terça-feira, 30 de novembro de 2021

Os Estudos sobre a "Psiquê"; Um Resumo Histórico

 

Neste texto apresento uma lista resumida sobre os estudos da mente e/ ou do comportamento humano ao longo da história.

Psiquiatria - A Correção da Mente 

O termo psiquiatria significa correção (ou cura) da mente (do grego ψυχή, ou seja, psychê, que significa alma) e refere-se a uma especialização da medicina. Essencialmente, esta área de estudo surgiu de opiniões que consideravam os comportamentos diferentes do padrão da sociedade ocidental oriundos de alterações em determinadas partes do corpo - geralmente do sistema nervoso. Apesar de ser uma especialização da medicina, ao estudar (história das) psicopatologias e neurociências é possível notar que são citados os principais influenciadores da psiquiatria, mas nenhum fundador específico. Embora médicos da antiguidade sejam quase aclamados (Hipócrates e posteriormente, Galeno), a psiquiatria em si parece começar a surgir na era moderna, mais precisamente durante o iluminismo europeu (século 18, com grande influência do médico Philippe Pinel). A tentativa de humanizar os "hospícios", após o ano de 1778, marcaram o início desta área da medicina. Obviamente a humanização se deu pela diminuição da crueldade, da indiferença e da insensibilidade para com os pacientes "internados" (aprisionados, na verdade), pois gradativamente, foram-se banindo as seguintes práticas: acorrentamento, ducha gelada, choques elétricos etc. Embora começou-se a teorizar sobre doenças mentais nesta época, é importante notar que muitos dos pacientes ou prisioneiros, eram simplesmente gente rejeitada pela sociedade, como por exemplo, mendigos, prostitutas e pessoas que alegavam perceber frequentemente fenômenos sobrenaturais. 

Apesar das boas intenções de alguns médicos psiquiatras, muitas das classificações de comportamentos criadas neste campo de estudo foram altamente preconceituosas até as duas primeiras décadas do século 20. Em alguns lugares do mundo, hospícios permaneceram locais de confinamento com uma gestão que variava entre insensível e cruel até a segunda metade do século 20, pois as tentativas de humanizar os estudos e tratamentos de pessoas com problemas psíquicos ocorreram de maneira bem lenta durante cerca de 3 séculos. No Brasil, é possível considerar que, em linhas gerais, a reforma psiquiátrica se deu entre os anos de 1968 e 2001.

Após a década de 90 do século 20, a psiquiatria passou a sofrer clara influência da farmacologia. Em 2015, ao lançar o DSM-5 (5º Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais), a psiquiatria multiplicou o número de transtornos e diagnósticos de maneira exagerada, favorecendo de maneira proposital ou acidental o aumento do consumo (e obviamente do comércio) de medicamentos. 

Estruturalismo - 1855  (Teoria Germânica) 

Atribuída a Wilhelm Wundt, que foi o “pai” da psicologia experimental, o estruturalismo afirmava que o objeto de estudo deveria ser o pensamento mental consciente. Wundt pretendia, através da introspecção (autopercepção, de acordo com a tradução de Saulo de Araújo) estudar as emoções e os sentimentos de cada pessoa, permitindo a cada pessoa conhecer-se mais profundamente. Pode dizer-se que uma pessoa é constituída pelos seus sentimentos e sensações, que organizados constituem a sua consciência do ponto de vista estrutural. Visava os estados estruturais da consciência. Quais eram as estruturas do sistema nervoso central. 

Os Estudos Espíritas - A Mente além do Corpo (1857)

Em 1855, o tradutor e professor francês, Hippolyte Léon D. Rivail, se interessou sobre os fenômenos das mesas girantes. Após alguma experiência classificada como mediúnica (de contato com uma mente incorpórea) por volta de 1857, Rivail passou a assumir o pseudônimo de Allan Kardec, descrita como uma entidade que conhecera Rivail numa outra encarnação. 

Tendo iniciado a publicação das obras de Codificação em 18 de abril de 1857, quando veio à luz O Livro dos Espíritos, considerado como o marco de fundação do Espiritismo, após o lançamento da Revista Espírita / Jornal de Estudos Psicológicos (1 de janeiro de 1858), Kardec fundou, nesse mesmo ano, a Sociedade (Pariense de Estudos) Espírita(s). 

Em uma de suas revistas de 1861, Kardec escreveu: 

(…) o Espiritismo, restituindo ao Espírito o seu verdadeiro papel na criação, constatando a superioridade da inteligência sobre a matéria, apaga naturalmente todas as distinções estabelecidas entre os homens segundo as vantagens corpóreas e mundanas, sobre as quais o orgulho fundou castas e os estúpidos preconceitos de cor. O Espiritismo, alargando o círculo da família pela pluralidade das existências, estabelece entre os homens uma fraternidade mais racional do que aquela que não tem por base senão os frágeis laços da matéria, porque esses laços são perecíveis, ao passo que os do Espírito são eternos. Esses laços, uma vez bem compreendidos, influirão pela força das coisas, sobre as relações sociais, e mais tarde sobre a Legislação social, que tomará por base as leis imutáveis do amor e da caridade; então ver-se-á desaparecerem essa anomalias que chocam os homens de bom senso, como as leis da Idade Média chocam os homens de hoje… 

Por diversas causas, o espiritismo enfrentou enorme resistência desde cedo. Apesar de um dos principais motivos de críticas ser o charlatanismo de alguns médiuns, outros motivos eram as rixas entre religião e ciência e a imposição de métodos com pressupostos materialistas (como o empirismo) como única forma de aquisição e formação de conhecimento. Alguns cientistas tentaram provar a inexistência de espíritos e de eventos relacionados ao contato com uma "dimensão espiritual", porém seus métodos e bases de estudo sequer consideravam a possibilidade de uma mente (inteligência, sentimentos) capaz de viajar além do espaço-tempo, então os resultados destas "pesquisas" foram simples negações do espiritismo. 

Importante notar que o espiritismo surge como um método de estudo que admitia a religiosidade (na época pouco ou nada se dizia da palavra espiritualidade) e, desta forma, considerava as experiências religiosas como fenômenos oriundos dos espíritos ou de uma dimensão espiritual, manifestadas através de forças pouco entendidas até então, como o eletromagnetismo. 

Do ponto de vista religioso, o espiritismo tem base cristã, mas traz algumas semelhanças com outras religiões e filosofias que levam em consideração a reencarnação e dá grande importância ao progresso da humanidade. O espiritismo também foi posteriormente considerado racista, porém mesmo que alguns textos de Kardec tenham algum viés neste sentido, tais fatos não passariam do pensamento típico da civilização europeia de sua época. 

Nota-se que até então, todas as experiências descritas como sobrenaturais, sejam elas, visões de espíritos (inclui anjos e demônios), mediunidade (contato ou comunicação com espírito), cura pela imposição das mãos, exorcismos (desobsessões), sonhos proféticos, êxtases espirituais, milagres e tantas outras descritas através dos milênios, seriam classificadas como meras mentiras (charlatanismo) ou loucura (alucinação, esquizofrenia etc) caso não fossem classificadas pelos estudos espíritas. 

Obviamente, isto ocorreu porque a ciência em 1857 (e ainda em 2021) utiliza como base teórica / filosófica o monismo (materialista ou eliminativo) e como método, o empirismo. E claro, como já mencionei em outros textos, apesar de sua importância, tais bases e métodos praticamente não explicam possíveis seres transdimensionais (além da curvatura espaço-tempo), nem o que ainda não pode ser detectado pelos (cinco) sentidos humanos. A ciência com tais alicerces filosóficos e metodológicos ainda se mostra incapaz de explicar possíveis outras dimensões, e, por se basear na possibilidade de reproduzir / repetir experiências, deve permanecer incapaz de explicar seres ou inteligências capazes de viajar entre dimensões (que em prática seria aparecer e sumir).

Funcionalismo - 1890 (Teoria Estadunidense) 

O funcionalismo foi criado a partir das obras de William James, que defendia que os psicólogos deveriam utilizar a introspecção, de maneira a estudar o funcionamento dos processos mentais e outros temas como os processos mentais das crianças, dos animais, a anormalidade e as diferenças individuais entre as pessoas. Na opinião de William James, o homem realizava as suas ações, com base na função que desempenhava na sociedade. O estudo da consciência se fazia presente. Embora, assim como o behaviorismo, esta teoria da mente tivesse a mesma base da psicologia experimental de Wundt, ela se desenvolveu de modo independente, pretendendo eliminar as tendências eliminativas.

Psicanálise - 1891 (Abordagem "Austríaca/Checa/Morávia") 

A teoria da psicanálise, também conhecida por “teoria da alma”, foi criada pelo neurologista austríaco Sigmund Freud (1856 – 1939). De acordo com Freud, grande parte dos processos psíquicos da mente humana estão em estado de inconsciência, sendo estes dominados pela libido. Esta "energia psíquica" é composta pelas pulsões de vida (principalmente desejos sexuais) e de morte (desejos de eliminar ameaças e competidores). Os desejos, as lembranças e os instintos reprimidos estariam “armazenados” no inconsciente das pessoas e, através de métodos de associações, o psicanalista – profissional que pratica a psicanálise – conseguiria analisar e encontrar os motivos de determinadas neuroses ou a explicação de certos comportamentos peculiares dos seus pacientes, por exemplo. 

Em 1880, o médico Josef Breuer, aliviou os sintomas de depressão e hipocondria (chamada de histeria na época) de sua paciente Bertha Pappenheim, após induzí-la a lembrar-se de experiências traumatizantes sofridas por ela em seu passado. Para isso, Breuer utilizou a hipnose e seu novo método chamado de terapia da conversa. O psiquiatra e neurologista austríaco, Sigmund Freud, passou a estudar este caso juntamente com Breuer e entre os anos de 1893 e 1895, estruturou as bases da psicanálise. Freud percebeu que muitos pacientes escondiam de si mesmos (reprimiam) pensamentos, desejos e sentimentos que eram difíceis de lidar, seja por vergonha, por nojo ou por pressões sociais. Esta repressão de elementos psíquicos, juntamente com o estudo dos sonhos, ajudou a Freud teorizar o inconsciente da mente humana. 

Ainda que Freud buscasse uma aproximação com a biologia ao dar ênfase às pulsões de vida (como a sexualidade sendo manifestação da libido, uma necessidade da reprodução da espécie) ele parece ter se apoiado em uma base filosófica dualista (ao menos aparentemente), pois a mente não estava localizada em parte alguma do corpo (cérebro, por exemplo) nem nas relações, como afirmam teorias de base monista. Este foi um dos principais pontos da psicanálise criticados por psicólogos experimentais (e posteriormente pelos behavioristas).

Como Freud buscava se aproximar das ciências biológicas, mesmo com sua base ontológica dualista, ele desconsiderou a possibilidade da existência das experiências espirituais (êxtase, mediunidade, visões religiosas etc).  Além disto, ao estudar a sexualidade e ao considerar o homossexualismo e o bissexualismo como coisas naturais, Freud sofreu forte rejeição dos conservadores, seja entre cientistas ou entre outras classes da sociedade de seu tempo. Apesar das críticas, a psicanálise foi crescendo e sendo aceita por vários médicos, entre eles o jovem suíço Carl Gustav Jung.

Associacionismo - 1899 (Teoria Estadunidense) 

O associacionismo foi criado por Edward Lee Thorndike e é resultante de um processo de associação de ideias, das mais simples às mais complexas, resultando assim nas diversas ações humanas. Nesta teoria da aprendizagem, surgiu a lei de causa-efeito, e acerca dela, Edward Lee Thorndike realizou diversas experiências com animais, com vista a conseguir prová-la. Nas suas experiências, ele observou que se desse alguma recompensa aos animais conseguiria que eles fizessem o que ele queria, e na sua opinião, o comportamento humano, nesta vertente, assemelhava-se ao comportamento animal. Esta teoria é contemporânea de John B. Watson e influenciou o behaviorismo.

Fenomenologia - 1907 (Filosofia Germânica/ Frente Psicológica) 

A Fenomenologia, de Husserl, ao invés de apenas racionalizar ou experimentar, busca entender como o fenômeno ocorre, a essência das coisas e a própria consciência): Rompe (nasce do contra-ponto) com as bases filosóficas anteriores da ciência, buscando uma renovação. Afinal a verdade não está no “meu pensamento”, como afirmaria o racionalismo nem na experiência como indicaria o empirismo. 

Husserl publica Ideen em 1907, onde explica o método da redução eidética, e Da Filosofia Fenomenológica em 1913; A fenomenologia não é precisamente uma teoria psicológica, mas serviu de base para diversas abordagens psicológicas como a Daseinanálise, a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), a Logoterapia e a Gestalt Terapia. 

Embora a fenomenologia proponha estudar fenômenos (como diz a própria etimologia da palavra), não parece haver um consenso se sua teoria e seu método de investigação fazem parte da ciência ou da filosofia.

Psicologia Analítica (Abordagem "Suíça") 

Jung começou como um pupilo de Freud, mas ambos cortaram relações após Jung tirar a ênfase do desenvolvimento sexual da libido em 1913. Freud também não concordava com a ideia de Jung de que fenômenos religiosos devessem ser estudados com a possibilidade de não serem patológicos. Isto possivelmente fez de Jung (e a sua psicologia analítica) o primeiro profissional da saúde mental a não categorizar toda vasta gama de experiências "religiosas/ transcendentais" como doença (ou, mais especificamente, transtorno), deixando a questão em aberto. Jung alega usar o empirismo quando for possível estudar determinado fenômeno desta maneira, caso contrário ele usa investigações mais reflexivas. Ele também notou que o inconsciente esconde muito mais do que desejos reprimidos e impulsos de vida e de morte. De acordo com Jung, os sonhos que ocorrem no inconsciente, não eram apenas fachadas como Freud dizia: eles podem conter significados, indicando uma busca de equilíbrio entre a vida consciente e desejos/ necessidades inconscientes de cada pessoa. Além disto, Jung teorizou um inconsciente mais profundo, onde grupos de seres humanos poderiam compartilhar elementos psíquicos, possivelmente de origem genética. 

O inconsciente humano também poderia ter elementos que independem do espaço/tempo e concentrar variados complexos (e não só o complexo de Édipo da psicanálise). Estes complexos podem ter origem mais antiga do que a infância e a vida intra uterina, surgindo do inconsciente coletivo e/ou de fatores genéticos. Assim, os complexos seriam configurações de interpretações e gostos que podem crescer até tomar parte significante da mentalidade do indivíduo. 

As bases da psicologia analítica são vastas, mas em suma, Jung também considerava deixá-las de lado (suspensas) durante os tratamentos/ terapia conforme a necessidade de cada paciente. Assim era possível priorizar o paciente e sua realidade, em geral, buscando fazer com que este concluísse o processo de individuação, atingindo um significado em sua vida, a partir de um equilíbrio entre elementos do inconsciente com a consciência. 

Comportamentalismo (Behaviorismo, Frente Psicológica Estadunidense) 

Esta teoria também conhecida como teoria de estímulo-resposta foi criada por John Watson (1878-1958) numa época em que dominava a filosofia e o estudo do consciente. John Watson defendia que a psicologia se deve limitar ao estudo dos comportamentos observáveis, portanto um dado estímulo pode ser a causa de determinada resposta e essa mesma pode ser precedida deste. John Watson acreditava que um estímulo provoca sempre a mesma resposta pelo que não só seria possível prever os comportamentos, mas igualmente controlar a produção desses comportamentos. Ele defendia também que a genética não tem qualquer influência sobre os seres vivos, mas sim apenas e só o meio em que estão inseridos (o ser humano nascia como uma "tabula rasa", sem predisposições). 

A partir dos estudos de Watson e do fisiologista Ivan Pavlov, Skinner (1904-1990) desenvolveu a Análise do Comportamento, cuja tinha como base a filosofia denominada de Behaviorismo Radical. Embora pareça que Watson usou o dualismo como base ontológica, e Skinner, o monismo materialista, muitos estudiosos citam que ambos usaram o monismo eliminativo. Para Skinner, que buscou apoiar-se no modelo evolucionista publicado no século 19 por Darwin, a mente é uma ficção (psíquica), uma analogia com que se passa no ambiente físico. Skinner chamou os processos internos da mente de comportamento e foi crítico dos conceitos de livre arbítrio e da psicanálise, especialmente de Freud. 

Estes autores são considerados os principais da "1ª onda do comportamentalismo", embora a 2ª onda, chamada de Terapia Cognitiva Comportamental (TCC), não suprimiu os estudos e as práticas baseadas nos autores anteriores.

Em suma, a TCC separa-se da base ontológica / teórica da Análise do Comportamento, pois foca nos processos internos da mente, assumindo um modelo aparentemente dualista da mente (uma porção abstrata formada por interpretações e informações e outra física, ligada ao cérebro, ao sistema nervoso etc). Após a TCC, surge uma 3ª onda, mas que ainda não se propagou de maneira tão ampla como as anteriores, então não será abordada neste texto.

Logoterapia, a Terapia do Significado ("Abordagem Austríaca") 

Viktor Frankl era um psiquiatra quando foi preso nos campos de concentração alemães durante a segunda guerra mundial. Após escapar com vida desta experiência muito sofrida, ele desenvolveu a Logoterapia, uma abordagem psicológica com base no método fenomenológico. 

Em seu livro Em Busca de Sentido, ele traz alguns relatos de sua vivência nos campos nazistas: 

..." presenciei algo que, embora me fosse de certa forma afim do ponto de vista profissional, eu jamais conhecera na vida normal: uma sessão espírita. O médico-chefe do campo, que teve o palpite de que eu era um psicólogo profissional, convidou-me para uma reunião altamente secreta no pequeno compartimento em que morava, na enfermaria. Reuniu-se ali um pequeno círculo no qual também se achava (em flagrante infração do código) o suboficial de saúde de nosso campo. Um colega estrangeiro começou a conjurar os espíritos numa espécie de reza. O secretário da enfermaria estava sentado frente a uma folha de papel em branco, devendo segurar um lápis sobre a mesma, sem qualquer intenção consciente de escrever. No curso de dez minutos - ao fim dos quais a sessão foi interrompida com a alegação de terem falhado os espíritos ou o médium - seu lápis foi traçando muito lentamente algumas linhas sobre o papel, as quais podiam ser claramente decifradas como VAE VICTIS. Afiançou-se que o secretário jamais aprendera latim nem tampouco teria ouvido as palavras VAE VICTIS (ai dos vencidos!)." Se alguém me perguntasse, eu diria que, sem saber, ele já devia ter ouvido estas palavras alguma vez em sua vida, assim como também a respectiva tradução; e a nossa situação de então, poucos meses antes da nossa libertação, ou seja, do final da guerra, ensejava ao "espírito" (espírito do seu subconsciente) pensar justamente nessas palavras..." 

No início deste parágrafo Viktor Frankl tinha um interesse profissional em sessões espíritas. A informação que Frankl tinha do evento era que o secretário da enfermaria (o possível médium diante a folha de papel) não conhecia o idioma latim e nem conhecia as palavras escritas no papel. Porém a opinião de Frankl mostra uma visão mais científica empirista deste evento: Sem evidências perceptíveis pelos 5 sentidos humanos, ele opta por negar a possibilidade do contato mediúnico, ao afirmar crer que o secretário da enfermaria deve ter escutado tais palavras alguma vez na vida; por outro lado ele não nega o inconsciente, dizendo que o secretário devia saber do resultado ou das consequências da guerra que estava prestes a acabar em alguns poucos meses. 

A fuga para dentro de si 

Apesar de todo o primitivismo que toma conta da pessoa no campo de concentração, Viktor Frankl percebeu alguns indícios de uma expressiva tendência para a vivência do próprio íntimo. 

"Pessoas sensíveis, originalmente habituadas a uma vida intelectual e culturalmente ativa, dependendo das circunstâncias e a despeito de sua delicada sensibilidade emocional, experimentarão a difícil situação externa no campo de concentração de forma, sem dúvida, dolorosa; esta, não obstante, ter para elas efeitos menos destrutivos em sua existência espiritual. Pois justamente para essas pessoas permanece aberta a possibilidade de se retirar daquele ambiente terrível para se refugiar num domínio de liberdade espiritual e riqueza interior. 

Esta é a única explicação para o paradoxo de às vezes, justamente aquelas pessoas de constituição mais delicada conseguirem suportar melhor a vida num campo de concentração do que as pessoas de natureza mais robusta. 

Para tornar este tipo de experiência mais ou menos compreensível, vejo-me outra vez obrigado a reportar-me a coisas pessoais. Recordo-me de quando saíamos do campo, de manhã cedo, marchando rumo à "obra". Ouve-se uma voz de comando: "Grupo de trabalho Weingut, marchar!!! Esquerda, 2, 3, 4, esquerda, 2, 3, 4! Cabo de fila, lateral! Esquerda - esquerda - e - esquerda - boinas fora!" 

Estes os brados que a memória faz ressoar em meus ouvidos. Ao grito de "Boinas fora!" passamos pelo portão do campo. Os refletores estão focados sobre nós. Quem não marchar ereto e bem alinhado na fileira de cinco homens, pode contar com um pontapé – e haverá algo pior para quem, pensando em se resguardar do frio, ousar cobrir de novo as orelhas com a boina, antes que a voz de comando o autorize. Prosseguimos na escuridão, aos tropeços, sobre as pedras e longas poças d'água na zona de acesso ao campo. Os guardas de escolta ficam berrando e nos espicaçam com a coronha de seus fuzis. Quem tem os pés muito feridos, dê o braço ao seu companheiro ao lado, cujos pés doem um pouco menos. Mal e mal trocamos alguma palavra; o vento gelado antes de nascer o sol não o permite. Com a boca escondida atrás da gola da capa o companheiro que marcha ao meu lado murmura de repente: "Se nossas esposas nos vissem agora...! Tomara que estejam passando melhor no campo de concentração em que estão. Espero que não tenham idéia do que estamos passando." E eis que aparece à minha frente a imagem de minha mulher." 

Quando nada mais resta 

Viktor Frankl continua contando que aos tropeços, ele e os demais detentos seguiram vadeando pela neve ou resvalando no gelo, constantemente se apoiando um no outro, erguendo-se e arrastando-se mutuamente quilômetros a fio. Eles não conversavam mais durante esse percurso, preferindo pensar em seus respectivos entes queridos. 

Frankl diz que seu espírito se agarra a "imagem" de sua mulher com uma fantasia incrivelmente viva, que ele não conhecera antes em sua vida normal. Ele "conversava em pensamento" com a esposa e a via responder e sorrir. Real ou não, o olhar de sua esposa exigia e o animava ao mesmo tempo. Viktor Frankl considerou pela primeira vez na vida estar experimentando a verdade daquilo que tantos pensadores ressaltaram como a quintessência da sabedoria: a verdade de que o amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana. Ele passou a entender as coisas últimas e extremas que podem ser expressas em pensamento, poesia - em fé humana: a redenção pelo amor e no amor! 

Passou a compreender que a pessoa, mesmo que nada mais lhe reste neste mundo, pode tornar-se bem-aventurada - ainda que somente por alguns momentos - entregando-se interiormente à imagem da pessoa amada. Na pior situação exterior que se possa imaginar, numa situação em que a pessoa não pode realizar-se através de alguma conquista, numa situação em que sua conquista pode consistir unicamente num sofrimento reto, num sofrimento de cabeça erguida, nesta situação a pessoa pode realizar-se na contemplação amorosa da imagem espiritual que ela porta dentro de si da pessoa amada. 

Nesta experiência, Frankl diz que entendeu a afirmação: "Os anjos são bem-aventurados na perpétua contemplação, em amor, de uma glória infinita. . ." 

Em um momento, quando seus companheiros caem e o guarda avança castigando-os, a vida contemplativa de Viktor Frankl é interrompida por alguns segundos. Mas ao abrir e fechar de olhos mais uma vez, ele direciona sua consciência salvando-se mais uma vez do aquém, da existência prisioneira, para um além que retoma mais uma vez o diálogo com o ente querido: "Eu pergunto - ela responde; ela pergunta - eu respondo." Frankl e seus companheiros chegam ao local da obra. E, sob ofensas dos guardas, todos se precipitam para dentro do galpão às escuras para arrebanhar uma pá jeitosa ou uma picareta mais firme. Eles voltam ao exterior e começam a trabalhar calados e sofrendo com o frio. Mais uma vez a mente (Viktor usa o termo espírito) se apega à imagem da pessoa amada e continua falando com ela, e ela continua falando com ele. De repente ele percebe que não sabe se sua amada está viva e naquele momento entende que o amor pouco tem a ver com a existência física de uma pessoa. Pois durante o período do campo de concentração não se podia escrever nem receber cartas. "Ele (o amor) está ligado a tal ponto à essência espiritual da pessoa amada, a seu "ser assim" (nas palavras dos filósofos) que a sua "presença" e seu "estar aqui comigo" podem ser reais sem sua existência física em si e independentemente de seu estar com vida".  De qualquer maneira, as circunstâncias externas não conseguiam mais interferir em seu amor, em sua lembrança e na contemplação amorosa da imagem espiritual da pessoa amada. Viktor Frankl concluiu essa experiência da verdade com a seguinte citação: "põe-me como selo sobre o teu coração... porque o amor é forte como a morte." (Cântico dos Cânticos 8.6). 

Viktor Frankl segue seus relatos citando mais casos de dificuldades e sofrimentos dos prisioneiros. Aqueles que se agarram a algo que os aliviam psiquicamente, se agarram ao futuro ou a alguma forma de espiritualidade. Boa parte dos relatos soam poéticos ainda que trágicos se formos priorizar a vida destas vítimas da guerra na Terra. 

Na situação extrema de miséria e opressão nos campos de concentração da 2ª guerra mundial, os prisioneiros que não se agarravam ao futuro/ à espiritualidade, ou adoeciam e morriam no desespero ou se tornavam animalescos, competitivos e egoístas. Um pequeno número destes últimos recebiam uma "promoção" dos nazistas ao posto de capo", uma espécie de capataz dos campos de concentração. A maioria esmagadora destes dois últimos grupos, adoecia e morria em algum tempo: Era praticamente uma sentença de morte direcionar expectativas ao mundo material em condições de miséria tão extrema, onde faltavam-lhes alimento, higiene, sono, afeto, tranqüilidade e, portanto, saúde: Uma hora as condições psíquicas decaíam tanto a ponto de acelerar o processo de adoecimento, trazendo a morte... 

A Logoterapia de Viktor é uma terapia alternativa de base fenomenológica. Ela foi considerada pelo próprio autor, como adequada às pessoas que estão passando por um significante sofrimento psíquico, mas não para casos mais graves considerados psicopatológicos. Além disto, Frankl diz que ela pode ser usada em conjunto com outras abordagens, como por exemplo, a psicanálise, pois não foi feita para substituir nenhuma abordagem psicoterapêutica. 

Gestalt Terapia (Abordagem) 

Gestaltismo foi desenvolvido por Kurt Koffka, Max Wertheimer e Wolfgang Kohler pela necessidade da existência de uma teoria que, não esquecesse o valor e a necessidade da experimentação científica. Os seus fundadores consideravam o objetivo da Psicologia como sendo o estudo da experiência de um organismo, no seu todo, com ênfase na percepção, ocupando-se da análise dos elementos essenciais que existem nos processos de organização, reunindo os elementos da experiência numa unidade complexa. A compreensão do ser humano se dá pela totalidade. “O todo é mais que a soma das partes”. A partir do gestaltismo, o psicanalista Fritz Perls e o grupo dos 7 fundaram a gestalt-terapia em 1951. 

Quem define o que é ciência? Quem define o que é verdade? 

Em epistemologia, pressupostos dizem respeito a um sistema de crença, ou Weltanschauung, e são, ao menos, supostamente necessários para que um valor fundamental, existencial e/ou normativo faça sentido. A própria palavra pressuposto, em sua etimologia, significa supor algo anterior. 

O bule de chá de Russell, eventualmente chamado de bule celestial, é uma analogia criada pelo filósofo Bertrand Russell (1872–1970) para defender a ideia da falseabilidade. Este último foi um conceito proposto pelo filósofo Karl Popper na década de 30, contra o raciocínio que se apoia em indícios para chegar a uma causa... É possível que tais argumentos foram desenvolvidos meramente para defender o ateísmo e o monismo materialista como base filosófica para as ciências. 

Os críticos do argumento do bule afirmam que a analogia do Bule de Russell não se sustenta porque parte de uma premissa errada. Respondendo à invocação do "Bule Celestial" de Russell como evidência contra a religião, o filósofo Peter van Inwagen argumenta que, embora o bule de Russell seja uma bela peça de retórica, sua forma lógica de argumento é menos do que clara... Enfim, existem diversos críticos a esta "base filosófica" que não parece priorizar nem a possível vastidão de conhecimento (além do espaço-tempo etc) nem o bem da humanidade. Afinal os argumentos destes filósofos do início do século 20, menosprezam práticas profissionais e teorias e de estudo que deixam questões em abertas: A psicologia analítica (e possivelmente todas as psicoterapias da frente psicanalítica e fenomenológica), a teoria geral dos sistemas etc. Também não é difícil ver como a psiquiatria passou a se apoiar nesse sistema de crenças para classificar todas as experiências "transcendentais" (mediunidade, psicografia, êxtase espiritual etc) como patológicas. 

 Mesmo os estudos empíricos feitos com base no monismo materialista, foram capazes de descobrir e explicar diversos fenômenos desde o século 18, SEM o auxílio destes pressupostos (a falseabilidade e a peculiar retórica do bule celestial). Afinal, métodos de estudo alicerçados no monismo materialista (empirismo por exemplo), são apropriados para estudar a matéria perceptível pelos 5 sentidos humanos, é óbvio. Porque o empirismo (ou qualquer método monista materialista) deveria explicar qualquer coisa relacionada a Deus, a fé, ou os pensamentos e sentimentos? Como já mencionei em algum outro texto, tais métodos e bases de estudo, talvez nem consigam explicar o que há por trás e/ou além de distorções no espaço/tempo. Qual a utilidade de um cientista querer provar a inexistência de espíritos, de outras dimensões ou de Deus? Oras, se há uma crítica importante a se fazer ao meio religioso, os métodos objetivos devem apontar problemas no mundo material, no espaço-tempo conhecido, e não "no além". Todos sabem que a corrupção seja na economia, na política ou na religião, visa benefícios para certos indivíduos aqui na Terra, em vida, então as críticas devem ser feitas a tais indivíduos ou as relações de poder e não às experiências transcendentais nem às teogonias etc. 

Sendo assim, uma crítica importante é: Estes argumentos do bule celestial e da falseabilidade que servem de verdade absoluta e dogmática para muitos dos cientistas materialistas (desde o início do século 20), ainda são necessários? 

Ao invés de uma estúpida disputa entre ciência, religião e filosofia, todos esses campos do saber seriam úteis e verdadeiros se servissem para o bem da humanidade. 

Espero que a humanidade descubra isso e abandone o fanatismo, seja na religião, no ateísmo disfarçado de ciência ou em qualquer outra pré suposição "filosófica" / argumento. 

Algumas fontes:

ANDERY, Maria Amalia. Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica . 4. ed., rev. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2014. 435 p. ISBN 8528300978 (broch.). 

BOCK, Ana M.B.; Furtado, O. e Teixeira, M.L. Psicologias: uma introdução ao estudo de Psicologia. São Paulo: Saraiva.

FRANKL, Viktor E., Em Busca de Sentido. LeLivros, 1984. 

JUNG, Carl G., Fundamentos da Psicologia Analítica. Tradução de Araceli Elman; Vozes, 1985. 

domingo, 31 de outubro de 2021

História da Psicologia e suas Bases Filosóficas

 

Há milhares de anos atrás, desde que o Homem se percebeu como um ser pensante, inserido em um complexo que chamou de Natureza, ele vem buscando respostas para suas dúvidas e fatos que comprovem e expliquem a origem, as causas e as transformações do mundo. 

Com o passar do tempo, o interesse pela conduta e pelo comportamento humano, foi aumentando e teve o desenvolvimento humano e social como pauta desde a origem. 

Mitos 

As verdades sobre a natureza humana eram narradas através dos mitos. Registros sobre os mitos devem existir ao menos desde as antigas civilizações mesopotâmicas e as primeiras dinastias egípcias - Mas considerando que em sua origem, os mitos devem ter sido transmitidos oralmente, talvez eles sejam muito mais antigos do que a escrita que foi desenvolvida por volta de 3500 a.C (em meados do 4º milênio antes de Cristo). 

Obviamente os conjuntos de mitos, conhecidos como mitologias, não eram chamados assim nas épocas em que foram utilizados e propagados nas civilizações. Estes conjuntos de contos eram essencialmente sistemas religiosos que continham divindades / seres espirituais e suas respectivas inter relações. Na maioria das mitologias, os deuses foram os criadores do mundo e/ou do universo e mantinham alguma hierarquia entre si. Além disto, as mitologias também continham simbolismos (símbolos e linguagem simbólica), práticas místicas (desde celebrações até rituais) e até alguns fatos históricos geralmente misturados com os elementos tidos como sobrenaturais ou transmitidos por narrativas fabulosas/ espetaculares. 

Nascimento da filosofia (Amizade pelo saber) 

Em busca por respostas para questões sempre crescentes numa sociedade em desenvolvimento, passou-se a adotar cada vez mais o uso da razão, questionando muitos dos antigos mitos. Através da Filosofia grega, que foi instituída no ocidente por volta do século VII a.C (7 antes de Cristo), foi-nos possível conhecer as bases e os princípios fundamentais de conceitos que conhecemos como: razão, racionalidade, ética, política, técnica, arte, física, pedagogia, cirurgia, cronologia e, principalmente o conceito de ciência. 

Entre os filósofos gregos surge a primeira tentativa de sistematizar a psicologia. 

Naturalistas ou Pré socráticos: 

Entre o final do século VII a.C e o século VI a.C (6 antes de Cristo), os filósofos helênicos (gregos) discutem a relação com o mundo através da percepção. Ao menos alguns destes filósofos tiveram contato com a cultura de outras nações: 

Anaxágoras era um filósofo "greco-persa", pois viveu parte de sua vida na Anatólia sob domínio do Império Persa Aquemênida. 

Estima-se que Pitágoras tenha viajado para o Egito e para a babilônia, pouco antes desta última cair sob domínio Persa Aquemênida. Seus ensinamentos possuem clara similaridade com elementos da cultura egípcia. 

Os questionamentos típicos destes filósofos eram: “ O mundo existe porque o homem vê ou o homem vê o mundo que já existe”. 

Socráticos - Séculos IV a.C e III a.C (4 e 3 antes de Cristo): 

O filósofo grego, Sócrates (470 - 399 a.C.), ficou famoso ao ter seus ensinamentos registrados por seu pupilo Platão. Sócrates questionava a mitologia popular grega, principalmente seus contos de violência, paixão incontida e perversidade. Apesar de questionar vários pontos do sistema religioso, Sócrates não negava a religião. 

A principal característica de seus ensinamentos é a razão (o que separa o homem dos animais) e uma busca pelo bem, ou por um bem maior, como um Deus único, não muito diferente do conceito de Nous, a mente cósmica, popularizada por Anaxágoras. 

Usando um método próprio, chamado de maiêutica (Trazer à Luz - fazer parir), que partia de perguntas feitas às pessoas, ele fazia com que elas "parissem as suas próprias ideias" sobre as coisas. Comparava a sua técnica filosófica, a qual acreditava que ajudava a existência humana à aperfeiçoar seu espírito. Para Sócrates as etapas do saber são quatro: 

Ignorar a sua própria ignorância; 

conhecer a sua Ignorância; 

Ignorar o seu saber; 

conhecer o seu saber. 

Sócrates dividia a mente (chamada de alma) em dois "níveis" e um estado intermediário: 

A mente inferior responsável pelos impulsos mais grosseiros do ser humano, como a voracidade, a violência, o desejo sexual, a incontinência... Tais características são nítidas em animais que vivem pelos impulsos básicos por exemplo: sempre buscam alimentos, disputam por parceiros sexuais para reprodução da espécie etc; 

O estágio intermediário surge quando o ser humano satisfaz seus desejos rudimentares. É um estado mais tranquilo, de repouso, onde a mente inferior eleva-se encontrando alguma paz. Porém para a mente superior este é um estado inferior, de pouco interesse, de tédio e inércia. 

A mente superior é a que está buscando o conhecimento, as belezas mais puras e as verdades, como o Bem. Também é a mente (ou porção desta) que tem o objetivo de controlar os impulsos selvagens e as atitudes nocivas, para o bem da pessoa. 

Sócrates descreveu a alma como a essência imortal, pois o que mais poderia se aproximar de destruir a mente era o vício, mas mesmo este não a destruía por completo. Sendo imortal, a alma existia em um ciclo de renascimentos, como a transmigração das almas ou a reencarnação. O objetivo então seria a alma aprender cada vez mais, eis a importância do conhecimento, da filosofia e da razão em seus ensinamentos. 

Outros temas importantes abordados por Sócrates foram as críticas aos sofistas e os estados da mente sobre determinados assuntos: A ignorância é quando a pessoa não conhece algum tema ou alguns assuntos e por qualquer motivo, não busca aprender nem entender. É a condição mais baixa da mente, pois é a que menos realizou progresso e a menos capaz de explicar fenômenos em geral; A opinião é quando a pessoa não conhece, ou tem apenas uma vaga ideia, sobre determinados temas, mas quer expressar suas interpretações. Aqui é preciso o cuidado de não expressar tal interpretação, caso isto vá prejudicar o que é bom, o que é verdadeiro e belo, pois a opinião não substituí o verdadeiro saber - o conhecimento. Os ensinamentos de Sócrates sobre a opinião fazem a ponte com suas críticas aos sofistas, pois estes pensadores eram especialistas em narrativas que se apoiavam na relativização, geralmente priorizando seu próprio bem, sem se importar com as consequências para os outros; O conhecimento é quando a pessoa estudou determinado tema, seja por experiência ou por observação, comparação e reflexão, dominando tal assunto. O verdadeiro conhecimento serve o que lhe é submisso, pois Sócrates explicava que, assim como a mente deve reger o corpo (e não o contrário), as artes e as ciências devem reger seus objetos de estudo, objetivando o bem destes, e de seus usuários. Esta é a natureza de todas as coisas, de acordo com Sócrates: O maior forte governa em prol do mais fraco, o superior rege em favor do inferior... 

Pós Sócrates, temos alguns filósofos cujas ideias são de extrema importância para que a Psicologia se destacasse. Por exemplo, Platão, Aristóteles e outros filósofos gregos preocupavam-se com muitos dos problemas que hoje cabe aos Psicólogos tentarem explicar: a memória, a aprendizagem, a percepção, a motivação, os sonhos e principalmente o comportamento anormal. 

Platão, de maneira fiel à Sócrates, punha a essência do homem na alma. A função do homem é a atividade da sua alma, que segue ou implica um princípio racional, daí sua famosa afirmação: "O homem é um ser racional". Embora Platão alegasse tudo começa no "mundo das idéias", este filósofo fazia uma explicação dualista da mente, pois a considerava de certo modo, independente e separável do corpo. 

Aristóteles argumenta que é a razão que controla os nossos atos e nela há o raciocínio a partir dos dados dos sentidos; contudo, para ele a relação sujeito-objeto era direta. 

Aristóteles definiu a diferença entre razão, sensação e percepção e escreveu o Peri Psychês, também conhecido como De Ânima, o primeiro tratado da psicologia. 

Por fim, Aristóteles modifica as explicações de Sócrates e Platão que consideravam "o mundo das ideias" como uma dimensão superior e original (ou anterior) em relação a matéria: Aristóteles considerava que praticamente tudo podia ser explicado a partir da matéria, esboçando as primeiras ideias do que viria a ser o empirismo, séculos mais tarde. 

Império Romano - Séculos IV e V (4 e 5) 

Durante a decadência do império romano, entre os séculos IV e V (354-430 d.C), Aurelius Agostinus Hipponiensis, ou Santo Agostinho, também fazia uma cisão entre corpo e alma, como Platão. A alma (psique) não era só a sede interior da razão mas tinha grande profundidade pois também era a manifestação divina de Deus no ser humano;

Idade Média - do Século VI ao XIII (6 ao 13) 

Na virada do século 10 ao 11, o polímata samânida (persa), Avicena, desenvolve o que é chamado de argumento do Homem Voador na Psicologia da Cura I, como defesa do argumento de que a alma não tem extensão quantitativa, o que tem afinidade com o argumento do cogito de Descartes (ou o que a fenomenologia designa como uma forma de "epoche"). A psicologia de Avicena exige que a conexão entre o corpo e a alma seja forte o suficiente para garantir a individuação da alma, mas fraca o suficiente para permitir sua imortalidade. 

No final do século XII, após os europeus e a igreja católica romana entrarem em contato com a proeminente cultura árabe-muçulmana (ainda que, muitas vezes, de maneira conflituosa), as obras de Aristóteles voltam a ser estudadas, dando origem à Filosofia Natural. O polímata almorávida, Averrois, fez alguns estudos em psicologia a partir da obra de Aristóteles. 

No século XIII, São Tomás de Aquino, foi buscar em Aristóteles a distinção de essência e existência. Considerava que o homem na sua essência busca a perfeição na sua existência. A busca da perfeição e da verdadeira felicidade do homem seria a busca de Deus. 

Renascimento - Século XIV, XV e XVI (14, 15 e 16) 

Chega ao fim, o sistema feudal que era predominante na Europa medieval e tinha o poder centralizado na Nobreza e no Clero, com base nas idéias de Ordem e Verdade absoluta; Com o fortalecimento dos burgueses e das companhias privadas, surge o mercantilismo, ou um "pré capitalismo": Países europeus começam as navegações e a exploração da natureza. 

O período de paz no norte da península itálica (Florença, Veneza...) e os últimos concílios da igreja católica fomentaram o avanço das artes e da filosofia. A filosofia natural vai perdendo espaço para outros movimentos como o neo platonismo e o humanismo. 

O desenvolvimento e a propagação da filosofia começa a sistematização do conhecimento científico. Copérnico, propaga a informação de que a Terra não é o centro do universo: O sol passou a ser o centro (do sistema estelar). Considera-se que a Revolução Científica foi o período onde formularam-se métodos de estudo. Ele durou entre 1543 com a publicação da "Revolução das Orbes Celestes" de Copérnico e 1687 com a publicação de "Principia" de Isaac Newton.

1620-1650 René Descartes cria o método racionalista, colaborando com a ciência: Postula a separação entre corpo e espírito de modo similar à Agostinho, mas centrou sua teoria no ato de pensar/ na racionalidade. O Corpo desprovido do espírito é apenas uma máquina. O conhecimento passou a ser tido como fruto da razão. Sua cosmovisão foi entendida como dualista (corpórea e mental).


 1ª Revolução Industrial e Iluminismo - Séculos XVII e XVIII (17 e 18) 

1679-1777 1ª fase da industrialização/ Revolução Industrial - Criação e uso dos motores à vapor;

Entre 1690 e 1757, filósofos britânicos como John Locke, incentivam avanço científico juntamente com o liberalismo econômico e o processo de industrialização (criação e uso de motores à vapor). Com uma proposta divergente da epistemologia de Descartes, é feita a consolidação do método empírico na ciência (filosofia natural na época); Questionando o dualismo de René Descartes, a visão de mundo (ou cosmovisão) monista vai ganhando força como pressuposto filosófico das ciências fomentando uma disputa entre materialismo e idealismo/ mentalismo. , teorias e novos padrões de conhecimento;

1776-1789 O movimento intelectual e filosófico do iluminismo questiona o poder das aristocracias e das igrejas: Avanço da anatomia e da fisiologia (o corpo não é mais um “objeto sagrado”); Começa a psiquiatria com Johann C. Reil e Philippe Pinel, uma especialização da medicina, com os primeiros estudos sobre "doentes mentais". O médico Franz Mesmer (1734-1815) propôs que não só os minerais tinham magnetismo, mas também a vida vegetal e animal. Com o passar dos anos suas ideias foram majoritariamente rechaçadas.

Ocorrem a Independência dos EUA ante a Inglaterra, a Revolução Francesa e a Independência do Haiti ante a França;

Immanuel Kant escreve Crítica à razão pura em 1781. Surge o Idealismo Transcendental, fazendo um tipo de conciliação entre o racionalismo de Descartes (mais mentalista) e o empirismo de Locke (mais materialista). De certo modo delineou a diferença entre filosofia natural e metafísica; 

Era Moderna - Século XIV (19) e início do Século XX (20)

O filósofo idealista, Hegel (1770-1831), demonstra a importância da história para compreensão do homem; O monismo mentalista/ espiritualista ganha força "opondo-se" ao monismo materialista.

1816-1857 Augusto Conte fomenta o positivismo, buscando um suposto aumento do rigor científico; A ciência vai se tornando um sustentáculo da nova ordem econômica e social e aumenta o atrito entre conhecimento e fé. A partir daí, prega-se o aval da verdade só com ciência com questões como: "foi comprovado cientificamente?" Em 1834, o termo filósofo naturalista é substituído por cientista, inicialmente no Trinity College da Inglaterra. Por consequência, a filosofia natural passa a ser entendida como ciência; Entre 1817 e 1860 os temas da psicologia passam a ser investigados pela Fisiologia, Neurofisiologia e Neuroanatomia. Surgimento da máquina como referência para o funcionamento humano; São feitos os estudos sobre funcionamento do olho e percepção (psicologia) das cores e a descoberta da neuroanatomia dos reflexos. É desenvolvida a Lei de Fechner /Weber ("a resposta ao estímulo é proporcional ao logaritmo da intensidade do estímulo"). Gustav Feschner foi o fundador da psicofísica e é considerado "pai da psicometria". Delimita-se o campo de estudo, diferenciando-se da Filosofia e da Fisiologia, passando a definir objeto de estudo (o comportamento, a vida, a consciência); Bernard Bolzano cria as obras de paradoxo do infinito (1847) e doutrina da ciência (1837) trazendo uma nova compreensão da lógica aristotélica; Bolzano viria a influenciar Husserl; 

1858-1859 Darwin e Wallace apresentam a tese evolucionista "Sobre a tendência das espécies de formar variedades; e sobre a perpetuação das variedades e espécies através de meios naturais de seleção". Um ano depois, Darwin abala o antropocentrismo com a obra "Origem das Espécies" - possivelmente o materialismo reganhou uma força contra o idealismo: Esta disputa entre o monismo materialista e o idealista viria a ser criticada nas obras de Allan Kardec;

1858-1869 Allan Kardec funda o espiritismo, que abrangia desde estudos sobre fenômenos psicofísicos tidos como sobrenaturais, até a filosofia cristã com influência socrática/ platônica, foi altamente rechaçado nos anos seguintes na Europa e na América do Norte, devido a sua base filosófica aparentemente dualista e devido aos charlatães que alegavam ser espíritas. Kardec propôs o perispírito como elemento intermediário entre mente (espírito) e corpo, utilizando-se de uma terminologia baseada em Mesmer; No Livro dos Mediuns e em suas Revistas Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos, o autor especula a relação do perispírito com a eletricidade e com o magnetismo.

1855-1917 Começam os estudos da psicologia científica. Primeiro Laboratório experimental (estimulação sensorial) de Wilhelm Wundt; Apesar de defender uma psicologia individual (mais fisiológica) e uma völkspsycolgie (coletiva, cultural), Wundt foi considerado introspeccionista por psicólogos posteriores.

1880-1886 O fisiologista Josef Breuer desenvolve a "cura pela fala" ou "cura catártica" em sua paciente "Anna O." Breuer influenciou Freud que viria a criar a psicanálise; 

Em 1890, William James publicou o livro Princípios de Psicologia, uma obra pioneira que combinava elementos de filosofia, fisiologia e psicologia, abordando temas diversos como o fluxo de consciência, a vontade e as emoções. Embora inclua diferentes abordagens e métodos, James (influenciado por contemporâneos como Wilhelm Wundt e Gustav T. Fechner) declarou que Princípios de Psicologia é uma obra derivada do método da introspecção. Assim, o autor funda o funcionalismo; 

Edmund Husserl escreve Filosofia da Aritmética (1891) e Sobre Conceito de Número (1887); Em suas obras, passa a criticar a psicologia experimental que era objetiva, pois sujeitos são mutáveis diante suas condições particulares; Critica a fragilidade do empirismo que estuda sujeito passivo e só descreve o que vê externamente; Critica o positivismo que nega a subjetividade, valorizando só a verdade do conhecimento objetivo e por fim critica o psicologismo devido à sua ênfase na subjetividade. O autor formula uma nova metodologia de construção de conhecimento com base filosófica - a Fenomenologia;

Com o desenvolvimento dos primeiros motores movidos à combustível, com as descobertas sobre eletromagnetismo, a propagação do uso da eletricidade e com a produção em massa de veículos, entre a última década do séc. 19 e as duas primeiras do séc 20, o capitalismo se intensifica com uma nova fase industrial: Prioriza-se o aumento da produção e dos lucros de empresários (Fordismo, Taylorismo etc) e o setor privado passa a incitar desejos nas pessoas (provoca "necessidades" através de propagandas), criando o hábito de consumir mais do que o costume e mais do que o básico necessário; 

Neste momento da história (na última década do século 19 até a 1ª metade do século 20), a psicologia está, de certa forma, se dividindo em várias frentes e abordagens cujo criadores (Watson, Freud, Jung entre outros) discordam entre si, sejam contemporâneos um do outro, ou não. Não se trata de uma divisão voltada para as diferentes áreas de atuação, mesmo porque esta divisão também existe na psicologia - Se trata de uma diferença de bases filosóficas, ontológicas, de bases teóricas e de abordagens em relação aos pacientes/ clientes. Entende-se que existem 3 grandes frentes da Psicologia, cada uma com variadas abordagens... E tais frentes e suas respectivas abordagens requerem um outro texto para explicá-las; 

Bases Filosóficas (das Ciências...)

A seguir, são citadas algumas "visões de mundo" que servem de pressupostos filosóficos e podem (ou não?) sustentar métodos de estudos científicos. Essas bases também são chamadas de "cosmovisões" e estão relacionadas à relação entre corpo e mente. A partir daí foram formados os paradigmas da ciência que se relacionam com os estudos filosóficos da ontologia ("estudo do ser") e da epistemologia ("estudo do conhecimento", da construção do conhecimento e seu método de investigação): 

Dualismo paralelista 

Alma e corpo representam duas espécies de realidade totalmente distintas e autônomas, independentes e ininfluenciáveis entre si. Uma e outra coexistem e transcorrem paralelamente, sem interações recíprocas. Sua fragilidade transparece no fato de inúmeros fenômenos clínicos e experimentais revelarem íntima relação entre fenômenos mentais e ocorrências cerebrais (posição defendida, p. ex., por Leibniz e possivelmente por Wundt). 

Dualismo epifenomenista 

O cérebro produziria ou causaria os fenômenos mentais que, por sua vez, seriam epifenômenos do cérebro, mas que não retroagiriam sobre ele. Tese defendida por Hobbes, T. H. Huxley e A. J. Ayer. A objeção a ela baseia-se na necessidade de se crer em uma mente ou espírito que se desprenderia do cérebro, passando a ter “vida” autônoma (tese espiritualista). Além disso, muitos fenômenos mentais produzem alterações funcionais e mesmo estruturais do cérebro. 

Dualismo interacionista 

Esta tese postula a possibilidade de ação recíproca e de influência mútua entre mente e processos cerebrais. É também chamada de dualismo psicofísico. Embora a alma e o corpo sejam duas realidades distintas, com certa autonomia, uma influencia a outra intimamente, havendo interação constante. Tal posição foi defendida, por exemplo, por Descartes, Herbart e possivelmente Oswald Külpe. Platão já fôra classificado como um monista espiritualista devido à sua ênfase dada ao "mundo das ideias" e à psiquê (traduzida geralmente como alma), porém este autor da antiguidade clássica, assim como Allan Kardec durante a modernidade, também pode ser considerado um dualista interacionista. pois não descartam a importância da vida "material" / sensorial. Geralmente questiona-se como realidades distintas entre si (mental ou espiritual e física/ corporal) interage entre si.

 Monismo materialista 

Trata-se de concepção materialista radical e absoluta. Só a matéria e o movimento são reais e eternos (filósofos do iluminismo, enciclopedistas, materialistas e positivistas do século XIX). Nada existe fora da natureza, a imaterialidade da alma é um mito. Os estados mentais são, na verdade, estados físicos. Sua fase mais marcante foi o final do século XIX (naturalismo monista): tudo se reduz à matéria, que obedece a leis naturais. A alma é puramente uma atividade fisiológica do cérebro. Uma forma de monismo materialista mais sofisticado, que também difundiu-se no século XIX, foi a chamada “teoria do duplo aspecto”. Nela se afirma que o organismo é unitário, revelando, porém, dois aspectos: um físico e outro mental, um não se reduzindo ao outro, nem sendo mais válido que o outro. Não há duas realidades, mas dois aspectos de uma só realidade (que, em última análise, é material). Alguns de seus representantes são La Mettrie, Montesquieu, Haeckel. 

Monismo eliminativo 

Nesta concepção, nada genuinamente verdadeiro pode ser chamado de “mental” ou “espiritual”. Nega-se, inclusive, a existência fatual dos fenômenos mentais. É a posição do behaviorismo radical de Skinner e Turing. Entretanto, Bunge (1989) afirma que “não nos livramos do problema da natureza da mente declarando que ela não existe, ou que não é possível estudá-la cientificamente”. Esta visão de mundo juntamente com a anterior (monismo materialista) parecem ser as dominantes entre cientistas e/ ou nas universidades/ faculdades, porém desconheço um estudo sobre tal tema.

Monismo idealista ou espiritualista 

É o oposto do monismo materialista. Trata-se de uma forma de idealismo subjetivista que indica que só a mente e/ou só o espírito é real. O essencial da realidade é a experiência interna imediata. Tudo se reduziria à experiência subjetiva ou mental do indivíduo (mentalismo). A tese acaba desembocando em um espiritualismo radical que nega a importância da matéria, o que é difícil de sustentar em estudos objetivos. Alguns de seus representantes foram Berkeley, Fichte, Hegel,Teilhard De Chardin. 

Vale notar que essas cosmovisões ou pressupostos filosóficos são os mais debatidos entre cientistas e filósofos, porém parecem não levar em conta os campos eletromagnéticos dos órgãos do corpo, como os campos do cérebro e do coração. Tais campos ainda parecem pouco estudados devido a uma série de problemas e embora já existam tecnologias que trabalhem com eles, a causa e a finalidade destes campos não estão totalmente compreendidas e esclarecidas.

E Como a Psicologia Explica a Mente?

Depende da "frente" da psicologia, que são três: A frente comportamental (com exceção da Terapia Cognitivo Comportamental) desenvolveu-se a partir do monismo ("só a matéria existe") e do método empírico, portanto apoia-se na possibilidade de experimentar usando os 5 sentidos humanos e na possibilidade de reproduzir as experiências estudadas. A frente psicanalítica apoia-se no racionalismo, no naturalismo e em algumas teorias que serviram de base para a fenomenologia (como as de Brentano etc) e parece utilizar uma base dualista. Por fim, a frente fenomenológica é estruturada pelo método fenomenológico e por filosofias do século 19 e 20, ignorando pressupostos e deixando a questão da estrutura da mente aparentemente em aberto. Além disto, cada uma destas 3 frentes da psicologia tem diversas abordagens com diferenças entre si. O termo abordagem significa aproximação, trazer à bordo ou chegar na borda (do outro), portanto na psicologia as abordagens focam na prática profissional. Nesta prática o terapeuta e paciente se aproximam, deixando bases mais teóricas em segundo plano.  

Espero que este texto tenha esclarecido um pouco da relação da ciência com a filosofia... Ou que ao menos tenha explicado a proximidade da psicologia com a filosofia. 

Bibliografia (incompleta) 

ANDERY, Maria Amalia. Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica . 4. ed., rev. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2014. 435 p. ISBN 8528300978 (broch.). 

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 2. ed.São Paulo, Moderna, 1993. 

BOCK, Ana M.B.; Furtado, O. e Teixeira, M.L. Psicologias: uma introdução ao estudo de Psicologia. São Paulo: Saraiva. 

KLEIN, Simone. «What is objective idealism?». Philosophy Questions. Philosophos. Cópia arquivada em 16 de julho de 2011

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Artmed, 2008.

domingo, 26 de setembro de 2021

Miséria...

 

Negacionismo virou uma das mais novas modas no Brasil e em mais partes do mundo (ao menos nos EUA, com o movimento antivax). 

Mas esse "evento" abrange muito além de teorias da conspiração e de negação das crises políticas e econômicas. Falar de política antes da ascensão da ultra direita na América (EUA, Brasil...) e da Covid-19 já era difícil, hoje é quase impossível - é como balbuciar insanamente. Os poucos que se entendem fecham-se em bolhas e nem estou me referindo (somente) a baboseira da polarização. 

A pandemia de Covid-19 fez com que governos (mais lúcidos) buscassem implantar medidas de segurança e campanhas de saúde (vacinação em massa). É muito simples: se o governo não faz o mínimo para tentar cuidar de sua sociedade, trata-se de um governo genocida. Só que o mesmo vale para quem garante renda do trabalhador: Se a empresa tem condições de custear mão de obra e implementar medidas de segurança como homeoffice, ela deve fazer isto... Mas quem garante que o mínimo foi feito pelas empresas com mais condições na pandemia? Certamente ninguém. 

O número de desempregados disparou, assim como pessoas em situação de rua. Isto já seria ruim o suficiente para alarmar qualquer pessoa minimamente sensível ou empática, mas não parou por aí: A renda para uma grande parcela da população caiu (não vou atrás desses dados, mas eles devem ser fáceis de se achar na internet, a menos que tu prefira acreditar em "tios de Whatsapp" ou em grupos conservadores), as consequências do desmatamento e de outros crimes ambientais estão surgindo. Claro, claro, juntar tudo isto sem citar fonte, parece coisa de alarmista, mas não é. 

O fato é que a civilização humana sempre teve problemas e talvez ela tenha feito pouco para resolver estes problemas nos últimos anos: A maioria das notícias de crimes ambientais, cartéis, oligopólios, milionárias sonegações de impostos e furto de verbas públicas, não foram seguidas de uma resolução. Pelo contrário, foram seguidas pelo surgimento de consequências mais e mais problemáticas. 

Entre os anos de 2014 e 2016 eu li as seguintes notícias (procurem as fontes): 

Fiscalização indica que mais de uma barragem das mineradoras do conjunto "Vale / Samarco" estão com altas possibilidades de romper (e romperam...); 

Escândalo do CADE causa um dos maiores rombos nos cofres públicos do Brasil (grandes empresários sonegando impostos); 

Operação Zelotes encontra contas de diversas grandes empresas em paraísos fiscais (mais sonegação multimilionária); 

Fora os "desvios de verbas" feito por políticos em Minas Gerais, Rio de janeiro, Goiás e tantos (possivelmente todos) outros estados brasileiros; 

 Enfim, o que podemos fazer em relação a esses poderosos? Por enquanto nada. Nada porque o povo está muito mal informado e desunido para agir. No quesito econômico, não só o Brasil, como diversos outros países "estão pegando fogo" (aumento da inflação, mais desemprego, miséria, fome...). Não se trata de políticos nem de grandes empresários - não adianta mais ver notícias sobre os que estão por cima da situação. Esses se descolaram da realidade e clamar por (e fazer) justiça está mais difícil do que antes. 

A retomada econômica que alguns pregam pelas mídias é para quem? Quantos do que perderam tudo irão se recuperar? E entre aqueles que recuperam um trabalho, o quanto ele perdeu de capacidade de compra? O estrago está feito e que estrago! 

Então só nos resta "tapar o Sol com a peneira". E sim, isso é muito melhor do que fazer nada. Como citei anteriormente, não se trata de alarmismo, é realidade: Tem muita gente precisando de auxílio, não só de esmolas, mas de doações, ajuda mais significante e/ou mais frequente. Certamente não iremos desfazer o estrago, mas o esforço para ajudar os mais necessitados, numa crescente crise mundial, não é só empático, é lógico. Negar isso também é negacionismo - ignorância e egoísmo. 

Fiz inúmeros textos citando a importância dos bons sentimentos... Seja receptividade, amor ou esperança, tanto faz: Eles estão por trás da empatia (a que serve ao mais necessitado). Não vivemos momentos adequados para indiferença e me causa profundo sofrimento imaginar que nenhum parente, amigo ou mesmo colega ou mero conhecido, esteja fazendo um esforço mínimo neste sentido. Sei que alguns têm menos condições de ajudar, mas também sei que às vezes os esforços, ainda que individuais e pequenos, valem a pena.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Teorizando a Importância do Progresso Mental

 

"Vício pela Carne" - Sexismo ou Materialismo? 

Quando falamos em carne podemos pensar nas carnes de animais criados para o abate, o mercado alimentício e o consumo. Porém também utiliza-se o termo "prazeres da carne" como algo relacionado ao ato sexual. Particularmente ao coito e ao prazer físico que tal ato proporciona. Obviamente é possível ter tal prazer juntamente com o prazer psíquico ou mental: O prazer de estar junto a uma pessoa que se ama. 

Mas o ato sexual como busca para satisfazer os desejos particulares deve existir desde tempos imemoráveis. O problema é quando isto se torna um discurso de incentivo. Torna-se um problema por se caracterizar como um discurso sexista que põe o prazer próprio e o padrão de beleza do corpo como assuntos mais importantes do que o convívio em sociedade, do que o desenvolvimento da empatia e do intelecto. Este tipo de assunto é o que corre pela "boca do povo" e raramente é registrado ou estudado. Tal discurso pró-sexo deve ter ressurgido ou ganhado força nas sociedades ocidentais como um argumento contemporâneo, mas dissonante, dos movimentos feministas, antirracistas e pró paz e amor dos anos 60 do século 20. Neste mesmo período emergia o conceito de amor livre que facilmente foi apropriado por sexistas. Por exemplo, a palavra amor passa a ser propagada como sinônimo de sexo em diversos gêneros musicais. Todos têm (ou deveriam ter) direito ao prazer, mas há uma grande malícia nos argumentos sexistas que serviram bem ao gênero dominante na maioria das sociedades. Serviu bem aos homens em posição de poder (seja econômico, político ou até religioso) que se interessavam em manter o patriarcado e propagar uma falsa naturalidade do domínio do homem na Terra. Um discurso relativamente fácil de se propagar tendo em vista que o período de maior dominância da mulher nas sociedades humanas perdeu grande parte de sua força num passado muito distante: Na história pré-escrita. Na história da arte é possível ver a predominância do feminino em esculturas e artes do oriente médio até a "Grécia" minóica. Dominância esta que deve ter sido suprimida gradativamente por lideranças masculinas com a propagação das atividades agrícolas e da metalurgia (Idades do cobre e do bronze). 

O discurso sexista e pró "carnalidade" então relaciona-se com os poderes dominantes no ocidente: O poder econômico na forma do sistema neoliberal/ capitalista e as igrejas. Trata-se de um discurso não só materialista, mas também um discurso de poder. Quem faz mais sexo é "mais homem", quem deve dominar a família e a sociedade é o homem e esse tipo de desigualdade e opressão. É um discurso de esfriamento emocional, que combina com um monte de idiotices (de idiota: que não sabe viver em sociedade) como "homem não chora", "homem tem que ter carro", "mulher não sabe dirigir" e tantas outras excrescências. O discurso sexista é fortemente utilizado de modo popularizado pelo patriarcado machista no mínimo desde o início da pós modernidade nos "anos 1960". Tal discurso apropriado pelo patriarcado, facilmente se afasta do conceito de amor livre e reforça o conservadorismo: Diz que o homem pode trair a mulher e frequentar prostíbulos porque é o (suposto) provedor da família (conservadora), mas diz que a mulher tem que ser fiel ao traidor. Enfim, o discurso sexista até consegue se disfarçar de libertário quando aberto ao público em geral, posando como sensualidade e sexualidade ativa supostamente saudável, mas retorna ao machismo patriarcal retrógrado quando discutido apenas entre homens por exemplo. Isto ocorre porque o ato sexual pode ser feito com emoções (como mencionado anteriormente), mas é essencialmente corporal. Por esta razão, é muito fácil reduzi-lo apenas ao prazer físico, ignorando ou até mesmo menosprezando os sentimentos/ emoções positivas, que são elementos tão importantes nos relacionamentos. 

Sexismo é um discurso fácil de se propagar porque é materialista: O ato sexual não é algo interno de cada pessoa (subjetividade) como os sentimentos e os pensamentos, ele requer uma relação entre corpos. É notório que discursos materialistas são fáceis de se propagar e de serem aceitos porque lidam com a objetividade, priorizando a realidade externa ante a interna de cada pessoa. O consumismo por exemplo abrange diversas áreas de trabalho e de estudo e se apoia na criação artificial de "necessidades". Tais necessidades artificiais surgem em vários setores do comércio/ mercado: Alimentos, roupas, eletroeletrônicos e até veículos de transporte. Em todos os casos, o discurso consumista não visa prioritariamente o bem-estar das pessoas, ele visa o lucro constante e crescente de uma minoria de donos das maiores empresas do mundo. 

 Materialismo gera Progresso Real? 

Em outro texto (https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/08/as-farsas-contra-empatia-e-o-bem-estar.html) eu descrevi um resumo da história do capitalismo. Ele é um sistema, ou uma estrutura por trás de sistemas e não uma força da natureza (muito menos uma força divina). O materialismo na academia se refere a uma pressuposto filosófico da ciência, o que pouco ou nada difere de um paradigma das áreas do conhecimento. Mais precisamente ele é uma "visão de mundo" (weltanschauung) que serve de base para o empirismo. Assim, o materialismo é o argumento/ ponto de partida dos métodos de estudo que descartam tudo que não pode ser detectado pelos 5 sentidos humanos (já explicado em outros textos). 

Aqui, utilizo este termo como uma ideologia ou conjunto de doutrinas que giram em torno da "matéria" perceptível pelos 5 sentidos humanos. Portanto é nítido que o capitalismo e todos sistemas sociais e/ou econômicos que utilizam dinheiro, são materialistas. Note que diferentemente de todos os produtos "físicos", os estudos, as artes e a ciência são os mais difíceis de se precificar. Isto ocorre porque tal movimento é contra a ordem natural das coisas. Explico: O ser humano é livre (ao menos relativamente) para pensar e para sentir desde que surgiu na Terra. As unidades monetárias deveriam medir tais valores? Obviamente não. As epidemias de depressão e ansiedade que vêm crescendo após a industrialização e a digitalização do mundo do trabalho e do comércio estão aí para provar isto. O ser humano não é uma máquina e portanto não é só o corpo. Ele têm necessidade de relacionar-se com outros desenvolvendo seus pensamentos e sentimentos e a liberdade destas atividades mentais sim, é natural. Limitar ou manipular tal liberdade psíquica é extremamente nocivo como pode-se notar com tais epidemias. 

Portanto o que gera o progresso na humanidade não é o materialismo nem é o dinheiro. O dinheiro foi inventado há muito tempo, mas foi reinventado após crises socioeconômicas. Longe de ser uma ciência exata e mais longe ainda de uma verdade absoluta, o dinheiro chegou a deixar de existir no colapso da era do bronze e teve seu lastro modificado nas crises da modernidade e da pós-modernidade, certamente devido a interesses econômicos das classes mais enriquecidas e não devido a busca de um progresso social, ético ou moral. A garantia de um valor real para as moedas (lastro) foi modificada várias vezes durante a história, sendo alguns exemplos sua aplicação na Inglaterra em 1783, a crise da moeda de prata e das cédulas (1750-1870), o estabelecimento do dólar-ouro em 1944 e a quebra do lastro do dólar com o ouro em 1971.

O progresso surge da intenção de construir e de transformar. Ele requer dos seres humanos a boa intenção, a extensibilidade (hoje popularizada como "empatia"), a liberdade e a busca pelo entendimento. Oras, se todos tivessem livre acesso aos estudos, as ideias se multiplicariam. Os estudos seriam muito maior em número e com mais gente estudando toda produção intelectual crescente (seja científica, artística etc), a qualidade dos estudos poderia melhorar com mais facilidade. Com a liberdade de escolha, aqueles que não gostam de estudar, arrumariam outra ocupação, não produzindo coisas forçosamente nem de qualidade dúbia. Nada disto que descrevo refere-se a permitir discursos de ódio, pelo contrário: O progresso, seja intelectual ou sentimental, se dá através de atividades que constroem e não daquelas que destroem. Se dá através de inovações e transformações que são coisas diferentes de destruir. 

Acesso à Ciência, à Filosofia e à Fé não-institucionalizada 

Quantas pessoas conseguem ingressar no meio acadêmico/ científico? 

Quantas têm acesso à filosofia? 

Quantos fiéis se aproximam dos ensinamentos dos grandes profetas? 

A resposta para todas essas perguntas é: Pouquíssimas pessoas. A minoria da humanidade. 

Mas porque o acesso a estes campos do saber é tão difícil? 

 Isto parece um problema recorrente na civilização humana. O acesso torna-se difícil por variados motivos: desconfiança, conflito de interesses etc. 

Entende-se que o mais antigos destes campos é o religioso. Isto porque é o campo que lida com o desconhecido de maneira mais intuitiva e através do sentir. Práticas xamânicas datam a idade da pedra, antecedendo as religiões mais formais de povos sedentários/ urbanos. 

Se conhecimento é poder, tal fato não era diferente nas antigas civilizações. Com o desenvolvimento da agricultura no final da idade da pedra, houve tempo o suficiente para alguns grupos de seres humanos monopolizarem os conhecimentos. Nesta transição que durou alguns séculos (talvez até 2 milênios, entre 5500 aC e 3500 aC), deve ter sido dificultado o acesso ao conhecimento. A liderança de antigas civilizações que detinham o conhecimento da agricultura e da navegação (consequentemente também tinham o conhecimento das estações do ano e da astrologia) foi composta por religiosos como os patesis, faraós e sacerdotes. Ao menos alguns grupos destes religiosos não tinham o menor interesse em liberar o acesso a tais conhecimentos. Claro, que havia a necessidade de muitos trabalhadores braçais e portanto o acesso aos conhecimentos naturalmente seria apenas para uma parcela da civilização, mas também é ingenuidade pensar que não houveram interesseiros (e egoístas) na liderança religiosa e política das antigas civilizações. 

Com o passar dos milênios os campos do saber se desenvolveram, até que durante o período da revolução industrial e do iluminismo, ele se dividiu de maneira mais decisiva. A revolução industrial também se "desenvolveu": Após sua primeira fase, essencialmente marcada pelos motores à vapor, foi descoberto o motor à combustão, dando origem aos veículos motorizados. A eletricidade passou a ter uso prático e fábricas foram construídas pelo planeta até que o setor da computação / informática foi se desenvolvendo. 

Com a digitalização e a universalização da internet, a dificuldade ao acesso a qualquer área do saber perdeu o sentido. A "sub propagação" de informação útil ao desenvolvimento geral da humanidade é majoritariamente baseada em egoísmo e mentiras. Não há mais razão para materialismo exacerbado desde então: é preciso distribuir oportunidades para o desenvolvimento mental das pessoas.

Os três campos do saber mencionados foram trabalhados pelos filósofos da Grécia Clássica, como citei anteriormente em meus textos. 

Ainda que muito dos argumentos de Sócrates e Platão fossem racionais, ao buscar o Bem maior em seus ensinamentos, eles buscavam despertar o bem, ou mais precisamente os bons sentimentos, nas pessoas. A beleza verdadeira que citavam estava vinculada ao seu conceito do Bem, de Deus (sim, único, onipresente, como Nous a mente cósmica) e de justiça. Assim, naturalmente quem buscava o conhecimento, a verdade e a Deus desenvolvia e praticava um tipo de devoção. Esta justiça mencionada por Sócrates (e/ou por Platão) formava a base de seus ideais de governo e de sociedade, como mostrado em "A República": 

Artesãos e trabalhadores em geral formariam a classe básica da sociedade onde participariam de um sistema econômico com alguma semelhança a social-democracia: O sistema mercantil seria regulado pela classe governante, constituída de filósofos, mas estes não participavam das atividades comerciais, bem como a classe militar (portanto entende-se que nenhuma destas duas classes poderia enriquecer). A classe militar e de defensores seria constituída de guerreiros. Indivíduos que prezam a bravura e a honra, mas que teriam que balancear sua educação esportiva/ combativa com uma educação artística. Os guerreiros não podendo participar do comércio de maneira alguma, receberiam alguns benefícios para compensar isto, mas para compartilhar com toda sua classe. A guarda e criação dos filhos/ crianças também seria compartilhada entre todos. Por fim os filósofos que governariam a sociedade seriam cientistas e líderes religiosos também, afinal os filósofos socráticos tinham alguma semelhança com os pitagóricos, tendo grande respeito pela matemática, geometria e astrologia. A astrologia era indissociável da astronomia desde antes de Sócrates, até aproximadamente 2065 anos após a sua morte. Sócrates menciona que essas ciências consideradas importantes por ele, não deveriam ser usadas apenas para medições, para estratégias e para aplicações materiais. Tais ciências tinham por objetivo principal o desenvolvimento da mente, em busca da verdade, do Bem e de Deus. Mesmo aqueles que não fossem filósofos, como as classes dos guerreiros e dos trabalhadores, poderiam ser bons ao se devotarem às suas respectivas atividades. 

Embora seja praticamente impossível saber se o sistema proposto seria bem sucedido se aplicado à sociedade humana, alguns pontos se destacam na "República". Estes pontos podem ser resumidamente interpretados da seguinte forma: 

O interesse no progresso coletivo, buscando respeitar capacidades individuais; 

A ciência e a religiosidade não se excluíam; 

 Propostas revolucionárias para época (século 4 antes de Cristo); 

Essencialmente todas propostas buscavam esclarecer os fatos e buscavam maior entendimento, nunca deixando o bem de lado. Isto é trabalhar o progresso. Não há progresso nem ciência sem todo esse exercício essencialmente mental. Ainda que houvesse conceitos estranhos para nossa cultura do século 21 nas propostas socráticas/ platônicas, como a divisão bem delineada de 3 classes sociais (e até espirituais), não havia maior sectarismo nem segmentação favorecendo rixas ou obscurantismo. A sociedade em que vivemos hoje parece muito mais dividida do que o exemplo proposto por Sócrates: Há rixas entre estados, entre empresas, entre tribos sociais, entre religiões, e também há rixas de religião vs ciências, corporações vs estados etc... 

Concluindo de modo simples, nem a verdadeira ciência nem o verdadeiro progresso deveriam causar tantas divisões como temos hoje na humanidade. Progresso e união se dão pelo exercício da mente que não trata outros seres como meros objetos; se dão no ato de pensar no todo e nas demais mentes, ou seja, na coletividade e na individualidade que gera a diversidade.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Quais são as Bases dos Saberes?

Só para constar, este texto tem uma predominância de minha interpretação sobre a filosofia, a religião e a psicologia dividida em várias abordagens. Minha interpretação sobre os saberes é uma cosmovisão* que flutua entre dualista e espiritualista, pois admite a existência tanto da mente como da realidade sensorial ("material"/ corpórea), além da possibilidade de uma realidade espiritual, diferindo da visão de mundo* materialista ainda predominante ciência "main stream" ou tradicional... 

*(Sinônimo de weltanschauung, similar aos conceitos de paradigma e de pressuposto filosófico)

Receptividade - Sentimento ou Esforço

Sentimentos apenas surgem? Não. Eles podem surgir de maneira inata, mas também podem ser induzidos. Induzidos por nós mesmos ou por outros. Sendo assim, todo relacionamento, em algum nível, requer que os indivíduos sejam receptivos ou se disponham. 

Algumas pessoas podem ser receptivas de modo mais inato, outras podem ser menos sentimentais, mas podem se dispor através de uma decisão mais racional. Obviamente deve haver esta disposição ou receptividade de ambos os lados das relações, embora pareça uma utopia que ela ocorra exatamente em níveis iguais por parte de todas as pessoas em um determinado relacionamento. Independentemente de quão difícil é essa equidade de disposição ou de sentimento, ela pode surgir ou ser induzida não só nos relacionamentos como também na fé, na religiosidade etc. Mas a receptividade é algo interno, mais nitidamente inato. A disposição, por sua vez, pode ser induzida de ambas formas: Internamente pela própria pessoa e externamente por outras pessoas, sejam amigos, familiares ou líderes de um grupo religioso... Esta disposição a ouvir, entender, conviver etc, tem no mínimo alguns traços de humildade. Isto explica porque ambas atitudes/ comportamentos parecem raros hoje em dia. Com o propagar de clubismos, discursos de meritocracia e narcisismos, poucos se dispõem a entender o diferente e o estranho. Tais ideologias e discursos usam bastante a indução ao orgulho, "inflando egos" (egoísmos), suprimindo receptividade e humildade, sentimentos e atitudes essenciais em qualquer área do saber. Este movimento manipula grupos e portanto, incitam rixas e rivalidades, além de direcionar desejos de punição. 

A Religião deixou de cuidar dos Sentimentos?

As igrejas cristãs (tanto as católicas como as protestantes/ evangélicas) que entravam em crise durante o iluminismo do século 19, tentaram se adaptar ao mundo produtivo e competitivo. Esta crise foi observada pelo psiquiatra e psicoterapeuta suíço, Carl Gustav Jung: Na virada do século 19 para o 20, Jung percebeu uma "evasão" das igrejas cristãs pelas classes mais abastadas da Europa. Com um olhar aparentemente voltado para a sociologia, Jung apontou que tal tipo de comportamento que começa em "elites" das sociedades humanas, tende a se espalhar para as classes mais baixas depois de algumas décadas, em geral, em torno de 20 anos depois. Independente se faltou precisão ou não nos apontamentos de Jung, o fato é que no século 20, a igreja católica que apostou no conservadorismo, ignorando grande parte das mudanças socioeconômicas, foi perdendo muitos fiéis. 

As igrejas evangélicas por sua vez, por volta da década de 80 do século 20, começaram a apostar em programas televisivos sensacionalistas. Nestes programas eles exploravam as necessidades das classes mais empobrecidas, prometendo não só uma "felicidade no pós vida", como também prometendo milagres para resolver problemas em vida dos fiéis e recém convertidos: econômicos, de saúde e de relacionamento. O sucesso de pastores estadunidenses atraiu os brasileiros que imitaram a fórmula. O resultado foi uma nova e restrita classe "religiosa" multimilionária super adaptada ao sistema socioeconômico capitalista. Esta religião materialista reforçou a plutocracia nos frágeis e falhos sistemas "democráticos" da América, e logo tentou se expandir para outros continentes, obtendo alguns êxitos. De um modo geral, assim foi destruído o "mundo espiritual" na Terra. O sistema capitalista que frequentemente engolia os sistemas políticos, defeituosamente democráticos (principalmente os ocidentais), também engoliu o poder religioso. Criou-se um consenso que todo religioso pode crer em Deus, com tanto que obedeça as regras da plutocracia válidas praticamente em todos os países do mundo. Poucos são os religiosos que conseguem enfrentar o sistema regido pelos mais multimilionários do mundo (neste texto não vou explicar como nem quais políticos ocidentais comem na mão desses multimilionários). 

Em um mundo extremamente materialista, obviamente a ganância reina e a verdadeira fé fica oprimida sob interesses econômicos. Note que não é só esta fé que fica sob pressão do materialismo/ consumismo/ capitalismo: Os sentimentos também ficam, mesmo porque a fé está muito mais para um sentimento do que para um pensamento. E não estou falando desta fé de camisetas e propagandas boçais. Fé em clube (seja de futebol, de tribo social ou de qualquer questão material) é torcida. Torcida exagerada é fanatismo. A verdadeira fé não é fanatismo, independente de quantos fanáticos existam nas "religiões" pelo mundo. A fé a que me refiro tem muito da receptividade ou da disposição. Não é bradar furiosamente nem se encher de excitação por qualquer idiotice da civilização (Idiotice é aquilo que atrapalha o convívio, portanto fanatismo é isso). Esta fé verdadeira está relacionada à disposição em crer, ou ter esperança, seja no futuro ou em Deus. 

Ah, mas ter esperança em qualquer uma dessas coisas não é idiotice? Não, afinal a pessoa que não tem esperança em coisa alguma está deprimida, portanto está sem poder algum, está indisposta para praticamente tudo. Propagar a falta de esperança é propagar desespero, é querer que mais pessoas também fiquem paralisadas ou inertes diante qualquer tipo de problema: Social, econômico etc. 

Oras, se você acha que Deus (que ama toda sua criação, não um deus punitivista) não faz sentido, você ainda pode crer no futuro... Se você acha que nem o futuro nem Deus faz sentido... Então você desistiu de tudo. E eu não recomendo o suicídio, porque sei que os milhões de dados que compõem todas informações sobre todos os pensamentos, sentimentos, memórias e interpretações que você fez ou teve em cada segundo da tua vida, não vão deixar de existir repentinamente. Não existir não existe e deixar de existir é algo improvável. Nem na religião nem na ciência e nem na filosofia. Não é possível provar "o deixar de existir" embora alguns imbecis* auto intitulados cientistas tentaram isso. Alguns exemplos que conheço são da psicologia, onde alguns comportamentalistas atacaram teorias da frente psicanalítica, como o inconsciente. Não há nada de errado em apontar inconsistências em teorias, mas negar tais teorias por rixa ou por comodismo não é produtivo.

*"Imbecis" não como sinônimo de tolo ou ridículo, mas que não têm poder, neste caso porque recusam a possibilidade da mente como algo superior ao corpo, que tem plena possibilidade de poder sobre o corpo; Os que recusam esse poder psíquico sobre o corpo (força de vontade, decisão, interpretação etc) geralmente também recusam a teoria de que memórias ficam inacessíveis por determinados períodos ou situações etc.

Apesar dos Estragos, há Progresso

Alguns poderiam dizer: "Ora, mas a humanidade não tem jeito, ela não aprende e sempre haverá injustiça, ganância e guerras". Eu concordo que ela demora muito para aprender, mas aprende. Bem devagarzinho. Vejamos os esportes por exemplo: Quando as olimpíadas foram inventadas na Grécia antiga, a cidade que perdia determinada competição declarava guerra à cidade vitoriosa. Não era um mero rancor de alguns ignorantes: Era algo instituído pelos governos e aceitos por uma parcela significante da população! E matavam por tais causas. E não matavam algumas dezenas, afinal era guerra: Procurava-se exterminar todo exército inimigo e quem sabe, talvez parte da população também. Hoje (quase 2800 anos depois) temos as infames e horríveis brigas de torcida de futebol, mas que não chegam nem aos pés daquelas atrocidades do primeiro milênio aC. 

 Enfim, existem inúmeras outras amostras de progresso na humanidade. Umas fingem ser progresso, como a invenção de armamentos mais "modernos", enquanto outras realmente são, como as variadas conquistas da sociedade: O saneamento e saúde pública, a liberdade de expressão (não a de discursos de ódio), o acesso ao ensino etc. 

Voltando ao sentimento e o acreditar: Tais coisas parecem aceitas neste século 21, mas só se forem submetidas às regras impostas pelos ambientes econômicos dominantes (empresas) e aos ambientes "religiosos" também plutocráticos (governados pelos mais ricos). Próximo destes ambientes tóxicos está a academia (faculdades) e a ciência, pois estudos sobre a importância dos sentimentos são raros, e frequentemente, também são desprezados por muitos nestes ambientes. Como vim observando, tal dificuldade tem como algumas das principais causas, a falta de clareza sobre o que é ciência e o sectarismo (segmentação ou clubismo) entre as áreas do saber. É preciso uma aproximação entre os campos do saber, mas não uma mera mescla inconsequente e retrógrada: É preciso delinear clareando o que é cada campo. É preciso esclarecer quais são as diferenças entre os campos, quais são os métodos de aquisição de conhecimento e quais são as aplicações. E obviamente não basta ser racional, muito menos parecer convincente, é preciso fazer isso deixando pressupostos de lado, com humildade, respeito e cooperação. Até mesmo os meios religiosos, espirituais e místicos devem esclarecimentos. Alguns exemplos são: sobre a moral, sobre a vida e as possibilidades do pós-vida, sobre a existência do livre arbítrio e sobre o que são comportamentos de fascinação e de obsessão. 

Soluções pela Amizade com o Saber 

Embora eu expresse minha opinião de maneira aparentemente ofensiva, na verdade eu só faço isso buscando expansão de conhecimento e de empatia. Ao alegar que sei que a mente existe além do cérebro, eu não só tento indicar um caminho de esperança, como também sei que houveram registros de tais evidências na medicina, como nos casos de EQM (embora isso deva gerar longas discussões). Além disso, sou crítico daqueles que atacam o que não conhecem, que atacam o que não entendem e que atacam o que não tem certeza. Em "meio curso" de psicologia (5 semestres) eu já vi ao menos 6 supostos psicólogos mostrarem tais preconceitos (3 no curso, 3 em textos de autores estadunidenses)...

Expressar mera opinião como se fosse a verdade é perder o amor pela verdade. Isto mostra inércia e conformismo. Uma pessoa conformada com sua mera opinião, se acomoda com coisas equivalentes aos brinquedos, deixando a vasta possibilidade de progresso mental em segundo plano. Quando este comportamento prevalece nas esferas de poder de qualquer civilização, ele tira o rumo da sociedade criando uma cultura de alienação. (como vemos no capitalismo e seus discursos reforçadores de consumismo, produtividade e competitividade) 

Como mencionado anteriormente (ou em outros textos meus), o aprendizado vem por tirar preconceitos e opiniões vaidosas. Isto prova que, ao menos, algumas respostas já existem dentro da mente das pessoas (como indivíduos). Tais respostas estão ligadas à postura humilde e/ou receptiva. 

Numa sociedade onde não se busca o Bem ou a união, não há ética. Não há união, há apenas interesses particulares dominando a sociedade. No máximo há fachadas escondendo corruptores e corrompidos, afinal o que acontece com o ser humano como indivíduo, também acontece com a sociedade, que é o agrupamento desses seres humanos. O verdadeiro saber de qualquer sociedade, cedo ou tarde, deve necessitar da dialética como duas (ou mais) inteligências buscando a verdade, sem interesse em projetar suas personalidades. Diálogos mal conduzidos fazem as pessoas não quererem o conhecimento. Já os bons diálogos despertam o interesse pelo conhecimento. Neste processo, pressuposto e autoridade não são argumentos válidos, pois tal postura permite ir muito além do senso comum, mas exige maturidade. Invoca união em busca do conhecimento, para além do senso comum. 

 Os filósofos socráticos já falavam da relação entre ciência e justiça no século 4 a.C.: 

"...as artes governam e dominam o objeto sobre o qual se exercem." 

"Portanto nenhuma ciência procura nem prescreve a vantagem do mais forte, mas a do mais fraco, que lhe é sujeito." 

"... é evidente que nenhuma arte e nenhum comando provê ao seu próprio benefício, mas assegura e objetiva o do governo, objetivando o interesse do mais fraco e não o do mais forte." 

Todas pesquisas e suas respectivas aplicações visam o bem de seu objeto: A medicina visa o bem do corpo do paciente, a engenharia visa o bem do constructo e de seu usuário, a psicologia visa o bem da mente do cliente/ paciente etc.  

Conclusão

Então todos os saberes deveriam buscar o bem, isto é óbvio, como eu devo ter citado em outros textos meus. (o bem de seus alvos e da coletividade, por exemplo)

Mas quais são as diferenças entre ciência, filosofia e religião?

Muitos argumentam que é o método... E muitos que usam este argumento reduzem a ciência ao empirismo (também citei isso diversas vezes noutros textos).

Apesar de pouca clareza e pouco consenso, eu consegui chegar a seguinte conclusão, me baseando principalmente em argumentos do filósofo e educador brasileiro Mário Sérgio Cortella e um pouco no psiquiatra húngaro Thomas Szasz:  

"A religião crê para ver. A ciência vê para crer";

A filosofia faz o meio campo entre ciência e religião/ espiritualidade;

A filosofia escapa da religião pois é um saber racionalizado;

A filosofia é a origem da ciência e fica com o que a ciência não explica; 

O saber racionalizado especializado torna-se ciência;

A ciência é objetiva e coletiva, pois há contato com outros pensadores; 

É comum a ciência usar pressupostos, daí a força do método empírico;

Na saúde, a objetividade científica serve para tratar doenças, não comportamentos;

Não há neutralidade nas áreas do saber.


sábado, 21 de agosto de 2021

Reflexões sobre a Importância da Inocência

 

A Inocência é a Neutralidade ou é o Bem? 

O ser humano quando nasce é uma "tábula rasa"? É completamente neutro ou o bem e o mal existem desde o nascimento? Existem desde antes? Estes conceitos permaneceram debatidos apenas em círculos religiosos/ espiritualistas, pois foram praticamente abandonados pela filosofia em algum período entre a renascença e o iluminismo. Talvez este abandono por parte da filosofia tenha ajudado a ciência se livrar dos tabus e tradicionalismos das religiões, mas deixou algumas lacunas... 

Como a filosofia (e consequentemente a ciência) abandonou tal debate, ainda não sabemos as "origens do bem e do mal", mas no senso comum em geral, as crianças são vistas como puras / inocentes no início de suas vidas. Afinal o adulto que pensa que uma criança de 1 ou 2 anos de idade é maliciosa ou algo do tipo, é no mínimo paranoico... Pode ser que a criança herde alguns traços de personalidade, mas não abordarei tal assunto aqui, pois a criança tem um longo período de oportunidades para ter seus aspectos sentimentais e racionais "moldados" pelos adultos que a cria. 

Para quem gosta de psicanálise e acha que sexualidade infantil é uma virilidade que surge na criança, sugiro que pare de criar tais fantasias. E para quem tem pavor da psicanálise por considerá-la atribuir uma perversidade à toda criança, sugiro estudar um bocadinho. Sexualidade infantil nada mais é do que um termo polêmico referente aos fatores biológicos como instintos de sobrevivência e o desenvolvimento de zonas erógenas do corpo. Talvez haja alguns exageros ou vieses nestes argumentos psicanalíticos, mas nada digno de idolatria ou de rancor histérico. 

Voltando aos aspectos mais internos da mente humana: A "pureza", um possível sinônimo de inocência neste caso, é íntima da receptividade (estar aberto à): A criança geralmente perde esta pureza em determinado(s) momento(s) ao interagir com os adultos e suas ganâncias e orgulhos, mas pode restaurá-la buscando a humildade. Humildade esta que é a expressão da receptividade ou o esforço bem sucedido em ser receptivo, um quesito básico para evoluir racionalmente (pela ciência por exemplo) e sentimentalmente (espiritualmente ou religiosamente). 

 Como pode ser observado em qualquer forma de vida onde algum progenitor cuida de sua prole, os filhotes não precisam se sustentar. Os "pais" se esforçam em fornecer sustento e segurança aos filhos, embora existam algumas exceções a esta regra. Este é o comportamento dominante que garante perpetuação das espécies de aves e mamíferos. Assim, a grosso modo, na infância do ser humano é possível alcançar a felicidade mais facilmente do que durante a vida adulta. Resumidamente esta felicidade é oriunda dos afetos positivos. 

Enumerar afetos é uma tarefa difícil, pois estamos falando de sentimentos, mas tentarei agrupá-los, ou ao menos, classificar alguns parâmetros: 

O "primeiro afeto" viria da relação onde o adulto que cuida da criança com sua inocência (próxima de uma receptividade natural, e portanto próxima da humildade também) em seus estágios iniciais de vida. Estes estágios não são fixos, podem variar, mas é basicamente o período em que os pequeninos estão formando seus sentimentos em relação a quem cuida deles e ao seu pequeno e novo mundo exterior; 

A troca de bons sentimentos e o ter alguém para gostar (amor) seria um exemplo básico de afeto importante no desenvolvimento do ser humano, ainda que existam muitas distorções sobre os significados do amor, feitas essencialmente por adultos que cresceram com déficits afetivos. Este amor se dá com quem a criança cresce e se desenvolve - os pais, familiares e novos amigos que são realmente presentes. Importante destacar a presença, seja na forma de uma persistente companhia agradável, fiel ou ambas; Por fim a esperança da criança seria o último afeto positivo ou talvez um grupo ou parâmetro de afeto. Conforme a criança ou adolescente em desenvolvimento recebe respostas construtivas, ou "transformadoras-não-destrutivas", seja no aspecto mental (ensino de convívio e talvez de artes e trabalho) ou físico (quando os "pais" cuidam da saúde deste), ele desenvolve características como inspiração e esperança. Talvez isto conclua um ciclo de segurança útil para que a criança não cresça achando que tudo pode acabar a qualquer momento e nada realmente importe... Não se trata de crescer com uma fantasia e sim de crescer entendendo possibilidades. Assim ela cresce com empatia e com ao menos alguns dos sentimentos como respeito, alegria, esperança e tantos outros tidos como muito subjetivos ou fúteis por pessoas mais insensíveis. Pessoas que desprezam tais sentimentos podem ser problemáticas de várias maneiras: podem ter recebido uma educação fria, podem sofrer de alguma psicopatologia etc... 

Observações sobre a Infância 

 Tive a oportunidade de fazer observações sobre como três famílias cuidavam de suas respectivas crianças por alguns anos. Acompanhei todos os casos sem interação direta, mas "de perto" e não por opção, mas por conviver durante anos quase que em período integral com tais vizinhos em um prédio com abafamento/ isolamento sonoro quase nulo (e portanto com pouca privacidade): 

O 1º caso foi de uma menina cuja os pais demonstravam pouco afeto por ela. Ouvi quase que diariamente a rotina desta família por 5 ou 6 anos.

O pai queria ter um menino, quando a filha nasceu deixou-a com a mãe que havia parado de trabalhar. Só percebi que o pai passou a interagir mais com a menina, quando esta já tinha 3 anos de idade. 

A mãe mostrou-se uma pessoa sem paciência com crianças. Várias cenas no mínimo peculiares ocorreram: 

A primeira frase que ouvi a criança dizer foi "Vô ti matá". Uma imitação do que a mãe dela falava frequentemente com irritação (Vou te matar); 

A mãe quase que diariamente gritava, muitas vezes ordenando a filha a atender o telefone. A criança tinha no máximo 2 anos de idade quando isso começou; Ainda nesta fase, a mãe exclamou diversas frases que demonstravam impaciência com a filha, como esta: "Ai fulana, como você é criançona!!" 

Enfim, quando a filha estava com cerca de 6 anos de idade, ela era tida como muito independente pelos familiares e visitas... 

A história se repetiu de maneira similar com mais dois "vizinhos": 

Uma mulher que se irritava com a infantilidade de seu filho de 4 anos de idade e que mostrava indignação pelo fato da criança ainda não saber tomar banho sozinha nem se vestir corretamente... Neste caso, o pai dedicava um tempo aparentemente significante para brincar com filho, mas parecia "workalcholic": Trabalhava segunda à sábado em sua própria empresa, em média das 7hs às 19hs e frequentemente fazia "horas extras" seja nos dias de semana durante à noite ou, mais raramente, aos domingos durante o dia. Sua relação com a esposa se mostrava mais fria do que afetuosa. 

Quando o menino tinha cerca de 6 anos ele "ganhou" um irmãozinho. Nesta época ele passava várias tardes por semana na oficina de seu pai (que era logo abaixo do meu apartamento) e ali, os funcionários de seu pai frequentemente faziam discursos tentando exibir sua "masculinidade". Eram essencialmente falas de como a polícia devia matar bandidos e como eles "comiam" e traiam mulheres que recebiam os mais degradantes adjetivos por eles. Sobre esta família e suas crianças, as últimas e tenebrosas lembranças que tenho foram dos casos breves: O primeiro foi quando o menino menor (com no máximo 2 anos) começou a falar e com uma voz naturalmente fininha chamava sua mãe, que respondeu com uma mistura de sarcasmo e desprezo (!): Que viadiinho!! 

O segundo caso foi um dia que o menino mais velho, com no máximo 7 anos, decidiu se referir à sua mãe pelo nome, ao invés de chamá-la de mãe - não só isso: ele a chamava já dando risadas provocativas. Ao ouvir e ver a atitude do menino, ela gritava furiosa e ameaçava puni-lo, enquanto o menino repetia o nome dela com deboche, contrariando-a por vários minutos, talvez por uma hora. Estaria ele aprendendo a ser desrespeitoso com mulheres na oficina de seu pai? Possivelmente.

Outra mãe que gritava o tempo todo com a filha de 3 a 4 anos de idade e regulamente ridicularizava a infantilidade da mesma. Ambas (mãe e filha) passavam período integral na empresa na qual o marido era proprietário ou sócio-proprietário. O pai, dono de empresa, se gabava diante os funcionários regularmente, gostando de fazer piada difamando pessoas presentes ou ausentes e de pregar peças nos mesmos (geralmente gritava para assustá-los). A criança começou a imitar os pais, gritando frequentemente (como o pai) e mostrando claras expressões de impaciência (como a mãe). 

Estes dois últimos casos, pude observar por cerca de 3 anos, diariamente em período integral (devido a meu home office e as características do prédio já mencionadas) 

São todos casos, onde os pais predominantemente desprezam a inocência e a ingenuidade da criança, ridicularizando-a e não tendo paciência para ensinar nem para dar afeto positivo. Obviamente não se trata de algo como vilões torturando crianças, mas efetivamente tal criação têm seus traços de tortura. Explico: 

É público e notório que a criança em suas fases iniciais da vida, precise de amparo. Ela não sabe se alimentar, nem se vestir, nem fazer necessidades fisiológicas como os adultos fazem convivendo em sociedade. Todos aprendizados e afetos necessários vem dos pais. Se os pais repetem os comportamentos de impaciência ou de aversão às necessidades dos filhos, obviamente haverão consequências na formação psíquica (vulgarmente e erroneamente chamada de psicológica) destas crianças. 

 Os casos que eu citei têm vagas semelhanças com outros dos quais recebi relatos. Na verdade alguns desses casos que ouvi, incluíam abandono e violência, ou seja, geraram consequências provavelmente mais severas na formação psíquica dos filhos. Enfim, não é difícil notar que no lugar de afetos positivos, muitas vezes, essas crianças não obtiveram respostas dos pais, ou no caso de violência, recebia afetos negativos, sem compreender a situação. Aí estão (algumas) prováveis causas de vazios afetivos e, no caso, da criação violenta, pode até mesmo ocorrer psicopatologias ou "perversão" (aqui usada como gosto pela violência)... Pessoas que cresceram com estes déficits, possivelmente não entenderão muito bem os sentimentos, e terão grandes dificuldades em aprendê-los depois de adultos. 

Perda da Pureza 

O senso comum diz que crianças são meramente ingênuas ou crédulas. Podem até ser crédulas, mas o fato é que a pureza além de conter semelhanças ou certas quantias de receptividade e humildade, é uma ausência do preconceito. Muito do que os adultos pensam que é amadurecimento (no senso comum) é só preconceito, isso quando não é o caso de tabus. 

Os exemplos são muitos: Se vestir bem (roupas caras na maioria das vezes), ter carro próprio, ter salário alto, ter vida sexual hiperativa, mostrar conhecimento mesmo quando não se tem (nunca assumir erros), delimitar sentimentos para homens e para mulheres, permitir emoções só em determinadas situações (em torcidas, em certas rodas de conversa) etc... Embora alguns desses artifícios possam ter surgido em certos grupos de pessoas para contornar determinadas situações de dificuldade, a maioria não tem utilidade real, tanto que jamais alguma destas coisas poderia ser transformada em lei em qualquer sociedade minimamente desenvolvida neste século 21. Tabus e preconceitos são comportamentos mesquinhos e falsos, utilizados para poucos indivíduos adquirirem uma satisfação particular geralmente prejudicando uma outra pessoa ou prejudicando um grupo de pessoas. Muitos deles se apoiam em rivalidade e portanto em orgulho também, no sentido narcisista da palavra mesmo. 

Deveria ser desnecessário falar o quão rivalidade e orgulho são mais nocivos do que benéficos para todas as pessoas de qualquer sociedade... Mas ainda é necessário repetir este argumento. E muito, pois todas estas idiotices se manifestam em variados assuntos e em diferentes intensidades. E como incentivos a rivalidade e ao orgulho/ egoísmo, tais tabus e preconceitos são ataques à humildade e a receptividade, características tão interligadas à pureza natural na infância. 

A própria presunção da inocência no sistema judiciário e a ausência de pressupostos em métodos de estudo, requerem muito destas características que constituem a pureza mencionada há pouco. 

Conclui-se que a chave para o bom funcionamento de setores essenciais para ordem (o direito, o judiciário etc) e para o progresso (a ciência) de qualquer nação está debaixo do nariz de toda a espécie humana: Toda criança nasce com tais características... O problema é que elas são destruídas ou substituídas por tabus, preconceitos e outros comportamentos nocivos à sociedade em geral.