segunda-feira, 8 de março de 2021

Grandes Personagens

 


A última vez que escrevi de verdade neste blog foi em maio do ano passado, tínhamos 19000 mortos, passamos de longe agora com bem mais de 10x esse valor, mas este não é o motivo principal para escrever por aqui.

Hoje é um dia interessante, 8 de março é o dia internacional da mulher. Normalmente eu não dou a mínima para datas comemorativas, quando alguém fala para mim 'feliz dia do geógrafo' ou 'feliz dia do profissional de TI', dá vontade de existir em outra dimensão por alguns instantes (pera, essa vontade bate o tempo todo).

No entanto essa data tem raízes no movimento operário e é um dia muito válido. É claro que aquelas mensagens no grupo do trabalho dão vontade de sair dele (pera, essa vontade bate o tempo todo). Homem dando parabéns e distribuindo florzinha também intensifica o ambiente de imbecilidade. Para mim, esse dia é um dia delas, para refletir, organizar e se reunir. Aos homens restam o apoio e a solidariedade.

Mas o que esse assunto tem a ver com o título e com a foto? O segundo motivo dessa data ser interessante vai explicar melhor: o ministro do STF, Edson Fachin concedeu o habeas corpus pedido pela defesa de Lula por incompetência da 13 Vara Federal de Curitiba, incompetência, creio eu, não no sentido mais óbvio da palavra (o que com certeza se aplicaria), mas por regrinhas xaropes do judiciário.

E o que o segundo motivo tem a ver com o título? Bem, o livro na foto pertence à coleção lançada pela moribunda editora Abril, e um dos livros dessa coleção começava com a frase "Grandes personagens fazem a história ou a história forma grandes personagens?"

Achei relevante neste momento, pois os dois motivos que citei anteriormente possuem sentido oposto. No primeiro, não há um grande personagem, a história foi construída pela luta coletiva e greves, muitas greves. No segundo, temos um grande personagem, quem também lutou e liderou diversas greves, e portanto, como se dizem por aí, 'fez história'.

O terceiro motivo é avaliar um outro grande personagem, embora eu só posso considerar 'grande' no sentido de 'grande vilão', Josef Stalin. Este motivo se soma aos outros no texto porque o 'neostalinismo' é algo que anda mostrando sua cara deformada nos dias de hoje.

Nós vivemos tempos extremos, ao mesmo tempo que a internet conecta pessoas e abre a possibilidade de multidões 'fazerem história', a própria difusão de ideologias e de 'influenciadores digitais' parecem exacerbar a necessidade por figuras agregadoras, 'grandes personagens'.

Bolsonaro não é fruto direto das classes dominantes, ele serviu aos seus propósitos, mas foi 'adotado' conforme foi adquirindo popularidade, principalmente pelos meios digitais. Lula, após o governo destruído de Dilma, apareceu novamente com enorme capital político (tão enorme - dentro das limitações de ter travado uma guerra midiática que surrou seu partido - que decidiram tirá-lo da jogada com a palhaçada que a Vaza-Jato escancarou).

Figuras obscuras, como Olavo de Carvalho (para mim ele deveria aparecer com algum Tele 900 de astrólogo, a la Walter Mercado - 'Ligue já!'), quem obteve status de guru da nova direita, também por meios digitais, e como o patético Nando Moura, novo personagem cartunesco, surgiram na cena.

Essa busca por grandes personagens é mais comum em jovens. É normal você crescer se espelhando em figuras proeminentes, quem bradam seus objetivos e ideias, que acabam sendo parecidas com as suas. Em uma época da vida que é muito mais fácil de se agarrar a dogmas. Em um mundo incerto, o jovem busca dogmas para se ancorar. A cada novo dogma entendido e incorporado, o jovem se sente mais confiante, afinal, a vida tem que ter algum sentido.

Mas alguns jovens acabam por não se tornarem adultos, e a idade não traz a sagaz dubiedade que derruba os dogmas e acaba com a arrogância ou ignorância. Entretanto, mesmo aqueles que envelhecem e derrubam alguns dogmas, procurando obter esclarecimentos, podem se ver emaranhados na teia de caos que é a realidade. No emaranhado existe a possibilidade de você obter esclarecimentos que são obscurescimentos na verdade, e sair propagando ideias contra-produtivas.

O stalinismo disfarçado entre pessoas 'esclarecidas' é perigoso. Vamos resumir: Stalin foi um ditador que montou sobre a revolução popular, exterminou as lideranças revolucionárias, atacou o próprio povo e agiu como um imperialista não-capitalista. As conquistas populares da URSS e do restante dos trabalhadores no mundo se embaralham com o fracasso, covardia e incapacidade de Stalin e sua burocracia anti-revolucionária.

A defesa de Stalin se respalda no suposto combate à propaganda de direita e, pelo menos aqui no Brasil, na necessidade por figuras autoritárias. Essa necessidade se dá pela falta de confiança no povo, nas pessoas. Ela cheira a eugenismo. Eu mesmo, não consigo angariar força mental para confiar no povo, porque a propaganda que serve como meio de controle ideológico das classes dominantes forma uma atmosfera pesada e imutável que drena minhas forças. Como diria o agente Smith para Morfeus, 'eu consigo saborear o seu fedor'. Mas minha falta de força não é o mesmo motivo dos eugenistas.

Essa defesa é falha porque stalinismo não é marxismo. Poderia-se dizer que stalinismo é uma espécie de esquerda maluca, mesmo que o seja, é uma esquerda maluca que deve ser combatida. Se é para você acreditar em contos da Carochinha, então acredite na centro-esquerda, social democrata, é menos feio.

Uma figura autoritária não vai resolver os problemas do povo. É difícil de acreditar que o homem mais santo da Terra não se corrompesse com poder sem restrições. Mesmo que tivéssemos um santo mão-de-ferro, o poder deve ser partilhado. Os homens são iguais, e portanto devem decidir em conjunto suas vidas. Isso passa por igualdade absoluta entre homens e mulheres e respeito à individualidade sem danificar a coletividade.

Enfim, qual é a resposta para a pergunta feita no livro da Abril? Não creio que haja resposta definitiva, o meio forma o homem, e o homem altera o meio. É um caminho de duas mãos que envolve o tempo e a individualidade.

Neste momento estamos mergulhados em trevas tão profundas que talvez se apoiar em um grande personagem na esperança que ele alavanque os homens e mulheres a fazerem sua própria história e até o superarem, possa ser aquela pequena chama que nos guia para fora do abismo. Lula poderia ser esse personagem, grande ele já é. Claro que esta é apenas uma mensagem de otimismo para contrapor o realismo de sempre que me cerca.


P.S.: Em parte, o terceiro motivo da postagem foi incluído aqui porque eu concordei bastante com este texto: https://www.causaoperaria.org.br/uma-defesa-aberrante-do-stalinismo/

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A Ciência e o Bem

 

Os Sentimentos e o Bem são desprezíveis? 

Decidi escrever este texto após me lembrar de alguns diálogos com professores do curso de psicologia e de conversas de pessoas debatendo sobre o direito de lucrar contra a responsabilidade social. Os professores aos quais me refiro eram respectivamente de psicologia comportamental e de "ciências neurológicas". 

Resumindo à grosso modo para quem não sabe, a psicologia comportamental (behaviorismo) é uma vertente, ou seja, uma abordagem da psicologia, que lida mais com o presente se comparada com a psicanálise e com a psicologia analítica. Além disto, como ciência, o behaviorismo se apoia mais nos métodos empíricos e racionalistas, enquanto a psicanálise e as abordagens humanistas se apoiam mais em um método fenomenológico.

Pois bem, em uma das aulas, o professor que atuava na área de psicologia comportamental, alegou em tom de deboche, que sentimentos como o amor eram muito subjetivos e portanto menos importantes do que as ações e reações dos indivíduos. Já o professor da área de neurologia, hesitando um pouco, comentou que o amor era apenas uma reação eletroquímica no sistema nervoso. E por fim, as pessoas que debateram a importância do lucro contra a importância da responsabilidade social, talvez pareçam estar abordando um tema totalmente diferente da psicologia, mas na verdade também se trata de se sentir como estão os outros seres. E "sentir", assim como o sentimento, é um objeto de estudo da psicologia, ou ao menos, de algumas abordagens que se dispõem a estudá-lo.

Os sentimentos não são científicos, ao menos, por enquanto. Eles não podem ser medidos nem classificados nos conformes da (ainda débil) ciência humana tão amarrada ao conceito do empirismo desenvolvido há cerca de 3 séculos, e ao materialismo. Portanto benevolência, amor, humildade são tratados como assuntos muito subjetivos pela maioria dos cientistas, céticos, ateus, materialistas… Na verdade estes temas são considerados subjetivos ou secundários até mesmo por muitos dos supostos religiosos e “espiritualizados”.

Platão (428 a.C. - 347 a.C.), o famoso filósofo que viveu na Grécia por volta do século 4 antes de Cristo, alegava a importância de ter o Bem como centro de todas as coisas. A partir disto alegava a importância da razão e busca pela sabedoria e trabalhava sempre com o que é possível, ou seja, a possibilidade de progredir. Platão e seu mestre, Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.), são considerados os fundadores da filosofia ocidental, ao menos se desconsiderarmos os poucos fragmentos remanescentes das obras de filósofos anteriores... Se formos considerar tais obras fragmentárias, o título muda para Tales de Mileto (624 a.C. - 546 a.C.)

Resumidamente, os filósofos (amantes do saber, ou seja, aquele que ama o conhecimento) eram os cientistas da antiguidade e Platão (e/ou Sócrates) os idealizou como os indivíduos mais adequados para governarem a sociedade. Portanto todo o conhecimento deveria ser buscado e aplicado para o bem do maior número de pessoas possível. Isto pode parecer “apenas” benevolência, mas na verdade, também é progresso. Então o que deu errado? O que impossibilitou a busca pelo bem e pelo saber situarem-se no centro da civilização humana? Possivelmente a mesma coisa que deu errado em outros momentos da história humana. Ao ler A República, livro onde Platão conta como Sócrates idealizava melhorias na sociedade junto a outros indivíduos, nota-se que o filósofo cogitava fazer uma espécie de conversão / revolução nas cidades estado helênicas (gregas) a começar pelas altas classes sociais. O termo revolução aqui refere-se às propostas de Platão para a mudança nas estruturas governamentais. Já o termo conversão refere-se mais às propostas de convencer a aristocracia à valorizar a busca pelo bem (virtude) e a realizarem as funções designadas por suas respectivas classes e cargo/ profissão. Porém, ao lidar com os indivíduos mais poderosos das cidades estado gregas, Platão não conseguiu remover a avareza nem o orgulho destes. Ideias sobre a existência da alma persistir além da morte do corpo e que isto implicaria em recompensas ou penas além da vida material, deviam incomodar os poderosos. Governar pelo próximo e para os outros deve ter incomodado mais ainda. Sócrates que havia começado a fomentar tais ideias em Atenas antes de Platão, sofreu acusações, entre elas, a de corromper a juventude e de impiedade, um tipo de heresia / blasfêmia da época. Por isso acabou condenado a tomar um veneno mortal (sicuta). Aceitando as leis de sua época, Sócrates encarou a morte sem medo, pois sabia que fizera a coisa certa e que nada garantia que sua alma pudesse ser destruída. 

Fica uma questão: Seria a filosofia iniciada por Sócrates e Platão, mais deficiente do que a ciência atual do século 21? Alguma das virtudes defendidas pelos dois filósofos prevaleceu em nossa civilização ocidental alguma vez? A temperança/ moderação, o bom senso, a piedade, a justiça, a verdade, o bem? Parece que não.

 Neutralidade: Ignorância ou mera Opinião. 

Atualmente (mais precisamente a partir desta segunda década do século XXI) estamos vivendo a era das "fake news", um processo que faz parte da "pós verdade", ou seja, a trágica desvalorização dos fatos diante as narrativas. Neste processo surgiram novos governos "populistas" de direita, ou seja, governos que utilizam-se de sensacionalismo, menosprezando as ciências e manipulando os tabus sociais, as tradições (conservadorismo) e os fervores da população, como citei neste outro texto: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/04/a-corrosao-social-persiste-atraves-das.html

As pessoas dominadas por tabus sociais e/ou tradições em geral não se interessam pela ciência ou não tiveram acesso à ciência. Portanto seus modos de pensar dão espaço à predominância de sentimentos e emoções, tendo pouco espaço para a racionalidade. Independentemente se estes sentimentos e emoções são positivas ou negativas, os governos chamados de populistas aproveitam-se desta característica, assim como as mídias sensacionalistas também o fazem. Estas pessoas “distantes da ciência”, não têm conhecimento sobre política nem sobre sociologia ou geografia e se mantém “neutras” até serem manipuladas. Suas opiniões dificilmente se baseiam em fatos já que são alvos de manipuladores como os mencionados há pouco. 

A Ciência deve ser Neutra? 

Desde a ascensão destes governos entre 2016 e 2018, começou-se a discutir a necessidade da ciência se aproximar do povo. Mas porquê? A resposta ficou mais nítida no ano de 2020: Com a propagação da pandemia do covid-19, variados absurdos vieram à tona, em geral, um negacionismo generalizado da ciência. Isto ocorre porque a ciência que era apenas afastada das classes sociais mais humildes, em geral das massas com difícil acesso à uma renda digna e aos estudos, agora também foi afastada de grande parte das classes médias e altas. Não é teoria infundada, é fato que inúmeros pequenos empresários ficaram em pânico com a ideia de falir e de perder poder aquisitivo por causa das medidas de afastamento social. Esta classe em pânico se agarra às promessas absurdas, negam a letalidade do vírus e acham natural, ou até mesmo lógico, o relaxamento das medidas de afastamento social mesmo com um elevado número de pessoas sendo infectadas. Os mais abastados (multimilionários) também não precisam mais da ciência, pois estão mais preocupados em permanecer no topo da hierarquia sócio econômica. 

Portanto a comunidade científica dominada por uma pseudo racionalidade permaneceu cega sobre alguns fatos óbvios desde o século XX: Não existe sentimento neutro em ser humano algum e portanto não existe pensamento neutro. Não existem expressões dos sentimentos (emoções) neutras e por fim, não existem ações/ comportamentos neutros, pois para existir neutralidade nestes campos não poderiam existir relações, nem intenções, nem opiniões. O que existe são sentimentos positivos e negativos. A partir daí surgem emoções (expressões dos sentimentos) amistosas ou hostis, boas ou más. Existem os pensamentos altruístas e egoístas e o mesmo vale para as atitudes e comportamentos. Para que existisse um pensamento neutro, não poderia existir nada além do pensador: O ser pensante ou pensa priorizando a si mesmo ou pensa priorizando a(s) outra(s) pessoa(s). A indiferença só existe em relação à alguma coisa, pois ninguém pode ser indiferente à nada. Portanto o pensamento "indiferente" é aquele que não se importa com algo (com algum assunto, alguma pessoa, algum grupo etc). Geralmente este tipo de pensamento tende a ser o egoísta, pois é voltado para si mesmo ou prioriza uma minoria. Obviamente esta dualidade é mais nítida nos sentimentos e nas emoções, pois no campo mais "racional" parece ser aceita a suposta neutralidade nos assuntos. 

Então vamos mostrar alguns exemplos da impossibilidade da neutralidade: Descobre-se como construir celulares com internet. O que será feito desta descoberta? Será difundida em algum setor da infraestrutura de um (ou mais) país(es) ou será comercializada visando o lucro de determinada empresa, mais especificamente de seus proprietários / acionistas? Descobre-se a vacina para uma doença mortal que se espalha rapidamente. O que será feito desta descoberta? Será difundida em algum setor da infraestrutura de um (ou mais) país(es) ou será comercializada visando o lucro de determinada empresa, mais especificamente de seus proprietários / acionistas? 

É possível afirmar que os pesquisadores estejam neutros em sua pesquisa? Bom… Esta neutralidade presume que os cientistas que estão pesquisando determinado campo de estudo em busca de descobertas, não tenham a mínima ideia o que será feito com sua possível descoberta. E isso é de uma grande ingenuidade. Será que os cientistas são tão ignorantes em relação ao destino de suas pesquisas / descobertas? 

Ainda assim, a culpa ou responsabilidade não deve ser depositada simplesmente sobre a comunidade científica: Antes de encontrar culpados é necessário deixar claro que não há neutralidade de fato. Um cientista pode ignorar o destino de sua pesquisa por algum tempo, pode ter boa ou má intenção em sua pesquisa, mas o que determinará o destino da descoberta podem ser (e geralmente são) outras pessoas. Geralmente pessoas com poder econômico, político ou ambos. E a decisão final não será feita com neutralidade! O pensamento e/ou a ação (chame do que quiser) final sobre a descoberta científica terá uma preferência em privilegiar uma minoria ou uma maioria de pessoas. E óbvio, que o pensamento dinheiro-cêntrico pensa em favorecer uma minoria, pois se trata de acumular grandes fortunas para poucas pessoas. 

Portanto a “neutralidade”, ou mais precisamente a indiferença, sempre serve a alguém, sempre serve um lado. No caso de uma sociedade, cuja a maioria da população não tem entendimento sobre a função do estado, nem sobre para onde vai o dinheiro num sistema que favorece predominantemente quem tem (muito) mais dinheiro, a tendência é o pensamento indiferente. Indiferente a que? Indiferente a tudo que não seja si mesmo e talvez algumas pessoas próximas, de preferência que não discordem muito de suas ideias. Logo esta indiferença diante as necessidades coletivas serve às minorias mais endinheiradas (eu sei… isto também é óbvio). 

Enfim, creio que seja importante remover esta máscara da neutralidade, não só como possibilidade política ou de opinião pública, mas também em todos os campos da ciência. Removendo a máscara, fica óbvio que existem intenções altruístas e intenções egoístas. Fica claro que existem as decisões e atitudes que visam favorecer poucos e aquelas que visam favorecer a maioria.
E falando em intenções, estas começam na mente humana, não importando se você é um ateu convicto que alega que os sentimentos são apenas reações químicas no cérebro, ou se você é um religioso que alega que tudo começa na alma. Tendo em vista que todas intenções, sentimentos e pensamentos se formam na mente, é natural que a ciência designada a estudar o pensamento, as emoções e o comportamento humano, seja a primeira a abandonar a falácia da neutralidade: A Psicologia deve ser a primeira ciência a posicionar-se contra o interesse de poucos e contra o prejuízo da maioria.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Moda - Uma "verdade" fabricada há milênios?


Moda é algo que vem e vai. Embora definida como um comportamento, ou um costume, de um determinado grupo de pessoas durante um período, a moda não pode ser apenas isto. Primeiramente, nem todo comportamento é moda. E moda também não pode ser definida simplesmente como costume, já que o costume pode perdurar inúmeras gerações como certas tradições em alguns locais do mundo…

 Também ouve-se o termo moda como sinônimo de tendência, mas isto é algo subjetivo e pouco explicativo, pois a moda requer um artigo (item) de moda, que por sua vez, é idealizado e/ou produzido por alguém. Por parte dos indivíduos que consomem ou utilizam o artigo de moda, podemos descrever o seu comportamento como “querer parecer com os outros”, ou “querer estar atualizado”. Já por parte de quem produz os artigos de moda, pode-se definir que se trata de uma imposição de opinião disputada pelos idealizadores ou produtores dos artigos em questão. Não se trata só de roupa, qualquer bem de consumo pode “se tornar” moda ou “deixar de ser” moda. 

 Talvez a maioria dos sociólogos liguem o fenômeno da moda com a era-pós moderna que começou a surgir em meados dos anos 60 e se consolidou em meados dos anos 80. Uma época de valorização da apresentação das coisas e de desvalorização dos fatos. Tanto a moda como a valorização da apresentação ante os fatos foram fenômenos que se apoiaram no desenvolvimento/ crescimento das mídias que tanto serviram o setor de propaganda e publicidade: O rádio, a televisão e todos os impressos como cartazes, outdoors, jornais, revistas etc. 

 Mas a moda parece ir além dessas mídias: Tudo ou quase tudo parece passível de ser apropriado pela moda, até mesmo coisas imateriais como a ciência e a religião. A verdadeira ciência não deveria ser afetada pela moda, assim como a fé também não deveria, mas como são temas respectivamente ligados ao raciocínio/ conhecimento e ao sentimento/ intuição, eles acabam sendo afetados também. Como exemplos imaginem as seguintes situações (baseadas em fatos reais, mas com pouca precisão): 

 Um arqueólogo após estudar as pirâmides de Gizé no Egito fotografa um ou mais símbolos no interior de um dos monumentos e chega a conclusão que tais símbolos representam o faraó Khufu que viveu por volta de dois mil e seiscentos anos antes de Cristo (2600 aC) no Egito. Anos depois, um grupo de arqueólogos estudam as mesmas pirâmides com meios (ou tecnologias) mais avançados para a leitura e identificação de pinturas e/ou de esculturas nas superfícies do local. Este grupo identifica que o símbolo encontrado pelo 1º arqueólogo foi pintado na época em que o mesmo estava a estudar as pirâmides, ou seja, não foi pintado pelo faraó nem por ninguém que viveu na época do faraó (2600 aC). A comunidade científica se dividiu, e embora eu não saiba o fim do desfecho, o fato é que se os apoiadores do 1º arqueólogo não conseguirem provar sua visão de maneira científica, ela não é verdadeiramente científica... É uma moda ou mera opinião transvestida de ciência. O mesmo pode valer para o grupo posterior de arqueólogos, caso seu método esteja errado. 

 Origens da Astrologia (e da Astronomia) 

Saindo dos campos racionais e entrando nos mais intuitivos, como no meio religioso e esotérico, também é possível encontrar modas: Tarot, astrologia e até a segmentação da religião, tudo parece passível de “se tornar moda”. 

Vejamos a astrologia: Historiadores e/ou arqueólogos dizem que é uma prática muito antiga. É possível que a astrologia tenha surgido com a necessidade que o ser humano teve de observar os céus para entender fenômenos climáticos ou até astronômicos. Esta necessidade se intensificou por volta de 5000 aC na transição da idade da pedra (em sua última fase, o neolítico) para a 1ª idade dos metais (o calcolítico ou a era do bronze), porque o ser humano passou a praticar a agricultura em algumas regiões da Terra. Alguns séculos depois (por volta de 3500 aC), o ser humano passou a utilizar navios (uma evolução das embarcações mais simples como jangadas e/ou canoas) para comercializar entre civilizações, precisando mais uma vez, desenvolver conhecimentos a partir da observação do céu e de seus fenômenos e características como ventos, nuvens, posições das estrelas etc. A astrologia se desenvolve em períodos como estes juntamente com a astronomia, pois o ser humano não fazia distinção entre estes dois campos como se faz hoje. A distinção só foi iniciada a partir da Europa em meados do século XVII, ou seja, muitos séculos depois. Alguém poderia perguntar como o ser humano não fez esta distinção antes? São coisas muito diferentes entre si! Eles eram idiotas? 

A resposta mais comum diz que os seres humanos da antiguidade eram muito supersticiosos ou até mesmo religiosos, que sempre buscavam respostas ligadas ao espiritual por não entenderem todos fenômenos da natureza. A mais realista destas afirmações é a última: Os fenômenos da natureza são descobertos pouco a pouco, através de séculos de estudo. Mas todas estas afirmações são meras opiniões, pois não existem registros históricos suficientes sobre o período do surgimento da astrologia. Na verdade mal existem registros de tal época, porque a história ainda é baseada em escritos de cada época e os escritos mais antigos conhecidos até agora pertencem a Suméria (atual Iraque), datando entre 3600 aC e 3500 aC. Ou seja, a astrologia é considerada pré-histórica, pois surgiu antes dos primeiros escritos conhecidos pela humanidade… Ao menos, antes dos antigos escritos encontrados até agora. 

Outro fato curioso é que se a astrologia surgiu junto com a astronomia, ela era um conhecimento (ou crença) de pessoas que estudavam e não de trabalhadores braçais nem de artesãos. A história nos mostra que algumas das mais antigas civilizações conhecidas eram lideradas por religiosos: Os patesis na antiga Mesopotâmia e os faraós no Egito. Entende-se que estes líderes religiosos eram pessoas com conhecimento e todo conhecimento pode ser usado como uma ferramenta de poder. Os indivíduos que dominavam a astronomia/ astrologia sabiam os “segredos” dos ciclos das estações dos anos (inverno, primavera etc) tão importantes para as plantações que alimentam um enorme número de pessoas. Eles também sabiam e possivelmente monopolizavam os conhecimentos úteis para as navegações, que ainda que fossem essencialmente “costeiras”, eram um meio de adquirir grandes riquezas e produtos diferenciados de terras distantes. 

Com todo este poder em mãos, finalmente chegamos a resposta: Os indivíduos que detinham o conhecimento da astronomia/ astrologia não eram idiotas! Mas porque eles acreditariam que as constelações e/ou os planetas interferiam na vida das pessoas? Porque tais astros determinariam até traços de personalidade das pessoas? Ninguém tem a resposta, ou se tem, é muito bem guardada e escondida. 

Tentemos traçar o trajeto da astrologia: A astrologia, juntamente com a astronomia, era conhecimento das elites da antiguidade, e esta elite era geralmente composta de religiosos: Patesis, faraós e sacerdotes detinham estes conhecimentos e ditavam as regras não só cerimoniais / religiosas como ditavam as regras sociais também. Este domínio de religiosos nas aristocracias dos maiores impérios só diminui (não cessa) com a queda do Egito e do Império (Neo) Babilônico diante o Império Persa Aquemênida. Não explicarei o que é religião aqui, mesmo porque já abordei um pouco deste assunto nesta postagem: https://nea-ekklesia.blogspot.com/search?updated-max=2020-06-05T17:18:00-03:00&max-results=7. 

A Divisão das Religiões 

Em determinados momentos da história das civilizações a religião se dividiu entre uma vertente popular, mais adequada às massas de camponeses e/ou trabalhadores sem estudo e uma vertente elitizada, muitas vezes mística / esotérica. Ainda sem tratar os possíveis motivos, vamos a alguns exemplos: É aceito que a antiga China pré imperial foi constituída de duas ou três famílias / linhagens reais (dinastias): 

Dinastia Xia (semi histórica, ou seja, os escritos sobre esta dinastia foram feitos em uma época posterior e por isso ela é aceita apenas por parte dos historiadores); 

Dinastia Shang: A 1ª dinastia com um número considerável de registros históricos; 

Dinastia Zhou: Dominada pela fragmentação do poder que gerou feudos na região. Após este período “feudal” o estado de Chin (também pronunciado Qin) foi tomando o poder até fundar a breve dinastia Chin que centralizou o poder na família real (em 221 aC), marcando o início da China imperial. 

Os personagens mais antigos do que a 1ª dinastia (Xia, de 2070 aC a 1600 aC) são predominantemente “mitológicos” e tradicionalmente um deles foi considerado não só o criador do taoísmo, como também é tido como o criador da astrologia chinesa. O registro mais antigo do Taoísmo data por volta de 350 aC, mas tradicionalmente ele é atribuído ao mítico Imperador Amarelo (que teria vivido na pré-história chinesa: de 2697 aC a 2597 aC), ou seja, mais antigo do que a 1ª dinastia semi histórica, Xia. Embora não se possa provar materialmente, isso não é impossível, pois muitas religiões foram mantidas na tradição oral (ensinada apenas por conversação) por milênios, como as que serão abordadas a seguir: 

Os principais poemas da mitologia helênica (grega) se dividem na religião órfica e na popular. Importante notar que a “mitologia” está diretamente ligada a estas religiões e possivelmente foi um termo cunhado após o declínio da civilização helênica para criticar e/ou desqualificar uma ou mais religiões politeístas. 


 Historiadores dividem a cultura helênica em 4 períodos, após a queda das civilizações minóica e micênica: 

 1100 aC - 800 aC Idade das Trevas Grega; 

 800 aC - 510 aC Idade Grega Arcaica; 

 509 aC - 323 aC Idade Grega Clássica;

 322 aC - 146 aC Período Helenístico

Diferente da religião popular grega, a religião órfica, também chamada de orfismo, traz idéias de transmigração das almas similar às idéias de Platão, aos conceitos do hinduísmo (da idade do bronze) e do Espiritismo que viria a surgir no século XIX. A religião órfica foi supostamente fundada pelo rapsodo (bardo) mitológico Orfeu, talvez na era do bronze. Orfeu era considerado próximo de um outro poeta chamado Musaios (traduzido para o português como Museu), posteriormente tido como Moisés, pelo historiador do cristianismo primitivo, Eusébio de Cesaréia que viveu no Império Romano por volta do século IV. 

Já os textos da religião popular grega foram escritos pelos poetas Homero (por volta de 850 aC) e por Hesíodo (por volta de 650 aC). Porém este período é chamado de Idade das Trevas grega pela falta de registros históricos devido a civilização local estar se recuperando de uma série de conflitos / guerras que teriam acabado com a civilização Micênica por volta de 1100 aC. 

Poucos anos depois de Hesíodo, a Idade das Trevas Gregas chega ao seu fim e começam a surgir os filósofos naturalistas (pré-socráticos, como Anaxágoras e Pitágoras) e os influenciados por Sócrates. Alguns autores afirmam que Pitágoras era iniciado nos cultos órficos, enquanto Anaxágoras (500 aC - 428 aC), de origem greco-persa, explicava os corpos celestes de maneira bastante racional para sua época, e portanto, se aproximando do conhecimento científico. Este último erudito, assim como Ermótimos (Hermótimo), também trouxe à tona o conceito de Nous: a mente cósmica. Nous foi a explicação de como os elementos da natureza foram distribuídos e organizados através do cosmo. Possivelmente esta foi uma explicação típica da Grécia Clássica, pois não era aceito (e até hoje, para muitos, ainda não é aceito) que o acaso tenha criado os corpos celestes, a natureza etc. Anaxágoras foi acusado de impiedade na Grécia e teve que fugir, passando os anos finais de sua vida em exílio numa colônia na Ásia Menor (atual Turquia). 

Sócrates teve seus ensinamentos registrados por Platão. Estes filósofos não negavam por completo as divindades, mas explicavam a natureza, consequentemente despersonificando os deuses e causando a ira de muitos indivíduos de seu tempo. Platão possivelmente pertenceu à família do importante legislador e poeta, Sólon, do início da Idade Grega Antiga. De acordo com Platão, Sólon teria aprendido a história da Atlântida no Egito e a genealogia dos deuses contada por estes estudiosos diferia das populares contadas por Homero e Hesíodo. 

Durante os anos finais de Aristóteles, aluno de Platão e tutor de Alexandre, o Grande, o hermeneuta (intérprete de obras) e escritor grego, Evêmero (330 aC - 280 aC), alegava que os deuses eram invenções ou distorções exageradas baseadas em reis da antiguidade que viveram entre a península grega, o Egito, o levante (oriente médio) e a península arábica. O lexicógrafo, mitógrafo e historiador greco-romano, Filo de Biblos (64 - 141 dC), seguia a mesma linha de Evêmero e citando outra fonte (o semi-lendário Sanconíaton que teria vivido antes da Guerra de Tróia), fez a ligação destes personagens da mitologia grega com a história sacra e real da Fenícia. Nestes escritos preservados por Eusébio de Cesaréia, eles alegam que uma geração de sacerdotes fenícios começou a espalhar os mitos posteriormente propagados por Homero, misturando a história de reis com eventos da natureza (astronômicos, climáticos etc) para encobrir a história real, detendo para seu seleto grupo o monopólio de conhecimentos como a história, a geografia, a astronomia/ astrologia etc. Por fim, o historiador e compilador, Diodoro Sículo, cita uma genealogia destes supostos reis divinizados numa disposição semelhante à proposta por Filo de Biblos. É possível notar as diferenças e semelhanças entre as duas genealogias propostas. Obviamente até mesmo a genealogia dos personagens da “mitologia grega” apresentadas pelo(s) “everismo” / “platonismo” deve ter suas inconsistências ou contradições, pois tentam remontar vários séculos de história perdida (das civilizações minóica, micênica, fenícia…) Porém a versão “popular” da mitologia grega de Homero (e possivelmente de Hesíodo também) é notoriamente cheia de exageros, pois mostra “deuses” cheios de poderes fantásticos (e não reis), com comportamentos humanos e muitas vezes violentos. 

 Mas onde entra a astrologia na civilização grega? Bom, de acordo com a versão popular, Ouranos (Urano) ou Aeon trouxe o círculo do zodíaco ao mundo ou para humanidade. Urano, “deus” dos céus, deu origem ao nome do 7º planeta do Sistema Solar e foi o pai de 12 titãs. Podem ser que existam vínculos destes 12 personagens com os 12 signos do zodíaco, mas tudo que consegui até hoje são apenas especulações. Por exemplo, o titã Hyperion é o pai de Hélios, deus do Sol. Oceanus era representado com membros/ pinças de um caranguejo na testa, o que poderia sugerir algum vínculo com a constelação de Câncer… Porém nada muito além disto. 

 

No que se refere aos registros deixados nesta época, a primeira carta astrológica conhecida da Babilônia, como satrapia (província) do Império Aquemênida, data de provavelmente 29 de abril de 410 a.C. O registro indica signos zodiacais, mas sem graus. Nesta época, filósofos gregos travavam contato com os babilônios; Pitágoras e Platão são alguns dos exemplos. O confronto cultural entre o pensamento helênico, que queria saber o porquê das coisas, e a tradição intelectual da região mesopotâmica, que se importava mais no como as coisas são feitas, alavancou a criação de uma explicação filosófica e matemática sobre o universo, o mundo natural. A filosofia estóica de Zeno, somada à teoria dos 4 elementos de Empédocles e mais tarde à teoria dos Humores de Hipócrates forneceu as bases da astrologia alexandrina. 

Enfim, é possível que estas cisões que ocorreram nas antigas religiões chinesa e grega tenham sido causadas para distrair a população (leiga) em geral, fazendo com que as elites religiosas mantivessem o monopólio das informações. Importante notar que a astrologia continuava vinculada à astronomia, mesmo com a cisões entre religiões... 

Astrologia: Conhecimento, Crença Religiosa ou Prática Divinatória? 

Enfim, os filósofos gregos estudaram a astrologia juntamente com a astronomia e embora refutassem/ questionassem alguns aspectos da mitologia (a religião popular politeísta), não negavam por completo o conceito de divindade tão central nas religiões. Após a gradual queda do império helênico macedônico, alguns vínculos entre a religião politeísta e a astrologia ficam nítidos no Império Romano: No panteão romano, muitos dos deuses recebem nomes de astros/ planetas e são tratados como equivalentes de alguns deuses gregos: Hélios é Sol Invictus, Hermes é Mercúrio, Afrodite (ou Astarte) é Vênus, Gaia é Terra, Selene é Luna (Lua), Ares é Marte, Zeus (Adodus de acordo com Filo de Biblos) é Júpiter e Kronos é Saturno. Os seguintes planetas não podem ser vistos a olho nu e provavelmente não eram conhecidos: Urano, Netuno e Plutão. Entende-se que estes planetas foram “descobertos” com o gradual desenvolvimento das ciências entre os séculos 18 e 20, então a comparação destes astros com  deuses (respectivamente Caelus, Poseidon e Hades) deve ter sido desenvolvida neste período "bem menos antigo". 

De acordo com Platão, Sócrates, em diálogo com Adimanto, afirma que o Sol pode ser considerado o filho do Bem e que o astro está para a vida como o Bem está para as coisas cognoscíveis (se referindo aos aspectos mentais, como o conhecimento etc) Talvez esta exaltação do Sol pelos filósofos socráticos tenha alguma relação com o mitraísmo que adentra o Império Romano 4 ou 5 séculos depois. Uma época em que Sol Invictus (Hélios) viria a substituir Júpiter (Zeus) como “deus” principal do panteão. Conforme descrito nos Anais do historiador e senador romano Tácito, em Roma a astrologia era consultada pelo povo e por reis e rainhas, inclusive o Imperador Augusto cunhou moedas com o seu signo. E Tibério estudava o mapa astrológico dos seus rivais. Cláudio, porém, expulsou os astrólogos da península itálica. 

Porém, com o colapso do Império Romano do Ocidente devido às disputas internas e às invasões de diversas tribos “bárbaras”, a astrologia foi perdendo força. A doutrina cristã do priscilianismo, que surgiu na península ibérica cerca de um século antes da queda do Império Romano (do Ocidente), aceitava a astrologia, mas acabou suprimida pela igreja católica por volta do ano 563 dC, após o Concílio de Braga. A igreja católica continuou a crescer em opulência e poder na Europa e só começou a dar abertura ao estudo e às práticas da astrologia/ astronomia por volta de 1200 dC. Durante estes quase 700 anos de domínio católico na Europa, a astrologia teria sobrevivido nos reinos árabes, portanto entende-se que a igreja católica, e consequentemente os países europeus, romperam com a astrologia durante este longo período… 

A Astrologia Ocidental após a Era Medieval 

Na renascença os astrônomos ainda não descartaram astrologia que já não estava mais vinculada à religião. Cerca de 2 séculos depois, após a revolução científica da Europa (por volta de 1620 dC), a astrologia estava predominantemente desacreditada e começava a se formar o movimento Iluminista que se consolidava no século seguinte (XVIII). Considera-se que a separação entre astronomia e astrologia ocorreu em Paris, em 1666 quando Jean-Baptiste Colbert, ministro do rei Luís XIV, criou a Academia de Ciências e deixou a astrologia de fora. Outros países católicos acabaram aderindo ao descrédito. Apesar das primeiras revistas começarem a ser produzidas na Europa neste mesmo século, a astrologia só viria a se tornar popular novamente séculos depois, no século XX. Por volta de 1950, podemos encontrar algumas obras que tratam do assunto com o linguajar voltado à vida pessoal dos típicos cidadãos das “classes médias” da América. Nesta época a indústria cultural estava em desenvolvimento já avançado e logo surgiram os horóscopos em revistas e programas televisivos de fofocas nos anos 80. Fãs de astrologia “clichê” (talvez um termo mais adequado seja “fãs superficiais”?) pareciam esperar descobrir maravilhas através da astrologia: Um grande amor ou até mesmo maneiras de enriquecer. 

Na década de 10 do século seguinte (XXI) a astrologia começa virar moda mais uma vez. E muitos dos interessados não parecem diferentes daqueles fãs “astrólogos”, sejam os mais comuns/ superficiais ou os mais “místicos”. A astrologia parece ser mantida separada da maioria dos sistemas religiosos, exceto por alguns grupos restritos como os “herméticos”… Mas porque isto ocorre? 

Bom, ao menos desde o Império Macedônico-Helenista de Alexandre, o Grande, a astrologia é usada para “descobrir” (talvez o termo mais correto seja deduzir) o futuro… De pessoas específicas. Alguns registros indicam que essas práticas começaram nos reinos mesopotâmicos (oriente médio), como a Babilônia, séculos antes. Apesar de elementos nítidos da astrologia serem vinculados a um conceito de unidade superior ou de divindade, como indicam as religiões/ sistemas sincréticos como o hermetismo / o judaísmo místico, parece que muita gente não se importa com isso. Todos esses temas chamados de místicos, todos os sistemas astrológicos e até mesmo os sistemas religiosos sincréticos, parecem atrair gente querendo resolver seus próprios problemas, ou esperando obter grandes vantagens em vida… Assim como existem aqueles que, vêem no Espiritismo um meio de adivinhação e imaginam que os Espíritos existem para predizer a sorte de cada um. É claro existem pessoas humildes, empáticas ou até mesmo com consciência social, que se interessam nestes temas. Porém o 1º grupo de pessoas (de gente mais ambiciosa, vaidosa e/ou egoísta) parece ignorar ou até mesmo contradizer os conceitos de unidade na astrologia. 

A astrologia afirma que todos os signos têm características boas e ruins. Nenhuma das características boas se refere ao enriquecer ou tirar vantagens sobre o próximo… E mesmo assim os interesseiros, os deslumbrados e até os egoístas “espiritualizados ou místicos” parecem delirar com seus conceitos. Como dito no começo do texto, a moda parece com um costume, mas geralmente trata um “artigo vendido” e um bando de indivíduos deslumbrados por este artigo… 

 Conclusão... Ou mais perguntas.

O texto foi centrado na astrologia, não só por esta voltar a “se tornar moda” recentemente, mas também porque a astrologia passou pelas religiões antigas e até mesmo pelas ciências (astronomia) através dos séculos. Embora o texto não se aprofunde nos temas religião e ciências, pode-se ver que a produção de “verdades” para enganar e deslumbrar pessoas existiu e existe em todos esses campos, possivelmente desde antes da própria história da humanidade. Estas “verdades” inventadas deslumbraram e manipularam inúmeras pessoas por determinados períodos, indo e voltando com roupagens diferentes ao longo da história, muitas vezes determinando não só crenças, como também costumes e comportamentos… Enfim, a proposta aqui não é fazer críticas destrutivas à astrologia, à religião ou à ciência… É mais uma crítica à moda e uma pergunta se esta não é uma mera invenção para beneficiar um pequeno número de pessoas que manipula um grande número de pessoas… Poderia uma pessoa ingênua e/ou sem conhecimento produzir uma verdade para as massas? A invenção de uns poucos iletrados também seria capaz de virar um artigo de moda? E se virasse um destes artigos… Não surgiria alguém mais esperto ou mais influente para usar isto em seu favor? 

Isto pode ser assunto para outro texto.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Ideologias e seus Impactos no Brasil de 2015 a 2018

 

 Este texto é uma adaptação de meus "comentários" nas redes sociais entre os anos de 2015 e 2018

Etimologia na Economia e na Política 

Vamos considerar que o povo está interessado em entender e esclarecer sobre política e ninguém está simplesmente querendo provar que está certo sem dar o braço a torcer... Não é preciso especialização, só linguagem clara, ou seja o uso da etimologia das palavras, para explicar de modo resumido: 

Liberal-Ismo: Doutrina (centrada) na liberdade, principalmente a liberdade de comércio. 

Esta doutrina ganhou força ao se contrapor às monarquias no final do século XVIII (18), prometendo maior liberdade ao “povo”, mas favorecendo os comerciantes mais enriquecidos, é claro. O liberalismo não definiu onde acaba a liberdade dos comerciantes e empresários bem sucedidos, mas supondo que não foi um movimento extremista, o liberalismo deveria prezar pela concorrência de mercado clara e justa, sem oligopólios, respeitando leis comerciais, ambientais etc. Porém não foi o que aconteceu: a colonização escravagista seguida pela industrialização apoiada em mão de obra barata gerou uma desigualdade social onde os poucos mais ricos juntaram quantidades de riquezas suficientes para sustentar milhares de famílias por várias décadas, talvez por um ou dois séculos. Já os mais pobres neste sistema, além de não terem renda para viver com dignidade, cresceram muito em número. Resumidamente, seus maiores apoiadores foram a Inglaterra, os EUA e países "aliados", desde o fim do século XVIII até o fim da guerra fria no século XX (20). 

Social-Ismo: Doutrina (centrada) na sociedade, resumidamente em um estado ou nação. 

Este movimento político/ filosofia foi ganhando força no final do século XIX (19), mas só se consolidou no século XX. Seus apoiadores eram críticos do liberalismo que havia fomentado tanta desigualdade e miséria, beneficiando apenas pequenas parcelas do setor privado. 

O que aconteceu em muitos países que adotaram este sistema (como a URSS), foi que os representantes da nação se comprometeram de "achatar a economia", ao menos em partes através de estatizações, fornecendo uma "infla" estrutura que falhou por uma série de motivos. Houveram casos de incompetência de gestão pública, mas o fator principal foi a concentração de poder nos "representantes do povo" que obviamente corrompeu o estado. Este sistema concorreu com o liberalismo desde 1946 até 1991, quando foi derrotado pela doutrina (neo) liberal com o fim da guerra fria e a dissolução da URSS. 

Comun-Ismo: Doutrina (centrada) no bem comum, ou seja, maior equidade / igualdade de poder além (acima) do conceito de estado/nação. Uma utopia, a qual os países mais próximos disto são alguns dos sociais democratas onde a diferença de renda é mínima. O comunismo nunca foi implementado em país algum. 

Neo Liberalismo: Liberalismo "novo", incentivado entre os anos de 1986 e 1991, pelas instituições financeiras e corporações que não quiseram perder suas fortunas : O neoliberalismo passou a propor que os governos investissem cada vez menos nas estruturas básicas (infraestrutura) de suas nações. Alegando que todo governo é corrupto, que todo setor público é ineficaz, e maliciosamente chamando investimento em infraestrutura de "gastos públicos", o neoliberalismo propôs financiar diversos setores e ações, objetivando lucro ao setor privado composto por corporações/ grandes empresas multinacionais. 

Em prática, neoliberalismo é o "Capital-Ismo" sem regulação, ou seja, selvagem. Mesmo porque, etimologicamente o capitalismo é a doutrina do capital, onde quem tem mais dinheiro ou mais recursos, tem mais poder: "Sugere" leis (lobby), "financia" (compra) políticos e prega para que todos busquem seu próprio acúmulo de capital (meritocracia). 

Porém dinheiro não é produzido infinitamente para alegria de todos, pois há o lastro. E aqueles que realmente se beneficiam deste sistema não querem acabar com o lastro, é óbvio... 

Invenções Repetidas 

No século XII a.C (12 antes de Cristo), após as guerras que causaram a destruição dos registros das relações reais e religiosas e do sistema comercial em torno do Mar Mediterrâneo e do Levante, alguns poetas gregos simplificaram e distorceram a história das civilizações (micênica, hitita, cananéia etc), digamos que, de certo modo, criando a mitologia: Os "deuses" impulsivos traiam, matavam, enganavam, mas gostavam dos mortais. Mortais que passaram a venerar esses "heróis". Já os titãs, os gigantes e feras monstruosas eram responsáveis por tudo de ruim que acontecia no mundo. 

A história se repete e os mais ambiciosos e corruptores continuam evitando mostrar suas faces. Só inventam heróis e vilões. Embora exista a tendência das pessoas praticarem o "culto às personalidades" (idolatrar famosos), na política do Brasil é muito mais comum inventar super-vilões: De tempos em tempos pegar um ou outro indivíduo (geralmente político) e culpá-lo por tudo o que acontece de ruim no país. Isto faz parte do discurso anti-política, que acaba sendo anti democrático também. Tal discurso só favorece quem tem mais poder, geralmente poder econômico (dinheiro, bofunfa, grana...) 

O brasileiro médio (que ganha um salário mínimo) têm que trabalhar, cuidar da família, pagar impostos e cumprir com suas obrigações cívicas, então tempo para fazer política, se instruir e para participar de debates, não têm. 

Os típicos brasileiros acordam cedo, se espremem suados em péssimas conduções públicas, se alimentam mal e chegam a altas horas da noite da labuta diária, para, depois, serem chamados de vagabundos por escravagistas endinheirados, meganhas, bandidos ou governantes que não lhes permitem aposentar. 

O que entrou no governo pós 2015? 

Durante o governo federal mais"esquerdista" (petista) a tomar posse no Brasil, o país ficou com rabo preso ao oligopólio financeiro, (BB, CEF, Bradesco, Itaú/Unibanco, Santander e mais um banco gringo que não me lembro agora) através de uma dívida pública exorbitante. 

Um governo socialista, popularmente chamado de esquerdista e erroneamente chamado de comunista, jamais se sujeitaria a tal situação, então os governos petistas foram no máximo de centro-esquerda, devido a algumas iniciativas sociais (bolsa-família, PROUNI etc). 

Meses antes do show "evangélico" (o impedimento, ou "impeachment", de Dilma Rousseff do PT, o Partido dos Trabalhadores), regado por frases do tipo: "Por Deus, pela família" e blablablá), a líder petista, já discursava a favor do mercado. 

Mas era muito tarde para Dilma se curvar diante "o mercado" e a presidência do Brasil foi assumida por um senhor claramente oportunista do "Partido do Movimento Democrático Brasileiro": Michel Temer guinou o país a direita, chegando a falar abertamente em algumas entrevistas que o PT foi removido do poder através de um golpe porque não aceitou a agenda privatizadora e anti infraestrutura solicitada por certos setores privados, como a Chevron, entre outras grandes empresas. 

O PMDB, um partido que praticamente age como bancada de negócios, fez o previsto: Deixou de arrecadar impostos dos grandes empresários multimilionários, sucateando a infraestrutura do Brasil. Afinal o que esperar desse povo pró oligopólio, pró obscurantismo? 

Retrospectiva "Temerosa"

Uma famosa emissora de televisão pertencente a uma tal família Marinho, fez a seguinte Retrospectiva da virada de 2017 para 2018: 

"12 milhões de desempregados, o governo atual (Temer - PMDB) aumentou os gastos e arrecadou menos impostos deixando os cofres públicos vazios" 

E a pérola contraditória em seguida: "... a gastança dos anos anteriores (Dilma - PT?) foi que deixou o país em crise". Assim seguiu a desinformação em massa: Deu a entender que apesar dos erros grosseiros e da corrupção do presidente Temer, o super vilão inventado pela Globo foi a Dilma e/ou o Lula, que presidiram o Brasil antes do PMDBista. 

MBL: Movimento "Brasil Livre" - Livre de que? 

 Integrantes do MBL saíram em fotografias apoiando políticos como Eduardo Cunha e Bolsonaro (que parece uma terrível mescla de Bozo com Nero). Suspeito de uma série de crimes, Cunha foi preso em 2016, então o MBL "descobriu" que o cara era corrupto até o osso... 

O MBL apoiou a posse do Temer e quando descobriram em 2018 que o ex-vice estava atolado em esquemas fraudulentos, passaram a fingir que eram neutros. 

O MBL fez eventos com Gilmar Mendes, que defendeu o suspeito Aécio Neves (PSDB) até cansar e posicionou-se contra a bombástica delação da Odebretch... 

Como acreditar que o MBL é um movimento pelo BEM do Brasil? Para mim é impossível.

O Movimento Brasil Livre (MBL), deveria mudar seu nome de acordo com seus ideais: É um movimento de indivíduos de classe média alta que abominam as causas sociais, desprezam a infraestrutura do Brasil e seguem interessados em ganhar poder e influência na política. Para isso espalham mentiras sobre seus desafetos políticos, tentando esconder o fato que eles também se envolvem em esquemas de fraude e corrupção. Poderia se chamar Movimento Boataria Livre ou um nome mais feio, representando seu envolvimento em "sujeira" (fraudes, falsidade ideológica, propaganda enganosa, crimes etc). 

Lado na Política 

 Acabei de mostrar que o discurso antipolítica tem um lado - sempre serve a alguém. E este alguém não é a maioria: se refere a uma minoria detentora de um poder não político, ou seja, o poder econômico, o poder religioso e o poder militar. Isto não ocorre só no Brasil, pois também acontece em outros países, como nos EUA, onde o candidato republicano (de direita) Donald Trump venceu as eleições com discursos racistas que jogavam a culpa dos problemas dos EUA em latino americanos e em muçulmanos. 

Portanto quem grita "foda-se a política" elege Trump e quem acredita em conspiração "latina-comunista" também elege Trump sim, caros leitores! Quando as pessoas destroem o centro e a esquerda sobra somente a direita hiper capitalista, ignorante, xenófoba e antipolítica. 

Instituição Anti Infraestrutura 

Durante o governo Temer, propagandas mentirosas de teor anti-político circularam livremente pela internet: "Se você é contra o limite de verba para infraestrutura, você é contra o Brasil." 

Isto é a tradução da estranha petição da Empiricus que espalhou-se da Folha de São Paulo ao Facebook. Como já mencionei, os grandes empresários multimilionários e seus apoiadores e porta-vozes, chamam verbas para infraestrutura de "gastos públicos". Foi assim que o neoliberalismo pregou a austeridade, destruindo transportes públicos. sucateando instituições de saúde e ensino gratuitos e até mesmo desfazendo setores de segurança pública em variados países pelo mundo, desde o início dos anos 90. 

Valentia um tanto Covarde 

Embora o termo valente seja usado para definir uma pessoa corajosa, o mesmo não se aplica ao termo "valentão". Este termo está mais próximo da palavra inglesa "bully". O valentão não é uma pessoa corajosa: É o que gosta de agredir os outros. 

Este tipo de pessoa é comum de se encontrar, e existem inúmeros relatos sobre eles principalmente em escolas. Na verdade o valentão está mais para covardão: é o típico cara fortão que sai procurando brigar com o mais fraco, ou pode ser aquele cara que se junta com outros para agredir alguém que está sozinho. 

Posso dizer que tenho a experiência empírica em ser alvo deste tipo de gente, como por exemplo, lembro-me que quando eu estudava na 5ª ou na 6ª série do ensino fundamental, dois caras se juntaram e foram me socando por um quarteirão todo. Aquilo ficou na minha mente por alguns anos e obviamente é uma situação em que nos sentimos indefesos, impotentes e forçosamente humilhados. 

Além do ambiente escolar, onde este tipo de valentão pode prosperar na sociedade? Viver com oportunidades para provocar, humilhar e agredir os outros exigem um ambiente onde a paz não seja bem vinda, ou exige um ambiente onde o confronto seja comum - Ou o cara entra no "mundo" do crime, ou na polícia, ou no exército. 

Não há espaço para um valentão nas áreas práticas (profissionais) de humanas, sequer nas biológicas ou nas exatas. O valentão não vai se satisfazer construindo, nem estudando, afinal ele precisa mostrar que é melhor que alguém, agredir alguém, ou ambas as coisas. 

Daí o porquê é tão comum vermos casos de violência policial e notícias sobre criminosos violentos. Daí o porquê um cara que odeia estudar, odeia negros, odeia mulheres, odeia o público LGBT e que fala em metralhar os outros, ganha as eleições. Em 2018, muita gente achou que estava votando em um capitão que ia "por o Brasil nos eixos" na base da valentia. Como um grosseiro e bizarro herói - anti-herói. 

Essa "valentia" vem da formação da pessoa. Independente se você acredita em personalidade ou não, o fato é que a criação e a vivência das pessoas essencialmente determinam padrões de comportamentos. O comportamento valentão foi cultivado por décadas, ou talvez, durante séculos, seja no Brasil, ou em outros países. O fato é que no Brasil, este é o comportamento adorado e propagado em certos ambientes e "tribos sociais", como fazendeiros, homens do interior, em cursos superiores elitizados como medicina, engenharia e direito, em quartéis, na polícia, no tráfico etc. 

Pouco ou nada foi feito para combater este "ensino" torpe que se propagou por diversos setores da sociedade... Até que em 2018 colhemos o fruto podre no Brasil. 

Conclusão 

É possível combater o elitismo e o culto à violência... com mais violência? 

Não faz sentido. A direita que sempre serviu o elitismo está no poder brasileiro desde 2015 (fora governos anteriores ao Lula etc). Não houve melhoria alguma desde então. Eles se apoiam em falácias e têm o apoio da mídia e do poder militar. As críticas feitas ao governo Bolsonaro, por mídias como a rede Globo, são meras cortinas de fumaça. Enquanto SBT e Record apoiam abertamente a demolição da infraestrutura e os discursos brucutus de valentia do governo "Bozo-nero", a Globo apenas tenta abraçar as causas identidárias, fingindo uma aliança anti governo. 

É preciso paciência para instruir quem ainda quer entender e melhorar o país... e é preciso militância sim, seja pró infraestrutura, ou a favor dos mais vulneráveis. Mas é preciso união entre estes setores. Pode parecer coisa de uma "esquerda florida", mas não é tempo de generalizações: Não deve-se odiar todos religiosos porque alguns apoiam o governo bozo-nero. Não é útil criticar o movimento anti-racista só porque alguns negros enriqueceram e vivem "entre as elites". É preciso identificar aliados potenciais interessados em humanizar o país e dar condições dignas à sociedade, buscando união, afinal sectarismo e segmentação só servem aos gananciosos e a quem já está em posição de oprimir.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A Mente e a Amplitude das Relações Biopsicossociais


Alguns estudiosos já tentaram entender e até localizar a mente ou a alma no corpo (e talvez no cosmos) diversas vezes ao longo da história. Aqui serão citadas brevemente apenas quatro tentativas de descrever os conceitos de mente e/ou alma: 

 1. A Psiquê (Alma) na Filosofia Socrática

O filósofo Platão (428 aC - 347 aC), baseando-se nos filósofos naturalistas helênicos (Parmênides, Anaxágoras, Pitágoras...) e em grande parte no ensino oral de seu mestre Sócrates, classificou a mente humana (a psiquê, geralmente traduzida como alma) em mente inferior, intermediária e superior. A inferior é constituída pelo desejo de prazer e de saciar necessidades. É dominada pela voracidade, paixão sexual, incontinência, etc. A superior é formada pela busca do conhecimento, da verdade, e pela busca por algo maior, pelo Bem, imutável e uno, como Deus. Entre esses 2 elementos da alma, o filósofo classificou um meio campo. Este meio termo seria composto de um elemento emocional/ sentimental (thymo e palavras oriundas desta), mas também parece relacionado a um estado de repouso da mente, onde alguém tomado pelos sentimentos da mente inferior encontra alívio ao saciar alguma necessidade ou desejo. Porém se este alguém não busca por conhecimento, ou pela verdadeira beleza, que está relacionada ao bem e a Deus (Theos), ele tende a cair novamente no sofrimento tipicamente gerado pelos desejos da mente inferior. Por outro lado um estudioso que busque pela verdade e pelos valores universais (a ética, pauta central da construção de conhecimento, de acordo com Platão) que se deixasse cair no estado de repouso, seja por ter seus estudos rejeitados, ou por ser impedido de estudar ou compartilhar seus estudos, poderia "cair" no estado intermediário que por ser sentimental/ emocional, é mais volátil. Deste estado ele talvez ficasse vulnerável aos desejos ardentes da mente inferior. 

É interessante notar que a busca pelo Bem através das ciências (epistemes) citada por Platão e atribuída à Sócrates, também incluia a busca pela relação entre estas áreas de estudo (no caso a Astronomia naquela época vinculada com a astrologia, a Matemática, a Geometria e a Música). 

Platão e Aristóteles no centro da pintura "A escola de Atenas" de Rafael

2. A Alma Asteca 

Os astecas (provavelmente sacerdotes, antes da invasão espanhola das Américas) separavam a alma em três partes vinculadas ao corpo: 

Fígado: Ihiyotl é ar/vento noturno, hálito, respiração, uma substância maligna, gás luminoso, cheiros, mas também uma fonte de energia e sustento. O fígado é o domínio das paixões - mais distante do conhecimento racional (na cabeça) e como tantas entidades mesoamericanas, o ihiyotl tem o poder tanto de encantar e trazer saúde quanto de causar danos; À medida que a fala, a respiração se torna uma força poderosa e Ihiyotl podia se tornar visível na forma de luzes de cadáveres ou bioluminescência, talvez do metano resultante da decomposição orgânica - um fenômeno comum, particularmente em áreas pantanosas e perto das margens de lagos, semelhante ao "fogo-fátuo" europeu. 

Coração: Teyoliaa alma/espírito de alguém, que deixa o coração na morte e vai para o próximo mundo. Em sua raiz está a palavra náuatle yollotl ou coração; É o centro dos sentimentos e emoções que nunca deixa o coração durante a vida de uma pessoa; ‘Não apenas a sede da alma, mas também o locus da identidade humana, talento e esforço’ e está sujeito a mudanças: de fora (do clima, ofensas cometidas, magia, escravidão...) e de dentro (faculdades mentais, raiva, pecados...)

Cabeça: Tonalli, o nome, a sombra, o destino e a consciência de alguém, a força de vontade e inteligência que moldam o caráter, o duplo do corpo. O mais importante das três em termos de ser o mecanismo pelo qual os deuses e os humanos realizam suas ações no mundo; Na língua náuatle, a palavra significa irradiar, "aquecer com o sol"; Acredita-se que seja derivado da divindade Ometeotl. O tonalli envia as almas para seu lugar de descanso final, por meio do fogo, o que pode quebrar a barreira entre os mundos humano e divino.

As partes inferiores talvez tenham sido concebidas por causa da percepção de efeitos psicossomáticos: O nervosismo intenso pode gerar dores de estômago, uma grande frustração sentimental ou decepção amorosa (correspondência afetiva) causa dores no peito etc. A parte superior era chamada de tonali e parecia estar ligada ao conceito de mediunidade. Era onde se conseguia o verdadeiro livre arbítrio, mas onde se ficava vulnerável aos espíritos maus e bons. 

 3. A Alma conforme o Espiritismo 

Em meados do século 19, o pedagogo e tradutor francês, Allan Kardec (1804-1869), passou a estudar os fenômenos das "mesas girantes", entre outros fenômenos da época, e fez a pergunta a um espírito (para os céticos, as respostas fôram dadas pela jovem, classificada como médium pelos espíritas): "É certo dizer que os Espíritos são imateriais?” e obteve a seguinte resposta: 

— "Como podemos definir uma coisa, quando não dispomos dos termos de comparação e usamos uma linguagem insuficiente? Um cego de nascença pode definir a luz? Imaterial não é o termo apropriado; incorpóreo, seria mais exato; pois deves compreender que, sendo uma criação, o Espírito deve ser alguma coisa. É uma matéria quintessenciada, para a qual não dispondes de analogias, e tão eterizada que não pode ser percebida pelos vossos sentidos." 

A relação entre alma e corpo seria feita por um "elemento" o qual Kardec denominou de "perispírito". Porém em sua época não haviam avanços tecnológicos nem científicos suficientes para se aprofundar em tal estudo e algumas especulações adicionais sobre o assunto foram feitas no Guide des médiums et des évocateurs e nas Revue spirite/ journal d'etudes psychologiques

 

Retrato de Hippolyte Léon D. Rivail (Allan Kardec)

4. A Mente após o Iluminismo 

 Após o desenvolvimento das ciências e da psiquiatria no século 18, parece que a ideia de alma começou a ser rejeitada. Com o surgimento da psicologia e da psicanálise no século 19, isto foi deixado mais de lado ainda. O neurologista austríaco, Sigmund Freud (1856-1936), revolucionou a psiquiatria (que parecia bem deficiente até então) e a psicologia que ainda era muito incipiente. Alguns dos principais elementos de sua teoria é a divisão da mente em três níveis: 

Id.: Parte mais inconsciente e instintiva da mente. Onde surgem os desejos primitivos, como de reprodução (libido, pulsão sexual) e a pulsão de morte. Este último está ligado ao desejo de eliminar um rival ou obstáculo de maneira mais rudimentar possível, ou seja, através da violência, matança etc. 

Ego: O “eu”. Constituído das relações, ou de uma média, das pulsões do Id com o Super Ego; 

Super Ego: A parte mais externa da mente seria um tipo de camada empenhada em proteger , ou até mesmo reprimir, a mente. Seria a parte da mente onde surgem a moral, os tabus adquiridos no convívio familiar e/ou social, as normas sociais etc. 

Depois de Freud, Jung elaborou uma visão mais ampla da mente, Skinner negou a existência de qualquer coisa (mental) além do sistema nervoso e os psicólogos fenomenólogos e cognitivistas de modo geral deixaram a questão em aberto, com a diferença que estes últimos deram ênfase numa visão racionalista. Mas não me aprofundarei nestas linhas da psicologia para não me delongar no que entendo por "mente".

                                                                    Fotografia de Freud, criador da Psicanálise

5. Opiniões sobre a Extensão Mental 

Baseando-se nestas teorias da mente (ou alma, a diferença parece apenas de nomenclatura) e nas descrições sobre alma e espírito anotadas por Allan Kardec, eu tendo a crer numa estrutura superficial mais próxima da filosofia de Platão e de Kardec, com alguma verdade na teoria asteca devido a algumas experiências particulares que tive. Porém os estudos de Freud, baseados em tudo o que ele conseguiu observar e registrar, também indicam algum fundamento para se entender a mentalidade humana. 

No texto Mal Estar da Civilização, Freud tenta entender o sentimento oceânico descrito por seu amigo religioso. Porém extremamente racional e cético, Freud apenas consegue se aproximar em parte do que é tal sentimento. Seu amigo descreve que é como se sentir parte de algo muito maior, de um todo. Tal descrição se aproxima um pouco da mente superior de Sócrates, e pelo teor religioso, pode se considerar que também se aproxima (nem que seja sutilmente) do conceito de tonalli da religião asteca. Freud aparentemente acerta ao constatar que o sentimento de pertencer a alguém além de si mesmo está presente no bebê recém-nascido. Ele observa que o bebê só vai aprendendo o conceito de indivíduo (Eu) com mais idade, entre os 2 e 3 anos. Freud traça uma relação da Psicose com a falta de ver/ perceber os outros indivíduos, oriunda de uma retenção significante do "ego primitivo" ou do sentimento oceânico... De acordo com o psicanalista, reter estes "sentimentos" resultariam na ausência de limites e da ligação com o todo. Esta retenção incluiria um tipo de cisão onde parte do ego desenvolve-se e outra parte (de impulsos instintivos) permanece sem "limites", vendo outros como parte de si. Porém a seguir, Freud dá exemplos destes conceitos em animais: Considerando os répteis como formas de vida mais primitivas do que os mamíferos, ele afirma que os primeiros seres têm mais a ausência de limites (do eu), enquanto os mamíferos, por fatores claros seriam mais parecidos com os seres humanos ("normais", com ego mais desenvolvido ou "não psicopatas"). A semelhança entre o sentimento oceânico e a religiosidade (no sentido de espiritualidade, de religar-se com algo além, algo superior, ou com o todo etc) é perceptível como descrito nos textos. Porém há uma contradição no desenvolvimento de Freud: Os répteis de fato parecem ter pouco discernimento de outros seres se comparados com os mamíferos (ser humano incluso, é claro). Os répteis não trocam carícias, não brincam quando filhotes e seus progenitores nem sequer cuidam dos filhotes, como os mamíferos fazem. Esta falta de percepção do próximo é como a falta de empatia: Nem os répteis nem os psicopatas sentem pelos outros. Eles não percebem os outros (ou tudo) como parte de si, mas sim como objetos, ou talvez como seres irrelevantes, a serem utilizados ou descartados / ignorados. Portanto a ausência de limites é distinta ao sentimento oceânico e ao "religar-se" da religiosidade. No caso dos seres humanos a frustração em excesso ou a falta de correspondência (de um relacionamento) talvez possa gerar uma ausência de limites formada por rancor, desejo reprimido, vingança, mas não é o sentir tudo como parte de si, nem sentir o próximo como parte de si. Portanto minha constatação é que a psicopatia de fato, parece presente nos répteis, mas não nos bebês e crianças até os 2 anos de idade. A psicopatia torna a percepção do “outro” turva, mas não como parte do “Eu”. A percepção do psicopata é que o outro é pouco ou nada significante, talvez até um objeto, enquanto o sentimento oceânico de pertencer ao todo, ou a algo maior, está mais para o sentimento do bebê de ver a mãe como parte de si e para o religioso que vê todos como parte de si e talvez como parte de Deus também. 

Outro ponto digno de nota é que nos textos do psicanalista (Freud), a Cultura surge como regras de relacionamento entre pessoas, portanto delimitando o "eu" (Ego de cada indivíduo). Isto pode ser considerado próximo do estado de repouso da alma, ou o estado intermediário da mente, de acordo com Sócrates. As regras sociais servem para reprimir ou controlar tanto as pulsões de vida como as pulsões de morte. Controla o desejo de sexo/ reprodução e o desejo de eliminar (matar ou ferir de modo incapacitante) um competidor ou inimigo. 

  6. A Importância da Boa Relação com o Exterior 

Mesmo na natureza há exemplos de elementos internos de um determinado sistema relacionando-se com os elementos de um outro sistema: isto pode ser visto não apenas nos biomas do planeta Terra, mas até mesmo na “estrutura” que compõe toda “matéria”: Os átomos. 

Os átomos foram considerados a menor partícula da matéria por algum tempo. Sua estrutura é composta por um núcleo formado por prótons e nêutrons (cargas positivas e neutras) e este núcleo é cercado por uma "nuvem" de elétrons (cargas negativas). Porém há um vasto espaço "vazio" entre o núcleo e os elétrons, sendo que estes últimos curiosamente podem possuir propriedades muito incomuns; Há quem diga que os elétrons não se movem nem ficam parados e isto possivelmente tem relação com o princípio da complementaridade que afirma que os objetos quânticos têm propriedades contraditórias,  mas necessárias que não podem ser medidas simultaneamente (como partícula e onda). Há também estudos que mostram a existência de partículas sem massa, como os fótons. Enfim, não conheço os detalhes da física nem da química, mas se me recordo corretamente, na época de tais descobertas (1ª metade do séc 20), surge a teoria de que toda matéria é formada por relações (entre as cargas e com seu exterior) e estas relações são classificadas em 3 tipos: 

Relações de mudança;

Relações de repetições / padrões; 

Relações de transcendência (ir além de si mesmo, expandir-se). 

Se não há relacionamento ou se os relacionamentos estão frágeis por algum motivo, as estruturas não se sustentam. Esta observação talvez teórica ou filosófica, deve servir para uma estrutura biológica, social ou molecular: ao menos isto é verificável nos átomos estudados pela física, nos ecossistemas estudados pela biologia e até mesmo nas relações humanas estudadas pelas ciências sociais como a sociologia e a psicologia. 

 7. O Não-Relacionamento nas Ciências Sociais 

Como se dá a impotência de um ser humano se relacionar com os demais? Ou como ocorre o impedimento de sua relação com outros seres humanos? 

Podemos analisar casos que ocorrem em nossa sociedade ocidental, ou mais especificamente, (pan)americana, nesta virada da 1ª década para 2ª década do século 21 (XXI). 

De um modo geral, vivemos em uma sociedade centrada no consumo e no dinheiro. Apesar de alguns anos de busca por um bem estar social e vagas tentativas de frear a desigualdade social e a devastação do meio ambiente, há um evidente descontrole das relações comerciais nas nações americanas. A fiscalização das relações comerciais em prática é inexistente: Atividades e até mesmo leis claramente nocivas para a maioria dos seres humanos seguem norteando as relações: Paraísos fiscais que existem claramente para beneficiar grupos que enriqueceram de maneira ilícita, ou seja, criminosa, continuam a existir por décadas a fio e oligopólios e monopólios surgem independentes das divisões políticas do globo, ignorando leis e beneficiando poucos acionistas e empresários bilionários. Este descontrole das relações comerciais está entre os maiores causadores de danos ambientais e sociais. Ele alimenta o orgulho de poucos indivíduos que mantém em seu poder particular recursos suficientes para sustentar milhões de outros seres do planeta Terra. Reter a maioria esmagadora dos recursos nas mãos de poucos é dificultar ou impedir as expressões e as relações expansivas/ externas da maioria. É impedir as relações destes indivíduos empobrecidos com o meio socioambiental e com grupos além de seus próximos. 

  8. O Orgulho: Um sentimento obscuro 

O orgulho é tratado de diversas maneiras: Em alguns textos espiritualistas / religiosos ele é notoriamente criticado e explicado como um sentimento nocivo, mas em certos círculos sócio econômicos ele é tido como algo natural ou até mesmo digno. 

Porém dignidade é uma palavra diferente e refere-se a ser digno de algo. Há um teor de justiça ou de naturalidade quando se fala que algo ou alguém é digno. Praticamente não há interpretação negativa das palavras digno / dignidade. 

Orgulho também é utilizado para designar o estado em que uma pessoa se encontra após realizar um feito que lhe satisfaz ou que lhe traz um destaque que lhe causa grande satisfação. Mas para isto também já existem as palavras satisfeito / satisfação. 

Então qual é o significado do orgulho? Se já existem palavras que designam os sentimentos de dignidade e de satisfação é importante separar o orgulho destes. Desta forma entende-se que orgulho é sim algo negativo: O termo orgulhoso em geral é utilizado para designar a pessoa que tem a si mesma como superior em relação a outras. 

Quando vemos as pessoas que tem uma boa posição social numa sociedade em grande parte capitalista, já podemos entender que na verdade trata-se de uma boa posição econômica, ou, na melhor das hipóteses, sócio-econômica, pois ela está ali realizando tarefas pouco ou nada benéficas para a maior parte da sociedade. Naturalmente quanto mais à favor de poucos multimilionários, ou, quanto mais capitalista for a sociedade, os indivíduos em posições de poder ou de prestígio se importarão menos com a maioria pobre, pois ficam mais distantes deste grupo. Como agravante, estas pessoas de boa posição “sócio-econômica” geralmente servem de exemplo para os demais. Independentemente se estas pessoas conquistaram tais posições com trabalho persistente e honesto ou se estão ali porque receberam favores ou se realizaram crimes. 

E qual é o problema disto? Além do óbvio ciclo vicioso de propagação de pobreza e desigualdade social, estes indivíduos em posição de grande prestígio e poder são naturalmente orgulhosos. Se cada um deles têm uma quantia de recursos suficiente para sustentar a vida de centenas, ou de milhares, ou de milhões de pessoas, cientificamente eles são pontos de grande desequilíbrio, não apenas social, mas alguns deles também são os causadores de grandes desequilíbrios biológicos no planeta. Obviamente este desequilíbrio biológico se dá por seus intermediários como empresas (e todo seus respectivos corpos constituintes) que causam desmatamento, pesadas emissões de poluentes etc. Porém estes desequilíbrios, ou danos, são conhecidos desde o século 20 (XX), portanto é útil avaliar eventos mais atuais, do século XXI. 

 9. A Incitação do Orgulho e seu impacto Psicossocial 

Na última década o desequilíbrio causado pelos poucos indivíduos mais poderosos e pelo sistema que tanto favorece estes mesmos indivíduos, alcançou um novo patamar: O psicológico. Na verdade desde o início do século XX, já ouvíamos sobre o impacto do ritmo de trabalho e da pressão psicológica nas pessoas, gerada pela intensificação das atividades industriais. Porém o domínio das atividades industriais já foi sobreposto pelas atividades digitais e as atividades digitais se tornaram danosas em muitos aspectos: 

Após o uso das redes sociais superarem o uso do e-mail em nível mundial no início de 2009, as empresas da internet (redes sociais como o Facebook, buscadores como Google, canais como Youtube etc) passaram a investir pesadamente para atrair mais usuários e para lucrar sobre seus usuários. 

O conceito de “like” tornou-se central não apenas para jovens usuários que publicavam fotos e textos sobre suas vidas e sobre suas opiniões, mas também para empresários que buscavam mais clientes. Aproveitando-se para lucrar, as redes passaram a comercializar ilegalmente as informações de seus usuários. Alegava-se coletar informações para personalizar anúncios conforme o desejo do usuário, mas na verdade criava-se um ciclo vicioso onde os usuários foram bombardeados com publicidade intrusiva e as empresas lucravam com cliques e com mais anúncios. Esta propagação de conteúdos sem checagem (sobre a utilidade e a veracidade destes) e de anúncios criou as “bolhas sociais” na internet e intensificou o consumismo. Se o consumismo por sua vez alimenta o sistema capitalista e sua minoria de multimilionários, as bolhas sociais criavam grupos de pessoas alienadas orgulhosas de suas escolhas e de suas opiniões. Este processo também intensificou a ideia de pós verdade e ampliou a propagação de fake news (notícias falsas). No meio de toda esta confusão estavam inúmeros indivíduos que já vinham sendo oprimidos por um sistema centrado na produtividade, no consumismo irracional e no acúmulo de riquezas (para poucos, é claro). 

Apesar destes vários indivíduos pertencerem à culturas diferentes, eles tinham poucas coisas reconhecíveis em um mundo tão conflitante e confuso. Uma destas poucas coisas era o “Eu”, que de acordo com a vertente psicanalítica da psicologia, também pode ser chamado de Ego. Assim ficou fácil para as empresas manipularem as massas: No meio de um turbilhão de dados que é a internet, os usuários da internet, em sua maioria uma população leiga, não via nem entendia que os líderes das maiores empresas da internet contratavam designers e psicólogos, para usar seus conhecimentos em busca de mais lucros. Foram usados conceitos e estudos sobre o comportamento humano (Behaviorismo/ Psicologia Comportamental) e sobre o impacto de formas e cores sobre a percepção e a interpretação (Gestalt), tudo voltado para manipulação dos leigos em favorecimento dos mais abastados. Os orgulhosos abastados, que em grande parte não eram pessoas em ascensão social, e sim os que já eram multimilionários, incitaram algumas de suas características no público leigo em geral, sendo a mais nociva, aquela que se disfarça como “Eu”: O orgulho. 

Famosos como atores de cinema/ televisão, atletas, músicos e apresentadores já incitavam o público a imitar algumas de suas atitudes ou comportamentos no século anterior, o problema é que as mídias sociais espalharam um “novo sentimento” negativo, um orgulho consideravelmente narcísico. Nesta nova onda de incitação de orgulho, incita-se o egoísmo (ou seja, um “Ego” - “Centrismo”), pois as pessoas se agrupam mais por ódio ao diferente ou por rivalidade aos que discordam de si, do que por similaridades entre indivíduos de seu grupo. A partir disto vale tudo para se autoafirmar: Esta autoafirmação do “eu” como algo melhor que os demais, ou mais belo, ou mais certo, utiliza-se da valorização de narrativas ignorando fatos (pós verdade): Apoiar movimentos anti vacina, terraplanismo, patriarcado, antipolítica, negacionismo etc. O indivíduo nega a realidade, ou partes desta, em nome do orgulho, deixando de relacionar-se com outros ou até mesmo buscando eliminar os que parecem tão diferentes de si. Esta negação das relações é nociva para todos, pois é uma negação da natureza e da verdadeira ciência em si, pois as relações existem em níveis astronômicos, ecológicos, sociais e até em níveis atômicos. 

Obviamente quando o sentimento de orgulho se espalha como sendo de grande importância, há uma grande chance de causar conflitos, como foi possível ver nos atos racistas e violentos de alguns policiais que geraram uma onda de protestos e mais violência. Mas além disto, as redes sociais em sua busca nociva por lucros, gerou um aumento no número de casos de problemas psicológicos individuais (ansiedade, depressão...) como mostrado no documentário “The Social Dilema”. Ao induzir pessoas de uma sociedade a substituírem interações presenciais por digitais, ocorre um aumento do isolamento real diante um aumento de interações superficiais. Quanto menos se vê e/ ou menos se ouve os interlocutores em uma interação/ processo de comunicação, mais difícil torna-se expressar os sentimentos que nos define como seres humanos e nos difere das máquinas. Textos e emojis jamais substituirão expressões faciais, corporais, tom de voz etc. Afinal é simples demais não se expressar ou até mesmo utilizar uma “carinha de feliz” nas redes sociais quando se está triste ou nervoso com alguém. Os sentimentos fazem parte das necessidades humanas e apesar dos sentimentos negativos fazerem parte de nossa existência, os positivos são de suma importância numa sociedade onde alterna-se em suprimir sentimentos e priorizar os sentimentos negativos (orgulho de suas opiniões ou posses, ódio ao diferente, desespero diante situações sociais e econômicas). Nesta situação onde prioriza-se e propaga-se sentimentos ruins, os sentimentos positivos são criticados de diferentes maneiras, sendo alguns exemplos: A humildade é confundida por idiotice, o amor é tido como ridículo ou farsa e a esperança é considerada um devaneio ou ingenuidade. Negar os bons sentimentos aos indivíduos é negar-lhes a saúde mental e espalhar esta negação a um nível social é gerar crises e conflitos, enfim, é causar processos nocivos para a maioria. Como é possível notar, o sistema defasado não é só injusto por privilegiar poucos, privando a maioria de suas necessidades básicas, mas por causa deste desequilíbrio nas relações, ele também facilita a supressão dos bons sentimentos e de suas expressões. Ele esconde as verdades com fake news e movimentos negacionistas ou reducionistas, substitui amizades por bolhas sociais e rivalidades, e por fim, nega esperança, atacando programas sociais e pessoas (físicas ou jurídicas) que realizam ajuda aos grupos mais necessitados e/ou vulneráveis. 

10. Observações Finais 

Este texto não trata exatamente de atacar o defasado sistema econômico que nos rege, mas sim de invocar a importância das relações em todos os campos de estudos/ em todas ciências. Se trata de mostrar a importância do conhecimento e dos sentimentos. Se trata de mostrar a necessidade de uma mudança para melhor tanto no sistema econômico, como no meio científico, que ao submeter-se a lógica do decadente sistema capitalista, acabou sendo apunhalado com o surgimento de movimentos negacionistas e reacionários. 

Este texto não inventa um sistema social nem um método científico: Ele faz a ponte entre teorias científicas já existentes com o decrépito sistema que faz tantos estragos nos âmbitos ecológicos, sócio-econômicos e psicossociais. A teoria científica é a Teoria Geral dos Sistemas, que tem algumas características em comum com outras teorias também científicas, como a Hipótese Biogeoquímica (Hipótese de Gaia). 

O que é exatamente a Teoria Geral dos Sistemas? 

Use um buscador de internet para encontrar tais informações... 

Maior parte do texto após o item 4 são minhas humildes opiniões, exceto a breve explicação sobre a Teoria Geral dos Sistemas - Fontes:

Platão; A República (traduções de Pietro Nasseti e de Carlos Alberto Nunes);

https://www.mexicolore.co.uk/aztecs/aztec-life/notes-on-the-three-spirits-souls-animistic-forces

Freud, O Mal-estar na Civilização;

Kardec, Livro dos Espíritos;



sábado, 1 de agosto de 2020

2º Bê a Bá da Realidade: Quem é Maioria?

No primeiro texto “Be a Bá” foi brevemente explicado o que é política e para que serve. A política está ligada ao fato que, para sobreviver, o ser humano frequentemente precisa de cooperação de mais seres humanos.
O ser humano vive em comunidades, ou seja, em sociedade, desde a Idade da Pedra pelo menos uns duzentos e vinte mil anos antes de Cristo (220.000 a.C). Possivelmente porque os seres humanos tiveram que se juntar em grupos para superar desafios como encontrar comida, escapar de predadores, sobreviver às mudanças climáticas, construir utensílios e abrigos etc. Com o passar do tempo e o superar de dificuldades, os seres humanos precisaram criar regras de convivência que deram origem às leis e também precisaram escolher líderes que ajudavam na mediação entre as pessoas e na tomada de decisões diante impasses nas comunidades.
Comunidades ou sociedades são grupos de pessoas, e cada uma dessas pessoas desenvolve determinada função seja numa escala de importância menor ou maior. Portanto com a maioria ocupada em sua função, em determinados momentos da história humana, existiram líderes bons e líderes maus. Competentes e incompetentes. Quando os líderes de comunidade se mostraram notoriamente egoístas ou incompetentes a confiança das demais pessoas (a maioria) diminuía e era necessário um novo líder. Estas situações de insatisfação da maioria das pessoas de determinadas comunidades devem ter ocorrido diversas vezes na história da humanidade. Provavelmente aconteceram no Egito antigo em muitas das trocas de famílias reais (dinastias) até a Grécia (Atenas) Clássica onde surge os conhecidos sistemas democráticos ou a democracia (governo do povo / poder do povo), por volta de 590 a.C. Outra possível fase de insatisfação popular que removeu o poder centralizado em um governante passando para representantes do povo deve ter acontecido no surgimento da República Romana que substitui o Reino Romano em 509 a.C.
Portanto conclui-se que os sistemas políticos de representação do povo, chame de democracia ou de república, surgem da necessidade de resolver impasses e pela necessidade de mais equidade e justiça para todos.

 A política é para todos.
 Como é impossível agradar a todos, a política é para a maioria, mas a maioria varia de acordo com cada nação. A maioria das pessoas no Brasil (e em muitos outros países) são os pobres, pois a renda mensal média era de um salário mínimo (cerca de 980,00 R$) até 2016*. Um pouco mais alta em SP, chegando à quase 2000,00 R$ mensais de média. (* quase 1500,00 R$ em 2019, de acordo com matéria da Folha de São Paulo) Tais salários mal pagam as contas de uma casa ou de uma família, além disto, pessoas com a renda média em geral trabalham no mínimo 44 horas por semana. Mais o tempo que perde-se com transporte ou que investe-se em estudos…
No Brasil, proporcionalmente, quem mais paga tributos são as classes pobres e médias, pois cobra-se mais imposto sobre produtos e serviços do que sobre renda ou patrimônio. Multi milionários (sócios ou donos de corporações, grandes empresas etc…) são os que se beneficiam disto e são quem fazem lobbies na política para ganhar cada vez mais pagando cada vez menos.
Para quem não sabe, lobby é uma interferência dos mais ricos (multimilionários) na política, onde estes pressionam um ou mais políticos para obterem benefícios como desvirtuar (ignorar) leis para sonegar imposto, cometer crime ambiental, formar cartel de empresas etc. Uma interferência que ignora eleições, pois não é preciso voto para se fazer lobby, só um pouco de tempo livre sobrando e muito dinheiro. Dezenas de milhões de reais ou mais para ser mais específico.
Estes empresários, ou os lobistas que os representam, geralmente alegam precisar de mais “liberdade” para continuar suas atividades comerciais, mas é óbvio que se refere a uma liberdade que não respeita a liberdade dos outros: Não respeita resultado de eleições, nem regras que possibilitam o micro empresário a competir no mercado, nem leis para proteger o meio ambiente e reservas indígenas… Por isso, muitos dos multimilionários defendem o “liberalismo”, mas na verdade estão defendendo o capitalismo, pois não respeitam a liberdade alheia. Capitalismo aqui não se refere a um sistema natural, muito menos a um sistema econômico ponderado. Neste caso a palavra capitalismo tem o seu significado verdadeiro, ou seja, etimológico: Capital-ismo = Dinheiro-Cêntrico. Refere-se a um sistema onde quem tem mais dinheiro, (afinal dinheiro não é uma entidade inteligente nem viva) manda e faz o que quer. Capitalismo aqui não pode ser desvinculado de Plutocracia (poder dos ricos / governo dos ricos), pois são praticamente a mesma coisa.

Quando usa-se o termo “mídia corporativa” para definir grandes empresas de comunicação como a Globo, o Estadão, a Veja, a Record, a Band (etc) é porque na maioria das vezes esses grupos estão interessados em beneficiar seus anunciantes e investidores de grandes empresas / corporações. Portanto o viés destas “fontes” é quase sempre capitalista, ou seja pró liberalismo econômico só para as maiores empresas, as mesmas que nunca estão satisfeitas com políticas sociais ou de infraestrutura e sempre fazem lobby. Estar a favor dos mais ricos, é estar a favor dos poucos indivíduos que têm muitos milhões ou bilhões, seja de reais, de dólares ou de euros… Portanto é estar sempre contra a maioria. Defender os multimilionários e o capitalismo é estar contra as verbas para saúde pública, para o transporte público, para o ensino público… Enfim é estar contra toda a infraestrutura, ou seja , a estrutura básica de uma nação. Não é republicano, nem democrático, pois é defender a doença, a morte, a ignorância, a falta de segurança e a impotência da maioria.