sábado, 29 de julho de 2023

Smartphones e IAs

 


Este post surgiu justamente após eu gerar o desenho acima no criador de imagens do Bing para achar a tela de login e gerar mais pontos para recompensas para trocar por Robux para a minha enteada.

Todos os assuntos tratados nas linhas acima estão relacionados à motivação por trás desta reflexão. O smartphone já foi abordado por mim neste blog e ele volta à tona novamente. Aliás, tecnologia e IA também foram abordados, embora com motivação coercitiva. O que adiciona componentes às reflexões anteriores são acontecimentos recentes e minha própria vivência: a abundância de matérias sobre IA após o rebuliço causado pelo ChatGPT; a abundância de vídeos sobre telas e crianças que surge nas minhas redes sociais empurrados pelos algorítmos; a observação do comportamento da minha esposa e minha enteada; a reflexão sobre como agir com meu filho que está a caminho de nossa vivência fora de úteros.

O desenho retrata o smartphone como ele é descrito nesses vídeos das minhas redes sociais (um monstro), mas ainda com o nosso olhar pessoal lançado sobre ele (um monstro meigo, pronto para interação infantil). E ele é meigo porque embora consigamos reconhecer o enorme perigo que ele representa, nós não conseguimos largá-lo. E achamos meia-soluções para nossos problemas, 'ah, vamos cortar o tablet das crianças somente de fim de semana', 'vou jogar esse jogo de caça-níqueis só uma vez por semana', 'vou só desativar as notificações desse grupo com 5000 integrantes', 'deixa eu só responder essa pergunta sobre meu serviço'...e por aí vai.

A verdade é que o smartphone já é praticamente indispensável como ferramenta e a pressão social só aumenta ('Instale esse app para fazer isso, instale esse outro para fazer outra coisa, instale para ter a conta gold...'). É impensável você estar em alguns cargos e não ter um celular, as chances de você ser demitido são grandes. Estamos caminhando para aquele episódio de Black Mirror, o primeiro da terceira temporada, Nose Dive (o que aliás me fez pensar agora mesmo no mergulho do meu nariz em direção à tela e minhas constantes dores no pescoço). O episódio aliás, tem como foco as avaliações, mas ninguém vivia sem um celular na mão.

As avaliações merecem uma reflexão à parte. Outra pressão social. Uma pressão por excelência, aliás, onde apenas a nota máxima é aceita. 10 ou 5, dependendo da escala, todo o restante é um ultraje, é como se gritassem 'ou é perfeito ou é um lixo completo!' Uma enorme trama de choque entre o subjetivismo e a exigência por entrega máxima e descolada do entorno. É claro que sabemos o que está por trás de todo esse oceano de chorume: o capitalismo.

Eu defendi o smartphone no primeiro post diminuindo sua culpa no cenário ao dizer que é apenas um foco importante do capitalismo, mas esses vídeos no Instagram, Facebook, Tiktok, acabam me empurrando na direção de arrastá-lo um pouco mais próximo do grande vilão. E essa tecnologia entra no time das redes sociais com seus algoritmos viciantes, com seus truques para prender a atenção das pessoas baseados em psicologia.

O que acontece é que por mais que gostamos de pensar que os mestres das nossas mentes somos nós mesmos, a verdade não é bem essa. Nossas mentes possuem componentes biológicos que não podem ser ignorados, que afetam nosso comportamento e a própria formação de raciocínio lógico. Como você já pode imaginar, isso é muito mais sério quando o assunto é a mente de uma criança.

Eu recomendo que você faça uma busca desses vídeos sobre crianças e telas e tente filtrar o que há de muito sério ali. Eu não acompanhei o desenvolvimento da minha enteada, estou com ela há um pouco menos de 1 ano, mas sei reconhecer que é um comportamento muito diferente do meu e dos meus irmãos como crianças. Afora todo o diferencial causado por criação e épocas diferentes, o smartphone parece estar relacionado à boa parte desse comportamento discrepante.

Minha enteada possui acesso irrestrito ao smartphone. Basicamente seu universo na internet se resume ao YouTube, OiTube, Tiktok e Roblox. Existe certa semelhança com nossa infância, onde tínhamos acesso à Globo, Manchete, SBT, Record e Bandeirantes (por onde estavam distribuídos os desenhos e séries japonesas), e ao Nintendo e Supernintendo. A diferença principal é a escolha do conteúdo e, principalmente, a escolha do quando. Quem ditava o que e quando iríamos assistir TV eram as emissoras de TV (mais as restrições dos pais - 'Esse filme não é pra criança, vai dormir').

Hoje não é assim. A criança tem o que quer, quando quer (dentro do limite do que o capitalismo oferta, com o pagamento sendo realizado por assinatura ou por propagandas enfiadas guela abaixo). Minha esposa disse que tentou utilizar algum grau de controle parental no celular, mas retrocedeu ante à agressividade da menina.

Recentemente a menina começou a dar socos na tela do celular para extravasar sua ira com o desempenho do aparelho (que talvez tenha alguma relação com o software de controle parental da Google que instalei - preciso pesquisar sobre) ou seu próprio desempenho nos jogos (meu irmão do meio já fez isso com a TV). Está com a tela toda rachada (novamente, culpa parcial minha que removi a ridícula película toda debulhada e com 'orelha de livro').

É claro que alguns pais possuem um controle maior sobre essa parte da educação dos filhos, mas receio que sejam minoria. Os próprios pais podem estar tentando 'liderar sem dar o exemplo'. Horas e horas na frente da tela, respondendo como zumbis (quando respondem), acumulando tarefas atrasadas, comprometendo-se com o trabalho fora do horário de expediente, rodando sua timeline até não poder mais.

Recentemente voltei ao Facebook, ao Instagram, e criei contas para Kwai e Tiktok. Com exceção do Facebook, cuja conta eu havia colocado em suspensão lá pelos idos de 2013 (esta conta, uma outra durou mais tempo), as outras redes 'não me conheciam', e o conteúdo sugerido era duro de aguentar. O algoritmo do Kwai teve uma estratégia interessante ao apostar em softporn, mas ficou eternamente preso a isso até eu desinstalar. O Tiktok teve alguma dificuldade em se adaptar ao meu gosto, mas continuei por lá para dar uma olhada no conteúdo da minha enteada. Já o Instagram, demorou, mas conseguiu começar a ofertar conteúdo que me atraísse (o expertise do Zuckberg deve ter alguma influência aí), e eu já estou mais preso ao celular.

O quanto nós, com nossos cérebros de adultos, conseguimos ficar livres da influência dos truques psicológicos engendrados pelos cérebros por trás das redes sociais? É uma pergunta importante. A capacidade de ação dessas tecnologias aumenta assustadoramente com IAs, big data, machine learning.

A discussão vai mais longe quando questionamos o quanto essas IAs podem fazer no nosso lugar. Outra moda nos vídeos empurrados para mim é a de pessoas indicando quais IAs utilizar em determinadas tarefas. E é claro que não podia faltar a discussão sobre se vamos perder nossos empregos. Eu já havia citado o caso do drone programador no meu post forçado por entrevista de emprego. As demissões em massa de programadores vieram nessa linha. Não sei se vamos todos perder nossos empregos, mas que haverá uma reconfiguração mais drástica da força de trabalho, haverá.

Há solução para esses problemas? A resposta que depende de fatores que escapam de nosso tempo, seria a classe trabalhadora tomar o poder. Mas em escala menor, vejo a socialização como paliativa, talvez até propondo alternativas que caminhem em direção coincidente com a que uma revolução tomaria.

Minha enteada esquece o celular boa parte do tempo em que está com os amigos. Minha esposa também o larga quando está com seus conhecidos. Eles se articulam em redes de ajuda distorcidas por interesses pessoais, mas que acabam funcionando parcialmente.

Na última crise mais grave na Argentina vimos notícias sobre uma espécie de volta ao escambo. Quem vive em São Paulo pode já ter observado a rede de ajuda que os imigrantes bolivianos possuem, com carros e casas coletivas. De modo menor, isso também é existente entre os nordestinos que foram para São Paulo. Aqui em Salinópolis existe uma rede de comércio menor derivada da coleta de frutos do mar, do mangue, etc.

Enfim, essas soluções paliativas certamente surgirão nas próximas crises econômicas para evitar os maiores danos. Se podem evoluir para algo mais organizado e politizado, teremos que observar.

O quanto a socialização pode barrar a influência das propriedades viciantes de tecnologias e alimentação industrial também precisa ser observado. Mesmo limitada pela questão da aceitação social desses elementos viciantes, ela tem uma influência positiva na mente humana, mas isso não impedirá os danos físicos que esses elementos podem causar na saúde (seja tela fazendo mal aos olhos, ou açúcar e sal causando diversos males).

Para velhos resmungões como eu, que possuem certa aversão à socialização, resta confiar mais no grupo seleto de pessoas que você escolheu manter por perto e fortalecer sua mente.

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Mente, Tempo e Pressupostos Filosóficos da Ciência

 

Trago aqui as explicações sobre o tempo do astrofísico, matemático e filósofo Arthur Stanley Eddington e um resumo sobre as ideias do psiquiatra Eugene Minkowski e do filósofo Henry Bérgson. A partir destes estudos é possível perceber a relação entre diversas áreas do conhecimento e como elas apontam algumas contradições das bases da ciência tradicional que ainda é a corrente científica principal neste início de século 21. 

Após uma breve citação sobre o filósofo Henry Bergson, que diferenciava o tempo vivido (na consciência etc) dos conceitos da física newtoniana de espaço e tempo, Eddington, em seu livro "A Natureza do Mundo Físico", afirma que a teoria de Einstein, esclareceu qual é a natureza "dessa quantidade" que, sob o nome de tempo, tornou-se parte fundamental da estrutura da física clássica, ao constatar que o tempo físico se mistura de algum modo com o espaço: 

"Existe uma quantidade, não reconhecida na física pré-relatividade, que representa mais diretamente o tempo conhecido pela consciência. Isso é chamado de tempo adequado ou intervalo." O astrofísico e filósofo diz que este tempo adequado é separado e diferente do espaço próprio. E conclui aos seus leitores: "seu protesto em nome do bom senso contra a mistura de tempo e espaço é um sentimento que desejo encorajar. Tempo e espaço devem ser separados. A representação atual do mundo duradouro como um espaço tridimensional saltando de instante a instante através do tempo é uma tentativa malsucedida de separá-los. Volte comigo para o mundo virginal quadridimensional e nós o esculpiremos de novo em um plano que os manterá inteiramente distintos. Podemos então ressuscitar o tempo quase esquecido da consciência e descobrir que ele tem uma importância gratificante no esquema absoluto da Natureza." 

Eddington então tenta mostrar como o ser humano foi considerando tempo e espaço diferentes entre si, de modo quase axiomático: 

"Se duas pessoas se encontram duas vezes, elas devem ter vivido o mesmo tempo entre os dois encontros, mesmo que uma delas tenha viajado para uma parte distante do universo e voltado nesse ínterim. 

Um experimento absurdamente impossível, você dirá. Isso mesmo; está fora de toda experiência. Portanto, posso sugerir que você não está apelando para sua experiência do tempo quando se opõe a uma teoria que nega a afirmação acima? E, no entanto, se a pergunta for pressionada, a maioria das pessoas responderia com impaciência que é claro que a afirmação é verdadeira. Eles formaram uma noção de tempo rolando fora de nós de uma maneira que faz isso parecer inevitável. Eles não se perguntam se essa conclusão é garantida por alguma coisa em sua experiência real do tempo. 

Embora não possamos tentar a experiência de enviar um homem para outra parte do universo, temos conhecimento científico suficiente para calcular as taxas de processos atômicos e outros processos físicos em um corpo em repouso e em um corpo viajando rapidamente. Podemos dizer definitivamente que os processos corporais do viajante ocorrem mais lentamente do que os processos correspondentes no homem em repouso. Isso não é particularmente misterioso; é bem conhecido tanto pela teoria quanto pela experiência que a massa ou inércia da matéria aumenta quando a velocidade aumenta. O retardo é uma consequência natural da maior inércia. Assim, no que diz respeito aos processos corporais, o viajante veloz vive mais devagar. Seu ciclo de digestão e fadiga; a taxa de resposta muscular ao estímulo; o desenvolvimento de seu corpo da juventude à idade; os processos materiais em seu cérebro que devem mais ou menos acompanhar a passagem de pensamentos e emoções; o relógio que bate no bolso do colete; tudo isso deve ser retardado na mesma proporção. Se a velocidade da viagem for muito grande, podemos descobrir que, enquanto o morador do lar envelheceu 70 anos, o viajante envelheceu 1 ano. Ele só encontrou apetite para 365 cafés da manhã, almoços etc.; seu intelecto, obstruído por um cérebro lento, apenas atravessou a quantidade de pensamento adequada a um ano de vida terrestre. Seu relógio, que fornece um cálculo mais preciso e científico, confirma isso. A julgar pelo tempo que a consciência tenta medir à sua maneira grosseira - e, repito, esta é a única contagem do tempo que temos o direito de esperar ser distinta do espaço - os dois homens não viveram o mesmo tempo entre os dois encontros. ao tempo estimado pela consciência é complicado pelo fato de que o cálculo é muito errático. “Vou lhe dizer com quem o Tempo caminha, com quem o Tempo trota, com quem o Tempo galopa e com quem ele fica parado.” Não me referi a essas variações subjetivas. Não arrasto de bom grado um cronometrista tão satisfatório; só eu tenho que lidar com o crítico que me diz o que “ele sente em seus ossos” sobre o tempo, e eu apontaria para ele que a base desse sentimento é o tempo vivido, que acabamos de ver pode ser de 70 anos para um individual e 1 ano por outro entre seus dois encontros. Podemos calcular o “tempo vivido” de forma bastante científica, por ex. por um relógio viajando com o indivíduo em questão e compartilhando suas mudanças de inércia com velocidade. Mas há desvantagens óbvias na adoção geral do “tempo vivido”. Pode ser útil para cada indivíduo ter um tempo privado exatamente proporcional ao seu tempo vivido; mas seria extremamente inconveniente para marcar consultas. Portanto, o Astrônomo Real adotou um cálculo de tempo universal que não segue estritamente o tempo vivido. Segundo ele, o lapso de tempo não depende de como o objeto em consideração se moveu nesse meio tempo. Admito que esse cálculo é um pouco difícil para nosso viajante que voltou, que será considerado por ele como um octogenário, embora, ao que tudo indica, ainda seja um adolescente. 

Mas sacrifícios devem ser feitos para o benefício geral. Na prática, não temos de lidar com seres humanos viajando a grande velocidade; mas temos de lidar com átomos e elétrons viajando a uma velocidade terrível, de modo que a questão do cálculo do tempo privado versus o cálculo geral do tempo é muito prática. 

Assim, no tempo físico, considera-se que duas pessoas viveram o mesmo tempo entre dois encontros, esteja ou não de acordo com sua experiência real. O conseqüente desvio do tempo da experiência é responsável pela mistura de tempo e espaço, o que, é claro, seria impossível se o tempo da experiência direta tivesse sido rigidamente respeitado. O tempo físico é, como o espaço, uma espécie de moldura na qual localizamos os eventos do mundo externo. Vamos agora considerar como, na prática, os eventos externos estão localizados em um quadro de espaço e tempo." 

Eddington então afirma que existe uma escolha infinita de quadros alternativos; e segue mostrando como localiza os eventos em seu quadro. 

Fig. 1 

"Localização dos Eventos Na Fig. 1 você vê uma coleção de eventos, indicados por círculos. No momento, eles não estão em seus devidos lugares; esse é o trabalho diante de mim - colocá-los em uma localização adequada em meu quadro de espaço e tempo. Entre eles, posso reconhecer e rotular imediatamente o evento Aqui-Agora, viz. o que está acontecendo nesta sala neste momento. Os outros eventos estão em graus variados de distância do Aqui-Agora, e é óbvio para mim que a distância não é apenas de diferentes graus, mas de diferentes tipos. Alguns eventos se espalharam para o que de maneira geral chamo de Passado; posso contemplar outros que estão distantes no futuro; outros estão distantes de outra maneira em direção à China ou ao Peru, ou em termos gerais a outros lugares. Nesta foto, só tenho espaço para uma dimensão de Outro Lugar; outra dimensão se projeta em ângulo reto com o papel; e você deve imaginar a terceira dimensão da melhor maneira possível. 

Agora devemos passar desse vago esquema de localização para um esquema preciso. A primeira e mais importante coisa é colocar-me em cena. Parece egoísta; mas, veja bem, é minha moldura de espaço que será usada, então tudo paira ao meu redor. Aqui estou eu - uma espécie de verme quadridimensional (Fig. 2). É um retrato correto; Eu tenho uma extensão considerável em direção ao Passado e presumivelmente em direção ao Futuro, e apenas uma extensão moderada em direção a Outro Lugar. O “eu instantâneo”, ou seja, eu mesmo neste instante, coincide com o evento Aqui-Agora. Examinando o mundo do Aqui-Agora, posso ver muitos outros eventos acontecendo agora. Isso põe em minha cabeça que o instante do qual estou consciente aqui deve ser estendido para incluí-los; e chego à conclusão de que o Agora não se limita ao Aqui-Agora. Eu, portanto, desenho o instante Agora, correndo como uma seção limpa através do mundo dos eventos, a fim de acomodar todos os eventos distantes que estão acontecendo agora. Seleciono os eventos que vejo acontecendo agora e os coloco nesta seção, que chamo de momento do tempo ou “estado instantâneo do mundo”. Eu os localizo no Agora porque eles parecem ser o Agora. 


Fig. 2 

Este método de localização durou até o ano de 1667, quando se verificou a impossibilidade de fazê-lo funcionar de forma consistente. Foi então descoberto pelo astrônomo Roemer que o que é visto agora não pode ser colocado no instante Agora. (Na linguagem comum, a luz leva tempo para viajar.) Isso foi realmente um golpe para todo o sistema de instantes mundiais, que foram especialmente inventados para acomodar esses eventos. Estávamos misturando dois eventos distintos; houve o evento original em algum lugar no mundo externo e houve um segundo evento, viz. a visão por nós do primeiro evento. O segundo evento foi em nossos corpos Aqui-Agora; o primeiro evento não foi nem aqui nem agora. A experiência, portanto, não dá nenhuma indicação de um Agora que não está Aqui; e poderíamos muito bem ter abandonado a ideia de que temos reconhecimento intuitivo de um Agora diferente do Aqui-Agora, que foi a razão original para postular instantes mundiais Agora. 

No entanto, acostumados aos instantes mundiais, os físicos não estavam dispostos a abandoná-los. E, de fato, eles têm uma utilidade considerável, desde que não os levemos muito a sério. Eles foram deixados como uma característica da imagem, e duas linhas Visto-Agora foram desenhadas, inclinando-se para trás a partir da linha Agora, na qual os eventos vistos agora devem ser consistentemente colocados. A cotangente do ângulo entre as linhas Visto-Agora e a linha Agora foi interpretada como a velocidade da luz. 

Assim, quando vejo um evento em uma parte distante do universo, por ex. o surgimento de uma nova estrela, localizo-a (muito apropriadamente) na linha Visto-Agora. Em seguida, faço um determinado cálculo a partir da paralaxe medida da estrela e desenho minha linha Agora para passar, digamos, 300 anos à frente do evento, e minha linha Agora de 300 anos atrás para passar pelo evento. 

Por este método eu traço o curso de minhas linhas do Agora ou instantes mundiais entre os eventos, e obtenho um quadro de localização no tempo para eventos externos. As linhas auxiliares do Visto-Agora, tendo cumprido seu propósito, são apagadas do quadro. 


Fig. 3 

É assim que localizo os eventos; e você? Devemos primeiro colocar Você na imagem (Fig. 3). Vamos supor que você está em outra estrela movendo-se com velocidade diferente, mas passando perto da Terra no momento presente. Você e eu estávamos distantes no passado e estaremos novamente no futuro, mas nós dois estamos Aqui-Agora. Isso é devidamente mostrado na foto. Examinamos o mundo do Aqui-Agora e, é claro, ambos vemos os mesmos eventos simultaneamente. Podemos receber impressões bastante diferentes deles; nossos diferentes movimentos causarão diferentes efeitos Doppler, contrações de FitzGerald, etc. Pode haver pequenos mal-entendidos até percebermos que o que você descreve como um quadrado vermelho é o que eu descreveria como um retângulo verde e assim por diante. Mas, permitindo esse tipo de diferença de descrição, logo ficará claro que estamos olhando para os mesmos eventos, e concordaremos inteiramente sobre como as linhas do Visto-Agora se posicionam em relação aos eventos. Começando com nossas linhas comuns do Visto-Agora, você tem que fazer os cálculos para desenhar sua linha Agora entre os eventos, e você a traça como mostrado na Fig. 3. 

 Como é que, partindo das mesmas linhas do Visto-Agora, você não reproduz a minha linha do Agora? É porque uma certa quantidade medida, viz. a velocidade da luz, tem que ser empregada nos cálculos; e naturalmente você confia em suas medidas assim como eu confio nas minhas. Como nosso instrumento é afetado por diferentes contrações de FitzGerald, etc., há muito espaço para divergência. O mais surpreendente é que ambos encontramos a mesma velocidade da luz, 299.796 quilômetros por segundo. Mas esse aparente acordo é realmente um desacordo; porque você considera isso uma velocidade relativa ao seu planeta e eu considero que é a velocidade relativa ao meu.* Portanto, nossos cálculos não estão de acordo e sua linha do Agora difere da minha. 

* A velocidade medida da luz é a velocidade média de ida e volta. A velocidade em uma direção isoladamente não pode ser medida até que as linhas do Agora tenham sido estabelecidas e, portanto, não pode ser usada para estabelecer as linhas do Agora. Assim, há um impasse ao traçar as linhas do Agora, que só podem ser removidas por uma suposição ou convenção arbitrária. A convenção realmente adotada é que (em relação ao observador) as velocidades da luz nas duas direções opostas são iguais. As linhas do Agora resultantes devem, portanto, ser consideradas igualmente convencionais. 

Se acreditarmos que nossos instantes mundiais ou linhas do Agora são algo inerente ao mundo fora de nós, brigaremos terrivelmente. Na minha opinião, é ridículo que você tome eventos à direita da imagem que ainda não aconteceram e eventos à esquerda que já são passados e chame a combinação de uma condição instantânea do universo. Você está igualmente desdenhoso do meu agrupamento. Nunca podemos concordar. Certamente, pela foto, parece que meus instantes foram mais naturais que os seus; mas isso é porque eu desenhei a imagem. Você, é claro, redesenharia com suas linhas do Agora em ângulos retos com você. Mas não precisamos discutir se as linhas do Agora são meramente linhas de referência traçadas em todo o mundo para conveniência na localização de eventos – como as linhas de latitude e longitude na Terra. Não há, então, questão de uma maneira certa e uma maneira errada de traçar as linhas; nós os desenhamos da maneira que melhor se adapte à nossa conveniência. Os instantes mundiais não são planos naturais de clivagem do tempo; não há nada equivalente a eles na estrutura absoluta do mundo; são partições imaginárias que achamos conveniente adotar." 

Eddington conclui que acostumamo-nos a considerar o mundo (o mundo duradouro) como estratificado em uma sucessão de estados instantâneos. Porém, em suas palavras, o astrofísico diz que um observador em outra estrela faria os estratos correrem em uma direção diferente da nossa e que nós podemos ver mais claramente o mecanismo real do mundo físico se pudermos livrar nossas mentes dessa ilusão de estratificação. 

Passado e Futuro Absolutos 

A seguir Eddington "tenta atingir a visão absoluta" do tempo (futuro e passado): "Apagamos todas as linhas do Agora. Apagamos Você e Eu mesmo, já que não somos mais essenciais para o mundo. Mas as linhas Visto-Agora são deixadas. Eles são absolutos, pois todos os observadores do Aqui-Agora concordam sobre eles. A imagem plana é uma seção; você deve imaginá-lo girado (na verdade, duas vezes girado, pois existem mais duas dimensões fora da imagem). O locus Visto-Agora é, portanto, realmente um cone; ou levando em consideração o prolongamento das linhas no futuro, um cone duplo ou figura de ampulheta (Fig. 4). Essas ampulhetas (desenhadas através de cada ponto do mundo considerado sucessivamente como um Aqui-Agora) incorporam o que sabemos da estrutura absoluta do mundo no que diz respeito ao espaço e ao tempo. Eles mostram como funciona o “grão” do mundo. 


Como a ampulheta é absoluta, seus dois cones fornecem, respectivamente, um Futuro Absoluto e um Passado Absoluto. Para o evento Aqui-Agora. Eles são separados por uma zona neutra em forma de cunha que (absolutamente) não é passado nem futuro. A impressão comum de que a relatividade vira o passado e o futuro completamente de pernas para o ar é bastante falsa. Mas, ao contrário do passado e do futuro relativos, o passado e o futuro absolutos não são separados por um presente infinitamente estreito. Sugere-se que a cunha neutra pode ser chamada de Presente Absoluto; mas não acho que seja uma boa nomenclatura. É muito melhor descrito como Absolute Elsewhere. Abolimos as linhas do Agora, e no mundo absoluto o presente (Agora) está restrito ao Aqui-Agora. 

Talvez eu possa ilustrar as condições peculiares decorrentes da zona neutra em forma de cunha com um exemplo bastante hipotético. Suponha que você esteja apaixonado por uma senhora em Netuno e que ela retribua o sentimento. Será algum consolo para a separação melancólica se você puder dizer a si mesmo em algum momento possivelmente predeterminado: “Ela está pensando em mim agora”. Infelizmente surgiu uma dificuldade porque tivemos que abolir o Agora. Não existe um Agora absoluto, mas apenas os vários Agoras relativos que diferem de acordo com o cálculo de diferentes observadores e cobrem toda a cunha neutra que à distância de Netuno tem cerca de oito horas de espessura. Ela terá que pensar em você continuamente por oito horas seguidas para contornar a ambigüidade do “agora”. 

Na maior separação possível na Terra, a espessura da cunha neutra não passa de um décimo de segundo; de modo que o sincronismo terrestre não seja seriamente interferido. Isso sugere uma qualificação de nossa conclusão anterior de que o presente absoluto está confinado ao Aqui-Agora. É verdade no que diz respeito a eventos instantâneos (eventos pontuais). Mas, na prática, os eventos que notamos são de duração mais do que infinitesimal. Se a duração for suficiente para cobrir a largura da zona neutra, então o evento tomado como um todo pode ser considerado absolutamente Agora. Deste ponto de vista, o “agora” de um evento é como uma sombra projetada por ele no espaço, e quanto mais longo o evento, mais longe a sombra da sombra se estenderá. 

À medida que a velocidade da matéria se aproxima da velocidade da luz, sua massa aumenta até o infinito e, portanto, é impossível fazer a matéria viajar mais rápido que a luz. Esta conclusão é deduzida das leis clássicas da física, e o aumento da massa foi verificado experimentalmente até velocidades muito altas. No mundo absoluto, isso significa que uma partícula de matéria só pode proceder do Aqui-Agora para o futuro absoluto – o que, você concordará, é uma restrição razoável e apropriada. Não pode viajar para a zona neutra; o cone limite é o rastro da luz ou de qualquer coisa que se mova com a velocidade da luz. Nós mesmos estamos apegados a corpos materiais e, portanto, só podemos prosseguir para o futuro absoluto. 

Eventos no futuro absoluto não estão absolutamente em outro lugar. Seria possível a um observador viajar do Aqui-Agora ao evento em questão a tempo de vivenciá-lo, desde que a velocidade necessária seja menor que a da luz; em relação ao referencial de tal observador, o evento seria Aqui. Nenhum observador pode alcançar um evento na zona neutra, pois a velocidade necessária é muito grande. O evento não está Aqui para nenhum observador (do Aqui-Agora); portanto, está absolutamente em outro lugar. 

A Distinção Absoluta de Espaço e Tempo 

Ao dividir o mundo em Absoluto Passado e Futuro, por um lado, e Absoluto "Noutro Lugar", por outro lado, nossas ampulhetas restauraram uma diferenciação fundamental entre tempo e espaço. Não é uma distinção entre relações temporais e espaciais. Os eventos podem estar para nós em uma relação temporal (absolutamente passado ou futuro) ou em uma relação espacial (absolutamente em outro lugar), mas não em ambos. 

As relações temporais irradiam para os cones passados e futuros e as relações espaciais para a cunha neutra; eles são mantidos absolutamente separados pelas linhas do Visto-Agora que identificamos com o grão de estrutura absoluta no mundo."

A seguir Eddington explica a diferença entre extensão de tempo e extensão de espaço. O cientista afirma que nosso curso através do mundo é para o futuro absoluto, ou seja, ao longo de uma sequência de relações temporais. E assim não podemos ter uma experiência semelhante de relações espaciais porque isso envolveria viajar com velocidade maior que a da luz. Então temos experiência imediata da relação temporal, mas não da relação espacial. "Nosso conhecimento das relações espaciais é indireto, como quase todo o nosso conhecimento do mundo externo - uma questão de inferência e interpretação das impressões que nos atingem por meio de nossos órgãos dos sentidos." 

O peso destas afimações de Arthur Eddington é tão significativo que elas devem gerar impacto na psicologia e uma discussão sobre o assunto deve ser válida ontologicamente e epistemologicamente para realizar possíveis ajustes na construção da psicologia como conhecimento: Como físicos, Eddington,Einstein, Rutherford e Heisenberg estudaram o espaço em nosso entorno e tiveram alguma propriedade para falar o quanto do conhecimento construído era mera inferência e interpretação. Argumentos baseados na existência de apenas 3 dimensões, que reduzem a psicologia à ontologia materialista devem no mínimo ser corrigidos, mas para não deixar este texto maior do que já está, não abordarei aqui estes argumentos existentes em certas abordagens psicológicas que praticamente se apoiam na visão de ciência da física clássica derrubada por Einstein, Eddington e outros físicos. 

Eddington continua: "Temos conhecimento indireto semelhante das relações temporais existentes entre os eventos do mundo fora de nós; mas, além disso, temos experiência direta das relações temporais que nós mesmos estamos atravessando - um conhecimento do tempo que não vem por meio de órgãos externos dos sentidos, mas toma um atalho em nossa consciência. Quando fecho meus olhos e me retiro para minha mente interior, sinto-me duradouro, não me sinto extenso. É esse sentimento do tempo afetando a nós mesmos que é tão peculiarmente característico dele - e não apenas existindo nas relações de eventos externos; O espaço, por outro lado, é sempre apreciado como algo externo. É por isso que o tempo nos parece muito mais misterioso do que o espaço. Não sabemos nada sobre a natureza intrínseca do espaço e, portanto, é bastante fácil concebê-lo satisfatoriamente. Temos conhecimento íntimo da natureza do tempo e, portanto, confunde nossa compreensão. É o mesmo paradoxo que nos faz acreditar que entendemos a natureza de uma mesa comum, enquanto a natureza da personalidade humana é completamente misteriosa. Nunca tivemos aquele contato íntimo com o espaço e as mesas que nos faria perceber o quanto elas são misteriosas; temos um conhecimento direto do tempo e do espírito humano que nos faz rejeitar como inadequada aquela concepção meramente simbólica do mundo que muitas vezes é confundida com uma visão (insight, introspecção) em sua natureza." 

Na sequência Eddigton explica o "mundo" quadridimensional: "Não sei se você está profundamente ciente do fato de que, há algum tempo, estamos imersos em um mundo quadridimensional. A quarta dimensão dispensa apresentações: assim que começamos a considerar os eventos, ela estava lá: O "mundo" quadridimensional. Os eventos obviamente têm uma ordem quádrupla que podemos dissecar em direita ou esquerda, atrás ou na frente, acima ou abaixo, mais cedo ou mais tarde - ou em muitos conjuntos alternativos de especificação quádrupla. A quarta dimensão não é uma concepção difícil. Não é difícil conceber os eventos como ordenados em quatro dimensões; é impossível concebê-los de outra forma. O problema começa quando continuamos nessa linha de pensamento, porque por um longo costume dividimos o mundo dos eventos em seções ou instantes tridimensionais e consideramos o empilhamento dos instantes como algo distinto de uma dimensão. 

Isso nos dá a concepção usual de um mundo tridimensional flutuando na correnteza do tempo. Este mimo de uma dimensão particular não é totalmente sem fundamento; é nossa apreciação grosseira da separação absoluta das relações de espaço e relações de tempo pelas figuras da ampulheta. Mas a discriminação grosseira deve ser substituída por uma discriminação mais precisa. Os supostos planos de estrutura representados pelas linhas Agora separavam uma dimensão das outras três; mas os cones de estrutura dados pelas figuras da ampulheta mantêm as quatro dimensões firmemente unidas." 

Estamos acostumados a pensar em um homem à parte de sua duração. Quando retratei “Eu mesmo” na Fig. 2, você ficou surpreso por eu incluir minha infância e velhice. Mas pensar em um homem sem sua duração é tão abstrato quanto pensar em um homem sem seu interior. As abstrações são úteis, e um homem sem seu interior (ou seja, uma superfície) é uma concepção geométrica bem conhecida. Mas devemos perceber o que é uma abstração e o que não é. Os “vermes quadridimensionais” apresentados neste capítulo parecem terrivelmente abstratos para muitas pessoas. De jeito nenhum; são concepções desconhecidas, mas não são concepções abstratas. É a seção do verme (o homem agora) que é uma abstração. E como as seções podem ser tomadas em direções um pouco diferentes, a abstração é feita de forma diferente por diferentes observadores que, consequentemente, atribuem diferentes contrações de FitzGerald a ela. O homem não-abstrato perdurando no tempo é a fonte comum de onde são feitas as diferentes abstrações. 

A aparência de um mundo quadridimensional neste assunto é devido a Hermann Minkowski. Einstein mostrou a relatividade das quantidades familiares da física; Minkowski mostrou como recuperar o absoluto voltando à sua origem quadridimensional e pesquisando mais profundamente. 

A Velocidade da Luz 

Uma característica da teoria da relatividade que parece ter despertado interesse especial entre os filósofos é o caráter absoluto da velocidade da luz. Em geral, a velocidade é relativa. Se falo de uma velocidade de 40 quilômetros por segundo, devo acrescentar “relativa à Terra”, “relativa a Arcturus” ou qualquer outro corpo de referência que eu tenha em mente. Ninguém entenderá nada da minha declaração, a menos que isso seja adicionado ou implícito. Mas é um fato curioso que se falo de uma velocidade de 299.796 quilômetros por segundo é desnecessário acrescentar a frase explicativa. Relativo a quê? Relativo a toda e qualquer estrela ou partícula de matéria no universo. Você deve se lembrar que uma linha Visto-Agora, ou rastro de um flash de luz, representa o grão da estrutura do mundo. Assim, a peculiaridade de uma velocidade de 299.796 quilômetros por segundo é que ela coincide com o grão do mundo. Os vermes quadridimensionais que representam os corpos materiais devem necessariamente atravessar o grão até o futuro cone, e temos que introduzir algum tipo de quadro de referência para descrever seu curso. Mas o flash de luz está exatamente ao longo do grão, e não há necessidade de nenhum sistema artificial de partições para descrever esse fato. 

O número 299.796 (quilômetros por segundo) é, por assim dizer, um número de código para o grão da madeira. Outros números de código correspondem aos vários buracos-de-minhoca que podem casualmente cruzar o grão. Temos diferentes códigos correspondentes a diferentes estruturas de espaço e tempo; o código numérico do grão da madeira é o único que é o mesmo em todos os códigos. Isso não é um acidente; mas não sei se alguma inferência profunda pode ser tirada disso, além de que nossos códigos de medida foram planejados racionalmente de modo a se basear no essencial e não nos aspectos casuais da estrutura do mundo. 

A velocidade de 299.796 quilômetros por segundo, que ocupa uma posição única em cada sistema de medida, é comumente chamada de velocidade da luz. Mas é muito mais do que isso; é a velocidade com que a massa da matéria se torna infinita, os comprimentos se contraem até zero, os relógios param. Portanto, surge em todos os tipos de problemas, quer a luz esteja envolvida ou não. 

Ao afirmar o caráter absoluto da velocidade da luz, os cientistas querem dizer que lhe atribuíram o mesmo número em todos os sistemas de medida; mas isso é um arranjo privado próprio - um elogio involuntário à sua importância universal. 

Passando dos números de medida para a coisa descrita por eles, o “grão” é certamente uma característica absoluta do mundo, mas também o são os “buracos de minhoca” (partículas materiais). A diferença é que o grão é essencial e universal, os buracos de minhoca casuais. A ciência e a filosofia muitas vezes se opõem ao discutir o Absoluto - um mal-entendido que, receio, é principalmente culpa dos cientistas. Na ciência, estamos preocupados principalmente com o caráter absoluto ou relativo dos termos descritivos que empregamos; mas quando o termo absoluto é usado com referência ao que está sendo descrito, geralmente tem o significado vago de “universal” em oposição a “casual”. 

Outro ponto sobre o qual, às vezes, houve confusão é a existência de um limite superior para a velocidade. Não é permitido dizer que nenhuma velocidade pode ultrapassar 299.796 quilômetros por segundo. Por exemplo, imagine um holofote capaz de enviar um feixe paralelo preciso até Netuno. Se o holofote girar uma vez por minuto, a extremidade do feixe de Netuno se moverá em um círculo com velocidade muito maior do que o limite acima. Este é um exemplo de nosso hábito de criar velocidades por uma associação mental de estados que não estão em conexão causal direta. A afirmação feita pela teoria da relatividade é mais restrita, viz.- Nem a matéria, nem a energia, nem nada capaz de ser usado como sinal pode viajar a mais de 299.796 quilômetros por segundo, desde que a velocidade seja referida a um dos referenciais de espaço e tempo considerados neste capítulo.* 

* Algumas ressalvas desse tipo são claramente necessárias. Frequentemente empregamos para propósitos especiais um referencial girando com a Terra; neste quadro, as estrelas descrevem círculos uma vez por dia e, portanto, são atribuídas velocidades enormes. 

A velocidade da luz na matéria pode em certas circunstâncias (no fenômeno da dispersão anômala) exceder este valor. Mas a velocidade mais alta só é alcançada depois que a luz passa pela matéria por alguns momentos, de modo a colocar as moléculas em vibração simpática. Um flash de luz não anunciado viaja mais lentamente. A velocidade, superior a 299.796 quilômetros por segundo, é, por assim dizer, alcançada por pré-combinação e não tem aplicação em sinalização. 

Somos obrigados a insistir nessa limitação da velocidade de sinalização. Tem o efeito de que só é possível sinalizar para o Futuro Absoluto. As consequências de ser capaz de transmitir mensagens relativas a eventos Aqui-Agora na cunha neutra são bizarras demais para contemplar. Ou a parte da cunha neutra que pode ser alcançada pelos sinais deve ser restringida de forma que viole o princípio da relatividade; ou será possível providenciar para que um confederado receba as mensagens que lhe enviaremos amanhã e as retransmita para nós para que as recebamos hoje! O limite da velocidade dos sinais é o nosso baluarte contra aquela confusão do passado e do futuro, da qual a teoria de Einstein às vezes é injustamente acusada. 

Expressa da maneira convencional, essa limitação da velocidade de sinalização a 299.796 quilômetros por segundo parece um decreto um tanto arbitrário da Natureza. Quase sentimos como um desafio encontrar algo que ande mais rápido. Mas se afirmarmos de forma absoluta que a sinalização só é possível ao longo de uma trilha de relação temporal e não ao longo de uma trilha de relação espacial, a restrição parece racional. Para violá-lo, não temos apenas que encontrar algo que vá apenas 1 quilômetro por segundo melhor, mas algo que ultrapasse essa distinção de tempo e espaço – que, estamos todos convencidos, deve ser mantida em qualquer teoria sensata."

Relação do Tempo com a Mente na Psiquiatria e na Filosofia 

A seguir serão mostradas as interpretações sobre o tempo e como este relaciona-se com a mente feitas pelo filósofo Henry Bérgson (citado por Eddington) e pelo psiquiatra fenomenólogo Eugene Minkowski. 

O mérito de Bérgson reside, segundo Piettre (1997), na sugestão da hipótese de que o tempo da natureza não é o tempo medida da ciência feito de instantes, mas um tempo constituído por uma duração irreversível e rica de um futuro. Sua grande contribuição foi a distinção entre tempo vivido como experiência interna, em contraposição ao tempo cronológico, que é mensurável (Amaral, 2004). 

Segundo Eugene Minkowski (1965), a noção de direção do tempo nos coloca diante do fenômeno já denominado por Bérgson (2005) de "élan vital". Assim como tudo na vida tem uma direção, o tempo tem o seu "élan vital", que cria o futuro antes de nós. Isto significa que ele é um instinto, uma energia que lança a vida à frente, para além do simples movimento de extensão e expansão do corpo; é a intencionalidade que orienta e direciona a vida rumo ao seu futuro. Para Minkowski (1965), quando o "élan vital" se "apaga", o Eu perde a velocidade e a dimensão do devenir, do futuro. O Eu, não mais presente no tempo, não o administra nas suas exigências temporais e dinâmicas, da duração, da continuidade, da propulsão organizada pela "atividade e espera", "desejo e esperança", e pela "ação ética", sustentada pela "prece". 

O tempo é uma experiência primária e vital, que de tão próxima, não consegue ser exaurida pelo conhecimento, pelos sentimentos ou pela vontade, e que se encontra na existência de duas formas: como "tempo assimilado ao espaço" e como "tempo qualidade ou tempo vivido". O primeiro refere-se ao tempo do "tic-tac" do relógio, do calendário, mensurável em dias, meses e anos, medido por leis naturais de duração, sucessão e continuidade. A segunda forma pela qual o devenir se encontra na existência humana refere-se ao tempo-qualidade ou tempo vivido. Este tempo, em oposição ao primeiro, não se reduz absolutamente às dimensões espaciais mensuráveis. É o tempo vivido na introspecção, tal como aparece à consciência; é um puro tempo dado à experiência. No existir cotidiano (Forghieri, 1993), independentemente do tempo do relógio, pode-se vivenciar o tempo com "velocidades", intensidades e "extensibilidades" que se diferenciam em virtude das situações e sentimentos que delas decorrem. 

Em relação ao passado, Minkowski (1965) apresenta três categorias – a recordação, o remorso e o pesar – elementos capazes de abrir de novo o caminho para o futuro, se ressignificados. 

A recordação, para ele, expande o presente e torna o passado revivido no aqui-e-agora, por intermédio de seus significados, que se tornam abertos para serem ressignificados; ela reforça valores e enriquece a vida. O remorso, caracterizado por uma recordação consciente de um passado, reconcilia-se com as exigências do devenir, e em seu caráter prospectivo, pode reparar as falhas de um tempo, eticamente projetado para a busca da ação ética. O pesar, outro fenômeno definido como uma extensão natural do passado, aplica-se a acontecimentos de menor gravidade, e se refere especialmente ao lamento pelo bem não cometido ou pelo mal materializado em um ato transgressivo, podendo também, em seu caráter prospectivo, ser ressignificado. O passado, para Minkowski (1965), é, pois, o tempo (já) vivido, recuperado pelas três categorias; no fenômeno da duração, é o "antes" que dá significado ao "agora" e ao "depois". 

O futuro: Em razão do fenômeno do "élan vital" (Minkowski, 1965), que contém de forma primitiva a noção de direção do tempo, nossa vida é essencialmente orientada para o futuro. Mesmo que se reviva o passado, em forma de memórias, ou se viva no passado, essa é uma questão de reviver ou de viver em. O futuro, por seu turno, é vivido de uma maneira mais direta e imediata, pois a atenção do eu é primariamente direcionada para ele. O futuro garante uma perspectiva ampla e majestosa diante do eu, a qual se perde de vista e o aproxima do misterioso, tão indispensável à vida espiritual quanto o ar puro para a respiração. 

Nesse sentido, há que se inquirir como o futuro pode ser vivido, sem que dele se tenha conhecimento. A resposta para a questão encontra-se relacionada aos seis fenômenos ou categorias do "élan vital" do eu, que lhe permitem viver intencionalmente o tempo, a saber: a atividade e a espera, o desejo e a esperança, a prece e a ação ética. 

A atividade é definida como "um fenômeno essencial da vida. Tudo que vive é ativo e tudo que é ativo vive" (Minkowski, 1965, p. 84). Ela é um dos fenômenos de natureza temporal que se encontra dirigida para o futuro ou o tempo advir, como menciona o autor, oferecendo-lhe uma vivência imediata. A atividade estende-se nessa direção naturalmente, e não pode ser fixada ou interrompida, permitindo ao eu a sensação de expansão e de identidade. É a energia vital que contém o fator duração ativa, responsável pela sequência, coerência e finalidade das ações que se sucedem no decorrer do tempo na vida do indivíduo, colocando-o diante do futuro. 

No seu sentido originário, nuclear, portanto, a atividade significa a alegria imediata de viver, apesar das perdas e dos fatores de limitação. Essa categoria foi vivenciada por Minkowski (1965) quando se encontrava em situação de risco no campo de concentração, e paradoxalmente, experienciava a alegria de ainda estar vivo. 

A atividade é, portanto, uma energia temporal, transformada em matéria que se funde com a abertura, com a potencialidade de contato com o meio ambiente, preenchendo um vazio repleto de possibilidades diante do indivíduo. É um fenômeno original e neutro, que muitas vezes parece ser suficiente em si mesmo, pois, em muitos momentos, o eu se deixa simplesmente viver, aproximando-se dos fenômenos da sintonia e do repouso, embora deles se diferencie. Em outros momentos, ela é atenção e tensão, uma energia concentrada, pronta para explodir na ação ou na sequência de ações, garantindo o ser e se identificando com a sua expansão. 

Enfim, se na atividade o eu se estende nos espaços vazios, tornando-se quase um todo, na espera o eu é reduzido à mais simples expressão, ficando sob ameaça de ser engolido, tornando-se quase nada. Não obstante, à medida que ambas as categorias se equilibram, uma a serviço da outra, como quando a espera se aproxima da essência da atividade, exprimindo uma tensão-abertura-prontidão em relação a um possível evento dado, como oportunidade-apelo-chamada, elas promovem a possibilidade de o eu atuar no mundo de forma adequada. 

Desejo e esperança : O desejo e a esperança, outros dois momentos do tempo, embora situados na mesma direção do tempo, rumo ao advir, estão para além da atividade e da espera, colaborando para sua construção. Essas duas categorias retiram o eu do contato imediato (sem intermediário), favorecendo o contato com o mediato, alargando a perspectiva do futuro diante de si mesmo, e afirmam que há sempre algo a desejar e a esperar da vida, do futuro. (a esperança e o desejo então fazem o intermédio entre o "eu" e o futuro). 

Sem o desejo, o eu perde sua força, coragem, intimidade consigo mesmo, e promove um grande vazio existencial que vai engolindo a vida e o tempo e degradando o espaço. 

À medida que o desejo abre, de forma mais ampla, o futuro diante do eu, supera a esfera particular do que se possui, indo sempre além. Só se pode desejar o que não se possui, o que gera o verdadeiro significado da vida. Dessa forma, há mais satisfação no desejo e na esperança do que na realização, na conquista, na posse, porque ambos possuem horizontes infinitos. Na realização, a obra fecha-se às demais possibilidades (Minkowski, 1965). 

A esperança é a característica que permite ao advir se apresentar à nossa frente, como um horizonte de possibilidades que, por si só, é mais fascinante do que a própria conquista. Aparentemente, a esperança pode dirigir-se ao passado, como, por exemplo, na expressão "tomara que ontem nada tenha acontecido ao meu amigo" em relação a um acidente ferroviário ainda não esclarecido pelas notas oficiais. Trata-se de um passado que se parece mais com o futuro, no qual há a espera das notícias, há a esperança de uma revelação futura, que mesmo pertencendo a um passado, será desvelada, dando espaços a sentimentos de alegria ou de dor no futuro. 

Como elemento constitutivo e construtivo do advir, a esperança situa-se além do otimismo e do pessimismo, produzindo um sentimento como na expressão "dar a volta por cima", e se faz presente, mesmo depois de inúmeras derrotas. A esperança, como o desejo, encontra-se tanto ou mais intimamente ligada ao eu, permitindo-lhe refugiar-se para contemplar a vida na sua extensão. Resistente ao próprio otimismo e ao pessimismo, a esperança vai além de ambos, é uma emoção contemplativa e construtiva porque, sem ela, o advir mediato não existiria. 

Prece e ação ética: Para além das categorias descritas, encontram-se as duas últimas, relacionadas com a prece e a ação ética. A esperança transporta o eu no tempo em direção à eternidade, e, nesse momento, ela se identifica com a prece. É ela que dá consistência à própria espera e a resgata da passividade. O agora da espera torna-se operante e se ilumina na esperança, resgatando e significando os seus insucessos e decepções (Minkowski, 1965). 

Como todos os outros fenômenos vitais, a prece tem sua origem na afirmação da vida, embora surja em circunstâncias nas quais ela aparece ameaçada, como na presença da morte, nos desastres físicos ou morais, que ameaçam o eu. Nessas situações, a esperança parece ser insuficiente para confortar o eu, promovendo o seu movimento em direção à prece. É o momento em que o eu se eleva para além de si mesmo, daquilo que o rodeia, em direção a um horizonte infinito, para uma esfera além do tempo e do espaço, cheia de grandeza, claridade e mistério (Minkowski, 1965). 

Por último, Minkowski (1965) identifica como o pilar principal da estrutura da temporalidade relacionada ao advir, a ação ética, por considerá-la um dos elementos constitutivos essenciais, senão o mais importante da vida e sobre o qual ela se baseia. Sem essa categoria, segundo ele, seríamos seres amorais, o que modificaria sobremaneira a vida e a abertura do futuro diante do ser humano. 

A ação ética, como a prece, tem uma ressonância totalmente natural, por sua própria essência, e se encontra ao alcance de cada um de nós. Ela é a realização do que há de "humano" em nós, do que é virtualmente comum em nós, daquilo que anima toda a nossa vida (Minkowski, 1965). Ela aproxima o eu daquilo que existe de mais sublime, de mais elevado, de mais ideal nele mesmo, favorecendo o progresso efetivo da sociedade. Por meio da ação ética, ocorre uma fusão imediata entre o universo imediato e o eu que, esquivando-se dos interesses que constituem a materialidade da vida, penetra e apela para o que existe de melhor em si mesmo, em uma inspeção luminosa, tomando consciência de si mesmo. 

Espaço-Tempo unidos: Explicando o surgimento de "Quadros" 

Voltando à obra de Eddington, neste seu texto ele diz que: "a ideia de uma multiplicidade de quadros de espaço foi estendida a uma multiplicidade de quadros de espaço e tempo. O sistema de localização no espaço, chamado moldura do espaço, é apenas uma parte de um sistema mais completo de localização de eventos no espaço e no tempo. A natureza não fornece nenhuma indicação de que um desses quadros deva ser preferido aos outros. O referencial particular no qual estamos relativamente em repouso tem uma simetria em relação a nós que outros referenciais não possuem, e por esta razão caímos na suposição comum de que é o único referencial razoável e adequado; mas essa perspectiva egocêntrica deve agora ser abandonada e todos os enquadramentos devem ser tratados da mesma forma. Considerando o tempo e o espaço juntos, pudemos entender como surge a multiplicidade de quadros. Eles correspondem a diferentes direções de seção do mundo quadridimensional dos eventos, sendo as seções os “instantes mundiais”. A simultaneidade (Agora) é vista como relativa. A negação da simultaneidade absoluta está intimamente ligada à negação da velocidade absoluta; o conhecimento da velocidade absoluta nos permitiria afirmar que certos eventos no passado ou no futuro ocorrem aqui, mas não agora; o conhecimento da simultaneidade absoluta nos diria que certos eventos ocorrem agora, mas não aqui. Removendo essas seções artificiais, tivemos um vislumbre da estrutura absoluta do mundo com seus grãos divergentes e entrelaçados segundo o plano das figuras da ampulheta. Por referência a essa estrutura, discernimos uma distinção absoluta entre separação de eventos semelhante ao espaço e semelhante ao tempo - uma distinção que justifica e explica nosso sentimento instintivo de que o espaço e o tempo são fundamentalmente diferentes." 

Por fim, Eddington afirma que uma das aplicações destas "descobertas" é determinar as mudanças das propriedades físicas dos objetos devido ao movimento rápido. Uma vez que o movimento pode igualmente ser descrito como um movimento de nós mesmos em relação ao objeto ou do objeto em relação a nós mesmos, ele não pode influenciar o comportamento absoluto do objeto. 

As fórmulas para calcular a mudança de cálculo de qualquer uma dessas quantidades são facilmente deduzidas agora que a relação geométrica dos quadros foi verificada. 

Física, Ontologia, Epistemologia e Psicologia: Ou seja, Filosofia e Ciência 

Mas qual é a importância da relação entre o tempo e a mente? Ao explicar espaço-tempo juntos, Eddington conseguiu se desvincular (até um máximo possível) da visão/ percepção (ou interpretação) humana sobre a realidade que o cerca, porém também indicou a centralidade da filosofia e da mente humana nesta relação com o espaço/ tempo, seja ele separado ou unido. Apesar de Eddington indicar a possibilidade de uma diferenciação entre o tempo percebido e o tempo "externo" ou "físico", ele parece não ter causado impacto direto na psicologia com suas informações, talvez por ter se baseado nos estudos de Einstein/ Rutherford/ Minkowski e nos argumentos filosóficos de Henry Bergson. As relações entre tempo e mente não param meramente neste embate entre física e filosofia: Os argumentos filosóficos de Bergson serviram de base para a psiquiatria fenomenológica de Eugene Minkowski, ou seja, serviram de base para estudos sobre sofrimentos e transtornos psíquicos. Por quê? A resposta é: A fenomenologia, ao trabalhar a proximidade entre filosofia e ciência, logicamente adentrou a psicologia, ou seja o estudo da alma (mente) e a psiquiatria praticamente tem o mesmo objeto de estudo desta área do conhecimento. A fenomenologia não só adentrou a psicologia pelo fato de ter incitado psicólogos a criarem abordagens baseada em seus argumentos, mas também já indicava a importância da psiquê nas questões ontológicas e epistemológicas, ou seja, a intencionalidade é algo que afeta as bases e o método de construção de conhecimento não só na filosofia como na ciência também! E isto está na origem da psicologia: O "fundador" desta área de conhecimento, Wilhelm Wundt, já estudara tais fatos e este assunto deve ser trazido a este blog em um futuro texto. Por fim, Eddington também ressalta a importância da percepção e da interpretação humana ao descrever o como a teoria quântica do átomo e a teoria da relatividade mudaram a visão de mundo das ciências! (https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/04/como-fisica-do-seculo-20-impactou-as.html). Neste texto de Eddington, ele não só traz objetos de estudos da psicologia* de volta ao centro da base das ciências e da construção de conhecimento, como também critica o materialismo devido ao fato desta ontologia ou pressuposto filosófico estar alicerçado na obsoleta física clássica (de Isaac Newton etc). Além de isto ir de encontro aos argumentos do polêmico biólogo Bruce H. Liptom que criticou a dominância da física newtoniana nas ciências, os argumentos de Eddington indicam uma similaridade ou proximidade aos de Wundt, quando este afirmava que a psicologia fazia a ponte da filosofia com as ciências e que esta área de estudos (psicologia) jamais deveria se limitar a estudar o comportamento meramente observável, devido a sua posição intermediária entre campos do saber tão vastos. O materialismo como ontologia/ como pressuposto filosófico obviamente influencia a construção de conhecimento (epistemologia), pois nenhum estudo escapa destas duas áreas da filosofia - como expliquei em outro texto a ciência é estruturada a partir da ontologia e da epistemologia (https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/11/o-que-forma-ciencia-e-quais-sao-suas.html). Em suas explicações sobre a estrutura do átomo, sobre a contração de FitzGerald, sobre a quarta dimensão e sobre a relatividade dos quadros/ molduras de espaço e tempo, Eddington prova que o materialismo é uma pré suposição reducionista e limitada (a fenomenologia também indicava isto no início do século 20), ou seja, reduz a percepção humana de fenômenos encolhendo a visão do ser (tentando determinar o que existe e o que não existe) e limitando o que deve ser estudado. Resta então as ciências humanas, ou ao menos as áreas que estudam o comportamento e a psiquê/ a mente, se basearem em um pressuposto/ uma ontologia mais aberta, ou mais ampla que o materialismo, que não considere apenas o que se chama de "mensurável" (sensorialmente/ matematicamente).

*(A gestalt estuda a percepção, a terapia cognitivo comportamental estuda os processos cognitivos, a psicologia analítica enfatiza a importância do simbolismo para o ser humano etc) 

Fontes: 

https://www.scielo.br/j/pe/a/szMZdLPgT95whQbtNdSJwvG/?lang=pt - acesso em 20/04/23 

Tradução de: Eddington, A. S. - The Nature of Physical world; 1948 (Electronic Reproduction 2022); 

https://www.scielo.br/j/ss/a/YpGvJRjbDNyJzzrkS7wN8jp/?lang=pt - acesso em 07/07/23

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Relações entre Psique e Tempo

 

Neste breve texto falarei da mente humana, que pode ser considerada sinônimo de cérebro (ou sinapses etc) para pessoas materialistas e sinônimo de alma para pessoas espiritualistas, mentalistas, religiosas e similares. Porém, utilizarei a palavra "psiquê" (neste e em outros textos) por ser um termo mais abrangente, portanto menos reducionista, do que a palavra "mente". Espero que esta abrangência maior permita um diálogo tanto com pessoas que têm uma "visão de mundo" materialista, como também com as que têm uma "visão de mundo" além da matéria perceptível pelos sentidos, sejam dualistas, espiritualistas etc. 

Não fiquei preso a uma abordagem psicológica, mas uma "visão de mundo" (ou viés ontológico) é impossível de se evitar, pois todos seres humanos tem uma experiência de vida e/ ou uma "visão (interpretação) da existência". Certamente, o conteúdo que apresento aqui deve ter influências das obras de Carl Gustav Jung, de Viktor Frankl e um pouco das ideias de Henry Bérgson e de Platão.

A Psiquê além do Presente 

O espaço-tempo existe, independente se você concorda com a Teoria da Relatividade (do séc. 20) de Einstein ou com a teoria da "física clássica" (do séc. 18) de Isaac Newton - Todos seres vivos estão de certa forma "inseridos" no espaço-tempo e, em algum nível, interagimos com "ele". 

Pois bem... A psiquê acessa o passado pelas memórias/ lembranças e o futuro pela intuição e pela imaginação, enquanto predominantemente permanece no presente em vida. Esse "acesso" (ao passado ou ao futuro) pode ser um termo impreciso, mas em resumo é isto, independentemente se a memória for um tipo de registro no sistema nervoso, ou qualquer outra coisa. 

Apesar da psiquê no presente se caracterizar principalmente pela consciência que interage com o meio instantaneamente ou momentaneamente, somos duradouros - um pouco através de nosso corpo com sua longevidade típica da raça humana e muito mais com a psiquê, seja como uma mente que vai se formando no ventre da mãe até seus últimos momentos no corpo envelhecido ou adoecido, ou seja como uma alma imortal que também existe antes e depois do corpo. De ambos os pontos de vista somos mais duradouros psiquicamente do que corporalmente, pois a psiquê faz parte da história deixando um legado para poucas ou muitas outras pessoas. Legado este que pode ser lembranças afetuosas, desgostos, conhecimentos, descobertas, obras de arte etc. Seja transcendendo historicamente ou espiritualmente, podemos transpassar o espaço-tempo percebido durante nossa vida na Terra. 

A imaginação por sua vez, vincula-se com o ato de criar, de inventar e por isso na arte, imaginar faz parte do processo criativo. A criação, ou ato de criar, é a manifestação de um aspecto da psiquê e geralmente não é do racional - é principalmente do sentimento. Sendo expressão principalmente do sentimento, a arte é emocional em essência. Neste processo (de criação artística) a atividade racional é mais complementar, trabalhando o conteúdo em si e a técnica, ditando a forma e a execução da arte. Tendo isto em vista, certamente podemos considerar que viver (crescer, desde a infância, por exemplo) em um ambiente onde se expressam bons sentimentos através das emoções, deve ser estimulante para desenvolver o dom/ a capacidade artística. 

Embora possa ser trabalhada em conjunto com a lembrança/ memória, a imaginação é voltada para o futuro, que certamente é o fluxo natural de toda a existência. Do passado nos restam apenas as lembranças / memórias, que também podem ser acessadas eventualmente colaborando com o processo criativo. Porém pode-se entender que as lembranças/ memórias ficam no inconsciente da psiquê devido ao fato de não estarem no "fluxo natural" da existência (que é rumo ao futuro) e por isso perdemos muito destes elementos, "nos esquecendo deles". O acesso ao nosso passado pode ocorrer pelo amor ou pela dor... Os sentimentos de cada pessoa são diversos e os ruins, em geral, tendem a ser restritivos, incapacitantes, destrutivos etc. Os bons tendem a ser inspiradores, consoladores e fortalecedores, portanto criativos e libertadores. Reflexões sobre os sentimentos poderiam ser profundas e extensas, então apresento aqui só um resumo, pois obviamente podemos aprender não só pelo amor, mas pela dor também. Porém é necessário cuidado, porque o sentimento ruim não deve ser estendido e sim compreendido para ser transformado ou superado, enquanto o bom deve ser cultivado para que não passemos a viver dominados pela frieza ou pela indiferença. 

Os sentimentos são elementos internos da psiquê e por isso é bem difícil abordar o assunto sem um viés, afinal uma imparcialidade em tal tema complexo, deve beirar o impossível. Então continuarei o assunto, levando em conta minha experiência de vida: O acesso ao bem do passado (o que é bom, como por exemplo momentos de troca de boas emoções/ afetos etc) é o que nos baliza e fortalece em nossa existência, histórica e transcendental. Este acesso não deve nos prender e sim nos impulsionar. Nossas preferências, nossos valores, nossas esperanças, nosso sentido ou a busca por sentido mostram que nossa mente tem uma coesão (mesmo com contradições, dificuldades e dúvidas), além de uma complexidade. Valorizamos momentos do passado que ficam em nossa memória, criamos obras nossas e/ ou objetivos para nossa vida, indicando uma atividade psíquica que vai além do presente, da consciência imediata mais próxima da percepção e talvez da interpretação de estímulos recebidos. 

Toda essa relação de nossa psiquê com o tempo (acessando o passado, vivendo o presente e projetando o futuro) mostra que ela tem uma duração e uma dimensão superiores à do corpo (pois o corpo não assume formas do passado nem do futuro, indo e voltando como a psiquê faz), principalmente se somarmos os inúmeros estímulos sensoriais que recebemos em vida - estímulos que não são somente dados separados entre si, mas que "geram informação", colaboram com o entendimento dos fatos e de fenômenos, através da interpretação, da racionalização... Temos a mente/ psiquê em uma extensão de tempo que notoriamente vai além do mero (momento) presente. Porém, como citado anteriormente, os fatores que nos impulsionam são principalmente sentimentais (e emocionais, suas expressões que nos afetam basicamente nas relações)! Talvez o fato a seguir seja óbvio, mas citarei mesmo assim: se a humanidade priorizasse as emoções ruins (buscando-as ou expressando-as mais do que as boas), ela se destruiria, tomada por narcisismo, intolerância, ódio, desespero etc. Por mais que possa parecer utópico, para que haja paz e progresso nas sociedades humanas, devemos então buscar nos guiar pela humildade, tolerância, amor, esperança etc. Não basta uma vida evitando sentimentos, alternando somente entre uma suposta racionalidade (baseada em leis, regras e/ ou desenvolvimento tecnológico) e experiências sensoriais que podem desencadear uma mera busca por prazeres a qual não abordarei neste texto. Neste ponto, para concluir o assunto, vale citar as ideias trazidas no texto "O Banquete" (ou o Simpósio) de Platão: Já que vivemos em sociedade e suas respectivas relações, podemos ter relacionamentos que podem começar a nível simplesmente sensual ou erótico, mas devemos buscar desenvolver amizades, devemos nos interessar pela psiquê (seja mente ou alma) do próximo: Por seus sentimentos, emoções, pensamentos (ideias, artes, conhecimentos etc), pois somos muito mais do que corpos - somos psiquê e mais do que características cognitivas, temos sentimentos e transcendemos a vida corporal presa ao presente, seja só historicamente, psiquicamente ou até espiritualmente.  

 

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Breve "Timeline" do pensamento Ocidental

 Segue um resumo da linha do tempo dos principais saberes (espiritual/religioso, filosófico e científico) centrada no ocidente, principalmente na Europa. 

Com esta linha do tempo tento mostrar como toda ação humana, mesmo a nível coletivo (social, econômico, religioso etc) tem uma intenção por trás e esta intenção pode ser rastreada (com alguma dificuldade e nem sempre precisamente) na história dos saberes. O material mensurável tão invocado na ciência não surge por si só nem explica toda a história: Ele é produzido por indivíduos que pensam, sentem e tomam decisões; por indivíduos que possuem alguma noção do que faz bem e do que faz mal para outras pessoas. Tais fatos fazem a história dos 3 saberes humanos muito mais importante do que a história de meras demarcações territoriais e de guerras que têm alguma importância, mas geralmente são consequências e/ou práticas de pensamentos, noções e decisões...



 

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Como a Física do século 20 impactou as ciências e a filosofia

 

O que é a "natureza" e o "universo material"? 
Em 1948 foi publicado o livro "A Natureza do Mundo Físico" do astrofísico, matemático e filósofo inglês, Arthur Stanley Eddington, que trata do resultado filosófico das grandes mudanças do pensamento científico que ocorreram entre 1906 e 1927 (esta última data foi o ano em que o autor expôs seus argumentos nas Palestras Gifford na Universidade de Edimburgo). 
Nas palavras do cientista, a teoria da relatividade e a teoria quântica levaram a estranhas novas concepções do mundo físico; o progresso dos princípios da termodinâmica operou mudanças mais graduais, mas não menos profundas. O objetivo do livro de Eddington é esclarecer a visão científica do mundo atual e, onde estiver incompleta, julgar a (possível) direção em que as idéias pendem. 
Resumidamente Eddington explica como as duas teorias provadas matematicamente modificaram o entendimento da existência (por isso o impacto na filosofia, particularmente em seu campo da ontologia). A teoria da relatividade mostra que não existe um único referencial de espaço como se pensava desde as descobertas de Isaac Newton no fim do século 18 - o espaço é predominantemente relativo. Além disto ele não é algo distinto e completamente separado do tempo como se pensava na ciência tradicional fundada por Newton, daí a sua classificação de "curvatura espaço-tempo". Diferentemente do espaço-tempo, a velocidade da luz é absoluta e não relativa - ela é sempre a mesma em qualquer situação, por mais adversa que seja, além de servir de limite máximo de velocidade possível. A teoria quântica, por sua vez, indica que os átomos são constituídos principalmente por "espaços vazios", pois suas partículas (nêutrons, elétrons...) ocupam um espaço insignificante de sua estrutura, além de não serem sólidos (são cargas elétricas). Estes elétrons também teriam o "movimento" relativo, sendo difícil de rastrear com precisão (não é simples como as representações similares de um mini sistema solar ensinadas nas escolas durante todo o séc. 20). 
Eddington afirma que gostaria de lembrar que o matiz idealista de sua concepção do mundo físico surgiu de pesquisas matemáticas sobre a teoria da relatividade. Ele decidiu desenvolver seu estudo além da ciência (rumo à filosofia), usando como justificativa para tal expedição o fato dela poder proporcionar uma visão melhor de seu próprio domínio científico. 
Ambas teorias indicam uma grande diferença entre um objeto analisado cientificamente com sua peculiar composição sub-atômica e um objeto percebido / interpretado de forma cotidiana que consideramos como o tipo de realidade "material" - Este último, Eddington (com alguma dose de humor) apelida de um "protesto encarnado contra o subjetivismo berkeleiano*". 

(*Berkeley pode ser considerado um idealista, ou mentalista, que se opôs ao materialismo surgente no fim do séc. 18)

 Após Eddington mostrar que os objetos (usa como exemplo uma mesa) são praticamente separados em duas realidades, a 1ª que é perceptível (pela visão, pelo tato etc) e a 2ª que é "científica" e imperceptível pois suas partículas (que não são sólidas) totalizam menos de um bilionésimo de seu volume, ele afirma: 
Não preciso dizer a você que a física moderna, por meio de testes delicados e lógica implacável, me assegurou que minha segunda mesa científica é a única que está realmente lá - onde quer que "lá" esteja. Por outro lado, não preciso dizer-lhe que a física moderna (mais atual após as descobertas das duas primeiras décadas do séc. 20) nunca conseguirá exorcizar aquela primeira mesa – estranho composto de natureza externa, imagens mentais e preconceito herdado – que permanece visível aos meus olhos e tangível ao meu alcance. 
Estas duas "realidades" chamadas por ele de "mundo familiar" (tipicamente percebido por nossos sentidos) e "mundo científico" (revelado pela física). Eddington segue explicando: (alguém poderia me perguntar) “Você fala paradoxalmente de dois mundos. Não são realmente dois aspectos ou duas interpretações de um e o mesmo mundo?” Sim, sem dúvida, eles devem ser identificados de alguma maneira. Mas o processo pelo qual o mundo externo da física é transformado em um mundo de conhecimento familiar na consciência humana está fora do escopo da física. 
A consciência humana não é área de estudo da física - é da psicologia, que de certa forma foi desvinculada da filosofia em meados do século 19 por Wilhelm Wundt. O processo de interpretação e/ ou de identificação final de um objeto ou de um assunto qualquer, pertence à consciência humana (algumas vertentes da psicologia podem nomear de cognição etc). Este deve ser não só mais um dos motivos da importância da psicologia, mas também é o motivo de sua relação (transdisciplinar) com outras áreas do saber como filosofia, biologia, física e portanto "filosofia da ciência" - apesar desta última ser uma redundância: A filosofia não pertence à ciência, pois os estudos científicos surgiram a partir da filosofia, ganhando certa autonomia ao se dividir em várias áreas/ especializações, mas ainda mantendo uma interdependência com alguns campos da filosofia, como a ontologia (o estudo/ teoria do ser, que pode servir de base para a ciência) e a epistemologia (metodologia da construção de conhecimento). Note que trata-se de interdependência, ou seja, a filosofia e a ciência podem gerar modificações uma na outra: historicamente a filosofia moldou a ciência e mais recentemente, no século 20, estudos como os de Ernest Rutherford, Hermann Minkowski, Albert Einstein e Ludwing von Bertalanffy, se expandiram para além da física, afetando (e moldando em algum nível) campos da filosofia, como os mencionados acima. 
Além disto, na época em que o método de investigação e construção de conhecimento* da ciência tradicional estava sendo formado, ainda não havia possibilidade de estudar os átomos, e muito menos, suas sub-partículas. Esta é mais uma das razões que faz Eddington separar os 2 aspectos da realidade em 2 mundos, pois a física a partir do século 20 passa a investigar o aspecto que era impossível de se estudar na época em que o empirismo foi "lançado" como o método / epistemologia da ciência. 

 (*A epistemologia, um campo da filosofia) 

Eddington denomina a área estudada pela física então, de mundo de sombras, devido ao fato dos átomos e suas respectivas partículas, movimentos e campos não serem naturalmente perceptíveis pelos sentidos humanos. Este "mundo de sombras" está além do mundo percebido, o qual ele chama de ilusão. Aqui certamente o mundo percebido é chamado de ilusão por esconder a real composição de todos objetos: Um monte de átomos com suas respectivas sub partículas distribuídas de modo muito esparso. 
Por esta razão, somos cercados por uma realidade que é uma ilusão para a física - Assim, Eddington afirma que esta ciência, ao se interessar pelos átomos, suas composições e inter relações, deixa para o filósofo a determinação de seu status exato em relação à realidade. 
Este mundo de sombras é um mundo de símbolos e a física deixa os símbolos como estão para estudá-los. Eddington compara a interpretação humana dos estímulos sensoriais com um efeito de alquimia: "Os núcleos esparsamente espalhados de força elétrica tornam-se um sólido tangível; sua agitação inquieta torna-se o calor do verão; a oitava de vibrações etéreas torna-se um lindo arco-íris. A alquimia também não para por aqui. No mundo transmutado surgem novos significados que dificilmente podem ser rastreados no mundo dos símbolos; para que se torne um mundo de beleza e propósito - e, infelizmente, sofrimento e maldade." 
Assim é possível notar um verdadeiro avanço do saber científico, devido ao fato da física alcançar e passar a se empenhar em estudar este "mundo de sombras" que era praticamente indetectável na época da "fundação" da ciência (seja na época de Locke e Newton, o fim do século 18 quando o empirismo estava começando a ser propagado, ou na época em que o termo ciência foi cunhado e espalhado a partir da década de 30 do século 19). Eddington diz que tal fato para os cientistas, "não é tanto uma retirada de reivindicações insustentáveis quanto uma afirmação de liberdade para o desenvolvimento autônomo". 
Este avanço não marca só uma modificação na filosofia (no mínimo, na filosofia da ciência), mas também traz um distanciamento de concepções familiares das teorias científicas. Pessoas despreparadas ou apegadas por qualquer motivo às concepções tradicionais, ou seja, às teorias antigas, provavelmente não simpatizarão com as teorias científicas do fim da era moderna (teoria da relatividade, teoria quântica e teoria geral dos sistemas). 
A partir do avanço mencionado, Eddington afirma que uma apreciação justa do mundo físico, como é entendido hoje, traz consigo um sentimento de abertura para um significado mais amplo que transcende a medição científica, o que poderia parecer ilógico uma geração atrás (...) e continua: Mas eu não seria fiel à ciência se não insistisse que seu estudo é um fim em si mesmo. O caminho da ciência deve ser percorrido por si mesmo, independentemente das visões que possa oferecer de uma paisagem mais ampla; com esse espírito, devemos seguir o caminho, quer ele leve à colina da visão ou ao túnel da obscuridade. Portanto, até que o último estágio do curso seja alcançado, você deve se contentar em seguir comigo o caminho batido da ciência, nem me repreender severamente por vagar entre suas flores à beira do caminho. Esse deve ser o entendimento entre nós. 

A Queda da Física Clássica 
A seguir, Eddington explica o que ele chama de "queda da física clássica", começando pela Estrutura do Átomo: Entre 1905 e 1908, Albert Einstein e Hermann Minkowski introduziram mudanças fundamentais em nossas ideias de tempo e espaço. Em 1911, Ernst Rutherford introduziu a maior mudança em nossa ideia de matéria desde a época de Demócrito. As novas ideias de espaço e tempo foram consideradas revolucionárias por todos os lados; foram recebidos com o maior entusiasmo por alguns e com a mais veemente oposição por outros. A nova ideia de matéria passou pela experiência comum da descoberta científica; gradualmente provou seu valor e, quando as evidências se tornaram esmagadoramente convincentes, silenciosamente suplantaram as teorias anteriores. Nenhum grande choque foi sentido. E, no entanto, quando ouço hoje protestos contra o bolchevismo da ciência moderna e lamentos pela velha ordem estabelecida, inclino-me a pensar que Rutherford, não Einstein, é o verdadeiro vilão da peça. Quando comparamos o universo como agora deveria ser com o universo como normalmente preconcebíamos, a mudança mais impressionante não é o rearranjo do espaço e do tempo por Einstein, mas a dissolução de tudo o que consideramos mais sólido em pequenas partículas flutuando no vazio. Isso causa um abalo abrupto naqueles que pensam que as coisas são mais ou menos o que parecem. 
 
Eddington e Einstein
 
O átomo é tão poroso quanto o sistema solar. Se eliminássemos todo o espaço vago no corpo de um homem e reuníssemos seus prótons e elétrons em uma massa, o homem seria reduzido a um pontinho apenas visível com uma lupa. 
 A teoria nuclear do átomo de Rutherford geralmente não é considerada uma das revoluções científicas deste século (20). Foi uma descoberta de longo alcance, mas uma descoberta que se enquadrava no esquema clássico da física. A natureza e o significado da descoberta podem ser declarados em termos claros, ou seja, em termos de concepções já correntes na ciência. O epíteto “revolucionário” é geralmente reservado para dois grandes desenvolvimentos modernos – a Teoria da Relatividade e a Teoria Quântica. Estas não são apenas novas descobertas quanto ao conteúdo do mundo; envolvem mudanças em nosso modo de pensar sobre o mundo. Elas não podem ser expressas imediatamente em termos claros porque temos primeiro que apreender novas concepções jamais sonhadas no esquema clássico da física. 
Não tenho certeza de que a expressão “física clássica” tenha sido definida com precisão. Mas a ideia geral é que o esquema da lei natural desenvolvido por Newton em "Principia" fornecia um padrão que todos os desenvolvimentos subseqüentes deveriam seguir. Dentro dos quatro cantos do esquema, grandes mudanças de perspectiva eram possíveis; a teoria ondulatória da luz suplantou a teoria corpuscular; o calor mudou de substância (calórica) para energia de movimento (... etc). Mas tudo isso foi permitido na elasticidade do esquema original. Ondas, energia cinética e deformação já tinham seu lugar no esquema; e a aplicação das mesmas concepções para explicar uma gama mais ampla de fenômenos foi um tributo à abrangência da perspectiva original de Newton. 
Após isso, Eddington explica como os estudos da "contração de FitzGerald" iniciaram o processo de "quebra" da física clássica. Resumidamente trata-se de uma pequena (mas real) mudança nas dimensões de um objeto, que ocorre devido à velocidade de seu movimento, alterando o equilíbrio entre as partículas dos átomos com a introdução de forças magnéticas nestas. Não explicarei mais detalhadamente, mas basta dizer que tais estudos foram comprovados matematicamente após as experiências de George F. FitzGerald e serviram como uma das bases da teoria da relatividade de Einstein. 
O resultado da contração de FitzGerald por si só, pode não levar à teoria da relatividade, mas causa certo abalo na física clássica. Eddington relembra que a constância de uma escala de medição é o alicerce no qual toda a estrutura da física foi erguida; e a partir do momento que a escala "gira", ou seja, mostra-se variável, volátil, ou relativa, este alicerce desmorona. 
 Aqui vale ressaltar que não só a física usa a escala de medição como um tipo de base científica (alicerce, "rocha" estrutural etc), afinal uma escala de medição é (ou faz parte de) uma pressuposição das ciências exatas. Afinal se um possível pressuposto filosófico de um ou mais campos da ciência é questionado, as ciências exatas (ao menos) recorriam à matemática, afirmando que seus estudos são baseados em princípios matemáticos provados, irrefutáveis ou qualquer argumento deste teor (como as fórmulas, que são formas de medições, escalas etc), para se sustentar como conhecimento válido e/ ou verdadeiro. 
A seguir, para explicar Molduras (ou Quadros) do Espaço, Eddington segue com um exemplo meramente ilustrativo onde cita possíveis físicos (cientistas) em um planeta situado em uma nebulosa que se move a 1.000 milhas por segundo; 
Sobre uma hipotética discussão entre esses físicos nebulares e nós, cientistas da Terra, Eddington diz: Um de nós tem uma grande velocidade e suas medidas científicas são seriamente afetadas pela contração de suas escalas. Até agora, cada um tem como certo que é o outro que está cometendo o erro. Não podemos resolver a disputa apelando para o experimento porque em cada experimento o erro introduz dois erros que apenas compensam um ao outro. É um tipo curioso de erro que sempre traz consigo sua própria compensação. 
Mas lembre-se que a compensação só se aplica a fenômenos realmente observados ou passíveis de observação. A compensação não se aplica à parte intermediária de nossa dedução – aquele sistema de inferência da observação que forma a teoria física clássica do universo. 
Suponha que nós e os físicos nebulares examinemos o mundo, ou seja, alocamos os objetos circundantes em suas respectivas posições no espaço. Uma parte, dizem os físicos nebulares, tem uma grande velocidade; suas medidas de jarda se contrairão e se tornarão menos de uma jarda quando medirem distâncias em uma certa direção; conseqüentemente, eles considerarão distâncias muito grandes nessa direção. Não importa se eles usam uma medida de jarda, ou um teodolito*, ou apenas avaliam as distâncias com o olho; todos os métodos de medição devem concordar. Se o movimento causou um desacordo de qualquer tipo, devemos ser capazes de determinar o movimento observando a quantidade de desacordo; mas, como já vimos, tanto a teoria quanto a observação indicam que há uma compensação completa. Se os físicos nebulares tentarem construir um quadrado, eles construirão um oblongo. Nenhum teste pode revelar a eles que não é um quadrado; o maior avanço que podem fazer é reconhecer que há pessoas em outro mundo que enfiaram na cabeça que é um oblongo, e podem ter a mente aberta o suficiente para admitir que esse ponto de vista, por mais absurdo que pareça, é realmente tão defensáveis quanto os seus. É claro que toda a concepção de espaço deles é distorcida em comparação com a nossa, e a nossa é distorcida em comparação com a deles. Estamos considerando o mesmo universo, mas o organizamos em espaços diferentes. 

(*Um aparelho de medição precisa)

Espaço e tempo são palavras que transmitem mais de um significado. O espaço é um vazio; ou é tal e tal número de polegadas, acres, pintas (etc). O tempo é um fluxo constante; ou é algo sinalizado para nós sem fio (wireless). O físico não tem utilidade para concepções vagas e ele frequentemente as tem, infelizmente! Mas ele não pode fazer uso real delas. Assim, quando ele fala de espaço, é sempre em polegadas ou pontos que ele deve ter em mente. É deste ponto de vista que o nosso espaço e o espaço dos físicos nebulares são espaços diferentes; a contagem de polegadas e pontos é diferente. Para evitar possíveis mal-entendidos, talvez seja melhor dizer que temos diferentes molduras de espaço – diferentes molduras às quais nos referimos à localização dos objetos. Não pense, entretanto, em uma estrutura de espaço como algo conscientemente artificial; a moldura do espaço surge em nossas mentes com nossa primeira percepção do espaço. 
A estrutura do espaço usada por um observador depende apenas de seu movimento. Observadores em diferentes planetas com a mesma velocidade (ou seja, com velocidade relativa zero) concordarão quanto à localização dos objetos do universo; mas observadores em planetas com diferentes velocidades têm diferentes estruturas de localização. 
Assim, um cientista modesto poderia considerar qualquer outro corpo celeste como padrão de repouso em busca de uma moldura (ou referencial) de espaço. Porém, para ele, o dilema seria mais urgente, pois não haveria indicação alguma de qual seria o corpo celeste certo. Daí surge a pergunta qual é a moldura do espaço correta? Não há uma resposta correta nem uma previsibilidade e todas medições experimentais estão passíveis de correções. Neste exemplo realista de Eddington, tal cientista modesto seria "deixado para trás" por colegas menos humildes, que certamente buscariam argumentos e apresentariam respostas mais imediatas como se fossem as molduras ou referenciais "corretas". Tendo em vista estas observações feitas por Eddington, nota-se que a "queda da física clássica" e seu impacto que se projeta para além de uma mera área de estudo, resgata a importância de se estudar e considerar a psicologia, a sociologia e a filosofia e seus respectivos campos de estudo, como a ontologia (o estudo da existência), epistemologia (construção de conhecimento), ética etc. Novas perguntas podem surgir com a diferenciação entre o mundo percebido e o mundo real (atômico ou sub-atômico), como por exemplo: Como ocorre a percepção e interpretação das formas/ imagens de um objeto, se sua massa atômica é menos de um bilionésimo de seu volume / massa percebida? Se as partículas são uma porção ínfima dos seres e objetos, poderia ser o(s) campos(s)/ ondas eletromagnéticas os responsáveis pelas formas percebidas? Certamente este deve ser o argumento desenvolvido na 2ª metade do séc. 20 por cientistas como Bruce Liptom. Talvez tal argumento seja polêmico devido a falta de estudos sobre ondas e campos magnéticos relacionadas aos organismos vivos, mas voltemos aos quadros de espaço: 
Não há algo necessariamente errado com a estrutura de localização empregada em nosso sistema (tradicional) de física, pois não houveram contradições experimentais. O fato é que tal estrutura não é única. Descobrir que a nossa entre uma das muitas molduras, todas igualmente satisfatórias, leva a uma mudança de interpretação do significado de uma moldura/ quadro de localização. 
Eddington comenta que o fato de não existir uma moldura de espaço correta (ou absoluta) pode parecer um mero paradoxo científico para alguns indivíduos, ou só um fato "distante" e de pouca importância para outras pessoas (que utilizem o senso comum, ou que sejam apegados a esta "visão" da existência), mas o ponto é que a inexistência de uma moldura do espaço correta ao menos serve para os cientistas se questionarem: Como estou ciente da localização do(s) objeto(s) estudado(s)? 
"Estar ciente" da localização de qualquer objeto é conhecimento dos sentidos, não conhecimento do senso comum. É parcialmente obtido pelo toque e locomoção; tal e tal objeto está à distância de um braço ou a alguns passos de distância. Além da rusticidade e/ ou possível imprecisão, há uma diferença real entre este método e as medições científicas com uma escala? Não: O método de medir com passos, ou com partes do corpo, é parcialmente obtido pela visão - uma versão bruta da medição científica com um teodolito. Nosso conhecimento comum de onde as coisas estão não é uma revelação de autoridade inquestionável; é inferência a partir de observações do mesmo tipo, mas mais cruas do que aquelas feitas em uma pesquisa científica. Dentro de seus próprios limites de precisão, o esquema de localização de objetos dos quais estou instintivamente “consciente” é o mesmo que meu esquema científico de localização, ou moldura do espaço. 
É pelo aumento de precisão que nos tornamos “conscientes” de certas características do espaço que não eram conhecidas de nosso ancestral símio quando ele instituiu as ideias comuns que chegaram até nós. O esquema de localização primitivo funciona, ainda que bem limitado quando comparado com o alcance de medições científicas. Porém, tendo qualquer um desses sistemas de localização/ quadros de espaço, não podemos mais fingir que cada um deles indica “exatamente onde estão as coisas”. A localização não é algo sobrenaturalmente revelado à mente; é uma espécie de resumo convencional daquelas propriedades ou relações dos objetos que condicionam certas sensações visuais e táteis. 
Isso não mostra que a localização “certa” no espaço não pode ser tão importante e fundamental quanto parece ser no esquema newtoniano das coisas? Os diferentes observadores são capazes de jogar rápido e solto com ele sem efeitos nocivos. 
Suponha que a localização seja, não direi totalmente um mito, mas não exatamente a coisa definida que é considerada pela física clássica; que a ideia newtoniana de localização contém alguma verdade e algum preenchimento, e não é a verdade, mas o preenchimento que nossos observadores estão discutindo. Isso explicaria muita coisa. Isso explicaria, por exemplo, por que todas as forças da Natureza parecem ter entrado em uma conspiração para impedir que descubramos a localização definitiva de qualquer objeto (sua posição no referencial “certo” do espaço); naturalmente eles não podem revelá-lo, se não existe. 
 Os argumentos que levaram à situação atual surgem da falha de nossa "tão confiável" escala de medição, uma falha que podemos inferir a partir de fortes evidências experimentais ou, mais simplesmente, como uma inevitável consequência da aceitação da teoria elétrica (quântica) da matéria. 
Esse comportamento imprevisto é uma propriedade constante de todos os tipos de matéria e é compartilhado até mesmo por dispositivos de medição ópticos e elétricos. Assim, não há discrepância na aplicação dos métodos usuais de medição - A discrepância ocorre quando mudamos o movimento padrão dos aparelhos de medição, por ex. quando comparamos comprimentos e distâncias medidos por observadores terrestres com aqueles que seriam medidos por observadores em um planeta com velocidade diferente. 
Eddington chama os comprimentos medidos que contêm esta discrepância de “comprimentos fictícios”. De acordo com o esquema newtoniano, o comprimento é definido e único; e cada observador deve aplicar correções (dependentes de seu movimento) para reduzir seus comprimentos fictícios ao comprimento newtoniano único. Mas a isso há duas objeções. As correções para reduzir ao comprimento newtoniano são indeterminadas; conhecemos as correções necessárias para reduzir nossos próprios comprimentos fictícios àqueles medidos por um observador com qualquer outro movimento prescrito, mas não há critério para decidir qual sistema é o pretendido no esquema newtoniano. Em segundo lugar, toda a física atual tem sido baseada em comprimentos medidos por observadores terrestres sem essa correção, de modo que, embora suas afirmações se refiram ostensivamente a comprimentos newtonianos, na verdade foram provadas para comprimentos fictícios. 
Somando-se os fatos trazidos pela contração de Fitzgerald com a ausência de uma moldura de espaço que sirva como referência única para medições científicas ou que sirva como entendimento absoluto sobre a realidade a nossa volta, descobrimos que não há garantia de que nossos métodos não estejam sujeitos a um tipo sistemático de erro. Pior ainda, não sabemos se o erro ocorre ou não, e há muitos motivos para presumir que é impossível saber. 

Princípio de Einstein: Não há só um referencial de espaço 
E assim a posição da teoria de Einstein é que a questão de um único referencial correto do espaço não surge. Há um referencial do espaço relativo a um observador terrestre, outro referencial relativo aos "observadores nebulares" (por exemplo), outro relativo a outras estrelas. As molduras do espaço são relativas. Distâncias, comprimentos, volumes – todas as quantidades de cálculo de espaço que pertencem aos quadros – são igualmente relativos. Uma distância calculada por um observador em uma estrela é tão boa quanto a distância calculada por um observador em outra estrela. Não devemos esperar que eles concordem; o primeiro é uma distância relativa a um quadro, o outro é uma distância relativa a outro quadro. A distância absoluta, não relativa a algum quadro especial, não tem sentido. 
O próximo ponto a observar é que as outras quantidades da física acompanham a estrutura do espaço, de modo que também são relativas. Você deve ter visto uma daquelas tabelas de “dimensões” de grandezas físicas mostrando como todas elas estão relacionadas ao cálculo de comprimento, tempo e massa. Se você altera o cálculo do comprimento, altera o cálculo de outras quantidades físicas. Considere um corpo eletricamente carregado em repouso na Terra. Como está em repouso, gera um campo elétrico, mas nenhum campo magnético. Mas para o físico nebular é um corpo carregado movendo-se a 1000 milhas por segundo. Uma carga em movimento constitui uma corrente elétrica que, de acordo com as leis do eletromagnetismo, dá origem a um campo magnético. Como pode o mesmo corpo dar e não dar um campo magnético? Na teoria clássica teríamos que explicar um desses resultados como uma ilusão. (Não há dificuldade em fazer isso; apenas não há nada que indique qual dos dois resultados é o que deve ser explicado.) Na teoria da relatividade, ambos os resultados são aceitos. Os campos magnéticos são relativos. Não há campo magnético em relação ao referencial terrestre do espaço; existe um campo magnético em relação à estrutura nebular do espaço. O físico nebular detectará devidamente o campo magnético com seus instrumentos, embora nossos instrumentos não mostrem campo magnético. Isso porque ele usa instrumentos parados em seu planeta e nós usamos instrumentos parados no nosso; ou pelo menos corrigimos nossas observações de acordo com as indicações dos instrumentos em repouso em nossos respectivos referenciais de espaço. 
Existe realmente um campo magnético ou não? Existe uma especificação do campo relativa a um planeta, outra relativa a outro. Não há especificação absoluta. 
É um erro comum supor que a teoria da relatividade de Einstein afirma que tudo é relativo. Na verdade, diz: “Existem coisas absolutas no mundo, mas você deve procurá-las profundamente. As coisas que primeiro se apresentam ao seu conhecimento são, em sua maioria, relativas.” 
Em seguida Eddington explica a distinção entre quantidades absolutas e relativas. Por exemplo, ao contar uma determinada quantidade de pessoas dentro de uma sala, o número (de indivíduos discretos) é absoluto. É o resultado da contagem, e a contagem é uma operação absoluta. Se dois homens contam o número de pessoas nesta sala e chegam a resultados diferentes, um deles deve estar errado. 
A medição da distância não é uma operação absoluta. É possível que dois homens meçam a mesma distância e cheguem a resultados diferentes e, no entanto, nenhum deles esteja errado. 
"Talvez você sinta um alívio ao se apossar de algo absoluto e deseje segui-lo. Excelente. Mas lembre-se de que isso o afastará do esquema clássico da física, que escolheu as distâncias relativas para construir. A busca do absoluto leva ao mundo quadridimensional." 
 Um exemplo mais familiar de quantidade relativa é a “direção” de um objeto. Há uma direção de Cambridge em relação a Edimburgo e outra em relação a Londres, e assim por diante. Nunca nos ocorre pensar nisso como uma discrepância, ou supor que deve haver alguma direção de Cambridge (atualmente indetectável) que seja absoluta. A ideia de que deve haver uma distância absoluta entre dois pontos contém o mesmo tipo de falácia. Existe, é claro, uma diferença de detalhe; a direção relativa acima mencionada é relativa a uma posição particular do observador, enquanto a distância relativa é relativa a uma velocidade particular do observador. Podemos mudar de posição livremente e assim introduzir grandes mudanças de direção relativa; mas não podemos mudar a velocidade apreciavelmente - as 300 milhas por hora atingíveis por nossos dispositivos mais rápidos são insignificantes demais para serem contadas. Consequentemente, a relatividade da distância não é uma questão de experiência comum como a relatividade da direção. É por isso que infelizmente temos uma impressão enraizada em nossas mentes de que a distância deve ser absoluta. 
Se concebemos o mundo físico como intrinsecamente constituído por essas distâncias, forças e massas que agora são vistas como tendo referência apenas ao nosso próprio referencial espacial, estaremos longe de uma compreensão adequada da natureza das coisas. 
Eddington conclui sobre as molduras de espaço: Molduras de espaço são um método de partição que consideramos útil para cálculo, mas não desempenham nenhum papel na arquitetura do universo. Sendo assim, teremos que varrer as molduras do espaço antes de podermos ver o plano da Natureza em seu significado real. A natureza mesma não prestou atenção a elas, e elas só podem obscurecer a simplicidade de seu esquema. Não pretendo sugerir que devemos reescrever inteiramente a física, eliminando toda referência aos referenciais de espaço ou quaisquer quantidades referidas a eles; a ciência tem muitas tarefas a cumprir, além de apreender o plano último de estruturação do mundo. Mas se desejamos ter uma visão sobre este último ponto, então o primeiro passo é escapar dos referenciais espaciais irrelevantes. Isso envolverá uma grande mudança em relação às concepções clássicas, e importantes desenvolvimentos seguirão de nossa mudança de atitude. O reconhecimento da relatividade nos leva a buscar uma nova forma de desvendar a complexidade dos fenômenos naturais. 
Eddington ainda utilizava o nome "Éter" em seus estudos e exposições, como nos trechos a seguir: A teoria da relatividade está evidentemente ligada à impossibilidade de detectar a velocidade absoluta; Movimento é mudança de posição em relação a algo; se tentarmos pensar na mudança de posição em relação ao nada, toda a concepção desaparece. Mas isso não resolve completamente o problema físico. Em física, não devemos ser tão escrupulosos quanto ao uso da palavra absoluto. O movimento em relação ao éter ou a qualquer referencial universalmente significativo seria chamado de absoluto. Porém nenhum "quadro etéreo" foi encontrado. Só podemos descobrir o movimento relativo aos marcos materiais espalhados casualmente pelo mundo; 
Isso não significa que o éter foi abolido. Precisamos de um éter. O mundo físico não deve ser analisado em partículas isoladas de matéria ou eletricidade com interespaço sem características. Temos de atribuir tanto caráter ao interespaço quanto às partículas, e na física atual é necessário um grande exército de símbolos para descrever o que está acontecendo no interespaço. Postulamos que o éter carrega as características do interespaço, assim como postulamos que a matéria ou a eletricidade carregam as características das partículas. Talvez um filósofo possa questionar se não é possível admitir apenas os caracteres sem imaginar nada para apoiá-los - eliminando assim o éter e a matéria de uma só vez. Mas isso não vem ao caso. 
No século passado (19), acreditava-se amplamente que o éter era um tipo de matéria, com propriedades como massa, rigidez, movimento, como a matéria comum. Seria difícil dizer quando essa visão morreu. Provavelmente durou mais tempo na Inglaterra do que no continente, mas acho que mesmo aqui deixou de ser a visão ortodoxa alguns anos antes do advento da teoria da relatividade. Logicamente foi abandonado pelos numerosos investigadores do século XIX que consideravam a matéria como vórtices, nós, esguichos, etc., no éter; pois claramente eles não poderiam ter suposto que o éter consistia em vórtices no éter. Mas pode não ser seguro presumir que as autoridades em questão eram lógicas. 
Hoje em dia concorda-se que o éter não é um tipo de matéria. Sendo imaterial, suas propriedades são sui generis. Devemos determiná-los por experimento; e como não temos base para nenhum preconceito, as conclusões experimentais podem ser aceitas sem surpresa ou apreensão. Características como massa e rigidez que encontramos na matéria estarão naturalmente ausentes no éter; mas o éter terá características próprias novas e definidas. Em um oceano material podemos dizer que uma determinada partícula de água que estava aqui há alguns momentos agora está ali; não há afirmação correspondente que possa ser feita sobre o éter. Se você tem pensado no éter de uma forma que dá por certo essa propriedade de identificação permanente de suas partículas, você deve revisar sua concepção de acordo com a evidência moderna. Não podemos encontrar nossa velocidade através do éter; não podemos dizer se o éter agora nesta sala está fluindo pela parede norte ou pela parede sul. A pergunta teria um significado para um oceano material, mas não há razão para esperar que tenha um significado para o oceano imaterial do éter. Em outro texto sobre as estrelas, Eddingtom afirma: “Na verdade, é razoável dizer que o fluxo de energia radiante é um vento; pois embora as ondas de éter não sejam usualmente consideradas materiais, elas têm as principais propriedades mecânicas da matéria". Cientistas posteriores a Eddington afirmam que ele se referia ao eletromagnetismo quando mencionava o éter, mas neste último trecho, ao explicar que o "fluxo de energia radiante é um vento", ele poderia estar falando do plasma (que era chamado de matéria radiante) e/ ou dos ventos solares? É uma dúvida que certamente pode ser sanada lendo as obras do astrofísico inglês e comparando-as uma com as outras... 
Eddington diz que muitas vezes lhe perguntam se a contração de FitzGerald realmente ocorre. Como no exemplo: É realmente verdade que uma haste em movimento se encurta na direção de seu movimento? 
A resposta não é totalmente simples: Por exemplo, o encurtamento da haste móvel é verdadeiro, mas não é realmente verdadeiro. Não é uma afirmação sobre a realidade (o absoluto), mas é uma afirmação verdadeira sobre as aparências em nosso quadro de referência. 
Um objeto tem diferentes comprimentos em diferentes quadros (molduras) de espaço e qualquer objeto com uma medida "x" poderia ter metade desta medida em algum quadro ou outro. A afirmação de que o comprimento do objeto em elevadíssima velocidade é encurtado, é verdadeira, mas não indica nenhuma peculiaridade especial sobre o objeto; apenas indica que nosso quadro adotado é aquele em que seu comprimento é encurtado. Se não fosse em nosso quadro, teria sido no de outro observador. 
Eddington então conclui: "Talvez você pense que devemos alterar nosso método de manter contas do espaço de modo a fazê-las representarem diretamente as realidades. Isso daria muito trabalho para prover o que, afinal, são transações bastante raras. Mas, de fato, conseguimos atender ao seu desejo. Graças a Minkowski, foi encontrada uma forma de contabilidade que exibe realidades (coisas absolutas) e saldos. Não houve grande pressa em adotá-lo para propósitos comuns porque é um balanço quadridimensional." 
 Frente a multiplicidade de quadros de espaço, cada um tão bom quanto qualquer outro, as ideias clássicas da física necessariamente definidas e únicas, perdem sentido. A solução simples tem sido desistir da ideia de que um deles está certo e os outros são imitações espúrias, e aceitá-los em bloco; de modo que distância, força magnética, aceleração, etc., são quantidades relativas, comparáveis com outras quantidades relativas já conhecidas por nós, como direção ou velocidade. Em geral, isso deixa inalterada a estrutura de nosso conhecimento físico; apenas devemos desistir de certas expectativas quanto ao comportamento dessas quantidades e de certas suposições tácitas baseadas na crença de que são absolutas. Em particular, uma lei da Natureza que parecia simples e apropriada para quantidades absolutas pode ser totalmente inaplicável a quantidades relativas e, portanto, requer alguns ajustes. Embora a estrutura do nosso conhecimento físico não seja muito afetada, a mudança nas concepções subjacentes é radical. Viajamos muito longe do antigo ponto de vista que exigia modelos mecânicos de tudo na Natureza, visto que agora não admitimos nem mesmo uma distância única definida entre dois pontos. A relatividade do esquema atual da física nos convida a pesquisar mais profundamente e encontrar o esquema absoluto subjacente a ela, para que possamos ver o mundo em uma perspectiva mais verdadeira. 

Impactos e Novos Caminhos
Assim, as descobertas de Einstein e Minkowski abrem um horizonte não só na física como também nas ciências em geral, ao romper com as bases filosóficas da física clássica/ newtoniana - Mais precisamente rompeu com o monismo materialista (ou simplesmente materialismo), que serviu de base para toda a corrente principal das ciências desde o final do séc 18 até o início do séc 20. Há quem diga que a teoria quântica não contradiz o materialismo (não anotei o autor, talvez eu corrija esta falta mais tarde), porém este simples argumento já parece contrário ao de Eddington, quando este diz que as descobertas sobre a estrutura dos átomos é um dos maiores abalos na física clássica. 
Enfim, com a "queda da física clássica" mencionada por Eddington, deveriam cair também o reducionismo e o cientificismo. Isto não significa que qualquer afirmação aleatória possa ser considerada ciência e sim que é preciso se ater à epistemologia desta - A fenomenologia por exemplo questionou os pressupostos das ciências clássicas devido ao seu reducionismo claramente relacionado ao materialismo, além de trazer a questão da intencionalidade no método de construção de conhecimento e a importância da ausência (ou suspensão) de pressupostos. Esta suspensão de pressuposto traz a possibilidade de uma construção de conhecimento com menos vieses, possivelmente como Sócrates e Platão buscavam fazer na "Grécia Clássica", através da "presunção da ignorância". 
 Também é preciso repensar velhas negações e ataques aos outros saberes - A ciência não existe para negar ou atacar a filosofia nem as religiões; Cada saber (científico, filosófico, religioso...) tem suas características e funções, que podem ou não apresentar eventuais intersecções entre si. Críticas destrutivas não pertencem originalmente a campo do saber algum - São meras opiniões geralmente motivadas por sentimentos negativos e/ ou por intenções de eliminação, pois um verdadeiro saber, seja científico, filosófico ou religioso, deve fazer críticas construtivas - Não se denuncia algo errado ou nocivo, colocando "nada" em seu lugar, nem colocando algo mais nocivo. Quando Rutherford, Minkowski e Einstein desenvolveram seus estudos e teorias, eles certamente não o fizeram para eliminar teoria alguma, seja científica, filosófica ou religiosa - Eles fizeram buscando conhecimento, certamente com alguma humildade, ou seja, assumindo que não se sabia tudo e que era preciso desvendar mais sobre o universo, sobre a realidade ou até mesmo sobre a existência em si.

Referências:

Tradução de: Eddington, A. S. - The Nature of Physical world; 1948 (Electronic Reproduction 2022); 

https://super.abril.com.br/tecnologia/arthur-stanley-o-pai-das-estrelas-eddington/ acessado em 20/04/2023