quinta-feira, 15 de julho de 2021

As Relações das Áreas do Saber

 

Esta é uma reflexão breve sobre a “história do saber”. 

Voltando no tempo, podemos ver que a ciência já foi considerada unida com a filosofia e até mesmo com a religião: Alguns exemplos são a filosofia socrática/ platônica na Grécia Clássica e o bhakti-yoga na Índia medieval. 

De fato tal união pode ser considerada primitiva por ser uma fase de desenvolvimento com limites mal definidos entre os temas. Também pode haver um perigo da religião se apossar dos demais campos pelo fato de trabalhar mais os sentimentos e o lado emocional das pessoas. 

Mas o que temos hoje no ocidente é uma cisão profunda, onde restaram praticamente ataques de um lado ao outro. O nível desta relação é tão frágil que mesmo entre cientistas existem críticas fundamentadas em meras opiniões preconceituosas às áreas mais próximas da filosofia como as frentes psicanalíticas e fenomenológicas da psicologia. 

Além disto, as religiões em sua maioria pouco falam das questões sentimentais e espirituais. Sentimentos que têm sua importância desde o início da vida dos seres humanos. Parece que para entender os sentimentos e todas as experiências tidas como religiosas, sobrenaturais ou transcendentais, surgem as reflexões, os pensamentos e então, as filosofias. 

A filosofia sendo mais reflexiva e mais discutida do que a religião, acaba por se relacionar com questões da natureza, do cosmo e da matéria em geral. 

Daí surge a racionalidade voltada à praticidade e à natureza material. 

Teorizando as "pontes quebradas" entre áreas do saber...


Isto está mais ou menos documentado na história da “Grécia” antiga: As civilizações mais antigas daquela região do mundo, tiveram maior parte de seus registros destruídos, sendo relegadas predominantemente à mitologia (e à arqueologia, talvez também à história da arte). Após a destruição das civilizações “minóica” e micênica, surge a “idade das trevas grega”, onde poetas como Homero e Hesíodo espalham seus poemas, tidos como versões fantásticas da história e da religião, ou mitologia. 

O período a seguir vem com um “espalhamento” de questionamentos sobre esta mitologia - os filósofos pré-socráticos, seguidos finalmente por Sócrates, Platão e Aristóteles. Os filósofos desta era, provavelmente tiveram contato com o Império Persa Aquemênida que havia dominado a Babilônia, o Egito e as fronteiras com a “Índia”,além de ter libertado os judeus. O último dos 3 filósofos “socráticos” citados foi o mais racionalista e o que mais se adequou às questões terrenas, sendo aceito pela elite local, como tutor de Alexandre, o Grande. 

O período a seguir foi de grandes conflitos para a civilização grega: após uma rápida expansão, o império “greco-macedônico” fragmentou-se em disputas predominantemente internas, tornando-se vulnerável à expansão romana. Tal período parece ter sido o ápice “científico” da antiguidade “ocidental”: Erastótenes e Crates de Mallus divulgam a esfericidade da Terra, descrições astronômicas foram difundidas por filósofos posteriores à Anaxágoras, fora os trabalhos de Hipócrates, Pitágoras, Filolaus, Aristarcos, Arquimedes e outros… 

O Império Romano de alguma forma mostrou ter freado esta divulgação de conhecimentos. E o período a seguir não foi melhor neste quesito: A queda do Império Romano do Ocidente diante os povos hunos, germânicos e alanos, fez com que apenas a igreja católica sobrevivesse em sua extensão, já que o estado corrompido ruiu. Então nos séculos seguintes, a igreja monopolizou o que havia sobrado de conhecimento na região (Europa), começando a divulgar alguns conteúdos timidamente no século 12, com a construção das primeiras universidades após conflituosos contatos com o império árabe. 

Após variados conflitos políticos/ econômicos/ religiosos na Europa, a Renascença dá espaço à fomentação da arte e da filosofia, no século 15. A religião dominante (a instituição igreja católica) na Europa passa a ser questionada (novamente) dando origem às igrejas protestantes. 

No século 17, filósofos iluministas se baseiam em algumas obras renascentistas e acabam separando novamente a filosofia da ciência, ao determinarem métodos de estudo. Estes métodos foram a grosso modo, o racionalismo (predominante na Europa continental) e o empirismo (predominante entre os britânicos). 

Cisões e Clubismos 

As cisões, ou segmentações, aconteceram diversas vezes na história da humanidade, pois a necessidade de formar grupos provavelmente sempre existiu desde que o ser humano começou a se unir para superar dificuldades e formar sociedades. Resumidamente estes grupos se dividiram em certos momentos ou encontraram outros grupos com conflitos de interesse e destes conflitos entre grupos entende-se que formou-se o "clubismo". Às vezes afetaram religiões, outras vezes filosofias e até mesmo as ciências. Muitas destas cisões se apoiam num senso de identidade limitado, reducionista, preconceituoso, xenófobo e muitas vezes elitista ou punitivista.

Estudando psicologia, finalmente encontrei o cerne destas rixas entre as áreas do saber: Nestes meios o clubismo se intensificou com a cisão entre os métodos científicos, ou que, em termos mais chulos, inclui a cisão entre "a filosofia e a ciência". Mas porque dizer que a cisão entre a filosofia e a ciência é mais chula do que a cisão entre os métodos científicos? Simples, porque por séculos NÃO existia esta divisão. Tudo era estudo, pois todos estes estudos buscavam compreender as mais variadas questões. 

Apesar disto não considero que esta cisão foi totalmente nociva ou inútil: Ela teve sua serventia por mais de 3 séculos. Tal cisão começou no final do século 17 e perdurou acelerando o surgimento de campos de estudos especializados até o desenvolvimento da psicologia: Mais precisamente até o surgimento da fenomenologia e da psicanálise. O que veio depois disto foram seus frutos, como o desenvolvimento da tecnologia. 

Não, a tecnologia não é meramente fruto da competição insana das potências mundiais por recursos naturais e por armamentos. Mesmo que a competitividade e suas consequências comuns, as guerras, fomentassem alguns estudos, a rivalidade existente nestes momentos é essencialmente formada por ambição, ganância e violência desmedidas: A competitividade desmedida é um comportamento primitivo, rudimentar, que facilmente torna-se violência e obviamente traz mais malefícios do que benefícios. 

O lado ruim da cisão é que ela reforçou o que chamei de clubismo, mesmo dentro das áreas do saber e mesmo com tais separações, ainda não há clareza sobre o que é ciência, o que é método e o que é filosofia. Muitos empiristas desprezam o método fenomenológico de pesquisa, alegando que não se trata de ciência e sim de filosofia. Os mesmos afirmam que filosofia não é ciência, mas se estiverem certos, todos os estudos feitos com o método fenomenológico (seja na geografia, psicologia, filosofia, história etc) fazem parte deste grande campo apartado da ciência: A Filosofia. Neste cenário um tanto "separatista", teorias transdisciplinares como a hipótese biogeoquímica e até mesmo a teoria geral dos sistemas, surgida no campo da física subatômica e física teórica, permanecem em segundo plano. 

Outro detalhe importante do clubismo é o desprezo que é nutrido entre grande parte dos cientistas e dos religiosos. De fato, ciência e religião são coisas distintas, mas não são contrárias entre si. Os cientistas e os religiosos não deveriam odiar uns aos outros. O mesmo também acontece entre filosofia e ciência, o que é mais polêmico, já que esta transformação, apesar de acontecer gradualmente durante o iluminismo, gerou uma cisão profunda. Os movimentos ou métodos científicos foram surgindo a partir da filosofia, mais ou menos da seguinte forma: 

A filosofia natural do final do século 12, era inspirada em obras da Grécia antiga que estavam em mãos dos árabes até a época das primeiras cruzadas: a "filosofia" socrática/ platônica/ aristoteliana; Porém a filosofia natural não podia contrariar muito as religiões/ igrejas "cristãs", que eram muito poderosas na época; 

1539-1543 - "de revolutionibus orbium coelestium" viria a inspirar o racionalismo; 

Após a renascença, a filosofia ocidental deu espaço ao iluminismo e à ciência moderna com os seguintes movimentos, ou métodos de estudo (científicos) que foram surgindo: 

1632 - "diálogo sobre os 2 principais sistemas do mundo"; 

O racionalismo: 1632 - o "mundo ou tratado da Luz" e 1637 "sobre o método"; 

O racionalismo iniciou o iluminismo enfraquecendo as igrejas ocidentais; Por volta de 1666 a astrologia e a astronomia são separadas, sendo considerada ciência só a segunda. 

O empirismo: 1690 - "an essay concerning human understanding"; 

1791 - "a crítica da razão pura", faz o meio termo entre empirismo e racionalismo? 

1837 - "teoria da ciência", 1851 - "paradoxos do infinito": começam a fomentar um novo método;

A fenomenologia: 1874 - "Psychologie von Empirischem Standpunkt ", 1911 - "Iden"; 

Neste último período, questões em torno da metodologia científica dividiram a psicologia em três frentes que parecem não "conversar" entre si. Já os filósofos, muitas vezes, correm o risco de não serem aceitos nem por supostos cientistas nem por supostos religiosos. 

Há quem diga que a divisão da psicologia seja pacífica e até pode ser... mas só para alguns. Para outros trata-se de difamar a abordagem alheia e idolatrar a de sua própria escolha como se fosse a detentora da verdade absoluta. 

Na virada do século 19 ao século 20, o método fenomenológico questiona a cisão causada pelos “métodos iluministas” (racionalismo e empirismo basicamente), mas não obtém um resultado claro: Muitos empiristas relegam o método fenomenológico à filosofia. Oras, se este método não é científico, mas sim filosófico, a filosofia não é uma mera ciência, já que está apartada desta, mesmo regendo estudos em diversas áreas do saber: Geografia, psicologia etc… A própria física teórica poderia ser considerada um campo filosófico quando usa a teoria geral dos sistemas ao invés do método empírico. 

Mas isto não é novidade, só está mais complexo do que antigamente, talvez intrincado, pouco esclarecido e mal divulgado: Se o método fenomenológico e todos seus estudos em variadas áreas, não são ciência, eles são todos filosofias. Teríamos então a física filosófica, a geografia filosófica, a psicologia filosófica… Bem como a versão (empírica) voltada a matéria perceptível aos 5 sentidos humanos: física científica, geografia científica etc. É assim que devemos definir os estudos atualmente? 

Não sei. Parece que não há consenso, só alfinetadas. 

A partir destas informações, vimos que a história é cíclica: As mesmas questões voltam à tona seguindo um certo padrão. 

No final não basta tentar descobrir se a solução é só separar ou unir ciência, filosofia e religião. Nem deve bastar definir se o saber empírico/ naturalista/ racionalista, o saber fenomenológico e o saber espiritual/ transcendental/ sobrenatural, são todos ciências. Mas é importante trazer clareza a todos os assuntos destes campos. Para obter tal clareza, é preciso aproximar todos esses assuntos das massas, é preciso cessar os clubismos e impedir a negação generalizada da ciência e da empatia voltada ao bem. Por fim, é preciso entender todos os (“três”) campos e que cada pessoa que esteja mais focada em um desses campos, respeite e converse com clareza com as pessoas de outros campos. Juntos. Em busca de evolução, de progresso, sem abandonar a humildade e a solidariedade.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

A Alma - Um tema talvez inconclusivo, mas não negável

 

Negar por Negar é Reducionismo 

 Reducionismos existem de várias maneiras, de vários jeitos e são propagados por qualquer um. Infelizmente. 

Atualmente o mais preocupante é a negação generalizada da ciência tão propagada pelas redes sociais e por líderes populistas conservadores e capitalistas (sim, crentes do comércio desregulado e defensores da desigualdade socioeconômica e dos mais milionários). 

Mas voltando ao mundo dos estudiosos e cientistas, reducionismo é coisa antiquíssima… Data no mínimo o século 5 anterior à Cristo. Mas porque falar de reducionismo e não sobre a tal alma? Pois bem, a alma já foi motivo de discussão e discórdia, no mínimo desde a época dos filósofos socráticos da Grécia Clássica e falar dela geralmente é falar da possibilidade da imortalidade. Sempre foi. 

Na transição da Grécia Clássica ao Período Helenístico, Aristóteles tentou reduzir a alma à mente humana, ligada ao cérebro e que se dissipava (ou morria) com a morte do corpo. E tantos outros apresentaram conceitos parecidos com este, seja chamando o objeto de estudo em questão, de mente, de psique ou de alma. O problema desta visão é que ela nega várias das experiências tidas como transcendentais, ou sobrenaturais, contadas por todas as pessoas ao longo de toda a existência humana na Terra (isso resultaria em, no mínimo, uns 222.000 anos de contos e experiências). Claro, há quem diga que testes científicos foram realizados, negando a existência da alma e/ou de espíritos. Aí temos um problema científico: A ciência não nega coisa alguma. Negar não é científico. Refutar é, mas refutar não é negar. 

A ciência começa seus estudos, seja lá qual for o método, assumindo-se a possibilidade de descobrir algo. Não descobrir, não é refutar, nem negar. Não descobrir faz parte de um trabalho/ pesquisa inconclusiva, onde não foi possível chegar a uma conclusão. Ou seja: inconclusivo - Este é o resultado mais comum quando se investiga fenômenos considerados transcendentais ou “sobrenaturais”, como a imortalidade da alma. Refutar faz parte de um estudo que prova que um outro estudo está equivocado em algum ponto. E geralmente isto faz com que o estudo anterior seja substituído por outro que explique o fenômeno de maneira mais completa/ precisa, ou apenas faz com que este último seja classificado como inconclusivo. 

Uma pesquisa inconclusiva não é inútil, muito menos um motivo de vergonha para os pesquisadores ou para a ciência. Afinal ela pode vir a colaborar futuramente para que mais pesquisas sejam feitas sobre o assunto inconclusivo. 

O Conflito entre Ciência e Religiosidade 

O que parece ter acontecido frequentemente, foram alegações de empiristas (no sentido de aceitarem apenas o método empírico), que profundamente incomodados por tais assuntos, atacaram toda e qualquer tentativa de explicar o "sobrenatural'' e o “transcendental”. As causas podem ser diversas: charlatões místicos, chantagistas e vigaristas de instituições religiosas etc. Tudo isso pode incomodar cientistas, céticos e pessoas que priorizam o conhecimento. Porém a ferramenta utilizada para atacar aqueles que tentam explicar os fenômenos sobrenaturais/ transcendentais, é a mesma que os charlatões e vigaristas “religiosos” utilizam: O negacionismo. A diferença é que o primeiro grupo geralmente é composto por estudiosos que negam tudo o que parece ser espiritual, religioso etc… As pessoas deste primeiro grupo geralmente alegam ser cientistas e podem até estar no meio de pesquisa, mas são notoriamente apegados (para não dizer fanáticos) do método empírico, descartando todo e qualquer outro método de pesquisa. 

 Já o segundo grupo é mais óbvio: Em geral, são pseudo-cristãos, pseudo-espíritas e outros falsos religiosos, que querem conservar a ignorância, impedir o progresso científico e social. Importante lembrar que muitos destes religiosos se tornaram corruptos pela própria institucionalização de suas respectivas religiões. Esta institucionalização não se refere às obras sociais e sim às buscas por poder e às burocracias nas igrejas, que as afastaram da ideologia original (por exemplo, afastaram dos ensinamentos de Jesus Cristo), favorecendo o acúmulo de riquezas materiais num ciclo vicioso: As igrejas cristãs tornaram-se instituições de poder logo no início da era medieval (entre os séculos 5 e 10) e suas segmentações posteriores que se tornaram populares (como a igreja ortodoxa do leste europeu e a protestante de Lutero), obviamente também atraíram indivíduos corruptos e fascinados pelo poder para seus postos de liderança. 

O poderio dessas religiões institucionalizadas do ocidente só começou a ser questionado de modo significativo durante o iluminismo europeu, por volta do século 18. Ainda assim, elas continuaram instituições poderosas por muitos anos, praticamente até os dias de hoje, no início deste século 21. No caso de religiões que não chegaram a se institucionalizar tanto, como o espiritismo, o que ocorre não é tão diferente, só menos opressivo: São charlatões espalhando mentiras para impor suas ideias ou para se aproveitar da ingenuidade alheia. Portanto, até é compreensível um medo, uma raiva, uma desconfiança por parte dos estudiosos da área científica. Porém, simplesmente negar todas as descrições de uma série de fenômenos é rebaixar-se à postura fanática e nada científica. Não há absurdo algum em tentar desvendar sobre as possibilidades acerca da alma, dos espíritos, ou até de outros mundos ou dimensões, sejam eles espirituais ou não. Mesmo porque, muitas das descobertas da ciência surgida no período iluminista, eram ridicularizadas ou tidas como absurdas em sua época, como as possíveis utilizações da eletricidade e o desenvolvimento de combustíveis… 

 Geralmente as negações de tais assuntos, são alicerçadas em sentimentos como medo da mudança ou ódio ao desconhecido. O psiquiatra suíço, Carl Gustav Jung, cita este sentimento em “O Homem e Seus Símbolos", classificando-o como misoneísmo, uma espécie de fobia/ ódio ao novo. Isto é curioso pois vemos uma suposta aceitação às mudanças tanto na comunidade científica como em algumas comunidades religiosas e místicas. 

 Na comunidade científica parece-me até desnecessário dizer que a aceitação às mudanças deveria ser dominante. Afinal o que seria uma ciência que tem medo ou ódio de descobrir coisas? Certamente nada. Mas então, qual é a dificuldade de abordar o assunto da mente incorpórea, ou da alma? Qual é o problema de teorizar sobre a alma e sobre sua existência imortal? 

Além da óbvia falta de evidências materiais, um dos grandes incômodos que envolvem a alma imortal é a mudança/ a revolução no comportamento humano diante o desconhecido. Tudo aquilo que aparece como horrível para os misoneístas. Pois admitindo esta verdade, a vida já não nos inquieta como antes. Os prazeres materiais perdem seu protagonismo e, talvez, a sua atratibilidade, dando mais espaço ao dever. O corpo já não pode ser tudo, pois é temporário, mostrando-se apenas como uma parcela da existência. A alma torna-se importante levantando questões antiquíssimas como: Então Deus realmente existe? Há um criador por trás de toda a criação? Temos missões em nossa existência? Está tudo bem em fazer mal aos outros na vida terrena? Como será o julgamento de nossas almas? A morte não é mais o fim, mas uma passagem, então para onde vamos? A imortalidade da alma confirmada mostraria uma profundidade enorme em nossa existência, que só não despertaria o interesse de quem perdeu todo o sentimento. Nosso destino pautaria nossas ações. 

A imortalidade da alma não é uma história inventada para impedir o progresso ou a ciência: Praticamente em todas as épocas, em diferentes locais da Terra, o ser humano teve como patrimônio comum a noção da imortalidade da alma, que não é só um consolo, mas também teve usos em diversas civilizações, servindo de apoio para a justiça e para a vida em comunidade. Isto possivelmente ocorre desde antes da história escrita, porém todas essas culturas tiveram seus sistemas religiosos taxados de mitologia com a ascensão do monoteísmo no mundo. Isto não é uma crítica ao monoteísmo em si, pois o que deve ser criticado é a religião como instituição de poder, que, no ocidente começou a se consolidar entre o fim da antiguidade e o início da era medieval. As civilizações/ culturas celta, nórdica, egípcia, yorubá, asteca, hindu e tantas outras ao redor do mundo, tentavam lidar com a “dimensão espiritual” de diferentes formas. Pode-se notar então, que tal patrimônio é anterior a todo sacerdote, a todo legislador e a todo escritor, existindo em povos tidos como bárbaros e em complexas civilizações urbanizadas. 

Então pergunto, porque temer uma existência além daqui? Você fez mal aos outros? Sente algum tipo de remorso? Não se conforma em perder seus bens materiais? Não vê sentido em uma existência sem prazeres materiais? Tudo bem que algumas coisas podem ser difíceis, mas muitas outras não são. Ao menos não para quem não é egoísta. 

 Aqui volto a levantar pontos citados em outros textos meus: A ciência não deve ser neutra em assunto algum. Neutralidade é invencionice. É desculpa para negar a importância de uma classe, de um assunto ou de uma cultura da qual você sente qualquer tipo de aversão. Tudo existe por relações. Uma existência única que não se relaciona, independente de tudo mais, é a mais pura essência da negação, um negacionismo em proporções inimagináveis. Seria o contrário da constatação pura de todas as coisas que existem. Seria negar a expansão cósmica, o universo, as estrelas, os planetas, todas formas de vida, suas relações, suas evoluções etc. 

Então a ciência serve a alguém. Assim como a religião e a espiritualidade devem servir a Deus e/ou ao descobrimento de Deus. Não importa se você chama de Jeová, Brahman, Nous, Kether, Akasha, Rá, o Cosmo, Krishna ou qualquer outro nome. É o “conceito” máximo de onipresença que se relaciona com tudo e a mais suprema mente que tem todas informações para fazer o que fez: O universo e talvez mais. 

Então a quem a ciência deve servir? Um grupelho de políticos? De empresários multimilionários? Obviamente não… Sócrates e outros filósofos já diziam (há cerca de 2500 anos atrás) que a verdadeira ciência serve ao bem. 

 O Clubismo e seus efeitos Nocivos 

Se tanto a ciência como a religião enxergam a importância do bem, podemos estipular o que causa tanta discórdia em torno da questão da imortalidade da alma... 

A falta de evidências nos conformes do método empírico? 

O apego à matéria perceptível por parte de muitos cientistas (monismo materialista)? 

Ou talvez a maioria dos acadêmicos estejam acometidos por algum tipo de fascinação pela finitude? 

Bom, eu gostaria de crer que não seja isso, mas para muitos deve ser isso mesmo. 

No 1º caso, se o método empírico não explica, não existe. Um reducionismo óbvio. A 2ª hipótese é naturalista, muito comum das ciências biológicas do século 19. Pouco difere da primeira... A 3ª já envolve possíveis sofrimentos psíquicos: Estudiosos/ cientistas fascinados pela finitude, ou que abraçam vazios existenciais, podem estar sofrendo com problemas emocionais, mentais etc. Mas para aprofundar sobre tais casos é preciso de uma pesquisa em psicologia e eu não concluí a minha ainda. Além disto, existem certas discórdias entre as diferentes abordagens desta área de estudo que fariam deste assunto algo muito extenso. Os 2 primeiros exemplos citados aqui são exemplos de clubismo, pois o empirismo é empurrado goela abaixo da maioria como sendo a própria (e única) ciência. Parece piada, mas não é tão absurdo assim. Clubismo similar, ou seja, divisão em grupos que discordam entre si, aconteceu “N” vezes, como podemos ver na história das religiões ao longo de milênios na civilização humana. O clubismo é similar ao individualismo (numa escala maior, é claro) e se apoia muito no negacionismo e na intolerância. Gera o discurso “nós e eles” e não aceita nada que ameace sua supremacia, seja às claras ou às escondidas. A igreja fez isso às claras por razões óbvias: Apoiou-se na ignorância do povo da antiguidade e se apossou do conceito de heresia, possivelmente ligando-o ao pecado. Este pecado que para os corruptos da igreja era tudo que se opunha a eles, na verdade nada mais é do que a impureza da mente. De acordo com o judaísmo, o ser humano tem um livre arbítrio e quando escolhe o mau ao invés do bem, como as próprias ambições ou satisfações, prejudicando outros, ele está errando. Este erro é o pecado. Já em escritos católicos do século 5, a lei eterna, ou natural, é justa e divina, portanto transgredi-la é pecado. Jesus Cristo ensinou muito desta lei divina de amor ao próximo, amor a si mesmo e amor a Deus. 

Pode-se notar que clubismo existe dentro do "mundo" religioso, e de maneira mais surpreendente, no “mundo” científico. Pois neste último caso grotesco, o conhecimento que começou no iluminismo, prometendo trazer lucidez e clareza à humanidade, ao deixar os problemas sociais e a manipulação dos sentimentos em segundo plano, tornou-se um prato cheio para as lideranças que citei no início deste texto: Líderes populistas, conservadores de desigualdades, de injustiças e de ignorância. 

A Alma e o Inconsciente do ser humano 

Quando dormimos quais pensamentos predominam nossas mentes? Aqueles relacionados às nossas ações e escolhas… Isso diz muito sobre nosso aparelho psíquico (consciente e inconsciente) ou alma e possivelmente até sobre nossos destinos, como mencionado por Jung algumas vezes. 

 Para quem ainda não “crê” em alma, considere o seguinte: Mesmo um psiquiatra cético do século 19 descobriu uma estrutura imaterial da mente, após uma série de observações de pacientes abalados por psicopatologias (sejam sofrimentos psíquicos ou doenças mentais). Este psiquiatra (Freud) além de obter sucesso no tratamento de tais pacientes desenvolveu toda uma base teórica para a psicologia: O consciente, o pré-consciente e o inconsciente (sua 1ª tópica) foi usado até por psicoterapeutas proeminentes que discordaram de grande parte de suas teorias. Mesmo alguns psicólogos que criaram abordagens psicoterapêuticas com bases em outros métodos e estudos, respeitam e admitem a estrutura psíquica com os parâmetros mencionados anteriormente (consciente, inconsciente…) Tanto Freud como Jung, deixam a entender que pensamentos, lembranças e sentimentos não desaparecem definitivamente, eles apenas deixam de ser a atenção de nossa consciência, podendo emergir (da inconsciência) depois de muito tempo. Desaparecer definitivamente seria deixar de existir, o que é algo improvável por qualquer método científico.

O aparelho psíquico descrito pelas abordagens da frente psicanalítica, assim como a essência na fenomenologia, não é físico: não é sólido, nem líquido, nem gasoso e provavelmente também não é plasmático. Não está em nenhum dos 4 estados conhecidos da matéria até então. Trata-se talvez, no máximo, de informações relacionadas aos potenciais elétricos ou a sinapses do sistema nervoso, mas mesmo estas não são a causa das escolhas humanas. Isto é centrar os estudos no empirismo, ignorando todos os demais métodos científicos. Um ato típico do período iluminista, onde acreditava-se que o ser humano era o centro do universo e o que existia de mais evoluído neste. A postura correta da ciência é semelhante à humildade: é assumir que não se sabe sobre o que não foi descoberto nem sobre o que ainda não se estudou o suficiente. 

Vários outros campos da ciência e estudos científicos se depararam com questões que o método empírico não foi suficiente para solucionar. O campo mais comum destas ocorrências é a física, daí o desenvolvimento de métodos científicos da física teórica. 

Como estudar a Mente (e a Alma) 

No que se refere ao empirismo, sabemos que este método se apoia nos cinco sentidos humanos e na reprodutibilidade das experimentações. Então parece óbvio que o empirismo não vai explicar forças ou energias que distorcem o espaço-tempo (como as de certos corpos celestes) alcançando dimensões além do “nosso universo 3D”. E se existe qualquer forma de vida em uma dimensão além da tridimensionalidade, também é óbvio que o empirismo jamais vai controlar qualquer ser ou entidade que consiga viajar através do espaço-tempo por meios desconhecidos aos humanos. Portanto isto impede a reprodutibilidade de experiências empíricas feitas pelo observador/ estudioso. 

O monismo (seja materialista ou eliminativo) já mostra algumas contradições ao servir de base para algumas abordagens psicológicas: Esta base filosófica (seja chamada de pressuposto ou de ontologia) requer o empirismo como método de investigação, então como o observador (o estudioso, no caso o psicólogo ou psiquiatra) poderia repetir os sentimentos espontâneos que ocorreram numa determinada situação de um paciente? O empirismo aceita como verdade absoluta os relatos de um paciente? E se não aceita algum relato do paciente como sendo verdade, não estaria sendo arbitrário? Pois então, o empirismo é um método antropocêntrico do período iluminista - Quando foi desenvolvido há cerca de 3 séculos, os empiristas pressupunham que o ser humano era o que havia de mais desenvolvido no universo. Pressupunham que a vida só poderia existir em ambientes com a composição idêntica ou muito similar ao planeta Terra. É um método com limitações como tantos outros. Se este método explicar algo sobre a alma e sobre a existência além do espaço-tempo conhecido, explicará muito pouco. Para se falar dos temas colocados na categoria de espiritual/ transcendental / sobrenatural, é preciso utilizar outros métodos ou talvez até desenvolver novos métodos… Métodos ainda desconhecidos que só espanta ou irrita os misoneístas. 

Se vou descrever como é a alma aqui? Claro que não. Eu só tenho vagas "ideias'' baseadas em experiências inalcançáveis pelo método empírico. Só tive percepções dificílimas de se descrever, recebidas pelo meu aparelho psíquico. Diga-se de passagem, tais “percepções”, muitas delas intimamente vinculadas a sentimentos, foram experiências, ou fenômenos, que o cérebro humano é incapaz de produzir por si só. Apesar disto, muitas outras pessoas também devem ter experimentado, e por isso, descreveram algo mais ou menos semelhante ao que experimentei. 

Ainda assim, frequentemente sinto-me receoso em descrever minhas experiências, pois há poucos anos atrás eu vi bacharel pós-graduado em psicologia dando aula em curso superior e exercendo a profissão, dizendo que amor é algo entre uma besteira e algo que não existe. Será que estes prestigiados profissionais provam a não existência através de um método científico? Quantos desses não estão por aí formando opiniões? E quantos desses não entendem como ideologias de ódio chegaram ao poder em certos países, tanto no passado como no presente? Ora se o amor é uma besteira, se é apenas uma reaçãozinha química do cérebro ou se simplesmente não existe, o que seria o ódio senão algo meramente do mesmo nível? Será que tais sentimentos não têm relevância? Sentimentos de amor e ódio (e outros) não estão vinculados só a questões supérfluas nem só a questões espirituais: Por mais que muitos acadêmicos e cientistas queiram ser um robô, ou um materialista extremista, ou um “super-racional”, os sentimentos movem praticamente toda ação humana e possivelmente movem até ações de alguns animais. 

Enfim, alguns cientistas iniciaram estudos, ainda que tímidos, sobre a relação da mente com o espaço-tempo, sobre fenômenos/ experiências de quase morte (EQM) e sobre a relação da mente com a distorção de campos eletromagnéticos… Um dos estudos foi o seguinte: Após acompanhar 344 pacientes sobreviventes de paradas cardíacas, dos quais 18% tiveram EQM,  indicando "consciência" mesmo sem atividade cerebral, o médico holandês Pim van Lommel, criou uma teoria a respeito: “A consciência não pode estar localizada num espaço em particular. Ela é eterna”, diz. “A morte, como o nascimento, é mera passagem de um estado de consciência para outro.”

O conceito de consciência nestes estudos pode ser mais neurológico ou da psicologia comportamental, afinal médicos se apoiam no método empírico. Esta consciência além da vida material possivelmente está mais relacionada com o inconsciente da mente dos seres vivos de acordo com a frente psicanalítica: As experiências transcendentais, onde pessoas descrevem deixar seus corpos por exemplo, entram nesta categoria observada pelo médico holandês.

Pim van Lommel ainda diz, com certa humildade, que os estudos não comprovam sua teoria. É claro que não, o método empírico por tratar apenas do que os 5 sentidos humanos detectam, não vai explicar tais fenômenos com mais precisão do que este caso, uma vez que rechaçam até mesmo o inconsciente como elemento do aparelho psíquico (mente ou alma, chame do que preferir). Portanto estes estudos empíricos também não refutam, nem negam a teoria de Pim vam Lommel: No máximo, deixam o caso inconclusivo.

A teoria deste médico deve desagradar muito dos empiristas que preferem classificar as descrições destas experiências dos pacientes como meras alucinações. Porém as alucinações requerem ou deveriam requerer atividade cerebral... O que parece ter cessado nestes casos. Claro, o debate poderia se esticar, com empiristas alegando que a alucinação surge nas breves descargas elétricas oriundas da morte de neurônios, mas aí, os próprios empiristas estariam especulando e o assunto se delongaria permanecendo inconclusivo.

Para descrever mais estudos aqui, que indicam indícios de elementos psíquicos que transcendem o espaço-tempo, eu precisaria reencontrar as fontes e isto é algo que talvez eu faça futuramente.

Fontes: 

Carl G. Jung; O Homem e seus Símbolos, 

Allan Kardec; Revista Espírita Ano xxxx, mês xx, 

Pin van Lommel; Consciousness Beyond Life: The Science of the Near-Death Experience

quarta-feira, 30 de junho de 2021

É Possível Instruir as Massas?

 

Esta é uma reflexão feita a partir de variadas observações particulares e mais uma vez tento usar uma linguagem informal, mais simples do que a que usei em alguns textos meus: 

 Linguagem e Clareza no Ensino e na Comunicação 

Uma atriz de teatro me contou que ao apresentar peças com a intenção de ensinar sobre política e sociedade nas periferias, os espectadores reclamaram da linguagem usada. Os moradores da periferia que assistiam às peças teatrais diziam que os atores usavam palavras difíceis, porém quando os atores perguntavam se eles entenderam a peça, eles alegavam que sim e que mesmo assim não gostavam da linguagem dos atores. Isto provavelmente aconteceu por se sentirem distantes da realidade dos atores ou por se sentirem menos inteligentes do que os atores; 

Outra observação é a seguinte: Prega-se pelas redes sociais que a ciência, principalmente as ciências humanas que são mais voltadas para resolver os problemas da sociedade, deveriam se aproximar dos mais pobres de maneira clara, pois eles são a maioria da população… 

Pois bem, minhas observações apontaram que não só há variados desafios para ensinar a maior parte da população do país, mas há uma combinação terrível de dificuldades: Além da linguagem ter que ser mais simples, o conteúdo a ser passado é muita coisa. E não se trata só de ensinar sobre as leis mais básicas (direitos no trabalho, por exemplo)... É preciso esclarecer como funciona a política, quais foram as conquistas políticas importantes, para que servem etc. É preciso ensinar até mesmo um básico de economia, ao menos para a população entender sobre de onde vem e para onde vai o dinheiro. Mesmo porque a economia é quase inseparável do emprego, do mundo empresarial e portanto inseparável do trabalho e das leis trabalhistas também. E daí fica nítido o quanto é desleal lutar contra as mentiras espalhadas pela internet e pela televisão: Consiga mais “likes” nas redes sociais, “Seja um empreendedor”, “O Agro é Pop”, “conspirações gayzistas e comunistas'', atos contra a família e contra Deus e tantas outras mentiras maliciosas. 

Muitos acadêmicos podem achar que essas mentiras são meras idiotices, mas na verdade a maioria destas mentiras usam as esperanças e a autoestima das pessoas. Essas mentiras usam desejos e sentimentos das pessoas e às vezes até incentivam e criam os desejos nas pessoas. É uma verdadeira era de manipulação mental cada vez mais ampla, pois está em todos principais lugares que as pessoas olham frequentemente: Whatsapp, Facebook, Instagram, Rede Globo, Sbt, Tv Record, Band, Jovem Pan etc etc… As verdades que surgem nestas mídias parecem minoria, pois em variados momentos são menos mostradas do que as mentiras. Não me refiro só às “fake news” que são basicamente boatos sensacionalistas, conspiratórios ou difamatórios, me refiro a manipulação mencionada anteriormente que são opiniões e propagandas vendidas como verdades. Então podemos concluir que há uma inversão dos valores em larga escala que já está fazendo um estrago que vai muito além do Brasil. 

 Para instruir a população de maneira mais rápida e ampla seria necessário tomar ao menos uma dessas mídias tão usadas pelas pessoas. Porém isto beira o impossível, afinal tais mídias servem a quem tem mais dinheiro. 

 E quem são os mais ricos? Como eles vivem? Bom, os mais ricos são multimilionários, pois não estamos falando de pessoas que ganham 6000,00 R$ ou 30.000 R$ por mês. Multimilionários acumulam facilmente dezenas ou até centenas de milhões de reais por ano, ou quem sabe até mesmo, por mês. Eles não gostam de se expor muito, mas é fácil achar alguns textos e fotos sobre eles em revistas que puxam o saco deles, como a Forbes e algumas outras. 

 Os donos das maiores empresas, os pastores milionários e por fim, os políticos e militares que aceitam propina dos empresários mais milionários, geralmente são os causadores de grandes problemas no mundo, pois eles são os corruptores e os corruptos. Tais problemas são sociais, econômicos ou até mesmo ambientais. Afinal eles controlam para onde vai o dinheiro e querem cada vez mais, que todas as coisas só sejam acessíveis por quem tem dinheiro. Isto parece esquisito para algumas pessoas, mas não é uma atitude sem sentido: É um desejo de ter cada vez mais dinheiro e bens, fazendo com que outros se esforcem por esta aquisição de fortunas. Sim, um tipo de escravidão, mas disfarçado de um sistema onde as pessoas conseguem coisas devido ao seu próprio mérito. A tal meritocracia que é mostrada como algo “natural”, mas não tem nada de natural, sequer devia ser chamada de meritocracia, já que é um sistema onde o mais rico compra as leis e pode cada vez mais, enquanto os pobres podem cada vez menos. 

De maneira mais clara é um sistema onde o mais egoísta ganha mais. Por ser um sistema social e econômico que favorece o mais egoísta e o mais ganancioso, talvez nem adiante eliminar o dinheiro ou todo o sistema em si, pois a maioria do povo cairia outra vez no discurso que o dinheiro (ou algum substituto do dinheiro) ainda é necessário. Daí a importância não só da instrução racional, como também da instrução dos sentimentos e suas respectivas expressões (as emoções). Isto é o que eu já mencionei em textos anteriores: Os verdadeiros estudos, a verdadeira ciência não pode ser separada do Bem. E não é difícil entender que o bem é a solidariedade, a equidade (igualdade de oportunidades), a justiça etc. 

 Isso seria uma utopia? Um sonho ingênuo? Talvez, mas a ideia não é nova, porque alguns filósofos mencionaram tal ideia há mais de dois mil anos atrás… 

 O que é Instrução e o que é necessário para se Instruir? 

 Se procurarmos em dicionários podemos achar as seguintes definições sobre o que é instrução: Ensino, ação de instruir, estudo, conhecimento, ciência, saber… Aqui temos definições gerais, ou seja, não tão precisas, mas sabe-se que tanto o ensino, como a ciência, possuem métodos para a construção do saber ou dos conhecimentos. 

Uma das condições básicas de todos os métodos para se estudar, para aprender ou para construir qualquer conhecimento, é deixar de lado os pré-julgamentos, evitando-se assim as opiniões influenciadas por criação (família etc), gostos, aversões etc. Isto tem muito em comum com a postura de humildade, de assumir que devemos aprender, porque não conhecemos suficientemente o determinado assunto a ser estudado em questão. Tudo isto não difere da postura básica necessária para a pesquisa científica, porém ainda assim, pouco se fala sobre a importância de não pré-julgar e de manter-se humilde para qualquer tipo de estudo, seja o estudo fundamental, médio ou acadêmico/ científico. Isto ocorre porque tais conceitos de humildade e receptividade (o ato de não pré-julgar) são tidos como muito “subjetivos” ou são tidos como sentimentos “muito individuais” de cada pessoa. Bom, se alguém pensa que trata-se de um assunto muito particular de cada ser humano, pensou errado. Seria particular se não afetasse o seu entorno, mas no ensino e na construção de conhecimento, afeta. E muito. 

 Na verdade estas questões foram abordadas e debatidas sim, durante parte do desenvolvimento das ciências, no mínimo, desde o século 17. Mas sua importância veio sendo diminuída gradualmente, possivelmente desde o momento em que o método empírico se chocou com a filosofia e com o surgimento da psicologia, no século 19. 

 Não é função deste texto aprofundar-se como o choque entre os cientistas empiristas e os cientistas fenomenólogos dividiu a psicologia, mas sim mostrar os caminhos que se formaram na construção do conhecimento. Parece complexo (e até é), mas basicamente estas separações aconteceram não só por causa da necessidade de entender as coisas (a natureza, a mente etc), mas também por causa das tendências de certos estudiosos e seus estudos, ou seja, as cisões aconteceram também por causa de opiniões. Até aí pode não ser absurdo, afinal o ser humano é falho, mas há alguns pontos de interesse sobre o que se diz e o que se pensa sobre opinião. 

 A opinião é discutida, definida e separada da ciência, já no período considerado como o surgimento da filosofia no ocidente, na Grécia clássica do século 4 antes de Cristo. De acordo com os filósofos socráticos, a opinião é mais relevante do que a ignorância, porém menos relevante do que a busca pelo saber/ conhecimento. 

23 séculos depois Husserl cria o método fenomenológico, mostrando que estudar só o que se percebe fisicamente (o método empírico) e o que pode ser reproduzido, já é um método com viés. Afinal, instruir as pessoas apenas sobre coisas que podemos ver, ouvir, tocar e cheirar, ignora muitos campos de estudo e tende ao tecnicismo, mostrando-se um método de ensino que prioriza a profissão, a produtividade e o mercado. Muitos dos motivos que fazem o ser humano tomar decisões são baseados em sentimentos, em crenças e interpretações, que quando ignoradas, geram distorções dos fatos, as quais chamamos vulgarmente (e muitas vezes, precisamente) de mentiras. 

Ser técnico é importante muitas vezes para entender e explicar determinados temas, mas muitas outras vezes, não é suficiente: Não explica os porquês de normas sociais e dos sistemas sócio-econômicos, e nem trabalha a importância da empatia, das relações sociais, das relações afetivas e dos sentimentos. Em outras palavras, afirmar que o estudo técnico e o método empírico são mais importantes ou mais verdadeiros que outros métodos, faz parte de um grande movimento reducionista pois se adequa bem ao discurso da competitividade desenfreada e de que tudo é naturalmente oriundo do mérito. 

E o que mais se adequa aos movimentos reducionistas? Os discursos apoiados em tradições, as externalizações toscas e as religiões punitivistas ou frias. Nenhum destes 3 exemplos são métodos de ensino nem de pesquisa, mas vão direto ao encontro da necessidade de sentimentos e de crenças, dando alguma motivação às pessoas. Assim, o desempregado, o desiludido e o pobre, sentem-se acolhidos num grupo (ao menos) aparentemente amigável. Obviamente, grande parte desses grupos, liderados por pastores, por exemplo, apenas enganam e extorquem seus seguidores e seus fiéis, dando em troca, breves discursos consoladores e talvez espaços para desabafos com choros e abraços. Outras vezes os discursos tradicionalistas ou “religiosos” quando são reducionistas, dão motivações bem torpes às pessoas, como criar rivalidade entre grupos e inventar inimigos. As externalidades são aqueles argumentos que alegam que um determinado fator não tem importância dentro de um tema. Por exemplo, ao conversar sobre meio ambiente, dizer que a falta de fiscalização das empresas que poluem ou desmatam, é um outro assunto menos importante. Por fim, a institucionalização nociva da religião é a demonização das outras fés, a criação de hierarquia e de autoridades absolutas em assuntos que deveriam ser essencialmente espirituais. 

Tudo isso é baixo? Covarde? Repulsivamente aproveitador? Provavelmente tudo isto, mas citei estes exemplos apenas para mostrar que é o outro lado que completa a doutrina reducionista baseada em materialismo, insensibilidade e imediatismo: 

De um lado o tecnicismo ignora sentimentos, crenças e interpretações incentivando a produtividade, e do outro lado, os cultos tradicionalistas e punitivistas, manipulam os sentimentos, crenças e interpretações, favorecendo os mais multimilionários e mais poderosos.

Métodos de ensino, do fundamental ao acadêmico/ científico, que sejam baseados apenas em tecnicidades, deixam uma falha enorme na construção dos indivíduos e das sociedades formadas por esses indivíduos. E muitos dos estudos feitos por métodos tidos como supostamente mais objetivos, foram feitos com motivações não exatamente nobres, nem ao menos foram concebidos pensando no bem da sociedade ou da maioria dos habitantes de uma nação ou da Terra. 

 Segmentação e Reducionismo - Como Combater 

Então, o reducionismo no ensino e nas pesquisas, nem sempre foi acidental. Seria possível vasculhar a história dos métodos científicos e analisar quais dos seus criadores e contribuintes estavam interessados em se beneficiar, quais se interessavam e beneficiar a poucos e quais tinham uma visão mais ampla, preocupando-se com grupos maiores de pessoas. Destes últimos, poderíamos ver quais tiveram uma postura de humildade em suas pesquisas, e quais eram mais receptivos às outras áreas do saber, seja desenvolvendo acidentalmente, ou intencionalmente, uma empatia com o próximo. 

Porém, aprofundar-se na história dos métodos científicos e de seus criadores é um assunto extenso, para não dizer profundo, e terá que ficar para um possível futuro. 

O que está sendo tratado aqui é o seguinte: Segmentação é reduzir a grupos com pouco ou nenhum contato entre si. E esta redução é um reducionismo (óbvio). 

Estes grupos de estudiosos tinham em comum um linguajar supostamente científico, ou supostamente técnico. Um linguajar difícil, que a maior parte das sociedades, pobre e com pouco ou nenhum estudo, simplesmente não entendia. E ainda não entende. 

Hoje, neste início do século 21, temos divulgadores científicos, mas que concorrem na internet com youtubers e tantos outros conteúdos aleatórios, muitas vezes intrusivos e de viés consumista (propagandas aos montes, por exemplo). Esta concorrência é difícil, possivelmente até desleal, já que algoritmos priorizam para que as pessoas vejam mais propagandas e conteúdos imediatistas na internet, lucrativos para seus anunciantes. Então quais seriam outros meios necessários para a instrução das massas? 

Algumas medidas já foram tomadas, mas correm o risco de serem canceladas e desaparecerem: Programas de bolsas de ensino para que as pessoas estudem de graça em faculdades. Outras medidas parecem longe de serem tomadas: A facilitação do linguajar técnico e científico, tanto para maior entendimento das leis dos países, como para o desenvolvimento de pesquisas científicas. Esta facilitação vem sendo discutida há anos, mas aparentemente nada foi resolvido ainda. 

A maioria da população mundial é formada por pessoas com pouco dinheiro e pouco estudo. Enquanto o conhecimento se manter separado/ distante da maioria das pessoas, estas permanecem servindo de marionetes para quem tem mais poder, seja econômico, político, militar ou até religioso. 

As ciências como conhecemos hoje, de maneira resumida, se desenvolveu há cerca de 4 séculos. E continua isolada, elitista, numa frágil bolha inacessível pela maioria pobre, e frequentemente desprezada, quando não manipulada, por outros círculos de poder como os mencionados há pouco: Os poderes econômicos, religiosos, políticos e militares. A ciência e os estudos em geral não devem ser alienados nem alienantes. Eles devem conversar com a maioria das pessoas e integrá-las na sociedade. Isto não é um discurso meramente “pró achatamento de camadas sociais”, é um discurso a favor da verdade e do desenvolvimento intelectual e empático dos seres humanos…

sexta-feira, 30 de abril de 2021

3º Bê a Bá da Realidade: O que é Ciência

 

O que é ciência? 

Aquela coisa chata que estuda líquidos em tubos de vidro e ratos em laboratório? Não… 

Ah, é um estudo feito de qualquer maneira? Não novamente… 

Então ciência é tudo o que podemos testar e comprovar? Também não! Testar está mais para um método de construir conhecimento. 

Para entendermos algo é sempre razoável saber sua história… O termo Ciência surge na antiguidade clássica da Grécia com filósofos como Sócrates e Platão (de novo eles). Tais filósofos, ou amigos do saber, afirmavam que era importante a busca pela verdade e pelo Bem. Porém hoje em dia considera-se que tais filósofos não eram cientistas porque seus métodos tinham falhas, eram insuficientes para descobrir a(s) verdade(s) e coisas assim… Aí voltamos a uma questão interessante: O método! Esta palavra vem da união de duas palavras gregas: metá (que significa meio, através de, ou reflexão, raciocínio, verdade) e hodos (que significa caminho, direção). Basicamente trata-se de um meio, uma maneira de ordenar ou de estruturar o conhecimento. Este conhecimento é a busca ou aproximação da verdade que os filósofos Sócrates e Platão não dissociavam do Bem. 

Obviamente definir o Bem pode ser um outro assunto profundo, mas estes filósofos da “Grécia Antiga” resumidamente definiam como o Bem o ato de cada pessoa desempenhar sua função da melhor maneira possível, sem má vontade e principalmente sem desejar grandes riquezas materiais e sem desejar intensos prazeres materiais. 

Voltando à ciência, o que ouvimos por aí como definição de ciência é na verdade a definição de um (apenas UM, único) método de construção do conhecimento: O método empírico. Porém o método empírico, assim como tantos outros métodos surgiram da filosofia! Isto aconteceu porque praticamente todas as formas de estudo até o século 17 eram baseadas em obras bastante antigas como a dos filósofos gregos do século 4 aC e da filosofia natural da igreja católica do século 12. Nas dinastias chinesas, a ciência se desenvolvia com longos períodos de pausa e sem métodos ou sistematizações, enquanto no subcontinente indiano, após o século 7, métodos de aquisição de conhecimento ocorreram misturados às reformas religiosas e sociais. Eis que então, o francês René Descartes, “lança” o método racional em meados do século 17, também chamado de racionalismo, marcando o início de uma tal revolução científica. Na última década do século 17 os britânicos desenvolveram o empirismo, argumentando que não bastam métodos de raciocínio e de reflexão para se construir conhecimento: Para os empiristas o verdadeiro conhecimento só se dá através da experiência sensorial e da possibilidade de testar, geralmente repetindo os experimentos. Vendo o reducionismo de tal ideia, outros pesquisadores desenvolveram novos métodos após o método empírico: A fenomenologia, método de Edmund Husserl (século 19), ao invés de apenas racionalizar ou só experimentar, buscou entender como as coisas são feitas/ como o fenômeno ocorre (a essência das coisas e a própria consciência): Ainda que seja considerado polêmico por uns e que seja desprezado por outros, o método fenomenológico foi o 1º método a questionar o método empírico (e o racionalismo), buscando uma renovação, ou seja, foi desenvolvido a partir do contraponto com estas correntes anteriores. Afinal a verdade não está no “meu pensamento” nem apenas na experiência (na testagem etc); Esta corrente científica, ou método, criticou o fato do empirismo estudar apenas o sujeito passivo; só descrevendo o que vê externamente e também criticou o positivismo que negava a subjetividade, valorizando só a verdade do conhecimento objetivo. Além disso, pelo fato de considerar a intenção do ser humano e seu viés construído ao longo de sua história e de seu contato com a sociedade, o método fenomenológico passou a ser mais empregado nas ciências humanas, como a geografia, a sociologia e na psicologia. Já no século 20 a física subatômica deparou-se com situações cujas as pesquisas empíricas se mostraram inconclusivas. A partir daí desenvolveu-se a teoria geral dos sistemas, um outro método (ou corrente) científico… 

Pois é, a ciência tem muitos métodos e provavelmente não existe um melhor ou um pior. Talvez existam situações em que um método é mais eficaz que o outro, mas o problema é que existe um método dominante na ciência (ao menos na América e em partes da Europa): O método empírico. Daqui em diante é importante ser claro e para isso é útil fazer a seguinte distinção: O método empírico é só o método que prioriza a experiência sensorial e a reprodutibilidade dos experimentos (não deveria ser considerado a ciência em si). O empirismo é a filosofia, ou o pensamento que alega que o verdadeiro conhecimento SÓ se dá através da experiência sensorial e da reprodutibilidade da experiência. Esta filosofia, é uma doutrina que descarta todos outros métodos, classificando-os como filosofias separadas da ciência ou em alguns casos, classificando-os até mesmo como pseudociências. É daí que surge a ideia, um tanto enviesada, de que a ciência é o método empírico. 

O Método Empírico e a Psicologia 

Utilizar apenas os (cinco) sentidos do ser humano para o estudo e priorizar a possibilidade de repetir as experiências (o método empírico e obviamente o empirismo) não é suficiente para estudar aspectos da mente humana como os sentimentos e o inconsciente das pessoas. Em outras palavras, através do empirismo não é possível considerar sequer o conteúdo da fala do paciente. Este conteúdo muitas vezes não é comprovável e as experiências do paciente não podem e/ou não devem ser repetidas para uma comparação ou para uma confirmação. É preciso considerar as possíveis causas dos problemas, dos sofrimentos, dos desabafos e das solicitações do paciente/ cliente. Estas causas podem ser fatos que tornaram-se parte do passado ou objetivos que talvez no futuro se concretizem. O método principal das psicoterapias é a fala do paciente e a escuta do terapeuta, portanto a psicologia se apoia nesta relação. Os fatos do passado fazem parte da construção psíquica de cada indivíduo. Seu repertório, opiniões, preferências etc. Os objetivos do paciente podem ser muitos ou poucos. Talvez, em determinados momentos da vida, não haja objetivo algum. Mas de qualquer maneira parece importante entender isto, para determinar, ou ao menos, perceber a direção que o paciente está seguindo. Esta direção está ligada aos conceitos do sentido da vida e das auto-realizações das pessoas, aparecendo nas abordagens analíticas e humanistas (incluindo a logoterapia). 

Portanto, a psicologia bem como vários outros campos da ciência requerem uma maior empregabilidade de outros métodos científicos, como a fenomenologia ou a teoria geral dos sistemas. Obviamente, qualquer que seja a teoria, ela não deve obedecer interesses particulares se o objetivo for científico, ou seja, a busca pelo conhecimento e pela verdade. 

A busca e construção do Conhecimento 

Esta busca e/ou construção exige uma expansão não só de informações acumuladas, como também exige uma expansão de atividades psíquicas (estudo, raciocínio, ativação da memória etc), pois além de acumular conhecimento, através deste processo o cientista ou estudante deve descobrir e entender as relações entre fatos, entre os corpos, enfim entre os campos do saber. Como um processo de expansão ele jamais deve submeter-se aos interesses mencionados anteriormente. Como a própria palavra SUBmeter indica em sua etimologia, a submissão consiste em um processo de colocar-se abaixo, ou seja, a ciência jamais deve ser colocada abaixo dos interesses de poucos. Além disto, colocar as pesquisas e os conhecimentos em segundo plano diante destes interesses e / ou submetê-los a estes, também indica um dos seguintes processos: Estagnação ou retração. O primeiro indica paralisia, impedimento e talvez adiamento da construção de conhecimento ante os interesses de poucos. Já o segundo, a retração, pode e deve ser considerada como um processo de regresso ou, mais precisamente, de retrocesso, pois um retrocesso pode ser desde a destruição de bibliotecas (físicas ou digitais) até o impedimento de estudos e de pesquisas (seja encerrando programas de incentivo, fechando universidades etc). Estes são processos contrários à expansão. É onde o conhecimento é escondido ou mesmo destruído em benefício de alguns, em geral uma minoria com algum poder ou influência significante, seja sobre a ciência, sobre a economia ou sobre a sociedade. Embora não seja difícil entender quais minorias têm poder sobre setores importantes das sociedades humanas, vale a pena explicar de maneira clara, ou seja, relacionando com o que já foi abordado aqui: A ciência. 

 Como já foi dito, o empirismo não é capaz de explicar todos os assuntos das ciências. Isto ficou mais evidente nas ciências humanas, mas também pode ser percebido na biologia (ao estudar biomas e meio ambiente, por exemplo) e até mesmo na física subatômica. Isto não retira a importância do empirismo nas ciências, apenas mostra a necessidade de métodos que complementem a ciência ou que supram suas necessidades ainda não atendidas. A ciência está em desenvolvimento e este desenvolvimento também é um processo expansivo: Não há redução de conhecimentos nem negação dos saberes ou recuo diante o desconhecido. Quem quer impedir o avanço, ou mais especificamente a expansão da ciência, defende estagnações e retrocessos. Prefere deixar algumas coisas como estão e ocasionalmente desfazer conquistas e estruturas que sustentam... Mas que estruturas e conquistas? Obviamente aquelas que servem a maioria, aquelas que dão mais oportunidade a todos e que equilibram o meio, seja ecológico, social etc. Para haver equilíbrio devem-se reduzir pontos de concentração que causam desequilíbrios, deve-se reduzir a destruição dos biomas, a desigualdade social (hiper concentração de bens e de renda), as restrições de acesso à educação e à informação... Isto é um processo de expansão e de equilíbrio: Buscar o bem do maior número de seres vivos possível. 

Conclusão

Então a ciência é a busca pelo saber e pela(s) verdade(s). É a construção de conhecimento através de um método, mas NÃO só um método. Por isso é importante parar de espalhar a balela que ciência é só a utilização dos (cinco) sentidos para o estudo e a realização de experiências ou testes passíveis de reprodução. Isto é só o método empírico. É só um dos 4 métodos citados neste texto (fora outros possíveis métodos). O método é importante para evitar que qualquer opinião seja vendida como conhecimento. O desenvolvimento dos métodos científicos a partir da filosofia foi importante para impedir o bloqueio aos estudos feito pelas igrejas, que eram instituições de grande poder até os séculos 17 e 18. Foi importante para o desenvolvimento das tecnologias nas civilizações.

O “cientista” que ataca outros métodos científicos fora o seu favorito, não é um cientista de verdade. É um religioso, talvez até um fanático. É como um orgulhoso engenheiro que alega que as ciências humanas são inúteis. É como o médico que receita medicamentos psiquiátricos a um paciente, sem este passar por uma psicoterapia. É como o empresário milionário que alega ser liberal, mas destrói a concorrência criando oligopólio. É como o idoso aposentado, que crê em conspiração gayzista e chama os serviços de assistência social de coisa de vagabundo...

segunda-feira, 8 de março de 2021

Grandes Personagens

 


A última vez que escrevi de verdade neste blog foi em maio do ano passado, tínhamos 19000 mortos, passamos de longe agora com bem mais de 10x esse valor, mas este não é o motivo principal para escrever por aqui.

Hoje é um dia interessante, 8 de março é o dia internacional da mulher. Normalmente eu não dou a mínima para datas comemorativas, quando alguém fala para mim 'feliz dia do geógrafo' ou 'feliz dia do profissional de TI', dá vontade de existir em outra dimensão por alguns instantes (pera, essa vontade bate o tempo todo).

No entanto essa data tem raízes no movimento operário e é um dia muito válido. É claro que aquelas mensagens no grupo do trabalho dão vontade de sair dele (pera, essa vontade bate o tempo todo). Homem dando parabéns e distribuindo florzinha também intensifica o ambiente de imbecilidade. Para mim, esse dia é um dia delas, para refletir, organizar e se reunir. Aos homens restam o apoio e a solidariedade.

Mas o que esse assunto tem a ver com o título e com a foto? O segundo motivo dessa data ser interessante vai explicar melhor: o ministro do STF, Edson Fachin concedeu o habeas corpus pedido pela defesa de Lula por incompetência da 13 Vara Federal de Curitiba, incompetência, creio eu, não no sentido mais óbvio da palavra (o que com certeza se aplicaria), mas por regrinhas xaropes do judiciário.

E o que o segundo motivo tem a ver com o título? Bem, o livro na foto pertence à coleção lançada pela moribunda editora Abril, e um dos livros dessa coleção começava com a frase "Grandes personagens fazem a história ou a história forma grandes personagens?"

Achei relevante neste momento, pois os dois motivos que citei anteriormente possuem sentido oposto. No primeiro, não há um grande personagem, a história foi construída pela luta coletiva e greves, muitas greves. No segundo, temos um grande personagem, quem também lutou e liderou diversas greves, e portanto, como se dizem por aí, 'fez história'.

O terceiro motivo é avaliar um outro grande personagem, embora eu só posso considerar 'grande' no sentido de 'grande vilão', Josef Stalin. Este motivo se soma aos outros no texto porque o 'neostalinismo' é algo que anda mostrando sua cara deformada nos dias de hoje.

Nós vivemos tempos extremos, ao mesmo tempo que a internet conecta pessoas e abre a possibilidade de multidões 'fazerem história', a própria difusão de ideologias e de 'influenciadores digitais' parecem exacerbar a necessidade por figuras agregadoras, 'grandes personagens'.

Bolsonaro não é fruto direto das classes dominantes, ele serviu aos seus propósitos, mas foi 'adotado' conforme foi adquirindo popularidade, principalmente pelos meios digitais. Lula, após o governo destruído de Dilma, apareceu novamente com enorme capital político (tão enorme - dentro das limitações de ter travado uma guerra midiática que surrou seu partido - que decidiram tirá-lo da jogada com a palhaçada que a Vaza-Jato escancarou).

Figuras obscuras, como Olavo de Carvalho (para mim ele deveria aparecer com algum Tele 900 de astrólogo, a la Walter Mercado - 'Ligue já!'), quem obteve status de guru da nova direita, também por meios digitais, e como o patético Nando Moura, novo personagem cartunesco, surgiram na cena.

Essa busca por grandes personagens é mais comum em jovens. É normal você crescer se espelhando em figuras proeminentes, quem bradam seus objetivos e ideias, que acabam sendo parecidas com as suas. Em uma época da vida que é muito mais fácil de se agarrar a dogmas. Em um mundo incerto, o jovem busca dogmas para se ancorar. A cada novo dogma entendido e incorporado, o jovem se sente mais confiante, afinal, a vida tem que ter algum sentido.

Mas alguns jovens acabam por não se tornarem adultos, e a idade não traz a sagaz dubiedade que derruba os dogmas e acaba com a arrogância ou ignorância. Entretanto, mesmo aqueles que envelhecem e derrubam alguns dogmas, procurando obter esclarecimentos, podem se ver emaranhados na teia de caos que é a realidade. No emaranhado existe a possibilidade de você obter esclarecimentos que são obscurescimentos na verdade, e sair propagando ideias contra-produtivas.

O stalinismo disfarçado entre pessoas 'esclarecidas' é perigoso. Vamos resumir: Stalin foi um ditador que montou sobre a revolução popular, exterminou as lideranças revolucionárias, atacou o próprio povo e agiu como um imperialista não-capitalista. As conquistas populares da URSS e do restante dos trabalhadores no mundo se embaralham com o fracasso, covardia e incapacidade de Stalin e sua burocracia anti-revolucionária.

A defesa de Stalin se respalda no suposto combate à propaganda de direita e, pelo menos aqui no Brasil, na necessidade por figuras autoritárias. Essa necessidade se dá pela falta de confiança no povo, nas pessoas. Ela cheira a eugenismo. Eu mesmo, não consigo angariar força mental para confiar no povo, porque a propaganda que serve como meio de controle ideológico das classes dominantes forma uma atmosfera pesada e imutável que drena minhas forças. Como diria o agente Smith para Morfeus, 'eu consigo saborear o seu fedor'. Mas minha falta de força não é o mesmo motivo dos eugenistas.

Essa defesa é falha porque stalinismo não é marxismo. Poderia-se dizer que stalinismo é uma espécie de esquerda maluca, mesmo que o seja, é uma esquerda maluca que deve ser combatida. Se é para você acreditar em contos da Carochinha, então acredite na centro-esquerda, social democrata, é menos feio.

Uma figura autoritária não vai resolver os problemas do povo. É difícil de acreditar que o homem mais santo da Terra não se corrompesse com poder sem restrições. Mesmo que tivéssemos um santo mão-de-ferro, o poder deve ser partilhado. Os homens são iguais, e portanto devem decidir em conjunto suas vidas. Isso passa por igualdade absoluta entre homens e mulheres e respeito à individualidade sem danificar a coletividade.

Enfim, qual é a resposta para a pergunta feita no livro da Abril? Não creio que haja resposta definitiva, o meio forma o homem, e o homem altera o meio. É um caminho de duas mãos que envolve o tempo e a individualidade.

Neste momento estamos mergulhados em trevas tão profundas que talvez se apoiar em um grande personagem na esperança que ele alavanque os homens e mulheres a fazerem sua própria história e até o superarem, possa ser aquela pequena chama que nos guia para fora do abismo. Lula poderia ser esse personagem, grande ele já é. Claro que esta é apenas uma mensagem de otimismo para contrapor o realismo de sempre que me cerca.


P.S.: Em parte, o terceiro motivo da postagem foi incluído aqui porque eu concordei bastante com este texto: https://www.causaoperaria.org.br/uma-defesa-aberrante-do-stalinismo/

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A Ciência e o Bem

 

Os Sentimentos e o Bem são desprezíveis? 

Decidi escrever este texto após me lembrar de alguns diálogos com professores do curso de psicologia e de conversas de pessoas debatendo sobre o direito de lucrar contra a responsabilidade social. Os professores aos quais me refiro eram respectivamente de psicologia comportamental e de "ciências neurológicas". 

Resumindo à grosso modo para quem não sabe, a psicologia comportamental (behaviorismo) é uma vertente, ou seja, uma abordagem da psicologia, que lida mais com o presente se comparada com a psicanálise e com a psicologia analítica. Além disto, como ciência, o behaviorismo se apoia mais nos métodos empíricos e racionalistas, enquanto a psicanálise e as abordagens humanistas se apoiam mais em um método fenomenológico.

Pois bem, em uma das aulas, o professor que atuava na área de psicologia comportamental, alegou em tom de deboche, que sentimentos como o amor eram muito subjetivos e portanto menos importantes do que as ações e reações dos indivíduos. Já o professor da área de neurologia, hesitando um pouco, comentou que o amor era apenas uma reação eletroquímica no sistema nervoso. E por fim, as pessoas que debateram a importância do lucro contra a importância da responsabilidade social, talvez pareçam estar abordando um tema totalmente diferente da psicologia, mas na verdade também se trata de se sentir como estão os outros seres. E "sentir", assim como o sentimento, é um objeto de estudo da psicologia, ou ao menos, de algumas abordagens que se dispõem a estudá-lo.

Os sentimentos não são científicos, ao menos, por enquanto. Eles não podem ser medidos nem classificados nos conformes da (ainda débil) ciência humana tão amarrada ao conceito do empirismo desenvolvido há cerca de 3 séculos, e ao materialismo. Portanto benevolência, amor, humildade são tratados como assuntos muito subjetivos pela maioria dos cientistas, céticos, ateus, materialistas… Na verdade estes temas são considerados subjetivos ou secundários até mesmo por muitos dos supostos religiosos e “espiritualizados”.

Platão (428 a.C. - 347 a.C.), o famoso filósofo que viveu na Grécia por volta do século 4 antes de Cristo, alegava a importância de ter o Bem como centro de todas as coisas. A partir disto alegava a importância da razão e busca pela sabedoria e trabalhava sempre com o que é possível, ou seja, a possibilidade de progredir. Platão e seu mestre, Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.), são considerados os fundadores da filosofia ocidental, ao menos se desconsiderarmos os poucos fragmentos remanescentes das obras de filósofos anteriores... Se formos considerar tais obras fragmentárias, o título muda para Tales de Mileto (624 a.C. - 546 a.C.)

Resumidamente, os filósofos (amantes do saber, ou seja, aquele que ama o conhecimento) eram os cientistas da antiguidade e Platão (e/ou Sócrates) os idealizou como os indivíduos mais adequados para governarem a sociedade. Portanto todo o conhecimento deveria ser buscado e aplicado para o bem do maior número de pessoas possível. Isto pode parecer “apenas” benevolência, mas na verdade, também é progresso. Então o que deu errado? O que impossibilitou a busca pelo bem e pelo saber situarem-se no centro da civilização humana? Possivelmente a mesma coisa que deu errado em outros momentos da história humana. Ao ler A República, livro onde Platão conta como Sócrates idealizava melhorias na sociedade junto a outros indivíduos, nota-se que o filósofo cogitava fazer uma espécie de conversão / revolução nas cidades estado helênicas (gregas) a começar pelas altas classes sociais. O termo revolução aqui refere-se às propostas de Platão para a mudança nas estruturas governamentais. Já o termo conversão refere-se mais às propostas de convencer a aristocracia à valorizar a busca pelo bem (virtude) e a realizarem as funções designadas por suas respectivas classes e cargo/ profissão. Porém, ao lidar com os indivíduos mais poderosos das cidades estado gregas, Platão não conseguiu remover a avareza nem o orgulho destes. Ideias sobre a existência da alma persistir além da morte do corpo e que isto implicaria em recompensas ou penas além da vida material, deviam incomodar os poderosos. Governar pelo próximo e para os outros deve ter incomodado mais ainda. Sócrates que havia começado a fomentar tais ideias em Atenas antes de Platão, sofreu acusações, entre elas, a de corromper a juventude e de impiedade, um tipo de heresia / blasfêmia da época. Por isso acabou condenado a tomar um veneno mortal (sicuta). Aceitando as leis de sua época, Sócrates encarou a morte sem medo, pois sabia que fizera a coisa certa e que nada garantia que sua alma pudesse ser destruída. 

Fica uma questão: Seria a filosofia iniciada por Sócrates e Platão, mais deficiente do que a ciência atual do século 21? Alguma das virtudes defendidas pelos dois filósofos prevaleceu em nossa civilização ocidental alguma vez? A temperança/ moderação, o bom senso, a piedade, a justiça, a verdade, o bem? Parece que não.

 Neutralidade: Ignorância ou mera Opinião. 

Atualmente (mais precisamente a partir desta segunda década do século XXI) estamos vivendo a era das "fake news", um processo que faz parte da "pós verdade", ou seja, a trágica desvalorização dos fatos diante as narrativas. Neste processo surgiram novos governos "populistas" de direita, ou seja, governos que utilizam-se de sensacionalismo, menosprezando as ciências e manipulando os tabus sociais, as tradições (conservadorismo) e os fervores da população, como citei neste outro texto: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/04/a-corrosao-social-persiste-atraves-das.html

As pessoas dominadas por tabus sociais e/ou tradições em geral não se interessam pela ciência ou não tiveram acesso à ciência. Portanto seus modos de pensar dão espaço à predominância de sentimentos e emoções, tendo pouco espaço para a racionalidade. Independentemente se estes sentimentos e emoções são positivas ou negativas, os governos chamados de populistas aproveitam-se desta característica, assim como as mídias sensacionalistas também o fazem. Estas pessoas “distantes da ciência”, não têm conhecimento sobre política nem sobre sociologia ou geografia e se mantém “neutras” até serem manipuladas. Suas opiniões dificilmente se baseiam em fatos já que são alvos de manipuladores como os mencionados há pouco. 

A Ciência deve ser Neutra? 

Desde a ascensão destes governos entre 2016 e 2018, começou-se a discutir a necessidade da ciência se aproximar do povo. Mas porquê? A resposta ficou mais nítida no ano de 2020: Com a propagação da pandemia do covid-19, variados absurdos vieram à tona, em geral, um negacionismo generalizado da ciência. Isto ocorre porque a ciência que era apenas afastada das classes sociais mais humildes, em geral das massas com difícil acesso à uma renda digna e aos estudos, agora também foi afastada de grande parte das classes médias e altas. Não é teoria infundada, é fato que inúmeros pequenos empresários ficaram em pânico com a ideia de falir e de perder poder aquisitivo por causa das medidas de afastamento social. Esta classe em pânico se agarra às promessas absurdas, negam a letalidade do vírus e acham natural, ou até mesmo lógico, o relaxamento das medidas de afastamento social mesmo com um elevado número de pessoas sendo infectadas. Os mais abastados (multimilionários) também não precisam mais da ciência, pois estão mais preocupados em permanecer no topo da hierarquia sócio econômica. 

Portanto a comunidade científica dominada por uma pseudo racionalidade permaneceu cega sobre alguns fatos óbvios desde o século XX: Não existe sentimento neutro em ser humano algum e portanto não existe pensamento neutro. Não existem expressões dos sentimentos (emoções) neutras e por fim, não existem ações/ comportamentos neutros, pois para existir neutralidade nestes campos não poderiam existir relações, nem intenções, nem opiniões. O que existe são sentimentos positivos e negativos. A partir daí surgem emoções (expressões dos sentimentos) amistosas ou hostis, boas ou más. Existem os pensamentos altruístas e egoístas e o mesmo vale para as atitudes e comportamentos. Para que existisse um pensamento neutro, não poderia existir nada além do pensador: O ser pensante ou pensa priorizando a si mesmo ou pensa priorizando a(s) outra(s) pessoa(s). A indiferença só existe em relação à alguma coisa, pois ninguém pode ser indiferente à nada. Portanto o pensamento "indiferente" é aquele que não se importa com algo (com algum assunto, alguma pessoa, algum grupo etc). Geralmente este tipo de pensamento tende a ser o egoísta, pois é voltado para si mesmo ou prioriza uma minoria. Obviamente esta dualidade é mais nítida nos sentimentos e nas emoções, pois no campo mais "racional" parece ser aceita a suposta neutralidade nos assuntos. 

Então vamos mostrar alguns exemplos da impossibilidade da neutralidade: Descobre-se como construir celulares com internet. O que será feito desta descoberta? Será difundida em algum setor da infraestrutura de um (ou mais) país(es) ou será comercializada visando o lucro de determinada empresa, mais especificamente de seus proprietários / acionistas? Descobre-se a vacina para uma doença mortal que se espalha rapidamente. O que será feito desta descoberta? Será difundida em algum setor da infraestrutura de um (ou mais) país(es) ou será comercializada visando o lucro de determinada empresa, mais especificamente de seus proprietários / acionistas? 

É possível afirmar que os pesquisadores estejam neutros em sua pesquisa? Bom… Esta neutralidade presume que os cientistas que estão pesquisando determinado campo de estudo em busca de descobertas, não tenham a mínima ideia o que será feito com sua possível descoberta. E isso é de uma grande ingenuidade. Será que os cientistas são tão ignorantes em relação ao destino de suas pesquisas / descobertas? 

Ainda assim, a culpa ou responsabilidade não deve ser depositada simplesmente sobre a comunidade científica: Antes de encontrar culpados é necessário deixar claro que não há neutralidade de fato. Um cientista pode ignorar o destino de sua pesquisa por algum tempo, pode ter boa ou má intenção em sua pesquisa, mas o que determinará o destino da descoberta podem ser (e geralmente são) outras pessoas. Geralmente pessoas com poder econômico, político ou ambos. E a decisão final não será feita com neutralidade! O pensamento e/ou a ação (chame do que quiser) final sobre a descoberta científica terá uma preferência em privilegiar uma minoria ou uma maioria de pessoas. E óbvio, que o pensamento dinheiro-cêntrico pensa em favorecer uma minoria, pois se trata de acumular grandes fortunas para poucas pessoas. 

Portanto a “neutralidade”, ou mais precisamente a indiferença, sempre serve a alguém, sempre serve um lado. No caso de uma sociedade, cuja a maioria da população não tem entendimento sobre a função do estado, nem sobre para onde vai o dinheiro num sistema que favorece predominantemente quem tem (muito) mais dinheiro, a tendência é o pensamento indiferente. Indiferente a que? Indiferente a tudo que não seja si mesmo e talvez algumas pessoas próximas, de preferência que não discordem muito de suas ideias. Logo esta indiferença diante as necessidades coletivas serve às minorias mais endinheiradas (eu sei… isto também é óbvio). 

Enfim, creio que seja importante remover esta máscara da neutralidade, não só como possibilidade política ou de opinião pública, mas também em todos os campos da ciência. Removendo a máscara, fica óbvio que existem intenções altruístas e intenções egoístas. Fica claro que existem as decisões e atitudes que visam favorecer poucos e aquelas que visam favorecer a maioria.
E falando em intenções, estas começam na mente humana, não importando se você é um ateu convicto que alega que os sentimentos são apenas reações químicas no cérebro, ou se você é um religioso que alega que tudo começa na alma. Tendo em vista que todas intenções, sentimentos e pensamentos se formam na mente, é natural que a ciência designada a estudar o pensamento, as emoções e o comportamento humano, seja a primeira a abandonar a falácia da neutralidade: A Psicologia deve ser a primeira ciência a posicionar-se contra o interesse de poucos e contra o prejuízo da maioria.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Moda - Uma "verdade" fabricada há milênios?


Moda é algo que vem e vai. Embora definida como um comportamento, ou um costume, de um determinado grupo de pessoas durante um período, a moda não pode ser apenas isto. Primeiramente, nem todo comportamento é moda. E moda também não pode ser definida simplesmente como costume, já que o costume pode perdurar inúmeras gerações como certas tradições em alguns locais do mundo…

 Também ouve-se o termo moda como sinônimo de tendência, mas isto é algo subjetivo e pouco explicativo, pois a moda requer um artigo (item) de moda, que por sua vez, é idealizado e/ou produzido por alguém. Por parte dos indivíduos que consomem ou utilizam o artigo de moda, podemos descrever o seu comportamento como “querer parecer com os outros”, ou “querer estar atualizado”. Já por parte de quem produz os artigos de moda, pode-se definir que se trata de uma imposição de opinião disputada pelos idealizadores ou produtores dos artigos em questão. Não se trata só de roupa, qualquer bem de consumo pode “se tornar” moda ou “deixar de ser” moda. 

 Talvez a maioria dos sociólogos liguem o fenômeno da moda com a era-pós moderna que começou a surgir em meados dos anos 60 e se consolidou em meados dos anos 80. Uma época de valorização da apresentação das coisas e de desvalorização dos fatos. Tanto a moda como a valorização da apresentação ante os fatos foram fenômenos que se apoiaram no desenvolvimento/ crescimento das mídias que tanto serviram o setor de propaganda e publicidade: O rádio, a televisão e todos os impressos como cartazes, outdoors, jornais, revistas etc. 

 Mas a moda parece ir além dessas mídias: Tudo ou quase tudo parece passível de ser apropriado pela moda, até mesmo coisas imateriais como a ciência e a religião. A verdadeira ciência não deveria ser afetada pela moda, assim como a fé também não deveria, mas como são temas respectivamente ligados ao raciocínio/ conhecimento e ao sentimento/ intuição, eles acabam sendo afetados também. Como exemplos imaginem as seguintes situações (baseadas em fatos reais, mas com pouca precisão): 

 Um arqueólogo após estudar as pirâmides de Gizé no Egito fotografa um ou mais símbolos no interior de um dos monumentos e chega a conclusão que tais símbolos representam o faraó Khufu que viveu por volta de dois mil e seiscentos anos antes de Cristo (2600 aC) no Egito. Anos depois, um grupo de arqueólogos estudam as mesmas pirâmides com meios (ou tecnologias) mais avançados para a leitura e identificação de pinturas e/ou de esculturas nas superfícies do local. Este grupo identifica que o símbolo encontrado pelo 1º arqueólogo foi pintado na época em que o mesmo estava a estudar as pirâmides, ou seja, não foi pintado pelo faraó nem por ninguém que viveu na época do faraó (2600 aC). A comunidade científica se dividiu, e embora eu não saiba o fim do desfecho, o fato é que se os apoiadores do 1º arqueólogo não conseguirem provar sua visão de maneira científica, ela não é verdadeiramente científica... É uma moda ou mera opinião transvestida de ciência. O mesmo pode valer para o grupo posterior de arqueólogos, caso seu método esteja errado. 

 Origens da Astrologia (e da Astronomia) 

Saindo dos campos racionais e entrando nos mais intuitivos, como no meio religioso e esotérico, também é possível encontrar modas: Tarot, astrologia e até a segmentação da religião, tudo parece passível de “se tornar moda”. 

Vejamos a astrologia: Historiadores e/ou arqueólogos dizem que é uma prática muito antiga. É possível que a astrologia tenha surgido com a necessidade que o ser humano teve de observar os céus para entender fenômenos climáticos ou até astronômicos. Esta necessidade se intensificou por volta de 5000 aC na transição da idade da pedra (em sua última fase, o neolítico) para a 1ª idade dos metais (o calcolítico ou a era do bronze), porque o ser humano passou a praticar a agricultura em algumas regiões da Terra. Alguns séculos depois (por volta de 3500 aC), o ser humano passou a utilizar navios (uma evolução das embarcações mais simples como jangadas e/ou canoas) para comercializar entre civilizações, precisando mais uma vez, desenvolver conhecimentos a partir da observação do céu e de seus fenômenos e características como ventos, nuvens, posições das estrelas etc. A astrologia se desenvolve em períodos como estes juntamente com a astronomia, pois o ser humano não fazia distinção entre estes dois campos como se faz hoje. A distinção só foi iniciada a partir da Europa em meados do século XVII, ou seja, muitos séculos depois. Alguém poderia perguntar como o ser humano não fez esta distinção antes? São coisas muito diferentes entre si! Eles eram idiotas? 

A resposta mais comum diz que os seres humanos da antiguidade eram muito supersticiosos ou até mesmo religiosos, que sempre buscavam respostas ligadas ao espiritual por não entenderem todos fenômenos da natureza. A mais realista destas afirmações é a última: Os fenômenos da natureza são descobertos pouco a pouco, através de séculos de estudo. Mas todas estas afirmações são meras opiniões, pois não existem registros históricos suficientes sobre o período do surgimento da astrologia. Na verdade mal existem registros de tal época, porque a história ainda é baseada em escritos de cada época e os escritos mais antigos conhecidos até agora pertencem a Suméria (atual Iraque), datando entre 3600 aC e 3500 aC. Ou seja, a astrologia é considerada pré-histórica, pois surgiu antes dos primeiros escritos conhecidos pela humanidade… Ao menos, antes dos antigos escritos encontrados até agora. 

Outro fato curioso é que se a astrologia surgiu junto com a astronomia, ela era um conhecimento (ou crença) de pessoas que estudavam e não de trabalhadores braçais nem de artesãos. A história nos mostra que algumas das mais antigas civilizações conhecidas eram lideradas por religiosos: Os patesis na antiga Mesopotâmia e os faraós no Egito. Entende-se que estes líderes religiosos eram pessoas com conhecimento e todo conhecimento pode ser usado como uma ferramenta de poder. Os indivíduos que dominavam a astronomia/ astrologia sabiam os “segredos” dos ciclos das estações dos anos (inverno, primavera etc) tão importantes para as plantações que alimentam um enorme número de pessoas. Eles também sabiam e possivelmente monopolizavam os conhecimentos úteis para as navegações, que ainda que fossem essencialmente “costeiras”, eram um meio de adquirir grandes riquezas e produtos diferenciados de terras distantes. 

Com todo este poder em mãos, finalmente chegamos a resposta: Os indivíduos que detinham o conhecimento da astronomia/ astrologia não eram idiotas! Mas porque eles acreditariam que as constelações e/ou os planetas interferiam na vida das pessoas? Porque tais astros determinariam até traços de personalidade das pessoas? Ninguém tem a resposta, ou se tem, é muito bem guardada e escondida. 

Tentemos traçar o trajeto da astrologia: A astrologia, juntamente com a astronomia, era conhecimento das elites da antiguidade, e esta elite era geralmente composta de religiosos: Patesis, faraós e sacerdotes detinham estes conhecimentos e ditavam as regras não só cerimoniais / religiosas como ditavam as regras sociais também. Este domínio de religiosos nas aristocracias dos maiores impérios só diminui (não cessa) com a queda do Egito e do Império (Neo) Babilônico diante o Império Persa Aquemênida. Não explicarei o que é religião aqui, mesmo porque já abordei um pouco deste assunto nesta postagem: https://nea-ekklesia.blogspot.com/search?updated-max=2020-06-05T17:18:00-03:00&max-results=7. 

A Divisão das Religiões 

Em determinados momentos da história das civilizações a religião se dividiu entre uma vertente popular, mais adequada às massas de camponeses e/ou trabalhadores sem estudo e uma vertente elitizada, muitas vezes mística / esotérica. Ainda sem tratar os possíveis motivos, vamos a alguns exemplos: É aceito que a antiga China pré imperial foi constituída de duas ou três famílias / linhagens reais (dinastias): 

Dinastia Xia (semi histórica, ou seja, os escritos sobre esta dinastia foram feitos em uma época posterior e por isso ela é aceita apenas por parte dos historiadores); 

Dinastia Shang: A 1ª dinastia com um número considerável de registros históricos; 

Dinastia Zhou: Dominada pela fragmentação do poder que gerou feudos na região. Após este período “feudal” o estado de Chin (também pronunciado Qin) foi tomando o poder até fundar a breve dinastia Chin que centralizou o poder na família real (em 221 aC), marcando o início da China imperial. 

Os personagens mais antigos do que a 1ª dinastia (Xia, de 2070 aC a 1600 aC) são predominantemente “mitológicos” e tradicionalmente um deles foi considerado não só o criador do taoísmo, como também é tido como o criador da astrologia chinesa. O registro mais antigo do Taoísmo data por volta de 350 aC, mas tradicionalmente ele é atribuído ao mítico Imperador Amarelo (que teria vivido na pré-história chinesa: de 2697 aC a 2597 aC), ou seja, mais antigo do que a 1ª dinastia semi histórica, Xia. Embora não se possa provar materialmente, isso não é impossível, pois muitas religiões foram mantidas na tradição oral (ensinada apenas por conversação) por milênios, como as que serão abordadas a seguir: 

Os principais poemas da mitologia helênica (grega) se dividem na religião órfica e na popular. Importante notar que a “mitologia” está diretamente ligada a estas religiões e possivelmente foi um termo cunhado após o declínio da civilização helênica para criticar e/ou desqualificar uma ou mais religiões politeístas. 


 Historiadores dividem a cultura helênica em 4 períodos, após a queda das civilizações minóica e micênica: 

 1100 aC - 800 aC Idade das Trevas Grega; 

 800 aC - 510 aC Idade Grega Arcaica; 

 509 aC - 323 aC Idade Grega Clássica;

 322 aC - 146 aC Período Helenístico

Diferente da religião popular grega, a religião órfica, também chamada de orfismo, traz idéias de transmigração das almas similar às idéias de Platão, aos conceitos do hinduísmo (da idade do bronze) e do Espiritismo que viria a surgir no século XIX. A religião órfica foi supostamente fundada pelo rapsodo (bardo) mitológico Orfeu, talvez na era do bronze. Orfeu era considerado próximo de um outro poeta chamado Musaios (traduzido para o português como Museu), posteriormente tido como Moisés, pelo historiador do cristianismo primitivo, Eusébio de Cesaréia que viveu no Império Romano por volta do século IV. 

Já os textos da religião popular grega foram escritos pelos poetas Homero (por volta de 850 aC) e por Hesíodo (por volta de 650 aC). Porém este período é chamado de Idade das Trevas grega pela falta de registros históricos devido a civilização local estar se recuperando de uma série de conflitos / guerras que teriam acabado com a civilização Micênica por volta de 1100 aC. 

Poucos anos depois de Hesíodo, a Idade das Trevas Gregas chega ao seu fim e começam a surgir os filósofos naturalistas (pré-socráticos, como Anaxágoras e Pitágoras) e os influenciados por Sócrates. Alguns autores afirmam que Pitágoras era iniciado nos cultos órficos, enquanto Anaxágoras (500 aC - 428 aC), de origem greco-persa, explicava os corpos celestes de maneira bastante racional para sua época, e portanto, se aproximando do conhecimento científico. Este último erudito, assim como Ermótimos (Hermótimo), também trouxe à tona o conceito de Nous: a mente cósmica. Nous foi a explicação de como os elementos da natureza foram distribuídos e organizados através do cosmo. Possivelmente esta foi uma explicação típica da Grécia Clássica, pois não era aceito (e até hoje, para muitos, ainda não é aceito) que o acaso tenha criado os corpos celestes, a natureza etc. Anaxágoras foi acusado de impiedade na Grécia e teve que fugir, passando os anos finais de sua vida em exílio numa colônia na Ásia Menor (atual Turquia). 

Sócrates teve seus ensinamentos registrados por Platão. Estes filósofos não negavam por completo as divindades, mas explicavam a natureza, consequentemente despersonificando os deuses e causando a ira de muitos indivíduos de seu tempo. Platão possivelmente pertenceu à família do importante legislador e poeta, Sólon, do início da Idade Grega Antiga. De acordo com Platão, Sólon teria aprendido a história da Atlântida no Egito e a genealogia dos deuses contada por estes estudiosos diferia das populares contadas por Homero e Hesíodo. 

Durante os anos finais de Aristóteles, aluno de Platão e tutor de Alexandre, o Grande, o hermeneuta (intérprete de obras) e escritor grego, Evêmero (330 aC - 280 aC), alegava que os deuses eram invenções ou distorções exageradas baseadas em reis da antiguidade que viveram entre a península grega, o Egito, o levante (oriente médio) e a península arábica. O lexicógrafo, mitógrafo e historiador greco-romano, Filo de Biblos (64 - 141 dC), seguia a mesma linha de Evêmero e citando outra fonte (o semi-lendário Sanconíaton que teria vivido antes da Guerra de Tróia), fez a ligação destes personagens da mitologia grega com a história sacra e real da Fenícia. Nestes escritos preservados por Eusébio de Cesaréia, eles alegam que uma geração de sacerdotes fenícios começou a espalhar os mitos posteriormente propagados por Homero, misturando a história de reis com eventos da natureza (astronômicos, climáticos etc) para encobrir a história real, detendo para seu seleto grupo o monopólio de conhecimentos como a história, a geografia, a astronomia/ astrologia etc. Por fim, o historiador e compilador, Diodoro Sículo, cita uma genealogia destes supostos reis divinizados numa disposição semelhante à proposta por Filo de Biblos. É possível notar as diferenças e semelhanças entre as duas genealogias propostas. Obviamente até mesmo a genealogia dos personagens da “mitologia grega” apresentadas pelo(s) “everismo” / “platonismo” deve ter suas inconsistências ou contradições, pois tentam remontar vários séculos de história perdida (das civilizações minóica, micênica, fenícia…) Porém a versão “popular” da mitologia grega de Homero (e possivelmente de Hesíodo também) é notoriamente cheia de exageros, pois mostra “deuses” cheios de poderes fantásticos (e não reis), com comportamentos humanos e muitas vezes violentos. 

 Mas onde entra a astrologia na civilização grega? Bom, de acordo com a versão popular, Ouranos (Urano) ou Aeon trouxe o círculo do zodíaco ao mundo ou para humanidade. Urano, “deus” dos céus, deu origem ao nome do 7º planeta do Sistema Solar e foi o pai de 12 titãs. Podem ser que existam vínculos destes 12 personagens com os 12 signos do zodíaco, mas tudo que consegui até hoje são apenas especulações. Por exemplo, o titã Hyperion é o pai de Hélios, deus do Sol. Oceanus era representado com membros/ pinças de um caranguejo na testa, o que poderia sugerir algum vínculo com a constelação de Câncer… Porém nada muito além disto. 

 

No que se refere aos registros deixados nesta época, a primeira carta astrológica conhecida da Babilônia, como satrapia (província) do Império Aquemênida, data de provavelmente 29 de abril de 410 a.C. O registro indica signos zodiacais, mas sem graus. Nesta época, filósofos gregos travavam contato com os babilônios; Pitágoras e Platão são alguns dos exemplos. O confronto cultural entre o pensamento helênico, que queria saber o porquê das coisas, e a tradição intelectual da região mesopotâmica, que se importava mais no como as coisas são feitas, alavancou a criação de uma explicação filosófica e matemática sobre o universo, o mundo natural. A filosofia estóica de Zeno, somada à teoria dos 4 elementos de Empédocles e mais tarde à teoria dos Humores de Hipócrates forneceu as bases da astrologia alexandrina. 

Enfim, é possível que estas cisões que ocorreram nas antigas religiões chinesa e grega tenham sido causadas para distrair a população (leiga) em geral, fazendo com que as elites religiosas mantivessem o monopólio das informações. Importante notar que a astrologia continuava vinculada à astronomia, mesmo com a cisões entre religiões... 

Astrologia: Conhecimento, Crença Religiosa ou Prática Divinatória? 

Enfim, os filósofos gregos estudaram a astrologia juntamente com a astronomia e embora refutassem/ questionassem alguns aspectos da mitologia (a religião popular politeísta), não negavam por completo o conceito de divindade tão central nas religiões. Após a gradual queda do império helênico macedônico, alguns vínculos entre a religião politeísta e a astrologia ficam nítidos no Império Romano: No panteão romano, muitos dos deuses recebem nomes de astros/ planetas e são tratados como equivalentes de alguns deuses gregos: Hélios é Sol Invictus, Hermes é Mercúrio, Afrodite (ou Astarte) é Vênus, Gaia é Terra, Selene é Luna (Lua), Ares é Marte, Zeus (Adodus de acordo com Filo de Biblos) é Júpiter e Kronos é Saturno. Os seguintes planetas não podem ser vistos a olho nu e provavelmente não eram conhecidos: Urano, Netuno e Plutão. Entende-se que estes planetas foram “descobertos” com o gradual desenvolvimento das ciências entre os séculos 18 e 20, então a comparação destes astros com  deuses (respectivamente Caelus, Poseidon e Hades) deve ter sido desenvolvida neste período "bem menos antigo". 

De acordo com Platão, Sócrates, em diálogo com Adimanto, afirma que o Sol pode ser considerado o filho do Bem e que o astro está para a vida como o Bem está para as coisas cognoscíveis (se referindo aos aspectos mentais, como o conhecimento etc) Talvez esta exaltação do Sol pelos filósofos socráticos tenha alguma relação com o mitraísmo que adentra o Império Romano 4 ou 5 séculos depois. Uma época em que Sol Invictus (Hélios) viria a substituir Júpiter (Zeus) como “deus” principal do panteão. Conforme descrito nos Anais do historiador e senador romano Tácito, em Roma a astrologia era consultada pelo povo e por reis e rainhas, inclusive o Imperador Augusto cunhou moedas com o seu signo. E Tibério estudava o mapa astrológico dos seus rivais. Cláudio, porém, expulsou os astrólogos da península itálica. 

Porém, com o colapso do Império Romano do Ocidente devido às disputas internas e às invasões de diversas tribos “bárbaras”, a astrologia foi perdendo força. A doutrina cristã do priscilianismo, que surgiu na península ibérica cerca de um século antes da queda do Império Romano (do Ocidente), aceitava a astrologia, mas acabou suprimida pela igreja católica por volta do ano 563 dC, após o Concílio de Braga. A igreja católica continuou a crescer em opulência e poder na Europa e só começou a dar abertura ao estudo e às práticas da astrologia/ astronomia por volta de 1200 dC. Durante estes quase 700 anos de domínio católico na Europa, a astrologia teria sobrevivido nos reinos árabes, portanto entende-se que a igreja católica, e consequentemente os países europeus, romperam com a astrologia durante este longo período… 

A Astrologia Ocidental após a Era Medieval 

Na renascença os astrônomos ainda não descartaram astrologia que já não estava mais vinculada à religião. Cerca de 2 séculos depois, após a revolução científica da Europa (por volta de 1620 dC), a astrologia estava predominantemente desacreditada e começava a se formar o movimento Iluminista que se consolidava no século seguinte (XVIII). Considera-se que a separação entre astronomia e astrologia ocorreu em Paris, em 1666 quando Jean-Baptiste Colbert, ministro do rei Luís XIV, criou a Academia de Ciências e deixou a astrologia de fora. Outros países católicos acabaram aderindo ao descrédito. Apesar das primeiras revistas começarem a ser produzidas na Europa neste mesmo século, a astrologia só viria a se tornar popular novamente séculos depois, no século XX. Por volta de 1950, podemos encontrar algumas obras que tratam do assunto com o linguajar voltado à vida pessoal dos típicos cidadãos das “classes médias” da América. Nesta época a indústria cultural estava em desenvolvimento já avançado e logo surgiram os horóscopos em revistas e programas televisivos de fofocas nos anos 80. Fãs de astrologia “clichê” (talvez um termo mais adequado seja “fãs superficiais”?) pareciam esperar descobrir maravilhas através da astrologia: Um grande amor ou até mesmo maneiras de enriquecer. 

Na década de 10 do século seguinte (XXI) a astrologia começa virar moda mais uma vez. E muitos dos interessados não parecem diferentes daqueles fãs “astrólogos”, sejam os mais comuns/ superficiais ou os mais “místicos”. A astrologia parece ser mantida separada da maioria dos sistemas religiosos, exceto por alguns grupos restritos como os “herméticos”… Mas porque isto ocorre? 

Bom, ao menos desde o Império Macedônico-Helenista de Alexandre, o Grande, a astrologia é usada para “descobrir” (talvez o termo mais correto seja deduzir) o futuro… De pessoas específicas. Alguns registros indicam que essas práticas começaram nos reinos mesopotâmicos (oriente médio), como a Babilônia, séculos antes. Apesar de elementos nítidos da astrologia serem vinculados a um conceito de unidade superior ou de divindade, como indicam as religiões/ sistemas sincréticos como o hermetismo / o judaísmo místico, parece que muita gente não se importa com isso. Todos esses temas chamados de místicos, todos os sistemas astrológicos e até mesmo os sistemas religiosos sincréticos, parecem atrair gente querendo resolver seus próprios problemas, ou esperando obter grandes vantagens em vida… Assim como existem aqueles que, vêem no Espiritismo um meio de adivinhação e imaginam que os Espíritos existem para predizer a sorte de cada um. É claro existem pessoas humildes, empáticas ou até mesmo com consciência social, que se interessam nestes temas. Porém o 1º grupo de pessoas (de gente mais ambiciosa, vaidosa e/ou egoísta) parece ignorar ou até mesmo contradizer os conceitos de unidade na astrologia. 

A astrologia afirma que todos os signos têm características boas e ruins. Nenhuma das características boas se refere ao enriquecer ou tirar vantagens sobre o próximo… E mesmo assim os interesseiros, os deslumbrados e até os egoístas “espiritualizados ou místicos” parecem delirar com seus conceitos. Como dito no começo do texto, a moda parece com um costume, mas geralmente trata um “artigo vendido” e um bando de indivíduos deslumbrados por este artigo… 

 Conclusão... Ou mais perguntas.

O texto foi centrado na astrologia, não só por esta voltar a “se tornar moda” recentemente, mas também porque a astrologia passou pelas religiões antigas e até mesmo pelas ciências (astronomia) através dos séculos. Embora o texto não se aprofunde nos temas religião e ciências, pode-se ver que a produção de “verdades” para enganar e deslumbrar pessoas existiu e existe em todos esses campos, possivelmente desde antes da própria história da humanidade. Estas “verdades” inventadas deslumbraram e manipularam inúmeras pessoas por determinados períodos, indo e voltando com roupagens diferentes ao longo da história, muitas vezes determinando não só crenças, como também costumes e comportamentos… Enfim, a proposta aqui não é fazer críticas destrutivas à astrologia, à religião ou à ciência… É mais uma crítica à moda e uma pergunta se esta não é uma mera invenção para beneficiar um pequeno número de pessoas que manipula um grande número de pessoas… Poderia uma pessoa ingênua e/ou sem conhecimento produzir uma verdade para as massas? A invenção de uns poucos iletrados também seria capaz de virar um artigo de moda? E se virasse um destes artigos… Não surgiria alguém mais esperto ou mais influente para usar isto em seu favor? 

Isto pode ser assunto para outro texto.