quarta-feira, 8 de junho de 2022

Observações sobre os Perigos do Materialismo


Platão, um "amigo do saber" dualista? 
Durante o século 4 antes de Cristo, surgiu a filosofia de socrática, que continuava a estudar alguns temas a partir dos filósofos naturalistas, mas sem deixar a importância da humanização, e por isso, questionava apenas alguns pontos da religiosidade e da mitologia grega, como os contos que exaltavam a violência, o descontrole e a vingança (no texto "A República"). 
Em outros textos, eu já mencionei como o saber, o bem e a justiça foram temas centrais na obra de Platão, então tomarei outro enfoque da filosofia ocidental que viria a influenciar a ciência, séculos mais tarde: 
No texto "Eutífron", Platão mostra Sócrates dizendo que em toda discórdia sobre temas perceptíveis pelos nossos sentidos (usa os exemplos da quantidade de itens, altura e peso de um corpo), é possível recorrer a uma análise/ medição para se chegar a concórdia. E completa dizendo que não é possível usar tal resolução de medir/ analisar mecanicamente, quando a discórdia é sobre o bem e o mau, o belo e o feio e o justo e o injusto. 
Afinal, estes assuntos passam por um crivo das pessoas, sendo analisados em processos internos do ser humano, como o pensamento e o sentimento. E ninguém pode medir, pesar ou quantificar pensamentos e sentimentos. 
Esta ênfase dada em conceitos que não podem ser analisados mecanicamente nem externamente por um observador, faz com que diversos estudiosos, acadêmicos e afins, classifiquem Platão como um filósofo mentalista/ idealista. Porém um mentalista não se ocuparia de escrever obras como A República, onde o autor mostra seu mestre tendo longas discussões sobre como seria uma sociedade ideal. Um mentalista (ao pé da letra, ou extremista) não discutiria a prática das artes e da política, pois ficaria preso só a teoria, a menos que ele inventasse um argumento de que toda matéria é fruto da imaginação... 
Entende-se que Sócrates dava uma "ênfase" nos conceitos mentais através de lógica: questionava, argumentava e refutava seus interlocutores, chegando à conclusão que praticamente todas as decisões e atitudes se iniciam nos processos internos dos seres, mais precisamente, em processos psíquicos, por mais complexos ou rudimentares que tais processos pudessem ser. Então, preocupando-se com a mente e com diversas práticas do ser humano, é plausível afirmar que tanto Sócrates como Platão eram dualistas no que se refere a teoria da mente e da existência. Este dualismo pode ser entendido como uma teoria que estudou desde a prática, ou seja, fatores externos, observáveis, até as causas por trás destas práticas: Os pensamentos e sentimentos, processos perceptíveis apenas pelo indivíduo que os exercem e os sentem. Trata do "observável" (passível de análise pública) e do que está "além" desta possibilidade. Se tratando em teorizar sobre causas ou origens, além da capacidade da análise mecânica, é possível que a teoria da mente e da existência socrática (e platônica) seja até pluralista. 
Obviamente as teorias dualistas e pluralistas servem bem aos estudos que utilizam métodos investigativos MENOS objetivos, lidando menos com comparações diretas e mais com conjecturas e reflexões. Porém como não deixam de estudar as práticas e os fenômenos externos, elas podem também servir aos estudos objetivos. É claro que não alcançarão respostas de maneira rápida, mas por se aprofundarem mais lentamente nas questões e fenômenos, devem atingir resultados mais precisos. De qualquer forma estas teorias da existência e da mente devem servir melhor para estudar o que as ciências objetivas (ainda) não podem medir nem quantificar: as questões sobre a existência, sobre os sentimentos, os pensamentos e alguns outros assuntos diretamente relacionados a estes. 

Um resumo histórico do Dualismo vs o Monismo Materialista 
A revolução científica começou no final do século 15, durante o período denominado de Renascença. A Renascença por sua vez, começou na década de 30 do mesmo século a partir da difusão de textos de filosofia socrática/ platônica que ocorreu com o fim dos fracassados concílios da igreja católica entre os apostólicos romanos e os ortodoxos. Em um período muito próximo a este, mais precisamente em 1453, o Império Otomano termina sua conquista do decadente Império Bizantino, e as nações cristãs da Europa começam as grandes navegações em busca de novas rotas de comércio, e claro, de riquezas materiais. 
Já a ciência na Europa, começando com Nicolau Copérnico, passando por Kepler, Galileu até René Descartes, lentamente progrediu até por volta da virada do século 17 ao 18. Descartes trouxe a questão do "dualismo alma / corpo" ou "espírito / corpo" oriunda dos textos platônicos, de certa forma, aproximando-a de temas mais neurológicos e psicológicos. Neste final aproximado da "revolução científica" (alguns autores adiam o final da revolução para o século 19), as teorias dualistas começaram a ser consideravelmente questionadas por teorias monistas. Estas teorias monistas afirmavam que só há uma realidade, uma existência, considerando impossível uma separação entre mente (ou alma) e corpo. 
Neste período, do século 18 ao 19, ganharam forças basicamente duas teorias monistas da existência: o mentalismo e o materialismo. Então, durante o iluminismo do século 19, após variadas descobertas da biologia, aconteceu que o materialismo se sobressaiu tanto sobre o dualismo, como sobre o mentalismo. 
Como eu mencionei em outros textos, este período após as grandes navegações, foi de uma grande ascensão da classe burguesa majoritariamente europeia que enriqueceu muito com a exploração da América e a utilização de mão de obra escravizada. Tais fatos não são meras externalidades em relação ao mundo da filosofia e da ciência: parte dos "pensadores" e da "elite intelectual" (talvez a maioria) pertenciam a esta classe de burgueses enriquecidos. Não é difícil entender que tais indivíduos cedo ou tarde publicariam obras que defendessem o enriquecimento individual e criticassem (negativamente) as causas humanas e sociais. O materialismo que se opôs ao mentalismo e ao dualismo surge desta classe, que já não estava interessada em criticar só a religião por esta ser o suposto maior entrave para o desenvolvimento intelectual e científico. Um dos grandes autores a defender o empirismo, foi o mesmo a definir o liberalismo: o britânico Locke. Até aí, talvez fosse até (um pouco) "saudável", defender a possibilidade de terras privadas para diminuir o poder das monarquias e das igrejas europeias, porém não só os ideais, como também o comportamento das 3 classes dominantes, obviamente se tornou descontroladamente materialista durante todo o iluminismo (séculos 17 a 19). Por mais que o iluminismo foi um período de progresso científico (basicamente europeu), ele foi acompanhado e assombrado por uma objetificação de pessoas de classes mais pobres e de etnias "estrangeiras", com o aval da ciência que acabara de rejeitar as teorias dualistas e mentalistas para se fundar apenas no materialismo. Tanto teve o aval da ciência que o abominável movimento chamado darwinismo social ganhou força entre as elites brancas e resultou na invasão e partilha do continente africano entre líderes europeus na penúltima década do século 19. 
É claro que o materialismo científico não é mero sinônimo dos comportamentos materialistas nem é a principal e única causa de uma ganância unânime e dominante no mundo. Porém, por se tratar de uma teoria propagada inicialmente e principalmente por altas classes sociais do iluminismo, o materialismo é um dos fatores cruciais da objetificação do ser humano, e consequentemente, da exploração desumanizada do trabalho e dos recursos do planeta. Mais ou menos na época em que foi publicada a teoria da evolução das espécies de Darwin (e de Wallace, que teve menos fama por não pertencer às altas classes sociais), também foram publicadas as obras do espiritismo de Kardec. Kardec não negava a ciência, pelo contrário, chegou a propor que o espiritismo poderia passar por algumas correções devido às descobertas científicas. Porém o fundador da teoria (dualista ou pluralista) espírita, comentou sobre os perigos de um niilismo materialista (que também poderia ser chamado de materialismo niilista), ou seja, falou sobre a suposição de que nada existe além da matéria perceptível pelos cinco sentidos: 
"Pela crença no nada (que a mente não pode existir além do corpo), o homem concentra forçosamente todos os seus pensamentos na vida presente; não se poderia, com efeito, logicamente se preocupar com um futuro que não se aguarda. Esta preocupação exclusiva com o presente conduz naturalmente a pensar em si antes de tudo; é portanto o mais poderoso estimulante do egoísmo, e o incrédulo é consequente consigo mesmo quando chega a esta conclusão: Gozemos enquanto aqui estamos, gozemos o máximo possível, visto que depois de nós está tudo acabado; gozemos depressa, porque não sabemos quanto isso durará; e a esta outra, muito mais grave para a sociedade: Gozemos à custa de qualquer um; cada um por si; a felicidade, aqui embaixo, é do mais hábil. Se o respeito humano retém alguns, que freio podem ter aqueles que nada temem? Dizem a si mesmos que a lei humana não atinge senão os inábeis; é por isso que aplicam seu gênio aos meios de se esquivar dela. Se há uma doutrina nociva e antissocial, é seguramente a do niilismo [néantisme], porque ela rompe os verdadeiros laços da solidariedade e da fraternidade, fundamentos das relações sociais." 
 " Suponhamos que, por uma circunstância qualquer, um povo inteiro adquire a certeza de que dentro de oito dias, dentro de um mês, dentro de um ano, será aniquilado, que nenhum indivíduo sobreviverá, que não restará mais nenhum traço dele depois da morte; o que ele fará durante esse tempo? Trabalhará para seu aperfeiçoamento, sua instrução? Fará esforço para viver?Respeitará os direitos, os bens, a vida de seu semelhante? Submeter-se-á às leis, a uma autoridade, seja ela qual for, mesmo a mais legítima: a autoridade paterna? Haverá para ele um dever qualquer? Seguramente não. Pois bem! O que não ocorre em massa, a doutrina do vazio realiza todo dia de forma isolada. Se as consequências não são tão desastrosas quanto poderiam, é porque primeiramente na maioria dos incrédulos há mais bravata do que verdadeira incredulidade, mais dúvida que convicção, e eles têm mais medo do nada do que querem demonstrar; o título de espírito independente lisonjeia-lhes o amor próprio; em segundo lugar, os incrédulos absolutos são ínfima minoria; sofrem a contragosto o ascendente da opinião contrária e são mantidos por uma força material; mas se a incredulidade absoluta chegar um dia ao estado de maioria, a sociedade estará em dissolução. É ao que tende a propagação da doutrina do niilismo." 
"Cada qual é livre sem dúvida em sua crença, de crer em alguma coisa ou de não crer em nada; mas aqueles que procuram fazer prevalecer no espírito das massas, sobretudo da juventude, a negação do futuro, apoiando-se na autoridade de seu saber e no ascendente de sua posição, semeiam na sociedade germes de distúrbio e de dissolução..." 
Nesta mesma época de Kardec, Darwin e Wallace, tivemos vários outros nomes que fizeram história e se envolveram em algum nível com a questão das bases filosóficas e métodos que viriam a formar a ciência, mas não vou tratar deles aqui, para o texto ficar mais "sucinto". 

Os Pressupostos Filosóficos "saem" da Ciência para Política e Economia
Embora tenha aparecido uma série de indivíduos elitistas e de direita no espiritismo décadas após Kardec (que não entenderam ou ignoraram os textos do espiritismo), aqui eu completaria que o argumento reducionista de que só a matéria perceptível pelos 5 sentidos humanos existe, serve praticamente só aos movimentos sócio-econômicos de direita, principalmente aos de extrema direita. Oras, o que os multimilionários acham do cristianismo? Qual o motivo para se preocuparem em distribuir riquezas? Medo de uma revolta popular? Certamente não, ao menos após o desenvolvimento dos motores movidos à combustível fóssil e o desenvolvimento de armas cada vez mais potentes e fáceis de usar. Com um capitalismo desregulado determinando regras da sociedade, os multimilionários podem comprar qualquer pessoa com extrema facilidade, tamanho é o poder de fascinação / persuasão com a promessa de fartas recompensas materiais. Ele pode pagar seguranças privados, advogados e juízes, adquirir imóveis em qualquer canto do planeta para se esconder, usar os veículos mais rápidos e modernos, isso sem falar em táticas desleais de mercado, como formação de cartéis/ oligopólios, monopólios, enfim... É possível entender que em nosso planeta, a matéria perceptível atualmente pertence aos líderes de (extrema) direita. Estes multimilionários podem até posar de filantropos e realizarem doações aparentemente grandes, mas que para seus bolsos, em nada pesam. O que é doar 75 milhões de dólares, para um bilionário com mais de 25 bilhões de dólares? É só fazer uma rápida continha: Tire "cinco zeros" de cada um destes valores e verás que é como alguém com 2500 (dois mil e quinhentos) dólares na conta, doar 7,50 (sete dólares e cinquenta centavos). 
A esquerda, supostamente preocupada com a sociedade, que acredita poder combater a direita com qualquer teoria materialista, está fazendo o jogo de seus adversários. Além de dinheiro e bens materiais serem a ferramenta da direita, a preocupação com a sociedade/ o coletivo, é preocupação com o próximo e portanto requer algum grau de empatia e solidariedade, por mais racionalistas que possamos ser. Os multimilionários sejam psicopatas ou perversos, resumidamente, não se preocupam com o próximo nem fazem nada de bom à sociedade. O líder de esquerda seja um cristão, um ativista ateu ou um político, se ele realmente faz algo por um coletivo ou pela sociedade é porque ele tem um mínimo de empatia/ sentimento pelo próximo. Ele pode ser predominantemente sentimental ou até mesmo racional, mas tem essa capacidade de sentir pelo outro, ou ao menos, de se colocar no lugar do outro, além de pensar/ planejar uma sociedade. 
Obviamente o texto não tem objetivo de simplesmente comparar as ideologias/ movimentos sociopolíticos de direita e de esquerda, nem de pregar o espiritismo como algum tipo de dogma. Este é só um levantamento de como o materialismo foi erguido a uma posição de verdade absoluta que acabou sendo propagado da filosofia, à ciência, chegando à economia, à política e claro, atingindo praticamente toda a civilização humana em algum nível... Um nível preocupante que deixarei para detalhar num próximo texto, onde posso abordar (não pela primeira vez) as ideologias que andam de mão dadas com o materialismo escrachado e com o (neo) liberalismo / capitalismo desregulado, como por exemplo, o consumismo, o culto ao corpo, a meritocracia etc.
 


Mas esse assunto de monismo (materialista) e dualismo tem importância? Bom, digamos que eles são modelos de existência, algo estudado pela ontologia, um campo da filosofia. O problema é que eles servem de raiz para a ciências, ou mais precisamente, de pressuposto filosófico da ciência. 
 E a ciência tem que ter um pressuposto filosófico?... 
Muitos diriam que sim, mas há uma corrente de estudos que nega isto: A fenomenologia alega que um pressuposto em prática é um preconceito. Por esta razão a fenomenologia explica que é preciso uma ausência de pressupostos para se estudar qualquer assunto buscando a verdade e evitando todo e qualquer tipo de viés. 
Esta postura é um bom começo, certamente melhor que o materialismo e o mentalismo (como proposta inversa do materialismo) que são reducionistas pelo simples fato de não deixarem questões desconhecidas em aberto, mas não há argumento ou teoria inventada pelo ser humano que vá ser isenta de problemas... 
Para se evitar que qualquer tipo de saber seja usado para o mal, ou seja, para causas mesquinhas, é preciso se pautar pelo bem. Este bem não é impossível de se definir: ele começa com humildade e desenvolve-se como justiça, equidade, solidariedade etc.
 
Fontes:
 
PLATÃO - Eutífron, ou Sobre a Piedade - L&PM Pocket, tradução do grego de André Malta;
KARDEC, Allan - O Céu e o Inferno, ou a Justiça Divina, Segundo o Espiritismo, tradução do IDEAK; 
PLATÃO - A República - Traduções de Carlos Alberto Nunes e Pietro Nasseti;
FORGHIERI, Yolanda Cintrão - Psicologia Fenomenológica, Fundamentos, Método e Pesquisas; Ed. Pioneira;
 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Um olhar crítico sobre o Cientificismo na Psicologia

 

O famoso filósofo do século 18, Immanuel Kant, afirmou: (1989, p. 33), “a psicologia nunca pode ser mais que uma doutrina histórica da natureza do sentido interno e, como tal, tão sistemática quanto possível, ou seja, uma descrição natural da alma, mas nem sequer uma doutrina psicológica experimental”. 
Assim entende-se que a psicologia fazia parte da metafísica, que por sua vez, era um campo da filosofia. De qualquer maneira ainda não havia uso formal da palavra ciência na época de Kant até cerca do ano de 1830 - A "ciência" era a filosofia natural. 
Aproximadamente, desde a última década do século 17, a filosofia se dividia em disputas entre o materialismo e o mentalismo (empirismo vs racionalismo etc). Tais disputas não se encerraram por completo hoje nem mesmo na ciência, mas é possível entender que as teorias mentalistas, dualistas e pluralistas sofreram duro golpe após as descobertas de Darwin e Wallace no campo da biologia. 
Nesta mesma época surgiu o espiritismo, que de certo modo, buscou explicar fenômenos tidos como sobrenaturais até. Ao lidar com inteligências não perceptíveis pelos 5 sentidos humanos, o espiritismo não utilizou pressupostos materialistas nem uma "ontologia" monista como base para seus estudos. Além disto, o método utilizado para pesquisas espíritas praticamente não poderia ser o empírico, afinal seus objetos de estudo ou eram fenômenos que surgiam e desapareciam independentemente da vontade do observador ou aconteciam apenas no interior (psíquico, emocional) do indivíduo observado. Esta foi a razão para seus estudiosos utilizarem o termo estudos psicológicos em suas publicações. Obviamente o espiritismo foi rechaçado pela maioria dos cientistas do século 19, afinal a ciência já era predominantemente dominada pelo positivismo que invocava o materialismo e o empirismo como verdades absolutas: 
Para quem não sabe, o positivismo é uma teoria filosófica empirista que sustenta que todo conhecimento genuíno é verdadeiro por definição ou positivo – significando fatos a posteriori derivados pela razão e pela lógica da experiência sensorial. 

Cerca de 4 décadas depois da publicação das obras de biologia de Darwin e Wallace e das obras espíritas de Kardec, no fim do século 19, o psiquiatra austríaco Sigmund Freud, juntamente com Breuer, observou que as pessoas recalcavam (reprimiam) sentimentos e pensamentos diante uma situação conflitante ou de difícil aceitação, seja por vergonha, medo, nojo ou sentimentos similares. A partir daí ele desenvolveu a teoria da psicanálise alicerçada sobre os conceitos do inconsciente e do consciente da psíque humana. A palavra psique, originalmente significa alma e passou a ser sinônimo de aparelho psíquico, ou seja, a mente em uma linguagem mais popular. 
O inconsciente seria a parcela mais profunda da mente, onde residem os instintos e onde ficam conteúdos mentais esquecidos ou fortemente reprimidos. Já o consciente é a parcela ativa do aparelho psíquico que age basicamente no presente pensando e percebendo. Por fim, o pré-consciente seria um meio termo entre inconsciente e consciente, onde ficam as memórias que podem ser resgatadas/ relembradas sem grandes dificuldades. 
Em sua época, a ciência estava tão dominada pelo pensamento materialista, que a maioria dos estudiosos consideravam problemas psicológicos, ou seja emocionais, (como o que eles chamavam de histeria no século 19), como problemas biológicos/ neurológicos. Freud desmentiu tais argumentos e separou o fator genético do conflito psicológico / moral; Freud afirmou que as representações recalcadas são deformadas: O desejo e a lembrança/ representação recalcada, de certa forma aparecem no sintoma observado. A partir daí Freud afirma o seguinte sobre a histeria: “podemos sintetizar os conhecimentos até agora adquiridos na seguinte fórmula: os histéricos sofrem de reminiscências. Seus sintomas são resíduos e símbolos mnêmicos de experiências especiais (traumáticas).” 
Este enfrentamento acidental ou proposital do materialismo viria a ser uma das principais razões das críticas aos estudos de Freud. Afinal, a psicanálise não se apoiou nos pressupostos naturalistas: Ao afirmar a existência do inconsciente, do pré-consciente e de seus respectivos elementos, a psicanálise nega a teoria existencial (ontológica) de que apenas a matéria perceptível pelos 5 sentidos humanos é real (o monismo materialista). Isto também faz com que o método empírico seja questionado: Afinal não se pode perceber os processos internos do "objeto" de estudo (paciente/ cliente). O que se percebe nos estudos e na psicoterapia são suas falas e suas emoções (sentimentos que podem ou não ser escolhidos antes de exteriorizados por expressões faciais, tom de voz, gestos etc). Não se pode reproduzir os fenômenos estudados no paciente a bel prazer do observador: O estudioso não tem controle absoluto sobre o paciente pois não percebe pensamentos e sentimentos (não exteriorizados). Ainda assim, por mais que a psicanálise pareça se apoiar numa base existencial dualista (de mente "imaterial" e corpo "material" interagindo entre si), Freud centrou seus estudos em questões relacionadas aos comportamentos mais biológicos: A sexualidade, a libido e as pulsões de vida e de morte. Por isso, Freud não chega a aprofundar a interferência dos fatores sociais sobre a psique humana, muito menos questões espirituais e religiosas. Isto seria feito por Adler e por Jung, seus dissidentes. 
 É possível entender que Freud foi revolucionário, ao iniciar os estudos sobre questões tão ignoradas e/ ou escondidas pela sociedade de seu tempo. Ele lançou as bases para seus dissidentes mencionados aqui e influenciou até mesmo estudiosos como Aaron Beck, que com sua abordagem (a TCC), aproximou-se da frente da psicologia que usa como estrutura de seus estudos a pré suposição monista materialista e o método empírico. Esta frente da psicologia é o behaviorismo (comportamentalismo) e um de seus fundadores foi o psicólogo estadunidense John Watson. Watson afirmava que a psicologia deveria estudar apenas os comportamentos observáveis (excluindo pensamentos e sentimentos não expressos), o que permitia a possibilidade de seus estudos admitirem que existe algo além da matéria perceptível pelos 5 sentidos. (não há consenso se o pressuposto dos estudos de Watson é monista ou dualista). 
Anos mais tarde, o psicólogo behaviorista, Skinner, assume que deve-se estudar os processos internos da mente, mas utiliza o termo comportamento para definí-los. 
Esta "frente de estudos psicológicos" de Watson e Skinner (behaviorismo) se apoiou consideravelmente nos estudos do fisiologista russo Ivan P. Pavlov, que certamente utilizava a "ontologia" (ou base, pressuposto, chame do que quiser) monista materialista e o método empírico, afinal era um estudioso que realizava experimentos nas glândulas salivares de cães e crianças "de orfanato". Tal conjunto de pressuposto e método serve muito bem a este campo de estudos biológicos, mas será que é prático e esclarecedor usá-lo para estudar a mente humana e todas suas complexidades? Analistas do comportamento como Skinner certamente afirmavam que sim, mas é de se duvidar que Aaron Beck pensasse assim, afinal o criador da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), ignorou a base monista defendida por Skinner e passou a considerar e estudar processos internos da mente humana como a interpretação, os pensamentos e as crenças (enfim,  a cognição). Assim, a TCC, rompe com a Análise do Comportamento e outras bases e abordagens do Behaviorismo, mantendo uma leve similaridade ou abertura em relação às frentes psicanalítica e/ou fenomenológica da psicologia. Talvez mais estranho do que isso, seja a aproximação entre a TCC e a medicina, particularmente a psiquiatria. A psiquiatria como uma especialização da medicina deveria se apoiar nas mesmas bases e métodos da Análise do Comportamento, mas talvez por um fator histórico e de alguns interesses, acabou se alinhando mais com a TCC. 
Eu poderia buscar fontes que indicam que a psiquiatria frequentemente foi utilizada como mera forma de controle das sociedades, mas isso renderia outro texto, então deixo tal assunto como uma possibilidade futura de ser trazida ao blog. 
Enfim, falar de cada uma das frentes da psicologia renderia um texto colossal, mas o resumo desta história é que o cientificismo surgiu e desde então, ficou presente no meio acadêmico de maneira mais intensa ou menos intensa. 
O cientificismo é a tendência intelectual ou concepção filosófica de matriz positivista que afirma uma superioridade da ciência sobre todas as outras formas de compreensão humana da realidade (religião, filosofia, metafísica, etc.), por ser a única capaz de apresentar benefícios práticos (utilitarismo) e alcançar rigor cognitivo. Assim, prega o uso do método científico, (o empírico que é adequado à base filosófica monista materialista, ou seja, adequado aos estudos objetivos) tal como é aplicado às ciências naturais, em todas as áreas do saber (filosofia, ciências humanas, artes etc). 

A preocupação social com a psique humana só começou a crescer a nível global só após o período industrial do fordismo e após a 2ª guerra mundial. A pressão feita pelo discurso pró produtividade e pró consumo cresceu de maneira vertiginosa após a segunda guerra e isso tornou comum os empregos em fábricas com sistemas de produção que priorizavam quantidade acima do bem-estar do ser humano, e às vezes acima até mesmo da qualidade dos produtos. Obviamente isto tinha propósito: o lucro das maiores empresas capazes de maiores linhas de produção. Irrompe então nos anos 60 uma série de movimentos sociais e estudantis pelo mundo: África do Sul, França e EUA são apenas alguns destes pontos que protagonizaram tais eventos da sociedade: Movimentos antirracistas, feministas, anti capitalistas, anti imperialistas, hippies - discursos a favor da paz e do amor, discursos a favor da liberação da utilização de psicoativos etc. Até mesmo novos movimentos esotéricos e espiritualistas surgem em meados do século 20. 
Tudo isto já indicava que o materialismo (seja como argumento científico ou, mais desregulamente, como estilo de vida) falhou em tornar a civilização melhor, mais empática, mais pacífica e portanto mais verdadeiramente progressista. Isto já havia sido previsto por Sócrates, por Platão, por Pestalozzi, por Kardec, por Kierkegaard e tantos outros estudiosos, sejam filósofos, pedagogos ou de outras áreas do saber. Infelizmente parece que estes autores não são suficientemente rigorosos para os cientistas e acabam sendo relegados a uma condição mais periférica de humanistas, como se humanizar fosse algo supérfluo ou de pouca importância. 
 
Fenomenologia: Uma possível visão mais plural e unificadora dos saberes

Há cerca de um século, a fenomenologia questionou os pressupostos da ciência empírica, ou seja, os pressupostos filosóficos naturalistas/ "visões de mundo" materialistas, psicologistas ("idealistas") e monistas. Este questionamento mostrou que já é um mero viés por si só, considerar verdadeiro ou digno de estudo somente o que se percebe com algum dos 5 sentidos e o que pode ser reproduzido de maneira controlada pelo observador (cientista). Isto não invalida a epistemologia dominante da ciência como um todo: A ciência baseada em tais pressupostos (naturalistas/ materialistas) e centrada no método empírico foi é ainda é proveitosa à humanidade, mas é preciso entender que tais estudos objetivos são mais precisos quando aplicados aos fenômenos e objetos diretamente perceptíveis pelos 5 sentidos humanos. 

Estudar o comportamento humano requer levar em consideração os processos internos, como os pensamentos e sentimentos, que não podem ser percebidos diretamente pelo "observador". Este simples fato já indica a importância de outros métodos de estudo que não sejam empíricos. 

Além disto estes processos internos do "objeto" não podem (e nem devem) ser controlados pelo estudioso em questão (não há reprodutibilidade na prática psicoterapêutica). Tais processos são o que compõem o aparelho psíquico na frente psicanalítica de estudos ou a essência do ser humano na fenomenologia. 

Com este breve resumo destaco a importância da fenomenologia não só na psicologia, mas também como um conjunto pressuposto-método (uma epistemologia) de construção de conhecimento. Por sua vez, a epistemologia mais objetiva, resumidamente tida como o método científico em si, ao lidar com o ser humano analisa as expressões do objeto: Suas emoções e sua comunicação, seja verbal ou de outra maneira. Ela pode não exercer um controle direto ou absoluto sobre o objeto, mas pode induzí-lo. Se tratando de saúde mental, logicamente esta indução deve buscar e priorizar o bem-estar do objeto (paciente). 

Tal importância da fenomenologia mostra também que é possível buscar conhecimento, seja sobre soluções para a existência humana, ou a busca pela(s) verdade(s), de maneira mais plural, indo além do monismo e do materialismo, dando abertura a outras formas de entender a existência (a cosmovisão, os pressupostos) e outros métodos de estudo (reflexões, comparações etc). Isto é importante também porque é preciso respeitar as áreas do saber, sejam elas científicas, filosóficas ou espirituais/ religiosas. 

A fenomenologia apresenta um método (a eidética) e uma base filosófica aberta, sem pressupostos pré-determinados, ou seja, sem determinar um modelo ontológico particular. A questão que se faz então é a seguinte: Apresentando um método coeso, capaz de resolver questões da existência humana, ela é uma ciência? Se sim, o método científico já não se limita mais ao método empírico alicerçado no monismo materialista (ou monismos similares ao materialista) - teria que levar em conta estudos dualistas, espiritualistas etc, não os relegando à filosofia. Se não for ciência, ela é filosofia? Se for este último, não é urgente o desenvolvimento e a divulgação de tais estudos? A filosofia então abrangeria diversas áreas do saber humano, tidas até então como "ciências" humanas: Sociologia, geografia, história, antropologia, psicologia, contabilidade, economia, direito etc.

As áreas de estudo que pesquisam assuntos como os efeitos psicossomáticos no corpo humano e as possíveis psicopatias ("transtornos e doenças mentais") estariam então mais próximas das ciências biológicas como a neurologia, a psiquiatria, a psicopatologia e a psicofarmacologia, fazendo uma possível conexão com a psicologia. 

Sobre investigações mais Plurais, certamente é importante estabelecer um parâmetro: O que se busca com tais estudos? Tais questões já foram feitas ao longo da história da civilização humana então não se trata de um segredo inalcançável. Ao ressaltar que o materialismo, apesar de sua utilidade, não fornece todos os meios de se alcançar o progresso, muito menos fornece soluções para todos os problemas da humanidade, nos resta a retomar alguns temas já discutidos por filósofos da antiguidade clássica: Toda busca pelo conhecimento e pela verdade, deve ser feita levando em consideração a busca pelo bem. Apesar de parecer abstrato ou até mesmo utópico e inalcançável, esta busca pelo bem, se trata sim, de uma busca pelo bem maior, no sentido amplo, ou seja, coletivo, e no sentido profundo, ou seja, mais individual. Esta amplitude e profundidade, apesar de diferentes, não são contrárias em si, pois fazem parte da busca pela coexistência pacífica dos indivíduos desde os primórdios da humanidade. 

Ademais já tratei da importância destes objetivos unificados à ciência em alguns textos meus: 

 https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/02/a-ciencia-e-o-bem.html 

 https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/03/o-desenvolvimento-do-ser-humano-sob.html 

 https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/01/os-fundamentos-do-saber.html 

 https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/12/espiritualidade-e-progresso.html

 

 

sábado, 26 de março de 2022

O Desenvolvimento do Ser Humano sob Óptica de diferentes Estudos

 

Neste texto trago alguns trechos e comparações breves das obras de estudiosos que analisaram o estado de desenvolvimento do ser humano. Este estado se refere ao modo de pensar, aprender e agir do ser humano, sendo tema da psicologia, da pedagogia e talvez da ontologia (pelo fato de se aproximar da teoria da mente e de uma "visão do ser"). Embora o principal autor abordado aqui seja o pedagogo e reformador suíço, Johan Heinrich Pestalozzi, um dos principais responsáveis pela reforma educacional na Europa (que de certa forma, garantiu acesso universal à educação em seu país de origem), também tratarei resumidamente de obras de psicólogos e filósofos. 

O estado de desenvolvimento da raça humana abordado por Pestalozzi, muito tem a ver com a psicologia (o estudo da alma, da mente ou do comportamento) e com a filosofia, principalmente no campo da ontologia (o estudo do existir e do modo de existir). Esta é mais uma prova que a psicologia é inseparável da filosofia: Os 3 estados descritos por Pestalozzi foram observados em seus estudos sobre pedagogia e têm certas semelhanças com os 3 estágios (de existência) percebidos pelo filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard. Este último, em algum nível se inspirou nas obras clássicas do filósofo Platão e de seu respectivo professor, Sócrates. 

 Embora os estudos sobre comportamentos, estados psíquicos e de desenvolvimento sejam feitos em determinadas épocas, estes autores conseguiram reunir observações de características significantemente atemporais do ser humano. 

Na psicologia este tema aparece como 3 estados psíquicos/ comportamentais/ existenciais e são observados e pesquisados separadamente e respectivamente por estudiosos austríacos: Sigmund Freud, Alfred Adler e Viktor Frankl. 

 


 

Estado natural/ Estágio estético 

O ser humano nesse estado é predominantemente dominado pelos instintos de sobrevivência. Em linhas gerais, isto o conduz simples e inocentemente para a satisfação dos sentidos. 

O psiquiatra austríaco e fundador da psicanálise, Freud, centralizou sua teoria nesta condição do aparelho psíquico: O Id, sendo o responsável pela liberação da libido do inconsciente (a "energia psíquica" por trás das pulsões de vida e de morte) para o consciente, seria regulado pelo Ego. Na psicanálise de Freud, o Ego seria o meio termo entre o Id e o Super-Ego (o autocontrole excessivo, a vergonha e a obediência geralmente produzidas diante as regras sociais, costumes, tradições e normas da civilização). 

O modelo onde é descrito o estado natural do desenvolvimento humano é proposto por Pestalozzi e tem similaridades com o que Sócrates (de acordo com Platão) chamava de estado inferior da mente, ou simplesmente de mente apetitiva - aquela que está constantemente em busca de satisfazer seus apetites e prazeres mais rústicos.

No caso de Platão, é possível entender que, ao longo de sua obra, o filósofo classificou os prazeres na seguinte ordem crescente, do mais rústico/ animalesco (talvez pareça polêmico hoje, no século 21) ao mais sublime ou sutil: 

Prazeres sexuais (erotikós, afrodísion) - possivelmente prazeres predominantemente centrados no tato; 

Prazeres da alimentação - relacionados principalmente ao sabor, portanto ao paladar (talvez, em algum nível, ao olfato também); 

Prazeres da audição - principalmente o ato de ouvir músicas, melodias; 

Prazeres da visão - admiração das cores, formas, esculturas, paisagens etc. 

Platão ainda cita a possibilidade de prazeres inferiores e superiores mais relacionados à psique, além dos relacionados ao corpo (portanto aos sensoriais): Prazer em causar dor e/ou sofrimento seriam os "mais inferiores", os prazeres em ajudar o próximo seriam "mais superiores" e devem ser citados nos próximos estados. 

O 1º estágio descrito por Kierkegaard é o estético e não se encontra distante deste "estado natural" do desenvolvimento humano descrito por Pestalozzi. Talvez seja vagamente mais refinado, ou ao menos, um pouco mais amplo, já que a estética pode se referir também aos prazeres mais sutis do que a maioria daqueles referentes ao tato. 

Kierkegaard explica que neste estágio de existência há uma angústia diante as dificuldades físicas e espirituais encontradas na vida e que isto tende a levar a pessoa a se ocupar com a busca por prazeres sensoriais, a estética. Assim, é possível entender que a preocupação é satisfeita por experimentações sensoriais, talvez abrangendo desde prazeres dos atos sexuais, passando pelo saborear de alimentos, pelas conversações e flertes até a apreciação das artes (musicais e visuais). 

Estado social/ Estágio ético 

Para Pestalozzi o homem como espécie, como povo não se submete ao poder como ser moral, nem tampouco entra na sociedade e na cidadania para servir a Deus ou amar ao próximo. Ele entra na sociedade e no estado de cidadania para tornar sua vida mais alegre e para gozar tudo o que seu ser animal e sensorial tem que gozar e para que seus dias sobre a terra transcorram satisfeitos e tranquilos. Assim, de acordo com o pedagogo, o direito social não seria um direito moral, mas apenas uma modificação do direito animal. Isto reflete sua vivência, pois Pestalozzi iniciou sua carreira de reformador na política, onde certamente se decepcionou e desistiu, tornando-se um "fazendeiro" por 10 anos. 

Kierkegaard tem uma visão um pouco mais positiva ao classificar o estágio ético como evolução do estágio estético: No estágio ético, o ser abandona seus prazeres e gostos pessoais por haver encontrado nas leis da moral e da conduta universais um patamar melhor para sua existência. A pessoa que entra no estágio ético, compreende que as leis, ainda que de forma um tanto abstrata em sua concepção, são mecanismos que restringem o comportamento humano e que podem ser um guia na racionalidade. 

O poder descrito por Pestalozzi, seria ao menos em parte, as leis descritas por Kierkgaard. Tal criação social exige comportamentos para que as pessoas coexistam em (relativa) paz, mas não pode exigir um homem moral, ou seja, não penetra os pensamentos e sentimentos, modificando-lhe para mais justo ou mais solidário. O poder da civilização na Terra só pode exigir do ser humano, pois para servir a humanidade (como um servo), o poder (ou as leis) teriam que ser mais do que uma convenção, um mero conjunto de representações a ser interpretado. Para servir, o poder deve ser alguém, pois necessita de intenção e/ou empatia. Propriedade, lucro, profissão, autoridade, leis acabam sendo meios artificiais para satisfazerem a natureza animal pela escassez (ou supressão) dos impulsos mais animalescos. Kierkgaard, com certa semelhança à Sócrates, alega que as leis (o poder) emergentes do estágio ético não são feitas apenas para substituir a escassez de impulsos animalescos, mas que como estágio funciona como uma mola propulsora: Os indivíduos tendem a avançar ao 3º estágio (o religioso que certamente seria denominado de estágio espiritual após o século 20, pois Kierkegaard era crítico do luteranismo já institucionalizado de seu tempo e local) ou a regredir ao 1º estágio, o estético, na busca por satisfazerem meros desejos sensoriais. 

Embora Platão não classifique o estágio intermediário da mente como social nem como ético, quando comparamos suas explicações sobre os prazeres sensoriais, com suas concepções de mente (inferior, estado de repouso/ intermediário e superior), é possível entender que os prazeres em se buscar o bem e fazer o bem ao próximo se iniciem (nem que seja de maneira tímida ou formativa) neste estado de repouso e se desenvolvem/ expandem no estágio superior da mente. 

Na psicologia, Alfred Adler centra sua teoria nesta condição mais social e/ou ética do aparelho psíquico. Embora, durante os anos iniciais de sua teorização, o psicólogo austríaco foi severamente criticado por enfatizar pulsões egoístas, como o desejo de poder, o sentimento de inferioridade e a busca por compensação, em 1939, Adler ampliou sua concepção dos humanos para incluir fatores de interesse social. Assim, passou a enfatizar o self criativo como elemento principal do aparelho psíquico, capaz de criar metas e os meios para atingir tais metas. Fatores hereditários e ambientais colaboram com a construção das metas. O ser humano é capaz de buscar uma superioridade em harmonia com o próximo, de caráter mais coletivo/ social. 

 Estado moral / Estágio religioso (espiritual) 

Pestalozzi alega o seguinte em suas obras: "se eu alcançar na minha condição e na profissão tudo o que eu posso alcançar, se minha felicidade está garantida pelo direito, estaria eu então satisfeito no meu íntimo? (…) Deveria pensar que sim, mas não é verdade". O pedagogo afirma que o direito social e o estado social não satisfazem completamente o ser humano, pois isso seria limitar a vida à formação civil e aos meros prazeres sensual e animal. Na alma dos indivíduos ainda haveriam desconfiança, sinuosidade e intranqüilidade, que nenhum direito social pode desfazer. 

Limitar o ser humano a um animal em seu nascimento, não possibilita o objetivo da perfeição desde a origem da vida. Pestalozzi viu o interior do ser (subjetivo, psíquico, sentimental), em sua natureza, como divino, não apenas material. Ele faz as seguintes reflexões sobre o desenvolvimento humano: 

"Logo vi que as circunstâncias fazem o homem, mas vi também que o homem faz as circunstâncias, tem uma força em si mesmo que pode conduzir de várias maneiras, segundo sua vontade. (…)

Como obra da natureza, sinto-me livre no mundo para fazer o que me agrada e me sinto no direito de fazer o que me serve. 

Como obra da espécie, sinto-me no mundo atado a relações e contratos, fazendo e suportando o que essas relações me prescrevem como dever. 

Como obra de mim mesmo, sinto-me livre do egoísmo da minha natureza animal e das minhas relações sociais, e ao mesmo tempo no direito e no dever de fazer o que me santifica e o que santifica o meu ambiente.(…) 

Como obra da natureza, sou um animal perfeito. Como obra de mim mesmo, esforço-me pela perfeição. Como obra da espécie, procuro me tranqüilizar num ponto sobre o qual a perfeição de mim mesmo não é possível. 

A natureza fez a sua obra inteira, assim também faze a tua. 

Reconhece-te a ti mesmo e constrói a obra do teu enobrecimento sobre a consciência profunda de tua natureza animal, mas também com a consciência completa da tua força interior de viver divinamente no meio dos laços da carne. 

Quem quer que tu sejas, acharás nesse caminho um meio de trazer tua natureza em harmonia contigo mesmo. Queres porém fazer tua obra apenas pela metade, quando a natureza fez a dela inteira? Queres estacionar no degrau intermediário entre tua natureza animal e tua natureza moral, sobre o qual não é possível o acabamento de ti mesmo? – Então não te espantes de que serás um costureiro, um sapateiro, um amolador ou um príncipe, mas não serás um homem." 

Enfim, Pestalozzi conclui que os direitos e propriedades da sociedade repousam apenas nos estados natural e social do ser humano, ignorando sua natureza moral. 

Kiekegaard diz que o segundo estágio, o ético, não é definitivo na vida do ser. O ser humano sente culpa e peso de sempre estar avaliando os próprios atos e pensamentos se colocando em uma posição de decisão na qual ou volta ao primeiro estágio, o estético; ou migra para o terceiro, o religioso. 

Como Platão explica, se a pessoa não busca as virtudes, a verdade e o bem maior, ela volta a buscar prazeres sensoriais e/ ou mesquinhos. Ela necessita mais: ou busca na matéria, maior quantidade ou intensidade de satisfação, ou busca o bem maior nos processos internos da mente, nos sentimentos, na espiritualidade. 

Kierkegaard explica que essa transição para o religioso é difícil e dolorosa, assim muitas das vezes, a pessoa adere ao que lhe parece mais confortável e fácil, retornando ao primeiro estágio, o estético. Porque, para se garantir o alcance definitivo do estágio religioso, a pessoa necessita se comprometer com a própria fé e nunca duvidar ou retornar ao ponto de partida, o primeiro estágio. A crença em um Deus vivo e forte, não somente em uma imagem ou pensamento, mas um Deus supremo e no qual o Amor é representado de forma íntegra, o único caminho, a Verdade suprema. Uma compreensão que muitas vezes fere o próprio ego, mas que ao ser atingida no estágio religioso, serve de guia a uma existência engrandecedora e verdadeira. 

Na psicologia, Viktor Frankl foi quem se aprofundou neste estado da mente humana. Sua vivência nos campos de concentração da 2ª Guerra Mundial, permitiram que, mais tarde, ele desenvolvesse sua teoria fenomenológica da psicologia - a Logoterapia. Seus estudos indicaram que os indivíduos que se agarravam a um sentido de vida transcendente, ou seja, para além de si mesmos, em busca de um sentido em amar outra pessoa (mesmo não presente), em se dedicar a uma fé, religião, ou mesmo, uma atividade para além de si mesmo, eram os que mais suportavam as privações biopsicossociais daquele ambiente. Algumas destas pessoas nos campos de concentração, entre elas, o próprio Frankl teve percepções vívidas de entidades amáveis, que certamente seriam consideradas meras alucinações por materialistas mais radicais. Porém estas percepções fizeram parte do processo de sobrevivência, superação e esperança, pelo qual estes prisioneiros passaram priorizando o "entregar-se interiormente à pessoa amada" (o autor alega "tanto faz se é real ou não a sua presença"). Enfim, tanto Kierkegaard como Frankl sofreram críticas no meio acadêmico, sendo considerados religiosos "demais". 

Para concluir este texto, valem as seguintes constatações: Os autores mencionados fizeram grandes descobertas capazes de auxiliar no desenvolvimento da humanidade. É uma pena que suas colaborações ainda não sejam amplamente apreciadas entre cientistas atuais, nem totalmente aplicadas para o progresso da humanidade. As obras de vários dos autores mencionados aqui indicam um caminho não só de busca pela verdade, mas de solidariedade e de esperança e não caminhos de egoísmo ou de indiferença. Não há paz enquanto houver indiferença. Falta de paz é guerra e guerra é a propagação de destruição e medo. 

Fontes:

 Minhas indagações sobre a marcha da natureza no desenvolvimento da espécie humana, Pestalozzi em 1797, (traduzido do original alemão Meine Nachforschungen über den Gang der Natur in der Entwicklung des Menschengeschlechts);

 FRANKL, Viktor E., Em Busca de Sentido. LeLivros, 1984. 

Platão, A República 559a - 559d

Platão, Diálogos III - Fedro 250b - 250d; Edipro

Platão, Diálogos IV - Filebo 46c - 51c; Edipro

Platão, Diálogos II - Hípias Maior 297e - 299e; Edipro

 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

As Bases dos Saberes x Fundamentalismo

 

Mais uma vez trago informações sobre minhas "escavações" nas origens da ciência e em estruturas da religião e até da filosofia. 

Como eu já citei em textos anteriores, a história da ciência remete à filosofia, pois surgiu desta. Por sua vez, a filosofia surgiu das religiões, como pode ser notado em variados momentos da história humana, por exemplo na Grécia clássica e na Índia medieval. 

Eu escrevei alguns textos investigando, explicando e criticando o cienticifismo que se apoia em alguns fundamentos. Resumidamente estes fundamentos são oriundos da filosofia (epistemologia e ontologia), pois é uma suposta base de estudos. A escolha desse fundamento foi sendo feita através de certas disputas filosóficas no decorrer do século 19. Essa disputa foi majoritariamente monista (entre materialismo e idealismo) rejeitando explicações mais plurais da teoria do conhecimento e do estudo da existência como o dualismo e o pluralismo. 

Usar um fundamento para explicar ou investigar algo não é errado em si, mas usá-lo para fins mesquinhos, para prejudicar o próximo ou enganar as massas, é. 

Fundamentalismo na Religião e na Espiritualidade 

Fundamentos são usados de forma errada praticamente há incontáveis anos na história da humanidade. Qualquer problema que a humanidade tem com o fundamentalismo NÃO é mera coincidência. O fundamentalismo é um movimento ou corrente de ideias que prioriza o fundamento, ou as fundações de um ensino ou doutrina qualquer. Obviamente ele surgiu primariamente na religião, pois se apoia em dogmas, verdades absolutas que não precisam ser explicadas em si: Um de seus marcos na história ocorreu durante o início do século 20, entre protestantes dos EUA. 

O grande perigo oriundo do fundamentalismo é pegar um fato ou argumento ainda não compreendido, transformá-lo em norma ou em lei, submetendo outras pessoas ao seu jugo. Além disto por sua ênfase na fundação de uma ideologia ou doutrina, o fundamentalismo é basicamente conservador, pois busca conservar as coisas como eram ou como estão, recusando mudanças, investigações etc. 

Particularmente eu vejo a palavra conservador bem insuficiente para explicar este tipo de movimento. Este "ato" de conservar que nega o desenvolvimento mental (intelectual e empático) e nega o acesso aos estudos e ao conhecimento, é ESTAGNANTE. Não se trata meramente de conservar, mesmo porque esta palavra dá a idéia de evitar estrago e evitar destruição, tanto que caiu nas graças de conservadores ignorantes e de conservadores manipuladores. No Brasil, aproximadamente do ano do impeachment da presidenta Dilma (tão apoiado por "evangélicos") para cá, muitos religiosos e simpatizantes passaram a se denominar abertamente de conservadores. Este conservadorismo em linhas gerais é estagnante/ paralizante, podendo ser classificado de modo mais preciso: "estagnismo" ou "paralizismo". 

É predominantemente distorcida a visão de que o cristianismo é conservador. Ao pregar amor ao próximo, o cristianismo não só incita a solidariedade, como de certa forma explica a onipresença de Deus que ama toda a sua criação. Tal argumento completa-se harmoniosamente com as passagem em que Jesus, como maior profeta das religiões cristãs, explica que é praticamente impossível os ricos amarem a Deus e serem aceitos por Deus. Se trata de equidade: o cristianismo não fala para todos viverem na pobreza, ele fala de distribuir oportunidades para todos (independentemente de suas crenças ou de suas origens) com humildade.* 

*(na Terra, ou seja, estas passagens se referem à pobreza e à riqueza materiais mesmo) 

E nas Ciências, há fundamentalismo? 

Bom, eu já mencionei em outros textos, que no meio acadêmico existem uma série de inconsistências, umas mais graves outras menos. Um ponto crucial a ser questionado é a manipulação de certas áreas de estudo, restringindo-as às normas de outras áreas. Como estudante de psicologia, constatei que ao menos duas frentes desta ampla área do saber são majoritariamente desprezadas como ciências: A psicanalítica e a fenomenológica. Detalhar como a imposição de uma base de estudos materialista impacta nas frentes da psicologia e em suas respectivas abordagens, renderá outro texto, e dos grandes, então tentarei me ater sobre o fundamentalismo nas ciências de modo geral. 

Pressupor que a matéria irá explicar toda a psicologia, ou mesmo pressupor que o materialismo (ou qualquer outra ontologia não plural, como os monismos) vá servir de base para estudar a mente (ou os comportamentos, como você preferir chamar) é reducionismo por si só. É por exemplo, classificar como patológicas todas as experiências chamadas de sobrenaturais, místicas ou religiosas. É concordar com uma base filosófica da medicina. Esta visão da existência (ontologia) monista que prioriza estudos objetivos, é ideal para estudar o corpo percebido pelos 5 sentidos humanos (visão, audição, olfato, paladar e tato). Alegar que uma psicologia com tais bases é capaz de usar o método empírico em todo seu processo é uma falácia. A conversação entre seres humanos não é empírica. Ninguém prova imediatamente se o fato contado por alguém é verdadeiro e ninguém lê o pensamento de ninguém (ao menos não na maioria dos casos e não para quem se apoia numa visão da existência onde apenas considera a matéria perceptível pelos 5 sentidos), portanto sentimentos e pensamentos geralmente não se comprovam empiricamente. E este é um dos motivos que deu força a fenomenologia servir de base para toda uma frente da psicologia. Ainda que a fenomenologia praticamente classifique os pressupostos científicos (naturalistas, materialistas etc) como preconceitos, seu questionamento é válido e necessário. Por exemplo, a fenomenologia serve para desfazer todos os argumentos pró mercado de psicofármacos. Serve para combater a mercantilização da saúde mental, para argumentar contra a permissividade de uma psiquiatria engolida por interesses financeiros de variados setores farmacêuticos, acabe ditando regras para a psicologia. 

A fenomenologia pode ter imperfeições ou insuficiências (como qualquer teoria e método), mas surgiu da necessidade real de combater erros e exageros de uma ciência naturalista, materialista e insensível durante a virada do século 19 para o 20. Necessidade tão real, que a fenomenologia apresentou semelhanças com a teoria geral dos sistemas que surgiria poucas décadas depois: Para objetos de estudo que não podem ser completamente compreendidos ou detectados (ainda), estipula-se e estuda-se as possíveis e variadas relações do "objeto" (ou fenômeno) em questão... 

Afirmar que toda verdade só será descoberta por estudos que têm uma base ontológica e epistemológica materialista/ monista etc, é um fundamentalismo. 

Sim, a ciência com essas bases realizou grandes feitos e ainda realizará muitos outros, mas não deve determinar normas e regras para a espiritualidade, para a filosofia, nem para a psicologia. A psicologia é uma área que transita entre diversas ciências (psicopatologia, psiquiatria, neurologia) e entre a filosofia e toda sua amplitude. A filosofia por sua vez não é objetiva como as ciências, tanto que fez a transição do saber religioso ao científico na história da civilização humana. A filosofia trouxe propostas de explicações religiosas e espiritualistas e também lançou possíveis bases para ciência, como a ontologia e a epistemologia (tanto é assim, que esta última "área" de estudo é chamada de filosofia da ciência). 

A fenomenologia é aceita como ciência na física, mas ainda encontra ilógica resistência na psicologia, sendo considerada uma filosofia. Fundamentalismos como esses já deveriam ter sucumbido ao tempo: A psicologia não é mera ciência objetiva alicerçada no monismo (seja eliminativo ou materialista). Se a fenomenologia é filosofia para a psicologia, deveria ser para a física, para a geografia e para tantas outras ciências. Mas se ela é um conjunto de teoria e métodos científicos, então deveria ser assim em todas áreas da ciência. Se trata de clareza e lógica. Clareza esta, diga-se de passagem, que refere-se em explicar as coisas, buscar entender e divulgar teorias e práticas, o que contradiz qualquer rixa baseada em opiniões individualistas e qualquer fundamentalismo. 

Qual seria a melhor Base/ Fundamento para as áreas do Saber? 

O que deveria servir de base para o saber (seja religioso, filosófico ou científico) é o bem. Estamos no ano de 2022 do calendário gregoriano e será que ainda não sabemos o que é o bem? 

 Buscar progresso requer divulgar conhecimento, torná-lo acessível para o maior número de pessoas. Para torná-lo acessível, distribui-se condições, ou seja, equidade e estrutura de base para as sociedades. Estas estruturas de base da sociedade por sua vez, são as condições mínimas e dignas para a vida: ninguém vive sem água, sem alimento, sem saúde, sem capacidade de locomoção, sem exercitar a mente, seja através do acesso ao estudo ou pelas variadas expressões (seja nas artes ou nas relações) etc. Estas coisas todas não constituem o bem? 

Então porque a base materialista das ciências permite absurdos como a mercantilização da saúde física e mental? Os estudos científicos saem da área acadêmica sendo aplicados para o bem de toda humanidade? Quantas pessoas se beneficiam de barragens de mineradoras privadas que se rompem e destroem povoados e ecossistemas inteiros? Quantas realmente se beneficiam da tecnologia aplicada à criação de automóveis ou de celulares? É a maioria dos seres humanos? Não. 

Então porque quase toda essas áreas das ciências alicerçadas no monismo está submissa às pessoas que têm mais "poder aquisitivo"? Porque atendem às demandas do "mercado", como se este sistema fosse lógico, científico ou humanitário? 

O poder aquisitivo é o bem? Não. O poder aquisitivo está separado e isolado de qualquer conceito ou elemento do que entende-se por bem: Não se trata de humildade, nem de justiça, nem de solidariedade, nem de instrução - Nada disso. Poder aquisitivo pertence a quem acumulou mais bens de troca (geralmente dinheiro) - independentemente como esse acúmulo foi realizado, seja trabalhando honestamente ou enganando, furtando, burlando leis etc. 

Observemos um dado estatístico público e notório para tirar essa dúvida: As pessoas que trabalham muito enriquecem? Elas compram mansões, carros caríssimos, helicópteros e iates? Aparecem em revistas como a Forbes? Não. 

Em geral, o cara que trabalha demais morre no máximo em uma "classe média", sem que 99% da população mundial saiba de sua existência. 

Quem está no topo do sistema capitalista, ou seja, os que enriqueceram mais, não são o bem nem querem ser. Geralmente são o oposto disto e ditam as regras, não só da economia ou da política, como também (indiretamente ou diretamente) ditam os fundamentos da ciência. 

Já não passou do tempo de mudar isto?