terça-feira, 24 de janeiro de 2023

A Ideologia Financeira: quais os impactos na sociedade? (Parte 1: O Mercado de Ações)

 

(Introdução)

 Olá. Inicio aqui uma série de resenhas específicas sobre finanças e economia que tem como proposta apresentar a disciplina de um modo diferente daqueles que estamos habituados; tanto quanto das abordagens acadêmicas tradicionais, quanto das análises insistentemente rasas dos canais “clichês” da mídia especializada, que convenhamos, segue uma cartilha doutrinária e doutrinada bastante limitada pelos cabrestos da ideologia política.

A abordagem usada pode soar provocativa para alguns, correndo o risco em alguns momentos, de ser acusada por cometer contrassenso. A verdade é que o ponto de vista mais crítico se faz necessário para questionarmos alguns dogmas econômicos opacos que por motivos de provável interesse exclusivo de certos “grupos”, se disfarçam de axiomas já estabelecidos e imutáveis nas escolas de negócios.

No entanto, devo comentar com antecedência algumas premissas dessa análise; o texto por vezes pode parecer generalista, mas não tem a pretensão de super simplificar toda a estrutura financeira do mercado global posicionando-a como alvo das ideias aqui apresentadas, ao invés disso tem a proposta de discutir e principalmente evidenciar alguns conceitos importantes que muitas vezes são tratados meramente como “comuns” ou “recorrentes”, ou ainda, declarados de forma arrogante como “obviedades” pelos ditos especialistas, mas que talvez devessem ser tópicos de maior atenção, já que são insumos para opiniões que impactam gravemente os usuários das publicações “do mercado”. Portanto, todas as críticas que proponho aqui, devem ser medidas e testadas diante dos possíveis universos de aplicação.

Por fim, informo que houve e haverá esforço em explicar e esmiuçar o tema geral, à fim de deixá-lo em um formato mais didático, mas nem sempre isso é possível sem uma regressão profunda às origens das disciplinas; por isso, nessas resenhas existirão sim “atalhos” por entre as matérias técnicas, e fica sob o critério do querido leitor, a necessidade de fazer ou não pesquisas adicionais sobre os detalhes (sempre com meu incentivo, claro!). Há de se mencionar que a comunidade financeira como um todo, é um clube exclusivista, que por vezes prefere adotar termos difíceis para esconder conceitos muito simples, como uma espécie de instinto natural de sobrevivência, com o objetivo de “intelectualizar” a disciplina financeira, e consequentemente deixá-la inacessível aos leigos fora desse “seleto clube” (é claro que esse é um meio de auto blindagem aos perigosos questionamentos alheios...); para esses casos, caro leitor, tenha certeza que irei caçá-los obstinadamente e desmitificá-los sempre que for viável.

 

(1.    Uma revisão necessária sobre títulos e ações)

Conforme comentado na introdução da resenha, não há a pretensão de adequar essa análise aos moldes tradicionalmente acadêmicos, e cito esse fato pelo simples motivo que algumas de minhas revisões sobre as matérias financeiras podem aprofundar ou mesmo reduzir as definições científicas de acordo com o objetivo buscado (mas nunca contradizer, salvo quando eu o fizer deliberadamente, descrevendo ao leitor o motivo da minha contestação).

A minha primeira proposta de esclarecimento sobre finanças é: do que de fato se trata o tal do mercado de ações, e qual sua verdadeira finalidade? Sem aquela resposta preguiçosa do tipo, “...onde os investidores negociam as ações das empresas do mercado...”; para chegarmos em uma sintetização tão simplista como essa existe um longo caminho a percorrer, e antes de colocar o pé nessa trilha acho melhor dar uns passos para trás e revelar um ponto importante sobre a natureza do mercado público de ações, ele é, antes de qualquer coisa, um dos desdobramentos do mercado de capitais.

Esclarecer o que é o mercado de capitais para fim apenas dessa leitura implica em admitir que haverá uma grave redução de foco nesse tema, já que em uma concepção mais completa ele é um produto dos mecanismos da política monetária de um governo, e, portanto, uma matéria que flerta com a macroeconomia. Contudo, vale a pena deixar bem claro que o significado de mercado de capitais não se limita somente à negociação no mercado livre de compra e venda de ações das companhias de capital aberto, mas compreende todo um amplo e abrangente sistema de fluxo de valores lastreados, formado por todos os tipos de capitais que podem ser subscritos e convertidos em títulos privados ou públicos, e que consequentemente guardam caraterísticas de transmissão de propriedade (entende-se “capitais” para todos os fins desta resenha, como valores financeiros/patrimoniais transferíveis, ou ainda, com uma ou outra ressalva técnica, como sendo genericamente os chamados ‘valores mobiliários’).

Ou seja, além das ações das empresas, fazem parte do mercado de capitais os mais diversos tipos de títulos, como os títulos da dívida pública de curto e longo prazo emitidos pelo governo, as debêntures privadas, os certificados de depósitos bancários e interbancários (chamados de CDB’s e CDI’s), os precatórios, as cadernetas de poupança, os papéis de Openmarket bancário, títulos de fundos imobiliários de gestão privada ou de grupos de investimento, os diferentes títulos securitários, ...e isso somente para citar muito rapidamente algumas modalidades de subscrição de capital. É fato que todo o complexo sistema financeiro moderno se sustenta em grande parte nesse fluxo monetário vivo do chamado ‘mercado de capitais’, e mergulhar profundamente nesse tema no presente texto seria sem dúvidas, uma jornada sem volta, pretensiosa e inconclusiva. Para os interessados, sugiro aqui na nota de rodapé (_¹) uma leitura muito técnica sobre o assunto, mas também de muito boa qualidade e extremamente esclarecedora.

Mas para a proposta momentânea, esse breve resumo acima já nos apresenta a primeira importante observação; que os mercados públicos de leilão de ações, geridos pelas bolsas de valores, é somente uma parte desse grande monstro de várias cabeças chamado de mercado de capitais. É fundamental guardarmos essa informação para uma discussão mais aprofundada sobre o papel do mercado de ações na sociedade, que invocarei mais à frente. 

Ainda antes discutir a natureza do mercado de ações de balcão e suas características mais específicas, é relevante fazer uma descrição apropriada do que, de fato, é um título negociado no mercado de capitais (e consequentemente, o que é também uma ação, uma cota, ou “um papel” subscrito por determinada empresa). E embora pareça supérfluo, esse é um alerta para o primeiro sinal da noção completamente equivocada de algumas pessoas que fazem parte desse “universo financeiro”, e que discursam na internet acerca do tema com aparente propriedade. Muito raramente é divulgado pelos “especialistas” que todo título que é negociado pelo sistema financeiro, é um título de DÍVIDA (às vezes mais em essência do que em sua forma, como explicarei logo adiante quando abordar o conceito da teoria personalista da contabilidade). Logo, uma simplificação nos permite afirmar que um título é, na verdade, nada mais do que um termo de compromisso de dívida, ou em outras palavras, uma garantia de transferência futura de valores entre duas partes.

O emissor anuncia uma dívida e subscreve um documento oficial que é uma promessa de pagamento futuro para um potencial portador do mercado (a parte no negócio que, devido a compra desse título, acaba por ceder um “empréstimo” para o emissor). A emissão de um título implica, na prática, em um modo dinâmico de uma entidade se financiar por meio de iniciativa própria de geração de dívida. Por vezes, no mercado de capitais esses títulos não possuem vínculos nominais, o que possibilita sua revenda para terceiros em um mercado secundário dedicado para isso.

Para ilustrar melhor essa relação de devedor/credor de títulos vamos regressar para as verdadeiras origens dos títulos, que durante os governos pré-republicanos anteriores ao século 18 podiam ser emitidos basicamente pelas únicas autoridades que possuíam a concentração do poder, ou seja, as monarquias. Elas os emitiam para dignatários, sendo o principal tipo, os títulos de direito de terras, que eram concedidos normalmente junto a uma posição social ou militar de destaque (duque, lorde, conde etc.). Essa era uma concessão da família real, uma espécie de reconhecimento por algum préstimo à coroa ou ao estado, porém, segundo a pesquisa de Thomas Piketty, durante os séculos 18 e 19 (nota _²), os governos monárquicos ou republicanos europeus passaram a vender títulos reais, concedendo ao portador não a propriedade da terra, mas sim o direito sobre parte do próprio tesouro da nação; a venda era direcionada para o público em geral, coletando assim, o dinheiro disponível dos cidadãos (na verdade, da burguesia e dos bancos privados, que possuíam o poder aquisitivo na época) em troca da promessa do pagamento futuro dessa dívida remunerado por juros anuais pré-estabelecidos pelo estado; essa foi de fato a ferramenta de financiamento das guerras territoriais na Europa, ou em qualquer uma das suas antigas colônias durante esse período. Logo, fica claro que qualquer relação com os termos contemporâneos “letras do tesouro”, ou “título do tesouro”, dados às emissões do governo, não é mera coincidência.

 À despeito desse modelo primordial de emissão de dívidas públicas, é consenso que o sistema embrionário de emissão de ações privadas de uma companhia, foi baseado nos títulos emitidos pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais ainda antes de 1800, durante o século 17; ou seja, para financiar suas campanhas de navegação e exploração nos outros continentes (nota _³), a VoC emitia cotas que eram promovidas pelos bancos holandeses, e na medida em que a companhia acumulava mais tesouros, havia a promessa de remunerar seus investidores com os lucros obtidos. Um sistema muito parecido com o modelo adotado pelos estados europeus anos mais tarde.

Mas talvez o exemplo mais emblemático de emissão de título seja o próprio papel moeda, isso mesmo, por exemplo aquela sua famosa cédula de vinte reais emitida por um órgão oficial (casa da moeda), com um timbre oficial do governo, e que possui a assinatura do presidente do banco central e do ministro da fazenda garantindo para você que aquele título é capaz de liquidar dívidas e ser usado para depósito bancário; com um detalhe adicional: este “título” possui liquidez imediata para ter a capacidade de fluência no mercado quando negociado (sem necessidade de haver corretores no ato de liquidação), e por isso não carrega remuneração de juros garantidos inerentes à sua emissão, diferente dos demais títulos públicos. Essa noção que a nota de papel é um título emitido pelo governo fica muito clara para quem já teve a oportunidade de ver fisicamente títulos de dívida do tesouro direto, que não passavam de grandes cédulas impressas no tamanho aproximado de uma folha de sulfite, com timbres semelhantes ao da cédula, assinadas pelos mesmos personagens citados, garantindo a liquidação de dívida ou dando acesso ao resgate do tesouro por parte de seu portador; ou quando ainda nos dias de hoje observamos na nota de libra esterlina a frase impressa em sua face: “I promise to pay (...) 10 pounds”, ou seja, o impresso representa literalmente o governo britânico expressando a promessa de troca daquele título por parte do tesouro público em libras, que nada mais é do que uma medida de peso para metais preciosos nos modelos dos antigos mercados mercantilistas na Inglaterra (esterlina, ou “sterling”, deriva de “estrela”, símbolo que era efetivamente cunhado nas antigas moedas de prata da Normandia).

Vale lembrar que esse sistema papel-moeda que vem cada vez mais caindo em desuso, foi criado em uma época de padrão-ouro, quando literalmente as economias globais ainda possuíam seu lastro no metal precioso, e teoricamente era possível fazer o “resgate” de sua parcela do tesouro oficial. 

Nota de 10 Libras.

Logo, as ações das companhias, somente pelas suas características de expectativa de premiação futura, e de subscrição de valor com a possibilidade de transferência de propriedade, já se qualificam como um tipo de título de dívida. Porém, alguns sagazes leitores acostumados com as leituras padrão dos experts hypados do assunto, podem questionar:

“- Mas a ação, diferente de outros títulos não apenas subscreve valores de dívida, mas sim transfere a propriedade de parte da empresa para o portador/titular do papel. Então, estaria eu, como portador da ação, devendo dinheiro para eu mesmo?”. 

Esse looping acaba não se concretizando, pois o sócio, não é na prática, a empresa. Portanto a ação corresponde sim a um título de dívida, mas quem possui a dívida para com os sócios é a companhia, e não o próprio sócio.

“ – mas eu sou o dono da empresa, ou pelo menos de parte dela! Então dá na mesma!!!”

Não, não dá na mesma não..., e vamos por parte, pois a contabilidade e o direito civil podem responder a esse questionamento.

Sob o prisma do código civil a personalidade separada de uma companhia é a própria concepção da natureza jurídica da empresa, não à toa entendida como “pessoa jurídica” nos termos comuns da lei, e que somente passará a “herança” de suas dívidas para os sócios pessoas físicas em situações muito específicas de baixa da empresa e de dissolução de capital; como em declarações de falência ou liquidação dos espólios da companhia (na ocasião da “morte da empresa”). O aprofundamento técnico sobre a correlação do capital da empresa com o capital particular dos sócios é puro “juridiquês”, e não me sinto à vontade de navegar nesses mares, uma vez que sou contador, não advogado. Ainda assim, acredito que vale a pena o leitor ter acesso ao polêmico documentário “The Corporation” (nota _), que explora as origens da motivação dessa segregação jurídica das corporações nos Estados Unidos, e apresenta uma versão dos “por quês” da emancipação das chamadas sociedades anônimas.

De qualquer modo, esse conceito jurídico de sociedade apartada é também refletido nas publicações contábeis, e este é o argumento principal ao qual vou me ater. Embora 99% dos contadores formados não saibam disso, a teoria personalista da contabilidade aborda o tema, e determina que a empresa nada mais é do que uma “pessoa”, ao entender todas as rúbricas contidas em seu balanço patrimonial como se fossem relações com outras pessoas (ou entidades). E veja só você, ainda por cima isso também serve para responder àquela velha pergunta dos afoitos estudantes inexperientes na área contábil:

“- por que na contabilidade é tudo ao contrário, e eu devo registrar meus pertences e ativos como “débito”, e minhas dívidas como “créditos”????? Por quêêê???? (que coisa chata do caramba, cara! ¬¬’).

A resposta está visualmente demonstrada abaixo, se – como sugere a teoria personalista – você imaginar que a empresa é uma pessoa que anota em seu “caderninho” (o balanço patrimonial, no caso), na página da esquerda (o ativo) as entidades e pessoas que devem pra ela, ou que retornarão dinheiro de alguma forma (ou seja, os  DEVEDORES da empresa, por isso registrados como débitos); enquanto na página da direta (o passivo) ela anota as pessoas para quem ela está devendo dinheiro atualmente (os seus CREDORES, por isso lançados como agentes do crédito):

 


 Perceba que na última linha destacada em amarelo e totalmente preenchida da página da direita desse diário, os sócios estão entre os credores, representando uma dívida contínua da companhia, que será somente liquidada com o próprio encerramento da empresa, que, se tudo der certo, jamais acontecerá (em um balanço patrimonial real, os sócios são descritos no elenco de contas apenas com a rubrica “capital social”, acompanhado do valor equivalente ao aporte original de capital dos sócios).

Adicionalmente, o conceito todo explicado aqui é embasado também por dois dos princípios contábeis regulamentados no Brasil (os chamados “BR GAAP” pela escola contábil); o primeiro, é o princípio da entidade, que separa a entidade empresa da entidade sócio, e que entre outras funções, tem por objetivo determinar que o patrimônio de um é segregado do patrimônio do outro (na prática, isso impede a festa do caqui, em que os sócios eventualmente retirariam dinheiro do caixa da operação da empresa sem evidência ou motivo contábil justificado, um movimento que caracterizaria, à priori, obtenção de renda dos sócios, e consequentemente um evento que deveria gerar a incidência do imposto de renda).

E o segundo princípio contábil é o princípio da continuidade, que decreta que toda pessoa jurídica é constituída com natureza perene, ou seja, com a intenção de operar sem data de conclusão prevista (ad eternum), o que de fato, justifica pontuarmos (de forma conclusiva) a relação da dívida da empresa para com o portador de seus títulos (o sócio, que possui suas respectivas ações/papéis).

As conclusões iniciais dessa resenha nos levam a afirmar que as ações são um tipo de título e um meio pelo qual as empresas e outras entidades administrativas se endividam em um mercado, em troca de recursos para execução de projetos que visam o lucro futuro.

Ao finalizar esse tópico pode até parecer que muito foi escrito para introduzir um conceito que pode sim ser encontrado em pesquisas mais sérias na internet (ou claro, nos livros), contudo o esforço em esmiuçar o significado do que é uma ação e de recapitular brevemente a origem dos títulos, vai nos permitir reformular uma ideia partindo da parte menor para o todo, em uma linha de raciocínio contínua. Essa me parece a melhor forma de apurar de forma embasada a reflexão sobre os objetivos práticos do mercado financeiro, e a forma verdadeira na qual se relaciona com a sociedade.

 

(2.    Uma revisão necessária sobre o mercado de ações e bolsa de valores)

 Ao decifrar o modus operandi dos mercados de ações, vamos simultaneamente acabar com alguns mitos e meias verdades que recorrentemente passam desapercebidos pelos “jornalistas” que colaboram com os ‘smart sites’ da moda sobre finanças, e o mais importante, vamos poder discutir de forma aberta a finalidade social desse subsistema do mercado financeiro. Por isso peço ao leitor que tenha a paciência de coletar cada descrição que vou usar para montar parte a parte, uma cristalina imagem do mercado financeiro que busco demostrar.

Os papéis da dívida de capital das empresas, ou seja, suas ações, são negociadas em um mercado de balcão organizado: a bolsa de valores. O termo “de balcão” é empregado pelo fato que esse mercado de fato opera leilões, e tal como em leilões, os locais físicos que eram destinados para negociação desses papéis possuía um balcão para as trocas e intermediação dos negócios. Ainda hoje na bolsa de valores de Nova Yorke (NYSE) e na B³ em São Paulo, por exemplo, podemos ver os executivos e proprietários das empresas subindo até um “balcão” para tocar a sineta do leilão quando executam sua primeira oferta dos papéis (basicamente de forma simbólica, já que as operações são digitais e não mais em papel, mas ainda assim os entusiastas adoram esse ritual). Uma noção importante que devemos ter desse mercado organizado de balcão, é que ele é, primeiramente, uma espécie de intermediador-regulador; e isso quer dizer que a bolsa de valores em sua essência faz parte do sistema financeiro oficial, que no caso do Brasil, é o SFN (Sistema Financeiro Nacional) – uma complexa malha de instituições na qual entidades como o Banco Central do Brasil (BACEN), o Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) fazem parte, e que tem por objetivo colocar em prática as premissas econômicas e monetárias definidas pelo governo federal.

Esse é um fato que normalmente não é comentado por muita gente que “educa” nos canais paralelos (fora da academia) sobre finanças. A verdade é que o uso da palavra “regulação” dentro da comunidade financeira é bastante evitado, por motivo majoritariamente doutrinário, é claro; implicitamente existe uma ideia de associação (tóxica) que a simples existência de um mercado acionário que inerentemente possui um elevado risco em suas operações internas, se relaciona diretamente com a ideia do “investidor arrojado”, ousado, que pelo mérito de sua poderosa inteligência é capaz inclusive de prever os preços futuros das ações em busca da “jogada certa” de sucesso, para colher sozinho rentabilidades exuberantes em suas negociações de compra e venda; e por dedução, em um universo repleto dessas ‘personalidades geniais’, um agente regulador apenas “castraria” o potencial de rendas vultuosas produzidas nesse ambiente.

Pois é, tem muita balela e falácia mesmo que são vinculadas a esse meio, e embora resvalamos aqui pela primeira vez nas questões de doutrina barata que orienta a comunidade financeira, esse ainda não é o momento de minerar esse vasto campo polêmico de ideias. Para o momento basta dizer que é possível isolar os discursos e alegorias, para focar apenas nas mecânicas reais desse mercado, a ponto de fazer uma análise mais fria do funcionamento das bolsas de valores.

Por isso vamos voltar a explorar a finalidade principal da bolsa de valores, que é operar de forma transparente e imparcial o leilão de ações entre os possíveis compradores e vendedores, cumprindo com todas as regulamentações necessárias, mas não sem antes falar um pouco de sua própria natureza jurídica. 

Embora essencialmente seja uma parte integrante do Sistema Financeiro Nacional, as bolsas de valores no Brasil nasceram como iniciativas autônomas dos comerciários e bancários regionais, se organizando em sociedades civis sem fins lucrativos. Porém, é importante citar que sob a estrutura das bolsas estavam as próprias corretoras de valores (responsáveis por intermediar os títulos nesse mercado que elas mesmas controlavam), que sobreviviam das comissões dessas operações internas no mercado de ações. Em certo sentido, ainda que “sem fins lucrativos” a bolsa gerava afinal um lucro colateral para seus controladores e criadores, já que esses eram na prática as corretoras – muitas das quais filiadas aos bancos comerciais - comissionadas pelo preço das negociações realizadas nesse mercado. Na medida em que o ambiente de negócios passou a crescer e se modernizar (em 1976 existe um marco jurídico, com a promulgação da lei 6.404/76 das Sociedades Anônimas) as bolsas de valores passaram cada vez mais a ter vínculo com o sistema regulador, seguindo as orientações da Comissão de Valores Mobiliários (essa sim uma autarquia pública, que além de outras finalidades regulares também tem a responsabilidade de auditar todas as instituições vinculadas ao mercado de valores mobiliários de títulos) ao tempo que gradualmente, passavam a ter menos influência das corretoras na sua gestão.

A partir do ano 2000 as bolsas começaram a atravessar um processo de modificação bastante drástico desencadeado principalmente pelos leilões eletrônicos, realizados agora de forma digital por meio de algoritmos que podiam dar vasão para um volume de negócios totais que não poderia ser suportado pelo antigo pregão “analógico” (corretores gritando ao telefone a flutuação dos preços das ações enquanto anotavam todas as ordens de compra e venda em um bloco de notas no saguão principal da bolsa...). Ao longo dos anos essa transformação desmanchou a larga concentração das operações da bolsa em poucas corretoras exclusivas desse mercado, e a diversificação da corretagem com novos ‘entrantes’ abaixou os preços das comissões envolvidas; ou seja, a facilidade operacional proporcionada pela tecnologia, por certo ajudou a popularizar o mercado de ações (importante ressaltar aqui o termo “ajudou”, pois ainda vou destilar essa ideia), e colocou o distanciamento definitivo e necessário entre a gestão da bolsa de valores e as corretoras de ações.

A essa altura a bolsa do estado de São Paulo, a Bovespa, já era considerada a principal bolsa de valores nacional devido ao seu tamanho desproporcional (muito maior do que as demais bolsas regionais) e à quantidade da concentração de empresas listadas em seu mercado de ações, por isso um movimento de centralização das bolsas se sucedeu; diversos movimentos societários ao longo de quase 12 anos transformaram todas as bolsas regionais e outras bolsas comerciais em apenas uma grande bolsa de valores, chamada “B³”, ainda com sede no centro velho de São Paulo onde funcionava a Bovespa. Durante todo esse processo, em minha opinião, dois fatos relevantes se destacam: a fusão da Bovespa com a BM&F e a abertura de capital da B³ na bolsa de valores.

De certa forma, pode-se assumir que a criação da “Nova Bolsa” - a fusão da Bolsa de Valores do Estado de São Paulo (Bovespa) com a Bolsa de Mercados e Futuros (BM&F) – foi o que transformou oficialmente a Bovespa em um “negócio”, já que neste movimento ela foi integrada a uma bolsa mercantil com fins lucrativos, a BM&F, que inclusive já possuía autorização do Banco Central para operar como se fosse um banco em determinadas situações. Anos mais tarde a integração da Nova Bolsa com a CETIP (uma outra controladora de sistemas de negociações de títulos públicos que já possuía capital aberto e operava sob supervisão do BACEN), proporcionou a conclusão desse grande movimento de centralização das bolsas de valores brasileiras, sacramentado por fim, com um uma oferta primária de capital na própria bolsa de valores que operavam. Ou seja, a bolsa de valores brasileira – a B3 ou B³ – não apenas passa a ser uma instituição privada com fins lucrativos, como em seguida, também passa a negociar suas próprias ações como sociedade anônima no ambiente de negócios que ela mesma controla.   

Mais à frente vou continuar a detalhar a mecânica de uma oferta pública inicial, ou do famoso “IPO” em inglês (a oferta primária na qual me referi no parágrafo anterior), mas para o momento basta eu fazer uma introdução do conceito para adicionar uma reflexão necessária sobre esse movimento específico que a B3 realizou. O IPO é a venda das cotas de uma determinada empresa para o mercado aberto de investidores (pode-se dizer bem grosseiramente que é o momento em que uma empresa deixa de ser uma sociedade de capital limitado [ltda.] para se transformar em uma sociedade anônima de capital aberto [S.A.]), mas além da venda das ações que já existiam anteriormente na antiga estrutura societária de cotas limitadas da empresa, nesse evento normalmente existe uma significativa emissão de novas cotas para o mercado, o que gera um importante aporte de capital na companhia (em contrapartida de um laudo de reavaliação do valor da empresa, realizado por bancos e consultorias especializadas); por isso esse movimento é batizado pelas auditorias e bancos como “capitalização”, pois há literalmente um incremento efetivo do capital social para as empresas que fazem a oferta de ações ao convidar novos sócios nessa iniciativa. Esse, aliás, é mais um fato pouco comentado pelos experts: a empresa não somente vende suas ações para o mercado, mas sim subscreve novas emissões de ações para vendê-las ao mercado. Por isso na ocasião da oferta inicial, muitas empresas dobram, triplicam, ou chegam até mesmo a crescer 10x seu tamanho de capital escritural (com a emissão desses novos “títulos de dívida”, ...lembram no capítulo anterior?).

Pois bem, a reflexão que cabe aqui, é que a B3 em uma razão relativamente curta de tempo (em apenas 20 anos, lembrando que ela nasceu no final do século 19 e se manteve por mais de 100 anos sob uma estrutura societária muito parecida...) passa de uma sociedade civil sem fins lucrativos, para uma empresa de capital aberto que não somente visa gerir com equidade o ambiente de negócios, mas também passa a obter lucros com serviços de consultoria, com as taxas de listagem de empresas no mercado de ações, cursos e certificações sobre investimentos, e disponibilização de ferramentas e análises de dados para seus clientes. Nessa mudança de objetivo social se tornou uma empresa do ramo privado, mas que continuou com a responsabilidade e exclusividade da gestão imparcial do fluxo de ações, e que além de viabilizar a negociação das cotas das outras companhias de capital aberto através de seu robusto sistema de informações (seu objetivo principal original), também viabiliza a compra e a venda de suas próprias ações em leilões.

Veja que não estou questionando a ética na execução prática da B3 em seus negócios, que inclusive possui diversas camadas de auditorias internas e externas, e possui os mais altos níveis de governança corporativa exigidos, mas estou sim trazendo à luz uma constatação de incongruência dos objetivos da entidade e de sua natureza jurídica sob o ponto de vista da conjuntura social. Adicionalmente, uma vez que o CADE (Conselho de Defesa Econômica) e a CVM permitiram a realização dessa oferta pública da B3, esses órgãos oficiais fiscalizadores endossaram um entrante no mercado sem nenhum concorrente equivalente; afinal, quem mais além da própria B3 pode oferecer: a listagem no mercado de ações oficial, os mesmos níveis de serviços de ferramentas e análises de dados, além de consultoria sobre o próprio mercado com a mesma quantidade de insumos que eles possuem (insumo = informação), e ainda com o mesmo “selo de qualidade” da empresa que é genuinamente a única responsável pelo funcionamento desse mercado? Uma situação atípica e talvez até conflituosa como essa, talvez fosse atenuada em caso de diluição completa do capital da empresa no mercado, ou seja, caso nenhum fundo de investimento concentrador pudesse ter propriedade de parte do capital social da B³; ou em outras palavras, que todos seus sócios-investidores fossem obrigatoriamente negociadores do varejo (pessoas físicas não organizadas em entidades), o que a caracterizaria como uma empresa de capital totalmente pulverizado. Mas esse também não é o caso.

Embora a estrutura de capital da B³, se comparada com a maioria das outras companhias de capital aberto no Brasil (anotem isso), realmente seja invejavelmente diluída, aproximadamente 25% de suas cotas ainda são concentradas sob propriedade de quatro fundos de investimento internacionais; dentre os quais três deles estão entre os dez maiores fundos de investimento e gestão de ativos do mundo, as americanas Black Rock Inc., Capital Group, e a T. Rowe Price Group Inc.. A conclusão em termos de equivalência patrimonial (a única matemática que interessa para os advogados) é que a empresa responsável pelo mercado de ações brasileiro, pertence aos principais fundos de investimentos norte-americanos, que devido sua abrangência e capacidade financeira, também são donos de outros investimentos no Brasil (A Black Rock por exemplo possui importante participação acionária na gigante farmacêutica brasileira, o Grupo RD – Raia Drogasil).

Isso não é uma acusação ou levantamento de qualquer hipótese, é apenas uma constatação sobre a estrutura de capital da bolsa de valores brasileira. Uma reflexão que, embora todas as normatizações exigidas sejam cumpridas pela empresa gestora de nosso mercado de ações, podemos estar diante de uma grave inconsistência que vive em uma área “cinza” do sistema capitalista, e que em última consequência pode resvalar nas brechas jurídicas que ocasionam os conflitos de interesses (o sistema “capitalista” é evocado aqui, muito mais pelo sentido morfológico do termo do que pelo seu significado estudado na ciência política; ou seja, como sendo a aplicação prática de um sistema amplo e complexo baseado em capitais). Eu compreendo completamente as argumentações em defesa da ocasionalidade envolvida nesse tipo de reestruturação da B3, mas acho particularmente curioso que algumas pessoas sejam tão reativas quando contestam cargos por indicação política e a influência do governo em empresas públicas estratégicas, mas que quando se deparam com essa situação conflituosa exemplificada pela abertura de capital da B3 (que o “mercado gera aleatoriamente”) desviam o olhar sem ao mínimo considerar um ponto de inflexão.

 

Estrutura acionária - B³

 Vamos fazer uma breve pausa necessária para sintetizarmos e organizarmos todas as ideias desenvolvidas até esse momento do texto:

1 – O governo federal executa suas políticas macroeconômicas por meio de políticas setoriais, como a política monetária, a política de rendas, a política fiscal e a política cambial;

2 – O pilar da política monetária, que lida com os níveis de reserva monetária do estado, poupança, e fluidez/liquidez da moeda em circulação, possui como um dos principais mecanismos de controle, o mercado de capitais;

3 – O mercado de capitais pode ser entendido como o conjunto de regras e ambientes de controles para a emissão e negociação dos diversos títulos de dívidas subscritos pelas entidades participantes (públicas ou privadas) do mercado financeiro comercial;

4 – Entre as muitas modalidades de mercados de títulos no mercado de capitais, existe o mercado público de ações, onde são negociadas as cotas das empresas de capital aberto em um ambiente comercial controlado;

5 – O mercado público de ações se realiza por meio de leilões eletrônicos, controlados e organizados pela bolsa de valores brasileira, hoje transformada em uma entidade lucrativa privada de capital aberto, a B³, mas que ainda possui a responsabilidade legal de operar o balcão de negócios fiscalizado pela Comissão de Valores Mobiliários;

6 – Os leilões permitem o trânsito livre das ações das sociedades anônimas listadas na bolsa entre os negociadores em um mercado secundário de preços flutuantes, permitindo ganhos (ou perdas) de rentabilidade por especulação, ou ganhos baseados em divisão de lucros aos acionistas. As execuções das ordens de compra e venda são realizadas por ‘sistemas eletrônicos’ de corretagem das entidades financeiras filiadas, e geram receitas paralelas para o mercado financeiro por meio de taxas operacionais e comissões. 

Ainda sobre o item 4 e o item 6 há muito o que escrever para cumprir com o objetivo dessa resenha, mas não consigo aprofundar nesses tópicos sem começar a dar um contorno mais realista sobre impacto social desses mercados. Por esse motivo, e pela necessidade de introdução de um punhado de novos conceitos para possibilitar a explicação conjectural, abrirei um novo capítulo.

 

(3.    Objetivo e impacto do mercado de ações)

Não é tão fácil encontrar respostas objetivas sobre a finalidade do mercado de ações, talvez porque muitos não saibam, ou talvez porque outros não estejam muito dispostos a esclarecer. De qualquer forma acho que é possível deixar isso claro nesse texto, principalmente se conjurarmos alguns outros conceitos correlacionados, e se adicionalmente dividirmos o tema por partes.

Os meios de comunicação que se arriscam nessa explicação, costumam ser superficiais. Uma definição melancolicamente simplista que vi em uma série documental em uma dessas famosas TVs por streaming, é que a bolsa de valores permite um ambiente de negócios respaldado a médio e longo prazo para gerar renda sustentável aos investidores e às empresas investidas. Todos os aspectos dessa resposta (embora, sob certo ponto de vista, possa até não estar incorreta) são na verdade, bastante questionáveis.

Um ponto extremamente importante de esclarecimento e que – novamente! - não é citado com frequência, é que NENHUM NEGÓCIO realizado na esfera de revenda de títulos e papéis faz parte do Fluxo Real da economia. Combinado?

Mas afinal o que isso quer dizer?

Voltando para a aula #1 de Economia Política da faculdade; a Economia pode ser dividida em duas grandes “camadas”: O fluxo real da economia e o fluxo monetário da economia.

O Fluxo real da economia é o meio onde coexiste a atividade econômica principal, e os participantes compram, vendem ou trocam produtos e serviços reais, em outras palavras, onde praticam o comércio de produtos e serviços gerais (roupas, alimentos, transporte, higiene e saúde, maquinário, imóveis etc.). Digamos que em uma economia super simplificada, uma fábrica de sapatos geraria empregos e pagaria salários aos seus trabalhadores, e consequentemente esses funcionários gastariam todo seu salário comprando somente os sapatos de sua própria produção na fábrica; esse seria um ciclo econômico totalmente “perfeito” e sustentável ao longo do tempo. Porém é sabido que as pessoas não podem somente viver de sapatos, e por conta disso um fluxo econômico real complexo coexiste com a economia da fábrica de sapatos. Toda a produção de alimentos, vestuário, transporte, higiene, luxo, lazer e turismo, ou outro qualquer que imaginar, irão fatalmente interagir gerando desequilíbrio natural entre esses nichos devido à diferença de tecnologia, de disponibilidade de recursos naturais/insumos, e do próprio valor final agregado de produção, prejudicando a empregabilidade e os salários ao longo do tempo, e que por fim irão transformar a economia em um sistema não-sustentável “matando” alguns setores (a questão do lucro, por si só, é um fator que coloca em risco esse ciclo virtuoso de produção econômica, mas abordar esse ponto agora nos tiraria bruscamente da linha de raciocínio).

De modo a viabilizar, impulsionar, e principalmente reequilibrar a atividade econômica real, a economia possui uma segunda camada de suporte para esse sistema primário, o chamado Fluxo monetário; que é o sistema controlado por um governo central responsável por ‘criar’ e ‘resgatar’ moedas e títulos de dívida induzidos pelo sistema financeiro oficial através dos bancos comerciais, para alcançar o comércio comum ou setores específicos que são deficitários, ou até mesmo o varejo geral em caso de necessidade. O resultado desses ajustes do sistema monetário juntamente à manutenção da taxa de juros oficial, é a inflação ou deflação dos valores monetários em circulação, que em suma, cria liquidez no mercado ou cria reservas para a economia nacional.

Perceba que na teoria - e com certeza somente na teoria - o fluxo monetário (e por que não o resumir como o próprio sistema financeiro?) é um fluxo de suporte que visa habilitar o mercado real de produtos e serviços. O protagonismo do sistema financeiro por sobre o fluxo real da economia pode conter um risco inerente de esfacelamento por falta de lastro, que na prática é o excesso de capital especulativo (de forma muito simplificada: a diferença entre o valor nominal total corrente da economia vs. o valor total corrente dos ativos e da renda produtiva [produtos e serviços]), fenômeno que nos acostumamos chamar de “bolha”, e digno de uma longa e profunda reflexão, mas que por hora não faz parte do foco da resenha. Fica a dica de um ótimo entretenimento nesse sentido na nota (_).

Contudo, a necessidade de resgatar o conceito de fluxo real e monetário da economia, tem por objetivo contrapor a ideia simplista de que todos os negócios gerados pelo mercado de ações são sustentáveis por si só ao longo do tempo, e que seguramente terão a capacidade de fornecer renda e rentabilidade aos seus investidores e aos seus investidos (mais ou menos o que foi mencionado no tal documentário do streaming). A sustentabilidade de um mercado que gera rentabilidade crescente ao longo do tempo teoricamente só existe se esse garantir o lastro efetivo entre a produção e os pagamentos de rendas futuras, tal como a retroalimentação do investimento do lucro nessa mesma produção lucrativa, para gerar mais produção e consequentemente, mais lucro futuro...; o que infelizmente (sinto em informar) a bolsa de valores não garante integralmente, principalmente devido suas características especulativas.

Para entender como somente parcialmente a bolsa atende essas características de sustentabilidade, vamos fazer uma autópsia no modus operandi do mercado acionário.

Quase todas (chutando: 99,9999%) as operações de compra e venda de cotas que ocorrem minuto a minuto, diariamente nos pregões eletrônicos da bolsa, cinco dias por semana, nos aproximadamente 250 dias úteis por ano, são realizadas em uma relação de “investidor” vs. “investidor”, que nada tem de relação real com o patrimônio da empresa que emitiu o papel originalmente. Quando você adquire no seu app do banco “pra-frentex” 100 cotas da empresa Azul, você compra papéis que estão sendo, na verdade, vendidos por um outro “investidor” como você, e que agora estão disponíveis no mercado; e adivinha o que nenhum de vocês dois fizeram nessa operação: injetaram dinheiro na empresa citada. Quando os investidores da bolsa negociam suas ações de determinada empresa, NADA ACONTECE no dia a dia dessa empresa, nenhum dinheiro entra, nenhum dinheiro sai, nenhum ativo da companhia é reajustado, muito menos nenhum passivo ou capital é re-escriturado (e nenhum estagiário é contratado ou demitido por causa disso). E aqui sim como um desabafo posso usar de forma arrogante o “obviamente”!

Pois é, por essa você não esperava, não é.. ? (E isso faz de você um investidor, no sentido mais verdadeiro da palavra? .....vou deixar você responder essa.)  

Essa relação de vendas de títulos entre investidores, que repassa suas ações de “segunda mão” forma, na verdade, o mercado secundário (e especulativo) de ações; que, conforme mencionei anteriormente, compõe massivamente o total dos volumes das operações na bolsa de valores. O mercado primário de ações ocorre justamente quando uma companhia de cotas limitadas (Ltda.), ou seja, de capital fechado, realiza pela primeira vez a venda de suas ações, abrindo o seu capital para sócios-investidores anônimos aportarem dinheiro de fato em suas operações, realizando assim o “IPO” (oferta pública inicial, lembram?), ao se tornar uma Sociedade Anônima (S.A.). Podemos assumir de forma resumida que as operações de compra e venda no mercado primário somente acontecem quando há a listagem da empresa na bolsa de valores (o fatídico momento da sineta que citei anteriormente), e que esse cadastro dela como empresa de capital aberto é o que possibilita de fato a injeção de capital de novos investidores no seu caixa.

Para efetivamente correlacionar pela primeira vez a finalidade da bolsa como uma ferramenta de viabilização social de investimentos de terceiros em companhias abertas do mercado nacional, vamos colocar de outra forma:

Se teoricamente existem aproximadamente 500 empresas listadas na B3 (que foram listadas “desde o início da bolsa”), foram basicamente nessas únicas 500 ocasiões que houve negociação no mercado primário de ações com efetivo aporte de capital (estou aqui deliberadamente excluindo os casos reincidentes de operações de “segunda oferta de capital”, e excluindo também os casos de empresas que deixaram de operar na bolsa após terem recebido o aporte inicial, que recompraram suas ações e cancelaram a listagem, sabendo que essas situações são exceções à regra). Hoje existem por volta de 350 empresas listadas na B³. É claro que existe também um aumento de empresas listadas por ano na última década, mas se considerarmos que 120 empresas são listadas por ano na bolsa (número próximo à quantidade real de listagens ocorridas em 2021 e 2022) e possuem a negociação média de 200 milhões de ações cada em sua oferta primária (baseado em amostra), isso resultaria em 24 bilhões de volume total de negociações no mercado primário em um ano na bolsa; para se ter uma ideia de proporção, somente no mês de novembro de 2022, o volume médio de operações realizadas por dia no mercado secundário foi de 64,5 BILHÕES de ações compradas/vendidas. A conclusão é que nessa comparação, temos 99,8512% do volume total de operações de compras e vendas de ações concentradas no mercado secundário ao invés do mercado primário; um volume impressionante que não impacta afinal, no fluxo real da economia (esse cálculo serve para apurar o meu “chute” anterior).

Não sei se ficou claro para você, mas se não ficou me permita esclarecer: quando compramos uma ação já existente no mercado não estamos “investindo em empresas”. Significa apenas que estamos comprando ações de uma outra pessoa e gerando lucro periférico para as corretoras e bancos. Mas por incrível que pareça essa é uma ideia falsa que se mantem muito viva em novos aventureiros do ramo e que é professado nas escolas de investimento, sustentado pela falta de informação e pela negligência interesseira de alguns especialistas. Dizer que o movimento de compras e vendas no mercado secundário de ações poderia eventualmente motivar o mercado primário de abertura de capital das empresas, é uma coisa, mas dizer que “investir” no mercado secundário de ações você está também investindo em empresas, é completamente diferente (e errado!). Como nota: basicamente toda vez que você, como pessoa física, compra no mercado de ações, negociará no mercado secundário; a venda no mercado primário normalmente é exclusiva, e direcionada pelos bancos que fazem parte do projeto de IPO da companhia (os clientes do Nubank recentemente tiveram essa rara chance de fazer parte da oferta inicial de uma empresa listada).

Descortinar esse fato é mandatório para analisarmos a função social da bolsa de valores sem interferência ideológica. De forma muito leviana é injetada a noção de que um mercado de ações pulsante com volumes crescentes de negociação dia após dia é saudável ou fundamental para a economia como um todo, induzindo a ideia no mínimo improvável que esse movimento traduz o “bom humor” do investidor e a credibilidade que eles depositam no empresariado ou na macroeconomia de um país, como se fosse o mais importante (senão o único) termômetro de crescimento econômico (!); essa constatação embora seja vendida como axioma da escola neoliberal, até que se prove por números, é pura alegoria, pois independente do humor e do pijama que o investidor estiver usando, conforme já demonstrado, parte significativa desse volume de dinheiro não chegará de forma sustentável no setor real da economia, e não passa de capital meramente especulativo (esse conceito será aprofundado, pois você aí já pode estar matutando: e se eu sacar meu lucro especulativo e investir na economia real, não faz parte da equação de crescimento??... acalme-se, vamos chegar nesse ponto ainda, provavelmente no momento em que eu elaborar uma crítica ao sistema de especulação). 

Por outro lado, para não deixar meu humor e meu próprio pijama contaminar o texto, constatamos que existe uma transmissão efetiva de valores de investimento na economia real nos caixas dessas empresas listadas na bolsa de valores. A B³ no ano de 2021 registrou o valor total R$ 7 trilhões de negociação a vista no leilão de ações (secundário + primário), o que segundo nosso cálculo de padeiro, resulta em aproximadamente em R$ 10,4 bilhões de valores capitalizados por companhias no mercado primário de ações, e que irá impactar ao longo do tempo o fluxo real da economia. No entanto, o resultado oficial dos valores movimentados em ofertas primárias divulgado em 2021 é de R$35,9 bilhões, portanto é esse que vou utilizar. Ainda que não seja o carro-chefe da impulsão macroeconômica do país, vamos combinar que não é um valor para se jogar fora, e aqui está o primeiro verdadeiro impacto positivo da bolsa na sociedade, ela é de fato uma ferramenta de viabilização de investimento direto na economia, liderada principalmente por capital privado.

Pasmem, é o capitalismo dando certo (agora sim no sentido da ciência política)!

Ok, foi uma piadinha irônica sem graça, pois ainda que seja uma linha de investimento interessante fica claro que esse sistema de financiamento via títulos privados não consegue liderar o suporte ao crescimento contínuo da economia real; para se ter ideia apenas em leilões públicos (privatização parcial de ativos públicos + setor de concessões) e em licitações diretas, o governo injetou aproximadamente R$ 193 bilhões na economia em 2021, e se analisarmos esse número pela perspectiva de investimento relativo, essa ainda pode ser considerada uma quantia “tímida” de investimento (1,5% do PIB, frente aos 3% investidos em 2001, por exemplo). Com a adição dos R$ 105,4 bilhões das capitalizações realizadas via BNDES em 2021, podemos concluir que o valor total de aportes viabilizados pelo mercado privado de ações corresponde a apenas 12% do valor total investido em empresas no ano de 2021.

Outra comparação peculiar é que o lucro líquido da B³ (o valor final de ganhos da empresa em um período, que efetivamente vai para o bolso do acionista) no exercício de 2021, somou R$4,7 bilhões; aproximadamente 13% de tudo que teoricamente ela viabilizou de capitalização para as empresas listadas nesse período (embora há de se deixar bem claro que esse lucro líquido da B³ não deriva somente de suas operações de IPO). Essa colocação nos permite traduzir os números sob um ponto de vista socioeconômico quase filosófico: A cada R$10,00 que a bolsa viabiliza de investimento direto na economia, ela proporciona R$1,31 de lucro direto para seus acionistas. São proporções interessantes entre as duas finalidades da B³.

E, apesar da leitura que fiz aqui do ponto de vista que a oferta pública inicial é um meio de investimento direto muito importante do mercado de capitais, é necessário incluir um adendo que nem todo o valor fechado nas compras de ações ofertadas pelo IPO vai necessariamente para o caixa da empresa e para a atividade econômica, isso porque os fundos detentores das ações – que são as organizações formadas pelos donos originais das empresas, mais os fundos parceiros (venture capital) existentes anteriormente à oferta inicial – muitas vezes vendem parte de suas ações e resgatam parte do valor da operação como lucro da venda da própria empresa, e em alguns casos extremos usam o mercado de balcão somente como meio de venda de suas ações para terceiros colhendo todo valor da operação em forma de lucro no balanço de seu fundo mobiliário, sem nem mesmo integralizar R$1 no caixa da empresa; a forma que se dará a estrutura de capital da empresa após o IPO é definida pelos sócios e pelas consultorias jurídicas envolvidas no processo, e por vezes pode ser bastante complexa.

Acredito que com os exemplos acima, ficam mais claros os objetivos sociais da bolsa de valores, tal como os motivos econômicos paralelos desse mercado, resumidos no infográfico abaixo:



1 – A bolsa de valores viabiliza que empresas de sociedade limitadas (ltdas.) com certo grau de maturidade, se financiem através da capitalização por meio de emissão de ações no mercado primário, transformando sua estrutura societária limitada em sociedade anônima. Os valores injetados parcialmente ou integralmente pelos novos acionistas no caixa da empresa em troca das ações, será usado pela empresa para realizar novos projetos visando lucros futuros, impactando assim o setor real da economia (comprando maquinário, adquirindo insumos para estoques, contratando funcionários, fornecedores de serviços, etc.);

2 – Nem sempre o valor total do IPO (oferta inicial) é integralizado diretamente no caixa da empresa S.A. que abriu seu capital. Por eventual decisão dos sócios anteriores, esses valores podem - parcialmente ou integralmente – transitar diretamente para seus fundos de gestão que simplesmente fazem a transmissão das ações para a propriedade dos novos acionistas, sem integralização do novo capital. Essa decisão dependerá de caso a caso e de diversas variáveis, como: perfil dos acionistas vendedores, decisão sobre concentração do capital da S.A., valor da avaliação da empresa listada e preço alvo de ações, entre outros;

3 – O IPO de uma empresa gera custos inerentes para companhia que abre seu capital, e consequentemente receitas para empresas de auditoria, consultoria jurídica, e bancos de investimento, que dão suporte para esse processo, pois são eles que criam a estrutura de governança corporativa exigida por lei, laudos de avaliação e análise geral do processo de abertura. Adicionalmente a listagem da empresa na bolsa gera receita operacional para a B³;

4 – Após a realização da oferta primária, as ações serão negociadas entre os participantes (investidores) do mercado acionário secundário, e o preço do papel irá flutuar pela relação de demanda dos leilões eletrônicos da bolsa. Esse mercado não gera fluxo monetário para a companhia listada, todos os valores envolvidos nas compras e vendas dos títulos ficam entre os “investidores revendedores” das ações e o sistema financeiro, em forma de taxas de serviço e comissões por corretagem. As negociações nesse mercado correspondem a aproximadamente 99% do total de operações realizada nos leilões de ações, não impactando à priori, o fluxo real da economia;

Para poder finalizar esse capítulo sobre o objetivo prático desse mercado, devo introduzir dois últimos tópicos bem importantes, mas que ainda não foram comentados na resenha: o lucro sobre as ações e o valor de mercado das companhias.

Pode ter ficado claro o objetivo da bolsa de valores que opera os leilões, viabiliza o investimento direto nas S.A.s de capital aberto, e visa lucro nessas operações; também deve ter ficado claro o objetivo das instituições financeiras envolvidas nesse meio, que lucram com a consultoria do processo de IPO e com as taxas de intermediação das vendas de ações no mercado primário e secundário da bolsa; com certeza ficou claro o objetivo das empresas de capital fechado e de seus sócios que vendem as participações nesse mercado público, e que recebem valores vultuosos na capitalização para execução de seus projetos futuros.

Então o que não ficou claro? Com certeza, a motivação dos investidores que aportam dinheiro na S.A. e os novos acionistas que posteriormente adquirem as ações no fluxo do mercado secundário.

Como qualquer outro investidor que compra um título, os acionistas envolvidos nesse mercado esperam rentabilidade de seus investimentos ao longo do tempo, e no mercado de ações eles podem conquistar os ganhos sobre os papéis de duas formas: 1 - com o pagamento dos LPA’s (distribuição de dividendos e lucros por ações) realizado pela empresa ao final dos exercícios sociais (normalmente realizado anualmente); ou 2 - com a rentabilização do valor de mercado, que é o resultado positivo da operação de venda posterior dos papéis nos leilões do mercado secundário, no caso do preço fixado no negócio ser maior que o preço original de compra.

O lucro por ação (LPA) representa o ganho mais sustentável desse mercado, pois deriva da produtividade e da atividade econômica da empresa investida ao longo do tempo. Esses valores são resultados do lucro líquido da companhia após o encerramento de cada ano, distribuído entre os sócios através da divisão do montante por cotas (como o lucro é dividido por cotas/ações, os sócios que possuem a maior participação, recebem maior parte do lucro). A princípio, ao assumirmos a mecânica tradicional de investimentos nos mais diversos setores do mercado de capitais, essa é a motivação inicial de um investidor do mercado acionário (ainda que a empresa possa simplesmente não lucrar, e que a deliberação da divisão do eventual lucro, caso ocorra, possa variar bastante de empresa para empresa de acordo com o respectivo estatuto social e assembleia de acionistas...).  

Contudo, um acionista não está preso a sua ação de modo definitivo, e por decisão própria pode vender seus títulos, essa é afinal, a lógica por trás de uma sociedade anônima. A possibilidade desse segundo tipo de obtenção de lucro sobre o investimento em ações é o que desencadeia todo o mercado especulativo da bolsa de valores, ou seja, o mercado secundário em que investidores revendem e recompram de forma frenética e incessante as ações das companhias listadas (chegamos enfim naquela resposta preguiçosa do segundo parágrafo do começo do texto). A lógica de precificação dessas ações de segunda mão no mercado secundário nos permite introduzir o conceito de “valor de mercado”, que de acordo com a definição acadêmica é determinado pela “expectativa de ganhos futuros” dos investidores sobre a empresa/papel em questão. E simplesmente por se tratar de uma expectativa de ganho sobre os valores futuros, esse é um mercado de especulação, e o confrontamento e o ponto de equilíbrio entre os preços colocados pelos vendedores e os preços propostos pelos compradores no mercado é o que vai determinar o preço final no leilão eletrônico aberto (considerando que as ordens de compra e venda continuadas realizadas ao longo do pregão diário, vão de forma incremental influenciando no preço médio móvel das ações, e por isso o preço se altera a “cada segundo”).

Obviamente a obtenção do lucro pela revenda da ação não é garantido, já que um papel pode não atingir o preço esperado pelo acionista vendedor em leilão, e passar a ter um comportamento de precificação de tendência decrescente (diminuindo), o que por conseguinte pode deixar esse investidor nervoso com as perdas potenciais (ao invés de ganhos potenciais) e fazê-lo vender rapidamente por um preço menor do que efetivamente comprou, assumindo assim um prejuízo nessa operação; por esse motivo o mercado de ações é considerado um investimento variável de alto risco, e exceto se o perfil do investidor for esse, a motivação do investimento em ações não deveria ser baseada na rentabilidade do valor de mercado de uma ação.

Portanto o valor de mercado das ações é flutuante, e obedece a relação de demanda vs. oferta dos investidores, de forma livre e irrestrita. A soma do valor total das ações de uma empresa com o preço fixado após o pregão é o que o determina o seu próprio valor de mercado (conhecido também como valor MTM – marked to market – da companhia), que inclusive é utilizado em um dos métodos de avaliação em que os economistas apuram o valor adicionado da companhia; ao confrontarem esse valor MTM com o valor total do ativo escriturado no balanço patrimonial. A apuração desse valor enseja argumentações de que os valores não escriturados de uma empresa, como o capital intelectual e o ativo informacional, estariam embutidos nessa diferença entre a avaliação de mercado e a avaliação contábil. O valor de mercado das ações é também utilizado pela mídia especializada para apurar o capital total das personalidades bilionárias e dos proprietários das grandes empresas, pois entendem que o valor da fortuna deve ser estimado pelo valor atualizado, que seria o valor “de liquidação” em caso de decisão de venda por parte desses investidores.

Importante adicionar que aqueles R$ 7 trilhões citados anteriormente como operações do mercado secundário não representa o total de valor de mercado disponível na B³ (a soma de todas as ações, também chamado de valor mobiliário); esse é o valor do total negociado no ano de 2021. O valor total negociado e o valor total de mercado diferem pelo motivo que nem todas as ações listadas na bolsa são necessariamente negociadas no ano, e principalmente, que uma única cota de uma determinada empresa pode ter sido revendida inúmeras vezes durante esse período. A título de conhecimento: o total do valor de mercado somado na B³, atualizado no dia 21/12/2022 é de R$ 4,1 trilhões. 

O valor de mercado é, por fim, insumo para um tanto de análises e discussões da empolgada comunidade financeira, ainda que por muitas vezes não saibam todos os meandros da origem até o destino desse fluxo de valor. O significado definitivo dessa mensuração, no entanto, está na esfera abstrata da interpretação dos economistas, e eu não posso aprofundar esse conceito sem entrar no meu entendimento particular sobre o assunto (minha opinião mesmo), por isso vou deixar essa divagação para o próximo capítulo.

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Pois bem, a conclusão objetiva sobre o mercado de ações é que esse tem sua função social na viabilização dos investimentos diretos nas empresas que estão em pleno crescimento, e que é protagonizado por uma instituição intermediadora que embora preze pela regulação, governança e habilitação do sistema, também é uma sociedade anônima privada de capital aberto que tem por objetivo final o lucro. Como um segmento do mercado de capitais, o mercado acionário utiliza a lógica de remuneração sobre os títulos, e possibilita o retorno aos investidores através da distribuição do lucro da companhia investida, nos períodos subsequentes à sua abertura do capital.

Por outro lado, o mercado de ações atua majoritariamente (mais de 99% da concentração das suas operações) nos leilões de revendas de ações no mercado secundário, um ambiente de negócios que lida com a especulação de rentabilidade futura sobre o valor de mercado, um modelo de investimento de alto risco orientado pela flutuação dos preços nos ininterruptos leilões eletrônicos da bolsa. A movimentação desse fluxo monetário sem restrições não interfere, à priori, no setor real da economia, mas as trilhares de negociações realizadas por ano geram lucros para o sistema financeiro de suporte, baseado nos bancos comerciais, corretoras e bolsa de valores.

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Muito foi escrito para apresentar essa conclusão objetiva de forma sintetizada, e ainda que houve atalhos e simplificações, espero ter embasado a maior parte das colocações apresentadas na resenha, partindo da parte menor para o todo.

Fato é, que à despeito da fria conclusão objetiva, o tema é cercado de retóricas e vieses dos analistas e da mídia especializada, e não é nem preciso dizer grande parte dos discursos alegóricos acerca do mercado acionário não foram ainda trazidos nessa resenha. No meu entendimento apresentar críticas ou defesas dessas narrativas que percorrem a sociedade e os sites de notícias sobre economia no nosso dia a dia, só é possível com uma espécie de posicionamento político ou, no mínimo, com a opinião sincera sobre o assunto.

A partir daqui é o que vou fazer, trazer discussões sobre essa matéria sem necessariamente estabelecer verdades definitivas, mas questionando as ideias desse “conhecimento coletivo preestabelecido” sob o meu ponto de vista, e com o que considero ser lógico e racional.

Referências:

(¹) Comissão Nacional de Bolsas. Mercado de Capitais - O que é, como funciona. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.

(²) PIKETTY Thomas. O Capital no Século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

(³) https://en.wikipedia.org/wiki/Dutch_East_India_Company 

(⁴) https://thecorporation.com/

(⁵) https://en.wikipedia.org/wiki/The_Big_Short_(film) 

sábado, 31 de dezembro de 2022

Entre o corpo e a mente

Este texto traz algumas teorias psicossomáticas, ou seja, sobre a mente (psique) e sua relação com o corpo (soma), em ordem cronológica desde o século 19 até este início do século 21. A questão "o que é a mente?" não envolve só sua relação com o corpo, mas também é muito próxima da questão "o que é existir?" por isto sempre está frequentemente em contato com a ontologia: As investigações sobre o que é existir e o que é a existência são objeto desta área da Filosofia que conforme algumas linhas de pensamento serve de base (ou pressuposto filosófico) para a ciência. Neste texto faço só uma breve observação ontológica, focando mais no que existe entre o corpo e os pensamentos/ sentimentos (a mente). 

 Século 19: O espiritismo e os campos eletromagnéticos 

 Entre os anos de 1859 e 1863 foram escritas o essencial das obras espíritas. Embora seu fundador, Allan Kardec, teve dificuldades em classificar em que área do saber se encontravam seus estudos, ele utilizou de várias comparações, reflexões e análises de experiências psíquicas (processos mentais das pessoas, internos em sua maioria). 
 O nome espiritismo surgiu para diferenciar sua teoria e seus estudos da espiritualidade e do espiritualismo. O espiritismo não contradiz nem um, nem outro, apenas, abrange assuntos além da espiritualidade e busca entender certos aspectos do espiritualismo. A partir de seus estudos, Kardec indica que o que entende-se por mente (chamada de psiquê em sua época, ou seja, alma) não é algo submisso ao corpo nem uma mera parte ou produção deste. A relação entre corpo e mente tem elementos intermediários sutis em sua maioria, que vão muito além de meras partes do sistema nervoso ou dos efeitos químicos que ocorrem nesta região do corpo. Utilizando linguagem de sua época, Kardec escolheu o termo espírito para definir o centro de seus estudos, embora ele mesmo admita que alma e espírito são quase sinônimos, já que o 1º termo se refere ao "espírito" encarnado/ conectado a um corpo vivo, enquanto o 2º termo se refere a ele mesmo em "sua condição natural", ou seja, o espírito desencarnado. A parte que contém os elementos intermediários entre corpo e alma, seria chamada de períspirito como mostrado a seguir: 
 "Assim, haveria em nós duas espécies de matéria: uma grosseira, que constitui o envoltório exterior; a outra sutil e indestrutível. A morte é a destruição, ou melhor, a desagregação da primeira, daquela abandonada pela alma; a outra se destaca e segue a alma que, assim, continua tendo sempre um envoltório. A esse envoltório denominamos perispírito. Essa matéria sutil, por assim dizer extraída de todas as partes do corpo a que estava ligada durante a vida, conserva a forma daquele. Eis por que todos os Espíritos são vistos e por que nos aparecem tais quais eram em vida. 
 Mas essa matéria sutil não tem a tenacidade nem a rigidez da matéria compacta do corpo: é, se assim podemos dizer, flexível e expansiva. Eis por que a forma que toma, muito embora calcada sobre a do corpo, não é absoluta: dobra-se à vontade do Espírito, que lhe dá, conforme queira, esta ou aquela aparência, enquanto que o envoltório sólido lhe oferece uma resistência intransponível. Desembaraçando-se desse entrave que o comprimia, o perispírito distende-se ou se contrai; transforma-se e, numa palavra, presta-se a todas as metamorfoses, de acordo com a vontade que sobre ele atua. 
 Prova a observação ─ e insistimos sobre o vocábulo observação, porque toda a nossa teoria é consequência dos fatos estudados ─ que a matéria sutil, que constitui o segundo envoltório do Espírito, só pouco a pouco se desprende do corpo, e não instantaneamente. Assim, os laços que unem alma e corpo não se rompem de súbito pela morte. Ora, o estado de perturbação que observamos dura todo o tempo em que se opera o desprendimento. Somente quando esse desprendimento é completo o Espírito recobra a inteira liberdade de suas faculdades e a consciência clara de si mesmo. 
 Imaginemos, pois, o Espírito revestido de seu envoltório semimaterial (o perispírito), tendo a forma ou aparência que possuiu quando vivo*. Nessa matéria eterizada pode haver uma modificação; o próprio Espírito pode fazê-la sofrer uma espécie de condensação que a torna perceptível aos olhos do corpo. É o que ocorre nas aparições vaporosas. A sutileza dessa matéria lhe permite atravessar os corpos sólidos, razão por que tais aparições não encontram obstáculos e por que tantas vezes desaparecem através das paredes. 
 A condensação pode chegar ao ponto de produzir a resistência e a tangibilidade**. Mas essa condensação ─ um termo pouco preciso admite Kardec ─ ou ainda essa solidificação da matéria etérea, é apenas temporária ou acidental, porque esse não é o seu estado normal. Eis por que, em um dado momento, as aparições tangíveis nos escapam como uma sombra. Assim, do mesmo modo que um corpo se nos apresenta em estado sólido, líquido ou gasoso, conforme o grau de condensação, assim a matéria etérea do perispírito pode aparecer-nos em estado sólido, vaporoso visível ou vaporoso invisível." 
 Esta sutileza do espírito é algo extremo, tanto que Kardec trabalha o conceito de perispírito, como uma força intermediária entre o corpo e a alma/ o espírito. O corpo obviamente é perceptível pelos sentidos humanos, já o espírito com seus elementos (mentais/ espirituais) são geralmente indetectáveis como o pensamento, o sentimento etc. O autor chega a cogitar relações entre o eletromagnetismo e o perispírito, mas em sua época as descobertas sobre tal assunto eram precárias, e ainda não se tinha certeza que o corpo humano produzia campos eletromagnéticos. Sua teoria foi predominantemente recusada pelos cientistas de sua época, e acabou relegada ao nível de uma prática espiritual, ou até mesmo religiosa. De fato, o espiritismo não é algo totalmente separado de uma prática espiritual ou religiosa, afinal, ao considerar a importância do espírito, o espiritismo não poderia ignorar a importância da solidariedade, da equidade e de outras virtudes pregadas por Jesus Cristo, pelos apóstolos e seus sucessores ao longo da história. Este entendimento e respeito ao valor do amor, é uma postura distante da ciência racionalista dominante desde o século 19, mas se trata do elemento essencial da lei cósmica e não de uma regra ou qualquer outra convenção criada por classes sacerdotais das igrejas como instituições em si. Mesmo porque, ao longo da história, muitas igrejas foram dominadas por lideranças (sacerdotes) corruptas que não se importam com amor, empatia ou equidade... 

 Pressupostos filosóficos da ciência dos séculos 19 ao 20 

 Em sua época, a teoria de Kardec sobre o que é a psique (sim, mente e alma pouco diferem aqui) foi sendo rapidamente substituída pela crescente interpretação científica de que a mente não passava do sistema nervoso central (mais especificamente, o cérebro) e possíveis efeitos químicos neste sistema do corpo. Apesar da frenologia estar declinando na 2ª metade do século 19 (uma área de estudos reducionistas de teor materialista sobre a mente, que acabou desmentida e refutada), o comportamento humano passou a ser estudado principalmente por fisiologistas, médicos psiquiatras e neurologistas, que chegaram a classificar a histeria (um conceito defasado e preconceituoso de transtorno psíquico) como um problema meramente neurológico. Contestando este tipo de pensamento é que surge a psicanálise entre os anos de 1892 e 1895, pouco antes da virada do século 19 ao século 20. 
 Na primeira metade do século 20, a ideologia materialista (e niilista) dominou a ciência e até mesmo parte da filosofia que viria a servir de base (pressuposto) à ciência. Nem o desenvolvimento da fenomenologia na 1ª década do século 20 e nem a Teoria Geral dos Sistemas desenvolvida no fim da 2ª década do mesmo século, conseguiram impedir o tradicionalismo nas ciências: As idéias alicerçadas em filósofos naturalistas do iluminismo (como Locke, Newton entre outros) foi praticamente elevada ao status de verdade absoluta, ou no mínimo, ao status de saber mais verdadeiro do que todos os demais. 
 Ainda assim, nestas primeiras décadas do século 20, a psicanálise, que é uma teoria dualista da mente (tratada meramente como mentalista por adversários que preferem teorias mais materialistas) estava em plena ascensão: Estudiosos da Europa, como Freud, Klein, Lacan, Jung entre outros, ganhavam notoriedade em diversos países pelo mundo, principalmente na América. A maior resistência à frente psicanalítica de estudos surgiu nos EUA: O behaviorismo de Watson e Skinner. Skinner foi um dos ferrenhos adversários da teoria de Freud na psicologia, enquanto na filosofia, Popper (entre outros) atacava enfaticamente a psicanálise pelo fato desta teoria divulgar uma dimensão mais mental do ser humano (e portanto mais ampla do que a matéria perceptível). Utilizavam como argumento contra a psicanálise, um suposto erro epistemológico (ou seja, de método investigativo), certamente porque queriam alegar que a psicologia deveria ser estritamente empírica, o que não passa de um devaneio opiniático, pois a psicologia lida com processos internos que vão além da observação pelos sentidos humanos. Estes processos internos (mentais) muitas vezes estão além da reprodutibilidade do método empírico de investigação. (Ao menos do empirismo clássico utilizado desde o final do século 17 até o fim do século 19). 
 As décadas a seguir (dos anos 30 aos 50) são de propagação de teorias materialistas nas ciências (incluindo na psicologia), pois na frente fenomenológica da psicologia, a logoterapia de Viktor Frankl e a Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers eram novidades (surgidas na década de 40) e ainda estavam em lento processo de crescimento. Nesta época (anos 50) ocorreram significantes descobertas sobre o DNA, sendo resumidamente daí que são consolidadas teorias como o dogma central biológico poucos anos depois; 
 Os movimentos da psicologia que reduziam a importância dos sentimentos e os movimentos das ciências em geral que priorizavam a matéria perceptível e a segmentação dos estudos, colaboraram para interpretações dogmáticas e reducionistas dentro desta vasta área do saber (científico). 
 Do ponto de vista histórico, pode-se afirmar que o surgimento das neurociências, por volta dos anos 1960, e a reorientação da psiquiatria em direção à busca pelos determinantes físicos e objetivos das doenças, nos anos 70 e 80, inauguraram um período de predominância das hipóteses biológicas sobre a formação patológica (SHORTER, 1997; EHRENBERG, 2004; MAYES; HORWITZ, 2005). Com a chamada remedicalização da psiquiatria, os transtornos mentais passaram a ser entendidos como resultado de fenômenos biológicos determinados e acessíveis por meio das estratégias reducionistas de investigação científica, em contraposição às explicações psicológicas e ambientalistas e à respectiva valorização de discursos e práticas que tomavam o indivíduo como ponto de partida, que vigoraram durante algumas décadas no campo psiquiátrico. 
 Então o dogma central biológico consolidou-se como a crença convencional biomédica: A primazia do DNA/ RNA/ proteína e do corpo como indivíduo - onde o DNA controla a vida (sem levar em consideração o sinal recebido, que pode ser ondas); Este é o determinismo genético; 

 Século 20: Epigenética e campos eletromagnéticos 

 O modelo científico tradicional e predominante é baseado essencialmente em suposições como a priorização da física newtoniana; Isto hierarquiza as áreas do saber da seguinte maneira: 1. física (clássica); 2. matemática; 3. química; 4. biologia; 5. psicologia; Este modelo hierarquizado que propõe a física newtoniana como superior em relação as outras áreas da ciência, contradiz até mesmo a Lei da Relatividade de Albert Einstein (e também a Teoria Geral dos Sistemas de Ludwig Von Bertalanffy), pois trata-se de um modelo convencional obviamente reducionista. É um modelo científico monista materialista com uma série de restrições como as já mencionadas, além de ser completamente diferente das propostas de Einstein e de Bertalanffy, pois as teorias de Newton não têm como ser compatíveis com as descobertas destes cientistas mais recentes, que chegaram a propor mudanças de base científica (pressupostos filosóficos, ontológicos) e de método (epistemológicos) de investigação para as ciências; 
 O biólogo estadunidense, Bruce H. Liptom, traz uma série de informações (e algumas opiniões) que ressaltam como o modelo tradicional da ciência é dogmático e causa entraves (ou atrasos) no desenvolvimento geral das ciências (em pesquisas, práticas etc): 
 Nos EUA, em uma média anual, ocorrem 783.936 mortes de causas iatrogênicas (tratamento médico, sendo cerca de 300.000 destas mortes causadas por utilização dos medicamentos receitados), 699.697 mortes de causa cardiovascular e 553.251 mortes por causa de câncer. Tais dados provam como o meio (ambiente, social etc) é o maior fator de influência sobre os seres vivos; Pelo meio são realizadas praticamente todas as interações e relações. 
 O que confere consistência ao átomo é o "movimento" de suas partículas - Propriedades elétricas/ vibração/ ondas. A física newtoniana (e a ciência tradicional que a prioriza) estuda só partículas através de uma idéia mecânica (massa e peso atômico), enquanto a ciência mais atual deve estudar o todo, consequentemente, os campos; Os átomos geram ondas e a física quântica estuda as ondas e sua ação pelas interferências; O conjunto de ondas é campo e se somos formados por átomos (que emitem ondas) somos campo de ondas também; Liptom relaciona este fato com a citação de Einstein de que "O campo é o único agente que governa a partícula" indicando que é o campo de energia que molda a matéria e a mente é algum tipo de energia/ um campo, portanto afeta o corpo; Sendo assim a medicina deveria entender o campo (formado pelas ondas eletromagnéticas) para entender o padrão das células do corpo. 
 Ondas podem gerar interferência (vibrações) construtiva ou destrutiva; Isto funciona não apenas em fenômenos físicos sobre o corpo, como a tomografia e a ressonância magnética, mas também funciona em nível psicossocial, por exemplo: Ser influenciado pelo comportamento dos próximos, do lugar etc; Este uso do eletromagnetismo em tentativas de curar pacientes não é exatamente uma novidade, pois ainda que de modo muito mais rudimentar, no século 18, o médico alemão Franz Anton Mesmer tentou curar doenças com ímãs, mas parou após uma série de oposições e acusações de charlatanismo. 
 Para Lipton, a linguagem humana pode encobrir a capacidade de perceber e emitir vibrações (mentais/ psíquicas para as células do próprio corpo e além do próprio corpo). Animais se baseiam em instintos e nestas percepções de campos emitidos pelos átomos, enquanto os seres humanos, além de reterem alguns instintos similares aos de animais, também têm o sentimento que serve como base para o indivíduo perceber o que é bom e o que é ruim para ele; Porém o ser humano não é treinado para sentir/ perceber vibrações relacionadas aos sentimentos de outros seres ao seu entorno e sim para usar as linguagens (seja fala, escrita, imagética etc). 
 Liptom então critica a biologia alicerçada na ciência tradicional, explicando que o núcleo da célula não é comparável a um cérebro, pois o núcleo celular tem função de reprodução e não de controle/ comando; E também critica o projeto genoma, pois os genes são insuficientes para controlar a vida, pelo fato de serem apenas 23.000 para 150.000 proteínas (das células do corpo); 
 Em 1977, Bruce Lipton realizou um estudo com células tronco (geneticamente) idênticas em 3 ambientes diferentes. E de acordo com cada ambiente estas células idênticas entre si formaram ou músculo, ou osso, ou gordura; provando como o ambiente controla (afeta significantemente) as células. Anos depois (em 2005) ele escreveu um livro onde citou suas experiências científicas mostrando como a epigenética influencia o comportamento das células sem mudar código genético; 
 De onde vem as (150.000) formas diferentes das proteínas: há um suporte como uma coluna vertebral - conectadas como vértebras (20 tipos de amino ácidos). O DNA conta as informações das relações entre os aminoácidos desta coluna/ sequência. As ligações químicas entre os aminoácidos são chamadas de peptídicas, e sua seqüência cria uma forma rígida. A seqüência de cada proteína é única e cada uma delas se movem criando as "vias" executando funções (ciclo de Krebs); Os polos da forma rígida da proteína são negativos. Quando as proteínas mudam de forma, criam comportamento (geram vida?) ao receberem um sinal. Existem diferentes sinais (estímulos) para cada proteína. O movimento é proteína somada ao estímulo; "só assim ocorre comportamento". Os sinais não são só matéria (físico/ químico) como se pensava, pois se fossem assim, se limitariam meramente aos contatos físicos e aos diferentes tipos de feromônios (de alarme, de agregação etc); Eles também advém dos campos de ondas ; Portanto um sinal, ou estimulo pode ser uma onda, que se liga a proteína; 
 Uma doença pode ser proteína ruim (problema congênito), mas isso ocorre em menos de 5% da população mundial; Então doença é o sinal (estímulo) ruim - isso é 95% dos casos; Pode vir de trauma (impacto etc), toxina (interferência "interna" na proteína), ou da mente (pensamentos/ sentimentos). 
 Liptom resume dizendo que o cérebro é que controla os sinais (ondas, certamente eletromagnéticas) que nossas proteínas recebem. Ele só parece não saber que o coração é que emite maior campo eletromagnético do corpo humano! 
 

 Segue a explicação do funcionamento celular em relação ao cérebro: Existem 3 camadas do zigoto (ectoderme, mesoderme e endoderme); A ectoderme é o que forma a pele e o sistema nervoso central. De modo similar à célula, a nossa pele é o que permite ou não permite que sinais externo entrem em nós. A membrana da célula, que é uma espécie de pele, é a parte celular que tem a função mais parecida com a do nosso cérebro: É o que decide se os sinais (estímulos do ambiente...) entram ou não. Receptores existem na pele, como na membrana das células. Na membrana das células, o receptor percebe (recebe o sinal primário de vibração do) meio ambiente, passando-a para proteína processadora, que por sua vez, repassa ao efetor que envia sinal físico (secundário) para a via protéica no interior da célula. Funciona de modo similar ao corpo que constituem: Orgão exteriores como olhos, pele etc, recebem o estímulo (os sentidos recebem os sinais do ambiente) e o cérebro decide o que fazer (sensação); A proteína tem estados anteriores e posteriores aos sinais recebidos; ... A Transdução de sinal estuda este processo que envolve a cadeia de proteínas. Assim, a percepção controla a biologia; controla o comportamento; O gene não toma decisões, é só como um desenho técnico; é uma questão de ler o projeto, ou seja, ler o gene; 
 Cromossomos (hereditariedade) são feitos meio a meio de DNA e proteína; A capa protéica que cobre o DNA pode ser movida por sinais (Epigenética - controle do que está acima dos genes), portanto os genes em si não controlam nada. O indivíduo, através do processo da percepção, controla os genes, não o contrário. Isto parece ter uma relação com a diabetes de origem psicológica por exemplo. 
 As células do corpo são baterias de 1.4 volts o que parece pouca coisa, porém o corpo humano tem cerca de 50 trilhões de células, que multiplicado por 1,4 volts geram cerca de 70 trilhões de volts (de acordo com Liptom, toda essa energia seria o que antigas culturas orientais chamavam de ch'i) ; 
 A antiga imposição das mãos (em inglês, lay on hands), também relacionada ao magnetismo animal de Franz Mesmer durante o século 18, e o passe espírita do século 19 em diante, é colocar ou trocar energia com o "doente/ferido"; 
 Para Liptom deve-se considerar as seguintes ciências: matemática fractal/ física quântica/ eletroquímica / biologia (certamente epigenética)/ psicologia (talvez ainda a se desenvolver); 
 Natureza e criação dos seres humanos são importantes, mas são só a ponta do iceberg, enquanto a epigenética é a base. (citação baseada em Randy L. Jirtle) 
 Percepção (crença) / visão da vida - controla comportamento e controla genes (quais são lidos etc) e pode reescrever código genético. Percepções são aprendidas, podendo estar certas ou erradas, Já que a percepção controla a biologia/ a vida, assim pode-se dizer que a crença (também) a controla. Por isso é difícil mudar crenças. 
 A comunidade de células serve o organismo como um todo, por isso devem ouvir um comando central. Este comando central é a mente que recebe sinais dos ambientes internos e externos. 
 Placebo é a cura por crença/ pensamento positivo. 33% dos tratamentos médicos curam por efeito placebo. O que não se propaga é o fato do "pensamento negativo" ser o nocebo que pode ser nocivo. 
 O prozac é droga placebo por isso funciona para muita gente. Esta crença pode ser fraca ou forte e faz parte do campo (eletromagnético, do cérebro, das células...) 
 Células podem estar em crescimento ou em proteção, movimentando-se aos sinais positivos ou afastando-se de negativos. A mente faz o mesmo movimento enviando sinais para as células. O hipotálamo faz essa transmissão (envia sinais para glândula pituitária). Este é o eixo hipotálamo/ hipófase - pituitário/ endócrino/ adrenal; A percepção então envia o sinal para glândulas supra renais (processo hormonal, como o do stress por exemplo, onde o sangue das vísceras vai para os membros); Este processo de surgimento/ propagação de (hormônio do) stress afeta negativamente o crescimento e a regeneração das células (stress pode desligar o sistema imunológico); 
 Germes, vírus e bactérias são organismos oportunistas que atacam mais o sistema imunológico desligado; 
 O amor é o maior sinal de crescimento. Pessoas se aproximam do atraente/ do amor/ crescimento (se expandem) e se afastam do repulsivo, do medo, protegem-se (retraem-se, escondem-se). 
 Identificado nos anos 90, o surgimento de um grande número de casos (surto) de autismo nos orfãos da Romênia, ocorreu por falta de afeto: A grosso modo, aconteceu devido a substituição de manifestações de amor por desprezo, precariedade, opressão e violência; A felicidade que é uma expressão do amor é altamente dependente da percepção (como cada pessoa lida). 
 Após dar uma descrição da mente (neurológica, mas com certas semelhanças à psicanálise e à TCC)**, Liptom diz que mindfulness (observar tudo, a si e ao redor) é melhor que "pensamento positivo" contra comportamentos costumeiros/ rotineiros do subconsciente (exemplo da auto-sabotagem, insitência em pensar ou falar "não mereço" etc) e também diz que a hipnoterapia deve funcionar para o indivíduo voltar ao estado de aprendizagem (infantil). 
 A magneto-encefalografia / o campo eletromagnético indicam que as pessoas não são (o conjunto de) partículas como o modelo científico tradicional afirmava - são ondas que se interlaçam, ondulam em fase uma com a outra e podem causar soma; 
 Receptores das células recebem sinais diferentes (membranas, externas, recebem sinais do campo) esses sinais são "individualidades" Receptores (antenas) marcam identidade da célula/ indivíduo - identidade esta que vem de fora (células convertem experiências do mundo em sensações para a mente, ou seja, para o espírito) - A partir disto, Lipton diz que Existência serve para experimentar o todo (a realidade), comparando o ser humano como as cores separadas da luz branca; Cada ser humano é uma parte de um todo[*]; Assim, seres humanos se destruírem é uma doença auto-imune. 

 Dendritos estão mais ligados às atividades cerebrais do que os neurônios. 

 
 
 Uma definição clássica dos dendritos é: são prolongamentos numerosos, especializados na função de receber os estímulos, sejam do meio ambiente, de células epiteliais sensoriais ou de outros neurônios. 
 A pesquisa mais recente parece estar mostrando que a neurociência, em termos de estimar a capacidade do nosso cérebro, só tem arranhado a superfície. A Universidade da UCLA descobriu uma camada oculta de comunicação neuronal através dos dendritos. Isso significa que a capacidade do cérebro pode ser até 100 vezes maior do que se pensava anteriormente. 
 Esta descoberta pode mudar significativamente os fundamentos da neurociência convencional. Até poucos meses atrás, os fundamentos da neurociência eram apoiados na crença de que os dendritos eram algo como uma fiação passiva que transportava sinais elétricos para o corpo neural, o soma. Mas esta pesquisa mostrou que os dendritos são muito mais do que apenas condutores passivos. Os dendritos geram seus sinais elétricos, em picos cinco vezes maiores e mais freqüentes que os picos que vêm do núcleo de neurônios. 
 O que esta descoberta implica?? 
 Estamos falando de uma mudança muito radical no conhecimento que a neurociência tem sobre o funcionamento do cérebro. Entre outras coisas, É possível que os processos de aprendizagem ocorram no nível dendrito e não na soma dos neurônios. 
 A neurociência convencional argumentou que os sinais elétricos emitidos pelos corpos celulares são a base de nossas habilidades cognitivas.. Agora sabemos que os dendritos não têm uma função passiva e que eles também emitem seus próprios sinais elétricos. 
 Se isso já não é surpreendente por si só, pesquisadores descobriram que os dendritos também são inteligentes. Eles são capazes de adaptar sua tomada elétrica ao longo do tempo. Este tipo de plasticidade só foi observado até agora em corpos neuronais. Isso sugere que os dendritos podem "aprender sozinhos". 
 Como os dendritos são muito mais ativos que o corpo celular, podemos começar a intuir grande parte da informação gerada em um neurônio é feita no nível dendrítico sem informar o corpo celular. Ou seja, os dendritos podem atuar como uma unidade de computação e processar suas informações. Uma independência que há alguns meses nem sequer era suspeita. 
 "É como se de repente descobrisse que os cabos que levam à CPU do seu computador também podem processar informações, completamente extravagantes e um tanto controversas". 
 -Dr. Mayank R. Mehta, diretor da pesquisa- 
 A capacidade do cérebro: pesquisa 
 A equipe de pesquisa do Dr. Mayank R. Mehta desenvolveu um sistema que permite a colocação de eletrodos próximos aos dendritos de ratos. Este sistema permite capturar sinais elétricos do animal durante o tempo em que você está acordado e realizar suas atividades diárias, bem como durante o sono. De esta maneira eles foram capazes de ouvir por quatro dias seguidos a atividade elétrica dos dendritos e transmiti-los ao vivo para os computadores.. 
 Os eletrodos foram implantados na área do cérebro ligada ao planejamento de movimentos, o córtex parietal posterior. O que eles conseguiram capturar foi que durante os períodos de sono os sinais elétricos pareciam ondas irregulares, e com cada um deles era apontado um pico. 
 Quer dizer, enquanto os ratos dormiam, os dendritos conversavam entre si, e eles fizeram isso em tiros elétricos até cinco vezes mais rápido do que aqueles originados em corpos celulares. Durante os períodos de vigília, a taxa de disparo foi multiplicada por dez. 
 Os dendritos: medidores do aqui e agora 
 Outra descoberta chocante durante esta investigação foi encontrada no tipo de sinal emitido pelos dendritos. Os sinais elétricos dos dendritos podiam ser digitais, mas também mostravam grandes flutuações, quase duas vezes maiores do que as próprias espinhas. Este tipo de flutuação ampla mostra que o dendrito também mostrou atividade de computação analógica. Algo que nunca havia sido visto em nenhum padrão de atividade neuronal. 
 O que calcula este tipo de emissão de dendrito parece estar relacionado ao tempo e espaço. Observando os ratos se comportando em um labirinto, dois tipos de sinais foram distinguidos. Um na forma de picos do corpo celular em antecipação de um comportamento. Neste caso, foi antes de virar uma esquina. Enquanto os dendritos emitiram seus sinais de cálculo, assim como o animal virou a esquina. 
 Parece que a neurociência tem subestimado o poder computacional do cérebro. Apenas da perspectiva do volume, e porque os dendritos são 100 vezes maiores que o soma, podemos supor que o cérebro tem, na verdade, cem vezes mais capacidade de processamento do que se pensava. Parece que o neurônio não será mais a unidade computacional básica do cérebro, tendo assumido os dendritos. 
 Neuronas rosa mosqueta são uma nova classe de neurônios da qual não se sabe muito sobre, mas no momento a descoberta levanta questões tão interessantes quanto a evolução humana. " 
Os autores do estudo são Mayank Mehta, Pascal Ravassard, David Ho, Lavanya Archarya, Ashley Kees e Cliff Vuong, todos da UCLA.

 Bruce H. Lipton deixou a área científica por volta dos anos 90, preferindo divulgar seus estudos e ideias de modo independente. É claro, que ele tomou tal decisão devido a predominância da tradicional visão newtoniana/ materialista/ niilista na academia, que mostrou-se reducionista. Seus estudos foram questionados e bastante recusados em prol do determinismo genético nos meios científicos. Apesar da oposição e de algumas opiniões mais polêmicas do biólogo, a descoberta de Lipton na epigenética mostrou-se cientificamente válida, principalmente após as descobertas atuais da neurociências nesta virada da 1ª para a 2ª década do nosso século (21). 
 Os dendritos que eram consideradas a parte mais periférica dos neurônios, mostraram ser "peça" central na atividade do sistema nervoso. Sua definição anterior era que serviam apenas de receptores dos sinais, enquanto os neurônios realizariam uma parte mais relevante da atividade cerebral... Possivelmente esta descoberta sobre o processamento realizado pelos dendritos está relacionada aos campos mencionados por Liptom. Isto faz sentido considerando que a mente (humana ou qualquer outra) é algo, e, sendo algo diretamente imperceptível para "observadores" externos, ela deve ser algo muito sutil como Kardec sugeriu durante o século 19. 
 Ainda faltam muitas peças deste quebra-cabeça, mas os caminhos começam a aparecer... Talvez não iremos desvendar as profundezas da alma, mas é possível que descubramos o que é o perispírito, ou que este seja renomeado como um campo relacionado a mente (alma) e ao cérebro...

Referências:
https://newsroom.ucla.edu/releases/ucla-research-upend-long-held-belief-about-how-neurons-communicate acessado em 31/12/22, tradução 

Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos - maio de 1858, IPEAK

sábado, 26 de novembro de 2022

O que forma a ciência e quais são suas contradições

 

Neste texto foram reunidos conceitos comuns e tradicionais sobre o que é a ciência, em seguida de críticas que ressaltam a necessidade de resgatar a importância da filosofia, de modelos científicos do século 20 e da transdisciplinaridade nas ciências. 

1. "A ciência moderna, tendo como referencial os modelos matemáticos e a física mecânica, estabelece pressupostos ontológicos e epistemológicos na relação com o mundo e com a natureza.
Neste parágrafo alega-se que a ciência determina uma pré - suposição ontológica e epistemológica, ou seja, pré suposições feitas a partir de campos da filosofia. 
O 1º campo (ontológico) é a área da filosofia que aborda o existir/ a existência e já teve seu significado alterado ao longo da história devido ao fato de tocar a questão da cosmovisão - o que existe no ponto de vista do ser humano. A cosmovisão ou "visão de mundo" é um tema frequentemente polêmico que acaba determinando os pressupostos dos saberes; 
O 2º campo (epistemológico) é o segmento filosófico que estuda qual deve ser o método de investigação mais adequado/ mais verdadeiro para construção de conhecimento. 
Esta definição de pressupostos da "ciência moderna" então se mostra estranha, já que a área que determina o método de investigação deveria ser um campo da filosofia (e foi no ocidente, durante aproximadamente o século 4 a.C, a partir da obra de Platão, até o iluminismo entre os séculos 17 e 19 d.C.). E certamente nem o saber filosófico como um todo, nem campo algum de seus estudos, deveriam ser subordinados nem reduzidos ao saber científico. 
Pior do que isto, a ciência descrita acima está presa a um modelo teórico do fim do século 17, como será explicado adiante. Este é um dos motivos que faz a ciência tradicional negar a transdisciplinaridade, pois hierarquiza os campos do conhecimento, elevando a física newtoniana à uma condição dogmática de superioridade. 

2. "A ciência funciona com base nos pressupostos que causas naturais explicam os fenômenos naturais, que a evidência do mundo natural nos pode dar informação sobre essas causas, e que essas causas são consistentes.
Este é o argumento para se definir um pressuposto (uma pré suposição) de que só a matéria perceptível pelo ser humano explica os fenômenos na Terra e no universo. Em prática é o modelo arcaico do período iluminista (1685-1815) centrado nas ideias de Isaac Newton (que consideravam, por exemplo, que o espaço era absoluto - argumento refutado pela teoria da relatividade como demonstra o astrofísico e filósofo Arthur S. Eddington no livro The Nature of Physical World). Tal argumento é a pré suposição de que só o que é perceptível pelos sentidos existe: Um reducionismo existencial, ou ontológico, enraizado na ciência. Embora houveram discussões sobre este assunto ao longo da história da civilização humana (no século 20, por exemplo, a fenomenologia, a teoria geral dos sistemas e até mesmo a teoria da relatividade propuseram mudanças ontológicas e epistemológicas para as ciências...), a visão dominante da ciência permaneceu tradicionalmente a mesma do final do século 17, apenas com algumas mudanças retóricas, ou seja, de discursos. (teoria da falseabilidade, argumento do bule cósmico entre outros sofismos) 

3. "Para ser científico, o conhecimento deve ser validado e demonstrado através de investigações e experimentações. O conhecimento científico é, portanto, aquele que é passível de teste, racionalmente válido e justificável e que pode ser replicado e alcançado através de estudos, observações e experimentações.
Se para ser científico, o conhecimento deve seguir estas regras a risca, então a ciência não abrange a psicologia, pois trabalhar com processos internos do ser humano, como pensamento, sentimento (etc) estaria mais para um campo da filosofia. Os sentimentos e os pensamentos de um paciente em uma psicoterapia por exemplo, não podem ser replicados (não podem ser reproduzidos, controlados pelo psicólogo) e alguns dos sentimentos (não expressos) não podem ser nem observados. Além disto, seguindo estas regras, a psiquiatria é predominantemente pseudociência ao tentar tratar pensamentos, sentimentos, emoções e comportamentos com métodos empíricos de pressupostos materialistas. (Thomas Szaas e certamente muitos outros estudiosos, devem ter percebido e discutido isto). E para quem acha que isso não tem impacto significante, vale lembrar que impor o pressuposto materialista e o método empírico às ciências humanas, é reduzir o ser humano meramente ao seu aspecto biológico, ou seja, é um biologismo que já existiu na ciência moderna entre o séc 19 e a primeira metade do séc 20: Tal tipo de alegação está ligada às ideias preconceituosas, interesseiras e objetificadoras como a cranoscopia, a drapetomania, a eugenia (três ideias biologistas e racistas que já foram consideradas científicas) o darwinismo social e a farmacocracia (estas duas últimas também eram aceitas como científicas e ainda não foram completamente superadas).

Tradicionalismo reducionista na Ciência - Como superar? 
O que deveria ser proposto no lugar do arcaico modelo teórico tradicional (ou "paradigma") dominante ainda hoje nas ciências? Nada realmente novo, pois está registrado na história das ciências: 
Entendendo a crítica que a fenomenologia fez aos modelos científicos tradicionais dominantes no início do século 20, é preciso abandonar a centralidade nos pressupostos sejam eles naturalistas (materialistas) ou psicologistas (mentalistas) como se esta fosse um dogma. É mais lógico e mais útil priorizar a teoria geral dos sistemas (desenvolvida entre 1928 e 1968), que além de possibilitar novas descobertas sem desprezar os estudos transdisciplinares, traz à tona a importância da existência por relações. 
Além disto, quando encontramos uma situação (relativa a um fenômeno, objeto etc) em que não conseguimos solucionar com métodos tradicionais, é preciso mudar o método de investigação. E o método adotado sempre tem uma intenção por trás, por isto sempre toca em uma questão ontológica. 
O que estou dizendo aqui é baseado em fatos históricos: A fenomenologia indicou que a ausência (suspensão) de pressupostos é uma postura mais adequada para se investigar os fenômenos do que a pressuposição da ciência tradicional que se baseia em uma "ontologia" materialista, seja esta o monismo materialista ou o monismo eliminativo. 
Mas a ausência de pressupostos obviamente não deve ser a soltura dos métodos de investigação, tanto que a fenomenologia buscou desenvolver um método de investigação/ de construção de conhecimento (episteme) com seu rigor particular. A fenomenologia com sua suspensão de pressupostos também trabalhou a questão da intencionalidade por trás das ciências, o que não deixa de ser uma discussão sobre a intenção do estudo e do método de investigação/ construção de conhecimento. 
Como eu afirmei, a teoria geral dos sistemas, assim como a fenomenologia, se mostram mais apropriadas para novas descobertas se comparadas à ciência tradicional (newtoniana, materialista...) e não devem em nada à esta última no que se diz respeito ao rigor dos métodos de investigação. Porém, como são produções humanas, assim como os demais métodos e bases da ciência, são passíveis de falhas/ imperfeições. É aqui que eu retomo a importância da busca pelo bem à humanidade e às todas formas de vida (valores universais, ética), afinal existe uma intenção em praticamente toda atividade humana, seja pensamento ou comportamento. 
A busca pelo bem pode parecer algo muito subjetivo, mas também não é exatamente uma novidade: Era um tema central da filosofia socrática/ platônica dos séculos 3 e 4 a.C., também aparecendo em diálogo com o cristianismo separado das igrejas no espiritismo do século 19... Estas filosofias não são opostas ao materialismo, pois não são meramente idealistas/ mentalistas/ espiritualistas: Elas valorizam a ciência, respeitando o estudo objetivo da matéria e da vida material, valorizando as ideias de progresso e de uma sociedade justa - Portanto são de pressupostos dualista ou pluralista que tratam nossa existência "material" juntamente com nossa existência "mental" que pode abranger uma série de experiências reduzidas ou negadas pela ciência tradicional. 
Claro, alguém poderia argumentar que determinar uma ontologia (ou cosmovisão) dualista ou pluralista como base das ciências é trabalhar com pressupostos, sendo também um preconceito. 
Porém o problema da pressuposição materialista é a negação do que não é detectado pelos sentidos do ser humano ou de outros seres vivos estudados. Além disto, o problema também são duas ideologias implícitas nesta doutrina filosófica: 
A 1ª é o niilismo - Esta ideia de que nada existe além da matéria perceptível, facilmente fomenta o desprezo por sentimentos como o amor e o desprezo por atitudes e conceitos em prol de uma civilização mais justa, como a empatia, a solidariedade e a equidade. 
A 2ª é o reducionismo onde prioriza-se a fragmentação e o estudo por partes (que tem sua utilidade, mas não deve ser o único modo de investigação). Tal fragmentação, ou segmentação, geralmente nega relações existentes/ fatuais entre diferentes campos de conhecimento e de áreas do conhecimento científico com outras áreas do saber. Além de categorizar toda diversa gama de fenômenos relacionados a espiritualidade como fantasia, alucinação e/ou primitivismo, este reducionismo implícito do pressuposto/ doutrina materialista tende a atrasar ou mesmo negar estudos transdisciplinares e também despreza ou reduz a importância de certas áreas do saber que se relacionam com campos de conhecimento científico, como é o caso da relação fatual e histórica da filosofia com a psicologia. Consequentemente, neste último caso, também nega a importância da filosofia e sua relação com a psiquiatria e tantas outras áreas que estudam questões que envolvem o comportamento, a mente, a existência etc.

sábado, 29 de outubro de 2022

Pensamentos e sentimentos influenciam o Coletivo?

 

Como nos tornamos uma sociedade que ignora os fatos e a empatia? 
Geralmente entende-se que existem sentimentos bons e ruins com certa facilidade, mas o mesmo não é tão simples assim quando nos referimos aos pensamentos. Embora algumas pessoas possam afirmar que existem pensamentos ruins e bons, se tratando de um tema mais racional, certamente a coisa fica mais complexa: Seria possível um pensamento bom independer de um sentimento bom? E um pensamento ruim independer de um sentimento ruim? 
Eu entendo que eles devem ter algum tipo de ligação entre si (pensamento bom com um sentimento bom e um pensamento ruim com um sentimento ruim), mas talvez um não dependa do outro. Não totalmente. 
Explicarei com alguns exemplos: Pensar (e planejar) a equidade, o progresso e o zelo entre todos seres humanos é bom, mas não requer um sentimento bom direcionado a todos seres humanos, uma vez que tal sentimento se for possível, deve ser algo raro devido a sua grande amplitude. Pensar (e planejar) a equidade, o progresso e o zelo entre todos seres humanos seria o reverso de não pensar (nem planejar) a equidade entre todos seres humanos. Seria também o reverso de tumultuar e propagar destruição e retrocessos. E por fim, ao invés do zelo, teríamos descuidos, boataria e mentiras. 
Tudo isto independe dos sentimentos, ao menos em algum nível, porque os exemplos ruins (negativos) podem ser propagados com uma dose maior de ignorância do que com sentimentos negativos como ódio, intolerância etc. 
Isto significa que quem pensa ou age conforme os exemplos ruins aqui citados são totalmente neutros em suas relações (seja com a comunidade, com a nação ou com a política)? Não. Como eu afirmei em textos anteriores, esse negócio da neutralidade é praticamente inexistente porque pressupõe uma falta de intencionalidade por parte do ser humano, quando na verdade sempre há alguma intenção, seja vaga ou clara... 
Obviamente, se tratando de relações humanas a nível coletivo, o assunto fica mais complexo, pois temos as mídias de massa, as redes sociais com seus influencers, etc etc. Tudo isto influencia na decisão das pessoas... Mas até que nível? Já não sei dizer, mas sei que quanto menos nos esforçamos para pensar e entender nossa sociedade e nosso país, mais manipulados somos. Quanto mais optamos por ver o que é meramente agradável, o que é fácil ou o que está de acordo com tradições, menos pensamos. Quanto mais colocamos a culpa de nossos problemas no passado, menos resolvemos problemas no presente. Quanto mais temos medo de possibilidades futuras, temos menos paz e menos saúde (mental principalmente). Temos a capacidade de pensar e de sentir, assim podemos estudar, checar informações, buscar entender os outros, se colocar no lugar deles etc. Nada disso é realmente novo, pois se trata de manter-se consciente, um assunto que trato (principalmente na conclusão) neste outro texto que escrevi em meados de 2020: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/02/politica-brasileira-de-2013-2020-um.html
Sim, discorri sobre pensamento e sentimento aqui, para falar de política porque política esbarra em tudo. Ao menos nesta vida material. Já para quem crê em uma vida espiritual, acho difícil a política gerar impactos significativos lá "do outro lado", mas mesmo para espiritualistas e religiosos, a política é uma realidade que afeta seus corpos e mentes. 
Então se tratando de política temos um cenário muito parecido com o da última eleição presidencial (de 2018). De um lado, Luíz Inácio da Silva (Lula), um político voltado um pouco mais as questões sociais, como infraestrutura do país e direitos dos cidadãos. Um cara envolto em casos suspeitos (mensalão, sítio em Atibaia, pedalinho etc) como tantos outros políticos, mas que realiza um mínimo de ações esperadas desta classe. Outras acusações mais atuais contra ele são especulações sobre o que ele fará em seu mandato e fazem parte dos discursos que beneficiam o outro candidato, como mostrarei adiante. Então do outro lado, temos Jair Bolsonaro... Não o clássico político voltado a liberação do mercado, favorecendo principalmente os maiores oligopólios do país... Este é um cara que alegou em rede nacional que os portugueses nunca pisaram na África (nega a história do país), Um cara que fala em fuzilar pessoas de outro partido político. Um cara que defende torturador investigado e condenado. (fez tudo isso publicamente, diante câmeras) Um cara que atrasa compra de vacina em meio a um a pandemia mortal e planeja diversos esquemas fraudulentos durante a mesma pandemia. Um cara que reforça todo discurso de ignorância, imediatismo e ódio com a desculpa de não poder dizer o que pensa, quando na verdade pensa o tempo todo em prejudicar o maior número de pessoas para favorecer a si mesmo e uns poucos aliados. Aliados que reproduziram discursos nazistas, desmataram a Amazônia, sucatearam a FUNAI e a Eletrobrás e outros setores da infraestrutura. Um cara que quer controlar completamente o poder judiciário, destruindo uma das instituições básicas de equilíbrio de poder da república. A lista de atentados e crimes deste candidato a presidência do Brasil é surrealmente grande. Para um candidato que governou só um mandato, as ações reprováveis deste ser, certamente bate os recordes de qualquer outro político que tenha passado pela presidência do Brasil. 
Mas, como um cara desses subiu ao poder? Simples: Pode até ser que as mentiras criminosas (fake news) durante a corrida eleitoral favoreceu o candidato, mas a verdade é que ele representa uma parcela grande da sociedade: Pesquisas feitas entre o 2º semestre de 2020 e o 1º semestre de 2021, que indicavam o período de menor popularidade de Jair, ainda sustentavam cerca de 30% de apoio por parte dos eleitores brasileiros! 
Tais informações são um indício que vivemos em uma civilização que (ainda) alterna entre a histeria movida à boataria (fomentação de rivalidade, orgulho e intolerância) e frieza movida a base de ignorância ou ganância. Isto é evidente fora da política, em setores como o mercado e a religião, por exemplo: 
Trabalhadores não se enxergam como uma classe há anos: Vivemos na era da auto exploração induzida principalmente por empresários de grandes corporações e eventuais empresas de médio porte sob discursos de produtividade e meritocracia; (para mais esclarecimentos sobre este assunto recomendo a leitura do livro "A Sociedade do Cansaço" de Byung Chul Han.) 
Muitos religiosos não desenvolvem espiritualidade alguma: São pessoas manipuladas por líderes religiosos (pastores ou padres conservadores) gananciosos que propagam discursos de intolerância, rivalidade e conseqüentemente espalham medo e ignorância. As religiões cristãs que são dominantes em países americanos como o Brasil, desde meados do século XVI, foram inundadas por sensacionalismo após o desenvolvimento das mídias de massa e digitais. Não se trata de poucos líderes religiosos enriquecidos manipulando as massas como ocorria nas eras medievais e coloniais: Se trata de descaracterizar o próprio cristianismo, distorcendo e abandonando os ensinamentos centrais de amor a Deus (ao Todo) e de amor ao próximo (a todas pessoas). 
 Isto sem contar as classes militares como a polícia e o exército tomados por um número crescente de ações violentas (sem entendimento da sociedade, sem inteligência investigativa e sem capturar os maiores traficantes de produtos ilegais no país), tomados pelo abandono das funções originais (de proteger a maioria da população, que é pobre) por intromissões na política (colaborando com uma política policialesca e com punitivismo). 
Tais discursos e ideologias (meritocrática, fundamentalista e/ou punitivista) são aceitas pelas pessoas porque elas têm algum espaço "na mente". Este espaço pode ser mais intelectual/ racional surgindo como uma forma de desconhecimento (seja por falta de oportunidade de estudo, por opção de estudar pouco ou nada etc), ou pode ser mais "emocional" (referente aos sentimentos) como algum vazio afetivo ou existencial. Na verdade os discursos nocivos podem ser assimilados pelo fato das pessoas terem ambos espaços (desconhecimento e vazios afetivos/ existenciais). 
Eu não tenho uma mensagem mágica que fará as pessoas a se tornarem mais empáticas, estudiosas, colaborativas ou unidas. Mas tenho esperança de que um dia, de alguma forma, nós aprenderemos a importância destas posturas e virtudes como sociedade (seja a nação ou a raça humana de todo planeta). Seja por caminhos com mais sofrimentos ou com menos sofrimentos.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

A Importância do Conteúdo Inconsciente

 

A "Futilização" Inconsciente 
Neste texto faço uma análise dos meus "sonhos" e busco explicá-los sob o olhar de algumas teorias psicológicas, sem me prender a qualquer uma delas.

Daqui um ou dois meses eu completarei 3 anos anotando meus sonhos... Ao menos os que eu me lembro ao acordar. Comecei a fazer isto por questões bem particulares relacionadas a assuntos que considero espirituais, mas neste ano de 2022 gradativamente eu vim percebendo que, em meus sonhos, eu fui lidando cada vez mais com futilidades... Como assim? 
Os sonhos de "teor espiritual" que eu tive eram questões que eu resolvi com auxílio de ensinamentos do espiritismo, da umbanda e principalmente do cristianismo (não, não foi algo relacionado a uma religião, igreja nem congregação específica). Porém, após meses de empenho em me espiritualizar baseando-me principalmente em lições sobre humildade e solidariedade, os sonhos de teor espiritual cujo muitos eram assustadores e terrivelmente incômodos, foram dando espaço a diálogos mentais, na maioria das vezes com assuntos que me parecem comum na vida das pessoas, mas em geral desinteressantes para mim. Estes assuntos geralmente giram em torno de discussões superficiais sobre algum trabalho, sobre alguma ciência, particularmente psicologia que é uma área que eu estudo, ou sobre hobbies relacionados a busca por prazeres dos seres humanos. Esta busca por prazeres a que me refiro, surge em meus sonhos sempre relacionada a pessoas que eu conheço e convivo (ou convivi) com certa frequência: família, colegas da faculdade e às vezes de outros círculos que frequento e frequentei, como grupos do trabalho, do bairro e de hobbies, de "voluntariados" etc. 
Antes de começar a anotar os sonhos no final de 2019, eu ocasionalmente me lembrava de um sonho ou outro, e de fato, os assuntos do cotidiano e de rotina, frequentemente apareciam em meus sonhos de maneira aparentemente entediante, superficial e/ ou fútil. Porém após os eventos que me fizeram realizar minhas "anotações oníricas" e buscar uma espiritualidade, os sonhos se tornaram muito vívidos. Mais vívidos do que qualquer sonho vívido que eu tive antes do ano de 2016, ou seja, mais do que qualquer sonho que eu tive em 35 anos de vida no velho planeta Terra. Às vezes o termo vívido me parece impreciso para explicar estas experiências "oníricas", pois muitos destes sonhos a que me refiro parecem mais reais do que meu período de vigília (acordado) na Terra. Mais reais porque não existe o filtro do corpo de fato: Parece que minha essência (alma ou mente) interage diretamente com outras mentes e que toda manifestação sensorial dos sonhos (imagens, sons etc) é um mero cenário ocultando uma vastidão de elementos psíquicos meus e dos outros com quem interajo. É quase uma realidade a parte, mas não completamente separada, pois é conectada com meu período de vigília, através das experiências que geram aprendizado, através das reações emocionais etc. Mas porque tudo, ou quase tudo, em meus sonhos parece estar se tornando fútil? Acho que não é uma pergunta difícil: a resposta é que a maioria das pessoas gosta de ser fútil (certamente eu me incluo entre estas pessoas com alguma frequência). 
Em nossa atual sociedade pós moderna, existem inúmeras maneiras de ser fútil, afinal com o desenvolvimento das mídias de massa (rádio, tv etc), da internet, da indústria de entretenimento (cinema, jogos eletrônicos, streaming, netflix etc) e com a propagação da comercialização de produtos psicoativos legalizados (bebidas alcoólicas e cigarro), as maneiras de ser fútil se multiplicaram como nunca visto antes nos 5.500 anos de história escrita da humanidade. Independentemente se meus sonhos são apenas reflexões da vida consciente ou se apresentam aspectos de uma existência que transcende o corpo, estes conteúdos fúteis me mostraram a profundidade que eles podem alcançar na mente humana. 
Na psicologia, alguns autores da linha psicanálitica (Freud, Lacan, Klein, Winnicott, Jung entre outros) indicaram o quanto o ser humano pode enganar a si mesmo (ou tentar), escondendo conteúdos incômodos, ou difíceis de lidar em seu inconsciente. Isto ocorre porque nenhuma memória ou sentimento deixa de existir repentinamente podendo ressurgir do nada algum tempo depois. Nossos sentimentos continuam existindo e podemos fingir que não os temos ou podemos lidar com eles, seja um sentimento "bom ou ruim" e o mesmo fenômeno ocorre com nossas memórias. 

 Mas os conteúdos fúteis deveriam predominar em nosso inconsciente? Se isto acontecer com a maioria das pessoas, não seria um sinal que há algo errado com a humanidade? 
Os conteúdos que parecem me cercar de fato são assuntos que as pessoas falam o tempo todo: de trabalhos rotineiros, estudos superficiais, hobbies/ passatempos e prazeres sensoriais relacionados às bebidas e comidas. Mais raramente falam sobre prazeres de teor sexual porque isto ainda é tabu em nossa sociedade. Todos estes assuntos também me cercam em meus sonhos, mas conforme fui me dedicando à espiritualidade, foi ficando mais nítido que estes conteúdos eram cada vez mais externos, ou seja, são cada vez menos meus, parecendo conteúdos de outras mentes as quais eu escuto e indago em meus sonhos. A atividade/ interação vívida durante meu sono que mencionei anteriormente. 
Independentemente se são meus ou não, estes conteúdos no inconsciente não mostraria uma priorização crescente do que é superficial? Ou seja, uma priorização do que não tem profundidade nem racional nem sentimental... ? Tais conteúdos deveriam ser um mero passatempo, algumas pausas para descanso ou talvez um "ócio criativo", mas não algo que nos guie, muito menos que nos inspire porque eles sequer trazem algum tipo de esperança. 

 Assim, eu vejo clara proximidade destes fenômenos inconscientes com o adoecimento de nossa sociedade. Se não buscamos nem valorizamos os bons sentimentos mais profundos e/ ou mais vastos, quais serão as consequências disto para a sociedade humana? 
Se todos interagimos uns com os outros e regularmente não só no lazer, mas no trabalho, nos estudos e dentro de um sistema econômico e social-político, significa que precisamos uns dos outros como seres humanos inseridos em uma comunidade ou civilização - Significa que cada ser humano é um sistema com pensamentos, memórias, opiniões, sentimentos que se expressam no diálogo, no lidar, no aprender e nas emoções que afetam o próximo. Significa que nós como sistemas racionais e sentimentais, quando interagimos uns com os outros e quando colaboramos com a comunidade ou nação em que vivemos, formamos sistemas sociais, ou seja nossa sociedade, que vão desde grupos de amigos, famílias, colegas de estudos e de trabalho até cidadãos, membros de um estado e de uma nação. O que será de nós ao priorizarmos discussões superficiais ou fúteis em nossas vidas? O que será de nós se ninguém prioriza uma empatia solidária? Será que ao priorizarmos a superficialidade no trabalho, nos estudos e no lazer, não perderemos a tolerância uns com os outros? Será que não vamos dar as costas aos necessitados? Será que não vamos começar a acreditar em qualquer acusação ou boato que surgir em nossa frente? 
O neuropsiquiatra fundador da logoterapia, Viktor Frankl, estudou a importância do sentido de vida nas pessoas. Não vou detalhar a teoria de Frankl neste texto, mas para quem ainda não conhece, recomendo o livro Em Busca de Sentido. 
Enfim, este sentido de vida pode (e deve) orientar o ser humano para além de si mesmo, ou seja, para um sentimento dedicado às pessoas amadas, para uma tarefa que sirva às outras pessoas ou para uma espiritualidade/ fé em algo maior, algo que nos dê esperança e certamente possa propagar esta esperança. Afinal o ser humano não existe para si mesmo individualmente - ele é um ser social, que apesar dos conflitos, aprende a colaborar com o próximo, evoluindo e esta evolução requer tolerância entre indivíduos e grupos e uma busca por desenvolvimento racional e emocional. Esta busca deve nos orientar, ou seja, precisa se tornar nossa prioridade. É ela que deveria predominar nosso inconsciente (ao menos em algum ponto de nossas vidas) e nos guiar como seres humanos, cultivando o se importar não só com os pequenos círculos sociais (família e amigos) mas também com os grandes círculos sociais (as comunidade, a sociedade, a civilização humana). Se nos deixarmos levar pela superficialidade em todas estas interações, nos tornaremos facilmente manipuláveis e insensíveis. Afinal uma mente superficial é mais facilmente manipulável e uma mente que ignora o sofrimento em seu entorno, e as dificuldades de sua realidade, torna-se insensível. Uma combinação que ao dominar a maioria das pessoas de uma sociedade, pode trazer consequências muito nocivas em larga escala. 
A busca pelo desenvolvimento racional/ intelectual e emocional/ sentimental não é algo utópico ou dificílimo de se praticar - Trata-se de ser humilde, assumindo que temos muito a aprender e que podemos aprender. É assim que abandonamos tanto as atitudes superficiais e fúteis, como as posturas e atitudes nocivas ao próximo e a nós mesmos - Esta busca por desenvolvimento nos âmbitos mais racionais e mais sentimentais é semelhante à proposta de Viktor Frankl (a busca por sentido) e é um modo de desenvolvermos uma capacidade de aprender aliada a uma empatia solidária...