quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Quais são as Bases dos Saberes?

Só para constar, este texto tem uma predominância de minha interpretação sobre a filosofia, a religião e a psicologia dividida em várias abordagens. Minha interpretação sobre os saberes é uma cosmovisão* que flutua entre dualista e espiritualista, pois admite a existência tanto da mente como da realidade sensorial ("material"/ corpórea), além da possibilidade de uma realidade espiritual, diferindo da visão de mundo* materialista ainda predominante ciência "main stream" ou tradicional... 

*(Sinônimo de weltanschauung, similar aos conceitos de paradigma e de pressuposto filosófico)

Receptividade - Sentimento ou Esforço

Sentimentos apenas surgem? Não. Eles podem surgir de maneira inata, mas também podem ser induzidos. Induzidos por nós mesmos ou por outros. Sendo assim, todo relacionamento, em algum nível, requer que os indivíduos sejam receptivos ou se disponham. 

Algumas pessoas podem ser receptivas de modo mais inato, outras podem ser menos sentimentais, mas podem se dispor através de uma decisão mais racional. Obviamente deve haver esta disposição ou receptividade de ambos os lados das relações, embora pareça uma utopia que ela ocorra exatamente em níveis iguais por parte de todas as pessoas em um determinado relacionamento. Independentemente de quão difícil é essa equidade de disposição ou de sentimento, ela pode surgir ou ser induzida não só nos relacionamentos como também na fé, na religiosidade etc. Mas a receptividade é algo interno, mais nitidamente inato. A disposição, por sua vez, pode ser induzida de ambas formas: Internamente pela própria pessoa e externamente por outras pessoas, sejam amigos, familiares ou líderes de um grupo religioso... Esta disposição a ouvir, entender, conviver etc, tem no mínimo alguns traços de humildade. Isto explica porque ambas atitudes/ comportamentos parecem raros hoje em dia. Com o propagar de clubismos, discursos de meritocracia e narcisismos, poucos se dispõem a entender o diferente e o estranho. Tais ideologias e discursos usam bastante a indução ao orgulho, "inflando egos" (egoísmos), suprimindo receptividade e humildade, sentimentos e atitudes essenciais em qualquer área do saber. Este movimento manipula grupos e portanto, incitam rixas e rivalidades, além de direcionar desejos de punição. 

A Religião deixou de cuidar dos Sentimentos?

As igrejas cristãs (tanto as católicas como as protestantes/ evangélicas) que entravam em crise durante o iluminismo do século 19, tentaram se adaptar ao mundo produtivo e competitivo. Esta crise foi observada pelo psiquiatra e psicoterapeuta suíço, Carl Gustav Jung: Na virada do século 19 para o 20, Jung percebeu uma "evasão" das igrejas cristãs pelas classes mais abastadas da Europa. Com um olhar aparentemente voltado para a sociologia, Jung apontou que tal tipo de comportamento que começa em "elites" das sociedades humanas, tende a se espalhar para as classes mais baixas depois de algumas décadas, em geral, em torno de 20 anos depois. Independente se faltou precisão ou não nos apontamentos de Jung, o fato é que no século 20, a igreja católica que apostou no conservadorismo, ignorando grande parte das mudanças socioeconômicas, foi perdendo muitos fiéis. 

As igrejas evangélicas por sua vez, por volta da década de 80 do século 20, começaram a apostar em programas televisivos sensacionalistas. Nestes programas eles exploravam as necessidades das classes mais empobrecidas, prometendo não só uma "felicidade no pós vida", como também prometendo milagres para resolver problemas em vida dos fiéis e recém convertidos: econômicos, de saúde e de relacionamento. O sucesso de pastores estadunidenses atraiu os brasileiros que imitaram a fórmula. O resultado foi uma nova e restrita classe "religiosa" multimilionária super adaptada ao sistema socioeconômico capitalista. Esta religião materialista reforçou a plutocracia nos frágeis e falhos sistemas "democráticos" da América, e logo tentou se expandir para outros continentes, obtendo alguns êxitos. De um modo geral, assim foi destruído o "mundo espiritual" na Terra. O sistema capitalista que frequentemente engolia os sistemas políticos, defeituosamente democráticos (principalmente os ocidentais), também engoliu o poder religioso. Criou-se um consenso que todo religioso pode crer em Deus, com tanto que obedeça as regras da plutocracia válidas praticamente em todos os países do mundo. Poucos são os religiosos que conseguem enfrentar o sistema regido pelos mais multimilionários do mundo (neste texto não vou explicar como nem quais políticos ocidentais comem na mão desses multimilionários). 

Em um mundo extremamente materialista, obviamente a ganância reina e a verdadeira fé fica oprimida sob interesses econômicos. Note que não é só esta fé que fica sob pressão do materialismo/ consumismo/ capitalismo: Os sentimentos também ficam, mesmo porque a fé está muito mais para um sentimento do que para um pensamento. E não estou falando desta fé de camisetas e propagandas boçais. Fé em clube (seja de futebol, de tribo social ou de qualquer questão material) é torcida. Torcida exagerada é fanatismo. A verdadeira fé não é fanatismo, independente de quantos fanáticos existam nas "religiões" pelo mundo. A fé a que me refiro tem muito da receptividade ou da disposição. Não é bradar furiosamente nem se encher de excitação por qualquer idiotice da civilização (Idiotice é aquilo que atrapalha o convívio, portanto fanatismo é isso). Esta fé verdadeira está relacionada à disposição em crer, ou ter esperança, seja no futuro ou em Deus. 

Ah, mas ter esperança em qualquer uma dessas coisas não é idiotice? Não, afinal a pessoa que não tem esperança em coisa alguma está deprimida, portanto está sem poder algum, está indisposta para praticamente tudo. Propagar a falta de esperança é propagar desespero, é querer que mais pessoas também fiquem paralisadas ou inertes diante qualquer tipo de problema: Social, econômico etc. 

Oras, se você acha que Deus (que ama toda sua criação, não um deus punitivista) não faz sentido, você ainda pode crer no futuro... Se você acha que nem o futuro nem Deus faz sentido... Então você desistiu de tudo. E eu não recomendo o suicídio, porque sei que os milhões de dados que compõem todas informações sobre todos os pensamentos, sentimentos, memórias e interpretações que você fez ou teve em cada segundo da tua vida, não vão deixar de existir repentinamente. Não existir não existe e deixar de existir é algo improvável. Nem na religião nem na ciência e nem na filosofia. Não é possível provar "o deixar de existir" embora alguns imbecis* auto intitulados cientistas tentaram isso. Alguns exemplos que conheço são da psicologia, onde alguns comportamentalistas atacaram teorias da frente psicanalítica, como o inconsciente. Não há nada de errado em apontar inconsistências em teorias, mas negar tais teorias por rixa ou por comodismo não é produtivo.

*"Imbecis" não como sinônimo de tolo ou ridículo, mas que não têm poder, neste caso porque recusam a possibilidade da mente como algo superior ao corpo, que tem plena possibilidade de poder sobre o corpo; Os que recusam esse poder psíquico sobre o corpo (força de vontade, decisão, interpretação etc) geralmente também recusam a teoria de que memórias ficam inacessíveis por determinados períodos ou situações etc.

Apesar dos Estragos, há Progresso

Alguns poderiam dizer: "Ora, mas a humanidade não tem jeito, ela não aprende e sempre haverá injustiça, ganância e guerras". Eu concordo que ela demora muito para aprender, mas aprende. Bem devagarzinho. Vejamos os esportes por exemplo: Quando as olimpíadas foram inventadas na Grécia antiga, a cidade que perdia determinada competição declarava guerra à cidade vitoriosa. Não era um mero rancor de alguns ignorantes: Era algo instituído pelos governos e aceitos por uma parcela significante da população! E matavam por tais causas. E não matavam algumas dezenas, afinal era guerra: Procurava-se exterminar todo exército inimigo e quem sabe, talvez parte da população também. Hoje (quase 2800 anos depois) temos as infames e horríveis brigas de torcida de futebol, mas que não chegam nem aos pés daquelas atrocidades do primeiro milênio aC. 

 Enfim, existem inúmeras outras amostras de progresso na humanidade. Umas fingem ser progresso, como a invenção de armamentos mais "modernos", enquanto outras realmente são, como as variadas conquistas da sociedade: O saneamento e saúde pública, a liberdade de expressão (não a de discursos de ódio), o acesso ao ensino etc. 

Voltando ao sentimento e o acreditar: Tais coisas parecem aceitas neste século 21, mas só se forem submetidas às regras impostas pelos ambientes econômicos dominantes (empresas) e aos ambientes "religiosos" também plutocráticos (governados pelos mais ricos). Próximo destes ambientes tóxicos está a academia (faculdades) e a ciência, pois estudos sobre a importância dos sentimentos são raros, e frequentemente, também são desprezados por muitos nestes ambientes. Como vim observando, tal dificuldade tem como algumas das principais causas, a falta de clareza sobre o que é ciência e o sectarismo (segmentação ou clubismo) entre as áreas do saber. É preciso uma aproximação entre os campos do saber, mas não uma mera mescla inconsequente e retrógrada: É preciso delinear clareando o que é cada campo. É preciso esclarecer quais são as diferenças entre os campos, quais são os métodos de aquisição de conhecimento e quais são as aplicações. E obviamente não basta ser racional, muito menos parecer convincente, é preciso fazer isso deixando pressupostos de lado, com humildade, respeito e cooperação. Até mesmo os meios religiosos, espirituais e místicos devem esclarecimentos. Alguns exemplos são: sobre a moral, sobre a vida e as possibilidades do pós-vida, sobre a existência do livre arbítrio e sobre o que são comportamentos de fascinação e de obsessão. 

Soluções pela Amizade com o Saber 

Embora eu expresse minha opinião de maneira aparentemente ofensiva, na verdade eu só faço isso buscando expansão de conhecimento e de empatia. Ao alegar que sei que a mente existe além do cérebro, eu não só tento indicar um caminho de esperança, como também sei que houveram registros de tais evidências na medicina, como nos casos de EQM (embora isso deva gerar longas discussões). Além disso, sou crítico daqueles que atacam o que não conhecem, que atacam o que não entendem e que atacam o que não tem certeza. Em "meio curso" de psicologia (5 semestres) eu já vi ao menos 6 supostos psicólogos mostrarem tais preconceitos (3 no curso, 3 em textos de autores estadunidenses)...

Expressar mera opinião como se fosse a verdade é perder o amor pela verdade. Isto mostra inércia e conformismo. Uma pessoa conformada com sua mera opinião, se acomoda com coisas equivalentes aos brinquedos, deixando a vasta possibilidade de progresso mental em segundo plano. Quando este comportamento prevalece nas esferas de poder de qualquer civilização, ele tira o rumo da sociedade criando uma cultura de alienação. (como vemos no capitalismo e seus discursos reforçadores de consumismo, produtividade e competitividade) 

Como mencionado anteriormente (ou em outros textos meus), o aprendizado vem por tirar preconceitos e opiniões vaidosas. Isto prova que, ao menos, algumas respostas já existem dentro da mente das pessoas (como indivíduos). Tais respostas estão ligadas à postura humilde e/ou receptiva. 

Numa sociedade onde não se busca o Bem ou a união, não há ética. Não há união, há apenas interesses particulares dominando a sociedade. No máximo há fachadas escondendo corruptores e corrompidos, afinal o que acontece com o ser humano como indivíduo, também acontece com a sociedade, que é o agrupamento desses seres humanos. O verdadeiro saber de qualquer sociedade, cedo ou tarde, deve necessitar da dialética como duas (ou mais) inteligências buscando a verdade, sem interesse em projetar suas personalidades. Diálogos mal conduzidos fazem as pessoas não quererem o conhecimento. Já os bons diálogos despertam o interesse pelo conhecimento. Neste processo, pressuposto e autoridade não são argumentos válidos, pois tal postura permite ir muito além do senso comum, mas exige maturidade. Invoca união em busca do conhecimento, para além do senso comum. 

 Os filósofos socráticos já falavam da relação entre ciência e justiça no século 4 a.C.: 

"...as artes governam e dominam o objeto sobre o qual se exercem." 

"Portanto nenhuma ciência procura nem prescreve a vantagem do mais forte, mas a do mais fraco, que lhe é sujeito." 

"... é evidente que nenhuma arte e nenhum comando provê ao seu próprio benefício, mas assegura e objetiva o do governo, objetivando o interesse do mais fraco e não o do mais forte." 

Todas pesquisas e suas respectivas aplicações visam o bem de seu objeto: A medicina visa o bem do corpo do paciente, a engenharia visa o bem do constructo e de seu usuário, a psicologia visa o bem da mente do cliente/ paciente etc.  

Conclusão

Então todos os saberes deveriam buscar o bem, isto é óbvio, como eu devo ter citado em outros textos meus. (o bem de seus alvos e da coletividade, por exemplo)

Mas quais são as diferenças entre ciência, filosofia e religião?

Muitos argumentam que é o método... E muitos que usam este argumento reduzem a ciência ao empirismo (também citei isso diversas vezes noutros textos).

Apesar de pouca clareza e pouco consenso, eu consegui chegar a seguinte conclusão, me baseando principalmente em argumentos do filósofo e educador brasileiro Mário Sérgio Cortella e um pouco no psiquiatra húngaro Thomas Szasz:  

"A religião crê para ver. A ciência vê para crer";

A filosofia faz o meio campo entre ciência e religião/ espiritualidade;

A filosofia escapa da religião pois é um saber racionalizado;

A filosofia é a origem da ciência e fica com o que a ciência não explica; 

O saber racionalizado especializado torna-se ciência;

A ciência é objetiva e coletiva, pois há contato com outros pensadores; 

É comum a ciência usar pressupostos, daí a força do método empírico;

Na saúde, a objetividade científica serve para tratar doenças, não comportamentos;

Não há neutralidade nas áreas do saber.


sábado, 21 de agosto de 2021

Reflexões sobre a Importância da Inocência

 

A Inocência é a Neutralidade ou é o Bem? 

O ser humano quando nasce é uma "tábula rasa"? É completamente neutro ou o bem e o mal existem desde o nascimento? Existem desde antes? Estes conceitos permaneceram debatidos apenas em círculos religiosos/ espiritualistas, pois foram praticamente abandonados pela filosofia em algum período entre a renascença e o iluminismo. Talvez este abandono por parte da filosofia tenha ajudado a ciência se livrar dos tabus e tradicionalismos das religiões, mas deixou algumas lacunas... 

Como a filosofia (e consequentemente a ciência) abandonou tal debate, ainda não sabemos as "origens do bem e do mal", mas no senso comum em geral, as crianças são vistas como puras / inocentes no início de suas vidas. Afinal o adulto que pensa que uma criança de 1 ou 2 anos de idade é maliciosa ou algo do tipo, é no mínimo paranoico... Pode ser que a criança herde alguns traços de personalidade, mas não abordarei tal assunto aqui, pois a criança tem um longo período de oportunidades para ter seus aspectos sentimentais e racionais "moldados" pelos adultos que a cria. 

Para quem gosta de psicanálise e acha que sexualidade infantil é uma virilidade que surge na criança, sugiro que pare de criar tais fantasias. E para quem tem pavor da psicanálise por considerá-la atribuir uma perversidade à toda criança, sugiro estudar um bocadinho. Sexualidade infantil nada mais é do que um termo polêmico referente aos fatores biológicos como instintos de sobrevivência e o desenvolvimento de zonas erógenas do corpo. Talvez haja alguns exageros ou vieses nestes argumentos psicanalíticos, mas nada digno de idolatria ou de rancor histérico. 

Voltando aos aspectos mais internos da mente humana: A "pureza", um possível sinônimo de inocência neste caso, é íntima da receptividade (estar aberto à): A criança geralmente perde esta pureza em determinado(s) momento(s) ao interagir com os adultos e suas ganâncias e orgulhos, mas pode restaurá-la buscando a humildade. Humildade esta que é a expressão da receptividade ou o esforço bem sucedido em ser receptivo, um quesito básico para evoluir racionalmente (pela ciência por exemplo) e sentimentalmente (espiritualmente ou religiosamente). 

 Como pode ser observado em qualquer forma de vida onde algum progenitor cuida de sua prole, os filhotes não precisam se sustentar. Os "pais" se esforçam em fornecer sustento e segurança aos filhos, embora existam algumas exceções a esta regra. Este é o comportamento dominante que garante perpetuação das espécies de aves e mamíferos. Assim, a grosso modo, na infância do ser humano é possível alcançar a felicidade mais facilmente do que durante a vida adulta. Resumidamente esta felicidade é oriunda dos afetos positivos. 

Enumerar afetos é uma tarefa difícil, pois estamos falando de sentimentos, mas tentarei agrupá-los, ou ao menos, classificar alguns parâmetros: 

O "primeiro afeto" viria da relação onde o adulto que cuida da criança com sua inocência (próxima de uma receptividade natural, e portanto próxima da humildade também) em seus estágios iniciais de vida. Estes estágios não são fixos, podem variar, mas é basicamente o período em que os pequeninos estão formando seus sentimentos em relação a quem cuida deles e ao seu pequeno e novo mundo exterior; 

A troca de bons sentimentos e o ter alguém para gostar (amor) seria um exemplo básico de afeto importante no desenvolvimento do ser humano, ainda que existam muitas distorções sobre os significados do amor, feitas essencialmente por adultos que cresceram com déficits afetivos. Este amor se dá com quem a criança cresce e se desenvolve - os pais, familiares e novos amigos que são realmente presentes. Importante destacar a presença, seja na forma de uma persistente companhia agradável, fiel ou ambas; Por fim a esperança da criança seria o último afeto positivo ou talvez um grupo ou parâmetro de afeto. Conforme a criança ou adolescente em desenvolvimento recebe respostas construtivas, ou "transformadoras-não-destrutivas", seja no aspecto mental (ensino de convívio e talvez de artes e trabalho) ou físico (quando os "pais" cuidam da saúde deste), ele desenvolve características como inspiração e esperança. Talvez isto conclua um ciclo de segurança útil para que a criança não cresça achando que tudo pode acabar a qualquer momento e nada realmente importe... Não se trata de crescer com uma fantasia e sim de crescer entendendo possibilidades. Assim ela cresce com empatia e com ao menos alguns dos sentimentos como respeito, alegria, esperança e tantos outros tidos como muito subjetivos ou fúteis por pessoas mais insensíveis. Pessoas que desprezam tais sentimentos podem ser problemáticas de várias maneiras: podem ter recebido uma educação fria, podem sofrer de alguma psicopatologia etc... 

Observações sobre a Infância 

 Tive a oportunidade de fazer observações sobre como três famílias cuidavam de suas respectivas crianças por alguns anos. Acompanhei todos os casos sem interação direta, mas "de perto" e não por opção, mas por conviver durante anos quase que em período integral com tais vizinhos em um prédio com abafamento/ isolamento sonoro quase nulo (e portanto com pouca privacidade): 

O 1º caso foi de uma menina cuja os pais demonstravam pouco afeto por ela. Ouvi quase que diariamente a rotina desta família por 5 ou 6 anos.

O pai queria ter um menino, quando a filha nasceu deixou-a com a mãe que havia parado de trabalhar. Só percebi que o pai passou a interagir mais com a menina, quando esta já tinha 3 anos de idade. 

A mãe mostrou-se uma pessoa sem paciência com crianças. Várias cenas no mínimo peculiares ocorreram: 

A primeira frase que ouvi a criança dizer foi "Vô ti matá". Uma imitação do que a mãe dela falava frequentemente com irritação (Vou te matar); 

A mãe quase que diariamente gritava, muitas vezes ordenando a filha a atender o telefone. A criança tinha no máximo 2 anos de idade quando isso começou; Ainda nesta fase, a mãe exclamou diversas frases que demonstravam impaciência com a filha, como esta: "Ai fulana, como você é criançona!!" 

Enfim, quando a filha estava com cerca de 6 anos de idade, ela era tida como muito independente pelos familiares e visitas... 

A história se repetiu de maneira similar com mais dois "vizinhos": 

Uma mulher que se irritava com a infantilidade de seu filho de 4 anos de idade e que mostrava indignação pelo fato da criança ainda não saber tomar banho sozinha nem se vestir corretamente... Neste caso, o pai dedicava um tempo aparentemente significante para brincar com filho, mas parecia "workalcholic": Trabalhava segunda à sábado em sua própria empresa, em média das 7hs às 19hs e frequentemente fazia "horas extras" seja nos dias de semana durante à noite ou, mais raramente, aos domingos durante o dia. Sua relação com a esposa se mostrava mais fria do que afetuosa. 

Quando o menino tinha cerca de 6 anos ele "ganhou" um irmãozinho. Nesta época ele passava várias tardes por semana na oficina de seu pai (que era logo abaixo do meu apartamento) e ali, os funcionários de seu pai frequentemente faziam discursos tentando exibir sua "masculinidade". Eram essencialmente falas de como a polícia devia matar bandidos e como eles "comiam" e traiam mulheres que recebiam os mais degradantes adjetivos por eles. Sobre esta família e suas crianças, as últimas e tenebrosas lembranças que tenho foram dos casos breves: O primeiro foi quando o menino menor (com no máximo 2 anos) começou a falar e com uma voz naturalmente fininha chamava sua mãe, que respondeu com uma mistura de sarcasmo e desprezo (!): Que viadiinho!! 

O segundo caso foi um dia que o menino mais velho, com no máximo 7 anos, decidiu se referir à sua mãe pelo nome, ao invés de chamá-la de mãe - não só isso: ele a chamava já dando risadas provocativas. Ao ouvir e ver a atitude do menino, ela gritava furiosa e ameaçava puni-lo, enquanto o menino repetia o nome dela com deboche, contrariando-a por vários minutos, talvez por uma hora. Estaria ele aprendendo a ser desrespeitoso com mulheres na oficina de seu pai? Possivelmente.

Outra mãe que gritava o tempo todo com a filha de 3 a 4 anos de idade e regulamente ridicularizava a infantilidade da mesma. Ambas (mãe e filha) passavam período integral na empresa na qual o marido era proprietário ou sócio-proprietário. O pai, dono de empresa, se gabava diante os funcionários regularmente, gostando de fazer piada difamando pessoas presentes ou ausentes e de pregar peças nos mesmos (geralmente gritava para assustá-los). A criança começou a imitar os pais, gritando frequentemente (como o pai) e mostrando claras expressões de impaciência (como a mãe). 

Estes dois últimos casos, pude observar por cerca de 3 anos, diariamente em período integral (devido a meu home office e as características do prédio já mencionadas) 

São todos casos, onde os pais predominantemente desprezam a inocência e a ingenuidade da criança, ridicularizando-a e não tendo paciência para ensinar nem para dar afeto positivo. Obviamente não se trata de algo como vilões torturando crianças, mas efetivamente tal criação têm seus traços de tortura. Explico: 

É público e notório que a criança em suas fases iniciais da vida, precise de amparo. Ela não sabe se alimentar, nem se vestir, nem fazer necessidades fisiológicas como os adultos fazem convivendo em sociedade. Todos aprendizados e afetos necessários vem dos pais. Se os pais repetem os comportamentos de impaciência ou de aversão às necessidades dos filhos, obviamente haverão consequências na formação psíquica (vulgarmente e erroneamente chamada de psicológica) destas crianças. 

 Os casos que eu citei têm vagas semelhanças com outros dos quais recebi relatos. Na verdade alguns desses casos que ouvi, incluíam abandono e violência, ou seja, geraram consequências provavelmente mais severas na formação psíquica dos filhos. Enfim, não é difícil notar que no lugar de afetos positivos, muitas vezes, essas crianças não obtiveram respostas dos pais, ou no caso de violência, recebia afetos negativos, sem compreender a situação. Aí estão (algumas) prováveis causas de vazios afetivos e, no caso, da criação violenta, pode até mesmo ocorrer psicopatologias ou "perversão" (aqui usada como gosto pela violência)... Pessoas que cresceram com estes déficits, possivelmente não entenderão muito bem os sentimentos, e terão grandes dificuldades em aprendê-los depois de adultos. 

Perda da Pureza 

O senso comum diz que crianças são meramente ingênuas ou crédulas. Podem até ser crédulas, mas o fato é que a pureza além de conter semelhanças ou certas quantias de receptividade e humildade, é uma ausência do preconceito. Muito do que os adultos pensam que é amadurecimento (no senso comum) é só preconceito, isso quando não é o caso de tabus. 

Os exemplos são muitos: Se vestir bem (roupas caras na maioria das vezes), ter carro próprio, ter salário alto, ter vida sexual hiperativa, mostrar conhecimento mesmo quando não se tem (nunca assumir erros), delimitar sentimentos para homens e para mulheres, permitir emoções só em determinadas situações (em torcidas, em certas rodas de conversa) etc... Embora alguns desses artifícios possam ter surgido em certos grupos de pessoas para contornar determinadas situações de dificuldade, a maioria não tem utilidade real, tanto que jamais alguma destas coisas poderia ser transformada em lei em qualquer sociedade minimamente desenvolvida neste século 21. Tabus e preconceitos são comportamentos mesquinhos e falsos, utilizados para poucos indivíduos adquirirem uma satisfação particular geralmente prejudicando uma outra pessoa ou prejudicando um grupo de pessoas. Muitos deles se apoiam em rivalidade e portanto em orgulho também, no sentido narcisista da palavra mesmo. 

Deveria ser desnecessário falar o quão rivalidade e orgulho são mais nocivos do que benéficos para todas as pessoas de qualquer sociedade... Mas ainda é necessário repetir este argumento. E muito, pois todas estas idiotices se manifestam em variados assuntos e em diferentes intensidades. E como incentivos a rivalidade e ao orgulho/ egoísmo, tais tabus e preconceitos são ataques à humildade e a receptividade, características tão interligadas à pureza natural na infância. 

A própria presunção da inocência no sistema judiciário e a ausência de pressupostos em métodos de estudo, requerem muito destas características que constituem a pureza mencionada há pouco. 

Conclui-se que a chave para o bom funcionamento de setores essenciais para ordem (o direito, o judiciário etc) e para o progresso (a ciência) de qualquer nação está debaixo do nariz de toda a espécie humana: Toda criança nasce com tais características... O problema é que elas são destruídas ou substituídas por tabus, preconceitos e outros comportamentos nocivos à sociedade em geral.

domingo, 15 de agosto de 2021

As Farsas contra a Empatia e o Bem-estar social


Este texto traz um resumo histórico de ideologias segregadoras que se alastraram da religião à economia ocidental e seus efeitos nocivos ao desenvolvimento dos sentimentos (empatia por exemplo) e ao bem-estar social. 

Conforme o empirismo britânico e o materialismo foram se propagando entre as classes intelectuais durante o iluminismo, passando pelas tentativas de segmentação entre filosofia e ciência, certo campo foi majoritariamente deixado em segundo plano: Os sentimentos. 

É compreensível em partes, pois apesar de sua importância (citada neste texto, por exemplo: https://amorpelosabersaberamar.blogspot.com/2023/12/para-preencher-o-vazio.html), os sentimentos são, ou deveriam ser, estudados basicamente pela psicologia. Desculpas para relegá-los ao um segundo plano, são inúmeras: Sua subjetividade, uma suposta insignificância diante outras áreas do saber, suas particularidades etc. 

Neste longo processo de desenvolvimento e de cisões, a ciência (portanto uma parte significante dos psicólogos), afastou-se destes 3 temas: religião, filosofia e sentimento. Obviamente isto foi útil para alguns campos da ciência que precisaram da diminuição de interferências feitas por religiões. Porém não é o caso da psicologia, ao menos, não mais. Desde a segunda metade do século 19, bases de estudo para psicologia vêm sendo criadas. São as bases teóricas, ou seja, estruturas que servem de parâmetro para estudar e tratar pacientes e clientes da psicologia. O que pouco se fala é que a ciência apoia-se em pressupostos filosóficos e a filosofia ocidental desde sua fundação a partir de Platão e seu estudo de outros filósofos como Sócrates, Parmênides, Anaxágoras e Pitágoras, se apoia na ética e não numa visão de mundo materialista. A base da filosofia ocidental então é (ou deveria ser) ética, porém a ciência moderna foi estruturada essencialmente no métodos de investigação empírico. Esta escolha por métodos para formar uma base gerou segmentações profundas na psicologia: Apesar disto, estas segmentações não são diferentes campos de atuação e sim três frentes teóricas (Comportamental, Psicanalítica e Fenomenológica), cada uma delas com variadas abordagens. 

Independentemente da frente, o sentimento passou a ganhar notável relevância nas abordagens psicológicas em meados do século 20, talvez mostrando uma relação com os movimentos sociais contra o conservadorismo e contra o consumismo durante os anos 60 (movimento hippie, amor livre, protestos antirracistas etc). A partir daí fica mais notória a importância e a possibilidade de tratar sofrimentos psíquicos/ emocionais antes que se tornem mais graves. Estes casos mais graves são considerados psicopatologias (doenças mentais) por muitas das "abordagens" da psicologia. Sim, epidemias de ansiedade e depressão geralmente têm origem em sofrimentos psíquicos, muitas vezes causadas por relações familiares/ sociais conturbadas ou difíceis, afinal é bem improvável que a maioria da população humana mundial tenha nascido com problemas de origem neurológica. Esta é uma prova óbvia (mas negada por muitos) da importância dos sentimentos na saúde mental humana. 

O ser humano é capaz de desenvolver e adquirir tanto conteúdo racional como conteúdo sentimental. A partir do ponto em que nota-se a necessidade de sentimento e o potencial de adquirir conteúdos racionais e sentimentais é possível entender o quanto os vazios afetivos e os sentimentos negativos podem ser perigosos (cada um a sua maneira/ velocidade, é verdade): 

Relacionar-se requer alguma abertura (falar de si, dar atenção ao outro...) e alguma coragem. Quando não há relação com o novo, ou quando alguém se dispõe a alguém insensível / oportunista, resumidamente cria-se um sentimento de tristeza ou um vazio. Daí lideranças interesseiras podem preencher estes vazios com sentimentos negativos, como por exemplo incitando o orgulho nas pessoas de um determinado grupo: Pode ser uma igreja, ou uma religião inteira; Um clube de motociclistas, de "gamers", de fãs de determinado estilo musical ou tantos outros grupos com algo em comum. Incita-se ao ódio aos estranhos ou aos desconhecidos, basicamente de outros grupos. Basta colocar a culpa de determinados problemas, sejam sociais ou econômicos neste estranho, então está criado o vilão. 

Não basta estudo racional para evitar tal tipo de manipulação. A necessidade de sentimento é uma verdade óbvia e superior a qualquer argumento superficial que tente diminuí-la. 

Os Movimentos de Manipulação 

O conservadorismo e o consumismo foram propagados como proposta para "distrair/ ocupar" as pessoas. Obviamente eles foram utilizados por lideranças de alguns setores da sociedade, mas deixemos para abordar tais lideranças em outra ocasião. 

O sufixo "ismo" indica centralidade, ou seja, dar maior importância, por isto, muitas vezes indica uma doutrina, ou um sistema centrado em tal tema. 

Assim, vejamos primeiramente o conservadorismo: Trata-se de uma doutrina onde conservar é mais importante do que tudo. Conservar o que? Conservar sem definir um alvo, é conservar as coisas em geral como estão, negando novidades e descobertas. Sendo assim, as ideologias conservadoras se referem a manter tradições, ritos e costumes antigos. Esta defesa do antigo e da estagnação acaba negando possíveis questionamentos, descobertas e novidades (daí o negacionismo). Ser contra esclarecimentos, estudos e transparência nas comunicações é ser contra a liberdade com responsabilidade e contra o progresso, afinal quanto mais estática/ estagnada a sociedade, menos conhecimento é construído pela humanidade. Por exemplo, quanto mais voltarmos no passado, mais as pessoas com menos conhecimento precisavam recorrer às minorias que conheciam os fatos e a natureza ao seu redor, pois a propagação de informação e a construção de conhecimento eram mais lentas devido não só à falta de recursos, mas também à conservação de tradições e costumes inquestionáveis, tabus etc. Acontece que eventualmente, alguns destes que "conheciam os fatos" eram interesseiros e acabaram manipulando aqueles indivíduos com menos conhecimentos. Isto se repetiu "X" vezes na história, atingindo seu ápice no campo religioso. Portanto, conservadores muitas vezes são religiosos com medo da ciência, desprezo pela filosofia e negação do desconhecido. Esses sentimentos de medo, desprezo e negação facilmente se transformam em ódio, ou seja, é claro que em algum momento a persistência no conservadorismo gera misoneísmo (medo ao novo/ ódio ao novo) e às vezes, é um mero sinônimo deste último. 

Um medo em menor escala, geralmente é chamado de receio e está ligado ao "ato" de hesitar. Nesta pequena quantidade, ele pode até ser saudável quando nos protege de um perigo. Porém o medo em si, é essencialmente paralisante, e portanto, estagnante: Impede ou atrasa descobertas e progresso. 

Já o ódio (incluindo os discursos de ódio) vai contra tolerância e piedade. Tolerância e piedade já são positivos por si, permitindo abertura ao diálogo e às relações. Além disto, quando mútuos, ou seja, de ambos os lados de uma relação interpessoal ou inter social, são evidentemente saudáveis para todos. Eles não são estagnantes como o medo, pois a curiosidade existe independentemente do ódio e da piedade. Por fim, a tolerância e a piedade podem mostrar-se como manifestações de um amor expansivo, enquanto o ódio é o querer mal, é o desejo de vingança, de atormentar ou de destruir algo, alguém ou algum grupo. Como todo ser humano tem necessidade de sentimento, líderes interesseiros, pessoas mais influentes, conseguem manipular facilmente estas coisas. 

Seguindo esta linha, o consumismo é a doutrina do consumir: Comprar, gastar em primeiro lugar, menosprezando a consciência e o cuidado com o ambiente e com a sociedade. É o ato de "criar necessidades" e obviamente essa criação não é da natureza (para ateus e céticos) nem de Deus (para religiosos e afins). Esta criação de necessidades é realizada por quem tem marcas/ empresas que vendem produtos. É invenção de quem tem dinheiro para campanhas publicitárias e propagandas e quer lucro, ou seja, mais dinheiro, fortuna. Alguém poderia falar, "ah mas o consumo move o mercado, distribuindo riqueza". Não, consumismo é a CENTRALIDADE NO CONSUMO: Consumir como se não houvesse amanhã, sem pensar, deixando todo o resto em segundo plano. Isto gera descaso com o meio ambiente e com o destino dos resíduos dos produtos, portanto, causa a poluição descontrolada de rios, matas, oceanos, da atmosfera etc. 

Para propagar essa necessidade artificial de consumo, obviamente houve necessidade do aumento da produção de bens comercializáveis dentro do sistema predominantemente capitalista (produção e consumo para lucros em primeiro lugar, é claro). Nas empresas de diversos segmentos então, espalhou-se a ideia de produzir cada vez mais, relegando o bem estar social, a qualidade de vida e o meio ambiente como assuntos secundários. O discurso que prega a importância da produtividade e do mérito então, obviamente foi propagado nas empresas e além delas, como nos meios de comunicação em massa e posteriormente nas redes sociais. Assim fica nítido que a necessidade de consumir criada artificialmente está relacionada à doenças psicopatológicas como depressão e ansiedade, ao desperdício, ao câncer causado por agrotóxicos, ao aquecimento global etc. 

Conclui-se então, que conservadorismo e consumismo são distrações que obviamente servem a certos poderes da sociedade como as religiões institucionalizadas e as corporações continuamente interessadas em lucros crescentes. 

A diferença é que o primeiro explora a necessidade afetiva/ sentimental dos seres humanos, manipulando sentimentos para dizer que está tudo bem, que a culpa dos problemas está no desconhecido, no diferente. Já o segundo (consumismo) prega um materialismo escrachado, baseado nas seguintes mentiras maliciosas: 

sucesso é adquirir produtos (das propagandas) ou acumular capital; 

ocorre uma seleção "natural" e "não induzida", do mais forte na civilização urbanizada; 

estes mais "fortes" da civilização são os mais ricos (multimilionários); 

Estes multimilionários chegaram ali por esforço próprio ("mérito") 

Ou seja, o consumismo prega que os mais adaptados a um sistema sócio econômico de ideologia dinheiro cêntrica (capitalista) e ao governo daqueles que enriqueceram mais por usarem sua "inteligência ou esforço" (meritocrata / plutocrata), são os sujeitos ideais, os "bem-sucedidos". Sim, o consumismo se apoia na ideologia capitalista e fomenta o discurso meritocrático. A partir daí entende-se que tais ideologias e discursos não só desagradáveis a algumas pessoas, eles são nocivos para a maioria das sociedades e civilizações. São menos úteis do que fezes, considerando que esta última, popularizada com o nome de bosta, ao menos serve de adubo, colaborando com o plantio etc. Assim, pode-se concluir que na natureza e nas civilizações, o consumo de bens materiais, obviamente é menos importante do que o desenvolvimento racional (da cognição à reflexão) e que o desenvolvimento do sentir (inclui desde intuição até os sentimentos). Este desenvolvimento nos permite entender o meio, seja ele ambiental ou social, para então convivermos e progredirmos não só materialmente mas eticamente também. 

Ascetas - Fanáticos Espiritualistas? 

Anti consumistas existem há milênios e os ascetas são alguns deles, mas o que é um asceta? 

Um eremita que não faz sexo e frequentemente jejua? 

Um magrelo que senta ou deita numa tábua cheia de pregos? 

Um cara que medita o dia todo e levita? 

Nada disso. A palavra asceta vem do grego e significa alguém que exercita o espiritual. Pode-se concluir a partir da etimologia desta palavra e da história da Grécia, que ascetas eram pessoas que praticavam atividades relativas ao espírito, ou que se dedicavam ao aperfeiçoamento de seus espíritos (ou de suas almas, não faz muita diferença). Historicamente é aceito que os discípulos de Pitágoras (pitagóricos) eram filósofos, cientistas e ascetas. Sim, cientistas dentro das possibilidades de sua época na Grécia clássica e também religiosos devotos (ascetas). Neste sentido esta combinação não difere muito dos ensinamentos de Sócrates e Platão. 

Devoção não significa fanatismo, muito menos intolerância ao diferente, mas exige moderação entre várias atividades. Esta moderação servia para o asceta poder dedicar bastante de seu tempo com suas atividades essenciais, pois a filosofia (a amizade com o saber) era não só a filosofia como é conhecida hoje, mas era ciência e religião também. A partir daí a moderação era, e ainda é, mal vista por pessoas acostumadas (ou até viciadas) com os diversos luxos: Sejam banquetes, festas, orgias, ou bens materiais tidos como preciosos. 

Alguém poderia falar: Oras, eles (os pitagóricos e socráticos) eram uns cientistas de araque porque eram religiosos! Será? Há uma prova empírica disto? Certamente não. A revolução feita por esses e alguns outros filósofos da Grécia Clássica foi praticamente única: Em seu tempo a civilização helênica (grega) fez vários avanços notáveis na filosofia e na construção de conhecimento: desenvolveu a matemática, a geometria e começou a trazer a importância da ética para organização social, ou seja, política. Após a unificação das cidades-estado helênicas em um império, a cultura grega com todos seus saberes começou a se propagar para várias partes do mundo: A esfericidade da Terra por exemplo, foi teorizada por Pitágoras (570 aC - 490 aC), aceita por Sócrates e por Platão, calculada por Erastótenes (276 aC - 194 aC) e difundida até o tempo de Crates de Mallus (~220 aC - 140 aC). O Império "Greco-Macedõnico" ruiu não devido a seus avanços filosóficos (que incluia um saber pré "científico"), nem a espiritualidade de seu povo, mas sim devido a ganância, em grande parte, de líderes militares que, desejando mais terras e riquezas, atacaram uns aos outros em batalhas sangrentas e acabaram dividindo o império. O conhecimento filosófico / "pré científico" parou de se propagar, possivelmente com a expansão do Império Romano após a conquista de regiões de cultura grega, como Pérgamo. 

Com a decadência do Império Romano, muitos destes conhecimentos ficariam restritos à igreja católica (e/ou ao Califado Rashidah/ Omíada), que consolidaria seu poder durante e após a queda do império. Porém, a filosofia de muitos destes autores "gregos clássicos" sobreviveu nos impérios árabes e só retornaram à Europa após o período da construção das primeiras universidades e das primeiras cruzadas durante o século 12. 

Materialistas são realistas? 

Mais uma vez devo lembrar que o sufixo ismo refere-se a uma centralidade ou a uma doutrina (baseada no termo anterior ao sufixo). 

Admitir a matéria como centro de todos assuntos ou de uma doutrina, não evita questionamentos importantes, afinal o que é matéria? Todos elementos encontrados nos 3 ou 4 estados - sólido, líquido, gasoso e plasmático? Do que é feita a matéria? Átomos? Prótons, nêutrons e elétrons? Porque só a bilionésima parte do átomo é formada por partículas? Os prótons são constituídos de quarks, mas quarks são sub-partículas? Os elétrons estão em movimento ou parados? Há estudos que indicam que não estejam em nenhuma destas condições conhecidas. O que é mais importante, a partícula ou o campo eletromagnético do átomo? O universo é só tridimensional? Ou seja, a partir destas questões fica claro que materialismo é um conceito simplista e possivelmente obsoleto. Esta observação não se trata de desprezar as ciências exatas ou o método empírico e sim de começar a dar a devida atenção para certos campos como, por exemplo, para a base teórica da física e das demais ciências, para a ética e sua ligação com a filosofia e a ciência e para as teorias das frentes da psicologia fenomenológica e psicanalítica. 

Atacar ou menosprezar modelos mais teóricos, seja das ciências exatas ou das humanas serve a alguém. Toda ação tem um porque e uma finalidade. Crer que o acaso gere algo, é tolice, o próprio prefixo da palavra acaso é uma negação, portanto acaso significa "não-caso" ou sem causa. O não ou o nada não podem ser provados por método de estudo algum. Prova-se o que existe, seja fácil ou difícil de descobrir... Inclusive os termos corretos deveriam ser encoberto e descoberto. 

Os ataques aos modelos mais teóricos (os que conheço melhor são da psicologia e não da física) então têm a finalidade de impedi-los, portanto possuem objetivo de estagnação ou encobrimento dos estudos, teorias etc. Este é um comportamento comum de quem está confortável, ou por cima de uma situação. Como mencionei em outros textos, esta é uma tática usada por lideranças religiosas, econômicas, políticas e militares… Mas sabemos que na civilização humana, a classe científica/ acadêmica não está no topo. Este topo refere-se a quem tem mais recursos e obviamente é ocupado pelos mais milionários, que em geral são "mega empresários". E sim, os indivíduos que compõem esta classe, são predominantemente materialistas. Acumular recursos que sustentariam milhares de famílias por décadas, enquanto milhões de pessoas passam fome pelo planeta é uma prova disto. 

Além do materialismo, é sempre bom lembrar o nível da ganância, que nada mais é do que parte da ideologia capitalista. Se há provas disto? Sim, há: 

Uma prova é os empresários mais ricos fazerem lobby em busca de mais benefícios próprios enquanto a humanidade passa por uma situação de desigualdade e miséria. Outra prova é poluir ou destruir biomas do planeta em busca de mais benefícios próprios. Outra prova é evitar pagar imposto em busca de mais benefícios próprios, enquanto pessoas com renda 100 ou 1000 vezes inferior pagam seus impostos…  Enfim, não faltam provas que a ganância é uma (ou a) força motriz do capitalismo. Esta ganância nociva a maior parte da civilização é também prova de que os indivíduos que constituem o topo da "cadeia socioeconômica" da Terra possuem psicopatologias. Isto de maneira alguma fazem deles vítimas, pois as ações de tais indivíduos afetam milhares ou até milhões de pessoas, seja em um país ou no mundo todo. 

Parece até um conto mitológico ou de fantasia, mas não é impossível descobrir alguns destes indivíduos: Em mídias de direita (de teor capitalista, neoliberal, como a Forbes) eles ocasionalmente aparecem como bons exemplos, praticamente ídolos. Já em mídias de esquerda (seja social democrata ou até de ideais comunistas), eles são geralmente expostos, por seus crimes e ações mesquinhas. Ações que certamente provam que são psicopatas ou sociopatas. 

 Troca de Poderes na História Ocidental 

Esta classe que ocupa o topo da cadeia socioeconômica não é novidade. Ela foi se formando a partir de burgueses europeus que foram adquirindo direitos gradualmente a partir da idade média baixa (no século 14, quando ocorreram grandes conflitos entre ordens religiosas e aristocracias). Naquela época as coisas até pareciam equilibradas, já que eles concorriam com outras poderosas classes - a aristocracia e o alto clero. Além disto, tais classes "burguesas" não têm uma raiz única: muitos grupos foram se juntando a eles, como calvinistas, companhias privadas de navegação etc. 

No século 15 acabam as tentativas de conciliação entre a igreja católica romana e a ortodoxa na Europa. Dos concílios restaram apenas as discussões filosóficas das universidades, que, somado a chegada e transformação da imprensa na Europa, fomentou a "renascença" deste continente. Mas como nem tudo é um mar de rosas, o Império Otomano dificultou o acesso das potências europeias aos produtos orientais (da Ásia). Eis que alguns países europeus passam a buscar novas rotas e passam a explorar severamente a África subsaariana e a América. 

Na virada do século 16 para o 17 os europeus atingem um nível de exploração de recursos naturais do mundo jamais visto antes na história. Os espanhóis levaram quantidades gigantescas de ouro e prata do Império Inca para Europa e acabaram sofrendo pesadas derrotas e saques nas mãos de ingleses (1588) e de neerlandeses (holandeses, por volta de 1628-1630). Em 1621 os neerlandeses criam a primeira companhia de capital aberto, a Western Indian Company (WIC). O discurso liberal começa a ganhar muita força, pois o sistema mercantil centrado nas monarquias se mostrava obsoleto: Havia riqueza para todos os europeus exploradores e colonialistas, então era possível o aparecimento de novos poderes. Com o discurso de supostos representantes do povo, a burguesia começava a conquistar seu espaço. Misturando-se com os conflitos religiosos entre protestantes / calvinistas e católicos, no ano de 1640 os burgueses fazem exigências para a monarquia inglesa que acaba apreendendo o ouro privado. Pouco tempo depois, em 1642 começam os conflitos que acabariam com o assassinato do rei inglês e a instauração da Comunidade ("República") Inglesa em 1649. Obviamente as aristocracias reagem na Europa e em 1660 a monarquia volta ao poder na Inglaterra. Os conflitos eventualmente continuaram e já não tinham nem traços de causas nobres: Notoriamente tornaram-se uma mera disputa de poderes. A exploração de mão de obra escravizada e a quantidade de riquezas extraídas da África e principalmente das Américas poderia ter resolvido todas as solicitações de justiça social e religiosa dos países europeus que originaram a disputa entre católicos e protestantes. Tais conflitos que se consolidaram nas guerras hussitas (1435-1436) e politicamente na "reforma da igreja" (1518-1529), se alastraram pela Europa, transformando-se nestas guerras de interesse econômico do século 17. No final do século 17, discordando dos métodos investigativos do continente europeu (o racionalismo/ pensamento cartesiano, desenvolvido em meados do mesmo século), os britânicos propõem o empirismo como método científico. Talvez tais movimentos discretamente façam parte dessas disputas por poder e influência, mesmo porque alguns destes mesmos britânicos (ingleses) registram e propõem a ideologia liberal. Estava consolidado o liberalismo: Liberdade esta que não libertava os escravos, pois tratava-se só de uma ideologia de classes sociais endinheiradas, resumidamente de burgueses. O frágil equilíbrio entre burguesia, clero e aristocracia acabaria desfazendo-se em mais alguns conflitos de interesses. 

A partir daí, no início do século 18, ocorrem a expansão colonial britânica (que derrota a França absolutista em diversos conflitos pelo globo) e a supressão das missões jesuítas pela aristocracia Luso-espanhola. No final deste século também começava a revolução industrial (motores a vapor etc) e o declínio das monarquias (com a independência dos EUA e a Revolução Francesa). Aí surgem os termos direita e esquerda, conhecidos até hoje: A direita que defendia a liberdade dos comerciantes bem sucedidos (burgueses) apoiada por alguns setores da igreja europeia e a esquerda que pretendia aprofundar a revolução redistribuindo riquezas aos mais pobres. Ainda que os 2 lados tenham cometido erros, ou se corrompido em certos momentos, é interessante lembrar que poucos foram os enriquecidos (essencialmente a direita) que perderam suas fortunas, influências e poderes. Conforme a escravidão foi sendo lentamente abolida nas colônias dos países europeus, classes de trabalhadores pobres foram colocadas em seu lugar e estas tiveram que lutar contra a exploração física, social e até mental. 

Nada disso justifica os mais ricos explorarem os mais pobres e os mais humildes. Na verdade tais fatos só provam que quem tem poder (aqui fica nítido que os maiores poderes do ocidente desde a renascença foram o econômico e o religioso) e não abdica disto, é orgulhoso e/ou egoísta. Egoísta obviamente se trata de essencialmente ganancioso nestes casos. Qualquer um pode notar isso, a menos que negue a realidade. O capitalismo não é uma força da natureza, não "pré-existe" a humanidade e a verdadeira fé cristã não aceita enriquecimento enquanto pessoas vivem na pobreza ou na miséria. 

Grandes fortunas só se justificam (de tornar justo) quando aplicadas em grandes obras humanitárias e principalmente em projetos para o progresso de toda humanidade. Não apenas para uma pequena parcela de humanos enriquecidos. Quem acumula grandes riquezas materiais não é um exemplo de racionalidade, muito menos de empatia (no sentido de ser solidário, que se põe no lugar do outro). Não é a favor do progresso científico nem da verdadeira espiritualidade.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

As Relações das Áreas do Saber

 

Esta é uma reflexão breve sobre a “história do saber”. 

Voltando no tempo, podemos ver que a ciência já foi considerada unida com a filosofia e até mesmo com a religião: Alguns exemplos são a filosofia socrática/ platônica na Grécia Clássica e o bhakti-yoga na Índia medieval. 

De fato tal união pode ser considerada primitiva por ser uma fase de desenvolvimento com limites mal definidos entre os temas. Também pode haver um perigo da religião se apossar dos demais campos pelo fato de trabalhar mais os sentimentos e o lado emocional das pessoas. 

Mas o que temos hoje no ocidente é uma cisão profunda, onde restaram praticamente ataques de um lado ao outro. O nível desta relação é tão frágil que mesmo entre cientistas existem críticas fundamentadas em meras opiniões preconceituosas às áreas mais próximas da filosofia como as frentes psicanalíticas e fenomenológicas da psicologia. 

Além disto, as religiões em sua maioria pouco falam das questões sentimentais e espirituais. Sentimentos que têm sua importância desde o início da vida dos seres humanos. Parece que para entender os sentimentos e todas as experiências tidas como religiosas, sobrenaturais ou transcendentais, surgem as reflexões, os pensamentos e então, as filosofias. 

A filosofia sendo mais reflexiva e mais discutida do que a religião, acaba por se relacionar com questões da natureza, do cosmo e da matéria em geral. 

Daí surge a racionalidade voltada à praticidade e à natureza material. 

Teorizando as "pontes quebradas" entre áreas do saber...


Isto está mais ou menos documentado na história da “Grécia” antiga: As civilizações mais antigas daquela região do mundo, tiveram maior parte de seus registros destruídos, sendo relegadas predominantemente à mitologia (e à arqueologia, talvez também à história da arte). Após a destruição das civilizações “minóica” e micênica, surge a “idade das trevas grega”, onde poetas como Homero e Hesíodo espalham seus poemas, tidos como versões fantásticas da história e da religião, ou mitologia. 

O período a seguir vem com um “espalhamento” de questionamentos sobre esta mitologia - os filósofos pré-socráticos, seguidos finalmente por Sócrates, Platão e Aristóteles. Os filósofos desta era, provavelmente tiveram contato com o Império Persa Aquemênida que havia dominado a Babilônia, o Egito e as fronteiras com a “Índia”,além de ter libertado os judeus. O último dos 3 filósofos “socráticos” citados foi o mais racionalista e o que mais se adequou às questões terrenas, sendo aceito pela elite local, como tutor de Alexandre, o Grande. 

O período a seguir foi de grandes conflitos para a civilização grega: após uma rápida expansão, o império “greco-macedônico” fragmentou-se em disputas predominantemente internas, tornando-se vulnerável à expansão romana. Tal período parece ter sido o ápice “científico” da antiguidade “ocidental”: Erastótenes e Crates de Mallus divulgam a esfericidade da Terra, descrições astronômicas foram difundidas por filósofos posteriores à Anaxágoras, fora os trabalhos de Hipócrates, Pitágoras, Filolaus, Aristarcos, Arquimedes e outros… 

O Império Romano de alguma forma mostrou ter freado esta divulgação de conhecimentos. E o período a seguir não foi melhor neste quesito: A queda do Império Romano do Ocidente diante os povos hunos, germânicos e alanos, fez com que apenas a igreja católica sobrevivesse em sua extensão, já que o estado corrompido ruiu. Então nos séculos seguintes, a igreja monopolizou o que havia sobrado de conhecimento na região (Europa), começando a divulgar alguns conteúdos timidamente no século 12, com a construção das primeiras universidades após conflituosos contatos com o império árabe. 

Após variados conflitos políticos/ econômicos/ religiosos na Europa, a Renascença dá espaço à fomentação da arte e da filosofia, no século 15. A religião dominante (a instituição igreja católica) na Europa passa a ser questionada (novamente) dando origem às igrejas protestantes. 

No século 17, filósofos iluministas se baseiam em algumas obras renascentistas e acabam separando novamente a filosofia da ciência, ao determinarem métodos de estudo. Estes métodos foram a grosso modo, o racionalismo (predominante na Europa continental) e o empirismo (predominante entre os britânicos). 

Cisões e Clubismos 

As cisões, ou segmentações, aconteceram diversas vezes na história da humanidade, pois a necessidade de formar grupos provavelmente sempre existiu desde que o ser humano começou a se unir para superar dificuldades e formar sociedades. Resumidamente estes grupos se dividiram em certos momentos ou encontraram outros grupos com conflitos de interesse e destes conflitos entre grupos entende-se que formou-se o "clubismo". Às vezes afetaram religiões, outras vezes filosofias e até mesmo as ciências. Muitas destas cisões se apoiam num senso de identidade limitado, reducionista, preconceituoso, xenófobo e muitas vezes elitista ou punitivista.

Estudando psicologia, finalmente encontrei o cerne destas rixas entre as áreas do saber: Nestes meios o clubismo se intensificou com a cisão entre os métodos científicos, ou que, em termos mais chulos, inclui a cisão entre "a filosofia e a ciência". Mas porque dizer que a cisão entre a filosofia e a ciência é mais chula do que a cisão entre os métodos científicos? Simples, porque por séculos NÃO existia esta divisão. Tudo era estudo, pois todos estes estudos buscavam compreender as mais variadas questões. 

Apesar disto não considero que esta cisão foi totalmente nociva ou inútil: Ela teve sua serventia por mais de 3 séculos. Tal cisão começou no final do século 17 e perdurou acelerando o surgimento de campos de estudos especializados até o desenvolvimento da psicologia: Mais precisamente até o surgimento da fenomenologia e da psicanálise. O que veio depois disto foram seus frutos, como o desenvolvimento da tecnologia. 

Não, a tecnologia não é meramente fruto da competição insana das potências mundiais por recursos naturais e por armamentos. Mesmo que a competitividade e suas consequências comuns, as guerras, fomentassem alguns estudos, a rivalidade existente nestes momentos é essencialmente formada por ambição, ganância e violência desmedidas: A competitividade desmedida é um comportamento primitivo, rudimentar, que facilmente torna-se violência e obviamente traz mais malefícios do que benefícios. 

O lado ruim da cisão é que ela reforçou o que chamei de clubismo, mesmo dentro das áreas do saber e mesmo com tais separações, ainda não há clareza sobre o que é ciência, o que é método e o que é filosofia. Muitos empiristas desprezam o método fenomenológico de pesquisa, alegando que não se trata de ciência e sim de filosofia. Os mesmos afirmam que filosofia não é ciência, mas se estiverem certos, todos os estudos feitos com o método fenomenológico (seja na geografia, psicologia, filosofia, história etc) fazem parte deste grande campo apartado da ciência: A Filosofia. Neste cenário um tanto "separatista", teorias transdisciplinares como a hipótese biogeoquímica e até mesmo a teoria geral dos sistemas, surgida no campo da física subatômica e física teórica, permanecem em segundo plano. 

Outro detalhe importante do clubismo é o desprezo que é nutrido entre grande parte dos cientistas e dos religiosos. De fato, ciência e religião são coisas distintas, mas não são contrárias entre si. Os cientistas e os religiosos não deveriam odiar uns aos outros. O mesmo também acontece entre filosofia e ciência, o que é mais polêmico, já que esta transformação, apesar de acontecer gradualmente durante o iluminismo, gerou uma cisão profunda. Os movimentos ou métodos científicos foram surgindo a partir da filosofia, mais ou menos da seguinte forma: 

A filosofia natural do final do século 12, era inspirada em obras da Grécia antiga que estavam em mãos dos árabes até a época das primeiras cruzadas: a "filosofia" socrática/ platônica/ aristoteliana; Porém a filosofia natural não podia contrariar muito as religiões/ igrejas "cristãs", que eram muito poderosas na época; 

1539-1543 - "de revolutionibus orbium coelestium" viria a inspirar o racionalismo; 

Após a renascença, a filosofia ocidental deu espaço ao iluminismo e à ciência moderna com os seguintes movimentos, ou métodos de estudo (científicos) que foram surgindo: 

1632 - "diálogo sobre os 2 principais sistemas do mundo"; 

O racionalismo: 1632 - o "mundo ou tratado da Luz" e 1637 "sobre o método"; 

O racionalismo iniciou o iluminismo enfraquecendo as igrejas ocidentais; Por volta de 1666 a astrologia e a astronomia são separadas, sendo considerada ciência só a segunda. 

O empirismo: 1690 - "an essay concerning human understanding"; 

1791 - "a crítica da razão pura", faz o meio termo entre empirismo e racionalismo? 

1837 - "teoria da ciência", 1851 - "paradoxos do infinito": começam a fomentar um novo método;

A fenomenologia: 1874 - "Psychologie von Empirischem Standpunkt ", 1911 - "Iden"; 

Neste último período, questões em torno da metodologia científica dividiram a psicologia em três frentes que parecem não "conversar" entre si. Já os filósofos, muitas vezes, correm o risco de não serem aceitos nem por supostos cientistas nem por supostos religiosos. 

Há quem diga que a divisão da psicologia seja pacífica e até pode ser... mas só para alguns. Para outros trata-se de difamar a abordagem alheia e idolatrar a de sua própria escolha como se fosse a detentora da verdade absoluta. 

Na virada do século 19 ao século 20, o método fenomenológico questiona a cisão causada pelos “métodos iluministas” (racionalismo e empirismo basicamente), mas não obtém um resultado claro: Muitos empiristas relegam o método fenomenológico à filosofia. Oras, se este método não é científico, mas sim filosófico, a filosofia não é uma mera ciência, já que está apartada desta, mesmo regendo estudos em diversas áreas do saber: Geografia, psicologia etc… A própria física teórica poderia ser considerada um campo filosófico quando usa a teoria geral dos sistemas ao invés do método empírico. 

Mas isto não é novidade, só está mais complexo do que antigamente, talvez intrincado, pouco esclarecido e mal divulgado: Se o método fenomenológico e todos seus estudos em variadas áreas, não são ciência, eles são todos filosofias. Teríamos então a física filosófica, a geografia filosófica, a psicologia filosófica… Bem como a versão (empírica) voltada a matéria perceptível aos 5 sentidos humanos: física científica, geografia científica etc. É assim que devemos definir os estudos atualmente? 

Não sei. Parece que não há consenso, só alfinetadas. 

A partir destas informações, vimos que a história é cíclica: As mesmas questões voltam à tona seguindo um certo padrão. 

No final não basta tentar descobrir se a solução é só separar ou unir ciência, filosofia e religião. Nem deve bastar definir se o saber empírico/ naturalista/ racionalista, o saber fenomenológico e o saber espiritual/ transcendental/ sobrenatural, são todos ciências. Mas é importante trazer clareza a todos os assuntos destes campos. Para obter tal clareza, é preciso aproximar todos esses assuntos das massas, é preciso cessar os clubismos e impedir a negação generalizada da ciência e da empatia voltada ao bem. Por fim, é preciso entender todos os (“três”) campos e que cada pessoa que esteja mais focada em um desses campos, respeite e converse com clareza com as pessoas de outros campos. Juntos. Em busca de evolução, de progresso, sem abandonar a humildade e a solidariedade.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

A Alma - Um tema talvez inconclusivo, mas não negável

 

Negar por Negar é Reducionismo 

 Reducionismos existem de várias maneiras, de vários jeitos e são propagados por qualquer um. Infelizmente. 

Atualmente o mais preocupante é a negação generalizada da ciência tão propagada pelas redes sociais e por líderes populistas conservadores e capitalistas (sim, crentes do comércio desregulado e defensores da desigualdade socioeconômica e dos mais milionários). 

Mas voltando ao mundo dos estudiosos e cientistas, reducionismo é coisa antiquíssima… Data no mínimo o século 5 anterior à Cristo. Mas porque falar de reducionismo e não sobre a tal alma? Pois bem, a alma já foi motivo de discussão e discórdia, no mínimo desde a época dos filósofos socráticos da Grécia Clássica e falar dela geralmente é falar da possibilidade da imortalidade. Sempre foi. 

Na transição da Grécia Clássica ao Período Helenístico, Aristóteles tentou reduzir a alma à mente humana, ligada ao cérebro e que se dissipava (ou morria) com a morte do corpo. E tantos outros apresentaram conceitos parecidos com este, seja chamando o objeto de estudo em questão, de mente, de psique ou de alma. O problema desta visão é que ela nega várias das experiências tidas como transcendentais, ou sobrenaturais, contadas por todas as pessoas ao longo de toda a existência humana na Terra (isso resultaria em, no mínimo, uns 222.000 anos de contos e experiências). Claro, há quem diga que testes científicos foram realizados, negando a existência da alma e/ou de espíritos. Aí temos um problema científico: A ciência não nega coisa alguma. Negar não é científico. Refutar é, mas refutar não é negar. 

A ciência começa seus estudos, seja lá qual for o método, assumindo-se a possibilidade de descobrir algo. Não descobrir, não é refutar, nem negar. Não descobrir faz parte de um trabalho/ pesquisa inconclusiva, onde não foi possível chegar a uma conclusão. Ou seja: inconclusivo - Este é o resultado mais comum quando se investiga fenômenos considerados transcendentais ou “sobrenaturais”, como a imortalidade da alma. Refutar faz parte de um estudo que prova que um outro estudo está equivocado em algum ponto. E geralmente isto faz com que o estudo anterior seja substituído por outro que explique o fenômeno de maneira mais completa/ precisa, ou apenas faz com que este último seja classificado como inconclusivo. 

Uma pesquisa inconclusiva não é inútil, muito menos um motivo de vergonha para os pesquisadores ou para a ciência. Afinal ela pode vir a colaborar futuramente para que mais pesquisas sejam feitas sobre o assunto inconclusivo. 

O Conflito entre Ciência e Religiosidade 

O que parece ter acontecido frequentemente, foram alegações de empiristas (no sentido de aceitarem apenas o método empírico), que profundamente incomodados por tais assuntos, atacaram toda e qualquer tentativa de explicar o "sobrenatural'' e o “transcendental”. As causas podem ser diversas: charlatões místicos, chantagistas e vigaristas de instituições religiosas etc. Tudo isso pode incomodar cientistas, céticos e pessoas que priorizam o conhecimento. Porém a ferramenta utilizada para atacar aqueles que tentam explicar os fenômenos sobrenaturais/ transcendentais, é a mesma que os charlatões e vigaristas “religiosos” utilizam: O negacionismo. A diferença é que o primeiro grupo geralmente é composto por estudiosos que negam tudo o que parece ser espiritual, religioso etc… As pessoas deste primeiro grupo geralmente alegam ser cientistas e podem até estar no meio de pesquisa, mas são notoriamente apegados (para não dizer fanáticos) do método empírico, descartando todo e qualquer outro método de pesquisa. 

 Já o segundo grupo é mais óbvio: Em geral, são pseudo-cristãos, pseudo-espíritas e outros falsos religiosos, que querem conservar a ignorância, impedir o progresso científico e social. Importante lembrar que muitos destes religiosos se tornaram corruptos pela própria institucionalização de suas respectivas religiões. Esta institucionalização não se refere às obras sociais e sim às buscas por poder e às burocracias nas igrejas, que as afastaram da ideologia original (por exemplo, afastaram dos ensinamentos de Jesus Cristo), favorecendo o acúmulo de riquezas materiais num ciclo vicioso: As igrejas cristãs tornaram-se instituições de poder logo no início da era medieval (entre os séculos 5 e 10) e suas segmentações posteriores que se tornaram populares (como a igreja ortodoxa do leste europeu e a protestante de Lutero), obviamente também atraíram indivíduos corruptos e fascinados pelo poder para seus postos de liderança. 

O poderio dessas religiões institucionalizadas do ocidente só começou a ser questionado de modo significativo durante o iluminismo europeu, por volta do século 18. Ainda assim, elas continuaram instituições poderosas por muitos anos, praticamente até os dias de hoje, no início deste século 21. No caso de religiões que não chegaram a se institucionalizar tanto, como o espiritismo, o que ocorre não é tão diferente, só menos opressivo: São charlatões espalhando mentiras para impor suas ideias ou para se aproveitar da ingenuidade alheia. Portanto, até é compreensível um medo, uma raiva, uma desconfiança por parte dos estudiosos da área científica. Porém, simplesmente negar todas as descrições de uma série de fenômenos é rebaixar-se à postura fanática e nada científica. Não há absurdo algum em tentar desvendar sobre as possibilidades acerca da alma, dos espíritos, ou até de outros mundos ou dimensões, sejam eles espirituais ou não. Mesmo porque, muitas das descobertas da ciência surgida no período iluminista, eram ridicularizadas ou tidas como absurdas em sua época, como as possíveis utilizações da eletricidade e o desenvolvimento de combustíveis… 

 Geralmente as negações de tais assuntos, são alicerçadas em sentimentos como medo da mudança ou ódio ao desconhecido. O psiquiatra suíço, Carl Gustav Jung, cita este sentimento em “O Homem e Seus Símbolos", classificando-o como misoneísmo, uma espécie de fobia/ ódio ao novo. Isto é curioso pois vemos uma suposta aceitação às mudanças tanto na comunidade científica como em algumas comunidades religiosas e místicas. 

 Na comunidade científica parece-me até desnecessário dizer que a aceitação às mudanças deveria ser dominante. Afinal o que seria uma ciência que tem medo ou ódio de descobrir coisas? Certamente nada. Mas então, qual é a dificuldade de abordar o assunto da mente incorpórea, ou da alma? Qual é o problema de teorizar sobre a alma e sobre sua existência imortal? 

Além da óbvia falta de evidências materiais, um dos grandes incômodos que envolvem a alma imortal é a mudança/ a revolução no comportamento humano diante o desconhecido. Tudo aquilo que aparece como horrível para os misoneístas. Pois admitindo esta verdade, a vida já não nos inquieta como antes. Os prazeres materiais perdem seu protagonismo e, talvez, a sua atratibilidade, dando mais espaço ao dever. O corpo já não pode ser tudo, pois é temporário, mostrando-se apenas como uma parcela da existência. A alma torna-se importante levantando questões antiquíssimas como: Então Deus realmente existe? Há um criador por trás de toda a criação? Temos missões em nossa existência? Está tudo bem em fazer mal aos outros na vida terrena? Como será o julgamento de nossas almas? A morte não é mais o fim, mas uma passagem, então para onde vamos? A imortalidade da alma confirmada mostraria uma profundidade enorme em nossa existência, que só não despertaria o interesse de quem perdeu todo o sentimento. Nosso destino pautaria nossas ações. 

A imortalidade da alma não é uma história inventada para impedir o progresso ou a ciência: Praticamente em todas as épocas, em diferentes locais da Terra, o ser humano teve como patrimônio comum a noção da imortalidade da alma, que não é só um consolo, mas também teve usos em diversas civilizações, servindo de apoio para a justiça e para a vida em comunidade. Isto possivelmente ocorre desde antes da história escrita, porém todas essas culturas tiveram seus sistemas religiosos taxados de mitologia com a ascensão do monoteísmo no mundo. Isto não é uma crítica ao monoteísmo em si, pois o que deve ser criticado é a religião como instituição de poder, que, no ocidente começou a se consolidar entre o fim da antiguidade e o início da era medieval. As civilizações/ culturas celta, nórdica, egípcia, yorubá, asteca, hindu e tantas outras ao redor do mundo, tentavam lidar com a “dimensão espiritual” de diferentes formas. Pode-se notar então, que tal patrimônio é anterior a todo sacerdote, a todo legislador e a todo escritor, existindo em povos tidos como bárbaros e em complexas civilizações urbanizadas. 

Então pergunto, porque temer uma existência além daqui? Você fez mal aos outros? Sente algum tipo de remorso? Não se conforma em perder seus bens materiais? Não vê sentido em uma existência sem prazeres materiais? Tudo bem que algumas coisas podem ser difíceis, mas muitas outras não são. Ao menos não para quem não é egoísta. 

 Aqui volto a levantar pontos citados em outros textos meus: A ciência não deve ser neutra em assunto algum. Neutralidade é invencionice. É desculpa para negar a importância de uma classe, de um assunto ou de uma cultura da qual você sente qualquer tipo de aversão. Tudo existe por relações. Uma existência única que não se relaciona, independente de tudo mais, é a mais pura essência da negação, um negacionismo em proporções inimagináveis. Seria o contrário da constatação pura de todas as coisas que existem. Seria negar a expansão cósmica, o universo, as estrelas, os planetas, todas formas de vida, suas relações, suas evoluções etc. 

Então a ciência serve a alguém. Assim como a religião e a espiritualidade devem servir a Deus e/ou ao descobrimento de Deus. Não importa se você chama de Jeová, Brahman, Nous, Kether, Akasha, Rá, o Cosmo, Krishna ou qualquer outro nome. É o “conceito” máximo de onipresença que se relaciona com tudo e a mais suprema mente que tem todas informações para fazer o que fez: O universo e talvez mais. 

Então a quem a ciência deve servir? Um grupelho de políticos? De empresários multimilionários? Obviamente não… Sócrates e outros filósofos já diziam (há cerca de 2500 anos atrás) que a verdadeira ciência serve ao bem. 

 O Clubismo e seus efeitos Nocivos 

Se tanto a ciência como a religião enxergam a importância do bem, podemos estipular o que causa tanta discórdia em torno da questão da imortalidade da alma... 

A falta de evidências nos conformes do método empírico? 

O apego à matéria perceptível por parte de muitos cientistas (monismo materialista)? 

Ou talvez a maioria dos acadêmicos estejam acometidos por algum tipo de fascinação pela finitude? 

Bom, eu gostaria de crer que não seja isso, mas para muitos deve ser isso mesmo. 

No 1º caso, se o método empírico não explica, não existe. Um reducionismo óbvio. A 2ª hipótese é naturalista, muito comum das ciências biológicas do século 19. Pouco difere da primeira... A 3ª já envolve possíveis sofrimentos psíquicos: Estudiosos/ cientistas fascinados pela finitude, ou que abraçam vazios existenciais, podem estar sofrendo com problemas emocionais, mentais etc. Mas para aprofundar sobre tais casos é preciso de uma pesquisa em psicologia e eu não concluí a minha ainda. Além disto, existem certas discórdias entre as diferentes abordagens desta área de estudo que fariam deste assunto algo muito extenso. Os 2 primeiros exemplos citados aqui são exemplos de clubismo, pois o empirismo é empurrado goela abaixo da maioria como sendo a própria (e única) ciência. Parece piada, mas não é tão absurdo assim. Clubismo similar, ou seja, divisão em grupos que discordam entre si, aconteceu “N” vezes, como podemos ver na história das religiões ao longo de milênios na civilização humana. O clubismo é similar ao individualismo (numa escala maior, é claro) e se apoia muito no negacionismo e na intolerância. Gera o discurso “nós e eles” e não aceita nada que ameace sua supremacia, seja às claras ou às escondidas. A igreja fez isso às claras por razões óbvias: Apoiou-se na ignorância do povo da antiguidade e se apossou do conceito de heresia, possivelmente ligando-o ao pecado. Este pecado que para os corruptos da igreja era tudo que se opunha a eles, na verdade nada mais é do que a impureza da mente. De acordo com o judaísmo, o ser humano tem um livre arbítrio e quando escolhe o mau ao invés do bem, como as próprias ambições ou satisfações, prejudicando outros, ele está errando. Este erro é o pecado. Já em escritos católicos do século 5, a lei eterna, ou natural, é justa e divina, portanto transgredi-la é pecado. Jesus Cristo ensinou muito desta lei divina de amor ao próximo, amor a si mesmo e amor a Deus. 

Pode-se notar que clubismo existe dentro do "mundo" religioso, e de maneira mais surpreendente, no “mundo” científico. Pois neste último caso grotesco, o conhecimento que começou no iluminismo, prometendo trazer lucidez e clareza à humanidade, ao deixar os problemas sociais e a manipulação dos sentimentos em segundo plano, tornou-se um prato cheio para as lideranças que citei no início deste texto: Líderes populistas, conservadores de desigualdades, de injustiças e de ignorância. 

A Alma e o Inconsciente do ser humano 

Quando dormimos quais pensamentos predominam nossas mentes? Aqueles relacionados às nossas ações e escolhas… Isso diz muito sobre nosso aparelho psíquico (consciente e inconsciente) ou alma e possivelmente até sobre nossos destinos, como mencionado por Jung algumas vezes. 

 Para quem ainda não “crê” em alma, considere o seguinte: Mesmo um psiquiatra cético do século 19 descobriu uma estrutura imaterial da mente, após uma série de observações de pacientes abalados por psicopatologias (sejam sofrimentos psíquicos ou doenças mentais). Este psiquiatra (Freud) além de obter sucesso no tratamento de tais pacientes desenvolveu toda uma base teórica para a psicologia: O consciente, o pré-consciente e o inconsciente (sua 1ª tópica) foi usado até por psicoterapeutas proeminentes que discordaram de grande parte de suas teorias. Mesmo alguns psicólogos que criaram abordagens psicoterapêuticas com bases em outros métodos e estudos, respeitam e admitem a estrutura psíquica com os parâmetros mencionados anteriormente (consciente, inconsciente…) Tanto Freud como Jung, deixam a entender que pensamentos, lembranças e sentimentos não desaparecem definitivamente, eles apenas deixam de ser a atenção de nossa consciência, podendo emergir (da inconsciência) depois de muito tempo. Desaparecer definitivamente seria deixar de existir, o que é algo improvável por qualquer método científico.

O aparelho psíquico descrito pelas abordagens da frente psicanalítica, assim como a essência na fenomenologia, não é físico: não é sólido, nem líquido, nem gasoso e provavelmente também não é plasmático. Não está em nenhum dos 4 estados conhecidos da matéria até então. Trata-se talvez, no máximo, de informações relacionadas aos potenciais elétricos ou a sinapses do sistema nervoso, mas mesmo estas não são a causa das escolhas humanas. Isto é centrar os estudos no empirismo, ignorando todos os demais métodos científicos. Um ato típico do período iluminista, onde acreditava-se que o ser humano era o centro do universo e o que existia de mais evoluído neste. A postura correta da ciência é semelhante à humildade: é assumir que não se sabe sobre o que não foi descoberto nem sobre o que ainda não se estudou o suficiente. 

Vários outros campos da ciência e estudos científicos se depararam com questões que o método empírico não foi suficiente para solucionar. O campo mais comum destas ocorrências é a física, daí o desenvolvimento de métodos científicos da física teórica. 

Como estudar a Mente (e a Alma) 

No que se refere ao empirismo, sabemos que este método se apoia nos cinco sentidos humanos e na reprodutibilidade das experimentações. Então parece óbvio que o empirismo não vai explicar forças ou energias que distorcem o espaço-tempo (como as de certos corpos celestes) alcançando dimensões além do “nosso universo 3D”. E se existe qualquer forma de vida em uma dimensão além da tridimensionalidade, também é óbvio que o empirismo jamais vai controlar qualquer ser ou entidade que consiga viajar através do espaço-tempo por meios desconhecidos aos humanos. Portanto isto impede a reprodutibilidade de experiências empíricas feitas pelo observador/ estudioso. 

O monismo (seja materialista ou eliminativo) já mostra algumas contradições ao servir de base para algumas abordagens psicológicas: Esta base filosófica (seja chamada de pressuposto ou de ontologia) requer o empirismo como método de investigação, então como o observador (o estudioso, no caso o psicólogo ou psiquiatra) poderia repetir os sentimentos espontâneos que ocorreram numa determinada situação de um paciente? O empirismo aceita como verdade absoluta os relatos de um paciente? E se não aceita algum relato do paciente como sendo verdade, não estaria sendo arbitrário? Pois então, o empirismo é um método antropocêntrico do período iluminista - Quando foi desenvolvido há cerca de 3 séculos, os empiristas pressupunham que o ser humano era o que havia de mais desenvolvido no universo. Pressupunham que a vida só poderia existir em ambientes com a composição idêntica ou muito similar ao planeta Terra. É um método com limitações como tantos outros. Se este método explicar algo sobre a alma e sobre a existência além do espaço-tempo conhecido, explicará muito pouco. Para se falar dos temas colocados na categoria de espiritual/ transcendental / sobrenatural, é preciso utilizar outros métodos ou talvez até desenvolver novos métodos… Métodos ainda desconhecidos que só espanta ou irrita os misoneístas. 

Se vou descrever como é a alma aqui? Claro que não. Eu só tenho vagas "ideias'' baseadas em experiências inalcançáveis pelo método empírico. Só tive percepções dificílimas de se descrever, recebidas pelo meu aparelho psíquico. Diga-se de passagem, tais “percepções”, muitas delas intimamente vinculadas a sentimentos, foram experiências, ou fenômenos, que o cérebro humano é incapaz de produzir por si só. Apesar disto, muitas outras pessoas também devem ter experimentado, e por isso, descreveram algo mais ou menos semelhante ao que experimentei. 

Ainda assim, frequentemente sinto-me receoso em descrever minhas experiências, pois há poucos anos atrás eu vi bacharel pós-graduado em psicologia dando aula em curso superior e exercendo a profissão, dizendo que amor é algo entre uma besteira e algo que não existe. Será que estes prestigiados profissionais provam a não existência através de um método científico? Quantos desses não estão por aí formando opiniões? E quantos desses não entendem como ideologias de ódio chegaram ao poder em certos países, tanto no passado como no presente? Ora se o amor é uma besteira, se é apenas uma reaçãozinha química do cérebro ou se simplesmente não existe, o que seria o ódio senão algo meramente do mesmo nível? Será que tais sentimentos não têm relevância? Sentimentos de amor e ódio (e outros) não estão vinculados só a questões supérfluas nem só a questões espirituais: Por mais que muitos acadêmicos e cientistas queiram ser um robô, ou um materialista extremista, ou um “super-racional”, os sentimentos movem praticamente toda ação humana e possivelmente movem até ações de alguns animais. 

Enfim, alguns cientistas iniciaram estudos, ainda que tímidos, sobre a relação da mente com o espaço-tempo, sobre fenômenos/ experiências de quase morte (EQM) e sobre a relação da mente com a distorção de campos eletromagnéticos… Um dos estudos foi o seguinte: Após acompanhar 344 pacientes sobreviventes de paradas cardíacas, dos quais 18% tiveram EQM,  indicando "consciência" mesmo sem atividade cerebral, o médico holandês Pim van Lommel, criou uma teoria a respeito: “A consciência não pode estar localizada num espaço em particular. Ela é eterna”, diz. “A morte, como o nascimento, é mera passagem de um estado de consciência para outro.”

O conceito de consciência nestes estudos pode ser mais neurológico ou da psicologia comportamental, afinal médicos se apoiam no método empírico. Esta consciência além da vida material possivelmente está mais relacionada com o inconsciente da mente dos seres vivos de acordo com a frente psicanalítica: As experiências transcendentais, onde pessoas descrevem deixar seus corpos por exemplo, entram nesta categoria observada pelo médico holandês.

Pim van Lommel ainda diz, com certa humildade, que os estudos não comprovam sua teoria. É claro que não, o método empírico por tratar apenas do que os 5 sentidos humanos detectam, não vai explicar tais fenômenos com mais precisão do que este caso, uma vez que rechaçam até mesmo o inconsciente como elemento do aparelho psíquico (mente ou alma, chame do que preferir). Portanto estes estudos empíricos também não refutam, nem negam a teoria de Pim vam Lommel: No máximo, deixam o caso inconclusivo.

A teoria deste médico deve desagradar muito dos empiristas que preferem classificar as descrições destas experiências dos pacientes como meras alucinações. Porém as alucinações requerem ou deveriam requerer atividade cerebral... O que parece ter cessado nestes casos. Claro, o debate poderia se esticar, com empiristas alegando que a alucinação surge nas breves descargas elétricas oriundas da morte de neurônios, mas aí, os próprios empiristas estariam especulando e o assunto se delongaria permanecendo inconclusivo.

Para descrever mais estudos aqui, que indicam indícios de elementos psíquicos que transcendem o espaço-tempo, eu precisaria reencontrar as fontes e isto é algo que talvez eu faça futuramente.

Fontes: 

Carl G. Jung; O Homem e seus Símbolos, 

Allan Kardec; Revista Espírita Ano xxxx, mês xx, 

Pin van Lommel; Consciousness Beyond Life: The Science of the Near-Death Experience

quarta-feira, 30 de junho de 2021

É Possível Instruir as Massas?

 

Esta é uma reflexão feita a partir de variadas observações particulares e mais uma vez tento usar uma linguagem informal, mais simples do que a que usei em alguns textos meus: 

 Linguagem e Clareza no Ensino e na Comunicação 

Uma atriz de teatro me contou que ao apresentar peças com a intenção de ensinar sobre política e sociedade nas periferias, os espectadores reclamaram da linguagem usada. Os moradores da periferia que assistiam às peças teatrais diziam que os atores usavam palavras difíceis, porém quando os atores perguntavam se eles entenderam a peça, eles alegavam que sim e que mesmo assim não gostavam da linguagem dos atores. Isto provavelmente aconteceu por se sentirem distantes da realidade dos atores ou por se sentirem menos inteligentes do que os atores; 

Outra observação é a seguinte: Prega-se pelas redes sociais que a ciência, principalmente as ciências humanas que são mais voltadas para resolver os problemas da sociedade, deveriam se aproximar dos mais pobres de maneira clara, pois eles são a maioria da população… 

Pois bem, minhas observações apontaram que não só há variados desafios para ensinar a maior parte da população do país, mas há uma combinação terrível de dificuldades: Além da linguagem ter que ser mais simples, o conteúdo a ser passado é muita coisa. E não se trata só de ensinar sobre as leis mais básicas (direitos no trabalho, por exemplo)... É preciso esclarecer como funciona a política, quais foram as conquistas políticas importantes, para que servem etc. É preciso ensinar até mesmo um básico de economia, ao menos para a população entender sobre de onde vem e para onde vai o dinheiro. Mesmo porque a economia é quase inseparável do emprego, do mundo empresarial e portanto inseparável do trabalho e das leis trabalhistas também. E daí fica nítido o quanto é desleal lutar contra as mentiras espalhadas pela internet e pela televisão: Consiga mais “likes” nas redes sociais, “Seja um empreendedor”, “O Agro é Pop”, “conspirações gayzistas e comunistas'', atos contra a família e contra Deus e tantas outras mentiras maliciosas. 

Muitos acadêmicos podem achar que essas mentiras são meras idiotices, mas na verdade a maioria destas mentiras usam as esperanças e a autoestima das pessoas. Essas mentiras usam desejos e sentimentos das pessoas e às vezes até incentivam e criam os desejos nas pessoas. É uma verdadeira era de manipulação mental cada vez mais ampla, pois está em todos principais lugares que as pessoas olham frequentemente: Whatsapp, Facebook, Instagram, Rede Globo, Sbt, Tv Record, Band, Jovem Pan etc etc… As verdades que surgem nestas mídias parecem minoria, pois em variados momentos são menos mostradas do que as mentiras. Não me refiro só às “fake news” que são basicamente boatos sensacionalistas, conspiratórios ou difamatórios, me refiro a manipulação mencionada anteriormente que são opiniões e propagandas vendidas como verdades. Então podemos concluir que há uma inversão dos valores em larga escala que já está fazendo um estrago que vai muito além do Brasil. 

 Para instruir a população de maneira mais rápida e ampla seria necessário tomar ao menos uma dessas mídias tão usadas pelas pessoas. Porém isto beira o impossível, afinal tais mídias servem a quem tem mais dinheiro. 

 E quem são os mais ricos? Como eles vivem? Bom, os mais ricos são multimilionários, pois não estamos falando de pessoas que ganham 6000,00 R$ ou 30.000 R$ por mês. Multimilionários acumulam facilmente dezenas ou até centenas de milhões de reais por ano, ou quem sabe até mesmo, por mês. Eles não gostam de se expor muito, mas é fácil achar alguns textos e fotos sobre eles em revistas que puxam o saco deles, como a Forbes e algumas outras. 

 Os donos das maiores empresas, os pastores milionários e por fim, os políticos e militares que aceitam propina dos empresários mais milionários, geralmente são os causadores de grandes problemas no mundo, pois eles são os corruptores e os corruptos. Tais problemas são sociais, econômicos ou até mesmo ambientais. Afinal eles controlam para onde vai o dinheiro e querem cada vez mais, que todas as coisas só sejam acessíveis por quem tem dinheiro. Isto parece esquisito para algumas pessoas, mas não é uma atitude sem sentido: É um desejo de ter cada vez mais dinheiro e bens, fazendo com que outros se esforcem por esta aquisição de fortunas. Sim, um tipo de escravidão, mas disfarçado de um sistema onde as pessoas conseguem coisas devido ao seu próprio mérito. A tal meritocracia que é mostrada como algo “natural”, mas não tem nada de natural, sequer devia ser chamada de meritocracia, já que é um sistema onde o mais rico compra as leis e pode cada vez mais, enquanto os pobres podem cada vez menos. 

De maneira mais clara é um sistema onde o mais egoísta ganha mais. Por ser um sistema social e econômico que favorece o mais egoísta e o mais ganancioso, talvez nem adiante eliminar o dinheiro ou todo o sistema em si, pois a maioria do povo cairia outra vez no discurso que o dinheiro (ou algum substituto do dinheiro) ainda é necessário. Daí a importância não só da instrução racional, como também da instrução dos sentimentos e suas respectivas expressões (as emoções). Isto é o que eu já mencionei em textos anteriores: Os verdadeiros estudos, a verdadeira ciência não pode ser separada do Bem. E não é difícil entender que o bem é a solidariedade, a equidade (igualdade de oportunidades), a justiça etc. 

 Isso seria uma utopia? Um sonho ingênuo? Talvez, mas a ideia não é nova, porque alguns filósofos mencionaram tal ideia há mais de dois mil anos atrás… 

 O que é Instrução e o que é necessário para se Instruir? 

 Se procurarmos em dicionários podemos achar as seguintes definições sobre o que é instrução: Ensino, ação de instruir, estudo, conhecimento, ciência, saber… Aqui temos definições gerais, ou seja, não tão precisas, mas sabe-se que tanto o ensino, como a ciência, possuem métodos para a construção do saber ou dos conhecimentos. 

Uma das condições básicas de todos os métodos para se estudar, para aprender ou para construir qualquer conhecimento, é deixar de lado os pré-julgamentos, evitando-se assim as opiniões influenciadas por criação (família etc), gostos, aversões etc. Isto tem muito em comum com a postura de humildade, de assumir que devemos aprender, porque não conhecemos suficientemente o determinado assunto a ser estudado em questão. Tudo isto não difere da postura básica necessária para a pesquisa científica, porém ainda assim, pouco se fala sobre a importância de não pré-julgar e de manter-se humilde para qualquer tipo de estudo, seja o estudo fundamental, médio ou acadêmico/ científico. Isto ocorre porque tais conceitos de humildade e receptividade (o ato de não pré-julgar) são tidos como muito “subjetivos” ou são tidos como sentimentos “muito individuais” de cada pessoa. Bom, se alguém pensa que trata-se de um assunto muito particular de cada ser humano, pensou errado. Seria particular se não afetasse o seu entorno, mas no ensino e na construção de conhecimento, afeta. E muito. 

 Na verdade estas questões foram abordadas e debatidas sim, durante parte do desenvolvimento das ciências, no mínimo, desde o século 17. Mas sua importância veio sendo diminuída gradualmente, possivelmente desde o momento em que o método empírico se chocou com a filosofia e com o surgimento da psicologia, no século 19. 

 Não é função deste texto aprofundar-se como o choque entre os cientistas empiristas e os cientistas fenomenólogos dividiu a psicologia, mas sim mostrar os caminhos que se formaram na construção do conhecimento. Parece complexo (e até é), mas basicamente estas separações aconteceram não só por causa da necessidade de entender as coisas (a natureza, a mente etc), mas também por causa das tendências de certos estudiosos e seus estudos, ou seja, as cisões aconteceram também por causa de opiniões. Até aí pode não ser absurdo, afinal o ser humano é falho, mas há alguns pontos de interesse sobre o que se diz e o que se pensa sobre opinião. 

 A opinião é discutida, definida e separada da ciência, já no período considerado como o surgimento da filosofia no ocidente, na Grécia clássica do século 4 antes de Cristo. De acordo com os filósofos socráticos, a opinião é mais relevante do que a ignorância, porém menos relevante do que a busca pelo saber/ conhecimento. 

23 séculos depois Husserl cria o método fenomenológico, mostrando que estudar só o que se percebe fisicamente (o método empírico) e o que pode ser reproduzido, já é um método com viés. Afinal, instruir as pessoas apenas sobre coisas que podemos ver, ouvir, tocar e cheirar, ignora muitos campos de estudo e tende ao tecnicismo, mostrando-se um método de ensino que prioriza a profissão, a produtividade e o mercado. Muitos dos motivos que fazem o ser humano tomar decisões são baseados em sentimentos, em crenças e interpretações, que quando ignoradas, geram distorções dos fatos, as quais chamamos vulgarmente (e muitas vezes, precisamente) de mentiras. 

Ser técnico é importante muitas vezes para entender e explicar determinados temas, mas muitas outras vezes, não é suficiente: Não explica os porquês de normas sociais e dos sistemas sócio-econômicos, e nem trabalha a importância da empatia, das relações sociais, das relações afetivas e dos sentimentos. Em outras palavras, afirmar que o estudo técnico e o método empírico são mais importantes ou mais verdadeiros que outros métodos, faz parte de um grande movimento reducionista pois se adequa bem ao discurso da competitividade desenfreada e de que tudo é naturalmente oriundo do mérito. 

E o que mais se adequa aos movimentos reducionistas? Os discursos apoiados em tradições, as externalizações toscas e as religiões punitivistas ou frias. Nenhum destes 3 exemplos são métodos de ensino nem de pesquisa, mas vão direto ao encontro da necessidade de sentimentos e de crenças, dando alguma motivação às pessoas. Assim, o desempregado, o desiludido e o pobre, sentem-se acolhidos num grupo (ao menos) aparentemente amigável. Obviamente, grande parte desses grupos, liderados por pastores, por exemplo, apenas enganam e extorquem seus seguidores e seus fiéis, dando em troca, breves discursos consoladores e talvez espaços para desabafos com choros e abraços. Outras vezes os discursos tradicionalistas ou “religiosos” quando são reducionistas, dão motivações bem torpes às pessoas, como criar rivalidade entre grupos e inventar inimigos. As externalidades são aqueles argumentos que alegam que um determinado fator não tem importância dentro de um tema. Por exemplo, ao conversar sobre meio ambiente, dizer que a falta de fiscalização das empresas que poluem ou desmatam, é um outro assunto menos importante. Por fim, a institucionalização nociva da religião é a demonização das outras fés, a criação de hierarquia e de autoridades absolutas em assuntos que deveriam ser essencialmente espirituais. 

Tudo isso é baixo? Covarde? Repulsivamente aproveitador? Provavelmente tudo isto, mas citei estes exemplos apenas para mostrar que é o outro lado que completa a doutrina reducionista baseada em materialismo, insensibilidade e imediatismo: 

De um lado o tecnicismo ignora sentimentos, crenças e interpretações incentivando a produtividade, e do outro lado, os cultos tradicionalistas e punitivistas, manipulam os sentimentos, crenças e interpretações, favorecendo os mais multimilionários e mais poderosos.

Métodos de ensino, do fundamental ao acadêmico/ científico, que sejam baseados apenas em tecnicidades, deixam uma falha enorme na construção dos indivíduos e das sociedades formadas por esses indivíduos. E muitos dos estudos feitos por métodos tidos como supostamente mais objetivos, foram feitos com motivações não exatamente nobres, nem ao menos foram concebidos pensando no bem da sociedade ou da maioria dos habitantes de uma nação ou da Terra. 

 Segmentação e Reducionismo - Como Combater 

Então, o reducionismo no ensino e nas pesquisas, nem sempre foi acidental. Seria possível vasculhar a história dos métodos científicos e analisar quais dos seus criadores e contribuintes estavam interessados em se beneficiar, quais se interessavam e beneficiar a poucos e quais tinham uma visão mais ampla, preocupando-se com grupos maiores de pessoas. Destes últimos, poderíamos ver quais tiveram uma postura de humildade em suas pesquisas, e quais eram mais receptivos às outras áreas do saber, seja desenvolvendo acidentalmente, ou intencionalmente, uma empatia com o próximo. 

Porém, aprofundar-se na história dos métodos científicos e de seus criadores é um assunto extenso, para não dizer profundo, e terá que ficar para um possível futuro. 

O que está sendo tratado aqui é o seguinte: Segmentação é reduzir a grupos com pouco ou nenhum contato entre si. E esta redução é um reducionismo (óbvio). 

Estes grupos de estudiosos tinham em comum um linguajar supostamente científico, ou supostamente técnico. Um linguajar difícil, que a maior parte das sociedades, pobre e com pouco ou nenhum estudo, simplesmente não entendia. E ainda não entende. 

Hoje, neste início do século 21, temos divulgadores científicos, mas que concorrem na internet com youtubers e tantos outros conteúdos aleatórios, muitas vezes intrusivos e de viés consumista (propagandas aos montes, por exemplo). Esta concorrência é difícil, possivelmente até desleal, já que algoritmos priorizam para que as pessoas vejam mais propagandas e conteúdos imediatistas na internet, lucrativos para seus anunciantes. Então quais seriam outros meios necessários para a instrução das massas? 

Algumas medidas já foram tomadas, mas correm o risco de serem canceladas e desaparecerem: Programas de bolsas de ensino para que as pessoas estudem de graça em faculdades. Outras medidas parecem longe de serem tomadas: A facilitação do linguajar técnico e científico, tanto para maior entendimento das leis dos países, como para o desenvolvimento de pesquisas científicas. Esta facilitação vem sendo discutida há anos, mas aparentemente nada foi resolvido ainda. 

A maioria da população mundial é formada por pessoas com pouco dinheiro e pouco estudo. Enquanto o conhecimento se manter separado/ distante da maioria das pessoas, estas permanecem servindo de marionetes para quem tem mais poder, seja econômico, político, militar ou até religioso. 

As ciências como conhecemos hoje, de maneira resumida, se desenvolveu há cerca de 4 séculos. E continua isolada, elitista, numa frágil bolha inacessível pela maioria pobre, e frequentemente desprezada, quando não manipulada, por outros círculos de poder como os mencionados há pouco: Os poderes econômicos, religiosos, políticos e militares. A ciência e os estudos em geral não devem ser alienados nem alienantes. Eles devem conversar com a maioria das pessoas e integrá-las na sociedade. Isto não é um discurso meramente “pró achatamento de camadas sociais”, é um discurso a favor da verdade e do desenvolvimento intelectual e empático dos seres humanos…