quarta-feira, 20 de abril de 2022

Um olhar crítico sobre o Cientificismo na Psicologia

 

O famoso filósofo do século 18, Immanuel Kant, afirmou: (1989, p. 33), “a psicologia nunca pode ser mais que uma doutrina histórica da natureza do sentido interno e, como tal, tão sistemática quanto possível, ou seja, uma descrição natural da alma, mas nem sequer uma doutrina psicológica experimental”. 
Assim entende-se que a psicologia fazia parte da metafísica, que por sua vez, era um campo da filosofia. De qualquer maneira ainda não havia uso formal da palavra ciência na época de Kant até cerca do ano de 1830 - A "ciência" era a filosofia natural. 
Aproximadamente, desde a última década do século 17, a filosofia se dividia em disputas entre o materialismo e o mentalismo (empirismo vs racionalismo etc). Tais disputas não se encerraram por completo hoje nem mesmo na ciência, mas é possível entender que as teorias mentalistas, dualistas e pluralistas sofreram duro golpe após as descobertas de Darwin e Wallace no campo da biologia. 
Nesta mesma época surgiu o espiritismo, que de certo modo, buscou explicar fenômenos tidos como sobrenaturais até. Ao lidar com inteligências não perceptíveis pelos 5 sentidos humanos, o espiritismo não utilizou pressupostos materialistas nem uma "ontologia" monista como base para seus estudos. Além disto, o método utilizado para pesquisas espíritas praticamente não poderia ser o empírico, afinal seus objetos de estudo ou eram fenômenos que surgiam e desapareciam independentemente da vontade do observador ou aconteciam apenas no interior (psíquico, emocional) do indivíduo observado. Esta foi a razão para seus estudiosos utilizarem o termo estudos psicológicos em suas publicações. Obviamente o espiritismo foi rechaçado pela maioria dos cientistas do século 19, afinal a ciência já era predominantemente dominada pelo positivismo que invocava o materialismo e o empirismo como verdades absolutas: 
Para quem não sabe, o positivismo é uma teoria filosófica empirista que sustenta que todo conhecimento genuíno é verdadeiro por definição ou positivo – significando fatos a posteriori derivados pela razão e pela lógica da experiência sensorial. 

Cerca de 4 décadas depois da publicação das obras de biologia de Darwin e Wallace e das obras espíritas de Kardec, no fim do século 19, o psiquiatra austríaco Sigmund Freud, juntamente com Breuer, observou que as pessoas recalcavam (reprimiam) sentimentos e pensamentos diante uma situação conflitante ou de difícil aceitação, seja por vergonha, medo, nojo ou sentimentos similares. A partir daí ele desenvolveu a teoria da psicanálise alicerçada sobre os conceitos do inconsciente e do consciente da psíque humana. A palavra psique, originalmente significa alma e passou a ser sinônimo de aparelho psíquico, ou seja, a mente em uma linguagem mais popular. 
O inconsciente seria a parcela mais profunda da mente, onde residem os instintos e onde ficam conteúdos mentais esquecidos ou fortemente reprimidos. Já o consciente é a parcela ativa do aparelho psíquico que age basicamente no presente pensando e percebendo. Por fim, o pré-consciente seria um meio termo entre inconsciente e consciente, onde ficam as memórias que podem ser resgatadas/ relembradas sem grandes dificuldades. 
Em sua época, a ciência estava tão dominada pelo pensamento materialista, que a maioria dos estudiosos consideravam problemas psicológicos, ou seja emocionais, (como o que eles chamavam de histeria no século 19), como problemas biológicos/ neurológicos. Freud desmentiu tais argumentos e separou o fator genético do conflito psicológico / moral; Freud afirmou que as representações recalcadas são deformadas: O desejo e a lembrança/ representação recalcada, de certa forma aparecem no sintoma observado. A partir daí Freud afirma o seguinte sobre a histeria: “podemos sintetizar os conhecimentos até agora adquiridos na seguinte fórmula: os histéricos sofrem de reminiscências. Seus sintomas são resíduos e símbolos mnêmicos de experiências especiais (traumáticas).” 
Este enfrentamento acidental ou proposital do materialismo viria a ser uma das principais razões das críticas aos estudos de Freud. Afinal, a psicanálise não se apoiou nos pressupostos naturalistas: Ao afirmar a existência do inconsciente, do pré-consciente e de seus respectivos elementos, a psicanálise nega a teoria existencial (ontológica) de que apenas a matéria perceptível pelos 5 sentidos humanos é real (o monismo materialista). Isto também faz com que o método empírico seja questionado: Afinal não se pode perceber os processos internos do "objeto" de estudo (paciente/ cliente). O que se percebe nos estudos e na psicoterapia são suas falas e suas emoções (sentimentos que podem ou não ser escolhidos antes de exteriorizados por expressões faciais, tom de voz, gestos etc). Não se pode reproduzir os fenômenos estudados no paciente a bel prazer do observador: O estudioso não tem controle absoluto sobre o paciente pois não percebe pensamentos e sentimentos (não exteriorizados). Ainda assim, por mais que a psicanálise pareça se apoiar numa base existencial dualista (de mente "imaterial" e corpo "material" interagindo entre si), Freud centrou seus estudos em questões relacionadas aos comportamentos mais biológicos: A sexualidade, a libido e as pulsões de vida e de morte. Por isso, Freud não chega a aprofundar a interferência dos fatores sociais sobre a psique humana, muito menos questões espirituais e religiosas. Isto seria feito por Adler e por Jung, seus dissidentes. 
 É possível entender que Freud foi revolucionário, ao iniciar os estudos sobre questões tão ignoradas e/ ou escondidas pela sociedade de seu tempo. Ele lançou as bases para seus dissidentes mencionados aqui e influenciou até mesmo estudiosos como Aaron Beck, que com sua abordagem (a TCC), aproximou-se da frente da psicologia que usa como estrutura de seus estudos a pré suposição monista materialista e o método empírico. Esta frente da psicologia é o behaviorismo (comportamentalismo) e um de seus fundadores foi o psicólogo estadunidense John Watson. Watson afirmava que a psicologia deveria estudar apenas os comportamentos observáveis (excluindo pensamentos e sentimentos não expressos), o que permitia a possibilidade de seus estudos admitirem que existe algo além da matéria perceptível pelos 5 sentidos. (não há consenso se o pressuposto dos estudos de Watson é monista ou dualista). 
Anos mais tarde, o psicólogo behaviorista, Skinner, assume que deve-se estudar os processos internos da mente, mas utiliza o termo comportamento para definí-los. 
Esta "frente de estudos psicológicos" de Watson e Skinner (behaviorismo) se apoiou consideravelmente nos estudos do fisiologista russo Ivan P. Pavlov, que certamente utilizava a "ontologia" (ou base, pressuposto, chame do que quiser) monista materialista e o método empírico, afinal era um estudioso que realizava experimentos nas glândulas salivares de cães e crianças "de orfanato". Tal conjunto de pressuposto e método serve muito bem a este campo de estudos biológicos, mas será que é prático e esclarecedor usá-lo para estudar a mente humana e todas suas complexidades? Analistas do comportamento como Skinner certamente afirmavam que sim, mas é de se duvidar que Aaron Beck pensasse assim, afinal o criador da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), ignorou a base monista defendida por Skinner e passou a considerar e estudar processos internos da mente humana como a interpretação, os pensamentos e as crenças (enfim,  a cognição). Assim, a TCC, rompe com a Análise do Comportamento e outras bases e abordagens do Behaviorismo, mantendo uma leve similaridade ou abertura em relação às frentes psicanalítica e/ou fenomenológica da psicologia. Talvez mais estranho do que isso, seja a aproximação entre a TCC e a medicina, particularmente a psiquiatria. A psiquiatria como uma especialização da medicina deveria se apoiar nas mesmas bases e métodos da Análise do Comportamento, mas talvez por um fator histórico e de alguns interesses, acabou se alinhando mais com a TCC. 
Eu poderia buscar fontes que indicam que a psiquiatria frequentemente foi utilizada como mera forma de controle das sociedades, mas isso renderia outro texto, então deixo tal assunto como uma possibilidade futura de ser trazida ao blog. 
Enfim, falar de cada uma das frentes da psicologia renderia um texto colossal, mas o resumo desta história é que o cientificismo surgiu e desde então, ficou presente no meio acadêmico de maneira mais intensa ou menos intensa. 
O cientificismo é a tendência intelectual ou concepção filosófica de matriz positivista que afirma uma superioridade da ciência sobre todas as outras formas de compreensão humana da realidade (religião, filosofia, metafísica, etc.), por ser a única capaz de apresentar benefícios práticos (utilitarismo) e alcançar rigor cognitivo. Assim, prega o uso do método científico, (o empírico que é adequado à base filosófica monista materialista, ou seja, adequado aos estudos objetivos) tal como é aplicado às ciências naturais, em todas as áreas do saber (filosofia, ciências humanas, artes etc). 

A preocupação social com a psique humana só começou a crescer a nível global só após o período industrial do fordismo e após a 2ª guerra mundial. A pressão feita pelo discurso pró produtividade e pró consumo cresceu de maneira vertiginosa após a segunda guerra e isso tornou comum os empregos em fábricas com sistemas de produção que priorizavam quantidade acima do bem-estar do ser humano, e às vezes acima até mesmo da qualidade dos produtos. Obviamente isto tinha propósito: o lucro das maiores empresas capazes de maiores linhas de produção. Irrompe então nos anos 60 uma série de movimentos sociais e estudantis pelo mundo: África do Sul, França e EUA são apenas alguns destes pontos que protagonizaram tais eventos da sociedade: Movimentos antirracistas, feministas, anti capitalistas, anti imperialistas, hippies - discursos a favor da paz e do amor, discursos a favor da liberação da utilização de psicoativos etc. Até mesmo novos movimentos esotéricos e espiritualistas surgem em meados do século 20. 
Tudo isto já indicava que o materialismo (seja como argumento científico ou, mais desregulamente, como estilo de vida) falhou em tornar a civilização melhor, mais empática, mais pacífica e portanto mais verdadeiramente progressista. Isto já havia sido previsto por Sócrates, por Platão, por Pestalozzi, por Kardec, por Kierkegaard e tantos outros estudiosos, sejam filósofos, pedagogos ou de outras áreas do saber. Infelizmente parece que estes autores não são suficientemente rigorosos para os cientistas e acabam sendo relegados a uma condição mais periférica de humanistas, como se humanizar fosse algo supérfluo ou de pouca importância. 
 
Fenomenologia: Uma possível visão mais plural e unificadora dos saberes

Há cerca de um século, a fenomenologia questionou os pressupostos da ciência empírica, ou seja, os pressupostos filosóficos naturalistas/ "visões de mundo" materialistas, psicologistas ("idealistas") e monistas. Este questionamento mostrou que já é um mero viés por si só, considerar verdadeiro ou digno de estudo somente o que se percebe com algum dos 5 sentidos e o que pode ser reproduzido de maneira controlada pelo observador (cientista). Isto não invalida a epistemologia dominante da ciência como um todo: A ciência baseada em tais pressupostos (naturalistas/ materialistas) e centrada no método empírico foi é ainda é proveitosa à humanidade, mas é preciso entender que tais estudos objetivos são mais precisos quando aplicados aos fenômenos e objetos diretamente perceptíveis pelos 5 sentidos humanos. 

Estudar o comportamento humano requer levar em consideração os processos internos, como os pensamentos e sentimentos, que não podem ser percebidos diretamente pelo "observador". Este simples fato já indica a importância de outros métodos de estudo que não sejam empíricos. 

Além disto estes processos internos do "objeto" não podem (e nem devem) ser controlados pelo estudioso em questão (não há reprodutibilidade na prática psicoterapêutica). Tais processos são o que compõem o aparelho psíquico na frente psicanalítica de estudos ou a essência do ser humano na fenomenologia. 

Com este breve resumo destaco a importância da fenomenologia não só na psicologia, mas também como um conjunto pressuposto-método (uma epistemologia) de construção de conhecimento. Por sua vez, a epistemologia mais objetiva, resumidamente tida como o método científico em si, ao lidar com o ser humano analisa as expressões do objeto: Suas emoções e sua comunicação, seja verbal ou de outra maneira. Ela pode não exercer um controle direto ou absoluto sobre o objeto, mas pode induzí-lo. Se tratando de saúde mental, logicamente esta indução deve buscar e priorizar o bem-estar do objeto (paciente). 

Tal importância da fenomenologia mostra também que é possível buscar conhecimento, seja sobre soluções para a existência humana, ou a busca pela(s) verdade(s), de maneira mais plural, indo além do monismo e do materialismo, dando abertura a outras formas de entender a existência (a cosmovisão, os pressupostos) e outros métodos de estudo (reflexões, comparações etc). Isto é importante também porque é preciso respeitar as áreas do saber, sejam elas científicas, filosóficas ou espirituais/ religiosas. 

A fenomenologia apresenta um método (a eidética) e uma base filosófica aberta, sem pressupostos pré-determinados, ou seja, sem determinar um modelo ontológico particular. A questão que se faz então é a seguinte: Apresentando um método coeso, capaz de resolver questões da existência humana, ela é uma ciência? Se sim, o método científico já não se limita mais ao método empírico alicerçado no monismo materialista (ou monismos similares ao materialista) - teria que levar em conta estudos dualistas, espiritualistas etc, não os relegando à filosofia. Se não for ciência, ela é filosofia? Se for este último, não é urgente o desenvolvimento e a divulgação de tais estudos? A filosofia então abrangeria diversas áreas do saber humano, tidas até então como "ciências" humanas: Sociologia, geografia, história, antropologia, psicologia, contabilidade, economia, direito etc.

As áreas de estudo que pesquisam assuntos como os efeitos psicossomáticos no corpo humano e as possíveis psicopatias ("transtornos e doenças mentais") estariam então mais próximas das ciências biológicas como a neurologia, a psiquiatria, a psicopatologia e a psicofarmacologia, fazendo uma possível conexão com a psicologia. 

Sobre investigações mais Plurais, certamente é importante estabelecer um parâmetro: O que se busca com tais estudos? Tais questões já foram feitas ao longo da história da civilização humana então não se trata de um segredo inalcançável. Ao ressaltar que o materialismo, apesar de sua utilidade, não fornece todos os meios de se alcançar o progresso, muito menos fornece soluções para todos os problemas da humanidade, nos resta a retomar alguns temas já discutidos por filósofos da antiguidade clássica: Toda busca pelo conhecimento e pela verdade, deve ser feita levando em consideração a busca pelo bem. Apesar de parecer abstrato ou até mesmo utópico e inalcançável, esta busca pelo bem, se trata sim, de uma busca pelo bem maior, no sentido amplo, ou seja, coletivo, e no sentido profundo, ou seja, mais individual. Esta amplitude e profundidade, apesar de diferentes, não são contrárias em si, pois fazem parte da busca pela coexistência pacífica dos indivíduos desde os primórdios da humanidade. 

Ademais já tratei da importância destes objetivos unificados à ciência em alguns textos meus: 

 https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/02/a-ciencia-e-o-bem.html 

 https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/03/o-desenvolvimento-do-ser-humano-sob.html 

 https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/01/os-fundamentos-do-saber.html 

 https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/12/espiritualidade-e-progresso.html

 

 

sábado, 26 de março de 2022

O Desenvolvimento do Ser Humano sob Óptica de diferentes Estudos

 

Neste texto trago alguns trechos e comparações breves das obras de estudiosos que analisaram o estado de desenvolvimento do ser humano. Este estado se refere ao modo de pensar, aprender e agir do ser humano, sendo tema da psicologia, da pedagogia e talvez da ontologia (pelo fato de se aproximar da teoria da mente e de uma "visão do ser"). Embora o principal autor abordado aqui seja o pedagogo e reformador suíço, Johan Heinrich Pestalozzi, um dos principais responsáveis pela reforma educacional na Europa (que de certa forma, garantiu acesso universal à educação em seu país de origem), também tratarei resumidamente de obras de psicólogos e filósofos. 

O estado de desenvolvimento da raça humana abordado por Pestalozzi, muito tem a ver com a psicologia (o estudo da alma, da mente ou do comportamento) e com a filosofia, principalmente no campo da ontologia (o estudo do existir e do modo de existir). Esta é mais uma prova que a psicologia é inseparável da filosofia: Os 3 estados descritos por Pestalozzi foram observados em seus estudos sobre pedagogia e têm certas semelhanças com os 3 estágios (de existência) percebidos pelo filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard. Este último, em algum nível se inspirou nas obras clássicas do filósofo Platão e de seu respectivo professor, Sócrates. 

 Embora os estudos sobre comportamentos, estados psíquicos e de desenvolvimento sejam feitos em determinadas épocas, estes autores conseguiram reunir observações de características significantemente atemporais do ser humano. 

Na psicologia este tema aparece como 3 estados psíquicos/ comportamentais/ existenciais e são observados e pesquisados separadamente e respectivamente por estudiosos austríacos: Sigmund Freud, Alfred Adler e Viktor Frankl. 

 


 

Estado natural/ Estágio estético 

O ser humano nesse estado é predominantemente dominado pelos instintos de sobrevivência. Em linhas gerais, isto o conduz simples e inocentemente para a satisfação dos sentidos. 

O psiquiatra austríaco e fundador da psicanálise, Freud, centralizou sua teoria nesta condição do aparelho psíquico: O Id, sendo o responsável pela liberação da libido do inconsciente (a "energia psíquica" por trás das pulsões de vida e de morte) para o consciente, seria regulado pelo Ego. Na psicanálise de Freud, o Ego seria o meio termo entre o Id e o Super-Ego (o autocontrole excessivo, a vergonha e a obediência geralmente produzidas diante as regras sociais, costumes, tradições e normas da civilização). 

O modelo onde é descrito o estado natural do desenvolvimento humano é proposto por Pestalozzi e tem similaridades com o que Sócrates (de acordo com Platão) chamava de estado inferior da mente, ou simplesmente de mente apetitiva - aquela que está constantemente em busca de satisfazer seus apetites e prazeres mais rústicos.

No caso de Platão, é possível entender que, ao longo de sua obra, o filósofo classificou os prazeres na seguinte ordem crescente, do mais rústico/ animalesco (talvez pareça polêmico hoje, no século 21) ao mais sublime ou sutil: 

Prazeres sexuais (erotikós, afrodísion) - possivelmente prazeres predominantemente centrados no tato; 

Prazeres da alimentação - relacionados principalmente ao sabor, portanto ao paladar (talvez, em algum nível, ao olfato também); 

Prazeres da audição - principalmente o ato de ouvir músicas, melodias; 

Prazeres da visão - admiração das cores, formas, esculturas, paisagens etc. 

Platão ainda cita a possibilidade de prazeres inferiores e superiores mais relacionados à psique, além dos relacionados ao corpo (portanto aos sensoriais): Prazer em causar dor e/ou sofrimento seriam os "mais inferiores", os prazeres em ajudar o próximo seriam "mais superiores" e devem ser citados nos próximos estados. 

O 1º estágio descrito por Kierkegaard é o estético e não se encontra distante deste "estado natural" do desenvolvimento humano descrito por Pestalozzi. Talvez seja vagamente mais refinado, ou ao menos, um pouco mais amplo, já que a estética pode se referir também aos prazeres mais sutis do que a maioria daqueles referentes ao tato. 

Kierkegaard explica que neste estágio de existência há uma angústia diante as dificuldades físicas e espirituais encontradas na vida e que isto tende a levar a pessoa a se ocupar com a busca por prazeres sensoriais, a estética. Assim, é possível entender que a preocupação é satisfeita por experimentações sensoriais, talvez abrangendo desde prazeres dos atos sexuais, passando pelo saborear de alimentos, pelas conversações e flertes até a apreciação das artes (musicais e visuais). 

Estado social/ Estágio ético 

Para Pestalozzi o homem como espécie, como povo não se submete ao poder como ser moral, nem tampouco entra na sociedade e na cidadania para servir a Deus ou amar ao próximo. Ele entra na sociedade e no estado de cidadania para tornar sua vida mais alegre e para gozar tudo o que seu ser animal e sensorial tem que gozar e para que seus dias sobre a terra transcorram satisfeitos e tranquilos. Assim, de acordo com o pedagogo, o direito social não seria um direito moral, mas apenas uma modificação do direito animal. Isto reflete sua vivência, pois Pestalozzi iniciou sua carreira de reformador na política, onde certamente se decepcionou e desistiu, tornando-se um "fazendeiro" por 10 anos. 

Kierkegaard tem uma visão um pouco mais positiva ao classificar o estágio ético como evolução do estágio estético: No estágio ético, o ser abandona seus prazeres e gostos pessoais por haver encontrado nas leis da moral e da conduta universais um patamar melhor para sua existência. A pessoa que entra no estágio ético, compreende que as leis, ainda que de forma um tanto abstrata em sua concepção, são mecanismos que restringem o comportamento humano e que podem ser um guia na racionalidade. 

O poder descrito por Pestalozzi, seria ao menos em parte, as leis descritas por Kierkgaard. Tal criação social exige comportamentos para que as pessoas coexistam em (relativa) paz, mas não pode exigir um homem moral, ou seja, não penetra os pensamentos e sentimentos, modificando-lhe para mais justo ou mais solidário. O poder da civilização na Terra só pode exigir do ser humano, pois para servir a humanidade (como um servo), o poder (ou as leis) teriam que ser mais do que uma convenção, um mero conjunto de representações a ser interpretado. Para servir, o poder deve ser alguém, pois necessita de intenção e/ou empatia. Propriedade, lucro, profissão, autoridade, leis acabam sendo meios artificiais para satisfazerem a natureza animal pela escassez (ou supressão) dos impulsos mais animalescos. Kierkgaard, com certa semelhança à Sócrates, alega que as leis (o poder) emergentes do estágio ético não são feitas apenas para substituir a escassez de impulsos animalescos, mas que como estágio funciona como uma mola propulsora: Os indivíduos tendem a avançar ao 3º estágio (o religioso que certamente seria denominado de estágio espiritual após o século 20, pois Kierkegaard era crítico do luteranismo já institucionalizado de seu tempo e local) ou a regredir ao 1º estágio, o estético, na busca por satisfazerem meros desejos sensoriais. 

Embora Platão não classifique o estágio intermediário da mente como social nem como ético, quando comparamos suas explicações sobre os prazeres sensoriais, com suas concepções de mente (inferior, estado de repouso/ intermediário e superior), é possível entender que os prazeres em se buscar o bem e fazer o bem ao próximo se iniciem (nem que seja de maneira tímida ou formativa) neste estado de repouso e se desenvolvem/ expandem no estágio superior da mente. 

Na psicologia, Alfred Adler centra sua teoria nesta condição mais social e/ou ética do aparelho psíquico. Embora, durante os anos iniciais de sua teorização, o psicólogo austríaco foi severamente criticado por enfatizar pulsões egoístas, como o desejo de poder, o sentimento de inferioridade e a busca por compensação, em 1939, Adler ampliou sua concepção dos humanos para incluir fatores de interesse social. Assim, passou a enfatizar o self criativo como elemento principal do aparelho psíquico, capaz de criar metas e os meios para atingir tais metas. Fatores hereditários e ambientais colaboram com a construção das metas. O ser humano é capaz de buscar uma superioridade em harmonia com o próximo, de caráter mais coletivo/ social. 

 Estado moral / Estágio religioso (espiritual) 

Pestalozzi alega o seguinte em suas obras: "se eu alcançar na minha condição e na profissão tudo o que eu posso alcançar, se minha felicidade está garantida pelo direito, estaria eu então satisfeito no meu íntimo? (…) Deveria pensar que sim, mas não é verdade". O pedagogo afirma que o direito social e o estado social não satisfazem completamente o ser humano, pois isso seria limitar a vida à formação civil e aos meros prazeres sensual e animal. Na alma dos indivíduos ainda haveriam desconfiança, sinuosidade e intranqüilidade, que nenhum direito social pode desfazer. 

Limitar o ser humano a um animal em seu nascimento, não possibilita o objetivo da perfeição desde a origem da vida. Pestalozzi viu o interior do ser (subjetivo, psíquico, sentimental), em sua natureza, como divino, não apenas material. Ele faz as seguintes reflexões sobre o desenvolvimento humano: 

"Logo vi que as circunstâncias fazem o homem, mas vi também que o homem faz as circunstâncias, tem uma força em si mesmo que pode conduzir de várias maneiras, segundo sua vontade. (…)

Como obra da natureza, sinto-me livre no mundo para fazer o que me agrada e me sinto no direito de fazer o que me serve. 

Como obra da espécie, sinto-me no mundo atado a relações e contratos, fazendo e suportando o que essas relações me prescrevem como dever. 

Como obra de mim mesmo, sinto-me livre do egoísmo da minha natureza animal e das minhas relações sociais, e ao mesmo tempo no direito e no dever de fazer o que me santifica e o que santifica o meu ambiente.(…) 

Como obra da natureza, sou um animal perfeito. Como obra de mim mesmo, esforço-me pela perfeição. Como obra da espécie, procuro me tranqüilizar num ponto sobre o qual a perfeição de mim mesmo não é possível. 

A natureza fez a sua obra inteira, assim também faze a tua. 

Reconhece-te a ti mesmo e constrói a obra do teu enobrecimento sobre a consciência profunda de tua natureza animal, mas também com a consciência completa da tua força interior de viver divinamente no meio dos laços da carne. 

Quem quer que tu sejas, acharás nesse caminho um meio de trazer tua natureza em harmonia contigo mesmo. Queres porém fazer tua obra apenas pela metade, quando a natureza fez a dela inteira? Queres estacionar no degrau intermediário entre tua natureza animal e tua natureza moral, sobre o qual não é possível o acabamento de ti mesmo? – Então não te espantes de que serás um costureiro, um sapateiro, um amolador ou um príncipe, mas não serás um homem." 

Enfim, Pestalozzi conclui que os direitos e propriedades da sociedade repousam apenas nos estados natural e social do ser humano, ignorando sua natureza moral. 

Kiekegaard diz que o segundo estágio, o ético, não é definitivo na vida do ser. O ser humano sente culpa e peso de sempre estar avaliando os próprios atos e pensamentos se colocando em uma posição de decisão na qual ou volta ao primeiro estágio, o estético; ou migra para o terceiro, o religioso. 

Como Platão explica, se a pessoa não busca as virtudes, a verdade e o bem maior, ela volta a buscar prazeres sensoriais e/ ou mesquinhos. Ela necessita mais: ou busca na matéria, maior quantidade ou intensidade de satisfação, ou busca o bem maior nos processos internos da mente, nos sentimentos, na espiritualidade. 

Kierkegaard explica que essa transição para o religioso é difícil e dolorosa, assim muitas das vezes, a pessoa adere ao que lhe parece mais confortável e fácil, retornando ao primeiro estágio, o estético. Porque, para se garantir o alcance definitivo do estágio religioso, a pessoa necessita se comprometer com a própria fé e nunca duvidar ou retornar ao ponto de partida, o primeiro estágio. A crença em um Deus vivo e forte, não somente em uma imagem ou pensamento, mas um Deus supremo e no qual o Amor é representado de forma íntegra, o único caminho, a Verdade suprema. Uma compreensão que muitas vezes fere o próprio ego, mas que ao ser atingida no estágio religioso, serve de guia a uma existência engrandecedora e verdadeira. 

Na psicologia, Viktor Frankl foi quem se aprofundou neste estado da mente humana. Sua vivência nos campos de concentração da 2ª Guerra Mundial, permitiram que, mais tarde, ele desenvolvesse sua teoria fenomenológica da psicologia - a Logoterapia. Seus estudos indicaram que os indivíduos que se agarravam a um sentido de vida transcendente, ou seja, para além de si mesmos, em busca de um sentido em amar outra pessoa (mesmo não presente), em se dedicar a uma fé, religião, ou mesmo, uma atividade para além de si mesmo, eram os que mais suportavam as privações biopsicossociais daquele ambiente. Algumas destas pessoas nos campos de concentração, entre elas, o próprio Frankl teve percepções vívidas de entidades amáveis, que certamente seriam consideradas meras alucinações por materialistas mais radicais. Porém estas percepções fizeram parte do processo de sobrevivência, superação e esperança, pelo qual estes prisioneiros passaram priorizando o "entregar-se interiormente à pessoa amada" (o autor alega "tanto faz se é real ou não a sua presença"). Enfim, tanto Kierkegaard como Frankl sofreram críticas no meio acadêmico, sendo considerados religiosos "demais". 

Para concluir este texto, valem as seguintes constatações: Os autores mencionados fizeram grandes descobertas capazes de auxiliar no desenvolvimento da humanidade. É uma pena que suas colaborações ainda não sejam amplamente apreciadas entre cientistas atuais, nem totalmente aplicadas para o progresso da humanidade. As obras de vários dos autores mencionados aqui indicam um caminho não só de busca pela verdade, mas de solidariedade e de esperança e não caminhos de egoísmo ou de indiferença. Não há paz enquanto houver indiferença. Falta de paz é guerra e guerra é a propagação de destruição e medo. 

Fontes:

 Minhas indagações sobre a marcha da natureza no desenvolvimento da espécie humana, Pestalozzi em 1797, (traduzido do original alemão Meine Nachforschungen über den Gang der Natur in der Entwicklung des Menschengeschlechts);

 FRANKL, Viktor E., Em Busca de Sentido. LeLivros, 1984. 

Platão, A República 559a - 559d

Platão, Diálogos III - Fedro 250b - 250d; Edipro

Platão, Diálogos IV - Filebo 46c - 51c; Edipro

Platão, Diálogos II - Hípias Maior 297e - 299e; Edipro

 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

As Bases dos Saberes x Fundamentalismo

 

Mais uma vez trago informações sobre minhas "escavações" nas origens da ciência e em estruturas da religião e até da filosofia. 

Como eu já citei em textos anteriores, a história da ciência remete à filosofia, pois surgiu desta. Por sua vez, a filosofia surgiu das religiões, como pode ser notado em variados momentos da história humana, por exemplo na Grécia clássica e na Índia medieval. 

Eu escrevei alguns textos investigando, explicando e criticando o cienticifismo que se apoia em alguns fundamentos. Resumidamente estes fundamentos são oriundos da filosofia (epistemologia e ontologia), pois é uma suposta base de estudos. A escolha desse fundamento foi sendo feita através de certas disputas filosóficas no decorrer do século 19. Essa disputa foi majoritariamente monista (entre materialismo e idealismo) rejeitando explicações mais plurais da teoria do conhecimento e do estudo da existência como o dualismo e o pluralismo. 

Usar um fundamento para explicar ou investigar algo não é errado em si, mas usá-lo para fins mesquinhos, para prejudicar o próximo ou enganar as massas, é. 

Fundamentalismo na Religião e na Espiritualidade 

Fundamentos são usados de forma errada praticamente há incontáveis anos na história da humanidade. Qualquer problema que a humanidade tem com o fundamentalismo NÃO é mera coincidência. O fundamentalismo é um movimento ou corrente de ideias que prioriza o fundamento, ou as fundações de um ensino ou doutrina qualquer. Obviamente ele surgiu primariamente na religião, pois se apoia em dogmas, verdades absolutas que não precisam ser explicadas em si: Um de seus marcos na história ocorreu durante o início do século 20, entre protestantes dos EUA. 

O grande perigo oriundo do fundamentalismo é pegar um fato ou argumento ainda não compreendido, transformá-lo em norma ou em lei, submetendo outras pessoas ao seu jugo. Além disto por sua ênfase na fundação de uma ideologia ou doutrina, o fundamentalismo é basicamente conservador, pois busca conservar as coisas como eram ou como estão, recusando mudanças, investigações etc. 

Particularmente eu vejo a palavra conservador bem insuficiente para explicar este tipo de movimento. Este "ato" de conservar que nega o desenvolvimento mental (intelectual e empático) e nega o acesso aos estudos e ao conhecimento, é ESTAGNANTE. Não se trata meramente de conservar, mesmo porque esta palavra dá a idéia de evitar estrago e evitar destruição, tanto que caiu nas graças de conservadores ignorantes e de conservadores manipuladores. No Brasil, aproximadamente do ano do impeachment da presidenta Dilma (tão apoiado por "evangélicos") para cá, muitos religiosos e simpatizantes passaram a se denominar abertamente de conservadores. Este conservadorismo em linhas gerais é estagnante/ paralizante, podendo ser classificado de modo mais preciso: "estagnismo" ou "paralizismo". 

É predominantemente distorcida a visão de que o cristianismo é conservador. Ao pregar amor ao próximo, o cristianismo não só incita a solidariedade, como de certa forma explica a onipresença de Deus que ama toda a sua criação. Tal argumento completa-se harmoniosamente com as passagem em que Jesus, como maior profeta das religiões cristãs, explica que é praticamente impossível os ricos amarem a Deus e serem aceitos por Deus. Se trata de equidade: o cristianismo não fala para todos viverem na pobreza, ele fala de distribuir oportunidades para todos (independentemente de suas crenças ou de suas origens) com humildade.* 

*(na Terra, ou seja, estas passagens se referem à pobreza e à riqueza materiais mesmo) 

E nas Ciências, há fundamentalismo? 

Bom, eu já mencionei em outros textos, que no meio acadêmico existem uma série de inconsistências, umas mais graves outras menos. Um ponto crucial a ser questionado é a manipulação de certas áreas de estudo, restringindo-as às normas de outras áreas. Como estudante de psicologia, constatei que ao menos duas frentes desta ampla área do saber são majoritariamente desprezadas como ciências: A psicanalítica e a fenomenológica. Detalhar como a imposição de uma base de estudos materialista impacta nas frentes da psicologia e em suas respectivas abordagens, renderá outro texto, e dos grandes, então tentarei me ater sobre o fundamentalismo nas ciências de modo geral. 

Pressupor que a matéria irá explicar toda a psicologia, ou mesmo pressupor que o materialismo (ou qualquer outra ontologia não plural, como os monismos) vá servir de base para estudar a mente (ou os comportamentos, como você preferir chamar) é reducionismo por si só. É por exemplo, classificar como patológicas todas as experiências chamadas de sobrenaturais, místicas ou religiosas. É concordar com uma base filosófica da medicina. Esta visão da existência (ontologia) monista que prioriza estudos objetivos, é ideal para estudar o corpo percebido pelos 5 sentidos humanos (visão, audição, olfato, paladar e tato). Alegar que uma psicologia com tais bases é capaz de usar o método empírico em todo seu processo é uma falácia. A conversação entre seres humanos não é empírica. Ninguém prova imediatamente se o fato contado por alguém é verdadeiro e ninguém lê o pensamento de ninguém (ao menos não na maioria dos casos e não para quem se apoia numa visão da existência onde apenas considera a matéria perceptível pelos 5 sentidos), portanto sentimentos e pensamentos geralmente não se comprovam empiricamente. E este é um dos motivos que deu força a fenomenologia servir de base para toda uma frente da psicologia. Ainda que a fenomenologia praticamente classifique os pressupostos científicos (naturalistas, materialistas etc) como preconceitos, seu questionamento é válido e necessário. Por exemplo, a fenomenologia serve para desfazer todos os argumentos pró mercado de psicofármacos. Serve para combater a mercantilização da saúde mental, para argumentar contra a permissividade de uma psiquiatria engolida por interesses financeiros de variados setores farmacêuticos, acabe ditando regras para a psicologia. 

A fenomenologia pode ter imperfeições ou insuficiências (como qualquer teoria e método), mas surgiu da necessidade real de combater erros e exageros de uma ciência naturalista, materialista e insensível durante a virada do século 19 para o 20. Necessidade tão real, que a fenomenologia apresentou semelhanças com a teoria geral dos sistemas que surgiria poucas décadas depois: Para objetos de estudo que não podem ser completamente compreendidos ou detectados (ainda), estipula-se e estuda-se as possíveis e variadas relações do "objeto" (ou fenômeno) em questão... 

Afirmar que toda verdade só será descoberta por estudos que têm uma base ontológica e epistemológica materialista/ monista etc, é um fundamentalismo. 

Sim, a ciência com essas bases realizou grandes feitos e ainda realizará muitos outros, mas não deve determinar normas e regras para a espiritualidade, para a filosofia, nem para a psicologia. A psicologia é uma área que transita entre diversas ciências (psicopatologia, psiquiatria, neurologia) e entre a filosofia e toda sua amplitude. A filosofia por sua vez não é objetiva como as ciências, tanto que fez a transição do saber religioso ao científico na história da civilização humana. A filosofia trouxe propostas de explicações religiosas e espiritualistas e também lançou possíveis bases para ciência, como a ontologia e a epistemologia (tanto é assim, que esta última "área" de estudo é chamada de filosofia da ciência). 

A fenomenologia é aceita como ciência na física, mas ainda encontra ilógica resistência na psicologia, sendo considerada uma filosofia. Fundamentalismos como esses já deveriam ter sucumbido ao tempo: A psicologia não é mera ciência objetiva alicerçada no monismo (seja eliminativo ou materialista). Se a fenomenologia é filosofia para a psicologia, deveria ser para a física, para a geografia e para tantas outras ciências. Mas se ela é um conjunto de teoria e métodos científicos, então deveria ser assim em todas áreas da ciência. Se trata de clareza e lógica. Clareza esta, diga-se de passagem, que refere-se em explicar as coisas, buscar entender e divulgar teorias e práticas, o que contradiz qualquer rixa baseada em opiniões individualistas e qualquer fundamentalismo. 

Qual seria a melhor Base/ Fundamento para as áreas do Saber? 

O que deveria servir de base para o saber (seja religioso, filosófico ou científico) é o bem. Estamos no ano de 2022 do calendário gregoriano e será que ainda não sabemos o que é o bem? 

 Buscar progresso requer divulgar conhecimento, torná-lo acessível para o maior número de pessoas. Para torná-lo acessível, distribui-se condições, ou seja, equidade e estrutura de base para as sociedades. Estas estruturas de base da sociedade por sua vez, são as condições mínimas e dignas para a vida: ninguém vive sem água, sem alimento, sem saúde, sem capacidade de locomoção, sem exercitar a mente, seja através do acesso ao estudo ou pelas variadas expressões (seja nas artes ou nas relações) etc. Estas coisas todas não constituem o bem? 

Então porque a base materialista das ciências permite absurdos como a mercantilização da saúde física e mental? Os estudos científicos saem da área acadêmica sendo aplicados para o bem de toda humanidade? Quantas pessoas se beneficiam de barragens de mineradoras privadas que se rompem e destroem povoados e ecossistemas inteiros? Quantas realmente se beneficiam da tecnologia aplicada à criação de automóveis ou de celulares? É a maioria dos seres humanos? Não. 

Então porque quase toda essas áreas das ciências alicerçadas no monismo está submissa às pessoas que têm mais "poder aquisitivo"? Porque atendem às demandas do "mercado", como se este sistema fosse lógico, científico ou humanitário? 

O poder aquisitivo é o bem? Não. O poder aquisitivo está separado e isolado de qualquer conceito ou elemento do que entende-se por bem: Não se trata de humildade, nem de justiça, nem de solidariedade, nem de instrução - Nada disso. Poder aquisitivo pertence a quem acumulou mais bens de troca (geralmente dinheiro) - independentemente como esse acúmulo foi realizado, seja trabalhando honestamente ou enganando, furtando, burlando leis etc. 

Observemos um dado estatístico público e notório para tirar essa dúvida: As pessoas que trabalham muito enriquecem? Elas compram mansões, carros caríssimos, helicópteros e iates? Aparecem em revistas como a Forbes? Não. 

Em geral, o cara que trabalha demais morre no máximo em uma "classe média", sem que 99% da população mundial saiba de sua existência. 

Quem está no topo do sistema capitalista, ou seja, os que enriqueceram mais, não são o bem nem querem ser. Geralmente são o oposto disto e ditam as regras, não só da economia ou da política, como também (indiretamente ou diretamente) ditam os fundamentos da ciência. 

Já não passou do tempo de mudar isto?

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Espiritualidade e Progresso

 

Sobre a Fobia à Alma 

Como mencionei em algum texto meu, a psicologia é uma área de estudo bastante dividida. Isto possivelmente é uma herança do conflito entre materialistas e idealistas/ mentalistas da virada do século 18 ao 19. Tal conflito repeliu as filosofias e bases filosóficas dualistas e pluralistas, e foi praticamente vencido pelos materialistas por volta do início do século 20. Por coincidência ou não, a época do fordismo e o período entre guerras mundiais... 

Os questionamentos e críticas mais comuns à psicanálise (fundada por Freud) por parte da fenomenologia da psicologia se referem a sua centralização nas questões sexuais/ biológicas e na reprodução de fenômenos do passado dos pacientes. Resumidamente estas críticas alegam que a psicanálise (e talvez a psicologia analítica, que usa base similar) são naturalistas ou mesmo deterministas. 

Porém é comum encontrar psicólogos da frente comportamental e acadêmicos da área de saúde criticando abertamente a estrutura de consciente-inconsciente como se fosse pseudociência. E adivinhem só; a frente comportamental é praticamente alicerçada em um materialismo monista (uma pressuposto "filosófico") e no método empírico (o qual eu já cansei de explicar neste e em outros textos)… 

Primeiramente, a base teórica sustentada pelo eixo consciente-inconsciente não parece ser monista nem materialista. Esta base aparentemente parte de um pressuposto dualista onde a mente imaterial (sejam informações, alma ou outra coisa ainda não mensurável por métodos investigativos materialistas) interage com o corpo material. Independentemente das bases teóricas, filosóficas, ontológicas ou epistemológicas, os estudos que fundaram a psicanálise fazem parte de uma descoberta e não uma vaga hipótese ou ideia “pouco provável”: Pois quando falamos do aparelho psíquico (consciência, memória, sentimentos, pensamentos etc), uma das provas mais óbvias da existência do subconsciente (que é o inconsciente de acordo com a frente psicanalítica) surge quando tentamos negar a realidade enganando a nós mesmos. Pensamentos, lembranças e sentimentos não desaparecem definitivamente, eles apenas deixam de ser a atenção de nossa consciência, podendo voltar a ser alvo desta atenção após algum tempo. Desaparecer definitivamente seria deixar de existir, o que é algo improvável por qualquer método científico. 

Talvez do ponto de vista comportamental, a psicanálise esteja desvinculada do método empírico, mas a partir desta afirmação, temos que nos lembrar que o empirismo não é a ciência em si: é apenas um dos métodos científicos (de investigação), independentemente se é o mais empregado nos diversos campos do saber, ou não. Quando se trata de sentimentos (emoções não expressas) e pensamentos é óbvio que não se pode esperar evidências percebidas pelos 5 sentidos do ser humano. O aparelho psíquico descrito pelas abordagens da frente psicanalítica não é físico: não é sólido, nem líquido, nem gasoso e provavelmente também não é plasmático. Não está em nenhum dos 4 estados conhecidos da matéria até então. Trata-se talvez, no máximo, de informações relacionadas aos potenciais elétricos ou a sinapses do sistema nervoso, mas mesmo estas não são a causa das escolhas humanas. Porém não há provas suficientes de que sinápses ou sinais elétricos sejam a memória, a consciência ou a "mente" em si. A questão está em aberto: Reduzir o ser humano e todos seus pensamentos, sentimentos (etc) a estes fenômenos físicos/ biológicos é elevar o empirismo como único método de construção de conhecimento válido, ignorando todos os demais métodos de estudo. Um ato típico do positivismo e do período final do iluminismo, onde acreditava-se que o ser humano era o centro do universo e o que existia de mais evoluído neste. A postura correta para a construção de conhecimento, seja ciência ou filosofia, é semelhante à humildade: é assumir que não se sabe sobre o que não foi descoberto nem sobre o que ainda não se estudou o suficiente. 

Em segundo lugar estas críticas às abordagens psicológicas não materialistas são reinvenções da psicologia empírica ou da "psicologia" fisiológica (século 19). Nesta época a base filosófica dualista de René Descartes era aceita por pouquíssimos intelectuais proeminentes. Um dos poucos apoiadores desta base era o linguista e professor francês, Leon D. Rivail, que passaria a divulgar o espiritismo sob o pseudônimo de Allan Kardec. Talvez, pelo fato de tal filosofia aceitar a espiritualidade baseada nos ensinos de Sócrates, Platão e Jesus Cristo, o espiritismo foi altamente rechaçado por cientistas e filósofos materialistas por toda segunda metade do século 19. Outra curiosidade é que o espiritismo (não os charlatães que se dizem espíritas) propunha explicar todos os temas que eram abordados pelas religiões e por ordens místicas que, de certo modo, monopolizavam o assunto. Mas não aprofundarei sobre a relação da psiquê (mente, aparelho psíquico, comportamento secreto ou qualquer outro nome) coma espiritualidade neste texto.

Na primeira metade do século 20 houve um forte movimento de ataque às teorias que consideravam a existência do inconsciente (Freud e Jung). Entre os atacantes estavam psicólogos da frente comportamental como Skinner até filósofos como Popper. Embora tais estudiosos possam ter colaborado para as ciências em alguns pontos, é importante observar que tais críticas à frente psicanalítica eram meras opiniões transvestidas de lógica científica. Estas opiniões se basearam na inexistência de algo, não apresentando prova alguma contra o inconsciente nem contra a psiquê (seja mente ou alma etc), pelo contrário, se apoiaram em "falta de provas" das abordagens da frente psicanálitica. Daí, estes estudiosos que não aceitavam que a mente fosse imaterial nem transcendental, viram a necessidade de propagar ideias como a "lei da" falseabilidade como base científica, como mencionei neste outro texto https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/11/os-estudos-e-as-abordagens-da-mente.html.

Tais opiniões não atacavam só a frente psicanalítica - serviam como ataques contra toda espiritualidade / religiosidade, independentemente se seus propagadores planejaram isso ou não. Em algumas de suas afirmações, seus defensores eram abertamente anti-religiosos, o que teria seu lado positivo se eles denunciassem a corrupção nas religiões e a utilização dos dogmas e hierarquias religiosas como ferramenta de poder. Porém, como materialistas fanáticos, eles atacaram todo argumento que apresentava uma possibilidade da existência da alma e/ou do espírito. 

Isto não é comum apenas entre as "elites intelectuais" (de cientistas e filósofos), mas também é comum em ativistas políticos fervorosos, sejam assumidos ou não. Importante ressaltar que ativistas políticos fervorosos são principalmente compostos pelos extremos do espectro político, mas também podem ser os materialistas de ideais políticos moderados. 

O Materialismo na Política 

Pois bem, muita gente já sabe que existem mentirosos na religião e na política. Mas poucos sabem que as grandes empresas, sejam do setor de comunicações, de finanças ou de qualquer outro, geralmente são dirigidas/ geridas pelo mesmo tipo de mentirosos. Isto ocorre porque todas estas instituições religiosas, políticas e empresariais servem como ferramenta de poder. 

Porém, como poucos sabem ou entendem como funciona o mercado nos regimes mais abertamente capitalistas (liberalismo e neoliberalismo), a direita que apoia os empresários mais ricos tem larga vantagem sobre a esquerda em maior parte do ocidente. 

O problema se agrava, quando uma porção significante das pessoas que estudam política e áreas mais relacionadas à política, tornam-se materialistas. E isto ocorre pelo simples fato que a ferramenta de poder mais obsoleta das 3 mencionadas aqui, é a religião institucionalizada, ou seja as igrejas, principalmente as "cristãs" nos países do ocidente. Seu controle sobre o povo é baseado em imposição de medo, em narrativas simplistas e acusações contra quem está fora de sua religião. A religião se apropriou da espiritualidade, no mínimo desde o século 5, possivelmente desde o século 4, após o cristianismo se tornar a religião estatal do império romano no ano de 380: Nesta mesma época, os "cristãos" já estavam perseguindo quem praticasse uma espiritualidade diferente da sua. 

Levando-se em conta que no ocidente a esquerda esteve em desvantagem maior parte do tempo, desde o fim da 2ª guerra mundial, adivinha quem fracassa ao atacar toda e qualquer forma de espiritualidade? A esquerda, é claro. 

A direita serve primariamente aos empresários mais multimilionários - uma classe de pessoas que não precisa dar as caras e consegue comprar qualquer um e qualquer coisa. A direita se dá o luxo de se unir ou se separar da religião quando bem entender, ela não luta pela maioria, o que facilita muito o trabalho desta turma convencer as massas. 

A esquerda honesta em seus objetivos nada tem a ver com grandes líderes socialistas conhecidos na história da humanidade. Tais líderes viveram em sociedades muito diferentes de países ocidentais como o Brasil: Um estado constantemente manipulado por ricaços, que deveria gerir uma área gigantesca, repleto de pessoas empobrecidas e completamente desunidas. 

Os movimentos de esquerda que querem lutar por um país digno e progressista não podem se dar o luxo de generalizar. Não podem confundir quem são seus opressores. Seus opressores não são a espiritualidade, não são meros símbolos nem mitos ou ideias pueris. É possível crer em Deus e ser cientista ou ser a favor do progresso. É possível considerar que a mente (ou alma) exista além do corpo físico e não ficar espalhando obscurantismo e mentiras. Os verdadeiros opositores dos progressistas e da esquerda então são os poucos endinherados (principalmente os multimilionários) que andam em helicópteros e iates, bem guardados por propagadores de ódio e de sensacionalismo em diversas mídias e por indivíduos fardados sonhando com uma classe militar posando de guardiã da nação. 

Aqueles que querem lutar por dignidade e progresso, têm o mesmo objetivo dos que lutam pelo bem do próximo. Pouco difere dos ideais dos verdadeiros cristianismo e espiritismo. 

 Quando Jesus criticou os ricos (em mais de uma passagem da Bíblia), ele não o fez por birra: Não se adora grandes quantidades de riqueza material e à Deus ao mesmo tempo. Se o Deus é onipresente e ama todos seus filhos que fazem parte de sua criação (esqueçam as bizarrices do velho testamento), como alguém pode viver com uma quantia de bens suficientes para sustentar dezenas, centenas ou milhares de famílias e alegar ser cristão? Não é preciso ser religioso, nem espiritualista para ver o erro nisto, é só usar lógica. 

Quando o espiritismo diz que quem está sofrendo na Terra, está pagando por erros de outras existências, ele NÃO defende dar as costas para estes penados: Deve-se ajudar o próximo SEMPRE que possível e mais: O espiritismo também afirma que as grandes fortunas SÓ se justificam se utilizadas para o progresso da humanidade. Aqui está uma explicação resumida que não há NADA nos argumentos da direita que possa ser utilizado em prol da humanidade. O cristianismo e o espiritismo não pregam uma utopia na Terra, como faz a ideologia comunista, mas é claramente diferente dos argumentos da direita, ao rechaçar todo o acúmulo de riquezas materiais que não é usado para o bem da maioria da humanidade. 

Os ensinamentos espiritualizados, sejam de Sócrates, Platão ou de Jesus ou as informações juntadas por Kardec e seus companheiros, não são separáveis da ideia de progresso. Não existe progresso enquanto se prega rivalidade, nem quando se pratica a indiferença. Se você não consegue amar o próximo, se disponha a ouvir, respeitar e permitir o progresso para todos seres humanos. Se você já tem bens que sustentaria mais de uma família, comece a repensar sua existência conivente com a miséria alheia.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Os Estudos sobre a "Psiquê"; Um Resumo Histórico

 

Neste texto apresento uma lista resumida sobre os estudos da mente e/ ou do comportamento humano ao longo da história.

Psiquiatria - A Correção da Mente 

O termo psiquiatria significa correção (ou cura) da mente (do grego ψυχή, ou seja, psychê, que significa alma) e refere-se a uma especialização da medicina. Essencialmente, esta área de estudo surgiu de opiniões que consideravam os comportamentos diferentes do padrão da sociedade ocidental oriundos de alterações em determinadas partes do corpo - geralmente do sistema nervoso. Apesar de ser uma especialização da medicina, ao estudar (história das) psicopatologias e neurociências é possível notar que são citados os principais influenciadores da psiquiatria, mas nenhum fundador específico. Embora médicos da antiguidade sejam quase aclamados (Hipócrates e posteriormente, Galeno), a psiquiatria em si parece começar a surgir na era moderna, mais precisamente durante o iluminismo europeu (século 18, com grande influência do médico Philippe Pinel). A tentativa de humanizar os "hospícios", após o ano de 1778, marcaram o início desta área da medicina. Obviamente a humanização se deu pela diminuição da crueldade, da indiferença e da insensibilidade para com os pacientes "internados" (aprisionados, na verdade), pois gradativamente, foram-se banindo as seguintes práticas: acorrentamento, ducha gelada, choques elétricos etc. Embora começou-se a teorizar sobre doenças mentais nesta época, é importante notar que muitos dos pacientes ou prisioneiros, eram simplesmente gente rejeitada pela sociedade, como por exemplo, mendigos, prostitutas e pessoas que alegavam perceber frequentemente fenômenos sobrenaturais. 

Apesar das boas intenções de alguns médicos psiquiatras, muitas das classificações de comportamentos criadas neste campo de estudo foram altamente preconceituosas até as duas primeiras décadas do século 20. Em alguns lugares do mundo, hospícios permaneceram locais de confinamento com uma gestão que variava entre insensível e cruel até a segunda metade do século 20, pois as tentativas de humanizar os estudos e tratamentos de pessoas com problemas psíquicos ocorreram de maneira bem lenta durante cerca de 3 séculos. No Brasil, é possível considerar que, em linhas gerais, a reforma psiquiátrica se deu entre os anos de 1968 e 2001.

Após a década de 90 do século 20, a psiquiatria passou a sofrer clara influência da farmacologia. Em 2015, ao lançar o DSM-5 (5º Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais), a psiquiatria multiplicou o número de transtornos e diagnósticos de maneira exagerada, favorecendo de maneira proposital ou acidental o aumento do consumo (e obviamente do comércio) de medicamentos. 

Estruturalismo - 1855  (Teoria Germânica) 

Atribuída a Wilhelm Wundt, que foi o “pai” da psicologia experimental, o estruturalismo afirmava que o objeto de estudo deveria ser o pensamento mental consciente. Wundt pretendia, através da introspecção (autopercepção, de acordo com a tradução de Saulo de Araújo) estudar as emoções e os sentimentos de cada pessoa, permitindo a cada pessoa conhecer-se mais profundamente. Pode dizer-se que uma pessoa é constituída pelos seus sentimentos e sensações, que organizados constituem a sua consciência do ponto de vista estrutural. Visava os estados estruturais da consciência. Quais eram as estruturas do sistema nervoso central. 

Os Estudos Espíritas - A Mente além do Corpo (1857)

Em 1855, o tradutor e professor francês, Hippolyte Léon D. Rivail, se interessou sobre os fenômenos das mesas girantes. Após alguma experiência classificada como mediúnica (de contato com uma mente incorpórea) por volta de 1857, Rivail passou a assumir o pseudônimo de Allan Kardec, descrita como uma entidade que conhecera Rivail numa outra encarnação. 

Tendo iniciado a publicação das obras de Codificação em 18 de abril de 1857, quando veio à luz O Livro dos Espíritos, considerado como o marco de fundação do Espiritismo, após o lançamento da Revista Espírita / Jornal de Estudos Psicológicos (1 de janeiro de 1858), Kardec fundou, nesse mesmo ano, a Sociedade (Pariense de Estudos) Espírita(s). 

Em uma de suas revistas de 1861, Kardec escreveu: 

(…) o Espiritismo, restituindo ao Espírito o seu verdadeiro papel na criação, constatando a superioridade da inteligência sobre a matéria, apaga naturalmente todas as distinções estabelecidas entre os homens segundo as vantagens corpóreas e mundanas, sobre as quais o orgulho fundou castas e os estúpidos preconceitos de cor. O Espiritismo, alargando o círculo da família pela pluralidade das existências, estabelece entre os homens uma fraternidade mais racional do que aquela que não tem por base senão os frágeis laços da matéria, porque esses laços são perecíveis, ao passo que os do Espírito são eternos. Esses laços, uma vez bem compreendidos, influirão pela força das coisas, sobre as relações sociais, e mais tarde sobre a Legislação social, que tomará por base as leis imutáveis do amor e da caridade; então ver-se-á desaparecerem essa anomalias que chocam os homens de bom senso, como as leis da Idade Média chocam os homens de hoje… 

Por diversas causas, o espiritismo enfrentou enorme resistência desde cedo. Apesar de um dos principais motivos de críticas ser o charlatanismo de alguns médiuns, outros motivos eram as rixas entre religião e ciência e a imposição de métodos com pressupostos materialistas (como o empirismo) como única forma de aquisição e formação de conhecimento. Alguns cientistas tentaram provar a inexistência de espíritos e de eventos relacionados ao contato com uma "dimensão espiritual", porém seus métodos e bases de estudo sequer consideravam a possibilidade de uma mente (inteligência, sentimentos) capaz de viajar além do espaço-tempo, então os resultados destas "pesquisas" foram simples negações do espiritismo. 

Importante notar que o espiritismo surge como um método de estudo que admitia a religiosidade (na época pouco ou nada se dizia da palavra espiritualidade) e, desta forma, considerava as experiências religiosas como fenômenos oriundos dos espíritos ou de uma dimensão espiritual, manifestadas através de forças pouco entendidas até então, como o eletromagnetismo. 

Do ponto de vista religioso, o espiritismo tem base cristã, mas traz algumas semelhanças com outras religiões e filosofias que levam em consideração a reencarnação e dá grande importância ao progresso da humanidade. O espiritismo também foi posteriormente considerado racista, porém mesmo que alguns textos de Kardec tenham algum viés neste sentido, tais fatos não passariam do pensamento típico da civilização europeia de sua época. 

Nota-se que até então, todas as experiências descritas como sobrenaturais, sejam elas, visões de espíritos (inclui anjos e demônios), mediunidade (contato ou comunicação com espírito), cura pela imposição das mãos, exorcismos (desobsessões), sonhos proféticos, êxtases espirituais, milagres e tantas outras descritas através dos milênios, seriam classificadas como meras mentiras (charlatanismo) ou loucura (alucinação, esquizofrenia etc) caso não fossem classificadas pelos estudos espíritas. 

Obviamente, isto ocorreu porque a ciência em 1857 (e ainda em 2021) utiliza como base teórica / filosófica o monismo (materialista ou eliminativo) e como método, o empirismo. E claro, como já mencionei em outros textos, apesar de sua importância, tais bases e métodos praticamente não explicam possíveis seres transdimensionais (além da curvatura espaço-tempo), nem o que ainda não pode ser detectado pelos (cinco) sentidos humanos. A ciência com tais alicerces filosóficos e metodológicos ainda se mostra incapaz de explicar possíveis outras dimensões, e, por se basear na possibilidade de reproduzir / repetir experiências, deve permanecer incapaz de explicar seres ou inteligências capazes de viajar entre dimensões (que em prática seria aparecer e sumir).

Funcionalismo - 1890 (Teoria Estadunidense) 

O funcionalismo foi criado a partir das obras de William James, que defendia que os psicólogos deveriam utilizar a introspecção, de maneira a estudar o funcionamento dos processos mentais e outros temas como os processos mentais das crianças, dos animais, a anormalidade e as diferenças individuais entre as pessoas. Na opinião de William James, o homem realizava as suas ações, com base na função que desempenhava na sociedade. O estudo da consciência se fazia presente. Embora, assim como o behaviorismo, esta teoria da mente tivesse a mesma base da psicologia experimental de Wundt, ela se desenvolveu de modo independente, pretendendo eliminar as tendências eliminativas.

Psicanálise - 1891 (Abordagem "Austríaca/Checa/Morávia") 

A teoria da psicanálise, também conhecida por “teoria da alma”, foi criada pelo neurologista austríaco Sigmund Freud (1856 – 1939). De acordo com Freud, grande parte dos processos psíquicos da mente humana estão em estado de inconsciência, sendo estes dominados pela libido. Esta "energia psíquica" é composta pelas pulsões de vida (principalmente desejos sexuais) e de morte (desejos de eliminar ameaças e competidores). Os desejos, as lembranças e os instintos reprimidos estariam “armazenados” no inconsciente das pessoas e, através de métodos de associações, o psicanalista – profissional que pratica a psicanálise – conseguiria analisar e encontrar os motivos de determinadas neuroses ou a explicação de certos comportamentos peculiares dos seus pacientes, por exemplo. 

Em 1880, o médico Josef Breuer, aliviou os sintomas de depressão e hipocondria (chamada de histeria na época) de sua paciente Bertha Pappenheim, após induzí-la a lembrar-se de experiências traumatizantes sofridas por ela em seu passado. Para isso, Breuer utilizou a hipnose e seu novo método chamado de terapia da conversa. O psiquiatra e neurologista austríaco, Sigmund Freud, passou a estudar este caso juntamente com Breuer e entre os anos de 1893 e 1895, estruturou as bases da psicanálise. Freud percebeu que muitos pacientes escondiam de si mesmos (reprimiam) pensamentos, desejos e sentimentos que eram difíceis de lidar, seja por vergonha, por nojo ou por pressões sociais. Esta repressão de elementos psíquicos, juntamente com o estudo dos sonhos, ajudou a Freud teorizar o inconsciente da mente humana. 

Ainda que Freud buscasse uma aproximação com a biologia ao dar ênfase às pulsões de vida (como a sexualidade sendo manifestação da libido, uma necessidade da reprodução da espécie) ele parece ter se apoiado em uma base filosófica dualista (ao menos aparentemente), pois a mente não estava localizada em parte alguma do corpo (cérebro, por exemplo) nem nas relações, como afirmam teorias de base monista. Este foi um dos principais pontos da psicanálise criticados por psicólogos experimentais (e posteriormente pelos behavioristas).

Como Freud buscava se aproximar das ciências biológicas, mesmo com sua base ontológica dualista, ele desconsiderou a possibilidade da existência das experiências espirituais (êxtase, mediunidade, visões religiosas etc).  Além disto, ao estudar a sexualidade e ao considerar o homossexualismo e o bissexualismo como coisas naturais, Freud sofreu forte rejeição dos conservadores, seja entre cientistas ou entre outras classes da sociedade de seu tempo. Apesar das críticas, a psicanálise foi crescendo e sendo aceita por vários médicos, entre eles o jovem suíço Carl Gustav Jung.

Associacionismo - 1899 (Teoria Estadunidense) 

O associacionismo foi criado por Edward Lee Thorndike e é resultante de um processo de associação de ideias, das mais simples às mais complexas, resultando assim nas diversas ações humanas. Nesta teoria da aprendizagem, surgiu a lei de causa-efeito, e acerca dela, Edward Lee Thorndike realizou diversas experiências com animais, com vista a conseguir prová-la. Nas suas experiências, ele observou que se desse alguma recompensa aos animais conseguiria que eles fizessem o que ele queria, e na sua opinião, o comportamento humano, nesta vertente, assemelhava-se ao comportamento animal. Esta teoria é contemporânea de John B. Watson e influenciou o behaviorismo.

Fenomenologia - 1907 (Filosofia Germânica/ Frente Psicológica

A Fenomenologia, de Husserl, ao invés de apenas racionalizar ou experimentar, busca entender como o fenômeno ocorre, a essência das coisas e a própria consciência): Rompe (nasce do contra-ponto) com as bases filosóficas anteriores da ciência, buscando uma renovação. Afinal a verdade não está no “meu pensamento”, como afirmaria o racionalismo nem na experiência como indicaria o empirismo. 

Husserl publica Ideen em 1907, onde explica o método da redução eidética, e Da Filosofia Fenomenológica em 1913; A fenomenologia não é precisamente uma teoria psicológica, mas serviu de base para diversas abordagens psicológicas como a Daseinanálise, a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), a Logoterapia e a Gestalt Terapia. 

Embora a fenomenologia proponha estudar fenômenos (como diz a própria etimologia da palavra), não parece haver um consenso se sua teoria e seu método de investigação fazem parte da ciência ou da filosofia.

Psicologia Analítica (Abordagem "Suíça") 

Jung começou como um pupilo de Freud, mas ambos cortaram relações após Jung tirar a ênfase do desenvolvimento sexual da libido em 1913. Freud também não concordava com a ideia de Jung de que fenômenos religiosos devessem ser estudados com a possibilidade de não serem patológicos. Isto possivelmente fez de Jung (e a sua psicologia analítica) o primeiro profissional da saúde mental a não categorizar toda vasta gama de experiências "religiosas/ transcendentais" como doença (ou, mais especificamente, transtorno), deixando a questão em aberto. Jung alega usar o empirismo quando for possível estudar determinado fenômeno desta maneira, caso contrário ele usa investigações mais reflexivas. Ele também notou que o inconsciente esconde muito mais do que desejos reprimidos e impulsos de vida e de morte. De acordo com Jung, os sonhos que ocorrem no inconsciente, não eram apenas fachadas como Freud dizia: eles podem conter significados, indicando uma busca de equilíbrio entre a vida consciente e desejos/ necessidades inconscientes de cada pessoa. Além disto, Jung teorizou um inconsciente mais profundo, onde grupos de seres humanos poderiam compartilhar elementos psíquicos, possivelmente de origem genética. 

O inconsciente humano também poderia ter elementos que independem do espaço/tempo e concentrar variados complexos (e não só o complexo de Édipo da psicanálise). Estes complexos podem ter origem mais antiga do que a infância e a vida intra uterina, surgindo do inconsciente coletivo e/ou de fatores genéticos. Assim, os complexos seriam configurações de interpretações e gostos que podem crescer até tomar parte significante da mentalidade do indivíduo. 

As bases da psicologia analítica são vastas, mas em suma, Jung também considerava deixá-las de lado (suspensas) durante os tratamentos/ terapia conforme a necessidade de cada paciente. Assim era possível priorizar o paciente e sua realidade, em geral, buscando fazer com que este concluísse o processo de individuação, atingindo um significado em sua vida, a partir de um equilíbrio entre elementos do inconsciente com a consciência. 

Comportamentalismo (Behaviorismo, Frente Psicológica Estadunidense) 

Esta teoria também conhecida como teoria de estímulo-resposta foi criada por John Watson (1878-1958) numa época em que dominava a filosofia e o estudo do consciente. John Watson defendia que a psicologia se deve limitar ao estudo dos comportamentos observáveis, portanto um dado estímulo pode ser a causa de determinada resposta e essa mesma pode ser precedida deste. John Watson acreditava que um estímulo provoca sempre a mesma resposta pelo que não só seria possível prever os comportamentos, mas igualmente controlar a produção desses comportamentos. Ele defendia também que a genética não tem qualquer influência sobre os seres vivos, mas sim apenas e só o meio em que estão inseridos (o ser humano nascia como uma "tabula rasa", sem predisposições). 

A partir dos estudos de Watson e do fisiologista Ivan Pavlov, Skinner (1904-1990) desenvolveu a Análise do Comportamento, cuja tinha como base a filosofia denominada de Behaviorismo Radical. Embora pareça que Watson usou o dualismo como base ontológica, e Skinner, o monismo materialista, muitos estudiosos citam que ambos usaram o monismo eliminativo. Para Skinner, que buscou apoiar-se no modelo evolucionista publicado no século 19 por Darwin, a mente é uma ficção (psíquica), uma analogia com que se passa no ambiente físico. Skinner chamou os processos internos da mente de comportamento e foi crítico dos conceitos de livre arbítrio e da psicanálise, especialmente de Freud. 

Estes autores são considerados os principais da "1ª onda do comportamentalismo", embora a 2ª onda, chamada de Terapia Cognitiva Comportamental (TCC), não suprimiu os estudos e as práticas baseadas nos autores anteriores.

Em suma, a TCC separa-se da base ontológica / teórica da Análise do Comportamento, pois foca nos processos internos da mente, assumindo um modelo aparentemente dualista da mente (uma porção abstrata formada por interpretações e informações e outra física, ligada ao cérebro, ao sistema nervoso etc). Após a TCC, surge uma 3ª onda, mas que ainda não se propagou de maneira tão ampla como as anteriores, então não será abordada neste texto.

Logoterapia, a Terapia do Significado ("Abordagem Austríaca") 

Viktor Frankl era um psiquiatra quando foi preso nos campos de concentração alemães durante a segunda guerra mundial. Após escapar com vida desta experiência muito sofrida, ele desenvolveu a Logoterapia, uma abordagem psicológica com base no método fenomenológico. 

Em seu livro Em Busca de Sentido, ele traz alguns relatos de sua vivência nos campos nazistas: 

..." presenciei algo que, embora me fosse de certa forma afim do ponto de vista profissional, eu jamais conhecera na vida normal: uma sessão espírita. O médico-chefe do campo, que teve o palpite de que eu era um psicólogo profissional, convidou-me para uma reunião altamente secreta no pequeno compartimento em que morava, na enfermaria. Reuniu-se ali um pequeno círculo no qual também se achava (em flagrante infração do código) o suboficial de saúde de nosso campo. Um colega estrangeiro começou a conjurar os espíritos numa espécie de reza. O secretário da enfermaria estava sentado frente a uma folha de papel em branco, devendo segurar um lápis sobre a mesma, sem qualquer intenção consciente de escrever. No curso de dez minutos - ao fim dos quais a sessão foi interrompida com a alegação de terem falhado os espíritos ou o médium - seu lápis foi traçando muito lentamente algumas linhas sobre o papel, as quais podiam ser claramente decifradas como VAE VICTIS. Afiançou-se que o secretário jamais aprendera latim nem tampouco teria ouvido as palavras VAE VICTIS (ai dos vencidos!)." Se alguém me perguntasse, eu diria que, sem saber, ele já devia ter ouvido estas palavras alguma vez em sua vida, assim como também a respectiva tradução; e a nossa situação de então, poucos meses antes da nossa libertação, ou seja, do final da guerra, ensejava ao "espírito" (espírito do seu subconsciente) pensar justamente nessas palavras..." 

No início deste parágrafo Viktor Frankl tinha um interesse profissional em sessões espíritas. A informação que Frankl tinha do evento era que o secretário da enfermaria (o possível médium diante a folha de papel) não conhecia o idioma latim e nem conhecia as palavras escritas no papel. Porém a opinião de Frankl mostra uma visão mais científica empirista deste evento: Sem evidências perceptíveis pelos 5 sentidos humanos, ele opta por negar a possibilidade do contato mediúnico, ao afirmar crer que o secretário da enfermaria deve ter escutado tais palavras alguma vez na vida; por outro lado ele não nega o inconsciente, dizendo que o secretário devia saber do resultado ou das consequências da guerra que estava prestes a acabar em alguns poucos meses. 

A fuga para dentro de si 

Apesar de todo o primitivismo que toma conta da pessoa no campo de concentração, Viktor Frankl percebeu alguns indícios de uma expressiva tendência para a vivência do próprio íntimo. 

"Pessoas sensíveis, originalmente habituadas a uma vida intelectual e culturalmente ativa, dependendo das circunstâncias e a despeito de sua delicada sensibilidade emocional, experimentarão a difícil situação externa no campo de concentração de forma, sem dúvida, dolorosa; esta, não obstante, ter para elas efeitos menos destrutivos em sua existência espiritual. Pois justamente para essas pessoas permanece aberta a possibilidade de se retirar daquele ambiente terrível para se refugiar num domínio de liberdade espiritual e riqueza interior. 

Esta é a única explicação para o paradoxo de às vezes, justamente aquelas pessoas de constituição mais delicada conseguirem suportar melhor a vida num campo de concentração do que as pessoas de natureza mais robusta. 

Para tornar este tipo de experiência mais ou menos compreensível, vejo-me outra vez obrigado a reportar-me a coisas pessoais. Recordo-me de quando saíamos do campo, de manhã cedo, marchando rumo à "obra". Ouve-se uma voz de comando: "Grupo de trabalho Weingut, marchar!!! Esquerda, 2, 3, 4, esquerda, 2, 3, 4! Cabo de fila, lateral! Esquerda - esquerda - e - esquerda - boinas fora!" 

Estes os brados que a memória faz ressoar em meus ouvidos. Ao grito de "Boinas fora!" passamos pelo portão do campo. Os refletores estão focados sobre nós. Quem não marchar ereto e bem alinhado na fileira de cinco homens, pode contar com um pontapé – e haverá algo pior para quem, pensando em se resguardar do frio, ousar cobrir de novo as orelhas com a boina, antes que a voz de comando o autorize. Prosseguimos na escuridão, aos tropeços, sobre as pedras e longas poças d'água na zona de acesso ao campo. Os guardas de escolta ficam berrando e nos espicaçam com a coronha de seus fuzis. Quem tem os pés muito feridos, dê o braço ao seu companheiro ao lado, cujos pés doem um pouco menos. Mal e mal trocamos alguma palavra; o vento gelado antes de nascer o sol não o permite. Com a boca escondida atrás da gola da capa o companheiro que marcha ao meu lado murmura de repente: "Se nossas esposas nos vissem agora...! Tomara que estejam passando melhor no campo de concentração em que estão. Espero que não tenham idéia do que estamos passando." E eis que aparece à minha frente a imagem de minha mulher." 

Quando nada mais resta 

Viktor Frankl continua contando que aos tropeços, ele e os demais detentos seguiram vadeando pela neve ou resvalando no gelo, constantemente se apoiando um no outro, erguendo-se e arrastando-se mutuamente quilômetros a fio. Eles não conversavam mais durante esse percurso, preferindo pensar em seus respectivos entes queridos. 

Frankl diz que seu espírito se agarra a "imagem" de sua mulher com uma fantasia incrivelmente viva, que ele não conhecera antes em sua vida normal. Ele "conversava em pensamento" com a esposa e a via responder e sorrir. Real ou não, o olhar de sua esposa exigia e o animava ao mesmo tempo. Viktor Frankl considerou pela primeira vez na vida estar experimentando a verdade daquilo que tantos pensadores ressaltaram como a quintessência da sabedoria: a verdade de que o amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana. Ele passou a entender as coisas últimas e extremas que podem ser expressas em pensamento, poesia - em fé humana: a redenção pelo amor e no amor! 

Passou a compreender que a pessoa, mesmo que nada mais lhe reste neste mundo, pode tornar-se bem-aventurada - ainda que somente por alguns momentos - entregando-se interiormente à imagem da pessoa amada. Na pior situação exterior que se possa imaginar, numa situação em que a pessoa não pode realizar-se através de alguma conquista, numa situação em que sua conquista pode consistir unicamente num sofrimento reto, num sofrimento de cabeça erguida, nesta situação a pessoa pode realizar-se na contemplação amorosa da imagem espiritual que ela porta dentro de si da pessoa amada. 

Nesta experiência, Frankl diz que entendeu a afirmação: "Os anjos são bem-aventurados na perpétua contemplação, em amor, de uma glória infinita. . ." 

Em um momento, quando seus companheiros caem e o guarda avança castigando-os, a vida contemplativa de Viktor Frankl é interrompida por alguns segundos. Mas ao abrir e fechar de olhos mais uma vez, ele direciona sua consciência salvando-se mais uma vez do aquém, da existência prisioneira, para um além que retoma mais uma vez o diálogo com o ente querido: "Eu pergunto - ela responde; ela pergunta - eu respondo." Frankl e seus companheiros chegam ao local da obra. E, sob ofensas dos guardas, todos se precipitam para dentro do galpão às escuras para arrebanhar uma pá jeitosa ou uma picareta mais firme. Eles voltam ao exterior e começam a trabalhar calados e sofrendo com o frio. Mais uma vez a mente (Viktor usa o termo espírito) se apega à imagem da pessoa amada e continua falando com ela, e ela continua falando com ele. De repente ele percebe que não sabe se sua amada está viva e naquele momento entende que o amor pouco tem a ver com a existência física de uma pessoa. Pois durante o período do campo de concentração não se podia escrever nem receber cartas. "Ele (o amor) está ligado a tal ponto à essência espiritual da pessoa amada, a seu "ser assim" (nas palavras dos filósofos) que a sua "presença" e seu "estar aqui comigo" podem ser reais sem sua existência física em si e independentemente de seu estar com vida".  De qualquer maneira, as circunstâncias externas não conseguiam mais interferir em seu amor, em sua lembrança e na contemplação amorosa da imagem espiritual da pessoa amada. Viktor Frankl concluiu essa experiência da verdade com a seguinte citação: "põe-me como selo sobre o teu coração... porque o amor é forte como a morte." (Cântico dos Cânticos 8.6). 

Viktor Frankl segue seus relatos citando mais casos de dificuldades e sofrimentos dos prisioneiros. Aqueles que se agarram a algo que os aliviam psiquicamente, se agarram ao futuro ou a alguma forma de espiritualidade. Boa parte dos relatos soam poéticos ainda que trágicos se formos priorizar a vida destas vítimas da guerra na Terra. 

Na situação extrema de miséria e opressão nos campos de concentração da 2ª guerra mundial, os prisioneiros que não se agarravam ao futuro/ à espiritualidade, ou adoeciam e morriam no desespero ou se tornavam animalescos, competitivos e egoístas. Um pequeno número destes últimos recebiam uma "promoção" dos nazistas ao posto de capo", uma espécie de capataz dos campos de concentração. A maioria esmagadora destes dois últimos grupos, adoecia e morria em algum tempo: Era praticamente uma sentença de morte direcionar expectativas ao mundo material em condições de miséria tão extrema, onde faltavam-lhes alimento, higiene, sono, afeto, tranqüilidade e, portanto, saúde: Uma hora as condições psíquicas decaíam tanto a ponto de acelerar o processo de adoecimento, trazendo a morte... 

A Logoterapia de Viktor é uma terapia alternativa de base fenomenológica. Ela foi considerada pelo próprio autor, como adequada às pessoas que estão passando por um significante sofrimento psíquico, mas não para casos mais graves considerados psicopatológicos. Além disto, Frankl diz que ela pode ser usada em conjunto com outras abordagens, como por exemplo, a psicanálise, pois não foi feita para substituir nenhuma abordagem psicoterapêutica. 

Gestalt Terapia (Abordagem) 

Gestaltismo foi desenvolvido por Kurt Koffka, Max Wertheimer e Wolfgang Kohler pela necessidade da existência de uma teoria que, não esquecesse o valor e a necessidade da experimentação científica. Os seus fundadores consideravam o objetivo da Psicologia como sendo o estudo da experiência de um organismo, no seu todo, com ênfase na percepção, ocupando-se da análise dos elementos essenciais que existem nos processos de organização, reunindo os elementos da experiência numa unidade complexa. A compreensão do ser humano se dá pela totalidade. “O todo é mais que a soma das partes”. A partir do gestaltismo, o psicanalista Fritz Perls e o grupo dos 7 fundaram a gestalt-terapia em 1951. 

Quem define o que é ciência? Quem define o que é verdade? 

Em epistemologia, pressupostos dizem respeito a um sistema de crença, ou Weltanschauung, e são, ao menos, supostamente necessários para que um valor fundamental, existencial e/ou normativo faça sentido. A própria palavra pressuposto, em sua etimologia, significa supor algo anterior. 

O bule de chá de Russell, eventualmente chamado de bule celestial, é uma analogia criada pelo filósofo Bertrand Russell (1872–1970) para defender a ideia da falseabilidade. Este último foi um conceito proposto pelo filósofo Karl Popper na década de 30, contra o raciocínio que se apoia em indícios para chegar a uma causa... É possível que tais argumentos foram desenvolvidos meramente para defender o ateísmo e o monismo materialista como base filosófica para as ciências. 

Os críticos do argumento do bule afirmam que a analogia do Bule de Russell não se sustenta porque parte de uma premissa errada. Respondendo à invocação do "Bule Celestial" de Russell como evidência contra a religião, o filósofo Peter van Inwagen argumenta que, embora o bule de Russell seja uma bela peça de retórica, sua forma lógica de argumento é menos do que clara... Enfim, existem diversos críticos a esta "base filosófica" que não parece priorizar nem a possível vastidão de conhecimento (além do espaço-tempo etc) nem o bem da humanidade. Afinal os argumentos destes filósofos do início do século 20, menosprezam práticas profissionais e teorias e de estudo que deixam questões em abertas: A psicologia analítica (e possivelmente todas as psicoterapias da frente psicanalítica e fenomenológica), a teoria geral dos sistemas etc. Também não é difícil ver como a psiquiatria passou a se apoiar nesse sistema de crenças para classificar todas as experiências "transcendentais" (mediunidade, psicografia, êxtase espiritual etc) como patológicas. 

 Mesmo os estudos empíricos feitos com base no monismo materialista, foram capazes de descobrir e explicar diversos fenômenos desde o século 18, SEM o auxílio destes pressupostos (a falseabilidade e a peculiar retórica do bule celestial). Afinal, métodos de estudo alicerçados no monismo materialista (empirismo por exemplo), são apropriados para estudar a matéria perceptível pelos 5 sentidos humanos, é óbvio. Porque o empirismo (ou qualquer método monista materialista) deveria explicar qualquer coisa relacionada a Deus, a fé, ou os pensamentos e sentimentos? Como já mencionei em algum outro texto, tais métodos e bases de estudo, talvez nem consigam explicar o que há por trás e/ou além de distorções no espaço/tempo. Qual a utilidade de um cientista querer provar a inexistência de espíritos, de outras dimensões ou de Deus? Oras, se há uma crítica importante a se fazer ao meio religioso, os métodos objetivos devem apontar problemas no mundo material, no espaço-tempo conhecido, e não "no além". Todos sabem que a corrupção seja na economia, na política ou na religião, visa benefícios para certos indivíduos aqui na Terra, em vida, então as críticas devem ser feitas a tais indivíduos ou as relações de poder e não às experiências transcendentais nem às teogonias etc. 

Sendo assim, uma crítica importante é: Estes argumentos do bule celestial e da falseabilidade que servem de verdade absoluta e dogmática para muitos dos cientistas materialistas (desde o início do século 20), ainda são necessários? 

Ao invés de uma estúpida disputa entre ciência, religião e filosofia, todos esses campos do saber seriam úteis e verdadeiros se servissem para o bem da humanidade. 

Espero que a humanidade descubra isso e abandone o fanatismo, seja na religião, no ateísmo disfarçado de ciência ou em qualquer outra pré suposição "filosófica" / argumento. 

Algumas fontes:

ANDERY, Maria Amalia. Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica . 4. ed., rev. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2014. 435 p. ISBN 8528300978 (broch.). 

BOCK, Ana M.B.; Furtado, O. e Teixeira, M.L. Psicologias: uma introdução ao estudo de Psicologia. São Paulo: Saraiva.

FRANKL, Viktor E., Em Busca de Sentido. LeLivros, 1984. 

JUNG, Carl G., Fundamentos da Psicologia Analítica. Tradução de Araceli Elman; Vozes, 1985.