quarta-feira, 11 de outubro de 2023

A importância "das áreas" da Filosofia para a Ciência

 1. Como se faz Ciência? Como se constrói conhecimento? - Texto de 16/09/2023

Todo estudo começa de um interesse, interligado a um objetivo ou função. Trata-se de uma intenção que nos move em uma determinada direção. Porém quem estuda? 

Quem tem tal intenção de entender ou descobrir sobre determinado fenômeno ou assunto, é claro. 

Se temos intenção, é preciso assumir que se parte de um ponto, e este ponto é nossa própria intenção. Seja lá o que consideremos a "residência" de tal intenção: a alma, a mente, ou o cérebro... Isto nos empurra para as questões: "O que somos?" O que é nossa intenção? O que é nosso pensamento? O que é mente? É cérebro ou alma? Ou ainda, indo mais longe: O que é ser? O que é existir? 

Com todas estas questões o ser humano ao longo da história esbarrou num campo da filosofia chamado ontologia: Alguns autores, como o filósofo Leo Apostel, limitaram a ontologia como uma área de estudos que serve de base para a ciência, ou pressuposto da ciência - é o que indica nossa percepção do que existe ou "do que é"*. Com isto trata-se a ontologia como sinônimo de visão de mundo, ou em outras palavras, de cosmovisão.

Porque? Porque é o que antecede, ou suporta a busca por conhecimento, ou mais especificamente antecede o método de construção de conhecimento, ou seja, a epistemologia, outra área da filosofia. 

É possível então, notar que as questões ontológicas abordam a teoria da mente, teoria que está por trás de áreas óbvias: Psicologia e psiquiatria e as demais áreas relacionadas diretamente a estas (psicofarmacologia, neurologia etc). As respostas a tais questões irão definir os limites dos estudos

Um limite muito estreito, como considerar apenas a matéria (monismo materialista e similares) e o método empírico (sensorial, reprodutível) pode permitir aprofundamento e especialização, porém abandona uma visão sistêmica abrangente (como da teoria geral dos sistemas), bem como se afasta da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade. Entre os pressupostos ou ontologias abrangentes estão a dualista, e de um modo mais polêmico, a espiritualista - Esta última ontologia abre a possibilidade da psique (mente abstrata, aparelho psíquico etc) reger o corpo e não necessariamente alega que "só existe a mente e que toda matéria é algum tipo de ilusão". Longe disso, esta visão "de mundo" indica a importância e a complexidade da mente humana, além de indicar a possibilidade da existência desta além do corpo (seja sob o nome de psique, espírito etc...) permitindo estudos sobre fenômenos  mediúnicos, espirituais, transcendentais (comumente chamados de "místicos") etc. Esta ontologia difere da materialista, que naturalmente é niilista, pois o monismo materialismo pressupõe uma certeza da não existência da alma... Este materialismo, que inevitavelmente é niilista, insinua e/ ou afirma que todo conteúdo teológico/ religioso/ espiritual é falso e/ ou referente a alguma psicopatologia. Embora possa haver uma "ontologia" mentalista que desconsidere a existência da matéria ou da realidade sensorial, as ontologias dualistas e espiritualistas por sua vez, não afirmam a "não existência" de coisa alguma, pois trabalham com a matéria, mas também considerando a psiquê, seja ela mente, espírito ou ambos. Mesmo porque a postura de classificar a matéria ou a psiquê como inexistente não é científica: A ciência não tem função intencional nem acidental de afirmar a inexistência de forças ou fenômenos. A ciência, como qualquer construção de conhecimento, não tem que negar o que ainda não se conhece, nem deve ser determinista.

Por fim, visões de mundo (ou "ontologias") dualistas ou espiritualistas não apoiam charlatanismo, elas simplesmente têm uma visão que possibilitam mais métodos e mais campos a serem estudados quando comparados a uma visão de mundo materialista. Métodos com rigor, mas também outros métodos além do empirismo "clássico". 

Esclarecer tais áreas da filosofia que formam a ciência é importante para mostrar como a filosofia e seus respectivos campos são importantes e como a psicologia é uma área abrangente que vai além das ontologias materialistas e da epistemologia empírica (este último tema eu devo abordar num próximo texto). 

2. Filosofia para quê? - Texto de 11/10/23 

*Recentemente passei a discordar da parte da explicação abordada acima que iguala ou aproxima muito a cosmovisão da ontologia e passei a preferir me basear nas obras de Viktor Frankl e nos clássicos de Platão. A seguir explico sobre o assunto:

2a. Porque Sócrates e Platão combatiam os sofistas? 

Os sofistas surgiram na "Grécia" clássica pouco depois dos filósofos naturalistas (também chamados de pré-socráticos), possivelmente entre os últimos destes (entre os século 5 a.C e 4 a.C.). Eles devem ter percebido que os questionamentos e críticas dos filósofos naturalistas em relação à mitologia e à religião politeísta popular das pólis helênicas (Grécia), começava a gerar dúvidas nas pessoas - Ao desmentir alguns mitos por exemplo, os filósofos naturalistas ofereciam explicações geralmente físicas e raramente morais, espirituais ou éticas. Além disto, nem sempre tais explicações eram amplamente aceitas, daí surge uma lacuna, ou oportunidade para manipular a opinião pública... Os sofistas então aproveitando do enfraquecimento da religião grega daquela época (o medo da ira dos deuses) viram um "fértil campo" para manipular a opinião alheia e certamente os primeiros sofistas, ou últimos naturalistas, devem ter sido relativistas, como Protágoras (não confundir com Pitágoras), criticado por Platão (e certamente por Sócrates também). 

O termo conversar vem de co - versar (falar junto à, ou virar-se junto à)... De todo modo, a conversa precisa de um ponto de vista em comum e/ ou de um assunto conhecido por ambos / por todos interlocutores para iniciar a conversa; Assim, pode-se perceber que o relativismo não requer uma conversa verdadeira. Relativismo é a centralidade no "argumento" da "relação", geralmente direcionado a um conjunto de fatos e fenômenos, ou generalizado para todos os assuntos. Assim relativiza-se todos os fatos: Um típico "argumento" relativista simples é afirmar "ah, isso é relativo" mesmo sobre fatos universais, sobre fatos comprovados etc. A palavra argumento aqui é usada entre aspas pelo fato de que, em prática, o relativismo geralmente apoia-se principalmente em retórica ou em oratória, não em conteúdos. Isto porque o relativismo é uma postura extrema: O relativista finge-se de tolerante, e pode facilmente utilizar a relativização para distorcer fatos (geralmente a favor de si mesmo ou de um interesse particular), portanto, ao utilizar a retórica, o relativista está tentando manipular a opinião dos interlocutores ou de um público. Esta manipulação no caso da retórica, é feita com jogo de palavras e/ ou descontextualização do assunto em pauta - recortes da realidade para alcançar objetivos particulares, distorcendo, inventando ou omitindo fatos - em suma, o retórico é um mentiroso especialista em persuasão. 

A oratória por sua vez é uma técnica também facilmente utilizada por relativistas - trata-se de usar as emoções em discursos para manipular o público e/ ou para incitar neste, reações desejadas pelo orador. 

O relativismo também fomenta indiferença ilimitadamente: abandona-se busca por verdade pois ao considerar tudo relativo, tudo pode perder a importância facilmente. O relativismo então desvaloriza qualquer assunto, fomenta a o individualismo e a estagnação intelectual e social. Por estas razões, esta (pseudo) ideologia deve ter sido a última dos filósofos naturalistas e primeira entre os sofistas durante a Grécia clássica. 

2b. Campos da Filosofia: Ética, Epistemologia e... Psicologia!

Ao trazer o diálogo construtivo através da maiêutica, a busca pelo saber e pelo "kalos" (a beleza e o bem), Platão (e seu mestre, Sócrates) trazem a importância da filosofia, da ética e da construção de conhecimento (epistemologia) à sociedade ocidental da antiguidade clássica. 

Mais do que isto, a filosofia socrática/ platônica ao buscar a sabedoria (sofia) e o que é bom e belo (kalos), começa a trazer o olhar para si mesmo em busca das virtudes - não se trata só de ser racional, ou buscar o saber naturalista, mas também de se tornar virtuoso. Assim, Platão indica que a questão do bem não é separável do verdadeiro saber - Em seus escritos, Platão, mostra que Sócrates deu variados exemplos disto em diferentes diálogos: 

 Abordando temas entre auto conhecimento e virtude, Sócrates (e Platão) traz(em) um pouco da questão das emoções, dos sentimentos e da espiritualidade, como nos diálogos Fedro (ou, sobre o Belo), O Banquete (ou, Simpósio) e Eutífron (ou, sobre a Piedade) 

O amor era muito erotizado na Grécia clássica (isto é exemplificado na opinião dos personagens no livro O Banquete) e os dois filósofos tentam mostrar a importância de se buscar algo menos material e menos imediato, mais subjetivo (ou seja, mais humano, mais interior) e mais duradouro. Nestes textos/ diálogos, eles trazem a importância da filia (amizade) que pode ir se expandindo até ser transformada na ágape, um amor mais amplo e certamente mais profundo ou puro. 

Enquanto em Fedro, Sócrates fala da "paixão" divina, que é o amor pelo bem, pela justiça e pela verdade, no Simpósio, Sócrates propõe uma nova forma de amar aos seus interlocutores: Ele conta como aprendeu com uma mestra, que o amor pode e deve ir muito além do erotismo: Após iniciar relacionamentos com a paixão sensual (erótica, sensorial, corporal), é possível desenvolver amizade e valorizar esta. Depois de desenvolver amizade e valorizá-la, torna-se possível expandir esta amizade, buscando gostar não só dos corpos, mas principalmente das psiquês (almas) das pessoas, para enfim, amar as obras humanas, as leis, a justiça, enfim desenvolver um amor mais expansivo. 

Em Eutífron, a superficialidade de certos (tipos) religiosos da Grécia clássica é exposta: Eutífron, um religioso que se considera um tipo de oráculo ou adivinho, tenta utilizar-se de argumentos da mitologia grega para condenar seu próprio pai à morte e Sócrates tenta fazê-lo explicar o que é a piedade. Eutífron "dá voltas e voltas" e acaba fugindo do diálogo e de Sócrates. Apesar do diálogo parecer inconclusivo, é possível notar como Sócrates sutilmente insinua o que é a verdadeira piedade durante o diálogo e expõe a fragilidade de Eutífron, um religioso falastrão e superficial. 

 Por fim, vale lembrar que nem tudo da obra platônica era predominantemente teórico: No texto A República (Politheia), Platão mostra um interesse de por as suas idéias (e as de seu mestre, Sócrates) em prática. Além disto, Platão historicamente tentou difundir e implementar suas ideias entre alguns governantes de seu tempo, independentemente se obteve algum êxito ou não. 

A partir deste breve panorama do "cenário filosófico" grego, é possível ver a importância da filosofia: Ela estuda com empenho áreas como a ética (valores universais e suas possíveis aplicações nas leis e política), a epistemologia (métodos de construção de conhecimento que colaborem com o progresso psíquico e moral da humanidade) e psicologia (sentimentos, emoções, relações afetivas, familiares e sociais). 

 Tudo isto buscando uma prática sem desconsiderar as dimensões culturais e espirituais da humanidade. Esta dimensão espiritual era religiosa num sentido de re-ligar: Seus praticantes, sejam oráculos, poetas e/ ou profetas, buscavam o contato, e portanto algum tipo de (re) ligação, com uma realidade maior e/ ou além da sensorial do ambiente ao seu redor. Sócrates mesmo em sua busca pela sabedoria, admitia "ter um daemon", uma espécie de semi-divindade, mas que também pode ser entendida como espírito incorpóreo, diferente da psique que geralmente referia-se a alma no corpo vivo, encarnada. 

2c. Metafísica e Ontologia para quê? 

O psicólogo existencialista estadunidense, Rollo May, em sua obra, Love and Will (pg 150-153 da versão da Ed. Vozes no Brasil), aborda a questão de uma dimensão do ser humano que não seja meramente racionalista nem puramente ideológica. Ele cita que os mitos e histórias contados por artistas gregos como Ésquilo (524 a.C. - 455 a.C.), tratavam os personagens de modo não impessoal, mas transpessoal, ao considerar tanto a vontade e as decisões do indivíduo como também as forças externas, sejam elas sócio-ambientais ou de um destino mais pautado na crença e/ ou na espiritualidade. May explica que o daemon (que ele chama de demoníaco, no sentido de forças além da vontade individual) na obra de Ésquilo não era o único fator de importância em suas histórias, pois isto seria cair na superstição: o medo superior do divino (super - theos - onis), uma vida baseada no medo do além, onde nada da realidade ambiental/ "material" importa. O daemon também não era algo insignificante, pois isto seria reduzir a realidade dos indivíduos à uma superficialidade, ou seja, seria anular toda profundidade de sentimentos, de força de vontade, de auto-conhecimento, temperança etc. O ser humano, cujo os sentimentos e a vontade não existam, ou cujo sejam aspectos menores e sem importância, torna-se exclusivamente sensorial e Rollo May indica que este caminho solipsista conduz à perda da esperança. May não escreveu isto expressando sua mera opinião: Ele chega nesta conclusão após décadas como terapeuta, e dialogando com outros profissionais, eles foram capazes de enxergar o impacto de fenômenos coletivos (sociais etc) nos indivíduos e a reação dos indivíduos aos fenômenos coletivos*. 

May então explica que Sócrates é o exemplo de indivíduo que não é um mero racionalista: preservou sua autonomia racional porque aceitou seu fundamento em um domínio transracional - Aqui o prefixo trans indica que "vai além de", não se trata de simplesmente "passar para um outro lado". Sócrates triunfou sobre Protágoras e seu relativismo porque acreditava no divino (daemônico), nos sonhos e na oráculo de Delfos. May indica que o fator "demoníaco", bem como os fatores sociais, ambientais, enfim externos, estão em grande parte além da vontade individual. Sócrates não fechou os olhos para quaisquer destes fatores, nem desanimou, seja diante a guerra, diante o "sobrenatural" ou diante seus opositores e suas respectivas acusações. Sua filosofia então mostrou origens dinâmicas que a salvou da aridez (indiferença, rispidez, insensibilidade) do racionalismo, enquanto as crenças de Protágoras falharam porque afirmava que "o homem é a medida de todas as coisas", ignorando forças dinâmicas e forças irracionais da natureza humana. Sócrates então levava em conta todas essas forças, sem ser supersticioso (ou seja, não se baseava no medo, nem considerava que tudo era "divino/ demoníaco", sem importância da decisão e ação humana). 

A linguagem é uma forma de comunicação limitada, pois muitas experiências requerem expressões de sentimentos (emoções), de crenças e de fé, estas que pouco ou nada diferem de símbolos. Os símbolos, por sua vez, fazem parte da cultura, das artes e dos mitos desde a época da Grécia antiga, passando por Platão, por alquimistas medievais até certos grupos mais atuais (sejam esportivos, corporativos, místicos ou de qualquer outra natureza). Sócrates então, não era um pensador insensível nem supersticioso: lidava psicologicamente com questões internas e externas, tomando decisões, como veremos adiante. Ele manteve-se fiel à sua postura filosófica básica para se construir todo e qualquer conhecimento - não aceitava qualquer coisa dita como se fosse uma verdade absoluta, mas mantinha a presunção de ignorância, pois para o filósofo, onde havia dúvida, era possível haver estudo. Além disto, ele sempre considerou o para quê buscar a sabedoria, como é possível ver em Fédon e outros diálogos escritos por Platão: 

"Numa certa ocasião fiquei sabendo de alguém que lera um livro, segundo ele de autoria de Anaxágoras (c. 500-428 a.C.), que é a Inteligência (nous) que estabelece a ordem de todas as coisas e a causa. Vi-me satisfeito com essa causa e a mim pareceu algo acertado ser a inteligência causa de todas as coisas. Refleti que, sendo deste modo, a inteligência ordenadora ordenaria tudo e organizaria cada coisa do melhor modo que lhe conviria. Assim, se fosse desejo de alguém conhecer a causa da geração (vir a ser), da corrupção, ou da existência de uma coisa particular, teria que apurar qual a melhor maneira de essa coisa ser, sofrer ação ou agir. Assim, no tocante a essa coisa particular bem como outras coisas, tudo o que cabe a uma pessoa fazer é examinar o que é o mais excelente e o melhor. Isso fará necessariamente conhecer inclusive o que é pior, uma vez que a ciência de um e outro é idêntica. À medida que refletia nestes tópicos me regozijava em pensar que encontrara em Anaxágoras um professor da causa das coisas que são (tôn onton). 

(...) "Não demorou, meu amigo, para que de mim fosse subtraída aquela maravilhosa esperança e a medida que avancei na leitura percebi que o homem não se serviu da inteligência e não apontou quaisquer causas para a ordenação das coisas, limitando-se a mencionar como causas, o ar, o éter, a água e muitas outras coisas despropositadas" (...)

Assim Sócrates mostra o que seria preciso para um professor de "onto-logia": Apurar qual a melhor maneira das coisas serem. Esta postura, ou conjunto de posturas de Sócrates é epistemológica, ontológica, psicológica, metafísica e ética - não é determinista pois trabalha com a ideia de construção de conhecimento e com melhoria do indivíduo e da sociedade. 

Se a psicologia ou qualquer outra ciência nega qualquer um dos temas e posturas dos fundadores da filosofia ocidental (Sócrates e Platão), quais serão os resultados disto? A ontologia deve simplesmente determinar o que existe e não existe? Ou deve buscar / apurar qual a melhor maneira das coisas serem, sofrerem ação e agirem? Platão (e Sócrates) indicam que a segunda alternativa é a correta.

Uma ciência que reduz, distorce ou nega qualquer uma destes campos da filosofia... é ciência? De quê? Para quê?

Bibliografia 

Parte 1:

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Artmed, 2008. 

https://www.youtube.com/watch?v=UOXrNXr_slo&t=1s acessado em 17/08/2023

Parte 2:

Rollo May, "Eros e Repressão" - Amor e Vontade (tradução de Áurea Brito Weissenberg) Ed. Vozes, 1973; 

Fédon; (tradução de Edson Bini) Platão - Diálogos socráticos III, Edipro 2015; 

O Banquete; (tradução de Edson Bini) Platão - Diálogos socráticos V, Edipro 2015; 

Fedro; (tradução de Edson Bini) Platão - Diálogos socráticos III, Edipro 2015; 

Eutífron; (tradução de André Malta) Platão Apologia de Sócrates precedido de Sobre a Piedade (Eutífron) e seguido de Sobre o Dever (Críton), L&PM Pocket 2008; 



 

domingo, 3 de setembro de 2023

Não Julgar - Um ato (também) de bem-estar psíquico

 

 Não julgar não é só um ato religioso/ espiritual

Como eu disse em um outro texto meu (https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/08/psique-e-importancia-dos-valores.html), tive a oportunidade de observar dezenas de crianças durante um período de 10 meses de estágio numa clínica para crianças com TEA (transtorno do espectro autista). Uma postura predominante das crianças que eu pude observar foi a ausência de julgamento. Mesmo diante diferenças de comportamentos e de dificuldades: por exemplo, as crianças com "nível menor de autismo" (ou comunicáveis) predominantemente não julgavam aquelas que demonstravam mais "sintomas" do transtorno. As poucas que pareciam emitir eventuais julgamentos eram as mais velhas entre as com "menos sintomas" do transtorno. Isto é um claro indício de que o julgamento (ao menos em maior parte) é aprendido - A criança nasce com pouca ou nenhuma tendência de julgar o próximo. 

A criança aprende a julgar essencialmente com os adultos, a começar com os familiares mais próximos (pais/ cuidadores), para depois possivelmente absorver tal atitude de colegas, professores e outros indivíduos com o decorrer do tempo. Obviamente, em algum grau isso serve como uma defesa contra possíveis ameaças - aprender a identificar comportamentos agressivos, nocivos etc. Porém, por um outro lado, também é evidente que muitos dos julgamentos que fazemos com o adquirir dos anos, não passa de opinião: sejam opiniões "conservadoras" (tradicionais, misoneístas entre outras) ou não. 

Nós, seres humanos, acumulamos uma quantidade gigantesca de informação adquirida ao longo da vida (também citei isto noutro texto, mas não colocarei o link aqui). Além dos inúmeros estímulos sensoriais, temos opiniões e conhecimentos formados a partir de uma quantia praticamente incalculável de dados recebidos e absorvidos ao longo da vida: Sejam através de diálogos, leituras, trocas afetivas/ emocionais etc. Tudo (ou quase tudo) isto pode ser resgatado pela memória com mais ou com menos dificuldades. Todas essas memórias, opiniões, conhecimentos, sentimentos (etc) formam nossa subjetividade e negar esta vastidão de nossa psiquê (seja alma ou aparelho psíquico) é no mínimo um reducionismo que ignora tanto nossas potencialidades, como nossas dificuldades (sofrimentos, suas causas etc). Conforme acumulamos este "conjunto de elementos racionais - sentimentais", tomamos decisões baseadas nele, seja de modo mais frequente ou menos frequente, ou, em outras palavras ele nos influencia, pois faz parte de nós. Sendo assim nossas escolhas podem nos fazer bem ou nos fazer mal e estas escolhas podem ser feitas a partir de nossos pensamentos e sentimentos internos ou diante a atitude de outros. É aí que frequentemente "entra o ato de julgar". A quantia gigantesca de informações e sentimentos que formam cada indivíduo torna desafiador conhecermos a nós mesmos então... Por que deveríamos julgar o outro, "o próximo"? Se possivelmente mal entendemos nós mesmos, como vamos entender o outro? E mais: Sendo o ser humano um ser social, ou seja, que não existe para se isolar do mundo, será que faz bem para nós mesmos julgarmos os outros, seja de modo conservador ou de qualquer outro modo? Certamente não. 

Como mencionei, nossa psiquê é constituída por um vasto complexo de memórias, sentimentos, opiniões, conhecimentos que podem se "mover" através de pensamentos e podem ser expressos por palavras ou por emoções... O julgamento do próximo, seja de maneira claramente preconceituosa, ou sob uma máscara de ponderação ou de racionalidade, não deixa de ser julgamento. Afirmar (mesmo em pensamento) fulano é isso, ciclano é assim ou beltrano foi assado, não é realmente uma leitura neutra, mais dificilmente ainda justa: Ela tem um viés e este viés é o de alguém que praticamente não conhece o outro/ a pessoa julgada - Justamente pelo fato da subjetividade de cada ser humano ser toda a sua vasta psiquê com todas suas respectivas experiências e sentimentos. 

Conjecturar sobre outras pessoas, a menos se necessário para o convívio, certamente torna-se um ato nocivo para a própria pessoa que julga, pois pode gerar fadiga mental certamente chegando a uma resposta imprecisa que não passa de um julgamento superficial sobre a pessoa analisada/ julgada. Mesmo se o julgamento sobre uma característica negativa da pessoa "julgada" estiver certo, se não existe o convívio entre o "julgador e o julgado" ou entre o "analisador e o analisado", tal situação não poderá ser expressa nem resolvida. Estas atitudes psíquicas então, se muito repetidas, podem estar ligadas ao desenvolvimento de uma depressão, esta por sua vez, pode assumir o caráter mais prejudicial à saúde mental da pessoa que se prende a tais pensamentos, o que se tratará de um transtorno psíquico... 

Este assunto é interessante para ressaltar a importância de perceber e (sempre que possível, através de algum esforço) vigiar os próprios sentimentos e principalmente os próprios pensamentos. Tal assunto é abordado na psicologia desde sua "gênese" no século 19, através das obras de Whillelm Wundt e desde muito antes em determinadas espiritualidades como o budismo etc (o auto conhecimento absorvido pela Terapia Cognitiva Comportamental séculos mais tarde). Perceber e observar os próprios sentimentos e pensamentos faz parte de cuidar do nosso bem-estar psíquico, ou seja, de nossa saúde mental. Isto pode ser levado à terapia psicológica ou tentado através da meditação. Talvez, mesmo a introspecção seja um caminho, contanto que vise o bem-estar psíquico, o que não deve ser separado de uma serenidade e de (uma busca por) um momento de paz consigo e com (a imagem d)os outros. E não há serenidade enquanto se julga, pois a serenidade é um estado interior(izado) de humildade

Além de não julgar 

Entendo que a partir de uma longa prática ou "esforço" de perceber e observar os próprios pensamentos/ sentimentos é possível desenvolver um "auto conhecimento". Isto deve ser um processo demorado e/ ou contínuo que serve não só no caso de julgar indivíduos com os quais não nos relacionamos, mas também serve para evitarmos nos prender a pensamentos/ sentimentos nocivos a nós mesmos (auto depreciação, crenças limitantes, vício em trabalho ou em qualquer outra atividade etc). Particularmente não sei se auto conhecimento é um termo claro e preciso, mas por enquanto o utilizo, pois sei que é aceito tanto em algumas espiritualidades como em algumas abordagens psicológicas... 

Os pensamentos e sentimentos sobre pessoas distantes então (sejam pessoas que passaram a viver em locais distantes, ou que faleceram) devem ser saudáveis quando nos trazem boas lembranças, nostalgia ou até mesmo inspiração. Pois se ficarmos trabalhando sentimentos ruins e/ ou pensamentos críticos sobre tais indivíduos, estamos apenas degradando nossa psiquê, dando valor ao que não faz bem, portanto fomentando possíveis sofrimentos psíquicos e/ ou adoecimento/ transtorno mental. Obviamente a pessoa que se prende a tal postura psíquica, raramente reconhece que faz mal à si mesmo (e devem ser muitas pessoas, mesmo que não existam estudos precisos sobre isto) e apesar deste blog não ter muitos leitores até então, eu espero que este humilde texto ajude nesta importante questão de bem-estar psíquico e saúde mental.

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Psiquê e a importância dos Valores

 

Noção, Intenção e Decisão 

Nós seres humanos, temos noção do que faz bem e faz mal: Ao agredir alguém sabemos que causa dor; 

Ao difamarmos alguém com mentiras ou ofensas, sabemos que isto ofende; 

 Sabemos que paz e tranquilidade é bom. 

Isto não parece presente nos animais, ao menos não de forma nítida: Um cachorro pode brincar com um passarinho, mordendo-o, jogando-o de um lado ao outro, ferindo e matando o bichinho. O cachorro não entende nada ao fazer isso. Não estou falando de caçar aqui, este exemplo do cachorro e o passarinho eu presenciei em 2008. 

Diferente dos cachorros, tive a oportunidade de observar uma grande quantidade de seres humanos e suas relações, particularmente crianças diagnosticadas com diferentes "níveis" de transtorno do espectro autista (TEA) durante o 2º semestre de 2022 e o 1º de 2023. Não falarei dos casos mais "graves" que deixam o autista mais incapacitado, falarei das crianças que brincam e conversam entre si, a maioria com idade entre 4 e 7 anos. 

A espontaneidade destas crianças, aliadas à uma receptividade fazem com que elas encontrem facilidade na interação social: Elas praticamente não julgam umas às outras, se interessam pelo outro e improvisam brincadeiras sem receios (sem medo de parecerem ridículas etc). Além disto a maioria delas (aproximadamente 27 entre 30 crianças) perdoam o colega com quem tiveram algum conflito ou abandonam à mágoa causada por tal conflito em poucos dias. Diferente do cachorro, as crianças evitam agredir umas às outras a menos que não possuam mais recursos. Por isso é mais comum que os pacientes diagnosticados com um "nível mais grave" de TEA (vulgo autismo), agridam outros indivíduos. (nível ou gravidade não são os termos mais adequados para explicar o autismo, mas utilizo uma linguagem para os leigos aqui). 

Observei tais fatos ao realizar um estágio durante 10 meses na equipe multidisciplinar de uma clínica na cidade de São Paulo. 

 Pois bem, a noção de bem e de mal do ser humano se estende para inúmeros casos: de roubo, furto, enganação, grosseria, acolhimento, sinceridade, presentear, socorrer etc. Tal noção é mais antiga do que qualquer código de leis criado pelos seres humanos. Possivelmente existe desde que o ser humano é ser humano. 

Esta noção pode ser trabalhada ou ignorada: Se (incentivada e) colocada em prática ela torna a vida do indivíduo e daqueles com quem ele convive, predominantemente harmoniosa, pois as relações ficam mais colaborativas e mais amigáveis, portanto menos competitivas e menos conflituosas. 

Importante notar que a noção do bem e do mal é interna de cada ser humano e não é um mero instinto de sobrevivência impulsionando o indivíduo para alimentar-se, reproduzir-se, enfim para sobreviver - É uma noção mais empática do que o instinto, pois ela serve ao convívio, seja familiar, social etc. Neste convívio ela pode estabelecer relações de troca, tanto de afeto como de necessidades mais corporais, como a troca de alimentos, vestimentas etc. Desta forma, as relações podem ser feitas com mais empatia ou menos empatia - buscando entender as necessidades do outro e colocando-se em seu lugar, ou ignorando o próximo e pensando somente em si mesmo, ou cada vez mais em si mesmo. A noção vincula-se com a intenção do indivíduo que também é um "processo" interno do indivíduo. A partir daí é feita a decisão de como agir diante o próximo, numa relação qualquer, decisão que pode ser influenciada pelo meio ou não: pode vir de um gosto (algo que tenha valor ao indivíduo*) da tenra infância ou de um instinto biológico. Estes são temas da psicologia (abordados por Wundt, por exemplo) que foram sendo abandonados ou reduzidos no início do século 20: Os processos internos da psiquê como a percepção de seus próprios sentimentos e pensamentos, a noção (do bem e do mal) e os instintos são imediatos, que surgem sem a necessidade do meio. A intenção e a decisão podem ser mediatas (se influenciada pelo meio externo) ou imediatas (certamente no caso do cão instintivamente brincando com a ave, por exemplo). 

[*Este valor é um conceito estudado na psicologia analítica de Jung, por exemplo. Tal conceito de valor não refere-se a algo material em si.]

Depois, ao expor suas ideias ou expressar suas emoções, o indivíduo inicia a relação e só após a resposta obtida é que pode-se dizer que o meio passa a participar do processo. As respostas então são mediatas (dependem do meio, da troca, do diálogo etc). Porém a partir desta análise pode surgir a dúvida se a decisão é imediata ou mediata... Aqui entende-se que ela pode ser qualquer uma das duas, e, com o passar dos anos de vida, as decisões podem ficar cada vez mais mediatas, pois são progressivamente mais influenciadas (incentivadas ou criticadas) por opiniões alheias, seja de pessoas próximas ou distantes (estas últimas, de mídias etc). Com o acúmulo de experiências em vida, formam-se novos gostos, abandona-se alguns hábitos, muda-se de opinião sobre certos assuntos, consolida-se sobre outros e embora pareça impossível de não ser influenciado por tantos fatores, a noção do bem e do mal não é necessariamente encoberta por todos esses processos. Na verdade, é mais plausível que ela (a noção) continue lá e a única diferença da criança para o adulto é que ela pode ser usada um maior número de vezes no decorrer da vida. 

Essa utilização é por em prática basicamente o bem e evitar o mal. Embora os termos bem e mal possam parecer muito moralistas ou religiosos, eles são uma boa síntese (talvez pudessem ser ocasionalmente substituídos por "certo e errado"). Afinal se toda vez que formos nos referir ao bem, nós tivermos que detalhá-lo ou classificá-lo, teríamos que repetir todos os seus nomes ou manifestações: justiça, solidariedade, fraternidade, esperança, responsabilidade etc. 

Enfim, a decisão de fazer o bem é tão importante que ela está entre o íntimo de cada ser humano (a noção, intenção, a consciência, enfim a psique) e o meio, onde se coloca em prática não só através de ações individuais, como de ações coletivas, ou seja, sociais. 

A noção do bem e do mal rege todas as intenções, decisões e ações humanas. Por mais que as decisões possam ter influências do meio, esta noção sempre permanece com cada indivíduo, a menos que ele tenha uma psicopatologia/ um transtorno incapacitante que elimine-a completamente. 

Embora o tema seja complexo, como seres humanos que vivem em uma civilização, devemos tomar cuidado para não cair no relativismo, com alegações do tipo "o bem e o mal são muito subjetivos", deixando com que o mal se propague nas sociedades em geral. Tal tipo de atitude pode causar o abandono ou a deturpação de valores importantes para toda a civilização humana, tais como da justiça, da equidade, do bem-estar, da dignidade, da paz etc. 

A Necessidade dos Valores para Inteligência 

A questão da noção e dos valores mencionados há pouco tende a se tornar cada vez mais importante para todos seres humanos. Neste início do século 21, nós seres humanos estamos gradualmente mais envolvidos por um problema: A Inteligência Artificial (IA). A Inteligência Artificial passou a nos influenciar pesadamente após o aumento da utilização da internet, particularmente pelas redes sociais com seus algoritmos e com a utilização de aparelhos eletrônicos como os celulares, computadores etc. 

A IA é construída por uma grande quantidade de dados e aprende a partir desses dados, sendo que a falta de determinados dados pode causar efeitos indesejáveis ou irreversivelmente danosos aos seres humanos. Dois exemplos são a morte de uma pessoa por atropelamento (caso da Uber: https://autoesporte.globo.com/videos/noticia/2018/03/carro-autonomo-da-uber-atropela-e-mata-mulher-nos-eua.ghtml) ou a exclusão de todas mulheres em uma grande corporação (caso da seleção de currículos da Amazon: https://meiobit.com/391571/ferramenta-de-recrutamento-amazon-ai-discriminava-mulheres/). 

O viés que os dados podem colocar na IA resulta em objetivos que não são exatamente o que os seres humanos querem ou esperam. Falta a noção do que se deve ou não fazer nas "máquinas". 

A questão dos valores é inevitável, pois eles sempre existem na mente humana (que coloca os dados disponíveis para a IA) - A questão do que é certo ou errado ainda não é consenso entre os seres humanos, então passar isto às máquinas é possível? Tudo leva a crer que não. Ao menos até os seres humanos resolverem esta questão... Ética... Moral... portanto filosófica. 

Não se trata de valores individuais, pois estes variam de pessoa para pessoa conforme suas experiências e sua cultura. Na escala individual, um pode alegar que o acúmulo de dinheiro é mais importante que a equidade, outro pode afirmar que o amor é o que mais importa (etc) e assim ficaríamos reféns do poder de propagação de valores individuais de determinados indivíduos... Tratar valores como algo pessoal é reduzir a importância de tal assunto: É limitar algo que afeta coletivos à visão (opinião) de um ou outro indivíduo, por isso deve-se buscar o(s) valor(es) universais (éticos, morais, humanos), tema(s) de estudo das áreas da filosofia mencionadas acima, que regularmente tocam a religião, a espiritualidade e a psicologia (mais nitidamente as abordagens existenciais/ fenomenológicas, como a logoterapia, que lida com o sentido de vida). 

Assim como os valores, as questões sobre viés e noção de certo e errado são ou deveriam ser estudadas pela psicologia e principalmente pela filosofia. Porém há muitas décadas, infelizmente, a psicologia está predominantemente tomada por um viés materialista da neurologia e da psicofarmacologia, enquanto a filosofia depois de ser severamente influenciada por retóricos, tornou-se dominada por segmentações (diferentes linhas teóricas) quase não buscando mais valores universais. 

Valores universais são temas obviamente discutidos nas religiões e na espiritualidade há milênios na civilização humana. Embora a terminologia tenha mudado de tempos em tempos e de cultura para cultura, o assunto central sempre gira em torno do certo e errado, do bem e do mal e da importância de se pautar pelo bem, de agir do modo certo. 

Dentro deste tema óbvio, porém discutido há milênios, o bem se caracteriza pela caridade, solidariedade, equidade, empatia, o que exclui seus opostos como a ganância, a avareza, a iniquidade, a indiferença etc... 

A crítica ao viés materialista que eu faço, não é uma alegação de tudo o que foi proposto através deste pressuposto filosófico (ou ontológico) foi ruim ou inútil: Faço uma crítica por entender que este viés teve por fundamento a ciência formulada a partir da física newtoniana ("clássica"), que deu muito mais importância aos assuntos referentes à matéria perceptível do que às questões essenciais do ser humano como os sentimentos, os pensamentos (psicologia), a ética e a moral (filosofia). Apoiar-se no materialismo como uma verdade absoluta é um reducionismo e também um tradicionalismo, já colocado em contradição pela "revolução da física" que eu cito nestes 2 textos: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/04/como-fisica-do-seculo-20-impactou-as.html e https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/07/mente-tempo-e-pressupostos-filosoficos.html

A importância de não reduzir o ser humano meramente ao corpo, à matéria, não deve ser deixada de lado. Cito esta importância em outro texto: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/06/os-perigos-dos-materialismos.html 

Sentimentos e pensamentos não são perceptíveis publicamente, pois são fatores internos de cada ser humano, nem podem ser manipulados como a matéria em seus estados sólido, líquido, gasoso etc. A psique (Mente e/ou alma/ espírito) complementam a matéria, portanto a cosmovisão ou "ontologia" mentalista ou espiritualista (que inclui a espírita, a idealista alemã entre outras), serve para complementar a materialista, não para se limitar à esta nem para simplesmente recusá-la, mas para ir além. 

Não é coeso, muito menos necessário, excluir tais pressupostos dos estudos e pesquisas - Se há alguma dúvida de como pensamentos, sentimentos, valores e noções (a mente) interagem com o corpo humano, isto ainda pode ser descoberto... Com estudos transdisciplinares e não com reduções e recortes da realidade. 

Tanto que as propostas para as soluções dos problemas como a "inconsequência" da IA, podem surgir de ciências como a psicologia, de filosofias como a ética, de espiritualidades como o cristianismo, o budismo ou mesmo de campos que invocam mais de uma área do saber como o espiritismo, o Bhakti Yoga, a Kryia Yoga que utilizam a ética de textos como o Bhagavad gita etc. 

Embora o texto a seguir use a palavra caridade, entendo que ela possa ser substituída por solidariedade, ou talvez por um combinado de empatia e equidade

"Muito extensos e detalhados seriam os conselhos que vos deveriam ser dados sobre a necessidade de alargamento do círculo de caridade; sobre a inclusão nesse círculo de todos os infelizes cujas misérias são ignoradas; sobre todas as dores que devem ser buscadas em seus próprios redutos, para consolá-los em nome dessa virtude divina, a caridade. Vejo com satisfação quantos homens eminentes e poderosos colaboram na busca desse progresso que deve reunir todas as classes humanas: os felizes e os desgraçados. Coisa estranha! Todos os infelizes se dão as mãos e se ajudam reciprocamente na sua miséria. Por que os felizes demoram tanto para ouvir a voz do infeliz? Por que se faz necessária uma poderosa mão terrena para dar impulso às missões de caridade? Por que não respondem com mais ardor a esses apelos? Por que permitem que a miséria, como por prazer, macule a imagem da Humanidade? 

A caridade é a virtude fundamental que deve sustentar todo o edifício das virtudes terrenas. Sem ela não existem as outras. Sem caridade não há fé nem esperança, porque sem a caridade não há esperança de uma sorte melhor nem interesse moral que nos guie. Sem a caridade não há fé, porque a fé é um puro raio que faz brilhar uma alma caridosa; ela é a sua consequência decisiva. 

Quando deixardes que o vosso coração se abra à súplica do primeiro infeliz que vos estender a mão; quando lhe derdes sem se perguntar se sua miséria é fingida ou se seu mal tem um vício como causa; quando deixardes toda a justiça nas mãos de Deus; quando deixardes a cargo do Criador o castigo de todas as falsas misérias; enfim, quando praticardes a caridade pelo só prazer que ela proporciona, sem questionardes a sua utilidade, então sereis os filhos que Deus amará e que chamará para si."

Este trecho tirado de um texto do século 19 de Allan Kardec trata de um valor universal, bem como várias obras de outros autores de diferentes culturas também tratam: Eu poderia citar Platão, Comenius, Pestalozzi entre outros... Todos eles já sabiam da importância de um ou mais valores universais para humanidade. 

 

 

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Estado alterado da mente: a Relação entre "Mania e Magia"

 

No texto Fedro de Platão, Sócrates faz interessantes observações sobre as "loucuras", não como entendemos os transtornos mentais e suas várias classificações neste início de século 21, mas como estados alterados da mente, ou mais precisamente, da psiquê. 

Inicialmente é importante lembrar que a palavra psiquê era usada para descrever a alma e também a mente, pois durante a época em que Platão viveu, não havia clara distinção entre tais conceitos. A natureza da mente tendo aspectos "não mensuráveis", como pensamentos e sentimentos (etc), segue como um tema inconclusivo até este início de século 21, por mais que existam estudiosos que se apoiem numa "visão" de mundo / em pressupostos materialistas. 

A loucura abordada no diálogo então, trata a mente em estados alterados por dois motivos: a paixão erótica, ou seja o desejo referente à sensualidade e aos atos sexuais e a paixão incitada por um estado de inspiração. Este último estado era alcançado pelo indivíduo ao entrar em uma espécie de transe, seja através de rituais de música, de dança, ou de invocação espiritual. Um estado que colocava o indivíduo, seja chamado de apaixonado, invocador ou qualquer outro nome, em contato com um ser "sobrenatural", espiritual ou divino, independentemente de diferenciações entre estas classificações de seres. Os nomes de tais entidades espirituais da Grécia clássica variavam: ninfas, musas, daemons, bem como as traduções do idioma grego antigo para outras línguas: gênios, semi-deuses, deuses etc. Mas discutir quais são os nomes corretos não é útil, pois é pouco conclusivo e pode gerar discórdias, principalmente entre indivíduos que seguem uma determinada religião. O interessante do texto é que ele é válido para toda cultura, espiritualidade e religiosidade: A "paixão divina" era um estado alterado da mente, ou seja, uma mania, causada pela busca de uma beleza superior, transcendente: Sócrates explica que a pessoa ao perceber o "além céus", via o esplendor das virtudes dos deuses, como do bem, da justiça, da temperança, da pureza, que em tal "plano de existência" emanavam luz. Ao retornar sua consciência ao mundo sensível (perceptível, material) a pessoa que alcançara tal estado de êxtase então ficaria "louca" (maníaca, ou seja com mania) com saudades do bem, da virtude. Sócrates também explica que originalmente as palavras mania e mancia (manike e mantike) eram a mesma, e que só em um determinado momento da história é que realizaram uma separação (de mau gosto para Sócrates) entre tais classificações, considerando mania como loucura e a mancia como adivinhação, magia

Pois bem, as práticas mágicas, sejam em ordens filosóficas como os pitagóricos, em cultos pagãos ou em religiões, sofreram algumas mudanças com o passar dos tempos e com a dominância de determinadas culturas na civilização. Junto com estas mudanças práticas, também surgiram mudanças nas terminologias por variados motivos dos quais não me aprofundarei neste texto. Cerimônias, liturgias, rituais magísticos, invocações, não importa o nome - Um tema central neste assunto é o estado da mente particularmente "alterado", ou seja, que não está prestando atenção ao seu redor, não está preocupado com a realidade material, - está em uma experiência além do sensorial (dos 5 sentidos humanos). Este estado da mente é um processo predominantemente/ essencialmente interno do ser humano, pois envolve sentimento no sentido literal da palavra: tanto o sentir, de perceber internamente os pensamentos e emoções que surgem em sua própria mente, como também envolve os sentimentos, seja esperança, gratidão, devoção, serenidade ou algum outro. Entende-se então que tais processos envolvem condições psicológicas, seja considerada condições mentais ou espirituais, da alma, portanto é um assunto da psicologia. Porém seja na academia ou na mídia (tão dominadas pelo materialismo), os últimos estudiosos que conquistaram algum espaço ao abordar tais assuntos na psicologia, parecem ser considerados de pouca relevância na maior parte do mundo científico, seja nas pesquisas ou nos cursos universitários. Particularmente lembro-me de dois autores que abordaram um pouco destes assuntos e de maneiras distintas entre si: Wilhelm Wundt e Carl Gustav Jung. 

O segundo autor, Jung, ganhou mais notoriedade/ popularidade e trabalhou a importância dos símbolos/ da simbologia na vida humana. Porém o primeiro, Wundt, é meramente considerado o fundador da psicologia como ciência depois de ter criado o primeiro laboratório (ou um dos primeiros) de psicologia do mundo. Porém sua obra, praticamente abandonada pela academia, é mais complexa e vasta do que a mera criação de um laboratório ou do que a fundação de uma área da ciência. 

Mas o que talvez nenhum autor da psicologia tenha abordado é o significado ou a importância desse estado alterado da mente, ou mania, citada por Sócrates e/ou Platão. Curiosamente a mania de inspiração divina citada por Platão em sua obra Fedro, difere da paixão erótica, do desejo sexual - por que refere-se ao amor que precisa do verdadeiramente belo, que necessita da virtude que é um valor universal, não particular. Por universal podemos entender atemporal, que faz bem para toda e qualquer pessoa, ou mesmo para toda e qualquer forma de vida. Uma virtude verdadeira não é relacionada só a determinadas situações ou voltada apenas para determinadas pessoas. A virtude, quando realmente existe, é algo central no ser humano, portanto liga-se ao seu ser de modo profundo. A pessoa que é "generosa" apenas com um ou dois grupos de pessoas (família e/ou amigos, por exemplo) não é generosa. Ela apenas gosta dos amigos e/ou da família, ou se comporta como se tivesse uma obrigação para com estes grupos etc. O mesmo vale para qualquer outra virtude: ser humilde, receptivo, paciente, atencioso, amigável/ honrado etc. A virtude não sendo algo somente voltado a determinados indivíduos ou grupos próximos, é uma referência social: Tem seu valor, importância e utilidade não só para o ser humano como indivíduo, mas para o coletivo também. 

Voltando ao amor (surgido de uma "mania") de "inspiração divina", ainda que em linguagem um tanto figurada e talvez poética, Platão indica que Sócrates explicava sobre um sentimento, afinal é isto que o amor é. O amor de acordo com estes filósofos, é o sentimento transcendente, o qual eles chamam de "o alado". 

A mania explicada em Fedro então, demonstra que o essencial para uma experiência espiritual (seja mística, mediúnica ou de qualquer outra classificação) é o estado mental alterado. 

Tal estado é importante para cada indivíduo cultivar sua espiritualidade, seja através de um método magístico (rituais, cerimônias, liturgias), contemplativo (oração, meditação...) ou um meio termo destes dois modos (talvez a poesia, a música etc). É um estado de sentimento profundo e verdadeiro que ocorre interiormente em cada ser humano - somente o próprio ser humano pode alcançá-lo e entendê-lo, pois ao tentar classificar a experiência de outrem, a chance de se agir preconceituosamente é enorme, afinal este é um fenômeno possivelmente imediato, ou seja, que ocorre sem o meio. Imediato aqui não significa rápido ou instantâneo: É o que independe do meio (ambiente, social etc). Ela ocorre diretamente no íntimo da pessoa, "em sua psiquê", não necessitando sequer do uso de uma substância (psicoativa, por exemplo). Inclusive, Platão na mesma obra, indica que Sócrates antes de explicar as manias, havia entrado em um estado de "inspiração sobrenatural" ou de "possessão" pelas ninfas, sem utilizar substância alguma. Sócrates simplesmente faz um discurso breve, ou oração, dirigida às ninfas e começa a falar influenciado por estas entidades que eram possivelmente espíritos (daemons) da natureza (aqui falo do ponto de vista socrático/ platônico: uma visão de mundo, ou ontologia que não se reduzia a matéria perceptível). 

Como o discurso proferido neste estado tem um "tom" pessimista, pois resumidamente alega que estar apaixonado é ruim e que nunca deve-se unir-se a uma pessoa por quem se apaixona, Sócrates reconhece seu erro logo em seguida e busca corrigir-se, continuando o dialogo com Fedro e demonstrando que o amor é mais ideal e virtuoso do que a paixão erótica/ sensual. Ambos podem ser causados por uma mania (loucura, ou estado alterado da mente), mas somente o amor é transcendente e mais próximo do que é verdadeiramente belo. 

Note que a filosofia socrática citada aqui, além de abordar um sentimento, traça sua relação com um conteúdo moral (o bem, as virtudes, os valores), da ética - um campo fundamental que serve, ou deveria servir de base para ciências humanas como o Direito. Trata de um elemento que deveria ser objeto de estudo da psicologia (o amor) e que conecta-se com Ética, Ontologia (o que é mais verdadeiro, o que existe) e até mesmo com Religião/ espiritualidade. A moral, os valores e virtudes (enfim o bem), são um tema importante que estão por trás de toda decisão humana e que se tornaram mais evidentes com o desenvolvimento da "inteligência artificial" neste início de século 21 - tema o qual devo abordar logo mais neste blog.

Fontes:

JOWETT, Benjamin; The Dialogues of Plato/ Phaedrus (tradução do grego ao inglês)

Diálogos III (Fedro), tradução de Edson Bini - Edipro

sábado, 29 de julho de 2023

Smartphones e IAs

 


Este post surgiu justamente após eu gerar o desenho acima no criador de imagens do Bing para achar a tela de login e gerar mais pontos para recompensas para trocar por Robux para a minha enteada.

Todos os assuntos tratados nas linhas acima estão relacionados à motivação por trás desta reflexão. O smartphone já foi abordado por mim neste blog e ele volta à tona novamente. Aliás, tecnologia e IA também foram abordados, embora com motivação coercitiva. O que adiciona componentes às reflexões anteriores são acontecimentos recentes e minha própria vivência: a abundância de matérias sobre IA após o rebuliço causado pelo ChatGPT; a abundância de vídeos sobre telas e crianças que surge nas minhas redes sociais empurrados pelos algorítmos; a observação do comportamento da minha esposa e minha enteada; a reflexão sobre como agir com meu filho que está a caminho de nossa vivência fora de úteros.

O desenho retrata o smartphone como ele é descrito nesses vídeos das minhas redes sociais (um monstro), mas ainda com o nosso olhar pessoal lançado sobre ele (um monstro meigo, pronto para interação infantil). E ele é meigo porque embora consigamos reconhecer o enorme perigo que ele representa, nós não conseguimos largá-lo. E achamos meia-soluções para nossos problemas, 'ah, vamos cortar o tablet das crianças somente de fim de semana', 'vou jogar esse jogo de caça-níqueis só uma vez por semana', 'vou só desativar as notificações desse grupo com 5000 integrantes', 'deixa eu só responder essa pergunta sobre meu serviço'...e por aí vai.

A verdade é que o smartphone já é praticamente indispensável como ferramenta e a pressão social só aumenta ('Instale esse app para fazer isso, instale esse outro para fazer outra coisa, instale para ter a conta gold...'). É impensável você estar em alguns cargos e não ter um celular, as chances de você ser demitido são grandes. Estamos caminhando para aquele episódio de Black Mirror, o primeiro da terceira temporada, Nose Dive (o que aliás me fez pensar agora mesmo no mergulho do meu nariz em direção à tela e minhas constantes dores no pescoço). O episódio aliás, tem como foco as avaliações, mas ninguém vivia sem um celular na mão.

As avaliações merecem uma reflexão à parte. Outra pressão social. Uma pressão por excelência, aliás, onde apenas a nota máxima é aceita. 10 ou 5, dependendo da escala, todo o restante é um ultraje, é como se gritassem 'ou é perfeito ou é um lixo completo!' Uma enorme trama de choque entre o subjetivismo e a exigência por entrega máxima e descolada do entorno. É claro que sabemos o que está por trás de todo esse oceano de chorume: o capitalismo.

Eu defendi o smartphone no primeiro post diminuindo sua culpa no cenário ao dizer que é apenas um foco importante do capitalismo, mas esses vídeos no Instagram, Facebook, Tiktok, acabam me empurrando na direção de arrastá-lo um pouco mais próximo do grande vilão. E essa tecnologia entra no time das redes sociais com seus algoritmos viciantes, com seus truques para prender a atenção das pessoas baseados em psicologia.

O que acontece é que por mais que gostamos de pensar que os mestres das nossas mentes somos nós mesmos, a verdade não é bem essa. Nossas mentes possuem componentes biológicos que não podem ser ignorados, que afetam nosso comportamento e a própria formação de raciocínio lógico. Como você já pode imaginar, isso é muito mais sério quando o assunto é a mente de uma criança.

Eu recomendo que você faça uma busca desses vídeos sobre crianças e telas e tente filtrar o que há de muito sério ali. Eu não acompanhei o desenvolvimento da minha enteada, estou com ela há um pouco menos de 1 ano, mas sei reconhecer que é um comportamento muito diferente do meu e dos meus irmãos como crianças. Afora todo o diferencial causado por criação e épocas diferentes, o smartphone parece estar relacionado à boa parte desse comportamento discrepante.

Minha enteada possui acesso irrestrito ao smartphone. Basicamente seu universo na internet se resume ao YouTube, OiTube, Tiktok e Roblox. Existe certa semelhança com nossa infância, onde tínhamos acesso à Globo, Manchete, SBT, Record e Bandeirantes (por onde estavam distribuídos os desenhos e séries japonesas), e ao Nintendo e Supernintendo. A diferença principal é a escolha do conteúdo e, principalmente, a escolha do quando. Quem ditava o que e quando iríamos assistir TV eram as emissoras de TV (mais as restrições dos pais - 'Esse filme não é pra criança, vai dormir').

Hoje não é assim. A criança tem o que quer, quando quer (dentro do limite do que o capitalismo oferta, com o pagamento sendo realizado por assinatura ou por propagandas enfiadas guela abaixo). Minha esposa disse que tentou utilizar algum grau de controle parental no celular, mas retrocedeu ante à agressividade da menina.

Recentemente a menina começou a dar socos na tela do celular para extravasar sua ira com o desempenho do aparelho (que talvez tenha alguma relação com o software de controle parental da Google que instalei - preciso pesquisar sobre) ou seu próprio desempenho nos jogos (meu irmão do meio já fez isso com a TV). Está com a tela toda rachada (novamente, culpa parcial minha que removi a ridícula película toda debulhada e com 'orelha de livro').

É claro que alguns pais possuem um controle maior sobre essa parte da educação dos filhos, mas receio que sejam minoria. Os próprios pais podem estar tentando 'liderar sem dar o exemplo'. Horas e horas na frente da tela, respondendo como zumbis (quando respondem), acumulando tarefas atrasadas, comprometendo-se com o trabalho fora do horário de expediente, rodando sua timeline até não poder mais.

Recentemente voltei ao Facebook, ao Instagram, e criei contas para Kwai e Tiktok. Com exceção do Facebook, cuja conta eu havia colocado em suspensão lá pelos idos de 2013 (esta conta, uma outra durou mais tempo), as outras redes 'não me conheciam', e o conteúdo sugerido era duro de aguentar. O algoritmo do Kwai teve uma estratégia interessante ao apostar em softporn, mas ficou eternamente preso a isso até eu desinstalar. O Tiktok teve alguma dificuldade em se adaptar ao meu gosto, mas continuei por lá para dar uma olhada no conteúdo da minha enteada. Já o Instagram, demorou, mas conseguiu começar a ofertar conteúdo que me atraísse (o expertise do Zuckberg deve ter alguma influência aí), e eu já estou mais preso ao celular.

O quanto nós, com nossos cérebros de adultos, conseguimos ficar livres da influência dos truques psicológicos engendrados pelos cérebros por trás das redes sociais? É uma pergunta importante. A capacidade de ação dessas tecnologias aumenta assustadoramente com IAs, big data, machine learning.

A discussão vai mais longe quando questionamos o quanto essas IAs podem fazer no nosso lugar. Outra moda nos vídeos empurrados para mim é a de pessoas indicando quais IAs utilizar em determinadas tarefas. E é claro que não podia faltar a discussão sobre se vamos perder nossos empregos. Eu já havia citado o caso do drone programador no meu post forçado por entrevista de emprego. As demissões em massa de programadores vieram nessa linha. Não sei se vamos todos perder nossos empregos, mas que haverá uma reconfiguração mais drástica da força de trabalho, haverá.

Há solução para esses problemas? A resposta que depende de fatores que escapam de nosso tempo, seria a classe trabalhadora tomar o poder. Mas em escala menor, vejo a socialização como paliativa, talvez até propondo alternativas que caminhem em direção coincidente com a que uma revolução tomaria.

Minha enteada esquece o celular boa parte do tempo em que está com os amigos. Minha esposa também o larga quando está com seus conhecidos. Eles se articulam em redes de ajuda distorcidas por interesses pessoais, mas que acabam funcionando parcialmente.

Na última crise mais grave na Argentina vimos notícias sobre uma espécie de volta ao escambo. Quem vive em São Paulo pode já ter observado a rede de ajuda que os imigrantes bolivianos possuem, com carros e casas coletivas. De modo menor, isso também é existente entre os nordestinos que foram para São Paulo. Aqui em Salinópolis existe uma rede de comércio menor derivada da coleta de frutos do mar, do mangue, etc.

Enfim, essas soluções paliativas certamente surgirão nas próximas crises econômicas para evitar os maiores danos. Se podem evoluir para algo mais organizado e politizado, teremos que observar.

O quanto a socialização pode barrar a influência das propriedades viciantes de tecnologias e alimentação industrial também precisa ser observado. Mesmo limitada pela questão da aceitação social desses elementos viciantes, ela tem uma influência positiva na mente humana, mas isso não impedirá os danos físicos que esses elementos podem causar na saúde (seja tela fazendo mal aos olhos, ou açúcar e sal causando diversos males).

Para velhos resmungões como eu, que possuem certa aversão à socialização, resta confiar mais no grupo seleto de pessoas que você escolheu manter por perto e fortalecer sua mente.

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Mente, Tempo e Pressupostos Filosóficos da Ciência

 

Trago aqui as explicações sobre o tempo do astrofísico, matemático e filósofo Arthur Stanley Eddington e um resumo sobre as ideias do psiquiatra Eugene Minkowski e do filósofo Henry Bérgson. A partir destes estudos é possível perceber a relação entre diversas áreas do conhecimento e como elas apontam algumas contradições das bases da ciência tradicional que ainda é a corrente científica principal neste início de século 21. 

Após uma breve citação sobre o filósofo Henry Bergson, que diferenciava o tempo vivido (na consciência etc) dos conceitos da física newtoniana de espaço e tempo, Eddington, em seu livro "A Natureza do Mundo Físico", afirma que a teoria de Einstein, esclareceu qual é a natureza "dessa quantidade" que, sob o nome de tempo, tornou-se parte fundamental da estrutura da física clássica, ao constatar que o tempo físico se mistura de algum modo com o espaço: 

"Existe uma quantidade, não reconhecida na física pré-relatividade, que representa mais diretamente o tempo conhecido pela consciência. Isso é chamado de tempo adequado ou intervalo." O astrofísico e filósofo diz que este tempo adequado é separado e diferente do espaço próprio. E conclui aos seus leitores: "seu protesto em nome do bom senso contra a mistura de tempo e espaço é um sentimento que desejo encorajar. Tempo e espaço devem ser separados. A representação atual do mundo duradouro como um espaço tridimensional saltando de instante a instante através do tempo é uma tentativa malsucedida de separá-los. Volte comigo para o mundo virginal quadridimensional e nós o esculpiremos de novo em um plano que os manterá inteiramente distintos. Podemos então ressuscitar o tempo quase esquecido da consciência e descobrir que ele tem uma importância gratificante no esquema absoluto da Natureza." 

Eddington então tenta mostrar como o ser humano foi considerando tempo e espaço diferentes entre si, de modo quase axiomático: 

"Se duas pessoas se encontram duas vezes, elas devem ter vivido o mesmo tempo entre os dois encontros, mesmo que uma delas tenha viajado para uma parte distante do universo e voltado nesse ínterim. 

Um experimento absurdamente impossível, você dirá. Isso mesmo; está fora de toda experiência. Portanto, posso sugerir que você não está apelando para sua experiência do tempo quando se opõe a uma teoria que nega a afirmação acima? E, no entanto, se a pergunta for pressionada, a maioria das pessoas responderia com impaciência que é claro que a afirmação é verdadeira. Eles formaram uma noção de tempo rolando fora de nós de uma maneira que faz isso parecer inevitável. Eles não se perguntam se essa conclusão é garantida por alguma coisa em sua experiência real do tempo. 

Embora não possamos tentar a experiência de enviar um homem para outra parte do universo, temos conhecimento científico suficiente para calcular as taxas de processos atômicos e outros processos físicos em um corpo em repouso e em um corpo viajando rapidamente. Podemos dizer definitivamente que os processos corporais do viajante ocorrem mais lentamente do que os processos correspondentes no homem em repouso. Isso não é particularmente misterioso; é bem conhecido tanto pela teoria quanto pela experiência que a massa ou inércia da matéria aumenta quando a velocidade aumenta. O retardo é uma consequência natural da maior inércia. Assim, no que diz respeito aos processos corporais, o viajante veloz vive mais devagar. Seu ciclo de digestão e fadiga; a taxa de resposta muscular ao estímulo; o desenvolvimento de seu corpo da juventude à idade; os processos materiais em seu cérebro que devem mais ou menos acompanhar a passagem de pensamentos e emoções; o relógio que bate no bolso do colete; tudo isso deve ser retardado na mesma proporção. Se a velocidade da viagem for muito grande, podemos descobrir que, enquanto o morador do lar envelheceu 70 anos, o viajante envelheceu 1 ano. Ele só encontrou apetite para 365 cafés da manhã, almoços etc.; seu intelecto, obstruído por um cérebro lento, apenas atravessou a quantidade de pensamento adequada a um ano de vida terrestre. Seu relógio, que fornece um cálculo mais preciso e científico, confirma isso. A julgar pelo tempo que a consciência tenta medir à sua maneira grosseira - e, repito, esta é a única contagem do tempo que temos o direito de esperar ser distinta do espaço - os dois homens não viveram o mesmo tempo entre os dois encontros. ao tempo estimado pela consciência é complicado pelo fato de que o cálculo é muito errático. “Vou lhe dizer com quem o Tempo caminha, com quem o Tempo trota, com quem o Tempo galopa e com quem ele fica parado.” Não me referi a essas variações subjetivas. Não arrasto de bom grado um cronometrista tão satisfatório; só eu tenho que lidar com o crítico que me diz o que “ele sente em seus ossos” sobre o tempo, e eu apontaria para ele que a base desse sentimento é o tempo vivido, que acabamos de ver pode ser de 70 anos para um individual e 1 ano por outro entre seus dois encontros. Podemos calcular o “tempo vivido” de forma bastante científica, por ex. por um relógio viajando com o indivíduo em questão e compartilhando suas mudanças de inércia com velocidade. Mas há desvantagens óbvias na adoção geral do “tempo vivido”. Pode ser útil para cada indivíduo ter um tempo privado exatamente proporcional ao seu tempo vivido; mas seria extremamente inconveniente para marcar consultas. Portanto, o Astrônomo Real adotou um cálculo de tempo universal que não segue estritamente o tempo vivido. Segundo ele, o lapso de tempo não depende de como o objeto em consideração se moveu nesse meio tempo. Admito que esse cálculo é um pouco difícil para nosso viajante que voltou, que será considerado por ele como um octogenário, embora, ao que tudo indica, ainda seja um adolescente. 

Mas sacrifícios devem ser feitos para o benefício geral. Na prática, não temos de lidar com seres humanos viajando a grande velocidade; mas temos de lidar com átomos e elétrons viajando a uma velocidade terrível, de modo que a questão do cálculo do tempo privado versus o cálculo geral do tempo é muito prática. 

Assim, no tempo físico, considera-se que duas pessoas viveram o mesmo tempo entre dois encontros, esteja ou não de acordo com sua experiência real. O conseqüente desvio do tempo da experiência é responsável pela mistura de tempo e espaço, o que, é claro, seria impossível se o tempo da experiência direta tivesse sido rigidamente respeitado. O tempo físico é, como o espaço, uma espécie de moldura na qual localizamos os eventos do mundo externo. Vamos agora considerar como, na prática, os eventos externos estão localizados em um quadro de espaço e tempo." 

Eddington então afirma que existe uma escolha infinita de quadros alternativos; e segue mostrando como localiza os eventos em seu quadro. 

Fig. 1 

"Localização dos Eventos Na Fig. 1 você vê uma coleção de eventos, indicados por círculos. No momento, eles não estão em seus devidos lugares; esse é o trabalho diante de mim - colocá-los em uma localização adequada em meu quadro de espaço e tempo. Entre eles, posso reconhecer e rotular imediatamente o evento Aqui-Agora, viz. o que está acontecendo nesta sala neste momento. Os outros eventos estão em graus variados de distância do Aqui-Agora, e é óbvio para mim que a distância não é apenas de diferentes graus, mas de diferentes tipos. Alguns eventos se espalharam para o que de maneira geral chamo de Passado; posso contemplar outros que estão distantes no futuro; outros estão distantes de outra maneira em direção à China ou ao Peru, ou em termos gerais a outros lugares. Nesta foto, só tenho espaço para uma dimensão de Outro Lugar; outra dimensão se projeta em ângulo reto com o papel; e você deve imaginar a terceira dimensão da melhor maneira possível. 

Agora devemos passar desse vago esquema de localização para um esquema preciso. A primeira e mais importante coisa é colocar-me em cena. Parece egoísta; mas, veja bem, é minha moldura de espaço que será usada, então tudo paira ao meu redor. Aqui estou eu - uma espécie de verme quadridimensional (Fig. 2). É um retrato correto; Eu tenho uma extensão considerável em direção ao Passado e presumivelmente em direção ao Futuro, e apenas uma extensão moderada em direção a Outro Lugar. O “eu instantâneo”, ou seja, eu mesmo neste instante, coincide com o evento Aqui-Agora. Examinando o mundo do Aqui-Agora, posso ver muitos outros eventos acontecendo agora. Isso põe em minha cabeça que o instante do qual estou consciente aqui deve ser estendido para incluí-los; e chego à conclusão de que o Agora não se limita ao Aqui-Agora. Eu, portanto, desenho o instante Agora, correndo como uma seção limpa através do mundo dos eventos, a fim de acomodar todos os eventos distantes que estão acontecendo agora. Seleciono os eventos que vejo acontecendo agora e os coloco nesta seção, que chamo de momento do tempo ou “estado instantâneo do mundo”. Eu os localizo no Agora porque eles parecem ser o Agora. 


Fig. 2 

Este método de localização durou até o ano de 1667, quando se verificou a impossibilidade de fazê-lo funcionar de forma consistente. Foi então descoberto pelo astrônomo Roemer que o que é visto agora não pode ser colocado no instante Agora. (Na linguagem comum, a luz leva tempo para viajar.) Isso foi realmente um golpe para todo o sistema de instantes mundiais, que foram especialmente inventados para acomodar esses eventos. Estávamos misturando dois eventos distintos; houve o evento original em algum lugar no mundo externo e houve um segundo evento, viz. a visão por nós do primeiro evento. O segundo evento foi em nossos corpos Aqui-Agora; o primeiro evento não foi nem aqui nem agora. A experiência, portanto, não dá nenhuma indicação de um Agora que não está Aqui; e poderíamos muito bem ter abandonado a ideia de que temos reconhecimento intuitivo de um Agora diferente do Aqui-Agora, que foi a razão original para postular instantes mundiais Agora. 

No entanto, acostumados aos instantes mundiais, os físicos não estavam dispostos a abandoná-los. E, de fato, eles têm uma utilidade considerável, desde que não os levemos muito a sério. Eles foram deixados como uma característica da imagem, e duas linhas Visto-Agora foram desenhadas, inclinando-se para trás a partir da linha Agora, na qual os eventos vistos agora devem ser consistentemente colocados. A cotangente do ângulo entre as linhas Visto-Agora e a linha Agora foi interpretada como a velocidade da luz. 

Assim, quando vejo um evento em uma parte distante do universo, por ex. o surgimento de uma nova estrela, localizo-a (muito apropriadamente) na linha Visto-Agora. Em seguida, faço um determinado cálculo a partir da paralaxe medida da estrela e desenho minha linha Agora para passar, digamos, 300 anos à frente do evento, e minha linha Agora de 300 anos atrás para passar pelo evento. 

Por este método eu traço o curso de minhas linhas do Agora ou instantes mundiais entre os eventos, e obtenho um quadro de localização no tempo para eventos externos. As linhas auxiliares do Visto-Agora, tendo cumprido seu propósito, são apagadas do quadro. 


Fig. 3 

É assim que localizo os eventos; e você? Devemos primeiro colocar Você na imagem (Fig. 3). Vamos supor que você está em outra estrela movendo-se com velocidade diferente, mas passando perto da Terra no momento presente. Você e eu estávamos distantes no passado e estaremos novamente no futuro, mas nós dois estamos Aqui-Agora. Isso é devidamente mostrado na foto. Examinamos o mundo do Aqui-Agora e, é claro, ambos vemos os mesmos eventos simultaneamente. Podemos receber impressões bastante diferentes deles; nossos diferentes movimentos causarão diferentes efeitos Doppler, contrações de FitzGerald, etc. Pode haver pequenos mal-entendidos até percebermos que o que você descreve como um quadrado vermelho é o que eu descreveria como um retângulo verde e assim por diante. Mas, permitindo esse tipo de diferença de descrição, logo ficará claro que estamos olhando para os mesmos eventos, e concordaremos inteiramente sobre como as linhas do Visto-Agora se posicionam em relação aos eventos. Começando com nossas linhas comuns do Visto-Agora, você tem que fazer os cálculos para desenhar sua linha Agora entre os eventos, e você a traça como mostrado na Fig. 3. 

 Como é que, partindo das mesmas linhas do Visto-Agora, você não reproduz a minha linha do Agora? É porque uma certa quantidade medida, viz. a velocidade da luz, tem que ser empregada nos cálculos; e naturalmente você confia em suas medidas assim como eu confio nas minhas. Como nosso instrumento é afetado por diferentes contrações de FitzGerald, etc., há muito espaço para divergência. O mais surpreendente é que ambos encontramos a mesma velocidade da luz, 299.796 quilômetros por segundo. Mas esse aparente acordo é realmente um desacordo; porque você considera isso uma velocidade relativa ao seu planeta e eu considero que é a velocidade relativa ao meu.* Portanto, nossos cálculos não estão de acordo e sua linha do Agora difere da minha. 

* A velocidade medida da luz é a velocidade média de ida e volta. A velocidade em uma direção isoladamente não pode ser medida até que as linhas do Agora tenham sido estabelecidas e, portanto, não pode ser usada para estabelecer as linhas do Agora. Assim, há um impasse ao traçar as linhas do Agora, que só podem ser removidas por uma suposição ou convenção arbitrária. A convenção realmente adotada é que (em relação ao observador) as velocidades da luz nas duas direções opostas são iguais. As linhas do Agora resultantes devem, portanto, ser consideradas igualmente convencionais. 

Se acreditarmos que nossos instantes mundiais ou linhas do Agora são algo inerente ao mundo fora de nós, brigaremos terrivelmente. Na minha opinião, é ridículo que você tome eventos à direita da imagem que ainda não aconteceram e eventos à esquerda que já são passados e chame a combinação de uma condição instantânea do universo. Você está igualmente desdenhoso do meu agrupamento. Nunca podemos concordar. Certamente, pela foto, parece que meus instantes foram mais naturais que os seus; mas isso é porque eu desenhei a imagem. Você, é claro, redesenharia com suas linhas do Agora em ângulos retos com você. Mas não precisamos discutir se as linhas do Agora são meramente linhas de referência traçadas em todo o mundo para conveniência na localização de eventos – como as linhas de latitude e longitude na Terra. Não há, então, questão de uma maneira certa e uma maneira errada de traçar as linhas; nós os desenhamos da maneira que melhor se adapte à nossa conveniência. Os instantes mundiais não são planos naturais de clivagem do tempo; não há nada equivalente a eles na estrutura absoluta do mundo; são partições imaginárias que achamos conveniente adotar." 

Eddington conclui que acostumamo-nos a considerar o mundo (o mundo duradouro) como estratificado em uma sucessão de estados instantâneos. Porém, em suas palavras, o astrofísico diz que um observador em outra estrela faria os estratos correrem em uma direção diferente da nossa e que nós podemos ver mais claramente o mecanismo real do mundo físico se pudermos livrar nossas mentes dessa ilusão de estratificação. 

Passado e Futuro Absolutos 

A seguir Eddington "tenta atingir a visão absoluta" do tempo (futuro e passado): "Apagamos todas as linhas do Agora. Apagamos Você e Eu mesmo, já que não somos mais essenciais para o mundo. Mas as linhas Visto-Agora são deixadas. Eles são absolutos, pois todos os observadores do Aqui-Agora concordam sobre eles. A imagem plana é uma seção; você deve imaginá-lo girado (na verdade, duas vezes girado, pois existem mais duas dimensões fora da imagem). O locus Visto-Agora é, portanto, realmente um cone; ou levando em consideração o prolongamento das linhas no futuro, um cone duplo ou figura de ampulheta (Fig. 4). Essas ampulhetas (desenhadas através de cada ponto do mundo considerado sucessivamente como um Aqui-Agora) incorporam o que sabemos da estrutura absoluta do mundo no que diz respeito ao espaço e ao tempo. Eles mostram como funciona o “grão” do mundo. 


Como a ampulheta é absoluta, seus dois cones fornecem, respectivamente, um Futuro Absoluto e um Passado Absoluto. Para o evento Aqui-Agora. Eles são separados por uma zona neutra em forma de cunha que (absolutamente) não é passado nem futuro. A impressão comum de que a relatividade vira o passado e o futuro completamente de pernas para o ar é bastante falsa. Mas, ao contrário do passado e do futuro relativos, o passado e o futuro absolutos não são separados por um presente infinitamente estreito. Sugere-se que a cunha neutra pode ser chamada de Presente Absoluto; mas não acho que seja uma boa nomenclatura. É muito melhor descrito como Absolute Elsewhere. Abolimos as linhas do Agora, e no mundo absoluto o presente (Agora) está restrito ao Aqui-Agora. 

Talvez eu possa ilustrar as condições peculiares decorrentes da zona neutra em forma de cunha com um exemplo bastante hipotético. Suponha que você esteja apaixonado por uma senhora em Netuno e que ela retribua o sentimento. Será algum consolo para a separação melancólica se você puder dizer a si mesmo em algum momento possivelmente predeterminado: “Ela está pensando em mim agora”. Infelizmente surgiu uma dificuldade porque tivemos que abolir o Agora. Não existe um Agora absoluto, mas apenas os vários Agoras relativos que diferem de acordo com o cálculo de diferentes observadores e cobrem toda a cunha neutra que à distância de Netuno tem cerca de oito horas de espessura. Ela terá que pensar em você continuamente por oito horas seguidas para contornar a ambigüidade do “agora”. 

Na maior separação possível na Terra, a espessura da cunha neutra não passa de um décimo de segundo; de modo que o sincronismo terrestre não seja seriamente interferido. Isso sugere uma qualificação de nossa conclusão anterior de que o presente absoluto está confinado ao Aqui-Agora. É verdade no que diz respeito a eventos instantâneos (eventos pontuais). Mas, na prática, os eventos que notamos são de duração mais do que infinitesimal. Se a duração for suficiente para cobrir a largura da zona neutra, então o evento tomado como um todo pode ser considerado absolutamente Agora. Deste ponto de vista, o “agora” de um evento é como uma sombra projetada por ele no espaço, e quanto mais longo o evento, mais longe a sombra da sombra se estenderá. 

À medida que a velocidade da matéria se aproxima da velocidade da luz, sua massa aumenta até o infinito e, portanto, é impossível fazer a matéria viajar mais rápido que a luz. Esta conclusão é deduzida das leis clássicas da física, e o aumento da massa foi verificado experimentalmente até velocidades muito altas. No mundo absoluto, isso significa que uma partícula de matéria só pode proceder do Aqui-Agora para o futuro absoluto – o que, você concordará, é uma restrição razoável e apropriada. Não pode viajar para a zona neutra; o cone limite é o rastro da luz ou de qualquer coisa que se mova com a velocidade da luz. Nós mesmos estamos apegados a corpos materiais e, portanto, só podemos prosseguir para o futuro absoluto. 

Eventos no futuro absoluto não estão absolutamente em outro lugar. Seria possível a um observador viajar do Aqui-Agora ao evento em questão a tempo de vivenciá-lo, desde que a velocidade necessária seja menor que a da luz; em relação ao referencial de tal observador, o evento seria Aqui. Nenhum observador pode alcançar um evento na zona neutra, pois a velocidade necessária é muito grande. O evento não está Aqui para nenhum observador (do Aqui-Agora); portanto, está absolutamente em outro lugar. 

A Distinção Absoluta de Espaço e Tempo 

Ao dividir o mundo em Absoluto Passado e Futuro, por um lado, e Absoluto "Noutro Lugar", por outro lado, nossas ampulhetas restauraram uma diferenciação fundamental entre tempo e espaço. Não é uma distinção entre relações temporais e espaciais. Os eventos podem estar para nós em uma relação temporal (absolutamente passado ou futuro) ou em uma relação espacial (absolutamente em outro lugar), mas não em ambos. 

As relações temporais irradiam para os cones passados e futuros e as relações espaciais para a cunha neutra; eles são mantidos absolutamente separados pelas linhas do Visto-Agora que identificamos com o grão de estrutura absoluta no mundo."

A seguir Eddington explica a diferença entre extensão de tempo e extensão de espaço. O cientista afirma que nosso curso através do mundo é para o futuro absoluto, ou seja, ao longo de uma sequência de relações temporais. E assim não podemos ter uma experiência semelhante de relações espaciais porque isso envolveria viajar com velocidade maior que a da luz. Então temos experiência imediata da relação temporal, mas não da relação espacial. "Nosso conhecimento das relações espaciais é indireto, como quase todo o nosso conhecimento do mundo externo - uma questão de inferência e interpretação das impressões que nos atingem por meio de nossos órgãos dos sentidos." 

O peso destas afimações de Arthur Eddington é tão significativo que elas devem gerar impacto na psicologia e uma discussão sobre o assunto deve ser válida ontologicamente e epistemologicamente para realizar possíveis ajustes na construção da psicologia como conhecimento: Como físicos, Eddington,Einstein, Rutherford e Heisenberg estudaram o espaço em nosso entorno e tiveram alguma propriedade para falar o quanto do conhecimento construído era mera inferência e interpretação. Argumentos baseados na existência de apenas 3 dimensões, que reduzem a psicologia à ontologia materialista devem no mínimo ser corrigidos, mas para não deixar este texto maior do que já está, não abordarei aqui estes argumentos existentes em certas abordagens psicológicas que praticamente se apoiam na visão de ciência da física clássica derrubada por Einstein, Eddington e outros físicos. 

Eddington continua: "Temos conhecimento indireto semelhante das relações temporais existentes entre os eventos do mundo fora de nós; mas, além disso, temos experiência direta das relações temporais que nós mesmos estamos atravessando - um conhecimento do tempo que não vem por meio de órgãos externos dos sentidos, mas toma um atalho em nossa consciência. Quando fecho meus olhos e me retiro para minha mente interior, sinto-me duradouro, não me sinto extenso. É esse sentimento do tempo afetando a nós mesmos que é tão peculiarmente característico dele - e não apenas existindo nas relações de eventos externos; O espaço, por outro lado, é sempre apreciado como algo externo. É por isso que o tempo nos parece muito mais misterioso do que o espaço. Não sabemos nada sobre a natureza intrínseca do espaço e, portanto, é bastante fácil concebê-lo satisfatoriamente. Temos conhecimento íntimo da natureza do tempo e, portanto, confunde nossa compreensão. É o mesmo paradoxo que nos faz acreditar que entendemos a natureza de uma mesa comum, enquanto a natureza da personalidade humana é completamente misteriosa. Nunca tivemos aquele contato íntimo com o espaço e as mesas que nos faria perceber o quanto elas são misteriosas; temos um conhecimento direto do tempo e do espírito humano que nos faz rejeitar como inadequada aquela concepção meramente simbólica do mundo que muitas vezes é confundida com uma visão (insight, introspecção) em sua natureza." 

Na sequência Eddigton explica o "mundo" quadridimensional: "Não sei se você está profundamente ciente do fato de que, há algum tempo, estamos imersos em um mundo quadridimensional. A quarta dimensão dispensa apresentações: assim que começamos a considerar os eventos, ela estava lá: O "mundo" quadridimensional. Os eventos obviamente têm uma ordem quádrupla que podemos dissecar em direita ou esquerda, atrás ou na frente, acima ou abaixo, mais cedo ou mais tarde - ou em muitos conjuntos alternativos de especificação quádrupla. A quarta dimensão não é uma concepção difícil. Não é difícil conceber os eventos como ordenados em quatro dimensões; é impossível concebê-los de outra forma. O problema começa quando continuamos nessa linha de pensamento, porque por um longo costume dividimos o mundo dos eventos em seções ou instantes tridimensionais e consideramos o empilhamento dos instantes como algo distinto de uma dimensão. 

Isso nos dá a concepção usual de um mundo tridimensional flutuando na correnteza do tempo. Este mimo de uma dimensão particular não é totalmente sem fundamento; é nossa apreciação grosseira da separação absoluta das relações de espaço e relações de tempo pelas figuras da ampulheta. Mas a discriminação grosseira deve ser substituída por uma discriminação mais precisa. Os supostos planos de estrutura representados pelas linhas Agora separavam uma dimensão das outras três; mas os cones de estrutura dados pelas figuras da ampulheta mantêm as quatro dimensões firmemente unidas." 

Estamos acostumados a pensar em um homem à parte de sua duração. Quando retratei “Eu mesmo” na Fig. 2, você ficou surpreso por eu incluir minha infância e velhice. Mas pensar em um homem sem sua duração é tão abstrato quanto pensar em um homem sem seu interior. As abstrações são úteis, e um homem sem seu interior (ou seja, uma superfície) é uma concepção geométrica bem conhecida. Mas devemos perceber o que é uma abstração e o que não é. Os “vermes quadridimensionais” apresentados neste capítulo parecem terrivelmente abstratos para muitas pessoas. De jeito nenhum; são concepções desconhecidas, mas não são concepções abstratas. É a seção do verme (o homem agora) que é uma abstração. E como as seções podem ser tomadas em direções um pouco diferentes, a abstração é feita de forma diferente por diferentes observadores que, consequentemente, atribuem diferentes contrações de FitzGerald a ela. O homem não-abstrato perdurando no tempo é a fonte comum de onde são feitas as diferentes abstrações. 

A aparência de um mundo quadridimensional neste assunto é devido a Hermann Minkowski. Einstein mostrou a relatividade das quantidades familiares da física; Minkowski mostrou como recuperar o absoluto voltando à sua origem quadridimensional e pesquisando mais profundamente. 

A Velocidade da Luz 

Uma característica da teoria da relatividade que parece ter despertado interesse especial entre os filósofos é o caráter absoluto da velocidade da luz. Em geral, a velocidade é relativa. Se falo de uma velocidade de 40 quilômetros por segundo, devo acrescentar “relativa à Terra”, “relativa a Arcturus” ou qualquer outro corpo de referência que eu tenha em mente. Ninguém entenderá nada da minha declaração, a menos que isso seja adicionado ou implícito. Mas é um fato curioso que se falo de uma velocidade de 299.796 quilômetros por segundo é desnecessário acrescentar a frase explicativa. Relativo a quê? Relativo a toda e qualquer estrela ou partícula de matéria no universo. Você deve se lembrar que uma linha Visto-Agora, ou rastro de um flash de luz, representa o grão da estrutura do mundo. Assim, a peculiaridade de uma velocidade de 299.796 quilômetros por segundo é que ela coincide com o grão do mundo. Os vermes quadridimensionais que representam os corpos materiais devem necessariamente atravessar o grão até o futuro cone, e temos que introduzir algum tipo de quadro de referência para descrever seu curso. Mas o flash de luz está exatamente ao longo do grão, e não há necessidade de nenhum sistema artificial de partições para descrever esse fato. 

O número 299.796 (quilômetros por segundo) é, por assim dizer, um número de código para o grão da madeira. Outros números de código correspondem aos vários buracos-de-minhoca que podem casualmente cruzar o grão. Temos diferentes códigos correspondentes a diferentes estruturas de espaço e tempo; o código numérico do grão da madeira é o único que é o mesmo em todos os códigos. Isso não é um acidente; mas não sei se alguma inferência profunda pode ser tirada disso, além de que nossos códigos de medida foram planejados racionalmente de modo a se basear no essencial e não nos aspectos casuais da estrutura do mundo. 

A velocidade de 299.796 quilômetros por segundo, que ocupa uma posição única em cada sistema de medida, é comumente chamada de velocidade da luz. Mas é muito mais do que isso; é a velocidade com que a massa da matéria se torna infinita, os comprimentos se contraem até zero, os relógios param. Portanto, surge em todos os tipos de problemas, quer a luz esteja envolvida ou não. 

Ao afirmar o caráter absoluto da velocidade da luz, os cientistas querem dizer que lhe atribuíram o mesmo número em todos os sistemas de medida; mas isso é um arranjo privado próprio - um elogio involuntário à sua importância universal. 

Passando dos números de medida para a coisa descrita por eles, o “grão” é certamente uma característica absoluta do mundo, mas também o são os “buracos de minhoca” (partículas materiais). A diferença é que o grão é essencial e universal, os buracos de minhoca casuais. A ciência e a filosofia muitas vezes se opõem ao discutir o Absoluto - um mal-entendido que, receio, é principalmente culpa dos cientistas. Na ciência, estamos preocupados principalmente com o caráter absoluto ou relativo dos termos descritivos que empregamos; mas quando o termo absoluto é usado com referência ao que está sendo descrito, geralmente tem o significado vago de “universal” em oposição a “casual”. 

Outro ponto sobre o qual, às vezes, houve confusão é a existência de um limite superior para a velocidade. Não é permitido dizer que nenhuma velocidade pode ultrapassar 299.796 quilômetros por segundo. Por exemplo, imagine um holofote capaz de enviar um feixe paralelo preciso até Netuno. Se o holofote girar uma vez por minuto, a extremidade do feixe de Netuno se moverá em um círculo com velocidade muito maior do que o limite acima. Este é um exemplo de nosso hábito de criar velocidades por uma associação mental de estados que não estão em conexão causal direta. A afirmação feita pela teoria da relatividade é mais restrita, viz.- Nem a matéria, nem a energia, nem nada capaz de ser usado como sinal pode viajar a mais de 299.796 quilômetros por segundo, desde que a velocidade seja referida a um dos referenciais de espaço e tempo considerados neste capítulo.* 

* Algumas ressalvas desse tipo são claramente necessárias. Frequentemente empregamos para propósitos especiais um referencial girando com a Terra; neste quadro, as estrelas descrevem círculos uma vez por dia e, portanto, são atribuídas velocidades enormes. 

A velocidade da luz na matéria pode em certas circunstâncias (no fenômeno da dispersão anômala) exceder este valor. Mas a velocidade mais alta só é alcançada depois que a luz passa pela matéria por alguns momentos, de modo a colocar as moléculas em vibração simpática. Um flash de luz não anunciado viaja mais lentamente. A velocidade, superior a 299.796 quilômetros por segundo, é, por assim dizer, alcançada por pré-combinação e não tem aplicação em sinalização. 

Somos obrigados a insistir nessa limitação da velocidade de sinalização. Tem o efeito de que só é possível sinalizar para o Futuro Absoluto. As consequências de ser capaz de transmitir mensagens relativas a eventos Aqui-Agora na cunha neutra são bizarras demais para contemplar. Ou a parte da cunha neutra que pode ser alcançada pelos sinais deve ser restringida de forma que viole o princípio da relatividade; ou será possível providenciar para que um confederado receba as mensagens que lhe enviaremos amanhã e as retransmita para nós para que as recebamos hoje! O limite da velocidade dos sinais é o nosso baluarte contra aquela confusão do passado e do futuro, da qual a teoria de Einstein às vezes é injustamente acusada. 

Expressa da maneira convencional, essa limitação da velocidade de sinalização a 299.796 quilômetros por segundo parece um decreto um tanto arbitrário da Natureza. Quase sentimos como um desafio encontrar algo que ande mais rápido. Mas se afirmarmos de forma absoluta que a sinalização só é possível ao longo de uma trilha de relação temporal e não ao longo de uma trilha de relação espacial, a restrição parece racional. Para violá-lo, não temos apenas que encontrar algo que vá apenas 1 quilômetro por segundo melhor, mas algo que ultrapasse essa distinção de tempo e espaço – que, estamos todos convencidos, deve ser mantida em qualquer teoria sensata."

Relação do Tempo com a Mente na Psiquiatria e na Filosofia 

A seguir serão mostradas as interpretações sobre o tempo e como este relaciona-se com a mente feitas pelo filósofo Henry Bérgson (citado por Eddington) e pelo psiquiatra fenomenólogo Eugene Minkowski. 

O mérito de Bérgson reside, segundo Piettre (1997), na sugestão da hipótese de que o tempo da natureza não é o tempo medida da ciência feito de instantes, mas um tempo constituído por uma duração irreversível e rica de um futuro. Sua grande contribuição foi a distinção entre tempo vivido como experiência interna, em contraposição ao tempo cronológico, que é mensurável (Amaral, 2004). 

Segundo Eugene Minkowski (1965), a noção de direção do tempo nos coloca diante do fenômeno já denominado por Bérgson (2005) de "élan vital". Assim como tudo na vida tem uma direção, o tempo tem o seu "élan vital", que cria o futuro antes de nós. Isto significa que ele é um instinto, uma energia que lança a vida à frente, para além do simples movimento de extensão e expansão do corpo; é a intencionalidade que orienta e direciona a vida rumo ao seu futuro. Para Minkowski (1965), quando o "élan vital" se "apaga", o Eu perde a velocidade e a dimensão do devenir, do futuro. O Eu, não mais presente no tempo, não o administra nas suas exigências temporais e dinâmicas, da duração, da continuidade, da propulsão organizada pela "atividade e espera", "desejo e esperança", e pela "ação ética", sustentada pela "prece". 

O tempo é uma experiência primária e vital, que de tão próxima, não consegue ser exaurida pelo conhecimento, pelos sentimentos ou pela vontade, e que se encontra na existência de duas formas: como "tempo assimilado ao espaço" e como "tempo qualidade ou tempo vivido". O primeiro refere-se ao tempo do "tic-tac" do relógio, do calendário, mensurável em dias, meses e anos, medido por leis naturais de duração, sucessão e continuidade. A segunda forma pela qual o devenir se encontra na existência humana refere-se ao tempo-qualidade ou tempo vivido. Este tempo, em oposição ao primeiro, não se reduz absolutamente às dimensões espaciais mensuráveis. É o tempo vivido na introspecção, tal como aparece à consciência; é um puro tempo dado à experiência. No existir cotidiano (Forghieri, 1993), independentemente do tempo do relógio, pode-se vivenciar o tempo com "velocidades", intensidades e "extensibilidades" que se diferenciam em virtude das situações e sentimentos que delas decorrem. 

Em relação ao passado, Minkowski (1965) apresenta três categorias – a recordação, o remorso e o pesar – elementos capazes de abrir de novo o caminho para o futuro, se ressignificados. 

A recordação, para ele, expande o presente e torna o passado revivido no aqui-e-agora, por intermédio de seus significados, que se tornam abertos para serem ressignificados; ela reforça valores e enriquece a vida. O remorso, caracterizado por uma recordação consciente de um passado, reconcilia-se com as exigências do devenir, e em seu caráter prospectivo, pode reparar as falhas de um tempo, eticamente projetado para a busca da ação ética. O pesar, outro fenômeno definido como uma extensão natural do passado, aplica-se a acontecimentos de menor gravidade, e se refere especialmente ao lamento pelo bem não cometido ou pelo mal materializado em um ato transgressivo, podendo também, em seu caráter prospectivo, ser ressignificado. O passado, para Minkowski (1965), é, pois, o tempo (já) vivido, recuperado pelas três categorias; no fenômeno da duração, é o "antes" que dá significado ao "agora" e ao "depois". 

O futuro: Em razão do fenômeno do "élan vital" (Minkowski, 1965), que contém de forma primitiva a noção de direção do tempo, nossa vida é essencialmente orientada para o futuro. Mesmo que se reviva o passado, em forma de memórias, ou se viva no passado, essa é uma questão de reviver ou de viver em. O futuro, por seu turno, é vivido de uma maneira mais direta e imediata, pois a atenção do eu é primariamente direcionada para ele. O futuro garante uma perspectiva ampla e majestosa diante do eu, a qual se perde de vista e o aproxima do misterioso, tão indispensável à vida espiritual quanto o ar puro para a respiração. 

Nesse sentido, há que se inquirir como o futuro pode ser vivido, sem que dele se tenha conhecimento. A resposta para a questão encontra-se relacionada aos seis fenômenos ou categorias do "élan vital" do eu, que lhe permitem viver intencionalmente o tempo, a saber: a atividade e a espera, o desejo e a esperança, a prece e a ação ética. 

A atividade é definida como "um fenômeno essencial da vida. Tudo que vive é ativo e tudo que é ativo vive" (Minkowski, 1965, p. 84). Ela é um dos fenômenos de natureza temporal que se encontra dirigida para o futuro ou o tempo advir, como menciona o autor, oferecendo-lhe uma vivência imediata. A atividade estende-se nessa direção naturalmente, e não pode ser fixada ou interrompida, permitindo ao eu a sensação de expansão e de identidade. É a energia vital que contém o fator duração ativa, responsável pela sequência, coerência e finalidade das ações que se sucedem no decorrer do tempo na vida do indivíduo, colocando-o diante do futuro. 

No seu sentido originário, nuclear, portanto, a atividade significa a alegria imediata de viver, apesar das perdas e dos fatores de limitação. Essa categoria foi vivenciada por Minkowski (1965) quando se encontrava em situação de risco no campo de concentração, e paradoxalmente, experienciava a alegria de ainda estar vivo. 

A atividade é, portanto, uma energia temporal, transformada em matéria que se funde com a abertura, com a potencialidade de contato com o meio ambiente, preenchendo um vazio repleto de possibilidades diante do indivíduo. É um fenômeno original e neutro, que muitas vezes parece ser suficiente em si mesmo, pois, em muitos momentos, o eu se deixa simplesmente viver, aproximando-se dos fenômenos da sintonia e do repouso, embora deles se diferencie. Em outros momentos, ela é atenção e tensão, uma energia concentrada, pronta para explodir na ação ou na sequência de ações, garantindo o ser e se identificando com a sua expansão. 

Enfim, se na atividade o eu se estende nos espaços vazios, tornando-se quase um todo, na espera o eu é reduzido à mais simples expressão, ficando sob ameaça de ser engolido, tornando-se quase nada. Não obstante, à medida que ambas as categorias se equilibram, uma a serviço da outra, como quando a espera se aproxima da essência da atividade, exprimindo uma tensão-abertura-prontidão em relação a um possível evento dado, como oportunidade-apelo-chamada, elas promovem a possibilidade de o eu atuar no mundo de forma adequada. 

Desejo e esperança : O desejo e a esperança, outros dois momentos do tempo, embora situados na mesma direção do tempo, rumo ao advir, estão para além da atividade e da espera, colaborando para sua construção. Essas duas categorias retiram o eu do contato imediato (sem intermediário), favorecendo o contato com o mediato, alargando a perspectiva do futuro diante de si mesmo, e afirmam que há sempre algo a desejar e a esperar da vida, do futuro. (a esperança e o desejo então fazem o intermédio entre o "eu" e o futuro). 

Sem o desejo, o eu perde sua força, coragem, intimidade consigo mesmo, e promove um grande vazio existencial que vai engolindo a vida e o tempo e degradando o espaço. 

À medida que o desejo abre, de forma mais ampla, o futuro diante do eu, supera a esfera particular do que se possui, indo sempre além. Só se pode desejar o que não se possui, o que gera o verdadeiro significado da vida. Dessa forma, há mais satisfação no desejo e na esperança do que na realização, na conquista, na posse, porque ambos possuem horizontes infinitos. Na realização, a obra fecha-se às demais possibilidades (Minkowski, 1965). 

A esperança é a característica que permite ao advir se apresentar à nossa frente, como um horizonte de possibilidades que, por si só, é mais fascinante do que a própria conquista. Aparentemente, a esperança pode dirigir-se ao passado, como, por exemplo, na expressão "tomara que ontem nada tenha acontecido ao meu amigo" em relação a um acidente ferroviário ainda não esclarecido pelas notas oficiais. Trata-se de um passado que se parece mais com o futuro, no qual há a espera das notícias, há a esperança de uma revelação futura, que mesmo pertencendo a um passado, será desvelada, dando espaços a sentimentos de alegria ou de dor no futuro. 

Como elemento constitutivo e construtivo do advir, a esperança situa-se além do otimismo e do pessimismo, produzindo um sentimento como na expressão "dar a volta por cima", e se faz presente, mesmo depois de inúmeras derrotas. A esperança, como o desejo, encontra-se tanto ou mais intimamente ligada ao eu, permitindo-lhe refugiar-se para contemplar a vida na sua extensão. Resistente ao próprio otimismo e ao pessimismo, a esperança vai além de ambos, é uma emoção contemplativa e construtiva porque, sem ela, o advir mediato não existiria. 

Prece e ação ética: Para além das categorias descritas, encontram-se as duas últimas, relacionadas com a prece e a ação ética. A esperança transporta o eu no tempo em direção à eternidade, e, nesse momento, ela se identifica com a prece. É ela que dá consistência à própria espera e a resgata da passividade. O agora da espera torna-se operante e se ilumina na esperança, resgatando e significando os seus insucessos e decepções (Minkowski, 1965). 

Como todos os outros fenômenos vitais, a prece tem sua origem na afirmação da vida, embora surja em circunstâncias nas quais ela aparece ameaçada, como na presença da morte, nos desastres físicos ou morais, que ameaçam o eu. Nessas situações, a esperança parece ser insuficiente para confortar o eu, promovendo o seu movimento em direção à prece. É o momento em que o eu se eleva para além de si mesmo, daquilo que o rodeia, em direção a um horizonte infinito, para uma esfera além do tempo e do espaço, cheia de grandeza, claridade e mistério (Minkowski, 1965). 

Por último, Minkowski (1965) identifica como o pilar principal da estrutura da temporalidade relacionada ao advir, a ação ética, por considerá-la um dos elementos constitutivos essenciais, senão o mais importante da vida e sobre o qual ela se baseia. Sem essa categoria, segundo ele, seríamos seres amorais, o que modificaria sobremaneira a vida e a abertura do futuro diante do ser humano. 

A ação ética, como a prece, tem uma ressonância totalmente natural, por sua própria essência, e se encontra ao alcance de cada um de nós. Ela é a realização do que há de "humano" em nós, do que é virtualmente comum em nós, daquilo que anima toda a nossa vida (Minkowski, 1965). Ela aproxima o eu daquilo que existe de mais sublime, de mais elevado, de mais ideal nele mesmo, favorecendo o progresso efetivo da sociedade. Por meio da ação ética, ocorre uma fusão imediata entre o universo imediato e o eu que, esquivando-se dos interesses que constituem a materialidade da vida, penetra e apela para o que existe de melhor em si mesmo, em uma inspeção luminosa, tomando consciência de si mesmo. 

Espaço-Tempo unidos: Explicando o surgimento de "Quadros" 

Voltando à obra de Eddington, neste seu texto ele diz que: "a ideia de uma multiplicidade de quadros de espaço foi estendida a uma multiplicidade de quadros de espaço e tempo. O sistema de localização no espaço, chamado moldura do espaço, é apenas uma parte de um sistema mais completo de localização de eventos no espaço e no tempo. A natureza não fornece nenhuma indicação de que um desses quadros deva ser preferido aos outros. O referencial particular no qual estamos relativamente em repouso tem uma simetria em relação a nós que outros referenciais não possuem, e por esta razão caímos na suposição comum de que é o único referencial razoável e adequado; mas essa perspectiva egocêntrica deve agora ser abandonada e todos os enquadramentos devem ser tratados da mesma forma. Considerando o tempo e o espaço juntos, pudemos entender como surge a multiplicidade de quadros. Eles correspondem a diferentes direções de seção do mundo quadridimensional dos eventos, sendo as seções os “instantes mundiais”. A simultaneidade (Agora) é vista como relativa. A negação da simultaneidade absoluta está intimamente ligada à negação da velocidade absoluta; o conhecimento da velocidade absoluta nos permitiria afirmar que certos eventos no passado ou no futuro ocorrem aqui, mas não agora; o conhecimento da simultaneidade absoluta nos diria que certos eventos ocorrem agora, mas não aqui. Removendo essas seções artificiais, tivemos um vislumbre da estrutura absoluta do mundo com seus grãos divergentes e entrelaçados segundo o plano das figuras da ampulheta. Por referência a essa estrutura, discernimos uma distinção absoluta entre separação de eventos semelhante ao espaço e semelhante ao tempo - uma distinção que justifica e explica nosso sentimento instintivo de que o espaço e o tempo são fundamentalmente diferentes." 

Por fim, Eddington afirma que uma das aplicações destas "descobertas" é determinar as mudanças das propriedades físicas dos objetos devido ao movimento rápido. Uma vez que o movimento pode igualmente ser descrito como um movimento de nós mesmos em relação ao objeto ou do objeto em relação a nós mesmos, ele não pode influenciar o comportamento absoluto do objeto. 

As fórmulas para calcular a mudança de cálculo de qualquer uma dessas quantidades são facilmente deduzidas agora que a relação geométrica dos quadros foi verificada. 

Física, Ontologia, Epistemologia e Psicologia: Ou seja, Filosofia e Ciência 

Mas qual é a importância da relação entre o tempo e a mente? Ao explicar espaço-tempo juntos, Eddington conseguiu se desvincular (até um máximo possível) da visão/ percepção (ou interpretação) humana sobre a realidade que o cerca, porém também indicou a centralidade da filosofia e da mente humana nesta relação com o espaço/ tempo, seja ele separado ou unido. Apesar de Eddington indicar a possibilidade de uma diferenciação entre o tempo percebido e o tempo "externo" ou "físico", ele parece não ter causado impacto direto na psicologia com suas informações, talvez por ter se baseado nos estudos de Einstein/ Rutherford/ Minkowski e nos argumentos filosóficos de Henry Bergson. As relações entre tempo e mente não param meramente neste embate entre física e filosofia: Os argumentos filosóficos de Bergson serviram de base para a psiquiatria fenomenológica de Eugene Minkowski, ou seja, serviram de base para estudos sobre sofrimentos e transtornos psíquicos. Por quê? A resposta é: A fenomenologia, ao trabalhar a proximidade entre filosofia e ciência, logicamente adentrou a psicologia, ou seja o estudo da alma (mente) e a psiquiatria praticamente tem o mesmo objeto de estudo desta área do conhecimento. A fenomenologia não só adentrou a psicologia pelo fato de ter incitado psicólogos a criarem abordagens baseada em seus argumentos, mas também já indicava a importância da psiquê nas questões ontológicas e epistemológicas, ou seja, a intencionalidade é algo que afeta as bases e o método de construção de conhecimento não só na filosofia como na ciência também! E isto está na origem da psicologia: O "fundador" desta área de conhecimento, Wilhelm Wundt, já estudara tais fatos e este assunto deve ser trazido a este blog em um futuro texto. Por fim, Eddington também ressalta a importância da percepção e da interpretação humana ao descrever o como a teoria quântica do átomo e a teoria da relatividade mudaram a visão de mundo das ciências! (https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/04/como-fisica-do-seculo-20-impactou-as.html). Neste texto de Eddington, ele não só traz objetos de estudos da psicologia* de volta ao centro da base das ciências e da construção de conhecimento, como também critica o materialismo devido ao fato desta ontologia ou pressuposto filosófico estar alicerçado na obsoleta física clássica (de Isaac Newton etc). Além de isto ir de encontro aos argumentos do polêmico biólogo Bruce H. Liptom que criticou a dominância da física newtoniana nas ciências, os argumentos de Eddington indicam uma similaridade ou proximidade aos de Wundt, quando este afirmava que a psicologia fazia a ponte da filosofia com as ciências e que esta área de estudos (psicologia) jamais deveria se limitar a estudar o comportamento meramente observável, devido a sua posição intermediária entre campos do saber tão vastos. O materialismo como ontologia/ como pressuposto filosófico obviamente influencia a construção de conhecimento (epistemologia), pois nenhum estudo escapa destas duas áreas da filosofia - como expliquei em outro texto a ciência é estruturada a partir da ontologia e da epistemologia (https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/11/o-que-forma-ciencia-e-quais-sao-suas.html). Em suas explicações sobre a estrutura do átomo, sobre a contração de FitzGerald, sobre a quarta dimensão e sobre a relatividade dos quadros/ molduras de espaço e tempo, Eddington prova que o materialismo é uma pré suposição reducionista e limitada (a fenomenologia também indicava isto no início do século 20), ou seja, reduz a percepção humana de fenômenos encolhendo a visão do ser (tentando determinar o que existe e o que não existe) e limitando o que deve ser estudado. Resta então as ciências humanas, ou ao menos as áreas que estudam o comportamento e a psiquê/ a mente, se basearem em um pressuposto/ uma ontologia mais aberta, ou mais ampla que o materialismo, que não considere apenas o que se chama de "mensurável" (sensorialmente/ matematicamente).

*(A gestalt estuda a percepção, a terapia cognitivo comportamental estuda os processos cognitivos, a psicologia analítica enfatiza a importância do simbolismo para o ser humano etc) 

Fontes: 

https://www.scielo.br/j/pe/a/szMZdLPgT95whQbtNdSJwvG/?lang=pt - acesso em 20/04/23 

Tradução de: Eddington, A. S. - The Nature of Physical world; 1948 (Electronic Reproduction 2022); 

https://www.scielo.br/j/ss/a/YpGvJRjbDNyJzzrkS7wN8jp/?lang=pt - acesso em 07/07/23