sexta-feira, 18 de agosto de 2017

As diversas facetas de esquerda e direita e as confusões que causam

Para variar (termo irônico), estamos vivendo mais uma vez uma discussão estúpida sobre esquerda x direita, graças aos conflitos causados por neo-nazis americanos e à vontade de alguns setores da nossa sociedade de descolarem sua imagem dos 'extremistas'. Primeiramente vamos deixar bem claro: quem defende nazismo não sabe viver em sociedade. Se a pessoa não sabe viver em sociedade, ou ela se adapta ou é banida de alguma forma, pois (infelizmente, já que eu gostaria que cada ser humano tivesse o poder de criar uma dimensão paralela e viver do jeito que quisesse no seu mundinho) é impossível viver fora da sociedade. Pensamentos racistas, homofóbicos, eugenistas, etc, devem ser mantidos para você mesmo (o ideal é repensar suas crenças, mas eu defendo o direito de cada um poder ser canalha pelo menos dentro da própria cabeça).

Esse tipo de pensamento externado deve ser reprimido, pois nada virá dele além de conflito irracional (irracional porque não há como construir diálogo a partir de tais ideias). Se é permitida certa liberdade de expressão para ideias de ódio e medo, é permitido a evolução desses pensamentos até que ocorra ... bem, qualquer imbecil conhece essa parte da nossa história, uma entidade, que é difícil de ser categorizada como humano, matou outros que supostamente eram da mesma categoria que ele (humanos) simplesmente porque eram de outra etnia, ou de uma biologia diferente, ou com ideias adversas às suas.

Um desenvolvimento possível das ideias propostas no parágrafo anterior poderia ser: qualquer tipo de ideia que rompa com o status quo, com o sistema vigente ou ainda com a democracia devem ser reprimidas da mesma forma, já que ameaçam a ordem social. Esta pode ser a ideia por trás do projeto que um parlamentar peculiar lançou: banir qualquer simbologia ligada ao comunismo/socialismo. Eu preciso discordar dessa ideia por vários motivos, o principal deles é: o socialismo/comunismo visa reordenar a sociedade de forma igualitária, ou seja, em teoria, ninguém precisa morrer ou ser banido para a lua, e todos devem ter os mesmos direitos.

É utópico? Claro que sim, se fazer isso sem ninguém morrer fosse fácil o mundo seria outro. Conflitos resultarão em mortes, quem detém o poder nunca irá abrir mão facilmente. Entretanto o diferencial para o nazismo é este (reordenar a sociedade de forma igualitária). Que é o inverso do que o nazismo propõe, já que é baseado no eugenismo e acredita que certos humanos são melhores do que outros. O que é proposto é justamente uma sociedade de castas ou simplesmente o genocídio daqueles que são 'inferiores'. Na teoria, não há como ligar essas ideias diametralmente opostas. Já na prática, a diferença não é tão pura assim, e provavelmente a realidade cinzenta é que permite esse tipo de especulação estúpida de ideários.

Na prática, diversos sistemas de governo autoritários/totalitários surgiram com base no sistema vigente ou com bases revolucionárias. Governos totalitários tendem a formar aquela face monstruosa que a 'maioria' atribui a uma ditadura. A velha máxima, "o poder corrompe", poderia explicar o que acontece com os governantes da nossa espécie. Trotsky não morreu sem motivos. O poder deve ser viciante, pois quem consegue algum, quer mais e mais, os ideais parecem perder força, se é que existiram na mente de alguns, a dissimulação é uma grande ferramenta para angariar poder. A máxima serve para os supostos sistemas democráticos também, quem é brasileiro convive diariamente com os exemplos (expostos como feridas pela mídia quando a interessa).

Foi necessário desenvolver essas ideias para deixar clara a diferença entre nazismo x socialismo. Outra coisa deve ser deixada clara antes que possamos discutir as nuances de esquerda e direita: NÃO EXISTE GOVERNO COMUNISTA. Os países que assumiram nomes que empregam o termo comunista, poderiam ter a pretensão de um dia se tornarem um (país comunista), ou apenas gostavam da propaganda enganosa, todos esses países são no máximo SOCIALISTAS. De acordo com a teoria marxista, o comunismo somente poderia acontecer como etapa evolucionária final da sociedade, após o socialismo ter sido bem-sucedido no mundo. Não há comunismo sem a evolução global da sociedade. O comunismo como ideia se aproxima muito mais do anarquismo, pois a necessidade de um Estado seria muito menor do que é no socialismo. A diferença principal (entre anarquismo e comunismo) é que o anarquismo ignora as etapas evolucionárias propostas pelo marxismo.

Pois bem, a causa supremacista branca, poderia sim, surgir em um sistema totalitário de esquerda, afinal, há relatos de perseguição a homossexuais em regimes de esquerda, embora eu desconheça a existência de um grupo desses na esquerda (supremacista branco). E por que poderia? Porque a realidade não é preto no branco, as contradições fazem parte do tecido social, daí os diversos nuances de esquerda e direita.

A diferença entre direita e esquerda não é necessariamente a mesma diferença de um pensamento neo-liberal e um pensamento socialista (um mercado livre x um mercado completamente controlado pelo estado). Dentro do capitalismo, os economistas keynesianos defendem uma regulamentação do mercado pelo estado (uma solução proposta por Keynes no pós-crise de 29), e são considerados de esquerda. O surgimento dos estados de bem-estar social é pautado no keynesianismo, e estados de bem-estar social, são estados capitalistas considerados de esquerda. Entretanto, a ditadura militar brasileira era baseada em uma economia gerida pelo estado, sob forte intervenção, assim como alguns candidatos do período democrático, como Enéas, defendiam uma economia nacionalista, com regulamentação do estado, e todos são considerados de direita.

O ponto principal então, da diferença entre esquerda e direita, não está na regulamentação do mercado e na importância do estado, e aí voltamos láááá no começo do texto, quando discutimos a diferença entre socialismo e nazismo: a diferença é o que se quer priorizar a partir dessas políticas públicas, uma sociedade igualitária ou uma sociedade de castas (meritocrática ou não).

Veja, ao citar uma sociedade de castas eu não quero dizer que toda a direita é nazista ou eugenista, isso é absurdo. Os E.U.A. são baseados em uma sociedade de castas, eles pregam a liberdade individual e a meritocracia justamente como meio de um indivíduo subir nas castas. Países capitalistas também vêem a satisfação de seu povo de acordo com o tamanho de uma classe média, é considerado ideal uma classe média gorda, a casta que abarca a grande maioria do povo, pelo menos no discurso democrático capitalista.

Em teoria, como média de ideário, já que as ideias variam em um largo espectro, a esquerda visa diminuir a desigualdade entre essas castas (ou classes sociais), garantindo o mínimo para a casta mais baixa enquanto esse processo se desenvolve (uma das formas de medir essa desigualdade é o Índice de Gini). E a direita visa um fortalecimento da economia, o que, para alguns dentro dessa corrente, resultará em melhoria de vida para as castas mais baixas, já que as castas mais altas terão mais dinheiro para investir em negócios. Ou seja, para a esquerda, reduzir essas diferenças é justiça social, para a direita, inchar a classe média através da meritocracia é suficiente.

Discursos nacionalistas e protecionistas podem ocorrer nos dois lados do espectro político. Discursos de mercado livre ocorrem em parte da direita apenas. Discursos pró-globalização ocorrem na direita, mas sua contra-parte seria o comunismo utópico na esquerda, ambos acabam se chocando com os ideários nacionalistas. E discursos eugenistas, bem, não deveriam nem ser considerados, se você gosta disso, crie um mundo fantasioso na sua mente onde você é o ditador do mundo e deixe fechado até o dia da sua morte.

Enfim, se você quer descolar a imagem de seu grupo político dos manifestantes neo-nazis, não precisa criar falácia intelectual acusando os manifestantes de pertencerem ao grupo que você diverge, quando toda a história da sociedade nega tal fato. Basta enfatizar que o seu grupo pensa diferente desses boçais, assim como no grupo político oposto ao seu, deve haver indivíduos que querem descolar a imagem deles dos boçais que existiram por lá. Apoiar-se nos subterfúgios de nomes de partidos e críticas ao sistema vigente desses, é utilizar uma análise rasa como escapismo. Basta analisar quem Hitler perseguiu e quais as mudanças que ele aplicou na estrutura social de seu povo para a análise rasa esboroar. Ele fez reforma agrária? Extinguiu propriedade privada? Promoveu justiça social? A verdade é uma só, do ponto de vista econômico, a Alemanha se apoiou fortemente em um sistema capitalista nacionalista focado em desenvolvimento econômico, e do ponto de vista ideológico se apoiou em uma das maiores sandices que a humanidade criou, e que não deve ser tratado como direita, esquerda ou o diabo que o for, só como sandice mesmo.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Reflexão sobre tecnologia e sociedade

Meu professor de Sociedade e Tecnologia propôs que escrevêssemos um texto sobre sociedade e tecnologia embasado nos conceitos vistos em aula, sobre a seguinte reportagem:

Vai comprar roupa no Natal? Veja se sua loja favorita combate a escravidão



16/12/2016 



Leonardo Sakamoto







O ''Moda Livre'', aplicativo para consumo consciente de roupas, acaba de passar por uma nova atualização a tempo de ajudar os compradores neste Natal. Foram incorporadas 27 novas marcas e lojas à ferramenta, incluindo importantes nomes internacionais que produzem no Brasil, como as grifes Levi's e Calvin Klein, a Forever 21, além das esportivas Nike, Puma, Adidas e Reebok e marcas brasileiras relevantes como Farm e Animale (do Grupo Soma) e TNG, Osklen e Cavalera. Redes de lojas populares, como a Besni e o magazine Torra Torra, também foram incluídas.

Com a nova atualização, o App passa a contar com 101 grifes e varejistas em sua base de dados. Desde o seu lançamento, em dezembro de 2013, pela ONG Repórter Brasil, ela já teve mais de 50 mil downloads.
O Moda Livre avalia e monitora as ações que as principais empresas do setor vêm tomando para evitar que as suas peças produzidas no Brasil sejam contaminadas por mão de obra escrava. Além disso, oferece ao consumidor notícias sobre casos de escravidão contemporânea na cadeia de valor do vestuário nacional.
Faça o download gratuito do aplicativo para iOS (iPhone) e Android 
 Trabalhadores produzindo peças para oficina responsabilizada por trabalho escravo (Foto: MPT/Divulgação)
Trabalhadores produzindo peças para oficina responsabilizada por trabalho escravo (Foto: MPT/Divulgação)
A Repórter Brasil convida todas as companhias a responder a um questionário-padrão que avalia basicamente três indicadores: 1) Políticas – compromissos assumidos pelas empresas para combater o trabalho escravo em sua cadeia de fornecimento; 2) Monitoramento – medidas adotadas pelas empresas para fiscalizar seus fornecedores de roupa; 3) Transparência – ações tomadas pelas empresas para comunicar a seus clientes o que vêm fazendo para monitorar fornecedores e combater o trabalho escravo; 4) Histórico – resumo do envolvimento das empresas em casos de trabalho escravo, segundo dados das autoridades competentes.
O histórico da marca ou da loja também é avaliado de acordo com pesquisa junto ao Ministério do Trabalho e do Ministério Público do Trabalho a fim de verificar o envolvimento em casos de trabalho escravo.
As respostas geram uma pontuação e, com base nela, as empresas são classificadas de acordo com o que vem fazendo para combater a escravidão em três categorias de cores: verde, amarelo e vermelho. As empresas que não respondem ao questionário são automaticamente colocadas na vermelha porque equivale a obter pontuação zero no questionário.
O Moda Livre não recomenda que o consumidor compre ou deixe de comprar roupas de determinada marca. Apenas fornece informação para que faça a escolha de forma consciente. O aplicativo é fruto da apuração da equipe de jornalismo da Repórter Brasil e do design e desenvolvimento da agência PiU Comunica.
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Os escravos da moda – Nos últimos anos, centenas de trabalhadores – principalmente imigrantes de outros países sul americanos – foram resgatados produzindo roupas em situação análoga à de escravidão dentro de pequenas e precárias oficinas de costura brasileiras. A região metropolitana de São Paulo (SP) concentra a maior parte dos casos  já flagrados por auditores fiscais do Ministério do Trabalho e procuradores do Ministério Público do Trabalho.
Quase sempre estas oficinas são empreendimentos terceirizados, que, não raro, produzem para grifes de renome. Há também flagrantes de trabalho escravo associados a pequenos varejistas instalados em importantes polos comerciais de roupas, como o bairro paulistano do Bom Retiro.


Pois bem, baseado nesta reportagem, segue o texto elaborado:

Não há como pensar a sociedade brasileira atual de maneira dissociada à tecnologia, essa é também, uma realidade mundial.

Uma tentativa desse tipo, seria equivalente a analisar o período pós-crise de 29 no Brasil, de maneira dissociada à industrialização, ou a colonização brasileira de maneira dissociada à agricultura.

Isso porque, esses modos de produção, e suas mudanças, são o cerne das mudanças da própria sociedade. Ou, como Toffler nomeia, essas grandes ondas de mudanças, seriam: a Primeira Onda, a revolução agrícola, que levou milhares de anos para se esgotar; a Segunda Onda, o advento da civilização industrial, que durou  apenas cem anos; e a Terceira Onda, ainda mais acelerada do que a segunda, e que altera nossa sociedade hoje, neste exato momento.

Essa Terceira Onda, segundo Toffler, traz consigo uma maneira de vida genuinamente nova baseada em fontes de energia diversificadas, renováveis; em métodos de produção que tornam a maioria das linhas de montagem das fábricas obsoletas; em famílias novas, não-nucleares; em uma nova instituição que poderíamos chamar de "casa eletrônica"; em escolas e corporações do futuro radicalmente modificadas.

É possível adicionar algumas características importantes à essa Terceira Onda, talvez menos inspiradoras que as citadas por Toffler: preponderância do capital financeiro sobre o produtivo, disseminação de mentiras pela web (ou, a era da pós-verdade), superexposição do indivíduo via digital (e suas consequências de julgamentos morais e bullying permanente), guerra midiática exacerbada (podendo servir de preparação para uma intervenção espacial), etc.

Essa sociedade, no meio da Terceira Onda, é essencial de ser compreendida para podermos avaliar os impactos que a tecnologia pode ter. Como o próprio Toffler afirma, essas ondas podem estar ocorrendo simultaneamente, em locais e sociedades diferentes, e é o que pode se constatar neste caso específico, onde discutimos uma tecnologia (um aplicativo para celular) que monitora trabalho escravo, duas coisas aparentemente anacrônicas, em um mesmo momento histórico.

Alguns autores utilizam os conceitos de Sociedade Industrial e Sociedade do Conhecimento, conceitos que não serão aprofundados aqui, devido ser possível traçar um paralelo desses conceitos com o que seria equivalente à Segunda e Terceira Onda. Mas mesmo autores que utilizam esses ou outros conceitos, acabam abordando esse anacronismo simultâneo, que ocorre com maior intensidade nos chamados países periféricos.

Essa característica é mais gritante em países periféricos devido à balança de poder econômico mundial, é um movimento intrínseco ao capitalismo, coerente com a tendência de concentração de renda. As sociedades detentoras de maior poder econômico, estão em sua maioria, pautadas em democracias, onde a pressão exercida por este sistema empurra as práticas mais selvagens de obtenção de lucro para os países periféricos. A velha discussão sobre as grandes corporações, as maquiladoras, a mão-de-obra barata, e o exército de reserva de trabalhadores, seria útil para esta abordagem, mas fora do escopo deste texto.

Basta dizer que, é compreensível, uma sociedade pautada em uma suposta democracia, com substancial poder econômico, não querer ver 'sujeira no seu quintal'. E algo que é inerente ao modo de produção capitalista, deslocar-se para as economias periféricas, onde o 'culpado' é o próprio ser humano dessa sociedade periférica bárbara e atrasada.

Nossa própria sociedade periférica bárbara e atrasada, 'terceiriza' os seres humanos bárbaros e atrasados: os escravos são 'pobres ignorantes' do nordeste, 'preguiçosos' bolivianos que não tomam banho, e vejam só, até mesmo os escravagistas são oportunistas coreanos.

O trabalho escravo é uma realidade brasileira, anacrônica (?) e atual. O ponto de interrogação anterior é uma reflexão sobre se realmente nos livramos do escravagismo na história brasileira. Políticos já foram investigados por trabalho escravo, empreiteiras, enfim, diversos segmentos da sociedade. Trabalho escravo que não ocorre apenas nos rincões, mas nas próprias metrópoles, debaixo dos nossos narizes empinados pela ignorância, insensibilidade ou credulidade no sistema vigente em que nossa sociedade é pautada.

Diante do impacto que é causado pela própria sociedade, do 'homem sendo lobo do homem', como é possível questionar o impacto desta tecnologia em específico? Pode-se considerar um esforço patético, criar um aplicativo para monitorar empresas de roupas? Sim. Mas a somatória de esforços patéticos, é o que resta a uma sociedade onde há um descolamento entre os segmentos populares e seus representantes na democracia (como é bem demonstrado no vídeo "A história das coisas"). Dessa somatória pode surgir algo no futuro (futuro/presente, já que estamos no meio de uma onda de ruptura) que se apresente como alternativa a um sistema controlado pelo lucro dos poucos que concentram a renda.

Neste ponto é necessário abordar um aspecto da cultura da nossa espécie: o ser humano é um ser gregário. Não há ser humano, sem sociedade. Isto está inserido no próprio conceito de cultura de Cristina Costa: uma certa ruptura com os instintos naturais, que permitiu o desenvolvimento de simbolismos, significações, inventividade e linguagem. Essa evolução de condição de animal natural, com reações baseadas no código genético, para uma espécie com reações mais complexas, essencialmente influenciadas pela sociedade.

É engraçado pensar que uma das principais características responsáveis por nossa evolução, o viver em sociedade, acabe criando uma sociedade baseada no individualismo, sendo que, ninguém é humano sozinho.

Parte intrínseca de nossa cultura é a tecnologia, desde a criação de técnicas, sua separação da filosofia e da arte, até a própria sistematização da ciência da técnica. Para muitos, nossa nova religião, aquela que salvará a humanidade. Que haverá capacidade para isso, parece cada vez mais inquestionável, resta a pergunta: Ela servirá aos individualistas que controlam a sociedade, e consideram nossa característica gregária de forma eugenista, ou servirá aos que vêem nossa característica gregária como o que realmente somos: dependentes uns dos outros?

Dessa resposta obtemos quais serão os impactos da tecnologia na sociedade. Hoje, em nossa sociedade brasileira, os impactos são fragmentados, paliativos ou danosos, conforme os ditames do capital internacional.

Enfim, ao analisar o fenômeno da Terceira Onda (ou mesmo um conceito paralelo como o de Sociedade do Conhecimento), têm-se a tecnologia com um peso importantíssimo nas dinâmicas sociais, mas essas mesmas dinâmicas sociais são indissociáveis do conceito de cultura, e da característica gregária da espécie humana. O que resta de barreira para que uma sociedade onde tecnologia seja voltada para essa dependência entre seres humanos, é justamente o sistema de produção comum ainda à Terceira Onda e à nossa cultura atual: o capitalismo focado no consumo e no individualismo. Se a Terceira Onda vai superá-lo, e alterar assim, radicalmente a nossa cultura, podemos esperar impactos melhores da tecnologia do que se o contrário acontecer, e o capitalismo continuar no cerne de ambas as coisas.

Bibliografia:

COSTA, Cristina. Introdução à ciência da sociedade. São Paulo, Ed. Moderna, 2010. Pg. 182 a 186.

TOFFLER, Alvin e Heidi. Criando uma nova civilização: a política da terceira onda. 6 ed. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1999. Pg. 19 a 29.

A história das coisas. Vídeo acessado em: https://www.youtube.com/watch?v=7qFiGMSnNjw&feature=youtu.be

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A engrenagem gira



Hoje tive um pesadelo, nele eu estava me deslocando para um lugar no limite da mancha urbana de uma metrópole. Chegando no lugar, entrei em um elevador que descia para andares subterrâneos. Ele descia tão depressa que flutuei até o teto do elevador, assustado perguntei aos outros que não flutuaram se aquilo era normal, eles disseram que sim.

O elevador continuou descendo, balançando, e logo me vi em outro ambiente. Funcionários vestidos de branco passavam entre os diversos cidadãos que se deslocavam para diversas salas de espera, quando cheguei em uma delas, disseram-me que eu estava doente e que deveria passar por um tratamento. Quem me dizia isso eram os próprios pacientes na sala de espera, um grande desconforto me levou a sair da sala de espera, mas fui segurado por um paciente negro, que, com uma gravata, tentou me levar de volta para meu lugar. Cortei a garganta do pobre homem com um crachá ou algo parecido e fugi.

Subi alguns andares, todos iguais, e encontrei uma moça que estava comigo no elevador, ela estava resistindo à 'prisão', havia quebrado uma janela e quando me viu passando disse que as pessoas afirmavam que a janela não estava quebrada.

Olhei para a janela quebrada, olhei de volta para a moça e disse para ela que a janela não estava quebrada, dando uma piscadela com o olho direito em seguida...

Acordei sem saber o final do 'filme', e sem dormir, fui forçado a refletir sobre o assunto. Meu subconsciente estava digerindo o sombrio 31 de agosto de 2016, digerindo os fogos de artifício, digerindo o sentimento frustrante de que algo muito ruim havia acontecido, que grande parte da população estava sendo forçada a engolir a opinião da outra parte.

Embora eu deveria estar aliviado por ter entregado a dissertação, havia o sentimento de algo bom acontecendo ao mesmo tempo de algo muito ruim, e também o sentimento de entregar um trabalho incompleto, que não saiu como planejado.

Para completar o dia, a professora de Cálculo, para tentar acordar a classe, disse: "E então pessoal, hoje temos um novo presidente eleito." (nunca se sabe quando há sarcasmo e quando não há, se o professor for da Fatec), "Tem algum petê aqui? Semestre passado tinha um..."

Meu subconsciente teve que digerir tudo isso, e dessa indigestão surgiu esse pesadelo. A reflexão é: você está doente. Não há nada de errado com nossa sociedade, você está doente e precisa tomar uns 'remedinhos' para ser reintegrado à sociedade. Rivotril? Rede Globo? Veja? CNN?

Os remedinhos apresentam a sociedade como uma democracia que funciona. É um sistema duro, mas que se você trabalhar, estudar, esforçar-se de verdade, você até consegue uma vidinha boa. Você merece isso, porque você é mais inteligente que a maioria. O outro? Ah, você pode até torcer pelo outro, dê uma esmola aqui e ali para se sentir melhor. Se o outro tiver sorte, ele pode até sobreviver. É assim desde tempos imemoriais.

A engrenagem segue rodando, e esmagando. Quem perde 'só' um braço aqui, uma perna ali, segue correndo ou rastejando. Tem gente que perde um dedo e culpa fulano, a presença da engrenagem é invisível para esses. Acreditam que o cicrano pode lhes devolver o dedo. Acham que quem critica a tal engrenagem na verdade é amigo daquele larápio que é o fulano.

Para amenizar tudo isso, soube que a maioria dos amigos que estavam comigo no último serviço, conseguiram arranjar outro emprego (a empresa em que trabalhávamos cortou quase todos os funcionários). Conversando com eles, fiquei feliz por observar uma pequena faísca da centelha divina. São esses pequenos momentos que fazem você não abandonar completamente a fé na humanidade.

Se você acredita em Deus, digo que Ele nos deu um cérebro (se você acredita no caos, bem, ele nos deu um cérebro). Isso é um presente e tanto, nos dá a possibilidade de olhar para o universo e admirar, de olhar para os outros seres vivos e admirar, de olhar para nós mesmos e pensar: podemos melhorar tudo isso.

É a lei natural, um ser humano esfolar o outro? Poluir os mares? Enriquecer pelo saque? Utilizar seu poderoso cérebro para que nunca mais qualquer membro da sua família possa ser pobre, mesmo que às custas do 'outro'? Acabar com o ecossistema? Moldar os cérebros 'inferiores'?

Um cérebro pensante quebra a regra do natural, "com grande poder, vem uma grande responsabilidade". Se aqueles que detém o poder, ignoram essa responsabilidade, torna-se completamente necessário que você, parte dos mais de 90% da população que não são ricos, use o seu cérebro, para que a engrenagem fique visível, para que caminhos possam ser propostos, para que seu ódio pare de ser direcionado para aqueles que são esmagados com você, para que você enxergue que quem está doente é quem acha que o caminho que seguimos é natural.

quinta-feira, 31 de março de 2016

A perda de apoio dos moralistas e as atuais bases de sustentação do PT


Hoje é dia 31 de março, dia emblemático. Com manifestações marcadas para hoje e amanhã, estive perdido em reflexões que atrapalham a continuidade de algumas tarefas (como programar alguns exercícios em C# e o próprio projeto de mestrado), resolvi então colocá-las no papel (virtual) para analisá-las melhor e esvaziar a cabeça.

A primeira delas era sobre a perda da base de apoio moralista do PT. Eu estava pensando nas famílias de alguns amigos de classe média, cujos pais votavam no PT mas hoje não mais. É provável que a maioria dessas pessoas sejam pró-impeachment agora e com uma razão muito forte para elas: o PT traiu a confiança que esses eleitores depositavam no partido.

Essas pessoas, professores universitários (normalmente de cursos menos críticos do que Geografia e História, por exemplo), profissionais com ensino superior, etc. votavam no PT principalmente pela integridade moral do partido (na época) e pelo viés humanista de suas campanhas (eu me lembro da propaganda do PT que mostrava moradores de rua e afirmava: se você se comove com essa cena, você está conosco). Era fácil ver que os outros partidos (podemos dizer, os de direita) não estavam se importando muito com os pobres, os discursos estavam sempre protegidos pela máscara da importância do crescimento econômico e frases absurdas como "é preciso fazer o bolo crescer para poder dividir as fatias".

Tenho que fazer uma observação aqui sobre "cursos menos críticos do que Geografia e História, por exemplo", uma afirmação por tabela de que Geografia e História (e logicamente muitos outros como Sociologia, Economia (de base política, não neoclássica), Filosofia, etc.) são 'cursos críticos'. É claro que cada curso, em cada faculdade possui uma realidade distinta, mas há uma tendência, devido também a algumas correntes teóricas difundidas nesses cursos, de que os alunos que os cursam estudem a sociedade muito mais a fundo. Com o conhecimento dos 'motores' da sociedade, e claro, dentro de sociedades capitalistas o motor principal é o dinheiro, esses eleitores costumam ter uma visão mais complexa do porquê votar no PT (quando o fazem).

Então chegamos na segunda reflexão, sobre a perda de apoio de parte do eleitorado de esquerda. É claro que a divisão na esquerda sempre foi gigantesca. Parte dos alunos que se formam nos cursos críticos provavelmente nem se consideram de esquerda, podem considerar que foram 'forçados' a acreditar em algumas ideologias, ou escolheram focar nas bases tecnicistas dos cursos e no mercado de trabalho, ou acreditam em uma solução de centro: alternância de poder, políticas de acordo com as tendências econômicas, etc.

Dentro do grupo que se considera de esquerda o racha sempre foi enorme: sociais democratas, socialistas, comunistas, trotskistas, anarquistas, etc. As diferenças entre quais soluções são as melhores para os problemas da realidade brasileira e como alcançá-las sempre foram objeto de discussão infinita, entretanto havia uma convergência (que mesmo a direita afirma querer): reduzir a pobreza.

Quer queira, quer não, o PT foi eleito e resolveu boa parte do problema. Para mim, particularmente, é revoltante ver o que os governos anteriores fizeram para resolver isso: nada. Claro que há o discurso de que alguns desses governos estavam "lançando a base para a solução ... criando uma economia sólida ... blá ... blá ... blá", não me convencem. Eu reconheço algumas soluções, independentemente de quem as criou, e acho que foram boas políticas: plano real, lei do medicamento genérico, Bom Prato, etc. Não vou nem discutir as intenções por trás de cada uma (pode-se afirmar qualquer coisa de maneira leviana, sem provar, desde que FHC usou o plano real criado pela base do PSDB na gestão Itamar como trampolim político, Serra beneficiou conhecidos com sua lei ou Lula estaria 'comprando votos' com o Bolsa Família). O que importa aqui é que, Lula tirou milhões da fome, muita gente deixou de morrer, um problema crítico e vergonhoso da sociedade brasileira foi vencido.

E é aqui que as coisas começam a complicar, o PT foi reeleito, e reeleito, e reeleito de novo! Resolvido esse problema mais gritante, o governo foi implantando suas políticas, como qualquer outro anterior (aqui podemos, é claro, incluir uma enorme discussão: cotas, pró-uni, casa para todos, aumento do salário mínimo, etc. Governos de outros partidos fariam a mesma coisa? Não sei.). O fato é que, são medidas que podem ser questionadas tanto pela esquerda como pela direita, por exemplo, alguém de esquerda poderia dizer "O Pró-Uni aumenta a quantidade de vagas no ensino superior, mas com qualidade questionável!" e alguém de direita poderia bradar "Essas políticas assistencialistas não são sustentáveis!". A verdade é que a gente gosta de bater no governo, isso vem de longa data, é só buscar programas televisivos. Como a sociedade é governada através da representatividade, é inevitável que o descontentamento da população recaia sobre os representantes.

Isso fica muito mais grave com um desgaste devido ao longo tempo no poder e a incitação acumulada de grupos midiáticos. Veja bem, o governo do PT geriu a máquina estatal de maneira muito ruim em vários pontos, principalmente na área de meio-ambiente e no tratamento dos povos indígenas. O partido inflou, absorvendo quadros absolutamente questionáveis (vide Delcídio de Amaral), moralmente falando, já haviam membros questionáveis desde o início (Palocci? Zé Dirceu?). Geriu o país, em muitos pontos, como os velhos partidos faziam, toma-lá-dá-cá, corrupção (pode-se até questionar uma condenação com algo tão 'forçado' como a Teoria do Domínio de Fato, mas que a corrupção continuou 'comendo solta' todos sabemos), lentidão. Mas o que realmente conflagrou a guerra ao PT foi a incitação da mídia, é ela que decide o que mostrar, quando mostrar, e com que frequência.

Aqui chego na terceira reflexão: com o desgaste natural, a equalização (mesmo que apenas em alguns setores) do PT com os partidos governantes anteriores, a anti-propaganda midiática e o mais agravante, um judiciário que inspira pouca confiabilidade, é sábio parte da esquerda assumir posição pró-impeachment?
Podemos questionar várias coisas aí: Esse setor de esquerda pró-impeachment tem alguma relevância numérica? O impeachment é legal ou não? Quem se beneficia com a culminação do impeachment?
É verdade que a relevância numérica do PSTU e da Conlutas pode não ser muito grande, mas nesse momento específico qualquer fato que a mídia resolva explorar pode ter um impacto profundo. Vários juristas estão se digladiando sobre a legalidade do impeachment, bem, eu fico do lado dos que acham o impeachment baseado nas 'pedaladas fiscais' ilegal. E aqui o ponto mais importante: quem se beneficia do impeachment NÃO é o PSTU, nem a Conlutas, nem o trabalhador (pode aguardar a aceleração da destruição da CLT assim que Temer assumir - e não amiguinho, políticas neoliberais para a suposta melhora da economia não irá resultar em melhoria alguma na sua qualidade de vida).

O PT perdeu boa parte da base de sustentação, até mesmo dentro do próprio partido, e o que o sustenta hoje é um misto de crédulos, sindicatos, beneficiados pelas suas políticas e na atual conjuntura, aqueles que acreditam que a disputa está se resumindo à esquerdaXdireita, estado de bem-estar socialXneoliberalismo e os que acreditam que a disputa chegou ao ponto de democraciaXestado de exceção, nacionalismoXentreguismo.
Não, o PT não representa mais parte dessas bandeiras, eu nem acredito em boa parte delas, mas fui obrigado a tomar um lado, meu lado sempre foi contra a fábula de que o sistema capitalista recompensa os inteligentes e trabalhadores, sempre foi contra a hipocrisia de setores que se dizem "neutros" mas selecionam tudo o que mostram, e embora encare a democracia ocidental como falha e hipócrita, sempre serei contra o atropelamento da democracia para favorecer os setores de bolso cheio da nossa sociedade.

Por isso estou no grupo do dia 31, às ruas!

sexta-feira, 4 de março de 2016

Smart phones - Apocalipse Social?


É muito comum ver por aí, principalmente nas redes sociais, uma crítica severa ao uso de smart phones como ferramenta de 'zumbificação': aquele cara que usa seu celular de modo que pareça um zumbi rastejando atrás de um cérebro.

É claro que ninguém gosta de um zumbi esbarrando cegamente e atrapalhando o trânsito de todos, em uma estação de trem, por exemplo. Mas as críticas vão mais a fundo, e com certa razão, a última que eu li era referente ao show dos Rolling Stones em São Paulo, e é fácil concordar com quase todas elas. Mas aqui começo a ter meus momentos de advogado do diabo (e esse é só o começo, pretendo defender o diabo com mais veemência mais a frente, e esse diabo, acreditem ou não, é o capitalismo).

As relações humanas são deterioradas pelo smart phone, ou isso é somente um passo na escala de deterioração dessas relações? (e aqui não dá pra defender muito o diabo, só o celular dele)

Acreditar que éramos mais legais uns com os outros 20 anos atrás me parece muito ingênuo. Aliás, o processo de proteção à ambientes hostis, para mim, começou por volta de 1990, com um walkman vermelho trazido do Paraguai (ok, na época eu não sentia tanta necessidade de proteção ao ambiente, estava mais é maravilhado com o fetichismo da mercadoria).

Com um walkman você já podia se isolar no trem ouvindo rádio ou uma fita k7 (com pilhas alcalinas talvez desse até para ida e volta), pastores poderiam pregar, pedintes mendicar, vendedores propagandear, pessoas discutir, e nada disso importava.

Toda a falta de interação social aqui poderia ser creditada ao diabo: é um convívio forçado, com pessoas estranhas, a maioria se deslocando forçadamente para um lugar que não queriam ir (trabalho, escola ...), em horários que castigavam sua biologia e com ausência de conforto.

Claro que essa é uma realidade urbana, lugar onde a alma do diabo se solidificou, e talvez os felizardos que vivem em um ambiente rural sejam poupados disso. Não cabe aqui me aprofundar no assunto por falta de experiência ( o máximo que pude experimentar foi viver no interior, em uma cidade de porte médio, por um ano, onde aliás, havia mais relações sociais).

O que quero enfatizar aqui é que o diabo é mais culpado do comportamento humano hoje, do que seu instrumento (o smart phone). O que o diabo criou - megalópoles, alienação do trabalho, migalhas a serem disputadas pelos trabalhadores, lavagem cerebral midiática, ideologias de divisão - é o verdadeiro núcleo da deterioração das relações sociais.

Na verdade, isso tudo não fugiu muito das críticas encontradas por aí - sociedade do espetáculo, consumismo, blablabla - tudo isso, obviamente é direcionado ao diabo, e não ao seu celular, embora esse aparelinho seja um foco e tanto.

Mas aqui tenho que defender o diabo de maneira mais notória: o diabo não inventa tudo isso do nada, ele não sai de seu troninho de obsidiana pela manhã pensando "hoje vou fazer o Rodriguinho ignorar a família no jantar jogando Candy Crush", não, ele trabalha com o que existe, ele trabalha com o que as pessoas querem.

Mas a gente quer isso o tempo todo? Para sempre? Não importa as consequências? Quero um jatinho mesmo sabendo que os recursos desviados para sua construção irão acarretar em alguém passando fome?

Claro que é uma situação hipotética e absurda, forçada, mas vale para induzir à reflexão: o capitalismo existe, porque a gente quer algo? A gente sempre quis isso ou alguém nos induziu a querer?

Não vale à pena aprofundar a discussão nessa direção agora, mas vale pegar o início disso e trabalhar outra ideia: Ninguém quer ver o outro passando fome. Ninguém quer ver o outro sofrendo (tudo bem vai, talvez um pouco, mas não tortura eterna).

Mas daí, a ser santo, é algo complicado. Quem teve uma formação católica sabe que este é o objetivo dessa religião, particularmente, eu consegui carregar isso por um tempo após a Crisma, mas esse é o tipo de objetivo que você não pode almejar a perfeição, tem que se contentar com o que conseguir.

O efeito que essas matérias de críticas aos smart phones causam em mim é basicamente esse: você não está conseguindo ser santo. Daí eu ter que me aliar ao diabo nesse momento, ou me martirizar para sempre.

Será que eu realmente tenho que ouvir opiniões absurdas em filas de banco? Xeretar a vida dos outros que conversam no metrô? Discutir inutilmente em uma mesa de bar quando um dos lados não está propenso a dialogar?

Será que eu não posso diminuir a tortura que é usar transporte coletivo, ouvindo música ou lendo um livro no celular? (Isso é rebeldia ao sistema! Você está usando um tempo que foi tomado de você para fazer algo que você quer). Filmar uma música que gosto muito em um show, e guardá-la para sempre? (nunca confiei na minha memória - embora nunca tenho feito isso em um show)

Enfim, eu não irei me juntar aos exércitos críticos nessa cruzada contra os zumbis, não dessa vez. Interação social é importante sim, politização, debates, mas há o equilíbrio, você precisa ter um tempo para a sociedade e um tempo para você, no fim, algo difícil de explicar, e aberto à interpretações e críticas é a solução para mim: bom senso.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Ciências Sociais - Segmentação Conveniente.

Olá a todos.

Este primeiro parágrafo carimba o meu aceite ao honroso convite de contribuir com este espaço de exposição de ideias e discussão sobre sociedade. Mas antes de qualquer pseudo crítica que eu venha a escrever acho importante esclarecer alguns pontos gerais sobre minha formação e minha percepção inerente sobre a sociedade.

Não sou um cientista político, sociólogo, geógrafo, economista ou historiador, sou contador; e como tal, as pessoas me olham como se eu fosse uma calculadora ou uma espécie de “help” do programa de IRPF do governo, portanto, não sou formalmente considerado um “especialista” da área social (se é que eles existem). Adicionalmente, não é tão comum que um contador tenha interesse (e muito menos conhecimento) sobre os conceitos que definem o macro ambiente econômico e social.

No entanto, os axiomas do parágrafo acima sempre foram bastante curiosos ao meu ver, tanto a associação às atividades que não são mandatórias para a formação do contador, quanto o desinteresse geral dos profissionais da área pela ciência social como um todo.

Sobre o pressuposto de que há o completo domínio dos contadores sobre o conhecimento do arcabouço tributário, ou sobre as minúcias do cálculo do Imposto de renda, basta dizer que embora façam parte da disciplina contábil, não são conhecimentos fundamentais ou tampouco prioritários para execução da profissão. Posso aliás, assegurar sobre o IR de pessoas físicas que essa matéria quando abordada não cobre nem 1% do conteúdo programático de um curso de graduação em ciências contábeis, embora eu admita ter visitado seu conceito principal durante o curso técnico de contabilidade.

Você deve estar aí se perguntando “qual a finalidade de um contador então?”. Sinto em decepcionar, mas fora o que será posto de maneira tácita nesse texto, essa questão vai ficar pra outra oportunidade.

Por isso vou dedicar o conteúdo dessa postagem à outra constatação inicial, a qual revela que o profissional da contabilidade não tem nenhuma relação próxima com as disciplinas sociais conceituais.

Conforme já sabido pela maioria, durante o decorrer do curso de graduação em contabilidade temos aulas de economia, sociologia e direito - disciplinas que tratam das entidades e dos relacionamentos sociais agregados de uma forma mais ampla - e não à toa; as premissas desses campos de conhecimento são introduzidas no esforço de “linkar” a ciência contábil (que pode ser traduzida aqui nessa resenha, e em muitas outras situações, como o “estudo do patrimônio”) às necessidades impostas por essas outras disciplinas mais generalistas. Mas pelo óbvio descaso da maioria dos colegas de profissão sobre esses tópicos, só posso concluir que esse esforço tem falhado miseravelmente através dos anos...

A verdade, é que nós contadores estamos nos afogando nos tecnicismos criados por nós mesmos na tentativa de impor a apreciação patrimonial a cada mísera unidade contábil passível de valoração, sobre as mais diversas formas jurídicas existentes no mercado. Os antigos guarda-livros se tornaram os novos guarda-regras, porta-vozes da discussão sobre o sexo dos anjos, e fadados à prisão desse emaranhado de normas.

Não se trata de estar atacando de forma gratuita a minha própria classe, o que quero mostrar é que embora nossa “paixão” pelas regras e normatizações seja importante (e como), ela não deveria nos cegar, nem nos deixar esquecer que a contabilidade é informação, antes de regulação; lógica, antes de mecânica; e enfim o mais importante: é essência sobre a forma...

Aonde quero chegar? Vou lhes falar: Se uma simples revisão sobre as peças contábeis (balanço, demonstrativo de resultado e caixa) de uma empresa, deve oferecer informações substanciais sobre a situação de uma empresa, a análise sobre estas mesmas informações agrupadas de um determinado setor pode dizer muito sobre seu nicho econômico; e consequentemente o agrupamento dessas informações dos diversos setores pode oferecer uma “foto” panorâmica da economia como um todo.

Para sustentar essa premissa e alcançar o objetivo desse post, vou utilizar o esplêndido trabalho de Thomas Piketty em “O Capital no Século XXI”, talvez a pesquisa de maior profundidade e repercussão já feita nesse sentido.

O economista francês (pois é, senhores contadores) faz uma análise assombrosa - no sentido de amplitude de amostras – dos últimos três séculos sobre os dados contábeis dos países mais ricos; utilizando nada mais nada menos que a contabilidade; inicialmente com dados do imposto de renda e nos períodos mais recentes sobre os ativos e passivos empresariais e governamentais, conforme disponibilidade desses dados.

Mas não fiquem lisonjeados senhores economistas, é aqui que minha resenha deslancha, e os protagonistas não poderiam ser outros, senão vocês: os visionários da nossa realidade.

Se o contador moderno é um sujeito míope, o economista (particularmente os neo-clássicos) é um grande ilusionista. Com suas teorias mirabolantes e fórmulas “complexadas” (sim, entenda como quiser) os “matematizadores” das ciências humanas distraem suas vítimas, e transformam o simples e óbvio nas mais intrincadas sequências de algorítmicos imagináveis. Mas no fim não sabem responder a diferença conceitual do que é o Ativo e Passivo contábil...........

Mas como é que um profissional que se propõe a fazer a leitura exata (quando não o prognóstico) de um cenário econômico, não sabe como funciona a unidade básica da economia? A empresa. Bom, não é culpa deles, vocês lembram daquela história sobre ignorar o que está sendo ensinado na sala ao lado, justamente o que acabei de colocar na análise do aprendizado do contador? É exatamente a mesma coisa (nesse caso com uma dose a mais de empáfia e uma a menos de desinteresse).    

Em outras palavras o contador não se mete com a economia e o economista não se mete com a contabilidade, tudo fica bem, cada qual com seu guarda roupas e seus respectivos cabides.... sem saber, ou simplesmente ignorando o fato que esses campos de estudo são dependentes um do outro.

O contador comum afrontado por essa realidade se apequena, se reprime, não sabe, não quer saber e tem raiva de quem sabe economia; o economista se ofende, pois acha que é superior, afinal como tal repertório teórico com sua profusão de modelos estatísticos poderia simplesmente ser subjugado pela aritmética básica da contabilidade?

E quem poderá confrontá-los, quem tem igual ou superior base teórica e bagagem de conhecimento??? Quem poderia combalir tais teoremas néo-liberalistas dogmáticos??? Ninguém, senão um deles, respeitado em seu meio acadêmico que é inacessível aos leigos e às prostradas pessoas comuns.

Tomo a liberdade então de divulgar uma breve passagem de seu livro-tese já citado nesse texto, onde o autor discorre sobre o mesmo tom em que lhes escrevo, sem se importar com os “lados”, lobbys, corporativismos ou eventual viés acadêmico ao qual poderia muito bem ter se apoiado.

Deste ponto em diante, apenas Monsieur Piketty:

"Devo dizer que desfrutei do 'sonho americano' aos 22 anos, quando fui contratado para lecionar em uma universidade perto de Boston, logo após por meu diploma de doutorado no bolso. Essa experiência foi decisiva em mais de um sentido. Era a primeira vez que botava os pés nos Estados Unidos, e o reconhecimento precoce da minha pesquisa acadêmica não foi desagradável. Aí estava um país que sabia atrair os imigrantes que desejava reter! Todavia, logo me dei conta de que queria voltar para a França e para a Europa, o que fiz ao completar 25 anos[...]

Um dos motivos mais importantes para a minha escolha tem relação direta com este livro: não fui convencido pelo trabalho dos economistas americanos. É claro que todos eram muito inteligentes e ainda tenho vários amigos que pertencem a este universo. Mas havia algo estranho: eu estava bem ciente de que não sabia nada sobre os problemas econômicos do mundo.
Minha tese consistia em alguns teoremas matemáticos relativamente abstratos. E, no entanto, eu era bastante admirado naquele meio. Logo me dei conta de que nenhum trabalho empírico de peso sobre a dinâmica de desigualdade fora realizado desde a época de Kuznets (foi a isso que me dediquei quando voltei para a França) e, ainda assim, continuavam a alinhar resultados puramente teóricos, sem nem mesmo saber quais fatos explicar, e esperavam que eu fizesse o mesmo.

Sejamos francos: a economia jamais abandonou sua paixão infantil pela matemática e pelas especulações puramente teóricas, quase sempre muito ideológicas, deixando de lado a pesquisa histórica e a aproximação com as outras ciências sociais. Com frequência, os economistas estão preocupados, acima de tudo com pequenos problemas matemáticos que só interessam a eles, o que lhes permite assumir ares de cientificidade e evitar ter de responder às perguntas mais complicadas feita pelo mundo que os cerca. Ser um economista acadêmico na França tem uma grande vantagem: nós não somos tão respeitados nos meios intelectuais e acadêmicos, tampouco pelas elites políticas e financeiras.  Isso obriga os economistas a abandonar o desprezo que sentem pelas outras disciplinas e a pretensão absurda a uma legitimidade científica superior, ainda que não saibam quase nada sobre coisa alguma. Esta aí, aliás, o charme da disciplina e das ciências sociais em geral: parte-se do início, bem do início, às vezes, o que permite a esperança de fazer progressos importantes. Na França, os economistas são, creio eu, um pouco mais incitados do que nos Estados Unidos a convencer seus colegas historiadores e sociólogos - sem falar no mundo fora da academia - de que aquilo que estão fazendo é de fato interessante (embora nem sempre sejam bem sucedidos nessa tarefa).

[...] Na verdade, eu adoraria que tanto os especialistas, os cientistas sociais, quanto o público geral encontrassem algo de interessante neste livro, a começar por todos aqueles que dizem "não saber nada de economia", mas que com frequência têm opiniões muito fortes sobre a desigualdade de renda e da riqueza, o que é natural.

Na realidade, a economia jamais deveria ter tentado se separar das outras ciências sociais; não há como avançar sem saber o que se passa nas outras áreas. Coletivamente, o conhecimento das ciências sociais é demasiado pobre para que se perca tempo com picuinhas, pequenas disputas de território sobre quem deve estudar o quê."

Bom, acho que esse trecho reforça o que eu estava querendo explicar, por isso, fora o comentário de que esse panorâma sobre os acadêmicos americanos pode ser muito bem estendido para o nossa amada realidade interna, qualquer coisa que eu acrescente, será mera redundância.

Au revoir.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Horário Flexível x Aumento Salarial

Existe maior desperdício de energia mental do que elaborar uma redação? Seja para uma entrevista ou para um vestibular, o destino final do esforço empreendido por você ao raciocinar sobre um tema e expor sua opinião, é sempre o mesmo: o limbo.

Cansado desse desperdício, publico abaixo a redação utilizada no vestibular que prestei recentemente ( o tema sugerido era baseado em dados de uma pesquisa que relatava a preferência de 43% dos entrevistados em negar um aumento salarial de 10% em troca de mais flexibilidade no trabalho, essa porcentagem muda para 36% se o aumento fosse de 20%):


O que é mais importante: um salário maior ou um horário de trabalho flexível?

Podemos desmembrar as duas alternativas do título de nosso texto em mais duas perguntas:

O que significa ter um salário maior?

Bem, 10 ou mesmo 20% de aumento podem significar muito para quem está 'nas cordas', possibilitando talvez 'sair do vermelho'. Mas a verdade é, o que realmente significa um aumento nessas proporções? Você ficará rico? Poderá parar de trabalhar em breve? Resolverá todos os seus problemas mais facilmente? Receio que não.

Por mais que ideologias neoliberais propagandeadas pela grande mídia, Hollywood, igrejas neo-pentecostais e blogs direitistas espalhem, no fundo, o brasileiro sabe que não irá ficar rico desta maneira, ou se não sabe, acredita que não será por meio de aumentos paulatinos fornecidos pelas empresas.

Então qual o efeito real de uma proposta de aumento salarial no imaginário dos profissionais? Além da já citada, 'saída do vermelho', talvez comprar algumas coisas a mais, ou comer melhor, sair mais, mas para aproveitar melhor a vida, tempo é até mais relevante do que dinheiro.

E o que significa um horário de trabalho mais flexível?

Talvez mais tempo. E embora o famoso jargão 'tempo é dinheiro' deixe de maneira explícita como funciona uma sociedade capitalista, talvez tempo represente uma perda ou ganho de dinheiro, mas representa uma coisa muito mais importante: vida.

A vida passa, e passa rápido. Tendo em conta a incapacidade do homem, particularmente o homem moderno, decidir realmente (pelo menos para a grande maioria) como viver sua vida, cabe a ele escolher o melhor paliativo para este mal.

E no caso, o melhor paliativo é poder gerir minimamente o seu tempo através do horário de trabalho mais flexível.