 

Já os textos da religião popular grega foram escritos pelos poetas Homero (por volta de 850 aC) e por Hesíodo (por volta de 650 aC). Porém este período é chamado de Idade das Trevas grega pela falta de registros históricos devido a civilização local estar se recuperando de uma série de conflitos / guerras que teriam acabado com a civilização Micênica por volta de 1100 aC. 

Poucos anos depois de Hesíodo, a Idade das Trevas Gregas chega ao seu fim e começam a surgir os filósofos naturalistas (pré-socráticos, como Anaxágoras e Pitágoras) e os influenciados por Sócrates. Alguns autores afirmam que Pitágoras era iniciado nos cultos órficos, enquanto Anaxágoras (500 aC - 428 aC), de origem greco-persa, explicava os corpos celestes de maneira bastante racional para sua época, e portanto, se aproximando do conhecimento científico. Este último erudito, assim como Ermótimos (Hermótimo), também trouxe à tona o conceito de Nous: a mente cósmica. Nous foi a explicação de como os elementos da natureza foram distribuídos e organizados através do cosmo. Possivelmente esta foi uma explicação típica da Grécia Clássica, pois não era aceito (e até hoje, para muitos, ainda não é aceito) que o acaso tenha criado os corpos celestes, a natureza etc. Anaxágoras foi acusado de impiedade na Grécia e teve que fugir, passando os anos finais de sua vida em exílio numa colônia na Ásia Menor (atual Turquia). 

Sócrates teve seus ensinamentos registrados por Platão. Estes filósofos não negavam por completo as divindades, mas explicavam a natureza, consequentemente despersonificando os deuses e causando a ira de muitos indivíduos de seu tempo. Platão possivelmente pertenceu à família do importante legislador e poeta, Sólon, do início da Idade Grega Antiga. De acordo com Platão, Sólon teria aprendido a história da Atlântida no Egito e a genealogia dos deuses contada por estes estudiosos diferia das populares contadas por Homero e Hesíodo. 

Durante os anos finais de Aristóteles, aluno de Platão e tutor de Alexandre, o Grande, o hermeneuta (intérprete de obras) e escritor grego, Evêmero (330 aC - 280 aC), alegava que os deuses eram invenções ou distorções exageradas baseadas em reis da antiguidade que viveram entre a península grega, o Egito, o levante (oriente médio) e a península arábica. O lexicógrafo, mitógrafo e historiador greco-romano, Filo de Biblos (64 - 141 dC), seguia a mesma linha de Evêmero e citando outra fonte (o semi-lendário Sanconíaton que teria vivido antes da Guerra de Tróia), fez a ligação destes personagens da mitologia grega com a história sacra e real da Fenícia. Nestes escritos preservados por Eusébio de Cesaréia, eles alegam que uma geração de sacerdotes fenícios começou a espalhar os mitos posteriormente propagados por Homero, misturando a história de reis com eventos da natureza (astronômicos, climáticos etc) para encobrir a história real, detendo para seu seleto grupo o monopólio de conhecimentos como a história, a geografia, a astronomia/ astrologia etc. Por fim, o historiador e compilador, Diodoro Sículo, cita uma genealogia destes supostos reis divinizados numa disposição semelhante à proposta por Filo de Biblos. É possível notar as diferenças e semelhanças entre as duas genealogias propostas. Obviamente até mesmo a genealogia dos personagens da “mitologia grega” apresentadas pelo(s) “everismo” / “platonismo” deve ter suas inconsistências ou contradições, pois tentam remontar vários séculos de história perdida (das civilizações minóica, micênica, fenícia…) Porém a versão “popular” da mitologia grega de Homero (e possivelmente de Hesíodo também) é notoriamente cheia de exageros, pois mostra “deuses” cheios de poderes fantásticos (e não reis), com comportamentos humanos e muitas vezes violentos. 

 Mas onde entra a astrologia na civilização grega? Bom, de acordo com a versão popular, Ouranos (Urano) ou Aeon trouxe o círculo do zodíaco ao mundo ou para humanidade. Urano, “deus” dos céus, deu origem ao nome do 7º planeta do Sistema Solar e foi o pai de 12 titãs. Podem ser que existam vínculos destes 12 personagens com os 12 signos do zodíaco, mas tudo que consegui até hoje são apenas especulações. Por exemplo, o titã Hyperion é o pai de Hélios, deus do Sol. Oceanus era representado com membros/ pinças de um caranguejo na testa, o que poderia sugerir algum vínculo com a constelação de Câncer… Porém nada muito além disto. 

 

No que se refere aos registros deixados nesta época, a primeira carta astrológica conhecida da Babilônia, como satrapia (província) do Império Aquemênida, data de provavelmente 29 de abril de 410 a.C. O registro indica signos zodiacais, mas sem graus. Nesta época, filósofos gregos travavam contato com os babilônios; Pitágoras e Platão são alguns dos exemplos. O confronto cultural entre o pensamento helênico, que queria saber o porquê das coisas, e a tradição intelectual da região mesopotâmica, que se importava mais no como as coisas são feitas, alavancou a criação de uma explicação filosófica e matemática sobre o universo, o mundo natural. A filosofia estóica de Zeno, somada à teoria dos 4 elementos de Empédocles e mais tarde à teoria dos Humores de Hipócrates forneceu as bases da astrologia alexandrina. 

Enfim, é possível que estas cisões que ocorreram nas antigas religiões chinesa e grega tenham sido causadas para distrair a população (leiga) em geral, fazendo com que as elites religiosas mantivessem o monopólio das informações. Importante notar que a astrologia continuava vinculada à astronomia, mesmo com a cisões entre religiões... 

Astrologia: Conhecimento, Crença Religiosa ou Prática Divinatória? 

Enfim, os filósofos gregos estudaram a astrologia juntamente com a astronomia e embora refutassem/ questionassem alguns aspectos da mitologia (a religião popular politeísta), não negavam por completo o conceito de divindade tão central nas religiões. Após a gradual queda do império helênico macedônico, alguns vínculos entre a religião politeísta e a astrologia ficam nítidos no Império Romano: No panteão romano, muitos dos deuses recebem nomes de astros/ planetas e são tratados como equivalentes de alguns deuses gregos: Hélios é Sol Invictus, Hermes é Mercúrio, Afrodite (ou Astarte) é Vênus, Gaia é Terra, Selene é Luna (Lua), Ares é Marte, Zeus (Adodus de acordo com Filo de Biblos) é Júpiter e Kronos é Saturno. Os seguintes planetas não podem ser vistos a olho nu e provavelmente não eram conhecidos: Urano, Netuno e Plutão. Entende-se que estes planetas foram “descobertos” com o gradual desenvolvimento das ciências entre os séculos 18 e 20, então a comparação destes astros com  deuses (respectivamente Caelus, Poseidon e Hades) deve ter sido desenvolvida neste período "bem menos antigo". 

De acordo com Platão, Sócrates, em diálogo com Adimanto, afirma que o Sol pode ser considerado o filho do Bem e que o astro está para a vida como o Bem está para as coisas cognoscíveis (se referindo aos aspectos mentais, como o conhecimento etc) Talvez esta exaltação do Sol pelos filósofos socráticos tenha alguma relação com o mitraísmo que adentra o Império Romano 4 ou 5 séculos depois. Uma época em que Sol Invictus (Hélios) viria a substituir Júpiter (Zeus) como “deus” principal do panteão. Conforme descrito nos Anais do historiador e senador romano Tácito, em Roma a astrologia era consultada pelo povo e por reis e rainhas, inclusive o Imperador Augusto cunhou moedas com o seu signo. E Tibério estudava o mapa astrológico dos seus rivais. Cláudio, porém, expulsou os astrólogos da península itálica. 

Porém, com o colapso do Império Romano do Ocidente devido às disputas internas e às invasões de diversas tribos “bárbaras”, a astrologia foi perdendo força. A doutrina cristã do priscilianismo, que surgiu na península ibérica cerca de um século antes da queda do Império Romano (do Ocidente), aceitava a astrologia, mas acabou suprimida pela igreja católica por volta do ano 563 dC, após o Concílio de Braga. A igreja católica continuou a crescer em opulência e poder na Europa e só começou a dar abertura ao estudo e às práticas da astrologia/ astronomia por volta de 1200 dC. Durante estes quase 700 anos de domínio católico na Europa, a astrologia teria sobrevivido nos reinos árabes, portanto entende-se que a igreja católica, e consequentemente os países europeus, romperam com a astrologia durante este longo período… 

A Astrologia Ocidental após a Era Medieval 

Na renascença os astrônomos ainda não descartaram astrologia que já não estava mais vinculada à religião. Cerca de 2 séculos depois, após a revolução científica da Europa (por volta de 1620 dC), a astrologia estava predominantemente desacreditada e começava a se formar o movimento Iluminista que se consolidava no século seguinte (XVIII). Considera-se que a separação entre astronomia e astrologia ocorreu em Paris, em 1666 quando Jean-Baptiste Colbert, ministro do rei Luís XIV, criou a Academia de Ciências e deixou a astrologia de fora. Outros países católicos acabaram aderindo ao descrédito. Apesar das primeiras revistas começarem a ser produzidas na Europa neste mesmo século, a astrologia só viria a se tornar popular novamente séculos depois, no século XX. Por volta de 1950, podemos encontrar algumas obras que tratam do assunto com o linguajar voltado à vida pessoal dos típicos cidadãos das “classes médias” da América. Nesta época a indústria cultural estava em desenvolvimento já avançado e logo surgiram os horóscopos em revistas e programas televisivos de fofocas nos anos 80. Fãs de astrologia “clichê” (talvez um termo mais adequado seja “fãs superficiais”?) pareciam esperar descobrir maravilhas através da astrologia: Um grande amor ou até mesmo maneiras de enriquecer. 

Na década de 10 do século seguinte (XXI) a astrologia começa virar moda mais uma vez. E muitos dos interessados não parecem diferentes daqueles fãs “astrólogos”, sejam os mais comuns/ superficiais ou os mais “místicos”. A astrologia parece ser mantida separada da maioria dos sistemas religiosos, exceto por alguns grupos restritos como os “herméticos”… Mas porque isto ocorre? 

Bom, ao menos desde o Império Macedônico-Helenista de Alexandre, o Grande, a astrologia é usada para “descobrir” (talvez o termo mais correto seja deduzir) o futuro… De pessoas específicas. Alguns registros indicam que essas práticas começaram nos reinos mesopotâmicos (oriente médio), como a Babilônia, séculos antes. Apesar de elementos nítidos da astrologia serem vinculados a um conceito de unidade superior ou de divindade, como indicam as religiões/ sistemas sincréticos como o hermetismo / o judaísmo místico, parece que muita gente não se importa com isso. Todos esses temas chamados de místicos, todos os sistemas astrológicos e até mesmo os sistemas religiosos sincréticos, parecem atrair gente querendo resolver seus próprios problemas, ou esperando obter grandes vantagens em vida… Assim como existem aqueles que, vêem no Espiritismo um meio de adivinhação e imaginam que os Espíritos existem para predizer a sorte de cada um. É claro existem pessoas humildes, empáticas ou até mesmo com consciência social, que se interessam nestes temas. Porém o 1º grupo de pessoas (de gente mais ambiciosa, vaidosa e/ou egoísta) parece ignorar ou até mesmo contradizer os conceitos de unidade na astrologia. 

A astrologia afirma que todos os signos têm características boas e ruins. Nenhuma das características boas se refere ao enriquecer ou tirar vantagens sobre o próximo… E mesmo assim os interesseiros, os deslumbrados e até os egoístas “espiritualizados ou místicos” parecem delirar com seus conceitos. Como dito no começo do texto, a moda parece com um costume, mas geralmente trata um “artigo vendido” e um bando de indivíduos deslumbrados por este artigo… 

 Conclusão... Ou mais perguntas.

O texto foi centrado na astrologia, não só por esta voltar a “se tornar moda” recentemente, mas também porque a astrologia passou pelas religiões antigas e até mesmo pelas ciências (astronomia) através dos séculos. Embora o texto não se aprofunde nos temas religião e ciências, pode-se ver que a produção de “verdades” para enganar e deslumbrar pessoas existiu e existe em todos esses campos, possivelmente desde antes da própria história da humanidade. Estas “verdades” inventadas deslumbraram e manipularam inúmeras pessoas por determinados períodos, indo e voltando com roupagens diferentes ao longo da história, muitas vezes determinando não só crenças, como também costumes e comportamentos… Enfim, a proposta aqui não é fazer críticas destrutivas à astrologia, à religião ou à ciência… É mais uma crítica à moda e uma pergunta se esta não é uma mera invenção para beneficiar um pequeno número de pessoas que manipula um grande número de pessoas… Poderia uma pessoa ingênua e/ou sem conhecimento produzir uma verdade para as massas? A invenção de uns poucos iletrados também seria capaz de virar um artigo de moda? E se virasse um destes artigos… Não surgiria alguém mais esperto ou mais influente para usar isto em seu favor? 

Isto pode ser assunto para outro texto.

sábado, 1 de agosto de 2020

2º Bê a Bá da Realidade: Quem é Maioria?

No primeiro texto “Be a Bá” foi brevemente explicado o que é política e para que serve. A política está ligada ao fato que, para sobreviver, o ser humano frequentemente precisa de cooperação de mais seres humanos.
O ser humano vive em comunidades, ou seja, em sociedade, desde a Idade da Pedra pelo menos uns duzentos e vinte mil anos antes de Cristo (220.000 a.C). Possivelmente porque os seres humanos tiveram que se juntar em grupos para superar desafios como encontrar comida, escapar de predadores, sobreviver às mudanças climáticas, construir utensílios e abrigos etc. Com o passar do tempo e o superar de dificuldades, os seres humanos precisaram criar regras de convivência que deram origem às leis e também precisaram escolher líderes que ajudavam na mediação entre as pessoas e na tomada de decisões diante impasses nas comunidades.
Comunidades ou sociedades são grupos de pessoas, e cada uma dessas pessoas desenvolve determinada função seja numa escala de importância menor ou maior. Portanto com a maioria ocupada em sua função, em determinados momentos da história humana, existiram líderes bons e líderes maus. Competentes e incompetentes. Quando os líderes de comunidade se mostraram notoriamente egoístas ou incompetentes a confiança das demais pessoas (a maioria) diminuía e era necessário um novo líder. Estas situações de insatisfação da maioria das pessoas de determinadas comunidades devem ter ocorrido diversas vezes na história da humanidade. Provavelmente aconteceram no Egito antigo em muitas das trocas de famílias reais (dinastias) até a Grécia (Atenas) Clássica onde surge os conhecidos sistemas democráticos ou a democracia (governo do povo / poder do povo), por volta de 590 a.C. Outra possível fase de insatisfação popular que removeu o poder centralizado em um governante passando para representantes do povo deve ter acontecido no surgimento da República Romana que substitui o Reino Romano em 509 a.C.
Portanto conclui-se que os sistemas políticos de representação do povo, chame de democracia ou de república, surgem da necessidade de resolver impasses e pela necessidade de mais equidade e justiça para todos.

 A política é para todos.
 Como é impossível agradar a todos, a política é para a maioria, mas a maioria varia de acordo com cada nação. A maioria das pessoas no Brasil (e em muitos outros países) são os pobres, pois a renda mensal média era de um salário mínimo (cerca de 980,00 R$) até 2016*. Um pouco mais alta em SP, chegando à quase 2000,00 R$ mensais de média. (* quase 1500,00 R$ em 2019, de acordo com matéria da Folha de São Paulo) Tais salários mal pagam as contas de uma casa ou de uma família, além disto, pessoas com a renda média em geral trabalham no mínimo 44 horas por semana. Mais o tempo que perde-se com transporte ou que investe-se em estudos…
No Brasil, proporcionalmente, quem mais paga tributos são as classes pobres e médias, pois cobra-se mais imposto sobre produtos e serviços do que sobre renda ou patrimônio. Multi milionários (sócios ou donos de corporações, grandes empresas etc…) são os que se beneficiam disto e são quem fazem lobbies na política para ganhar cada vez mais pagando cada vez menos.
Para quem não sabe, lobby é uma interferência dos mais ricos (multimilionários) na política, onde estes pressionam um ou mais políticos para obterem benefícios como desvirtuar (ignorar) leis para sonegar imposto, cometer crime ambiental, formar cartel de empresas etc. Uma interferência que ignora eleições, pois não é preciso voto para se fazer lobby, só um pouco de tempo livre sobrando e muito dinheiro. Dezenas de milhões de reais ou mais para ser mais específico.
Estes empresários, ou os lobistas que os representam, geralmente alegam precisar de mais “liberdade” para continuar suas atividades comerciais, mas é óbvio que se refere a uma liberdade que não respeita a liberdade dos outros: Não respeita resultado de eleições, nem regras que possibilitam o micro empresário a competir no mercado, nem leis para proteger o meio ambiente e reservas indígenas… Por isso, muitos dos multimilionários defendem o “liberalismo”, mas na verdade estão defendendo o capitalismo, pois não respeitam a liberdade alheia. Capitalismo aqui não se refere a um sistema natural, muito menos a um sistema econômico ponderado. Neste caso a palavra capitalismo tem o seu significado verdadeiro, ou seja, etimológico: Capital-ismo = Dinheiro-Cêntrico. Refere-se a um sistema onde quem tem mais dinheiro, (afinal dinheiro não é uma entidade inteligente nem viva) manda e faz o que quer. Capitalismo aqui não pode ser desvinculado de Plutocracia (poder dos ricos / governo dos ricos), pois são praticamente a mesma coisa.

Quando usa-se o termo “mídia corporativa” para definir grandes empresas de comunicação como a Globo, o Estadão, a Veja, a Record, a Band (etc) é porque na maioria das vezes esses grupos estão interessados em beneficiar seus anunciantes e investidores de grandes empresas / corporações. Portanto o viés destas “fontes” é quase sempre capitalista, ou seja pró liberalismo econômico só para as maiores empresas, as mesmas que nunca estão satisfeitas com políticas sociais ou de infraestrutura e sempre fazem lobby. Estar a favor dos mais ricos, é estar a favor dos poucos indivíduos que têm muitos milhões ou bilhões, seja de reais, de dólares ou de euros… Portanto é estar sempre contra a maioria. Defender os multimilionários e o capitalismo é estar contra as verbas para saúde pública, para o transporte público, para o ensino público… Enfim é estar contra toda a infraestrutura, ou seja , a estrutura básica de uma nação. Não é republicano, nem democrático, pois é defender a doença, a morte, a ignorância, a falta de segurança e a impotência da maioria.

sábado, 18 de abril de 2020

A Corrosão Social persiste através das Eras?



Estive estudando o conceito da Pós Modernidade e após ver a nova “crise” social e econômica que está acontecendo durante esta pandemia, decidi escrever este texto…

Modernidade e Pós Modernidade são conceitos da sociologia. Pode-se dizer que são movimentos culturais e classificações de comportamentos gerais das sociedades. É uma idéia um tanto ocidental, é claro, tendo em vista que a modernidade surgiu gradualmente após os movimentos humanistas e iluministas da Europa de séculos atrás.
A modernidade ganhou força e forma com o surgimento de repúblicas (França e EUA por exemplo) e com a revolução industrial: Foi um período marcado por uma suposta propagação da racionalidade e pela idéia que o homem era o “centro do universo”. Portanto considerava-se que o ser humano tinha alcançado o ápice da evolução (racional, moral e cultural) ou, ao menos, que o ser humano estava próximo de construir uma utopia. Estas idéias sofrem seus primeiros abalos com o desenvolvimento das ciências biológicas e psicológicas (Darwin e Freud causaram algum impacto) e os últimos abalos com as crises econômicas e sociais: a 1ª Guerra Mundial, as crises entre as guerras, e por fim, a devastadora 2ª Guerra Mundial. Genocídios, países arruinados e armamentos de destruição em massa acabaram com boa parte do orgulho e dos sonhos de muitos seres humanos.

Mas o período seguinte, a Pós Modernidade, não se iniciou imediatamente após 1945. Autores parecem divididos em propor um início para este período: Alguns acham que a Pós Modernidade surge durante os anos 60, quando ocorreram movimentos estudantis e sociais questionando as guerras, as potências imperialistas etc. Outros afirmam que ela só ganha força e forma entre os meados dos anos 80 e o início dos anos 90: Uma época em que um aparente clamor por liberdade (diretas já no Brasil, colapso do socialismo europeu e asiático etc) daria cria às sociedades mais efêmeras. Tudo isto tem suas controvérsias, mas o que há de comum nos períodos propostos para o surgimento da Pós Modernidade é a perda da segurança por uma vaga aquisição de liberdade.
Por que vaga? Simples: Grande parte da pós modernidade é tomada pelo aumento do consumismo e da desigualdade social seja em escala menor ou maior. Será que o consumismo é um movimento da natureza, como o vento, as chuvas, os terremotos…? Será que a desigualdade marcada por cada vez menos pessoas com mais bens e mais pessoas caindo na miséria é uma consequência de forças da natureza?

Não, claro que não. Pessoas sem empatia, fascinadas pela riqueza alheia ou egoístas enriquecidos ainda podem não atribuir estes problemas à natureza e sim a uma suposta consequência “justa” de relações comerciais e de trabalho (à sociedade e/ou à economia). Só que se tratando de sociologia, estamos falando dos comportamentos e gostos das massas, não de poucos indivíduos repletos de poder (seja econômico, político etc). Afirmar que o consumismo foi puramente o desejo das massas é de uma simplicidade ridícula ou de uma malícia repulsiva. O consumismo de fato está pouco se importando com os representantes da população (políticos) de qualquer país: Quem prega esse movimento são empresários, e não são os “pequenos”, são os que mais têm. Os que mais tem dinheiro, mais influência comercial, midiática e até mesmo, mais influência política, seja através de lobbies, de financiamento de campanha eleitoral ou até de propinas.
E quem prega a desigualdade social? Em tempos de mentiras pandêmicas, há quem diga que simplesmente são os vagabundos que ficam pobres e os trabalhadores que ficam ricos. A verdade é que a mesma turma que promove o consumismo, promove a desigualdade, independentemente se isto faz sentido ou não. E desigualdade social é algo muito distante de liberdade. Na verdade é praticamente o contrário: Quem tem mais quer mais e vai cobrar de quem tem menos. Simples assim. Mas a Pós Modernidade é só isso?

Bom… outras características da Pós Modernidade são: relacionamentos rápidos e mais superficiais (“amor líquido” citado por Bauman por exemplo) e narrativas mais importantes do que os fatos. Ninguém seria capaz de propor estas ideias às sociedades? Seriam todas de iniciativa da maioria?
Provavelmente não: A valorização da narrativa e desvalorização dos fatos parece coisa atual, da “era da internet”, mas começou com as mídias “de massa” como jornais, rádio e principalmente com a televisão. E programas televisivos não só foram sensacionalistas muitas vezes, como também venderam (ou propuseram) padrões de comportamento, estilos muitas vezes baseados em consumismo, elitismo, racismo e sexismo/ machismo. Alguém poderia perguntar porque eles fariam isso? Não seria uma crítica exagerada à televisão, a indústria cinematográfica e aos comerciais feitos em qualquer mídia?

Não é exagero algum, é lógica: Se existem classes mais dominantes e classes menos dominantes, é óbvio que aquelas no topo da “cadeia socioeconômica” possuem mais recursos para influenciar os demais: Possuem mais dinheiro, portanto precisam trabalhar menos (ou nada) tendo mais tempo para influenciar outros setores da sociedade e às vezes também possuem mais poder político, influência religiosa ou até mesmo militar. São essas classes dominantes que venderam por ao menos 50 anos, até o acesso à internet crescer significativamente em meados dos anos 2000, ideais de consumo, grande parte dos modelos de atitude, comportamento etc.
Neste período dos anos 60 do século XX até pouco antes da década de 10 do século XXI, tivemos sim a aparição da diversidade e até uma vaga liberdade. Mas não é porque a diversidade e a liberdade (ainda que muito tímida e vaga) sejam apreciáveis que precisamos fingir que não existem sérios problemas em nossa sociedade.

Hoje em dia, após a expansão da internet vivemos a intensificação da “pós verdade” (o tal desprezo pelos fatos), propagação de mentiras (fake news), favorecimento de quem paga mais por anúncios e espaços e perda de direitos e de infraestrutura…
Porém um dos mais novos perigos é o vírus Covid-19, que por causa de suas características, desencadeou uma pandemia, forçando vários governos pelo mundo a tomar atitudes como a quarentena visando redução do contato social e diminuição ou controle do contágio. Só que os governos pós modernos (ou talvez pós pós modernos) em sua maioria estão fragilizados. São meros intermediários entre as classes dominantes de acionistas/ mega empresários multimilionários, muitas vezes não tendo recursos nem estrutura para combater a pandemia. E sendo intermediários dos setores empresariais mais abastados, os governos nada fazem diante demissões em massa, condições cada vez mais precárias de trabalho e aumento da desigualdade social... Na verdade, independente em que era estamos, o perigo continua à espreita, pois classes dominantes se reinventam, seja com ou sem alternância, elas continuam a existir e seria mais tranquilizador, se seus representantes desenvolvessem mais sensibilidade, afinal evoluir não é só usar a mente (seja na forma de racionalidade ou de apelos às crenças e sentimentos superficiais dos outros) para enriquecer, evoluir é buscar entender o todo (seja a sociedade, o mundo ou o universo) e confiar em alguém além de si mesmo. Isto aparece na biologia quando os répteis deixam de ser a classe filogenética dominante na Terra no final do Período Cretáceo, dando espaço aos animais que cuidavam de seus filhotes, e que muitas vezes vivem em grupos, os tais dos mamíferos.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Religião: Parte da Evolução ou Ferramenta de Poder?

Decidi escrever este texto após longos estudos sobre história e comparações entre religiões ainda existentes e religiões extintas (grande parte destas, consideradas mitologias). Embora religiões tenham se tornado ferramentas de poder ao longo da história, encontrei aspectos interessantes nelas, que passam relativamente longe das características que considero perigosas, ou praticamente negativas, como o dogma e a hierarquia.

O que é religião?

Após comparar diversas religiões (incluindo histórias religiosas e "mitos"), é possível notar semelhanças não só em suas características, como também em suas motivações, objetivos, questões etc.
As religiões não surgem apenas da necessidade de explicar a origem da humanidade, do mundo ou do universo nem de explicar seus destinos. Religiões também surgiram do contato com o inexplicável, muitas vezes, o contato com algo surpreendente por estar muito além da compreensão do ser humano.
Estar diante do que está muito além da compreensão pode significar vulnerabilidade ou fraqueza e isto exige alguma proteção e/ou evolução.
As proteções, que de um modo geral tomaram a forma de orações, objetos e/ou rituais, serviram (e para alguns indivíduos ainda serve) para os seres humanos se defenderem de seres hostis dos mais variados tipos, de eventos perigosos pouco ou nada compreendidos etc.
Além da proteção, existe a possibilidade de que doutrinas, filosofias e rituais foram desenvolvidos dentro de religiões com o objetivo de se alcançar o inexplicável ou o que está muito além da compreensão humana (algo como evoluir), daí desenvolveu-se processos de entrar em transe, seja com música, com ervas, com meditação etc.

Filosofia de Vida e de uma possível extensão da existência além da matéria

De fato muitas religiões abordam o tema da morte e a possibilidade da existência antes e depois da vida (material), afinal ainda hoje no século 21 não há provas de que a mente esteja situada no cérebro ou em alguma parte do sistema nervoso. Pensamentos, sentimentos e memórias só são acessíveis por quem os têm e se tais elementos mentais (psíquicos) continuam existindo ou deixam de existir durante a inconsciência ou na morte, ainda é impossível de se verificar.
Isto pode tornar a significância da vida material igual ou até mesmo inferior ao (conceito de) pós vida / pré vida, muitas vezes chamado de existência espiritual, imaterial ou de outros nomes similares...
Mas nem tudo que está focado em se alcançar um "desejável" destino na existência além da matéria é inútil para a vida nas sociedades humanas. Na verdade algumas filosofias possuem preceitos notoriamente úteis e benéficos à maioria dos seres humanos:

As Semelhanças entre religiões

Embora as inúmeras características das religiões que surgiram pelo mundo as façam únicas e distintas entre si, muitas delas têm diversas características e elementos em comum. São algumas delas:

7 conceitos (entidades) do Zoroastrismo:
O zoroastrismo, ou masdaismo, foi uma religião monoteísta ou dualista (não há um consenso), que surgiu na antiga Pérsia (atual Irã) e foi perdendo sua força com a invasão árabe entre os século 6 e 9, que o substituiu pelo islamismo. Zoroastro dizia que existiam 6 ou 7 emanações de Aura Mazda (O Deus, ou o Deus do bem):
A(h)ura Mazda: (Lorde ou Espírito) da Sabedoria.
[Vohu] Manah, aproximadamente "[Bom] Propósito"
As(h)a [Vahishta], "[Melhor] Verdade / Justiça"
[Spenta] Armaiti, "devoção [sagrada]"
Xsathra [Vairya], "Domínio [Desejável]"
Ameretat, "imortalidade"
Haurvatat, "Totalidade"


(7 Tronos da) Umbanda Sagrada:
A umbanda surgiu separando-se do espiritismo no início do século 20, buscando resgatar elementos da espiritualidade yourubá, de culturas do oeste da África.
Oxalá / Logunan: Fé
Oxum / Oxumaré: Amor;
Oxossi / Obá: Conhecimento;
Xangô / Egunitá: Justiça;
Ogum / Iansã: Lei;
Obaluaê / Nanã: Evolução;
Yemanjá / Omolu: Geração.


Sefirots (ou zéfiras) do Judaísmo:
Estima-se que o judaísmo, a primeira religião monoteísta, tenha surgido na região do Levante (entre os atuais Líbano, Jordânia e Israel) por volta do século 18 antes de Cristo, mas alguns rabis e teólogos judeus citam que ele se iniciou nas tribos antecessoras dos hebraicos, entre 4000 aC e 3500 aC. Em algum momento da história surgiu a vertente mística do judaísmo (a data varia muito: entre o século 3 antes de Cristo até 14 depois de Cristo). Esta(s) vertente(s) dizem que Deus (incompreensível, que não tem forma humana) criou o universo através de 10 emanações que são 10 virtudes que o ser humano deve buscar desenvolver:
Kether - coroa (divindade, transcendente, eterna)...
Chokmah - sabedoria
Binah - entendimento/compreensão
Chesed - piedade
Geburah - julgamento/força
Tiphareth - beleza/harmonia
Netzach - superação/vitória
Hod - esplendor
Yesod - fundação
Malkuth - reino ou diversidade


7 Chakras de religiões hindus:
O hinduísmo é uma religião muito antiga - estima-se que tenha surgido na Índia, 3500 a.C ou antes. Muitas vertentes e seitas do hinduísmo surgiram ao longo da história, onde aparecem os conceitos de chakras, que todo ser humano tem e pode desenvolver para evoluir espiritualmente e moralmente:
Sahasrara - consciência cósmica (transcendência?)
Ajna - mente/conhecimento (entendimento e sabedoria)
Vishuddha - comunicação/verdade (julgamento e piedade)
Anahata - amor (harmonia)
Manipura - poder (vitória e esplendor?)
Swadhisthana - relações/sexualidade
Muladhara - estabilidade/vitalidade


Aqui farei uma comparação entre os elementos das diferentes religiões citadas:

O (Vohu) Mana (Bom propósito) do zoroastrismo pode ser interpretado como o pensamento e o objetivo de manter-se pronto para ajudar o próximo, perdoar etc... Isto pode ser comparado com o trono de Oxum / Oxumaré: Amor ou talvez, por se tratar da mente, com Oxossi / Obá do trono do conhecimento.  Este amor religioso e/ou espiritualizado não se trata de paixão ou desejo de possuir, trata-se de estar disposto a aliar-se e ceder à alguém. Um sentimento / comportamento mais próximo do conceito de ágape. Ambos podem ser comparados com o sefirot Tiphareth - harmonia / beleza. A beleza de Tiphareth não refere-se a mera beleza física e sim a uma beleza maior como o equilíbrio entre forças ou sentimentos / comportamentos distintos. Por fim Tipharet também representa um ponto de harmonia / equilíbrio entre o universo material e o imaterial / espiritual. Finalizando esta sessão há o chakra de Anahata que refere-se ao amor (harmonia) citado anteriormente; Todos estes conceitos de bom propósito, amor e harmonia foram, são e serão de grande importância na humanidade, para que exista o respeito mútuo, colaboração, paz, reciprocidade entre os indivíduos etc.

O As(h)a (Vahista) do zoroastrismo refere-se aos conceitos de Verdade / Justiça. Conceitos muito importantes na organização de sociedades desde a criação de regras até a aplicação de medidas corretivas ou punitivas. Na umbanda o trono da justiça é de Xangô / Egunitá, no judaísmo esotérico / cabala o sefirot é Geburah: a necessidade de julgamento e/ou severidade; Na filosofia / religião hindu o Vishuddha está relacionado à comunicação, ressaltando a importância da verdade e clareza nesta na busca por evolução e/ou pureza.

Xsathra (Vairya) Domínio (desejável) refere-se não ao "poder pelo poder" ou à mera conquista. O domínio (desejável) possivelmente refere-se à lei para organizar a relação entre as pessoas e talvez também à lei sobrenatural / espiritual. Esta última não seria muito diferente de leis naturais pois indica que os pensamentos e intenções de um indivíduo determinam seu destino. Na umbanda sagrada o trono da lei é de Ogum / Iansã. No judaísmo, embora possa parecer que a lei / domínio seja representado pelo Geburah, é possível que na verdade, Netzach represente tais conceitos. Netzach não é apenas a simples vitória, é a superação das dificuldades, ou o desejável domínio de uma situação ou domínio sobre possíveis males. Nas filosofias/ religiões hindus estes aspectos são representados pelo chakra Manipura (Poder). Enfim estes conceitos não estão relacionados à lei  burocrática, mas a lei que dá força ao ser humano para superar dificuldades e dominar situações.

(Spenta) Armati ou (Sagrada) Devoção refere-se ao empenho no bem e possivelmente à criatividade para viver (na Terra) o caminho do aperfeiçoamento e da benevolência (harmonia). Este conceito é mais difícil de atrelar a um sefirot do judaísmo, trono da umbanda e chakra do hinduismo. Poderia ser representado por  Anahata- amor (harmonia) ou por Ajna - mente/ conhecimento (entendimento e sabedoria), mas talvez esteja submisso ao chakra do poder, Manipura. Na umbanda sagrada um dos tronos com característica similar à sagrada devoção é o da Fé (Oxalá / Logunan), embora o trono do amor seja de Oxum / Oxumarê. No judaísmo, seu sefirot deve ser Hod, o Esplendor que está ligado à oração e submissão em contra parte à vitória / domínio de Netzach.  Isto faz sentido tendo em vista que o judaísmo valoriza os "2 lados" diferentes de uma moeda (Netzach, a Vitória/ conquista e Hod, o Esplendor/ submissão) enquanto o zoroastrismo abraça apenas a devoção sagrada (oração / esplendor), rejeitando ou menosprezando a conquista / o domínio que representa seus rivais, os (semi) lendários povos Tar de suas histórias sacras.

O Haurvatat que significa Totalidade também pode ser difícil de se comparar aos conceitos de outras religiões. Embora o termo totalidade pudesse se referir à ideia de transcendência ou onipresença, estes representados pelo sefirot do Kether no judaísmo e pelo chakra de Sahasrara no "hinduísmo", os persas relacionavam Haurvatat à saúde e prosperidade. Estes 2 conceitos muito ligados à vida (material, é claro), significa que nas demais religiões Haurvatat pode ser equivalente ao Malkuth (Reino, mundo material, vida) no judaísmo e ao Muladhara nas filosofias/ religiões hindus. Mais difícil ainda deve ser comparar este conceito da totalidade do zoroastrismo com os tronos da umbanda sagrada. Talvez tenha algo em comum com o trono da evolução de Obaluaê / Nanã, já que é comum das religiões esperar uma evolução do ser humano para que este alcance um estado de harmonia entre corpo/ mente/ espírito e/ou transcendência...

Ameretat, a Imortalidade do zoroastrismo estaria conectado ao trono da Geração (de Yemanjá/ Omolu), ao Yesod do judaísmo e ao Swadhisthana das filosofias/ religiões hindus; Embora Ameretat represente a imortalidade, esta entidade está bastante vinculada às plantas e ao conceito de bebida divina / sagrada como o haoma. Como não existem seres humanos imortais (ou se existem, a maioria da humanidade não sabe de tal fato), seu elo com os conceitos do trono da geração (Yemanjá/ Omolu) e com o chakra Swadhisthana da sexualidade / reprodução, é facilmente percebido. O judaísmo praticamente não aborda estes temas da geração / sexualidade / imortalidade, ou aborda de maneira muito sutil, pois seu sefirot, Yesod, representa a "fundação" que permite o movimento de uma coisa, ou condição, à outra e o poder de conexão.

A(h)ura Mazda, o lorde da sabedoria / inteligência é o mais alto espírito do Zoroastrismo. Pelo seu posto superior ele pode ser comparado com o sefirot  Kether e com o chakra Sahasrara. O Kether é o mais alto sefirot, também significando coroa real ou regencial. Ele situa-se acima dos sefirots da sabedoria e do entendimento/ conhecimento. O Sahasrara (1000 pétalas) é o mais alto chakra, ou o chakra da coroa relacionado a um estado de "pura consciência".

Embora pareça fácil conectar Ahura Mazda do zoroastrismo com o Keter do judaísmo e com Sahasrara "do hinduísmo", é mais difícil estabelecer tal conexão com a Umbanda sagrada. O nome de Aura Mazda (que significa lorde do conhecimento) invoca uma semelhança com Oxossi / Obá, do trono do conhecimento. Também vale lembrar que o chakra do conhecimento e da mente, na verdade é A(j)na, que está abaixo de Sahasrara nas filosofias / religiões hindus.



Imagem meramente ilustrativa listando os 7 conceitos, as 10 zéfiras, os 7 chakras e os 7 tronos (notem que as 10 zéfiras, excluindo o Daat que é um espaço, estão distribuídas verticalmente em 7 níveis)


Apesar das diferenças é possível notar diversos conceitos semelhantes entre estas religiões. Estas semelhanças não são obras do acaso, pois estão relacionadas a conceitos importantes nas sociedades humanas ao longo da história: Sobrevivência (fertilidade sexual, saúde, plenitude e perpetuação da espécie), clareza nas relações e comunicação (verdade), força (domínio sobre adversidades, superação de problemas), justiça (distribuição dos direitos, deveres, busca por equidade), lei (organização social, defesa da maior parte da comunidade), harmonia (respeito mútuo, lazer, paz entre comunidades) e conhecimento (busca por aprendizado e entendimento das forças da natureza e do universo).

Mesmo com todas estas características notoriamente benéficas as religiões, em algum nível, foram corrompidas por pessoas interesseiras e egoístas, em vários momentos da história da humanidade e ainda o são. As religiões citadas neste texto, assim como outras religiões, buscaram solucionar diversos problemas, bem como a economia e suas regras tentaram resolver problemas relacionados às trocas, às atividades produtivas, aos bens, serviços e seus respectivos valores e a política tentou resolver problemas sociais, de representividade numa nação ou estado, direitos e deveres dos seres humanos etc. Porém tudo é passível de corrupção: religião, economia, política, militarismo, comunicação etc. Cabe a cada um de nós escolher evoluir e tentar entender cada vez mais dos seres humanos, suas sociedades, o mundo onde vivem, o universo... Ou não.

Os que escolhem não evoluir podem levar uma vida insignificante ou incomodar e prejudicar o maior número possível de pessoas no mundo...

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A engrenagem gira



Hoje tive um pesadelo, nele eu estava me deslocando para um lugar no limite da mancha urbana de uma metrópole. Chegando no lugar, entrei em um elevador que descia para andares subterrâneos. Ele descia tão depressa que flutuei até o teto do elevador, assustado perguntei aos outros que não flutuaram se aquilo era normal, eles disseram que sim.

O elevador continuou descendo, balançando, e logo me vi em outro ambiente. Funcionários vestidos de branco passavam entre os diversos cidadãos que se deslocavam para diversas salas de espera, quando cheguei em uma delas, disseram-me que eu estava doente e que deveria passar por um tratamento. Quem me dizia isso eram os próprios pacientes na sala de espera, um grande desconforto me levou a sair da sala de espera, mas fui segurado por um paciente negro, que, com uma gravata, tentou me levar de volta para meu lugar. Cortei a garganta do pobre homem com um crachá ou algo parecido e fugi.

Subi alguns andares, todos iguais, e encontrei uma moça que estava comigo no elevador, ela estava resistindo à 'prisão', havia quebrado uma janela e quando me viu passando disse que as pessoas afirmavam que a janela não estava quebrada.

Olhei para a janela quebrada, olhei de volta para a moça e disse para ela que a janela não estava quebrada, dando uma piscadela com o olho direito em seguida...

Acordei sem saber o final do 'filme', e sem dormir, fui forçado a refletir sobre o assunto. Meu subconsciente estava digerindo o sombrio 31 de agosto de 2016, digerindo os fogos de artifício, digerindo o sentimento frustrante de que algo muito ruim havia acontecido, que grande parte da população estava sendo forçada a engolir a opinião da outra parte.

Embora eu deveria estar aliviado por ter entregado a dissertação, havia o sentimento de algo bom acontecendo ao mesmo tempo de algo muito ruim, e também o sentimento de entregar um trabalho incompleto, que não saiu como planejado.

Para completar o dia, a professora de Cálculo, para tentar acordar a classe, disse: "E então pessoal, hoje temos um novo presidente eleito." (nunca se sabe quando há sarcasmo e quando não há, se o professor for da Fatec), "Tem algum petê aqui? Semestre passado tinha um..."

Meu subconsciente teve que digerir tudo isso, e dessa indigestão surgiu esse pesadelo. A reflexão é: você está doente. Não há nada de errado com nossa sociedade, você está doente e precisa tomar uns 'remedinhos' para ser reintegrado à sociedade. Rivotril? Rede Globo? Veja? CNN?

Os remedinhos apresentam a sociedade como uma democracia que funciona. É um sistema duro, mas que se você trabalhar, estudar, esforçar-se de verdade, você até consegue uma vidinha boa. Você merece isso, porque você é mais inteligente que a maioria. O outro? Ah, você pode até torcer pelo outro, dê uma esmola aqui e ali para se sentir melhor. Se o outro tiver sorte, ele pode até sobreviver. É assim desde tempos imemoriais.

A engrenagem segue rodando, e esmagando. Quem perde 'só' um braço aqui, uma perna ali, segue correndo ou rastejando. Tem gente que perde um dedo e culpa fulano, a presença da engrenagem é invisível para esses. Acreditam que o cicrano pode lhes devolver o dedo. Acham que quem critica a tal engrenagem na verdade é amigo daquele larápio que é o fulano.

Para amenizar tudo isso, soube que a maioria dos amigos que estavam comigo no último serviço, conseguiram arranjar outro emprego (a empresa em que trabalhávamos cortou quase todos os funcionários). Conversando com eles, fiquei feliz por observar uma pequena faísca da centelha divina. São esses pequenos momentos que fazem você não abandonar completamente a fé na humanidade.

Se você acredita em Deus, digo que Ele nos deu um cérebro (se você acredita no caos, bem, ele nos deu um cérebro). Isso é um presente e tanto, nos dá a possibilidade de olhar para o universo e admirar, de olhar para os outros seres vivos e admirar, de olhar para nós mesmos e pensar: podemos melhorar tudo isso.

É a lei natural, um ser humano esfolar o outro? Poluir os mares? Enriquecer pelo saque? Utilizar seu poderoso cérebro para que nunca mais qualquer membro da sua família possa ser pobre, mesmo que às custas do 'outro'? Acabar com o ecossistema? Moldar os cérebros 'inferiores'?

Um cérebro pensante quebra a regra do natural, "com grande poder, vem uma grande responsabilidade". Se aqueles que detém o poder, ignoram essa responsabilidade, torna-se completamente necessário que você, parte dos mais de 90% da população que não são ricos, use o seu cérebro, para que a engrenagem fique visível, para que caminhos possam ser propostos, para que seu ódio pare de ser direcionado para aqueles que são esmagados com você, para que você enxergue que quem está doente é quem acha que o caminho que seguimos é natural.

quinta-feira, 31 de março de 2016

A perda de apoio dos moralistas e as atuais bases de sustentação do PT


Hoje é dia 31 de março, dia emblemático. Com manifestações marcadas para hoje e amanhã, estive perdido em reflexões que atrapalham a continuidade de algumas tarefas (como programar alguns exercícios em C# e o próprio projeto de mestrado), resolvi então colocá-las no papel (virtual) para analisá-las melhor e esvaziar a cabeça.

A primeira delas era sobre a perda da base de apoio moralista do PT. Eu estava pensando nas famílias de alguns amigos de classe média, cujos pais votavam no PT mas hoje não mais. É provável que a maioria dessas pessoas sejam pró-impeachment agora e com uma razão muito forte para elas: o PT traiu a confiança que esses eleitores depositavam no partido.

Essas pessoas, professores universitários (normalmente de cursos menos críticos do que Geografia e História, por exemplo), profissionais com ensino superior, etc. votavam no PT principalmente pela integridade moral do partido (na época) e pelo viés humanista de suas campanhas (eu me lembro da propaganda do PT que mostrava moradores de rua e afirmava: se você se comove com essa cena, você está conosco). Era fácil ver que os outros partidos (podemos dizer, os de direita) não estavam se importando muito com os pobres, os discursos estavam sempre protegidos pela máscara da importância do crescimento econômico e frases absurdas como "é preciso fazer o bolo crescer para poder dividir as fatias".

Tenho que fazer uma observação aqui sobre "cursos menos críticos do que Geografia e História, por exemplo", uma afirmação por tabela de que Geografia e História (e logicamente muitos outros como Sociologia, Economia (de base política, não neoclássica), Filosofia, etc.) são 'cursos críticos'. É claro que cada curso, em cada faculdade possui uma realidade distinta, mas há uma tendência, devido também a algumas correntes teóricas difundidas nesses cursos, de que os alunos que os cursam estudem a sociedade muito mais a fundo. Com o conhecimento dos 'motores' da sociedade, e claro, dentro de sociedades capitalistas o motor principal é o dinheiro, esses eleitores costumam ter uma visão mais complexa do porquê votar no PT (quando o fazem).

Então chegamos na segunda reflexão, sobre a perda de apoio de parte do eleitorado de esquerda. É claro que a divisão na esquerda sempre foi gigantesca. Parte dos alunos que se formam nos cursos críticos provavelmente nem se consideram de esquerda, podem considerar que foram 'forçados' a acreditar em algumas ideologias, ou escolheram focar nas bases tecnicistas dos cursos e no mercado de trabalho, ou acreditam em uma solução de centro: alternância de poder, políticas de acordo com as tendências econômicas, etc.

Dentro do grupo que se considera de esquerda o racha sempre foi enorme: sociais democratas, socialistas, comunistas, trotskistas, anarquistas, etc. As diferenças entre quais soluções são as melhores para os problemas da realidade brasileira e como alcançá-las sempre foram objeto de discussão infinita, entretanto havia uma convergência (que mesmo a direita afirma querer): reduzir a pobreza.

Quer queira, quer não, o PT foi eleito e resolveu boa parte do problema. Para mim, particularmente, é revoltante ver o que os governos anteriores fizeram para resolver isso: nada. Claro que há o discurso de que alguns desses governos estavam "lançando a base para a solução ... criando uma economia sólida ... blá ... blá ... blá", não me convencem. Eu reconheço algumas soluções, independentemente de quem as criou, e acho que foram boas políticas: plano real, lei do medicamento genérico, Bom Prato, etc. Não vou nem discutir as intenções por trás de cada uma (pode-se afirmar qualquer coisa de maneira leviana, sem provar, desde que FHC usou o plano real criado pela base do PSDB na gestão Itamar como trampolim político, Serra beneficiou conhecidos com sua lei ou Lula estaria 'comprando votos' com o Bolsa Família). O que importa aqui é que, Lula tirou milhões da fome, muita gente deixou de morrer, um problema crítico e vergonhoso da sociedade brasileira foi vencido.

E é aqui que as coisas começam a complicar, o PT foi reeleito, e reeleito, e reeleito de novo! Resolvido esse problema mais gritante, o governo foi implantando suas políticas, como qualquer outro anterior (aqui podemos, é claro, incluir uma enorme discussão: cotas, pró-uni, casa para todos, aumento do salário mínimo, etc. Governos de outros partidos fariam a mesma coisa? Não sei.). O fato é que, são medidas que podem ser questionadas tanto pela esquerda como pela direita, por exemplo, alguém de esquerda poderia dizer "O Pró-Uni aumenta a quantidade de vagas no ensino superior, mas com qualidade questionável!" e alguém de direita poderia bradar "Essas políticas assistencialistas não são sustentáveis!". A verdade é que a gente gosta de bater no governo, isso vem de longa data, é só buscar programas televisivos. Como a sociedade é governada através da representatividade, é inevitável que o descontentamento da população recaia sobre os representantes.

Isso fica muito mais grave com um desgaste devido ao longo tempo no poder e a incitação acumulada de grupos midiáticos. Veja bem, o governo do PT geriu a máquina estatal de maneira muito ruim em vários pontos, principalmente na área de meio-ambiente e no tratamento dos povos indígenas. O partido inflou, absorvendo quadros absolutamente questionáveis (vide Delcídio de Amaral), moralmente falando, já haviam membros questionáveis desde o início (Palocci? Zé Dirceu?). Geriu o país, em muitos pontos, como os velhos partidos faziam, toma-lá-dá-cá, corrupção (pode-se até questionar uma condenação com algo tão 'forçado' como a Teoria do Domínio de Fato, mas que a corrupção continuou 'comendo solta' todos sabemos), lentidão. Mas o que realmente conflagrou a guerra ao PT foi a incitação da mídia, é ela que decide o que mostrar, quando mostrar, e com que frequência.

Aqui chego na terceira reflexão: com o desgaste natural, a equalização (mesmo que apenas em alguns setores) do PT com os partidos governantes anteriores, a anti-propaganda midiática e o mais agravante, um judiciário que inspira pouca confiabilidade, é sábio parte da esquerda assumir posição pró-impeachment?
Podemos questionar várias coisas aí: Esse setor de esquerda pró-impeachment tem alguma relevância numérica? O impeachment é legal ou não? Quem se beneficia com a culminação do impeachment?
É verdade que a relevância numérica do PSTU e da Conlutas pode não ser muito grande, mas nesse momento específico qualquer fato que a mídia resolva explorar pode ter um impacto profundo. Vários juristas estão se digladiando sobre a legalidade do impeachment, bem, eu fico do lado dos que acham o impeachment baseado nas 'pedaladas fiscais' ilegal. E aqui o ponto mais importante: quem se beneficia do impeachment NÃO é o PSTU, nem a Conlutas, nem o trabalhador (pode aguardar a aceleração da destruição da CLT assim que Temer assumir - e não amiguinho, políticas neoliberais para a suposta melhora da economia não irá resultar em melhoria alguma na sua qualidade de vida).

O PT perdeu boa parte da base de sustentação, até mesmo dentro do próprio partido, e o que o sustenta hoje é um misto de crédulos, sindicatos, beneficiados pelas suas políticas e na atual conjuntura, aqueles que acreditam que a disputa está se resumindo à esquerdaXdireita, estado de bem-estar socialXneoliberalismo e os que acreditam que a disputa chegou ao ponto de democraciaXestado de exceção, nacionalismoXentreguismo.
Não, o PT não representa mais parte dessas bandeiras, eu nem acredito em boa parte delas, mas fui obrigado a tomar um lado, meu lado sempre foi contra a fábula de que o sistema capitalista recompensa os inteligentes e trabalhadores, sempre foi contra a hipocrisia de setores que se dizem "neutros" mas selecionam tudo o que mostram, e embora encare a democracia ocidental como falha e hipócrita, sempre serei contra o atropelamento da democracia para favorecer os setores de bolso cheio da nossa sociedade.

Por isso estou no grupo do dia 31, às ruas!