sexta-feira, 5 de junho de 2020

Países Mais Populosos X Mortos por Covid-19


Posição
País (ou território dependente)
População
Data
Fonte dos dados sobre pop.
1
1 402 509 320
2020
4 638
2
1 361 865 555
2020
6 024
3
329 634 908
2020
108 664
4

266 911 900
2019
1 770
5
220 892 311
2020
1 838
6

211 482 342
2020
34 021
7
206 139 587
2020
323
8
168 557 578
2020
811
9
146 745 098
2020
5 520
10
126 577 691
2019
12 545
11
125 950 000
2020
916
12
108 584 658
2020
987
13
100 336 647
2020
1 126
14
98 665 000
2019
19
15

96 208 984
2020
0*
16
89 561 404
2020
81
17
83 421 094
2020
8 134
18

83 154 997
2019
4 648
19
83 149 300
2019
8 658
20
67 075 000
2020
29 068
21
66 501 392
2020
58
22
66 435 550
2018
40 344
23

60 238 522
2019
33 774
24

58 775 022
2019
848
25
55 890 747
2019
21

* Vietnã não consta no site da Johns Hopkins, foi usado como fonte o Worldometers.  

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Política não é piada, política é morte


Decidi iniciar este post com a foto do esqueleto da rinoceronte Cacareco, baixada de reportagem do G1. Cacareco foi eleita vereadora por voto de protesto em 1959. Morreu com 8 anos de idade em 1962 (a expectativa de vida de um rinoceronte branco é no mínimo cinco vezes isso).

Eu ia colocar a foto de Cacareco viva mas troquei por esta para enfatizar o título. Política não é morte na verdade, é vida ou morte. Novamente, escolhi morte no título para ser enfático, afinal estamos no meio de uma pandemia que causou no Brasil, em números oficiais, mais de 19000 mortes até este dia 21 de maio de 2020. 19000 em números oficiais, sabemos que é mais que isso. Futuramente poderemos calcular os números de pessoas que morrem anualmente e vai ser muito fácil fazer a conta.

É como se enchêssemos o estádio do Criciúma em Santa Catarina e fizéssemos essas pessoas tomarem veneno e morrer (uma boa analogia dado o novo protocolo sobre Cloroquina). Um estádio lotado de mortos. E não estamos no pico da pandemia ainda.

Essas pessoas tem nome. O pai de uma ex-colega de serviço minha. O jovem colega de um amigo meu da faculdade. A culpa é da doença? Obviamente que sim, mas não só dela. As escolhas que tomamos tem consequências. Outra relação óbvia: quanto mais poder você detém, mais consequências derivam de suas ações.

A pandemia apenas deixou isso escancarado. Quando um presidente fala abobrinhas sobre desinfetantes e luz solar, por sua posição, o impacto é muito maior do que o do seu tio na reunião de família. Esta nem é a parte mais importante do impacto. A parte mais importante são as políticas adotadas.

Cada decisão política adotada incide em vidas afetadas. Cada verba destinada (e sua porcentagem desviada) define curas, doenças, mortes, inanição.

Em 1990, a decisão de bloquear as poupanças teve um impacto enorme na população brasileira. Você pode imaginar o impacto daquilo na saúde mental da população (assunto seríssimo). A neoliberal Isto É, fez uma matéria criticando o evento ao mesmo tempo que tentava defender políticas neoliberais, e citou sem fontes "...mortes, suicídio e desemprego".

O G1 também se dedicou ao assunto no aniversário de 20 anos do Plano Collor ao publicar uma matéria da BBC em março deste ano que cita sem dados estatísticos, com base em relatos, infartos, suicídios e prostituição como consequências daquela política. Ao ler, fica enfatizado o amadorismo e incompetência dos envolvidos (algo escandalosamente visível na equipe de governo de hoje).

Fernando Collor foi o candidato sem sentido apoiado com fervor por todos que tinham pânico de testemunhar Lula presidente (logicamente, qualquer pessoa detentora de poder econômico). Todas as cartas jogadas naquela eleição foram as mesmas jogadas na eleição de Bolsonaro. A diferença é que a eleição de Bolsonaro conseguiu ser mais suja e de violência escancarada. Nada escondeu o discurso fascista durante toda a corrida eleitoral ("metralhar a petralhada", etc.) e os esforços de tirar seu único concorrente da jogada.

O medo de Lula na época (1990) era o principal motivador de apostar em qualquer outra insanidade (como Collor). Medo do comunismo, fruto da propaganda em massa desde a Guerra Fria. Como somos quintal dos E.U.A., a propaganda que vingou aqui foi essa, se fossemos quintal da U.R.S.S., vingaria outra propaganda.

O medo só pôde ser trocado por ódio (ele já existia antes, mas não havia sido disseminado pela imprensa pois faltava um componente) e repulsa quando a podridão do sistema político foi escancarada através do PT. Pessoas muito ingênuas poderiam classificar como coincidência a retomada de uma agenda neoliberal (menos estado, meritocracia, visão empresarial de decisões fiscais na gestão estatal) e a mudança de regras nos leilões do Pré-sal. Outros enxergam como o objetivo por trás de se escancarar as vísceras do sistema político do Brasil capitalista.

Quanto mais essas vísceras são expostas, mais repulsa e indignação influem nas votações. Há um consenso popular de que o brasileiro faz piada de tudo, isso certamente condiz com Cacareco, Tiririca e Enéas. Quando o voto de protesto ocorre em cargos com menos poder, os danos são menores. O maior problema nas votações para esses cargos é na verdade a ignorância e a indiferença. Ignorância por ignorar as atribuições e importância do cargo, bem como o histórico e proposta do candidato. Indiferença derivada da ignorância, "quem manda é prefeito/governador/presidente".

Qual a diferença entre Enéas e Bolsonaro? Com certeza o intelecto conta, algo como comparar um cientista e o macaco que ele usa em testes. Enéas também sempre manteve a coerência em seus discursos nacionalistas, ao contrário da infinidade de atos patéticos de Bolsonaro em relação aos E.U.A. Mas a principal diferença foi a exposição das vísceras citadas anteriormente. O que resultou no PSDB afundando em uma velocidade menor que a do PT, mas ainda sim afundando, e no apoio relutante da parcela menos insana da classe média e alta a Bolsonaro (algo que Enéas nunca teve).

A piada deriva da indiferença. Para você fazer piada com algo que realmente machuca, você tem que ser diferenciado (ou profissional). É muito mais fácil fazer piada com algo que você não se importa. A indiferença deriva de várias coisas. Uma delas é enxergar uma situação em que você não tem controle. Ou enxergar cada vez mais que esse controle é ilusório.

Bem-vindo à democracia representativa capitalista. Bem-vindo também à realidade de um país periférico. A democracia representativa capitalista representa quem? Você. Mas em uma constante queda de braço entre você, obrigado a trabalhar para viver, e daqueles que vivem do seu trabalho (os capitalistas). "Ah, mas sem os capitalistas não haveria emprego!"
"Ah, mas sem a infraestrutura que o capitalista montou, não produziríamos qualquer coisa!"

Não vou entrar nessa discussão, discuta consigo mesmo para ver se consegue se convencer do contrário (é um ótimo exercício). Indiferente a essa discussão, a queda de braço ainda existe, os interesses não são os mesmos. Isso é o que os comunistas chamam de luta de classes, mas é irrelevante levantar o conceito agora. Essa queda de braço em quem vai ser representado pelo político é uma disputa muito simples: dinheiro X organização de pessoas.

Organizações de pessoas procuram fazer 'propaganda' do que você quer, como cidadão trabalhador, e de que é possível atingir objetivos lutando por seus direitos.

Dá muito trabalho. Estamos em uma democracia representativa, por que além de escolher meu representante eu ainda tenho que lutar para que ele faça que eu quero? Porque você não tem dinheiro. Essa é a parte 'capitalista' da democracia representativa.

A realidade de um país periférico é ainda pior. Os representantes que você escolheu e ainda tem que lutar para que eles façam o que interessa para você, são derrubados (são 114 até hoje). Nós estamos discutindo aqui os limites da democracia representativa e a importância da política, mas boa parte desses países entram em ditaduras.

Mas pense, para o indivíduo que já diz 'e daí?' na hora de votar, muitas vezes é até cômodo dentro da mente preguiçosa dessa pessoa, imaginar os benefícios de uma ditadura militar: "Eu não vou ter que votar mais, não adiantava nada mesmo. E os militares devem ser organizados, por causa da hierarquia e tal."

Nem vou entrar no âmbito do mito que militar não é corrupto, porque é patético. Eu já ouvi essas ideias sobre a ditadura ser uma opção, verbalizadas por colegas meus, então não se trata de fantasia minha.

Se os impactos de políticas tomadas em democracias representativas já causam mortes com toda contestação possível dentro de uma sociedade 'livre' (imprensa, processos jurídicos movidos por MP e organizações sociais, etc.), imagine em uma ditadura.

Eu, sinceramente, não consigo entender como alguém acredita que outra pessoa possa tomar uma decisão em seu lugar de forma arbitrária. É isso o que acontece em uma ditadura: decisão tomada, cale a boca (o "cala a boca" já está na moda novamente).

Toda essa quantidade inútil de palavras que escrevi até aqui foi para enfatizar que política e voto não são piada. Enquanto piadas são feitas e votos são queimados, pessoas morrem. Não se trata aqui da lei natural, porque uma vez que passamos a controlar parcialmente a lei natural, é nossa responsabilidade prezar pela maior quantidade de vidas possível (se descobrimos curas, por que deixar pessoas morrerem? Se produzimos comida suficiente, por que deixar pessoas morrerem de fome? Se conhecemos as áreas de risco da natureza, por que deixar pessoas em risco?).

Sim, a democracia representativa capitalista é extremamente limitada, mas dar as costas a vidas humanas até em um ato de mínimo esforço, que é votar na opção menos ruim, é uma falta de responsabilidade. Não é porque canalhice e falta de responsabilidade abundam que devemos abandonar até mesmo nossos esforços mínimos.

Enquanto esse sistema falho, onde os representantes são guiados por lobistas e ganância, não é derrubado, a responsabilidade cai em nossas mãos na forma de organização e voto. O voto é a parte mais fácil dela. Você pode manter a esperança de que a tecnologia chegue ao ponto de nos proporcionar uma democracia participativa ou mesmo que organizações sociais tomem o poder, ou não manter esperança alguma. Ainda assim, a responsabilidade cai sobre nós.


Termino o texto invertendo totalmente o propósito da frase do conservador Edmund Burke,
uma citação bem conhecida, e com certeza, usada por muita gente canalha, mas aqui, a visão do mal triunfar é clara: o dinheiro fica acima das vidas humanas.

"Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados."

Se a frase é criada com propósito torpe, ela pode ser tomada, assim como tudo o que foi construído, e dirigida para um propósito mais nobre.

sábado, 18 de abril de 2020

A Corrosão Social persiste através das Eras?



Estive estudando o conceito da Pós Modernidade e após ver a nova “crise” social e econômica que está acontecendo durante esta pandemia, decidi escrever este texto…

Modernidade e Pós Modernidade são conceitos da sociologia. Pode-se dizer que são movimentos culturais e classificações de comportamentos gerais das sociedades. É uma idéia um tanto ocidental, é claro, tendo em vista que a modernidade surgiu gradualmente após os movimentos humanistas e iluministas da Europa de séculos atrás.
A modernidade ganhou força e forma com o surgimento de repúblicas (França e EUA por exemplo) e com a revolução industrial: Foi um período marcado por uma suposta propagação da racionalidade e pela idéia que o homem era o “centro do universo”. Portanto considerava-se que o ser humano tinha alcançado o ápice da evolução (racional, moral e cultural) ou, ao menos, que o ser humano estava próximo de construir uma utopia. Estas idéias sofrem seus primeiros abalos com o desenvolvimento das ciências biológicas e psicológicas (Darwin e Freud causaram algum impacto) e os últimos abalos com as crises econômicas e sociais: a 1ª Guerra Mundial, as crises entre as guerras, e por fim, a devastadora 2ª Guerra Mundial. Genocídios, países arruinados e armamentos de destruição em massa acabaram com boa parte do orgulho e dos sonhos de muitos seres humanos.

Mas o período seguinte, a Pós Modernidade, não se iniciou imediatamente após 1945. Autores parecem divididos em propor um início para este período: Alguns acham que a Pós Modernidade surge durante os anos 60, quando ocorreram movimentos estudantis e sociais questionando as guerras, as potências imperialistas etc. Outros afirmam que ela só ganha força e forma entre os meados dos anos 80 e o início dos anos 90: Uma época em que um aparente clamor por liberdade (diretas já no Brasil, colapso do socialismo europeu e asiático etc) daria cria às sociedades mais efêmeras. Tudo isto tem suas controvérsias, mas o que há de comum nos períodos propostos para o surgimento da Pós Modernidade é a perda da segurança por uma vaga aquisição de liberdade.
Por que vaga? Simples: Grande parte da pós modernidade é tomada pelo aumento do consumismo e da desigualdade social seja em escala menor ou maior. Será que o consumismo é um movimento da natureza, como o vento, as chuvas, os terremotos…? Será que a desigualdade marcada por cada vez menos pessoas com mais bens e mais pessoas caindo na miséria é uma consequência de forças da natureza?

Não, claro que não. Pessoas sem empatia, fascinadas pela riqueza alheia ou egoístas enriquecidos ainda podem não atribuir estes problemas à natureza e sim a uma suposta consequência “justa” de relações comerciais e de trabalho (à sociedade e/ou à economia). Só que se tratando de sociologia, estamos falando dos comportamentos e gostos das massas, não de poucos indivíduos repletos de poder (seja econômico, político etc). Afirmar que o consumismo foi puramente o desejo das massas é de uma simplicidade ridícula ou de uma malícia repulsiva. O consumismo de fato está pouco se importando com os representantes da população (políticos) de qualquer país: Quem prega esse movimento são empresários, e não são os “pequenos”, são os que mais têm. Os que mais tem dinheiro, mais influência comercial, midiática e até mesmo, mais influência política, seja através de lobbies, de financiamento de campanha eleitoral ou até de propinas.
E quem prega a desigualdade social? Em tempos de mentiras pandêmicas, há quem diga que simplesmente são os vagabundos que ficam pobres e os trabalhadores que ficam ricos. A verdade é que a mesma turma que promove o consumismo, promove a desigualdade, independentemente se isto faz sentido ou não. E desigualdade social é algo muito distante de liberdade. Na verdade é praticamente o contrário: Quem tem mais quer mais e vai cobrar de quem tem menos. Simples assim. Mas a Pós Modernidade é só isso?

Bom… outras características da Pós Modernidade são: relacionamentos rápidos e mais superficiais (“amor líquido” citado por Bauman por exemplo) e narrativas mais importantes do que os fatos. Ninguém seria capaz de propor estas ideias às sociedades? Seriam todas de iniciativa da maioria?
Provavelmente não: A valorização da narrativa e desvalorização dos fatos parece coisa atual, da “era da internet”, mas começou com as mídias “de massa” como jornais, rádio e principalmente com a televisão. E programas televisivos não só foram sensacionalistas muitas vezes, como também venderam (ou propuseram) padrões de comportamento, estilos muitas vezes baseados em consumismo, elitismo, racismo e sexismo/ machismo. Alguém poderia perguntar porque eles fariam isso? Não seria uma crítica exagerada à televisão, a indústria cinematográfica e aos comerciais feitos em qualquer mídia?

Não é exagero algum, é lógica: Se existem classes mais dominantes e classes menos dominantes, é óbvio que aquelas no topo da “cadeia socioeconômica” possuem mais recursos para influenciar os demais: Possuem mais dinheiro, portanto precisam trabalhar menos (ou nada) tendo mais tempo para influenciar outros setores da sociedade e às vezes também possuem mais poder político, influência religiosa ou até mesmo militar. São essas classes dominantes que venderam por ao menos 50 anos, até o acesso à internet crescer significativamente em meados dos anos 2000, ideais de consumo, grande parte dos modelos de atitude, comportamento etc.
Neste período dos anos 60 do século XX até pouco antes da década de 10 do século XXI, tivemos sim a aparição da diversidade e até uma vaga liberdade. Mas não é porque a diversidade e a liberdade (ainda que muito tímida e vaga) sejam apreciáveis que precisamos fingir que não existem sérios problemas em nossa sociedade.

Hoje em dia, após a expansão da internet vivemos a intensificação da “pós verdade” (o tal desprezo pelos fatos), propagação de mentiras (fake news), favorecimento de quem paga mais por anúncios e espaços e perda de direitos e de infraestrutura…
Porém um dos mais novos perigos é o vírus Covid-19, que por causa de suas características, desencadeou uma pandemia, forçando vários governos pelo mundo a tomar atitudes como a quarentena visando redução do contato social e diminuição ou controle do contágio. Só que os governos pós modernos (ou talvez pós pós modernos) em sua maioria estão fragilizados. São meros intermediários entre as classes dominantes de acionistas/ mega empresários multimilionários, muitas vezes não tendo recursos nem estrutura para combater a pandemia. E sendo intermediários dos setores empresariais mais abastados, os governos nada fazem diante demissões em massa, condições cada vez mais precárias de trabalho e aumento da desigualdade social... Na verdade, independente em que era estamos, o perigo continua à espreita, pois classes dominantes se reinventam, seja com ou sem alternância, elas continuam a existir e seria mais tranquilizador, se seus representantes desenvolvessem mais sensibilidade, afinal evoluir não é só usar a mente (seja na forma de racionalidade ou de apelos às crenças e sentimentos superficiais dos outros) para enriquecer, evoluir é buscar entender o todo (seja a sociedade, o mundo ou o universo) e confiar em alguém além de si mesmo. Isto aparece na biologia quando os répteis deixam de ser a classe filogenética dominante na Terra no final do Período Cretáceo, dando espaço aos animais que cuidavam de seus filhotes, e que muitas vezes vivem em grupos, os tais dos mamíferos.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Política Brasileira de 2013 à 2020 para (quase) Leigos



1. Bipolarização; Uma invenção de quem influencia o povo.

Desde 2013, após a moda dos “flash mob” seguida pelas manifestações, espalhou-se a ideia de uma suposta (bi)polarização da política. Em grande parte isso não passou de boataria, pois a relação entre poderosos do setor privado e do setor público pouco mudou desde estes eventos. O que ocorreu foi uma digitalização das discussões e uma aceleração da propagação de boatos e difamações que se mesclou às notícias pela internet. A nível de pequenos grupos obviamente aconteceram algumas “bipolarizações”, mas vamos ao histórico político do Brasil:
A candidata Dilma Rousseff do PT ganhou as eleições de 2014 por uma margem apertada sobre Aécio Neves do PSDB; Neste momento a “digitalização” das discussões políticas já havia crescido e talvez boa parte da população brasileira até estivesse aparentemente “bipolarizada”, ou seja, dividida em duas supostas ideologias (a esquerda do suposto socialismo e a direita do liberalismo) ou em dois partidos (PT vs PSDB). A maioria dos eleitores de Aécio (PSDB) se dizia indignada com a corrupção (do PT) ou pedia “alternância” no poder porque o PT estava na presidência do Brasil desde 2002. Porém, quando Dilma se reelegeu, ela não só continuou com seus acordos políticos (com o PMDB, por exemplo), como tentou agradar sua oposição: A direita composta principalmente pelos grandes empresários.
Suas tentativas se mostraram insuficientes para agradar os opositores e políticos do PMDB, por exemplo, exigiam que ela seguisse uma agenda mais liberal (“a Ponte para o Futuro”) ou seja, mais à direita, mais privatizações, menos investimentos sociais nos trabalhadores e aposentados e menos verbas para infraestrutura do país. A velha desculpa que isso resolveria o problema da recessão econômica, incentivando investimentos de grandes empresas… As grandes empresas que mal foram atingidas pela tal recessão econômica, como por exemplo os bancos privados Bradesco e Itaú que atingiam lucros crescentes ano após ano, sem interrupções.
Aécio então diz publicamente que não deixaria Dilma governar, enquanto Romero Jucá, político do PMDB, diz em ligação com o empresário Sérgio Machado da Transpetro, que era preciso um “acordão” para remover Dilma da presidência e parar todas investigações. E assim aconteceu. Dilma sofreu o processo de “impedimento” e foi afastada sendo sucedida pelo vice presidente Michel Temer do PMDB. O processo foi repleto de cenas peculiares como gritos evangélicos fervorosos e até um elogio a um militar torturador condenado…

2. Esconde-se a Crise Política, mas não a Recessão Econômica

Com Temer do PMDB na presidência, começou-se o abandono dos investimentos sociais e de infraestrutura. A educação, saúde e segurança públicas (que foram "criticadas" em manifestações por serem insuficientes) passaram a ser gradativamente deixadas em segundo plano diante benefícios fiscais e privatizações. A recessão econômica que se intensificou sob este governo "PMDBista" gerou o medo do desemprego e da pobreza na população.
Em algumas regiões do Brasil, aumentou-se também o medo da violência e do surto de criminalidade (como as que ocorreram durante as greves das polícias em variados estados etc). E medo é um sentimento bem utilizado por poderosos manipuladores, sejam eles ditadores políticos, religiosos, militares ou grandes empresários lobistas.

3. O Governo do Medo e da Ignorância

Portanto o dualismo partidário caiu por terra em 2018, mostrando a farsa da (bi) polaridade política. Mesmo porque PT e PSDB não são idênticos, mas também não são tão diferentes entre si: Ideologicamente o 1º partido é de centro-esquerda e o 2º, de centro-direita. Foi aí que o discurso anti política se intensificou.
O brasileiro nunca confiou muito em seus representantes, afinal sempre escutou-se que o Brasil é um país de corruptos. Então o candidato Jair Bolsonaro se aproveitou da onda anti-política e dos medos da população, apresentando-se como candidato, mas com a imagem de “capitão”, cargo que ele havia deixado em 1988. A verdade é que Bolsonaro tinha entrado na política em 1989 e de 1991 a 2018 ocupou o cargo político de deputado no Rio de Janeiro. Como a propaganda, as notícias e toda boataria em torno da política já se propagava em grande parte pelas redes sociais da internet, o candidato apoiado por discursos agressivos e falsas acusações sobre seus adversários, ganhou as eleições de 2018. Foi fácil associar o medo da criminalidade com os tabus sociais, principalmente de setores conservadores e de setores religiosos da sociedade. Foi assim que teorias sem fundamento como “conspiração comunista”, “ditadura gayzista” e “direitos humanos serve para proteger bandido” ganharam apoio de significante parte destes setores da população.
Assim é possível concluir que as eleições de 2018 já não tinham mais a tal bipolaridade anterior: Era uma disputa dos conscientes contra os inconscientes. O discurso do vencedor não teve conteúdo: Foi uma série de acusações paranóicas, discursos de segregação/ ódio e ignorância sócio-histórica. Seus eleitores são pessoas fascinadas por personagens “durões”, racistas, homofóbicos ou, em grande parte, são simplesmente pessoas que não sabem da história nem das condições de seu próprio país como um todo.
Portanto, a maior parte da idéia de bipolaridade foi apoiada em notícias enviesadas a favor do enriquecimentos de grandes empresas ou em mero sensacionalismo. A maioria da população do Brasil não tem conhecimento nem discernimento para escolher duas ideologias contrárias entre si. Na verdade nem sabem que tais ideologias (já antigas) tiveram suas origens durante o iluminismo / a Revolução Francesa na Europa do século 18.